"Por aqui, por favor..." era o que dizia Minos levando-a até o meio do salão abarrotado de sorrisos hipócritas e olhares famintos. "O mundo lá fora é capitalista... e voraz" lembrou-se do que o professor Hypnos lhe dissera pouco tempo antes de entrar para a faculdade. E era verdade. A grande maioria das pessoas presentes ali pouco se importava com arte, moda, roupas sofisticadas ou qualquer outra coisa do gênero. Eram, no geral, pessoas gananciosas, representando dezenas de agências ou empresas do ramo. Pandora, melhor que qualquer outro, sabia. Seu emprego se resume nisso: saber. E transmitir, o que ela descobre, claro. No início, apenas fazia críticas. Agora se sentia no dever de questionar toda aquela dita "alta-sociedade", a que ia a festas luxuosas e eventos de moda, como esse. Havia quem a chamasse de escritora sensacionalista. Mas os mais entendidos sabiam que todas as críticas da italiana tinham coerência, e que todos os argumentos que ela apresentava eram verdadeiros. Nem a própria Pandora sabia quando começara com isso e, nem por que começara... A verdade é que Pandora gosta de criticar. Adora apontar os defeitos alheios e, quando está sozinha, ri deles. Se a cena for boa, por que não rir na frente de todos?
Por que não rir daquela coleção RIDÍCULA de um tal de Radamanthys?
E foi o que ela fez.
A cara pintada em branco e vermelho, fazendo um largo sorriso no rosto. Passava de quarto em quarto, contando piadas, distribuindo elogios, fazendo malabarismos. Conseguia arrancar sorrisos sinceros até de pacientes terminais. Afinal, ele não fazia aquilo tudo por fazer. Ele tinha um objetivo. Não sairia daquele hospital até ver sorrisos em todos os rostos. Até na sala do diretor do hospital deu um jeito de entrar, deixando uma rosa amarela de plástico. Teria sido expulso da sala se não tivesse feito o Dr. Aspros rir tanto. Ainda mais ele, que era um homem ranzinza. Mas até para os mais carrancudos existe uma piada em especial. Enquanto não tinha alta, Aaron se limitava ao prédio principal do hospital. O refeitório ficava num anexo, um prédio menor. Aaron parara de observar as janelas. Concentrava-se agora, apenas nos quartos, onde havia pessoas precisando sorrir.
"Pandora, não me faça passar vergonha, seja discreta?" Minos tinha a mão frente o rosto, evitando olhar a expressão debochada de Pandora.
"O que há com você, Minos? Onde enfiou seu senso crítico? Vai ficar aplaudindo esse lixo?" a italiana gesticulava, apontando para os modelitos em exposição. "Onde está o sujeitinho que desenhou isso? Eu devia ter trazido um caixote com tomates pra todo mundo na festa se divertir..." debochava, olhando para as unhas.
Até que apareceu um homem alto, num terno simples, preto, com uma gravata roxa... "Ah, meu Deus..." cabelos loiros "que diabos..." o semblante impassível "de monocelha é essa?" e as sobrancelhas unidas. Pandora ria. Um riso falso, pois já tinha visto uma foto do tal estilista do momento, e rira tudo o que tinha para rir em casa, frente ao computador. Agora, a gargalhada era só pra debochar mesmo.
"Pode me acompanhar?" foi tudo que Radamanthys disse.
Foi até a recepção. Não estava vestido como "Aaron Pagliacci". Era só uma visita matinal, apenas para dizer oi aos funcionários. Imaginou que aquele momento chegaria, mas não naquela hora. Esperava que fosse demorar mais alguns dias. Esperava que as mãos não tremessem. Esperava que não fosse ele, na verdade. Não esperava que fosse tão parecido com o amigo Kagaho. Não esperava se aproximar com tanto nervosismo. Não esperava perguntar "Você é o Ikki?". Mas perguntou.
O homem de cabelos escuros virou-se para trás, a fim de procurar por quem chamava sua atenção.
"Talvez" a voz seca de quem ainda não superou a perda. A moça loira ao lado, agarrou-se no braço dele, apoiando a testa no ombro do rapaz moreno. Aaron nem percebeu, mas a moça era muito parecida com o rapazinho com quem andara conversando nos últimos dias e que, infelizmente se fora. A grande diferença era o fato de ser loira. Engoliu a seco. Aquela seria uma conversa de poucas palavras.
"O que houve com você? Por que resolveu fazer uma coleção de moda?"
"Digamos que eu estou querendo me aproximar de alguém..." era uma indireta. Uma indireta que Pandora percebeu.
"Cacete, Rada. Toma vergonha nessa sua cara porca! Vai aparar essas sobrancelhas. É o melhor que você faz!" ralhou, dando as costas. Mas antes que saísse do local, foi tomada pelo braço.
"O que eu te fiz? Por que você é tão arredia comigo?" Radamanthys a encarava, olhando-a nos olhos. Pandora apenas apontou para a mão do loiro segurando-a pelo braço.
"Esse é um bom motivo pra eu te detestar, seu ridículo. Me solta agora! Deixa de ser bruto!" mas antes que Radamanthys pensasse em soltá-la, Pandora já o tinha conseguido sozinha. "Acho que é fácil dar um fim a essa sua carreira, dizendo como você conseguiu capital pra bancar esse seu espetáculo de horrores..."
"Não faria isso. É só um blefe."
"Depende da sua próxima jogada, seu filho de uma porca suja..." e antes de sumir pelo corredor, disparou uma cusparada em direção a um dos modelitos expostos em um manequim, ignorando todo o espanto dos outros convidados.
Procurou pelo papel dobrado no bolso. Estendeu a mão trêmula, tendo a carta entre os dedos, sem proferir palavra sequer. Ikki pegou o papel e desdobrou-o, pondo-se a ler em silêncio. Aaron sentiu-se despir de um estranho peso ao entregar a carta para o destinatário, conseguindo respirar mais tranquilamente.
"Ele disse que somos parecidos." Foram as únicas palavras que conseguiram escapar da boca do loiro, que virou as costas após dizê-lo. Já alguns metros a frente, percebeu que Ikki chorava. Mas Aaron tinha plena certeza de que, no dia seguinte, Ikki estaria sorrindo. Agora só faltava uma pessoa no hospital a sorrir.
Capítulo sem graça, mas tá valendo.
Nem foi tão emocionante pra vocês exagerarem tanto assim, okay? q
Cá está. Eu tardo mas não falho. Ou falho, enfim.
