Bella olhou seu novo quarto e se perguntou como diabos ia poder tornar seu esse espaço impossível. Tudo no quarto refletia fortuna. Fortuna antiga. Duvidava que houvesse algum móvel com menos de duzentos anos. O quarto da condessa estava muito decorado e era pretensioso, e Bella se sentia tão em casa como no castelo de Windsor.

Aproximou-se do baú aberto e procurou algo que servisse para transformar o quarto em um espaço mais familiar e quente. Tocou o retrato de sua mãe. Isso seria um bom começo. Cruzou o quarto até a cômoda e colocou o retrato, de costas à janela para que a luz natural não o danificasse.

-Perfeito - disse com suavidade. - Aqui ficará muito bem. Não se fixe em todas estas sérias anciãs que a olham. - Bella olhou as paredes, que estavam cheias de condessas anteriores, embora nenhuma parecia muito amável. - Vocês desaparecerão amanhã - murmurou, sem sentir-se estúpida por estar falando com as paredes. - Esta noite poderei suportar.

Cruzou o quarto até o baú para seguir procurando objetos familiares. Estava rebuscando entre suas coisas quando alguém bateu na porta.

Billington. Tinha que ser ele. Sua irmã havia lhe dito que os criados nunca batiam na porta. Ela tragou saliva e disse:

-Entre.

A porta se abriu e apareceu ele que fazia menos de vinte e quatro horas que era seu marido. Estava vestido de forma informal, posto que havia tirado a jaqueta e a gravata. Bella não pôde afastar o olhar da pequena parte de pele que aparecia por cima do pescoço da camisa desabotoado.

-Boa noite - disse Edward.

Bella o olhou nos olhos.

-Boa noite - tinha falado como se o dissesse alguém a quem a proximidade de Edward não alterasse. Por desgraça, tinha a sensação de que ele via além de sua alegre voz e seu amplo sorriso.

-Está se instalando? Está tudo bem? - Perguntou ele.

-Sim, muito bem. - Ela suspirou. - Bom, de fato, não tão bem. - Ele arqueou uma sobrancelha. - Este quarto me intimida - explicou ela.

-O meu está no outro lado dessa porta. Será bem-vinda a se instalar ali, se quiser.

Ela ficou boquiaberta.

-Há uma porta que conecta com seu quarto?

-Não sabia?

-Não, pensava que... Bom, na realidade não pensei onde levavam todas estas portas.

Edward cruzou o quarto e começou a abrir as portas.

-Banho. Quarto de vestir. Armário - dirigiu-se para a única porta que havia na parede leste do quarto e a abriu. - E voila, o quarto do conde.

Bella conteve a urgência de soltar uma gargalhada nervosa.

-Imagino que muitos condes e condessas preferem os quartos contíguos.

-Na realidade, nem tantos - disse ele. - As relações entre meus antepassados eram tempestuosas. A maioria dos condes e condessas de Billington se detestavam a morte.

-Minha nossa - suspirou Bella. - Que alentador.

-E os que não... - Edward fez uma pausa para pôr ênfase em suas palavras e desenhar um sorriso selvagem. - Bom, estavam tão perdidamente apaixonados que ter quartos e camas separadas era algo impensável.

-Imagino que nenhum encontrou o meio termo, não é?

-Só meus pais - respondeu ele enquanto encolhia de ombros. - Minha mãe tinha suas aquarelas, e meu pai, seus cães de caça. E sempre tinham uma palavra amável para o outro quando seus caminhos se cruzavam, que não era muito frequentemente, claro.

-Claro - repetiu Bella.

-Obviamente, está claro que se encontraram no mínimo uma vez - acrescentou Edward. Minha existência é a prova irrefutável.

-Por todos os Santos, olhe que desgastado está o damasco - disse ela em voz alta enquanto se aproximava para tocar um divã.

Edward sorriu diante da descarada mudança de assunto.

Bella avançou e apareceu pela porta. O quarto de Edward estava decorado com menos pompa e opulência que o seu e gostava muito mais do dele.

-Sua decoração é muito bonita - disse.

-Reformei-a faz vários anos. Acho que a última vez que alguém fez mudanças neste quarto foi meu bisavô. Tinha um gosto terrível.

Bella se virou para seu quarto e fez uma careta.

-E sua mulher também.

Edward riu.

-Troque e decore o que quiser.

-Seriamente?

-Claro. Não se supõe que é o que fazem as esposas?

-Não sei. É a primeira vez que sou uma.

-Eu tampouco tive alguma antes - elevou o braço, tomou sua mão e acariciou a sensível palma com os dedos. - E me alegro de tê-la.

-Alegra-se de poder conservar sua fortuna - ela respondeu, que sentia a imperiosa necessidade de manter certa distância entre os dois.

Ele soltou a mão.

-Tem razão.

Bella se surpreendeu que ele admitisse quando esteve se esforçando tanto para seduzi-la. O materialismo e a avareza não formavam parte dos assuntos de conversa mais apropriada para seduzir a uma mulher.

-Embora também esteja muito contente em lhe ter - continuou ele com uma voz calma.

Bella não disse nada, mas, no final, não pôde mais e estalou:

-Isto é terrivelmente incômodo.

Edward ficou imóvel.

-O quê? - Perguntou com cautela.

-Isto. Mal o conheço. Não sei... Não sei como me comportar em sua presença.

Ele sabia perfeitamente como queria que se comportasse, mas isso implicava que Bella tirasse toda a roupa e tinha a ligeira impressão que ela não acharia nenhuma graça.

-Quando nos conhecemos não parecia ter nenhum problema sendo a garota terminante e divertida que é - disse ele. - Resultou-me do mais refrescante.

-Sim, mas agora estamos casados e quer...

-Te seduzir? - Disse ele.

Ela ruborizou.

-É necessário dizer em voz alta?

-Não acredito que seja um segredo, Bella.

-Já o sei, mas...

Ele acariciou no queixo.

-O que houve com a explosiva mulher que me curou o tornozelo, machucou-me nas costelas e não permitiu nenhuma só vez que dissesse a última palavra?

-Essa mulher não estava casada contigo - respondeu Bella. - Não te pertencia diante dos olhos de Deus e da Inglaterra.

-E diante de seus olhos?

-Pertenço a mim mesma.

-Preferiria pensar que nos pertencemos um ao outro - refletiu ele. - Que somos um.

Pareceu para Bella uma bonita forma de expressá-lo, mas igualmente disse:

-Isso não modifica o fato de que, legalmente, pode fazer o que quiser comigo.

-Mas prometi que não o farei. Não sem sua permissão - quando ela não respondeu, ele acrescentou: - Pensei que isso serviria para que relaxasse na minha presença. Para que fosse você mesma.

Bella digeriu essas palavras. Tinham sentido, mas não tinha em conta que seu coração pulsava três vezes mais depressa cada vez que ele roçava seu queixo ou acariciava seu cabelo.

Podia tentar ignorar a atração que sentia por ele quando falavam; as conversas com ele eram tão agradáveis que parecia que estava falando com um velho amigo. Entretanto, frequentemente ficavam calados e o via olhá-la como um gato faminto, e as vísceras se encolhiam e...

Meneou a cabeça. Pensar em tudo aquilo não a estava ajudando.

-Houve algo? - Perguntou Edward.

-Não! - Respondeu ela, com mais ímpeto do que pretendia. - Não - repetiu, desta vez mais tranquila. - Mas tenho que acabar de desfazer a bagagem, e estou muito cansada, e estou certa de que você também.

-O que quer dizer?

O tomou pelo braço e o levou até seu quarto.

-Que foi um dia muito longo, e que é certo que nós dois precisamos descansar. Boa noite.

-Boa... - Edward amaldiçoou entre dentes. A muito descarada tinha fechado a porta na cara.

E nem sequer tinha tido a oportunidade de beijá-la. Seguro que, em algum lugar, alguém estava rindo a gargalhadas.

Edward baixou o olhar até seu punho fechado e disse que, ao menos, sentir-se-ia muito melhor se pudesse encontrar a esse "alguém" e lhe dar um bom soco.

No dia seguinte, Bella despertou cedo, como estava acostumada a fazer, pôs seu melhor vestido, embora suspeitasse que fosse muito velho para a condessa de Billington, e se dispôs a explorar sua nova casa.

Edward havia dito que podia redecorar a casa. Estava muito emocionada diante da ideia. Entusiasmava-lhe planejar projetos e alcançar metas. Não queria reformar toda a casa, porque gostava da idéia de que este antigo edifício refletisse os gostos de todas as gerações dos Masen. Entretanto, seria bonito ter várias habitações que representassem o gosto da atual geração Masen.

"Isabella Marie Masen". Pronunciou seu nome várias vezes e, no final, decidiu que poderia acostumar-se a ele. A parte que lhe custaria mais seria a de ser a condessa de Billington.

Desceu as escadas, cruzou o salão e entrou em várias salas. Encontrou a biblioteca, e emitiu um suspiro de aprovação. As paredes estavam forradas de livros do chão até o teto, e os lombos de couro brilhavam sob as primeiras luzes do dia. Poderia viver noventa anos e não poderia ler todos.

Aproximou-se para ler alguns dos títulos. O primeiro foi: 'Inferno cristão: o diabo, a terra e a carne.' Bella sorriu e decidiu que seu marido não era o responsável por aquela compra.

Viu uma porta aberta na parede oeste da biblioteca e se aproximou para bisbilhotar. Olhou e se deu conta de que devia ter descoberto o escritório de Edward. Estava limpo e ordenado, exceto a mesa, que estava tão cheia de coisas que demonstrava que seu marido passava ali com frequência.

Como teve a sensação de ser um pouco intrusa, retrocedeu e retornou ao salão. Finalmente, encontrou a sala de jantar informal.

Lá estava Esme Evenson, bebendo um chá e com uma torrada com geléia na mão. Bella não pôde evitar fixar-se que a torrada estava queimada.

-Bom dia! - Exclamou Esme enquanto ficava de pé. - Levantou muito cedo. Nunca tinha tido o prazer de ter companhia durante o café da manhã. Ninguém desta casa madruga tanto como eu.

-Nem sequer Alice?

Esme riu.

-Alice só se levanta cedo nos dias que não tem aula. Nos dias como hoje, a preceptora quase tem que lhe jogar um balde de água fria na cabeça para tirá-la da cama.

Bella sorriu.

-Uma garota preparada. Eu também tentei seguir dormindo depois do amanhecer, mas nunca o consigo.

-Me acontece o mesmo. Rosalie diz que sou uma Bárbara.

-Minha irmã me dizia o mesmo.

-Edward está acordado? - Perguntou Esme enquanto elevava a mão para pegar outra xícara de chá. - Quer?

-Por favor. Com leite e sem açúcar, obrigado. - Bella observou como Esme lhe servia o chá e logo disse: - Edward ainda está na cama.

Não estava certa se seu novo marido tinha compartilhado com sua prima a autêntica natureza de seu casamento, mas ela não tinha a confiança suficiente para fazê-lo. Nem acreditava que tivesse que fazê-lo.

-Gostaria de uma torrada? - Perguntou Esme. - Temos duas geléias de cítricos distintas e três de frutas doces.

Bella viu os miolos escuros que havia no prato de Esme.

-Não, mas obrigada.

Esme segurou a torrada no ar e disse:

-Não parecem muito apetitosas, não é?

-Não poderíamos ensinar à cozinheira a preparar uma torrada decente?

Esme suspirou.

-O café da manhã é preparado pela governanta. O cozinheiro francês insiste em que a comida da manhã não é digna dele. E temo que a senhora Cope é muito velha e teimosa para mudar agora. Insiste que prepara torradas com perfeição

-Possivelmente é culpa do forno - sugeriu Bella. - Foi revisado?

-Não tenho nem idéia.

Com uma onda de determinação, Bella jogou a cadeira para trás e se levantou.

-Vamos dar uma olhada.

Esme piscou várias vezes antes de perguntar:

-Quer revisar o forno? Você?

-Levei toda a vida cozinhando para meu pai - explicou Bella. - Sei um par de coisas sobre fornos e cozinhas.

Esme se levantou, mas sua expressão era indecisa.

-Está segura que quer ir à cozinha? À senhora Cope não ficará satisfeita..., sempre diz que é antinatural que os nobres fiquem no andar de baixo. E monsieur Stefan fica furioso se suspeitar que alguém tenha tocado em algo em sua cozinha.

Bella a olhou com amabilidade.

-Esme, creio que teremos que recordar que é nossa cozinha, não acha?

-Parece que monsieur Stefan não compartilha esse critério - respondeu Esme, mas a seguiu até o salão principal. - É muito temperamental. E a senhora Cope também.

Bella avançou alguns passos mais antes de dar-se conta de que não tinha nem ideia aonde ia. Virou-se para Esme e disse:

-Poderia me guiar? É difícil jogar às cruzadas vingativas quando a gente não sabe onde está a Terra Santa.

A mulher riu e disse:

-Me siga.

As duas avançaram por um labirinto de corredores e escadas até que Esme ouviu o inequívoco ruído da cozinha do outro lado da porta que tinha adiante.

-Não sei você, mas, em minha casa, a cozinha estava justo ao lado da sala de jantar. E, se quiser minha opinião, era extremamente cômodo.

-A cozinha faz muito ruído e desprende calor - explicou Esme. - Edward fez o que pôde para melhorar a ventilação, mas segue sendo asfixiante. Faz quinhentos anos, quando construíram Masen Abbey, o calor devia ser insuportável. Não culpo o primeiro conde por não querer receber os seus convidados tão próximos da cozinha.

-Imagino - murmurou Bella, e então abriu a porta e em seguida descobriu que o primeiro conde tinha sido muito inteligente. A cozinha de Masen Abbey não tinha nada em comum com a pequena cozinha que ela tinha compartilhado com seu pai e sua irmã. Havia inumeráveis cerâmicas penduradas do teto e, no centro da cozinha, havia várias mesas de trabalho de madeira, e contou até quatro cozinhas e três fornos, incluindo um tipo colméia acasaladas dentro de uma chaminé com o fogo aberto. A essa hora da manhã não havia muita atividade, mas se perguntou como seria antes de um grande jantar. Imaginou que seria um caos, com cada panela, frigideira e utensílio em uso.

Havia três mulheres preparando comida no extremo mais longínquo. Parecia que duas eram ajudantes de cozinha, e estavam lavando e cortando carne. A outra mulher era um pouco mais velha e tinha a cabeça dentro de um forno. Bella supôs que seria à senhora Cope.

Esme limpou garganta e as duas garotas se voltaram para ela. A senhora Cope se levantou muito depressa e golpeou a cabeça no extremo do forno. Emitiu um uivo de dor, murmurou algo que Bella estava segura que seu pai não teria gostado e se levantou.

-Bom dia, senhora Cope - disse Esme. - Eu gostaria de lhe apresentar à nova condessa.

A mulher fez uma reverência, igual às duas ajudantes.

-Milady - disse.

-Asseguro que irá querer algo frio para o galo - disse Bella em seguida, muito cômoda agora que tinha conseguido algo que fazer. Avançou para as garotas. - Alguma de vocês seria amável de me mostrar onde guardam o gelo?

As garotas ficaram imóveis uns segundos, até que uma delas disse:

-Irei buscá-lo e o trarei, milady.

Bella se virou para Esme com um sorriso envergonhado.

-Não estou habituada a alguém me trazendo as coisas.

Esme apertou os lábios.

-Percebo.

Bella cruzou a cozinha até onde estava a senhora Cope.

-Me deixe vê-lo.

-Não, de verdade, não é nada - disse rapidamente a governanta. - Não necessito...

Entretanto, os dedos de Bella já tinham encontrado o galo. Não era muito grande, mas seguro que doía.

-Claro que sim - disse. Pegou um pedaço de pano que viu em uma das mesas, envolveu um pedaço de gelo que uma das garotas estava oferecendo e o apertou contra o galo da governanta.

A senhora Cope se queixou e, entre dentes, disse:

-Está muito frio.

-Claro - respondeu Bella. - É gelo - virou-se para Esme com uma expressão exasperada, mas sua nova prima estava cobrindo a boca com uma mão e parecia que estava fazendo um grande esforço por não rir. Bella abriu os olhos como pratos e moveu o queixo para frente, em uma petição de colaboração silenciosa.

Esme assentiu, respirou fundo um par de vezes para acalmar a risada e disse:

-Senhora Cope, Lady Billington veio à cozinha para revisar os fornos.

A governanta virou a cabeça lentamente para Bella.

-Como diz?

-Esta manhã, não pude evitar notar que as torradas estavam um pouco queimadas - disse a jovem.

-À senhora Evenson gosta assim.

Esme esclareceu garganta e disse:

-Na realidade, senhora Cope, prefiro as torradas menos queimadas.

-E por que não disse alguma vez?

-Fiz-o. E me disse que, independentemente do tempo que as torrasse, saíam assim.

-Só posso concluir - interveio Bella. - Que o forno está quebrado. E como tenho muita experiência com cozinhas e fornos, pensei que possivelmente poderia dar uma olhada.

-Você? - Perguntou a senhora Cope.

-Você? - Perguntou a ajudante de cozinha número um (como Bella a chamava mentalmente).

-Você? - Perguntou a ajudante de cozinha número dois (por defeito, claro).

As três ficaram atônitas. Bella disse a si mesma que o único motivo pelo qual Esme não estava boquiaberta e tinha repetido a mesma pergunta pela quarta vez era porque já o tinha feito acima, na sala de jantar.

Bella franziu o cenho, apoiou as mãos nos quadris e disse:

-A diferença da opinião popular, é possível que, de vez em quando, uma condessa possua um ou dois talentos úteis. Inclusive possivelmente alguma habilidade.

-Sempre me pareceu que bordar era bastante útil - disse Esme. Virou-se para o enegrecido forno. - E é um hobby bastante limpo.

Bella lhe lançou um olhar fulminante e, entre dentes, sussurrou:

-Não está ajudando.

Esme encolheu os ombros, sorriu e disse:

-Creio que deveríamos deixar que a condessa desse uma olhada no forno.

-Obrigada - disse Bella, com o que lhe pareceu que foi uma grande dose de dignidade e paciência. Virou-se para a senhora Cope e perguntou: - Qual forno utiliza para fazer as torradas?

-Esse - respondeu a governanta enquanto assinalava o mais sujo de todos. - Os outros são do franchuten. Não os tocaria nem que me pagassem.

-São importados da França - explicou Esme.

-Ah - disse Bella, que tinha a sensação de estar em um sonho muito estranho... - Bom, estou certa de que não podem se comparar com os nossos robustos fornos ingleses - aproximou-se do forno, abriu a porta e em seguida se virou e disse: - Sabem uma coisa? Poderíamos economizar muitos problemas se utilizássemos umas pinças de tostar.

A senhora Cope cruzou os braços e disse:

-Jamais utilizarei essas coisas. Não confio.

Bella não entendia de onde procedia a desconfiança para essas pinças, mas disse a si mesma que não valia a pena insistir, assim que arregaçou o vestido por cima dos tornozelos, ajoelhou-se e colocou a cabeça no forno.

Edward estava há vários minutos procurando a sua nova esposa e a busca o levou, embora parecesse improvável, até a cozinha. Um lacaio lhe jurou que, fazia uma hora, tinha visto Bella e Esme dirigir-se para lá. Ele não acreditava, mas, em qualquer caso, decidiu investigar. Bella não era uma condessa convencional, de modo que supôs que era possível que houvesse proposto apresentar-se ao pessoal da cozinha.

Não estava preparado para a visão que captaram seus olhos. Sua esposa estava de quatro com a cabeça... não, com meio torso metido dentro de um forno que Edward suspeitava que estava no Masen Abbey desde antes dos tempos de Cromwell. Sua reação inicial foi de terror: a cabeça lhe encheu de imagens do cabelo de Bella em chamas. Entretanto, Esme parecia tranquila, de modo que conseguiu reprimir a necessidade de entrar na cozinha e pôr Bella a salvo.

Retrocedeu um pouco para poder seguir observando sem que o vissem. Bella estava dizendo algo, embora, mas parecesse um grunhido, e em seguida a ouviu gritar:

-A peguei! A peguei!

Esme, a senhora Cope e as duas ajudantes de cozinha se aproximaram, claramente maravilhadas diante do progresso de Bella.

-Maldição, não consegui - disse ao final, em um tom que para Edward pareceu mal-humorado.

-Está certa de que sabe o que faz? - Perguntou Esme.

-Completamente. Só tenho que mover este ralo. Está muito alto - começou a tentar mover algo que, obviamente, não cedia, posto que caiu de bunda várias vezes. - Quando foi a última vez que limparam este forno?

A senhora Cope se tencionou.

-O forno está tão limpo quanto tem que estar.

Bella murmurou algo que Edward não ouviu e em seguida disse:

-Já está. Já a tenho - tirou um ralo chamuscado do forno e em seguida voltou a encaixá-la. - Agora só temos que afastar da chama.

Chama? Edward ficou gelado. Realmente estava brincando com fogo?

-Já está! - Bella retrocedeu e caiu de bunda uma vez mais. - Agora deverá funcionar bem.

Edward decidiu que aquele era um bom momento para anunciar sua presença.

-Bom dia, esposa - disse enquanto entrava na cozinha com uma atitude de tranquilidade fingida. O que Bella não via era que tinha as mãos agarradas com força detrás das costas. Era a única forma que Edward podia evitar aferrar-se aos ombros de Bella e arrastá-la até o quarto para um bom sermão sobre a segurança, ou a pouca segurança, da cozinha.

-Billington! - Exclamou Bella, surpreendida. - Está acordado.

-É óbvio que sim.

Ela se levantou.

-Devo ter um aspecto terrível.

Edward tirou um impoluto lenço branco do bolso.

-Tem um pouco de fuligem aqui - limpou a bochecha esquerda - e aqui - limpou a direita, - e é obvio também aqui - desta vez limpou o nariz.

Bella tirou o lenço das mãos porque não gostava de como arrastava as palavras.

-Não é necessário, milord - disse. - Sou perfeitamente capaz de limpar o rosto.

-Imagino que irá querer me explicar o que estava fazendo dentro do forno.

Asseguro que temos comestíveis suficientes em Masen Abbey, de modo que não tem por que se oferecer como prato principal.

Bella o olhou fixamente, porque não estava certa se ele estava tirando sarro.

-Estava arrumando o forno, milord.

-Temos criados que o fazem.

-Está claro que não - respondeu ela, irritada diante de seu tom. - Se não, não levariam dez anos comendo torradas queimadas.

-Eu gosto das torradas queimadas - respondeu ele.

Esme tossiu tão forte que a senhora Cope teve que lhe dar uns tapinhas nas costas.

-Bom, pois a mim não - disse Bella, e a Esme tampouco, assim somos maioria.

-Eu quero as torradas queimadas.

Todos se voltaram para a porta, onde estava Rosalie, de pé e com as mãos nos quadris.

Para Bella pareceu que a garota tinha uma atitude bastante militar para ter só quatorze anos.

-Quero o forno como antes - disse a garota com firmeza. - Quero tudo como antes.

Bella se entristeceu. Estava claro que sua nova prima não estava muito contente com a sua chegada.

-Está bem! - disse levantando as mãos. - Voltarei a pôr o ralo em seu lugar.

Tinha percorrido meio caminho até o forno quando a mão de Edward a agarrou pela gola do vestido e a puxou para trás.

-Não voltará a repetir essa perigosa operação - disse. - O forno ficará como está.

-Pensei que você gostava das torradas queimadas?

-Acostumarei-me.

Nesse justo momento, Bella quis rir, mas, por seu próprio bem, manteve a boca fechada. Edward lançou um beligerante olhar aos outros ocupantes da cozinha.

-Eu gostaria de falar a sós com minha mulher.

Como ninguém se moveu, gritou:

-Agora!

-Então, possivelmente deveríamos ir - disse Bella. - Em definitivo, a senhora Cope e as garotas trabalham aqui e nós não.

-Pois faz alguns minutos, você fez uma muito boa imitação de alguém que trabalha aqui - grunhiu ele, que de repente parecia mais petulante que zangado.

Bella o olhou com a boca aberta.

-É o homem mais estranho e teimoso que conheci em minha vida.

-Eu não coloco a cabeça em um forno - respondeu ele.

-E eu não como torradas queimadas!

-E eu... - Edward se deteve, como se tivesse dado conta de repente que não só estava mantendo uma estranha discussão com sua mulher, mas também o estava fazendo com público. Esclareceu garganta e a pegou pelo delicado pulso. - E eu acho que quero te mostrar a sala azul - disse em voz alta.

Bella o seguiu. Na realidade, não ficou outra opção. Edward saiu da cozinha quase correndo e, como o pulso de Bella estava preso na sua mão, ela se foi com ele. Não sabia onde foram; certamente, ao primeiro salão que Edward encontrasse e que lhes garantisse certa privacidade para brigar sem que ninguém os ouvisse. Sala azul... Já!

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Vou deixar meu comentários para o próximo... Estou sem tempo no momento, espero que vocês tenham gostado deste capítulo. Não esqueçam, deixem sua reviews! ツ

P.S.: Me desculpem se houver erros na ortografia acima (no ultimo cap depois de ter postado percebi que deixei passar alguns =x).