Capítulo 8
NENHUM A MENOS

Logo pela manhã cedo, a diretora convocou o que restou dos alunos ao refeitório para fazer um anúncio. Estavam sentados à mesa Rony, Hermione e Parvati quando se achegaram os demais personagens; Harry, Mary Sue, Lilá, Fernando, Bellatrix, Draco e Dino.

– DINO? – chocaram-se Rony e Parvati. – Você ainda está vivo?

O rapaz sentou-se com a maior fleuma e os encarou com uma expressão de "é claro! Que pergunta mais doida!", enquanto passava manteiga num pãozinho.

– Mas você não tinha morrido naquela explosão horrorosa no banheiro da escola, ontem? – insistiu o ruivo.

– Claro que não! – riu-se Dino. – Se estivesse morto, estaria lançando moda entre os fantasmas: ter corpo!

– Bem, tecnicamente... – Hermione começou a falar. – Os fantasmas têm corpo sim, ainda que seja apenas uma projeção astral, ou mesmo uma massa espectral de consistência duvidosa...

– Isso é impossível! – Parvati e Rony falaram ao mesmo tempo, interrompendo a explanação de Hermione. – Você deveria estar morto!

– Claro que não! Ninguém se lembra do último capítulo da fic passada? Eu só vou morrer aos 78 anos! De depressão! Acho que é porque no Mundo Mágico não tem Prozac, né?

Parvati exibia uma expressão de absoluta pasmaceira. Rony também estava perplexo.

– Como você escapou? – perguntou a morena, ignorando a ponderação de Dino sobre a ausência de medicamentos a base de Lítio entre os bruxos.

– Aparatei, ué! Aliás, muito me espanta que ninguém mais tenha pensado em aparatar pra fugir do maníaco! A gente aprendeu a aparatar no ano passado pra esse tipo de coisa! Fugir de assassinos em série, escapar de marido corno que chega em casa mais cedo, fugir de blitz da polícia, etc, etc...

A diretora batucou duas vezes no microfone para testar se ele estava funcionando.

– Som? Alô, som! Som! Um, dois, três, testando! Som! Som!

– Tá tudo funcionando! Pode falar! – um dos técnicos de som mandou um sinal de OK pela janela da caixa acústica.

A diretora se aprumou, preparou a garganta e começou a falar ao microfone, num tom melodramático:

– Infelizmente, tenho más notícias para lhes dar! Como a grande maioria dos alunos foi:

1) queimada viva no incêndio da cantina;

2) estripada por um maluco com motosserra; e/ou

3) alvo de atentados terroristas de todas as sortes;

– E como quase todas as dependências da Escola foram:

1) incendiadas;

2) explodidas;

3) dilapidadas;

4) saqueadas;

5) destruídas;

6) reduzidas a farrapos; e/ou

7) redecoradas a gosto duvidoso de alguma aluna cafona ainda não-identificada;

– E como alguns dos professores foram:

1) demitidos por transformar o ponche em cachaça;

2) capados pela protagonista depois de saírem dando tiros pela Escola; e/ou

3) convidados a apadrinhar a versão masculina do Rouge e deixaram a Escola;

– É meu triste dever anunciar que a Escola está fechando suas portas e que todos os alunos serão transferidos para outro colégio, infelizmente, sem prancheiro na porta!

A Diretora deixou o palco de avisos, e todos os alunos se entreolharam chocados.

– Não é possível! – murmurou Harry.

– Justo agora que eu começava a ficar mais enturmada... – choramingou Hermione.

– Como assim, sem prancheiro na porta? – indignou-se Fernando.

No começo da tarde, todos estavam colocando suas malas nas carruagens que as levariam até o outro colégio. Os alunos pareciam um bando de vacas a caminho do abatedouro. Mary Sue parecia a mais desolada de todas.

– Não sei o que é mais "ninguém merece!" – chiou a moça. – Se é esse colégio de quinta pra onde eu tenho de ir, ou se é a narração do evento!

Bellatrix apareceu toda produzida, segurando uma necessaire preta, com um enorme chapéu na cabeça e um grande par de óculos escuros no rosto.

– O que é isso? – perguntou Mary Sue. – Está fantasiada de Maria Callas?

– Vou embora, meus queridos! – respondeu a estrela. – Voltarei a Los Angeles! Não havia nada no meu contrato sobre a possibilidade de trocar de set de filmagem! Os autores que se entendam com meus advogados!

Bellatrix lançou um beijo para a galera e entrou numa vistosa limusine preta, que arrancou para o aeroporto internacional. O resto do grupo admirou o carro desaparecer no horizonte, como no final de um filme brega em que o bem triunfa sobre o mal, e os heróis vivem para admirar a aurora de uma nova era de amor e confraternização.

– Isso é tão injusto! – protestou Parvati. – Por que ela pode vazar, e nós somos obrigados a ir para um colégio pior?

– Não temos outra escolha, Parvati! – disse Hermione. – Que nos resta senão esperar o nosso fatídico destino, tal qual Cassandra no topo das muralhas de Ílion?

– Ai, Hermione! – Parvati irritou-se. – Será que é possível passar um único minuto sem ser essa imensa nerd feia que você é?

As duas meninas começaram a se engalfinhar loucamente, como de hábito. Cansados de sempre separar as brigas das duas, os demais personagens deixaram elas se espancarem até cansar.

– RONY! – gritou Hermione. – Defende a sua namorada, seu imprestável!

– Só um minuto! – disse o ruivo, que xavecava uma moçoila logo ali.

– Esse Rony... – Mary Sue balançou a cabeça negativamente. – Bastou o serial killer matar Ana Luísa, a vadia, pra ele encontrar outra qualquer dando mole pelo que restou da escola!

– É... Ele pega qualquer uma... É a famosa carne de final de semana: dura e ruim, mas o que importa é que tá comendo! – comentou Draco. Depois acrescentou, olhando para Harry. – Sem ofensas, Harry!

– Tudo bem... Não me ofendo! – respondeu Harry, com um olhar meio desolado. – O que eu e o Rony tivemos foi especial! Não é como essas pegações com essas vadias.

Draco olhou pra Harry com pena, e Mary Sue baixou a cabeça com uma expressão de "eu não mereço, meu Deus!" estampada no rosto. Dino se aproximou e avisou os amigos:

– Ei, galera! Estão abordando as carruagens! Lilá e Fernando já estão numa. Vamos lá! É a nossa vez!

Draco tomou a dianteira, procurando em volta por Gina, sua namoradinha. Mary Sue veio logo atrás pagando um esporro federal em Harry ("você precisa parar com essas viadagens! E pára de chorar, seu fresco!"). Parvati e Hermione finalmente pararam de brigar, levantaram-se do chão e juntaram-se ao grupo. Rony vinha por último, fechando a braguilha das calças e dando adeusinho para sua última conquista ("Tchau, gata! Eu te ligo!").

– Alguém viu a Gina? – perguntou Draco. – Não a encontro em lugar nenhum!

– Tu perdeu minha irmã, cumpádi? – Rony o agarrou pelo colarinho. – Aê, maluco! É bom tu achar a mina, senão tu tá fudido na minha mão!

Draco deu um socão na cara de Rony e pediu para ele se controlar. Mary Sue começou a olhar em volta. Nenhum sinal da menina. Em questão de minutos, todos estavam procurando por Gina Weasley, desaparecida.

– Ela desapareceu completamente! – falou Dino. – Não está em lugar algum.

– Não é possível! – desesperou-se Draco. – Ela estava aqui, do meu lado, hoje de manhãzinha!

– VAMOS TER CALMA, GENTE! PELO AMOR DE DEUS! – gritou Parvati.

– Desculpem-me! Eu me exaltei. – Draco recompôs-se.

– VAMOS TER CALMA, PESSOAL! NÓS VAMOS ENCONTRÁ-LA!

– Parvati! Já estamos calmos! – disse Hermione.

– CONTROLEM-SE! POR CRISTO! ESTÃO AGINDO COMO LOUCOS! ISSO É LOUCURA, EU VOS DIGO! UAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHH!

– Parvati! Olha o escândalo! – Mary Sue cobriu o rosto enrubescido.

– ISSO NÃO SIGNIFICA QUE AQUELE ASSASSINO MALUCO VOLTOU E VAI MATAR TODOS NÓS! FIQUEM TRANQUILOS! O SELACANTO VAI NOS SALVAR!

– Isso! O buraco do Selacanto! – Draco estalou os dedos. – Vou ver se ela está brincando naquele buracão que ela cavou!

– OK! – disse Dino. – E eu vou até a carruagem da Lilá e do Fernando pra ver se eles a viram!

Dino e Draco retornaram em questão de minutos. Rony, Hermione, Harry e Mary Sue assistiam à Parvati se retorcendo no chão, emitindo grunhidos e relinchos esquisitos.

– É como assistir a "O Exorcista" ao vivo! – comentou a bruxa-trouxa.

– Nenhum sinal dela no buraco! – disse Draco. – E você? Teve mais sorte? Eles a viram?

– Nem! – respondeu Dino. – Mas a Lilá disse para nos apressarmos, que as carruagens já vão sair!

O louro olhou em volta, sem muitas esperanças de encontrá-la. No entanto, para surpresa geral, Gina surgiu, rodopiando do seu usual jeito tolkeniano.

– GINA! – Draco aproximou-se em rápidas passadas, até que parou subitamente.

Dino vinha logo atrás, e também se deteve diante do monstruoso FEDOR que a menina exalava.

– Que catinga é essa? – perguntou Mary Sue.

– É a Gina! – respondeu Hermione.

– Pô, Mione! – protestou Rony. – Não precisa esculachar! Nós semo pobre, mas semo limpinho!

– É ela mesmo, Rony! – insistiu Harry, que estendia a mão para ajudar Parvati a se levantar do chão.

De fato, a pequena Gina Weasley fedia mais que um gambá assustado dentro duma lata de lixo tóxico salpicado de xepa de feira e embebido em chorume. A causa do fedor era uma incógnita, mas a preocupação da galera mudou quando perceberam o estalar de chicotes, ordenando que as carruagens se pusessem em movimento.

– Oh, não! – gritou Hermione. – Vamos nos atrasar para o nosso primeiro dia na escola nova!

Todos se preparam para correr, mas precisaram parar por instante para admirar o quanto Hermione era nerd. Passada a pasmaceira, puseram-se todos a correr loucamente rumo ao portão.

– Essssperem – pediu Gina.

A manifestação (vinda de quem veio) fez com que todos brecassem imediatamente. Todos, meio surpresos, meio atônitos, viraram para a fedentina ruiva.

– Eu conhece outro caminho...

– Outro caminho? QUAL? – perguntou Mary Sue.

– Pelosssssss túneissssss ssssssssubterrâneossssss sssssssecretosssssss...

– Vai dar no outro colégio? – inquiriu Harry.

– Não... Vai dar nasssssss ruassssssssss...

Harry olhou para Mary Sue, que olhou para Draco, que olhou para Hermione, que olhou para Rony, que olhou para Parvati, que olhou para Dino. Todos os sete entendiam o que isso significava: LIBERDADE! Estavam livres de trocar para um colégio inferior, um grande antro, sem prancheiro na porta!

Outra vez o estalar de chicotes fez-se ouvir, e a galera lembrou-se de um pequenino detalhe: Lilá estava em uma das carruagens.

– Meu Deus! – gritou Parvati. – Ela vai ser levada praquele buraco de rato!

Draco disparou em direção às carruagens, correndo o máximo que suas pernas e seus pulmões podiam agüentar. Enquanto isso, Hermione e Mary Sue balançavam os braços como loucas, tentando fazer com que a loura as notasse. Já Rony, Dino e Harry tentavam conter Parvati que começava um segundo surto histérico.

Lilá notou Hermione e Mary Sue balançando os braços.

– Ué? Por que será que elas estão mandando tchauzinho? – pensou a loura, enquanto respondia aos acenos.

– Pelo amor de Deus, Lilá! Você é mais esperta do que isso! – gritou Mary Sue.

Hermione agarrou um pergaminho e rabiscou rapidamente um bilhete com o recado para Lilá sair de dentro da carruagem. Ela abriu a gaiola de Edwiges e amarrou o recado em sua patinha.

– Voe como o vento, Edwiges!

– Espera um minuto! Que festa é essa com a minha coruja? – Harry tomou o animal das mãos de Hermione antes que ela pudesse colocar a coruja para voar. – Você não pode sair por aí pegando a coruja dos outros, não! Não te deram educação, menina?

– Harry! – Hermione chocou-se. – Pára de besteira! Essa coruja pode ser a única chance de salvar a Lilá!

– Tô nem aí! Você não pode simplesmente chegar e sair passando a mão nas coisas dos outros!

– Ai, Harry! Não acredito!

– Pode acreditar, cabeção! Primeiro você me rouba o Rony, agora acha que vai roubar a Edwiges? Nem pensar!

– Parem de brigar e me ajudem – falou Mary Sue, que sacudia um cobertor fazendo sinais de fumaça.

Da carruagem já em movimento Lilá observava os seus amigos ficarem cada vez menores.

– Queria saber o porquê de tanta agitação... Veja só, Fernando! Lá vem o Draco correndo como um louco, achando que vai poder alcançar a carruagem... Atrás, a coruja do Harry trazendo uma mensagem amarrada na patinha... Logo depois, a Mary Sue e a Hermione fazendo sinais de fumaça... Aí é o Harry com aquelas lanterninhas de sinalização de aeroporto... O Dino batucando qualquer coisa em código morse... O Rony com o bat-sinal... E, por fim, a Parvati caída no chão tendo uma entorse, ou um ataque epiléptico, ou algo parecido...

– Qual será o problema, hein? – perguntou Fernando, o surfista sarado, sem desviar o olhar de sua querida prancha que agora não mais poderia ser exibida no prancheiro na frente da escola.

– Sei lá... Vou lá ver!

– Como assim?

– Vou lá ver, ué!

Lilá saltou pela janela da carruagem, deu uma pirueta mortal, caindo montada no lombo de um hipogrifo que estava ali de bobeira – dando uma esticada nas patas... tirando uma água do joelho (hipogrifo tem joelho?)...

A menina batucou com força no flanco do bicharoco, direcionando seu vôo em direção a Draco. O louro, por sua vez, agarrou-se ao pescoço e, num giro perfeito, como o de Orlando Bloom em "O Senhor dos Anéis: as Duas Torres", montou no hipogrifo.

– Qual é o motivo de tanta animação? – perguntou a lourinha ao lourão.

– Gina encontrou uma passagem secreta! Estamos livres! Não vamos precisar ir àquele buraco de rato!

Lilá parou o hipogrifo, virando-o em direção às carruagens que desapareciam no horizonte.

– Mas... E o Fernando?

– Infelizmente, ele terá de ir... Não pode haver triunfo sem perdas, nem vitória sem sofrimento, nem liberdade sem sacrifícios, Lilá!

– Bem, antes ele do que eu!

O hipogrifo pousou diante de Hermione e Mary Sue (que apagavam sua fogueira apache). Parvati se levantou do chão e foi dar um abraço na amiga. Rony desligou o bat-sinal, e Dino guardou seus tambores.

– Cadê a Edwiges? – perguntou Harry.

– Ué? Cadê? – Lilá olhou em volta. – Podia jurar que ela veio voando na nossa direção. Ela devia estar por aqui...

Nesse momento o hipogrifo, em cujo bico podia-se perceber um punhado de penas brancas, saiu de fininho e alçou vôo.

Todos pararam diante de Gina Weasley. Quem tomou a palavra foi Draco. Ele disse:

– Muito bem, Gina! Mostre o caminho!

Continua no Próximo Capítulo...