Capítulo VIII – O Caminho das Necessidades
- NÃO!- gritou o Senhor Coelho no meio de um "campo de batalha" lotado de cadáveres de Baratas Gigantes Assassinas. – Não lhes cortes a cabeça!
"Essa era uma ideia a seguir", pensou David quando voltou a cortar a cabeça a uma Barata e a dar-se mais uma vez conta de que tal era inútil. Parecia não fazer qualquer efeito sobre elas, apenas as deixava mais furiosas! Felizmente não eram como a Hidra, o monstro mitológico que tinha visto uma vez na lenda de Hércules: sempre que lhe cortavam a cabeças, nasciam mais três no seu lugar. Às Baratas não cresciam mais cabeças, mas pareciam funcionar bastante bem sem elas… Depois lembrou-se de terem falado disso numa aula da Escola Experimental. As baratas podiam viver dias sem cabeça até morrerem de fome porque o cérebro delas estava noutro sítio qualquer! Não se conseguia lembrar qual o sítio, seria perto do estômago? Bem, isso agora também não importava, com ou sem cabeça, elas não poderiam sobreviver se fossem cortadas ao meio!
- Iurc! – deixou escapar David quando a batalha (não sabia quanto tempo durara, sentia-se como se tivesse sido transportado para uma outra dimensão enquanto cortara às postas as Baratas e regressava agora num estado lastimável de sangue seco de Barata e outro liquido que preferia não tentar descobrir o que era) terminou. – Que nojo!
- Se não me engano há um lago nesse túnel aí à direita – retorquiu o Coelho, m pouco ofegante. – Sugiro que nos despachemos, rapazinhos. De certeza que os Gigantes ouviram esta barafunda e só não vieram ainda ver o que passava por estarem a decidir quem deveria vir. Felizmente para nós, eles perdem muito tempo em discussões quando tentam ser democráticos.
David assentiu e seguiu o Senhor Coelho pelo túnel da direita, imaginando o banho monumental que tomaria quando chegassem ao lago. O segredo dos Gigantes que teriam de desvendar podia esperar mais um pouco, não? Afinal, não tomava banho desde que saíra de Cair Parável à pressa e a meio da noite!
- Aqui estamos! – anunciou o Coelho com um ar satisfeito. Poucos passos mais à frente, estendia-se um manto de água azul clarinha que se tornava mais escura à medida que se distanciava do local onde eles estavam.
- Como é que estas tochas vieram aqui parar? – perguntou David olhando para a fonte de luz do local. – E como é que aquela espada apareceu do nada ao pé da parede?
- Calma, rapazinho, calma! Cada pergunta sua resposta, mas entremos primeiro na água que já te respondo. Não me lembro de me sentir assim imundo desde que fui brincar com um Porco Falante meu amigo. Éramos tão jovens! Ainda nem sei como aceitei em me rebolar na lama com aquele malandro! Grandes partidas que pregamos juntos, ainda me lembro quando…
David entrou na água sem tirar as roupas. Primeiro porque não achava ético faze-lo ali onde poderia ser visto por qualquer um (sim, porque apesar de ser uma rede de túneis e cavernas já se apercebera de que era um local muito frequentado!), segundo porque tinha vergonha de o fazer em frente do Senhor Coelho (que, diga-se de passagem, também não tirou o seu pêlo – isso seria possível?) e terceiro porque as roupas estavam tão ou mais sujas do que ele e também precisavam de um bom banho.
- Ora bem – começou o Coelho quando ambos já se tinham esfregado com toda a força e retirado a maior parte da sujidade. – As tuas perguntas têm a mesma resposta. Estas tochas, a espada que tinhas há bocado e a zinuel que eu usei foram-nos dadas pela caverna. Toda esta rede de túneis e cavernas é conhecida pelo Caminho das Necessidades.
- Caminho das Necessidades?
- Sim. É a melhor estrada de qualquer jornada, acredita. Infelizmente só existe neste sitio e por isso só a podes utilizar quando viajares para estes lados. Foi ele que quis que viesses aqui parar. Apesar de o seu poder ser muito mais pequeno à superfície, conseguiu atrair-te até aqui.
- Ele atraiu-me? Ele quem? Não percebo.
- O Caminho das Necessidades, rapazinho! Não é um caminho inanimado, sabes? O Caminho das Necessidades é uma entidade pensante! Tem sentimentos, pensamentos e mais poder do que tu ou eu juntos.
- Mas menos do que Aslan.
- Claro que tem menos poder do que Aslan, rapazinho! Que comentário pouco perspicaz! Ninguém é mais poderoso do que Aslan!
- Mas então… O Caminho das Necessidades é um ser que ajuda todos os que nele viajam?
- Então, rapazinho! Isso nem parece teu! Claro que não, imaginas a confusão que seria se ele ajudasse todos os que cá andassem? Teria também de ter ajudado as Baratas ao mesmo tempo que nos ajudava a nós e nunca mais saiamos daquilo! O Caminho das Necessidades ajuda aqueles que muito bem entende! Felizmente para nós, resolveu estar do nosso lado. Não que isso seja uma novidade para mim, é graças a ele que posso viver o resto dos meus dias em paz nestas cavernas – ou não tão em paz desde que apareceste.
- E o que é uma zinuel?
- Era a arma que eu tinha, rapazinho.
- Era tão estranha!
- A sua forma varia conforme os olhos de quem a vê. Para mim não passava de uma mera faca de cozinha. Ás Baratas deveria ser algo de que elas tinham mesmo muito medo… Que te parecia a ti, rapazinho?
- Uma coisa que nunca tinha visto… Parecia um machado mas mais elaborado, com correntes e todo vermelho!
- Realmente estranho… -murmurou o Coelho. – És uma personagem interessante, Filho de Adão… Lembro-me de uma vez em que encontrei um Centauro… Tão curiosos que são os Centauros! Mas irritam-me um bocado, sabes rapazinho? Parece que sabem sempre tudo! Não se calam com as profecias das suas estrelas… E o pior é que acertam mesmo! Mas não divaguemos mais! Já tomamos o nosso banho, os Gigantes já devem ter passado à decisão ditatorial e decidido quem iria fazer o reconhecimento… Com certeza que já voltaram e que já acalmou tudo. Voltemos aos nossos propósitos originais e não voltemos a desviarmo-nos.
- E se voltarmos a encontrar um Batalhão de Baratas Gigantes ou coisa do género?
- Aí voltamos a desviarmo-nos – retorquiu o Senhor Coelho. – Mas só nesses casos.
