Capítulo VIII
Do andar de cima, Rony podia ouvir, se prestasse atenção, o ruído da furadeira no térreo. Ouvia também o rumor abafado das marteladas e das lixadeiras no quarto de Hermione.
Iria ficar muito bonito, concluiu. O apartamento perfeito para uma mulher solteira ou um casal sem filhos. Um pouco apertado para mais de duas pessoas, pensou.
E ficou ali parado, olhando o vazio.
Você vai se casar com Hermione? Por que Hugo tivera de jogar a idéia na sua cabeça? Tirara toda a leveza da situação. Não estava pensando em casamento, raciocinou. Não podia dar-se a esse luxo. Tinha um filho pequeno e seu negócio estava apenas começando. Além do mais, possuía uma casa mal-acabada e que precisava de muitos reparos. Não era o momento de começar a pensar em acrescentar mais uma pessoa no cenário familiar. Já mergulhara em situação semelhante no passado. Não se arrependera, mas precisava admitir que fora uma época terrível para todos os envolvidos. Para que fazer tudo de novo se havia tanto ainda a ser resolvido em sua vida?
Concluiu que seria procurar encrenca na certa.
Além do mais, Hermione não estava à procura de casamento, claro que não. Mal se instalara na cidade. Tinha a escola para administrar.
Falava francês, visitara a França, Inglaterra e Rússia, e talvez pretendesse voltar. Por que não? E ele estava ancorado na Virgínia Ocidental, com uma criança para cuidar.
Fora uma paixão louca com Connie, lembrou. Eram jovens e tolos, pensou com carinho. Ele e Hermione oram dois adultos de bom senso que apreciavam a companhia um do outro. Muito sensatos para cometer uma tolice.
Uma mão pesada tocou seu ombro, quase o fazendo largar a máquina que segurava.
— Nossa, Weasley! Eu o assustei?
Tomando fôlego e erguendo-se, Rony deparou com Jerry Skully. O pai de Rod fora seu amigo de infância. Apesar de estar com mais de trinta anos, mantinha o ar jovial e o sorriso de garoto travesso que exibia naquele momento.
— Não o ouvi chegar, Jerry.
— E eu o chamei várias vezes. Estava fora deste mundo, homem!
Assim dizendo, Jerry pôs as mãos na cintura e olhou em volta, fazendo Rony pensar que um sujeito de terno e gravata em uma obra era uma visão muito engraçada.
— Precisa de emprego? Tenho um martelo extra.
Era uma velha brincadeira entre os dois. Jerry era um gênio da matemática, muito hábil com relacionamentos humanos, porém não conseguia desatarraxar uma lâmpada sem instruções por escrito, passo a passo. Rony continuou:
— Já colocou as prateleiras na lavanderia?
— Não, mas num belo dia apareceram pregadas na parede. Você teve alguma coisa a ver com isso ou foram os duendes que fizeram o trabalho?
— Não contrato duendes, Jerry. O sindicato deles é muito desorganizado.
— Que pena! Mas sou muito grato aos duendes por terem resolvido esse problema para mim.
Aquele diálogo de duplo sentido era um código entre os dois amigos, onde um agradecia ao outro pela gentileza. Jerry mudou de assunto:
— O primeiro andar está maravilhoso. Carrie e Beth estão me deixando loucos com essa história de aulas de bale. Creio que começam no mês que vem.
— Sem dúvida. Pelo menos o térreo ficará pronto. — Rony começou a arrumar o armário que ia pregar. — E o que faz aqui a esta hora do dia? Horário de almoço mais longo?
— O serviço bancário é mais duro do que pensa, amigão.
— Que mãos macias — provocou Rony, fungando. — E está usando perfume também?
— Será que não reconhece cheiro de loção pós-barba? Bem, o fato é que tinha uma reunião fora e consegui sair mais cedo, e resolvi vir visitá-lo para ver o que está aprontando neste velho prédio. O dinheiro do banco está metido nisto, você sabe.
Rony sorriu, olhando por cima do ombro.
— A cliente escolheu o melhor empreiteiro.
Jerry resmungou algo sarcástico por entre os dentes cerrados, mas que simbolizava o afeto entre os dois amigos, e disse em voz alta:
— Então, pelo que ouvi falar, você e a bailarina estão dançando juntos.
— Cidade pequena, mexericos demais — murmurou Rony.
— Ela é linda. — Jerry aproximou-se, examinando de perto o trabalho de Rony. — Já assistiu a um espetáculo de bale?
— Não.
— Eu já. Minha irmã caçula... lembra-se de Tiffany? Teve aulas de bale alguns anos, quando éramos crianças. Dançou o Quebra-nozes. Até que foi interessante... Ratos gigantes, lutas com espadas, árvores de Natal enormes... O resto eram apenas pessoas pulando e rodopiando. Agradou a todos os gostos.
— Ótimo.
— Mas, como ia dizendo, Tiffany acabou de voltar para casa. Morou em Kentucky nos últimos anos e, por fim, divorciou-se do idiota com quem se casou. Vai ficar com nossos pais até arrumar a vida.
Rony apenas acenou, demonstrando prestar atenção.
— Então, pensei que já que voltou à circulação, poderia levá-la para dar uma volta. Animá-la um pouco. Um cinema... um jantar.
Rony continuou seu trabalho, sem nada dizer. Jerry pigarreou.
— Pensei em você. Tiffany passou por maus bocados. Seria formidável se pudesse se relacionar com um sujeito decente para variar. Ela tinha uma queda por você quando éramos crianças. Então... vai telefonar para minha irmã?
Rony encarou-o, parecendo voltar de outro mundo.
— O quê? Sair com quem?
— Ora, Rony! Tiffany! Minha irmã! Vai telefonar para ela e convidá-la para sair?
— Eu?
— Weasley, acabou de dizer...
— Espere um minuto. — Rony largou a trena e tentou compreender. — Olhe, acho que não posso fazer isso. Estou saindo com Hermione.
— Não está casado com ela, nem morando junto. Qual o problema?
Mas havia um impedimento, pensou Rony. O fato de ter ficado fora de circulação por alguns anos não o deixara ignorante sobre certas coisas. Além do mais, não tinha a menor intenção de sair com Tiffany ou com qualquer outra mulher. Mas sabia que Jerry não ficaria contente por ouvir isso. Respirou fundo, e explicou:
— A questão é que não estou no grupo dos disponíveis para sair a toda hora.
— Está tendo um relacionamento com a bailarina.
— Não... quero dizer... apenas saímos...
Foi então que, pouco à vontade, olhou para a porta e viu Hermione ali parada.
— Olá!
- Desculpe interromper — disse ela com voz gelada. Percebendo o clima tenso, Jerry tratou de lançar seu mais belo sorriso e preparou-se para sair de cena, deixando o amigo com a bomba na mão.
— Como vai, Hermione? Que bom revê-la! Nossa! Veja que horas são! Preciso correr. Voltaremos a conversar, Rony. Até logo!
Saiu com a velocidade de um raio, e Rony pegou a furadeira sem saber o que fazer com ela, resmungando:
— Era Jerry.
— Sei disso — replicou Hermione com frieza.
— Vou colocar seus armários hoje. Acho que fez a escolha certa. A cerejeira natural é linda. Até o final do dia estará tudo pronto.
— Que maravilha!
Hermione sentia a raiva sufocá-la, crescendo em ondas no seu íntimo como um vespeiro prestes a explodir. Tinha vonta de esbofetear Rony.
— Então, pelo que ouvi, não estamos namorando, apenas... o quê? — Entrou no aposento e parou. — Apenas dormindo juntos? Ou tem outra explicação?
— Jerry me deixou constrangido.
— Sério? E foi por isso que disse a ele que nós dois estamos "apenas" saindo? Nunca pensei que definir o nosso relacionamento fosse um dilema tão grande para você ou que se sentisse tão envergonhado de falar a respeito com um amigo.
Rony fez um gesto impaciente.
— Se pretendia ouvir atrás das portas, deveria ter prestado atenção na conversa inteira. Jerry queria que eu convidasse a irmã dele para sair, e eu estava tentando explicar que não era uma boa idéia.
— Percebo. — Hermione tinha vontade de pegar o martelo e arremessá-lo na cabeça de Rony. — Em primeiro lugar, não estava ouvindo atrás da porta. Esta é a minha casa e tenho o direito de entrar aqui à hora que quiser. Segundo, por que não disse logo "não", sem tantas hesitações?
— Porque não estava prestando atenção...
— Então deixe-me dizer uma coisa, Weasley. — Enfatizou as palavras seguintes, batendo com o dedo no peito: — Não durmo por aí com qualquer um.
— E quem disse o contrário?
— Quando estou com um homem é apenas com ele. Ponto final. E se ele não está disposto a fazer o mesmo comigo, espero que seja honesto o suficiente para dizer.
— Eu não...
— E também não sou apenas uma desculpa que traz no bolso, pronta para ser usada, quando não quer fazer um favor a um amigo. Portanto, nunca tente me usar, dando explicações esfarrapadas sobre nosso relacionamento. Entretanto, como parece que não existe nada de concreto entre nós dois, está livre para sair com a irmã de Jerry ou com qualquer outra.
— Ora, Hermione! Resolva-se! Vai ficar brava porque usei-a como desculpa ou porque não aceitei sair com Tiffany ?
Hermione cerrou os punhos, mas contou até dez. Caso batesse nele, raciocinou, perderia a dignidade.
— Idiota! — gritou, disse mais alguma coisa em ucraniano e saiu.
— Mulheres! — exclamou Rony, ficando feliz por po der chutar a caixa de ferramentas e espalhar chaves de pa rafuso e alicates por todos os lados.
Uma hora mais tarde, os armários estavam colocados e Rony trabalhava na copa. Já remoera a cena com Hermione meia dúzia de vezes mas, a cada repassada, lembrava-se de alguma coisa que poderia ter dito e que não dissera. Comentários curtos e diretos que teriam virado o vento a seu favor. Mas, na primeira oportunidade, despejaria tudo para ela
Não pretendia se humilhar, pensou, enquanto martela va uma prateleira. Não tinha nada para pedir desculpas. As mulheres eram um bom motivo para que muitos homens preferissem viver sozinhos, concluiu. Se era um idiota, por que ela insistira tanto em envolver-se?
Ocupado com esses pensamentos, deu um passo para trás, virou-se e quase esbarrou em Spencer Granger.
— Que susto! O que há com as pessoas hoje? Todo mundo chega atrás de mim feito um gato, sem fazer barulho?
— Desculpe. Achei que não iria me ouvir com tantas marteladas por aqui.
— Vou pendurar cartazes — disse Rony, pegando uma outra prateleira. — Proibida a entrada de mulheres em geral e de homens de gravata.
Spencer arqueou as sobrancelhas. Era a primeira vez que via Rony irritado.
— Imagino que não tenha sido o primeiro a interromper seu trabalho hoje.
— Acertou. — Rony testou a prateleira, que deslizou perfeitamente no encaixe. Pelo menos alguma coisa estava dando certo naquele dia, pensou com sarcasmo, voltando a falar em voz alta: — Veio conversar sobre o projeto de sua cozinha, Sr. Granger? Basta aprovar o material que irei providenciar. Dentro de algumas semanas poderei começar o trabalho.
— Na verdade, estou fora desse assunto. Natasha é dona absoluta dos problemas da cozinha e da reforma. Só passei para ver os progressos no prédio de minha filha. E vejo que a obra está bastante adiantada.
— Sim, está indo bem rápido. — Rony apoiou uma outra prateleira que ia encaixar e respirou fundo. — Desculpe, Sr. Granger. Não estou tendo um bom dia.
Spencer gostaria de saber o que acontecera entre Rony e Hermione, para que ela tivesse ficado tão mal-humorada, mas apenas disse:
— Hermione está no térreo arrumando o escritório.
Rony voltou a mexer na prateleira de modo lento e de liberado.
— Não sabia que ainda estava aqui.
— A mobília que encomendou acabou de chegar. Também não fui recebido com muito entusiasmo lá embaixo. Portanto, somando dois mais dois, creio que vocês discutiram.
— Não chega a ser uma discussão quando alguém salta no seu pescoço sem aviso prévio. Foi um ataque.
Spencer segurou o riso.
— Bem... correndo o risco de ser considerado inconveniente, as mulheres de minha família sempre acham que têm um bom motivo para brigar com os homens. É claro que se têm razão ou não é indiscutível.
— E por isso que são um problema.
— Entretanto, ruim com elas, pior sem elas ..
— Estava indo muito bem sozinho com Hugo. — Um olhar de frustração dominou o semblante de Rony, que voltou-se para Spencer Granger. — Afinal, o que há de errado com as mulheres para complicar tanto as coisas e deixar os homens se sentindo como perfeitos idiotas?
— Filho, milhares de gerações masculinas vêm se questionando o mesmo, e ainda não chegaram a uma conclusão.
Com uma risada seca, Rony voltou-se de novo para o trabalho e, com um gesto automático, perscrutou as prateleiras, tentando descobrir alguma falha.
— Bom — falou — acho que já não importa mais. Hermione terminou tudo entre nós.
— Não parece ser o tipo de homem que desiste com facilidade diante de um problema qualquer, Rony.
- Mas sua filha é especial. — Rony piscou um olho para Spencer. — Lamento.
- Prefiro encarar essas palavras como um elogio. Minha impressão é de que um magoou o outro, e ambos estão com o orgulho ferido. Em geral, a reação de Hermione para esse tipo de ofensa é uma crise de raiva e depois a frieza.
Rony selecionou os ganchos que seriam pendurados na copa. Deveria deixar esse trabalho para um dos operários, pensou, mas precisava ocupar-se com algo manual para não se deixar engolfar pelo aborrecimento provocado com a briga. Falou em voz alta:
- Ela deixou a situação muito clara. Chamou-me de idiota e algo mais em ucraniano. Não sei o que foi.
- Ela o insultou em ucraniano? — Spencer lutou para não achar graça. — Devia estar muito nervosa!
Rony estreitou os olhos, pegando na chave de fenda.
— Não sei o que significa, mas não gostei do tom.
- Deve ter sido algo parecido com "desejo de que asse no fogo do inferno". A mãe de Hermione também usa muito essa expressão. — Spencer fez uma pausa, encarou Rony e per guntou: — Você gosta de minha filha?— As mãos de Rony ficaram úmidas.
— Sr. Granger...
— Chame-me de Spencer. Sei que não é uma pergunta fácil nem simples, mas gostaria de obter uma resposta.
— Primeiro, poderia sair de perto da caixa de ferramentas? Há muitos objetos pontiagudos.
Spencer mergulhou as mãos nos bolsos da calça.
— Tem minha palavra de honra que não vou desafiá-lo para um duelo com chaves de fenda.
— Certo. — Rony tomou fôlego. — Gosto muito de sua filha. Meus sentimentos são confusos e mal resolvidos, mas gosto. Não pretendia me envolver com ela. Não estou em posição de fazê-lo.
— E posso perguntar por quê?
— Acho que é óbvio. Sou um pai viúvo. Estou tentando construir uma vida decente para meu filho, mas não se com para com o estilo de Hermione, e não posso oferecer-lhe tudo com que está acostumada.
Spencer sacudiu os ombros.
— Eles o fizeram comer o pão que o diabo amassou, não foi?
— Como disse?
— Os pais de sua esposa. Ao contrário de certas famílias, a nossa é barulhenta, gosta de se meter na vida de todo mundo, é protetora e irritante. Mas vai descobrir que também respeitamos e apoiamos as escolhas e sentimentos uns dos outros. Rony, é um erro julgar uma situação por outra do passado. — Spencer fez uma pausa e continuou: — Mas deixando isso de lado no momento, já que se importa com Hermione, vou dar-lhe um pequeno conselho, e você decidirá se o aceita ou não. Lide com o problema e com ela. Posso garantir-lhe que, se Hermione não gostasse muito de você, teria terminado tudo com um sorriso e de maneira polida.
Concluindo que dera bastante assunto para Rony pensar, Spencer virou-se e passou a examinar os armários em construção, em meio à poeira, parafusos e martelos.
— Então é isso que me espera se resolver fazer a obra — resmungou mais para si mesmo. — Lançou um olhar consternado para Rony. — E você acha que tem problemas!
Quando Spencer foi embora Rony ficou imóvel, batendo com a chave de tenda na palma da mão. O pai de Hermione o aconselhara a continuar a briga e defender seus pontos de vista. Que tipo de família era aquela? Os pais que conhecia teriam ficado bravos com ele e dado palmadinhas carinhosas no ombro da filha.
Seus pais nunca brigavam, pensou. É claro que isso acontecia porque Arthur ditava as regras da casa e não admitia desobediência. Pelo menos, assim parecia, concluiu para si mesmo.
Por sua vez, nunca tivera uma briga de verdade com Connie. Tinham suas diferenças, é claro, mas sempre resolviam tudo conversando ou... ignorando o assunto, admitiu. E fora preciso que ficassem assim, porque estavam isolados e dependiam um do outro. Aprendera a sempre dominar-se e usar a razão ao invés das emoções. Rony pensou na última discussão que tivera com o pai.
Entretanto, talvez fosse um erro comparar o presente com o passado. Mas uma coisa era certa: precisava livrar-se da sensação opressiva que sentia, de algum modo.
Primeiro conversou com os operários no andar de cima, resolveu alguns problemas de menor importância e a programação para o dia seguinte. Era quase hora de ir embora, portanto despachou todos para casa. Não queria uma platéia.
Hermione acertou o prego bem no meio e riu, satisfeita. Rony Weasley, aquele imbecil, não era o único que sabia usar um martelo, pensou.
Passara a última hora arrumando seu escritório de modo meticuloso. Tudo estaria perfeito quando terminasse. Não admitia nada abaixo da perfeição.
A escrivaninha estava bem no lugar desejado, e as gavetas já estavam arrumadas com as brochuras que mandara imprimir sobre a escola, seu bloco de papel de carta e as fichas dos alunos.
O armário de arquivo era da mesma madeira dourada. A seu tempo, esperava ver todos aqueles formulários preen chidos.
Encontrara o tapete em uma feira de antigüidades, e o desenho com grandes rosas esmaecidas combinava com as paredes verde-claras e com o estofado das poltronas.
Só porque era um escritório, não significava que deves se ser impessoal e sem estilo, pensou.
Hermione pendurou outra das fotografias em preto-e-branco que trouxera. Deu um passo atrás e meneou a cabeça, em aprovação. Bailarinas na barra, ensaiando no palco e nos bastidores, jovens estudantes em recitais, amarrando as sapatilhas. Estavam suadas, cansadas e radiantes, refletindo bem todos os aspectos do mundo da dança. As fotos a fariam lembrar sempre o que fizera no passado e do que faria dali por diante.
Pegou outro prego, ajustou-o na marca que fizera na parede e martelou com força, sabendo que, na verdade, tentava descarregar a raiva que sentia de Rony Weasley.
Que bobalhão, falou com seus botões. Que saísse com Tiffany! Lembrava-se muito bem da srta. Skully. Tinha seios grandes, oxigenava os cabelos e era um ano mais velha que ela. Sempre dando risadas tolas e usando um batom muito vermelho. Bem, matutou, que Rony a convidasse para sair. O que importava? Terminara o compromisso entre os dois, afinal.
- Se tivesse me dito que pretendia cobrir as paredes desse jeito, não teria caprichado tanto na pintura — comentou Rony às suas costas. — Ninguém notaria a diferença.
Sem se perturbar, Hermione pendurou a fotografia e pegou outro prego, dizendo:
— Presume-se que sempre se tenha um certo orgulho do próprio trabalho, seja ele admirado pelos outros ou não. E já que paguei pela pintura da parede, faço o que quero com ela.
— Sim. Quer enchê-la de buracos. A escolha é sua.
A decoração com as fotos estava ótima, mas Rony jamais iria admitir que Hermione as posicionara de modo delicado, seguindo o tema em seqüência e obtendo um efeito harmonioso.
Ele as examinou com mais atenção e viu que várias mostravam a própria hermione criança, adolescente, e já adulta. Uma delas era até engraçada, exibindo-a com um martelo na mão, socando uma sapatilha. Fingindo pouco-caso, Rony apontou para a fotografia na parede, e comentou:
— Precisava martelar esses sapatos?
— Para sua informação, as sapatilhas de ponta têm que ser amaciadas e é assim que se faz. Agora, se me der licença, gostaria de terminar de arrumar meu escritório. E tenho entrevistas aqui amanhã à tarde.
— Então tem tempo de sobra.
Rony relanceou mais um olhar em volta e admitiu que tudo estava perfeito. Hermione não faria por menos, pensou.
— Vamos esclarecer as coisas — disse Hermione, voltando a martelar. — Estou ocupada e não quero falar com você. Além do mais, não o pago para ficar à minha volta tagarelando.
— Não me venha com essa conversa — retrucou Rony, arrancando o martelo das mãos dela. — Os cheques que assina não têm nada a ver com sua raiva no momento. Não admito que coloque as coisas nesse nível.
Rony tinha razão, admitiu Hermione para si mesma, sentindo-se envergonhada de ter dito o que dissera.
— Certo — concordou em voz alta — mas nosso rela cionamento pessoal acabou.
— É o que você pensa!
Assim falando, Rony trancou a porta do escritório.
— O que acha que está fazendo, Weasley?
— Tentando obter um pouco de privacidade. Parece que hoje não está sendo muito fácil, com tantas visitas.
— Abra esta porta e saia neste instante, correndo!
— Sente-se e cale-se!
Hermione arregalou os olhos, mais assustada que irritada.
— O que disse?
Resolvendo a questão, Rony colocou o martelo de lado... bem longe de Hermione, caminhou até ela e a fez sentar-se em uma cadeira, dizendo:
— Agora ouça.
Hermione tentou levantar-se, mas foi empurrada com força. Estava começando a ferver como uma chaleira, mas a surpresa com a atitude de Rony era mais forte do que a indignação.
— Já provou que é maior e mais forte — disse, fingindo desdém. — Não precisa mostrar que é um troglodita também.
— E você não precisa provar que é mimada e rancorosa. Se tentar levantar de novo antes que eu acabe de falar, vou amarrá-la com uma corda. — Rony fez uma pausa, pesando o efeito de suas palavras, e viu que Hermione se aquietava. — Estava tomando conta da minha vida, quando Jerry entrou. É meu amigo. Ele e Beth fazem de tudo por Hugo, e devo muitos favores aos dois.
— Então, é claro, vai retribuir saindo com a irmã dele.
— Fique quieta, Hermione! Não vou fazer isso. Não tenho a menor intenção de levar Tiffany ao cinema ou a um restaurante. O problema é que Jerry fala pelos cotovelos, e eu estava ocupado com as prateleiras. A um certo ponto parei de prestar atenção, e quando voltei a me sintonizar... — Passou a mão nos cabelos, em um gesto de frustração. — Pegou-me desprevenido, e tentei ser delicado em recusar, sem ferir seus sentimentos. Ele e Tiffany sempre foram muito unidos. Acho que está preocupado com ela, e confia em mim. O que poderia ter respondido? Que não tenho o menor interesse na criatura?
Hermione ergueu o queixo.
— Sim, mas não é esse o ponto.
— E qual seria? Pode me dizer?
— Que você deu a entender e, por certo, é mesmo a sua opinião, que nosso relacionamento é apenas sexual. Eu espero mais do que isso. Espero lealdade, fidelidade, afeto e respeito. Espero que um homem diga, sem enrolar a língua, que está me namorando e que se preocupa comigo.
— Ora, Hermione! Já faz quase dez anos que namorei alguém. Poderia parar com esses fricotes.
— Se pensa assim, está errado. Terminamos a conversa.
— Droga, Hermione! Você é um osso duro de roer! Não terminamos nada! — Rony a fez levantar. — Não estive com mais ninguém além de você, depois que minha mulher morreu. E não quero estar. Deixarei isso bem claro para Jerry e qualquer outra pessoa. Gosto de você e não aprecio que me façam sentir um idiota.
— Ótimo! Agora deixe-me ir.
— Não antes que ouça tudo que tenho a dizer.
— Você me insultou.
— Não vou me desculpar de novo.
— De novo? Não ouvi nenhum pedido de desculpas até agora, Weasley. O que está fazendo?
Rony abriu a porta do escritório com um repelão e começou a arrastá-la pelo corredor.
— Fique quieta — ordenou, segurando Hermione que se de batia como um peixe fora d'água.
— Se não me soltar neste instante, vou...
Não terminou a frase porque Rony a pôs sobre os ombros, segurando-lhe as pernas com uma mão e abrindo a porta da rua com a outra.
— Perdeu o juízo? — Surpresa demais para lutar, Hermione afastou os cabelos do rosto, vendo-o carregá-la para fora da casa e descer os degraus da frente. — Ficou maluco?
— Sim, desde que você entrou na minha vida. — Rony relanceou o olhar pela rua e viu uma mulher que saía do prédio de apartamentos ao lado. — Desculpe, senhora.
— Sim? — respondeu a transeunte meio distraída.
— Esta é Hermione, e eu sou Rony. Gostaria que soubesse que estamos namorando.
— Deus! — gemeu Hermione, encobrindo o rosto com os ca belos.
— Entendi. Que lindo! — gaguejou a mulher, acenando e indo embora.
- Obrigado — disse Rony, colocando Kate no chão a sua frente e encarando-a. — Está satisfeita?
As palavras pareceram ficar presas na garganta de Hermione. Deu um soco no peito de Rony e voltou a entrar na casa.
— Acho que não está — resmungou Rony, seguindo-a.
Como sou boazinha vou postar o capítulo 9 hoje mesmo, porque esse não foi um dos meus melhores capítulos.
Obrigado pelos comentários.
