Chapter VIII – Truth & Selfishness
O sol ainda não havia aparecido quando resolvera se levantar. Podia escutar o ronco alto de Joel vindo do quarto ao lado, enquanto a respiração alta de Caty ecoava por todo o espaço a sua volta. A brisa fria entrava pela janela, tal qual, o cheiro de terra molhada; provavelmente chuviscava. Ergueu de sua cama com uma disposição incrível – seu corpo não era mais o frágil de antigamente, agora era potente; podia sentir um grande vigor passar por seus músculos e o poder de sua espécie ecoar por cada célula. Não existia dor, não existia medo. Estava livre pela primeira vez na vida, estava preparada para ajudar sua família.
Sua visão também havia mudado. Conseguia distinguir os contornos dos móveis mesmo com a escuridão, contar cada dobrinha em seu lençol e observar o tronco de sua irmã subir e descer. Seus pés sentiam o frio do piso de madeira, mas não era algo que a incomodava. As unhas eram muito maiores do que geralmente possuíra, do tipo que poderia rasgar o rosto de uma pessoa com muita facilidade; observou as veias de suas mãos – pareciam querer saltar de dentro da derme – que levavam o sangue quente e vitalício para seu coração bombear. O tiquetaquear do relógio em cima de sua mesinha-de-cabeceira acompanhava as batidas cardíacas fortes, porém vagarosas, contra seu peito; quase podia senti-lo quando pousou ambas as mãos por sobre o meio dos seios.
Riu baixinho. Até mesmo seus seios haviam aumentado – algo que notou com felicidade. Pôde notar também, graças ao pijama curtinho que vestia, o tamanho dos músculos de suas pernas; lembrava-se nitidamente de serem no mínimo duas vezes menores dos atuais. Seu quadril estava mais largo, ainda sim, sua cintura parecia mais fina. Deslizou suas mãos até o traseiro – com certeza maior. Depois, levou os braços para o alto, espreguiçando-se como um gato; escutou vários ossinhos de sua coluna vertebral estalarem com o movimento.
Caminhou com passos que ela considerou quase inaudíveis; pela primeira vez não receberia reclamações de sua irmã mais nova por causa do barulho que vazia quando acordava. Seguiu até o banheiro, trancou-o e só assim, acendeu a luz. A claridade repentina fez sua retina doer, mas adaptou-se logo. Checou no espelho cujas extremidades eram gastas e começavam a pretejar, sua imagem; além das maçãs de seu rosto e os lábios estarem mais preenchidos, não encontrou grande diferença. Era um fato que a pele estava mais morena, da cor da dos seus irmãos. Porém, isso se devia ao fato de sempre estar doente.
Não se demorou muito a despir o shortinho cor de uva e a camiseta de time de futebol americano velha e gasta. Ainda de calcinha, adentrou ao chuveiro. A água no primeiro momento deslizou da tubulação quase como gelo puro, e ao contrário do que Mellanie poderia pensar, não lhe deu arrepios. Passou por sua derme como a água mais agradável que existia, lambendo cada parte de seu corpo e levando consigo a fina camada de suor que havia aparecido na noite quase insone. Nem parecia que há mais ou menos quatro horas estivera na casa dos Agate quase morta; era quase uma realidade alternativa. Ela tirou a calcinha, deixando-a cair com um baque surdo do chão, lavou os cabelos longos e passou o sabonete pelo corpo. Lavou rapidamente a peça de roupa rosa que jazia aos seus pés e desligou o chuveiro. Estava se enxugando quando percebeu o céu clarear pela janelinha pequena do banheiro.
Enrolou-se na toalha amarela-ovo e recolheu no chão seu pijama. Voltou com passos ainda silenciosos para seu quarto. Caty se encontrava em uma posição diferente de quando havia abandonado sua cama há vinte minutos, provavelmente tendo algum pesadelo ruim. Mellanie jogou as roupas em sua mão para sua cama, alguns metros de distância do da irmã, inclinando-se por fim para cima de Caty para lhe assoprar o ouvido. A menina resmungou um pouco, mas abriu os olhos contragosto.
"Bom dia, Catherine. São dez pra seis," Mellanie cantarolou, se jogando por cima da irmã e começando a fazer cócegas nela. Caty riu alto, tentando se desvencilhar. "Vá, antes que Joel acorde e tome posse do banheiro."
Caty espreguiçou-se, ainda deitada, como a irmã havia feito, jogou suas pernas para fora da cama e desapareceu em um piscar de olhos pela porta. Não havia no mundo alguém que demorasse tanto no banheiro quanto Joel; se o deixasse passar a sua frente, não tomaria banho naquele dia.
Do contrário do que qualquer um acharia, estava um dia quente para Mellanie. Talvez fosse porque seu corpo em si fosse alguns graus acima dos de humanos normais ou fosse porque tudo realmente parecesse mais quente, ela escolheu roupas leves (e felizmente para Louis, não daquelas que daria um ar puritano a garota). Vestiu uma camisetinha branca com gola que deixava o começo de seus seios a mostra e uma calça jeans colada – mesmo que ela tivesse certeza que antes ela ficava larga. Encontrou debaixo da escrivaninha seu tênis cor de creme parecido com All Star, e jogou por cima de tudo uma jaqueta jeans que parecia quase um sobretudo.
Elizabeth aguardava com a mesa pronta quando finalmente Caty e Mellanie desceram. As duas irmãs sorriram para a mãe, sentiam-se taciturnas ao lado daquela mulher bonita, com uma pele alva – tão alva tanto quanto dos vampiros –, olhos azuis e cabelo louro. Era quase o oposto dos filhos, cuja maioria eram morenos, cabelos escuros. Apenas Mellanie, a pequena Samantha, os gêmeos e Rafe tinham os olhos azuis, o restante guardava o caramelo escuro que o pai possuía.
Esse o efeito que todos tinham ao lado daquela mulher.
"Buenos dias, mama!" Caty entoou. O sorriso de Beth cresceu.
"Dormiram bem, queridas?" a mãe perguntou, colocando na mesa um prato com várias panquecas doces. Recolheu em cima da pia o molho de Maple syrup e jogou-o por cima das panquecas.
"Si, mama," agora fora Mellanie. A garota encheu sua xícara com leite puro e virou-a inteira na boca. Caty olhou-a estranhamente. "Estou morrendo de sede," disse, tentando disfarçar. Ouviram um barulho de alguém descendo as escadas. "A água do mundo ainda acabará por sua casa, Joey."
"Vê se me esquece, Mel," resmungou ele, se jogando em uma das cadeiras.
"Impossível, já que você fica mandando recadinhos pela Caty!"
"Não estou mandando. Estou dizendo que você não deve andar com aquele meio-vampiro." Uma das sobrancelhas de Mellanie arqueou por de baixo de sua franja; seus braços mantinham-se a frente do peito, apertando-os para não voar no pescoço do irmão.
"Eu decido com quem eu ando!" gritou, elevando a voz.
Caty observava horrorizada, enquanto Elizabeth arregalava os olhos. Nunca haviam visto Mellanie brigar com ninguém.
"Ah, claro. E ver você babando por um MEIO-VAMPIRO! Mellanie, ele suga sangue no café-da-manhã!" Joel também gritou.
"E você faz o que durante a noite? Vai fazer carinho em alguns animaizinhos na floresta? Por favor, Joel, seja menos idiota. Você come animais vivos!"
Joel franziu a testa, mordendo a bochecha.
"Pelo menos eu não mato pessoas como o seu namoradinho."
Mellanie pulou de sua cadeira, pondo-se de pé e batendo com ambas as mãos no tampo da mesa. Seus olhos não eram mais os azuis comuns; brilhavam com uma prata líquida. "Ele. Não. Mata," disse pausadamente.
"E como é que você sabe? Conhece o cara há um dia!"
Elizabeth recuperou de seu susto, jogou o pote de Maple syrup no chão e disse em voz de repreensão: "Pare vocês dois, agora! E peça desculpas para seu irmão, Mellanie."
A garota se revoltou.
"Eu pedir desculpas para ele? Nunca, em toda a minha vida, eu julguei o que ele fazia, nem ao menos falei nada quando ele matou aquela mulher em Pella. Porque o queridinho Joel pode matar quem ele quiser – foi apenas um acidente! Vocês sempre fazem desse idiota um santo, mas quando eu quero ser amiga de alguém, todos se revoltam. Mama, não me venha dizer que a senhora também não ia me repreender, porque eu sei que ia. Por que sabem de uma coisa? Estou farta dessa vida. Estamos felizes em uma droga de cidade de interior, então vem Joel e estraga tudo, daí temos que nos mudar mais uma vez para o outro lado do país para não sermos mortos. ESTOU FARTA DE AGUENTAR ALGUMA COISA QUE EU NEM AO MENOS ESCOLHI!" E com isso, ela saiu porta a fora, ignorando os gritos de sua mãe pedindo que voltasse. A chuva ainda caía, molhando os cabelos e grudando-os contra sua nuca. O que mais queria naquele momento era sumir.
XXX
Não havia ninguém no estacionamento quando se sentou em um dos bancos molhados a frente da escola. Um tremor ainda fazia suas mãos chacoalharem – porém, não era por frio. Sabia que se tivesse ficado mais algum tempo naquela casa, teria estrangulado seu irmão com as próprias mãos. Esse pensamento agora não lhe parecia uma má idéia. Apalpou os bolsos de seu sobretudo de jeans, encontrando o que procurava. Deslizou um pequeno celular prata, discou alguns número e levou até a orelha, aguardando.
Uma voz grave ecoou do outro lado.
"Papa?"
"Mellanie, é você?"
"Papa, eu tenho uma coisa para lhe perguntar," ela começou, suspirando pesarosamente. O homem do outro lado aguardou. "Se eu dissesse que eu me transformei ontem e que isso aconteceu depois que eu conheci um... meio-vampiro, o que me diria?"
Houve um silêncio constrangedor.
"Mellanie... Um meio-vampiro? Como pôde...?"
"Sim, papa, mas não foi algo que eu escolhi. Eu passei por ele na escola e de repente eu o vi. Senti aquela horrível sensação de estar sendo sugada para dentro de um buraco, caindo milhares de quilômetros e depois como se flutuasse. Não sei se isso é possível ou se estou louca, mas eu acho que gosto dele." Não pareceu uma verdade, já que 'gostar' não definia muito o que Mellanie realmente sentia; porém, era sensato excluir alguns detalhes sórdidos de seu pai, ele não precisava ter um surto maior. "Tudo bem, ok, agora é a hora de o senhor me dar uma bronca gigante."
"Não vou," ele disse, mas a garota podia notar a raiva contida. "Avise sua mãe que passarei pela casa de seu avô e trarei seus irmãos para Forks. Tenho algo a decidir."
Mellanie não sentiu que isso fosse algo muito bom, mas assentiu, despediu-se e desligou. Um dos buracos em seu coração pareceu desaparecer; fora melhor do que planejara. Pelo menos seu pai sabia.
"Isso me dá pontos, certo?" Mellanie assustou-se com a voz vinda do nada. Quando olhou para trás, Louis estendia-se ali como uma estátua de algum deus grego. Um sorriso delineava seus lábios, enquanto alguns pingos d'água escorriam de seus cabelos louros.
"Não sei você, mas eu ainda sou propensa a ataques do coração," ela reclamou, pondo-se de pé. "E como veio para cá?" Afinal, não havia carros no estacionamento.
"Quero contribuir com minha saúde, sabe. Caminhar de vez em quando faz muito bem – e parece que fez o mesmo."
Mellanie sorriu também; não pôde evitar.
"É, caminhar é muito bom," resmungou, rezando para que as batidas de seu coração ficassem menos frenéticas. "Algum motivo para isso, então?"
"Quis me livrar de Mamie hoje. E você?"
"É complicado."
"Acho que posso agüentar." Os olhos verdes de Louis chamuscaram nos dela.
"Não sei se vai gostar de ouvir."
"Inclui-me?"
"Totalmente," ela admitiu, corando. Ele aguardou. "Eu briguei com meu irmão porque ele não quer que eu veja você."
O sorriso de Louis permaneceu intacto, mas ela pôde enxergar uma nuvem negra passar pelos olhos dele. "Não parece algo muito complicado. Só precisa me evitar e tudo estará bem."
Um pesado estranho bateu contra o peito de Mellanie.
"Não!" disse repentinamente. "Quero dizer, ele não tem nada a ver com minha vida. Se eu quero ser sua amiga, Joel que se dane."
Louis sorriu. "Um bom ponto de vista."
"Como passou a noite?" ela perguntou, querendo mudar de assunto.
Ele riu de alguma piada interna. "Muito bem, e você?"
"Uhm... Bem. Tirando a parte que quase matei um casal de veados no caminho... Mas eu gostei da velocidade."
"Velocidade é bom."
"Não tem idéia."
"Ah, eu tenho sim." Ele ergueu sua mão, tocando em um dos fios molhados de cabelo de Mellanie. Ela corou com o toque repentino. "Vamos entrar?"
"Claro."
"Claro," ele repetiu.
