Em meio à noite tranquila em Camelot, Merlin acordou de súbito, encharcado de suor. A imagem de Aithusa vinha à sua mente, como se algo de terrível tivesse acontecido.

Pulou da cama, trocou-se o mais rápido que conseguiu e saiu do quarto. Gaius dormia no cômodo maior de sua casa e o mago se esgueirou, como nos tempos de rapaz, até a porta de saída.

Silencioso, desceu as escadas escuras sem o auxílio de nenhuma iluminação. Na metade, alguém se chocou contra ele e os dois tropeçaram, caindo dos últimos degraus abaixo.

Bern, que ainda não havia subido as escadas, aprontou-se para ajudar o seu senhor a se levantar:

—Tudo bem, senhor?

—Cale a boca, Bern! —respondeu, irritadiço pela confusão.

Merlin se levantou:

—O que vocês estão fazendo aqui?

—Arthur queria falar com você, Merlin. Porque ele acha que os magos não dormem.

—O que? —espantou-se.

—Cale a boca, Bern. Não me faça parecer estúpido! Não é nada disso, Merlin. Eu decidi passar na sua casa para ver se, por acaso, não estaria acordado.

—Certo, bem, eu estou acordado. Satisfeitos? Já podem voltar para o castelo—apressou-se, querendo se livrar dos dois.

—Merlin, Arthur quer te pedir uma coisa!

—Bern, quantas vezes eu vou ter que te dizer para calar a boca? Merlin, onde está indo?

—Preciso sair do reino. Mas, estou de volta amanhã—disse sem certeza nenhuma. Apressando o passo para os estábulos—Podemos conversar amanhã?

—Alguma coisa aconteceu, não foi? —percebeu o tom de urgência nas atitudes do mago.

Ele afirmou.

—Ótimo, então vamos resolver isso e no caminho conversamos—decidiu o príncipe, montando num dos cavalos. Bern se desesperou para apanhar os suprimentos de emergência que ali mesmo estavam e colocar em seu cavalo.

—De jeito nenhum! Volte para o castelo!

—Eu sou o príncipe! Eu decido aonde vou!

—Ótimo, eu vou gritar e logo teremos vários cavaleiros aqui para te impedir.

—Você não vai fazer isso.

—Não? —perguntou, estranhando a afronta de Arthur.

—Não! Porque isso levantará perguntas. E então minha mãe descobrirá que eu possuo magia.

—Já percebeu que não é problema ela saber disso.

—E também já percebi que você me acobertou e não contou para ela. Vai me ajudar a esconder o meu segredo até que eu esteja pronto para revelar a ela!

Era verdade. Desde o primeiro momento que soube sobre Arthur, Merlin o acobertou. E, naquele breve momento de indecisão do mago, o jovem príncipe correu com o seu cavalo para a saída do reino, sem dar chances dos guardas o impedirem. Merlin e Bern, sem escolha, lançaram-se a seguir o rapaz.

.o.

—Eu disse que magos também dormiam—cochichou Bern para Arthur, quando Merlin deu o quinto bocejo de sono. O servo teve que lidar com o olhar de repreensão do príncipe por aquele comentário indevido e tentou desviar o assunto, perguntando a Merlin que cavalgava a frente:

—Para onde estamos indo?

—A um santuário. Preciso verificar algo.

—É sobre Morgana? —arriscou Arthur.

—Eu espero que não.

Saíram da estrada e Merlin iniciou um caminho que só ele seria capaz de conhecer: fixando seu olhar, enxergava quilômetro à frente e construía o trajeto até o local sagrado. Arthur pôde sentir o poder de Merlin a cada investida mágica.

—O que você está fazendo?

—Eu posso ver o trajeto até onde eu quero.

—Inteiro?!

O mago riu pelo espanto do rapaz:

—Hoje em dia sim. Porque não tenta?

—E que feitiço eu tenho que dizer?

—Eu nunca fiz nenhum... Apenas tente.

Arthur olhou para frente e se esforçou. Mas, não era capaz de prever nem o que havia após as árvores mais próximas que se seguiam. Olhou para trás: talvez tivesse que conhecer o destino para dar certo. Nada.

—Como você faz isso? Não está dando certo.

Merlin pareceu pensar sobre aquilo. Simplesmente era capaz de fazer... Nunca houve uma lição especial para aquilo. Querendo ajudar o rapaz, disse a única coisa que foi capaz de cogitar:

—Com as coisas que são mágicas, às vezes nós precisamos encontrar uma voz em comum.

—Uma voz em comum?

—Uma vez me disseram que a mágica, sendo algo que existe livre no mundo, possui voz própria. Talvez você seja capaz de encontrar uma voz que vocês dois compartilhem. Então, talvez você consiga descobrir o feitiço.

Arthur o olhou intrigado. Ele próprio precisava de um feitiço, mas Merlin não. Era como se a magia do mundo se dobrasse diante do mago. Desejou ser tão poderoso como ele.

—E quem foi que te disse isso?

—Meu pai.

—Ele era um mago também?!

—De certo tipo... —respondeu, mas logo cortou: —Se eu fosse você começaria a praticar agora.

—Ah... Certo! —concordou o rapaz.

No início Bern achou apenas esquisito. Ambos falavam de um mundo que ele não era capaz de enxergar. Quando, depois de quase duas horas, Arthur parecia olhar para todas as direções ao mesmo tempo enquanto cavalgava, finalmente, Bern achou toda aquela história quase uma loucura.

Merlin lançou, uma ou duas vezes, um olhar de compaixão para o príncipe. Lembrou-se de quantas vezes se esforçara para aprender feitiços, quase sempre para salvar a vida do rei. Desejou que o caminho do jovem Arthur não fosse tão difícil quanto o dele.

—Esperem! —exclamou Arthur, seu olhar fixo no nada brilhou num tom alaranjado quando observou à sua direita: — Tem alguém precisando de ajuda! —completou, fazendo seu cavalo mudar de direção e aumentando a velocidade.

O mago olhou no sentido em que o rapaz vira o perigo, mas não parecia haver nada além da floresta. Não disse nada e seguiu, junto com o servo, Arthur.

Não demorou para que o príncipe parasse se cavalo e descesse dele. Correu rapidamente para dentro de uma gruta.

Merlin percebeu assim que passou pela pequena passagem. Alguém no fundo da pequena câmara se encolhia, assustada.

—Nós vamos te ajudar! —disse o príncipe se aproximando, mas a mulher se encolheu ainda mais, cheia de medo.

Ela usava roupas claras manchadas pela sujeira da gruta e de sangue. Muito sangue. Merlin tomou à frente:

—Eu sou um curandeiro, vou me aproximar de você—avisou, dando passos lentos até ela.

A mulher levantou o seu olhar quando ouviu aquela voz. Todos se surpreenderam: a pessoa magra de cabelos brancos e longos não era uma idosa, mas uma jovem. Uma jovem albina de olhos azuis-claros e de feições delicadas e belas. A falta de pigmentação em sua pele não escondia o fato de sua palidez pela perda de sangue: sua garganta estava cortada e ela tentava reter o sangue do seu corpo pressionando-o com suas mãos.

Merlin afastou as mãos dela com cuidado e tocou seu pescoço:

Ic þe þurhhæle þin licsare mid þam sundorcræftas þære ealdaþ æ!

A mulher tocou o pescoço, não havia mais nenhum ferimento nele. Sorriu em gratidão para o mago.

—Quem fez isso com você? —perguntou Arthur.

Ela, mesmo sentada, deu um pulo para traz e se encolheu, tentando se proteger. Merlin fez um sinal impaciente para o príncipe e se aproximou mais uma vez dela:

—Ninguém vai te fazer mal. Vamos te tirar daqui, ok? Vou te levar para um lugar mais seguro.

Mesmo assustada, ela o encarou com confiança e afirmou com a cabeça. Tentou se levantar, mesmo que o mago tivesse feito menção de pegá-la no colo, mas cambaleou e desmaiou pela falta de sangue.

.o.

—Então era aqui que você dormia—comentou Arthur, quando chegaram de volta à Camelot durante a noite.

Entraram escondidos no reino e conseguiram levar a moça até Gaius. Como não queriam que alguém a visse, colocaram-na no antigo quarto de Merlin.

Ela tivera uma febre leve e algo parecia a incomodar durante o seu sono. Mas, tanto Merlin quanto Gaius constataram: sua saúde física era agora perfeita. A magia de Merlin curara-a de qualquer ferimento pelo qual estivesse sofrendo.

—O meu pai veio aqui alguma vez?

O mago afirmou, silencioso.

—O que é isso? Um brinquedo? —perguntou o príncipe, tomando em mãos o pequeno dragão esculpido em pedra.

—Vamos sair daqui, ela precisa descansar—disse num tom de repreensão à tagarelice do rapaz.

Bern foi o primeiro a sair do quarto: sonolento, só queria saber de ser dispensado para poder dormir. Arthur colocou o dragãozinho de volta no lugar e saiu. Merlin puxava a porta quando ouviu um baixo murmúrio, olhou para dentro do quarto e olhos ansiosos requisitavam que voltasse:

—Voltem para o castelo. É melhor eu ficar com ela, caso algo aconteça—disse em baixo tom, na sala era Gaius que dormia.

—Merlin, e o santuário?

—Terá que ficar para outra hora.

—Mas, o que você queri...?

—Vão. É tarde. Depois conversamos.

O rapaz afirmou e puxou Bern, que já quase dormia em pé, para que o acompanhasse para fora da casa.

O mago voltou para dentro do quarto e encostou a porta. Sentou-se ao lado dela e perguntou o mais suavemente que pôde:

—Como se sente?

Ela entreabriu os lábios para falar, mas não saiu som algum. Apenas afirmou para mostrar que se sentia bem.

—Você não consegue falar? —estranhou, sua magia curara tudo.

Tentou novamente e um som tímido saiu de sua garganta.

—Qual o seu nome? Você consegue me dizer o seu nome?

—Lu... —começou ela, com a voz um pouco rouca. —Lumière.

Ele pegou o copo de água que descansava na cabeceira e a fez beber. Mais confortável, ela continuou:

—Lumière du Soleil.

—Eu me chamou Merlin. Trouxe você para Camelot. Estará segura aqui. De onde você é?

—Eu... não me lembro.

—Certo. Descanse agora—disse ele, se levantando, mas ela segurou o seu braço.

—Espere! Eu estava fugindo. Eu estive presa. Eu estive presa e estava fugindo—repetiu, tentando organizar suas ideias.

—Porque você estava presa?

—Eles falavam numa língua estranha. Chamavam-me de Lumière du Soleil. Meu nome. Lá tudo era estranho. Escuro. Frio. Muito barulho! Tinha muito barulho—relatava, começando a se sentar, encolhendo-se junto à cabeceira. —Tinha dor. Eu me lembro da dor—seus olhos se desligaram dos dele e ela fitou a parede de frente, imersa na lembrança: —E antes da dor não havia eu. Eu não havia. Havia liberdade, mas, eu não nasci lá, mesmo tendo nascido. Surgi na dor: foi quando tudo apareceu. Havia correntes e eles me prenderam. Eles cantaram e tudo ficou quente, mas não era bom, porque queimava. —a mão dela em seu braço, mesmo trêmula, começou a apertá-lo mais, como se buscasse proteção. —E queimava e queimava e queimava. E tudo ficava escuro e frio de novo. E eu não podia fugir: "Lumière, se você fugir você vai morrer. Você pode, mas..." — ela levou a mão livre até o pescoço. —"Sua voz vai te abandonar e uma dor mortal você vai conhecer", foi quando me avisaram. Sim, me avisaram. Mas eu não conseguia mais ficar lá. Eu queria viver como antes. Eu sonhava em sentir o vento! Antes do existir. Antes de ser. Mas, eu não me lembro. Eu não me lembro do antes! —seus cílios brancos se encharcaram pelas lágrimas descontroladas de medo. —O que é: eu, o escuro, o frio e a dor. E o fogo que queimava e queimava e queimava e a dor e o frio e a dor, o escuro, a dor...

Ele tocou o seu rosto quente. O estado febril passageiro tornou-se uma febre alta. Tentou fazê-la deitar novamente, mas ela só queria se encolher naquele canto:

—O rapaz loiro tem um sangue ruim. O sangue da malícia e maldade. Ele não é bom. Não é bom!

—Está tudo bem agora. Eu vou te ajudar. Ninguém mais vai te machucar.

—Merlin—disse ela: —Eu nunca ouvi o nome de alguém. Só o meu. Merlin. Muito prazer Merlin. Merlin. Merlin. Merlin...

Ele a inclinou para trás e a fez deitar.

Swefe nu —ele murmurou e ela adormeceu.