Capítulo 7
"Neve"
Mais três meses se passaram. Eu estava agora de sete meses e minha barriga já era bem visível. Com o avanço da gravidez, fazer as coisas em casa foi ficando mais complicada. Para minha sorte, Sura e eu estávamos muito mais próximas desde que lhe dera o vestido então ela me ajudava com prazer.
O inverno tinha se iniciado e os dias estavam cada vez mais frios. Em uma tarde de domingo particularmente gelada, Sura e eu estávamos tricotando roupinhas para o bebê, quando Miroke apareceu, anunciando que iria dar uma volta.
- Aonde ele vai quando sai assim? _ quis saber, curiosa.
- Hoje é domingo. É dia de ir a igreja. _ ela me respondeu e eu sorri. Me lembrei de um lugar, nas divisas do sítio aonde eu sempre o pegava em orações. Eu em geral era uma pessoa até meio cética, principalmente depois de tudo o que tinha me acontecido, mas admirava essa fé que ele tinha.
- Sango, de onde vem os bebês? _ eu ouvi a voz de Sura me perguntando e senti o rosto esquentar. Temia que um dia ela me fizesse aquela pergunta.
- Ora... _ eu gaguejei, tentando manter a voz firme _...Da barriga da mamães, claro.
- Eu sei. _ ela revirou os olhos _ Quero saber como vão parar lá dentro. Como o seu neném foi parar na sua barriga?
- "Ai meu Deus... O que eu faço?" _ eu pensava, aflita _ Sura, porque você não pergunta isso para o seu pai? _ eu sugeri, mas vi que suas bochechas ficaram rosadas. Não era assunto de uma garotinha falar com o pai, afinal. Isso era assunto para a mãe. Suspirei. _ É que... Bom... Aconteceu com seu pai também... _ comecei a me remexer na cadeira, desconfortável _ ...Meu esposo me amava. Me amava muito mesmo. Então um dia... Ele derramou em mim e fiquei grávida. _ concluí.
- Derramou o que? _ ela me olhou confusa.
- Aquilo. _ respondi, não sabendo aonde enfiar a cara.
- Aquilo o que? _ ela continuava me encarando, confusa.
- Amor. _ respondi, aliviando-me por achar uma resposta _ Derramou seu amor em mim e eu engravidei.
- Ah, sim... _ ela comentou, pensativa, começando a rir em seguida _ Os Taisho, com aquele monte de filhos... Devem derramar muito amor.
- Ah, com certeza... _ comecei a rir também, lembrando-me das vezes que peguei Inuyasha e Agome trocando sussurros. _ Bom, acho que uma caminhada também não me faria mal. _ comentei, levantando-me rapidamente antes que Sura viesse com outras conversas constrangedoras.
Após alguns minutos caminhando, pude notar o quanto esfriara. O céu estava branco. Nevaria em breve. Pude avistar Miroke fazendo suas orações e me detive nessa cena por um bom tempo. Era realmente admirável.
Quando eu resolvi sair, vi algo que me fez paralisar.
-"Não acredito..." _ pensei, enquanto avistava nada mais nada menos do que, a alguns quilômetros, mas indo em direção aos terrenos do sítio, Entei, o cavalo desaparecido de Kuranosuke. _ "Como pode ter vagado por aí todo esse tempo?"
Sem pensar nas conseqüências, parti atrás do cavalo.
Miroke entrou na casa, a roupa coberta de neve branca.
- Minha nossa, de onde veio essa nevasca? _ ele exclamou, quando Sura entrou aflita na sala.
- Cadê a Sango? _ ela perguntou.
- Ela não está aqui? _ ele perguntou, preocupado.
- Não. Saiu logo depois de você. _ ela disse, e Miroke atravessou o cômodo, voltando dois minutos depois com uma espingarda.
- Está vendo isso? _ Sura assentiu _ Pois bem, se eu não voltar em dez minutos, quero que você atire para cima até me avistar no meio da neve, entendeu?
- Mas, papai...
- Eu volto logo. _ ele a beijou na cabeça _ É uma promessa.
Saiu em seguida. Os olhos de Sura cairam sobre o relógio na lareira.
- Sango! _ Miroke gritava, mas o som alto do vento o impedia de ouvir qualquer coisa. O desespero em seu peito aumentava a cada passa _ Sango, cadê você?
Foi quando avistou algo além da neve branca que caía impiedora. Algo volumoso no porte de um animal. Suas rédeas estavam peduradas e no chão, ao fim delas, uma mão branca estava agarrada.
Ao mesmo tempo, o som dos tiros de Sura começou a invadir seus ouvidos.
Após muitos tiros seguidos, a arma por fim ficou sem munição.
Sura ficou assustada. Não sabia aonde seu pai guardava as munições e mesmo que soubesse, seu pai ainda não a tinha ensinado a recarregar a espingarda. O que faria? Seu pai e Sango estavam no meio daquela nevasca, sem ter como se orientar de volta a casa.
Foi então que uma idéia lhe ocorreu. Jogando a arma sobre uma poltrona, Sura pegou uma panela de ferro e uma colher de pau. Correndo de volta a porta, começou a bater com a maior força que seus braços conseguiam.
Os minutos foram se arrastando e nada.
- Papai... Sango... Cadê vocês?... _ ela questionava aflita, sem parar de bater.
Foi então que ela viu, no meio da neve, as sombras que se aproximavam. Só pôde defínir a poucos metros que se tratava de seu pai. Puxava um grande cavalo branco pela rédea. Em seus braços estava Sango, desmaiada.
Os olhos da menina estavam fixos na jovem desacordada. Seu rosto continha uma preocupação genuína.
- Durma. _ disse Miroke, sentado ao seu lado na cama _ Você precisa descansar, querida.
- Ela vai ficar bem? _ Sura perguntou.
- O pior já passou. _ Miroke garantiu _ Agora ela só precisa de descanso.
- E o neném? _ ela quis saber.
Miroke observou Sango por alguns segundos. Apesar do desmaio por conta do frio, parecia estar tudo bem com ela e o bebê. Surpreendeu-se ao notar que isso o deixava mais aliviado do que deveria.
- Está bem também. _ ele respondeu a menina _ Agora você tem que dormir. _ ajeitou os cobertores dela, que pegou no sono em minutos.
Depois que Sura dormiu, os olhos de Miroke voltaram para Sango. Ela parecia estar adormecida e não mais desmaiada. Sua respiração tinha se normalizado.
- "Graças aos céus não aconteceu nada com você..." _ ele se pegou pensando, se surpreendo novamente _ "... Eu... Fiquei preocupado de verdade, Sango..."
Um gemido saiu dos lábios da jovem e ela começou a se contorcer na cama. Miroke rapidamente foi para o seu lado.
- Sango... _ ele chamou, baixinho.
Meu corpo todo doía. Eu não sabia dizer se era de frio ou por causa da queda que levara ao ir atrás de Entei. Tentei me mexer. Doeu mais ainda. Sem que eu percebesse, senti um gemido sair da minha boca. Fiquei confusa por um momento. Não sabia aonde estava. Foi então que eu ouvi a voz de Miroke, chamando baixinho por mim.
- Sango...
- Mi... Miroke... _ eu consegui balbuciar. Abri os olhos. Seu rosto estava muito próximo do meu, observando cada reação minha. Se eu não estivesse tão dolorida, teria corado. Aqueles olhos safira eram muito intensos.
- Que bom que está bem. _ ele disse e pude perceber um alívio em sua voz _ Como está? Sente alguma dor?
- Dói tudo. _ eu tentei sorrir, mas isso também doeu. Ele sorriu de leve.
- Agora tudo estará bem, não se preocupe.
Eu acreditei nele. Sem saber o porque, eu sentia um imenso alívio. Uma sensação de que realmente nada mais de mal me aconteceria. Porque Miroke estava ali e como tinha feito até então, ele cuidaria de mim.
- Ele nunca deveria ter ido atrás daquele cavalo. _ eu comentei sem pensar, meus olhos se enchendo de lágrimas _ E nem eu...
Desculpem a demora.
Está aqui mais um capítulo. Espero que gostem.
Bjus
