Focul Sacru
(circa 106 DC)
Draco Lucius era um oficial competente. Sabia exatamente o que precisava fazer, e agia com firmeza. Era respeitado pelos seus iguais, idolatrados pelos seus subordinados. Tinha capacidade de planejar bem seus ataques, e pulso para garantir que nenhum de seus soldados se tornaria um rebelde ou cometeria um erro que pusesse todos em risco. Era firme e, frequentemente, letal.
Seu pai, o senador Lucius Lucius não perdia uma chance de deixar claro para todos o quanto tinha orgulho do filho. Dizia que o rapaz era quase um César, que suas habilidades não eram menores na política que na batalha, e que não poderia temer a morte, a não ser pelo pesar de não poder ver o que o filho faria quando assumisse seu lugar de direito.
Draco não apreciava muito toda essa pompa, embora gostasse de sentir o carinho do pai. Lucius era um velho estóico, e não importava o que ele disesse, não mudaria de opinião. Ele não dava grandes ouvidos ao que o Imperador dizia - insistia que Trajano era apenas um menino, ainda que tivesse subido ao poder através de suas glórias em batalha - falava que não tinha a maleabilidade necessária para a verdadeira política, a educação tão enfatizada por toda a vida de Draco.
E justamente por essa educação, o rapaz não ficava tão feliz com todos esses anúncios. Trajano tinha vencido outros três pretendentes para assumir o trono imperial, e nada indicava que fosse apreciar o excesso de habilidade por parte de um dos seus oficiais. Pelo contrário, temia que louvor demais o impedisse de subir a um posto mais elevado, como Governador ou Procurador. Ficara bem claro nos últimos dez anos que procurar ser grande demais gerava inimigos demais, e disputas de poder não traziam benefício algum ao império como um todo.
Não que Trajano fosse como Domiciano, não era um autocrata nem um tirano. Mas certamente não apreciaria ouvir seu pai o louvando como o próximo pai do império enquanto o próprio imperador não tinha filho algum para sucedê-lo.
Todas estas coisas passavam pela cabeça de Draco enquanto ele ouvia com atenção os planos que estavam sendo traçados para a conquista da Dácia. Não era admissível que aqueles bárbaros se rebelassem mais uma vez, ao mesmo tempo, a última campanha contra o reino - a primeira de Draco - quase tornara-se um fracasso.
Pensava em como diria para Astória que estava de partida e provavelmente não voltaria à tempo de ver seu filho nascer - se é que voltaria, mas tais coisas não devem ser ditas a mulheres enquanto carregam crianças, elas já são capazes de imaginar o suficiente por elas mesmas, não havia motivo para lembrar dos perigos que correria. Não era um covarde. Estava habituado as durezas da vida militar, e mal podia se lembrar do tempo em que não as enfrentara.
Pensava em como obteriam a vitória.
Talvez fosse uma boa idéia sacrificar um touro para Mitra. Diziam, afinal, que ele era o deus dos soldados, o deus da vitória. Ainda que não fosse um bom deus romano, ele iria lutar próximo as suas terras, e agradá-lo jamais seria demais.
Riu, imaginando o que seu pai falaria disto. Ele nunca aprovara as crendices dos soldados comuns, mas Draco vivera muito mais tempo entre eles e sabia que, por mais que soasse tolo, algumas coisas realmente funcionavam. Fosse por conta de poderes maiores ou simplesmente porque aumentavam a confiança, geravam bom resultados. E em uma batalha, bons resultados são o que contam.
Era especialmente difícil estar seguindo para um conflito que já tinha começado. Haviam quase dois meses que a Flavia Felix estava se envolvendo em pequenos combates tentando aproximar-se da capital dos Dácios. Ser chamado para um cerco não era algo que animava grupo algum. Cercos eram sujos e deixavam os homens doentes. Muito pouca ação, o que muitas vezes gerava brigas internas - não se seus homens fossem brigar, claro, mas podia ser difícil controlar tantos grupos diferentes sob tantos centuriões.
Seria uma longa marcha, companhando o Danúbio desde onde este encontrava o Reno até a tão falada Sarmisegetusa. Draco costumava sentir-se irritado com serem movimentados por distâncias tão grandes - certamente haviam legiões mais próximas do que eles, e com menos problemas em sua fronteira! - mas desta vez sentia-se animado. As histórias contavam que a cidade jorrava de ouro e prata, os soldados falando animados sobre as maravilhas que poderiam encontrar, e ele apenas sentia-se divertido.
Parecia que cada passo que dava não o levava para mais longe de casa, e sim para mais perto. Podia sentir, em um formigar leve de suas mãos, que passaria muito tempo entre aquelas montanhas e florestas. Sua vida era ali. Os mais velhos implicavam dizendo que ele estava sofrendo da síndrome do pai de primeira viagem, que fica feliz em ver-se longe da esposa grávida, mas não tinha absolutamente nada a ver com Astória.
Não importava para ele se dentro da cidade jorravam fontes de vinho tinto ou se os arcos das casas comuns eram feitos de prata. O caminho até lá parecia ser feito de ouro, de uma mistura de climas e vidas diferentes, de uma paz que negava a guerra para a qual se preparavam naquele momento.
Sempre pensaria naquela longa marcha como sua última chance de paz.
Não tinham fontes de vinho. Não tinham sequer água depois que o exercito cortara completamente o abastecimento da cidade. Draco tinha dúvidas sobre a possibilidade de ganharem antes, mas certamente eles não sobreviveriam de puro ar. Eram talentosos, bons guerreiros, e não meros selvagens. No entanto, estava evidente que os romanos eram mais espertos.
Poderia ter sido mais simples, sem dúvidas. A cidade queimara até não restar quase nada, certamente nada de valor tinha sobrevivido ao saque. Nem mesmo o rei, que preferira o suicidio à prisão. Draco não podia fingir que não tinha certa simpatia pela atitude do sujeito. Antes morto do que preso como um animal na jaula.
O fim de uma batalha é sempre algo horrível, mas já não o chocava tanto assim. Apenas tentava manter o controle para que os espólios fossem bem divididos, para que nada daquilo que pudesse ser útil para eles fosse arruinado, e que dois homens não se bateriam a respeito de uma coisinha bonita qualquer que certamente não estava interessada em nenhum dos dois.
Estava apenas andando, garantindo que tudo estivesse seguindo curso comum, quando percebeu uma pequena comoção. Caminhando diretamente, ele achou um homem de cabelos bagunçados e olhos verdes fazendo de tudo para proteger sua mulher com uma espada cega. Era habilidoso, mas estava em uma desvantagem de três para um. Normalmente, teria encorajado os rapazes a procurarem alguma presa menos problemática, mas o outro afundou o crânio de um novato com o punho da espada. A raiva subiu a cabeça, e com três movimentos fluidos, ele tinha transpassado o pescoço do sujeito com sua espada, sem que ele mal visse de onde surgira o agressor.
O sangue quente espirrou e a garganta fez terríveis sons afogados. A moça que ele tentava esconder parecia uma das sacerdotisas de Persefone ou das demais deusas do submundo, coberta do sangue vermelho e vivo de seu amante. Ela gritara tentando avisá-lo, mas agora apenas olhava com incredulidade para a cena em torno de si.
"Vão embora. Arrangem algo para fazer. E lembrem: seu amigo morreu porque vocês preferiram brincar de lutinha a fazer alguma coisa decente. Existem tendas a serem montadas, comida a ser cozinhada. O acampamento não está pronto e ainda assim tem um monte de vocês nas ruas passeando como matronas a procura de fitas. Vão!"
Os dois soldados sairam sem nenhuma palavra e o que poderiam responder, na verdade? Um comando daquele de um superior era uma ordem clara que não poderia ser contestada sem penalidades na corte marcial. Depois de observar os dois saindo por alguns instantes, virou-se para a jovem coberta de sangue.
"Venha".
Ela parecia pronta para argumentar, mas reconhecendo a inutilidade diante da cidade arruinada, abaixou a cabeça e andou ao lado dele. Ele podia ver que sua roupa era de um bom linho, e ela certamente não era apenas uma camponesa qualquer. Talvez pudesse trazer boas informações à eles que garantiriam uma vitória mais completa que aquela destruição desesperada de uma cidade abandonada por sua guarda. Afinal, vagando ou não, continuavam sendo um exercito e, portanto, uma ameaça.
E nenhum romano decente estaria disposto a ir embora deixando uma ameaça para trás.
Dois dias depois chegaram as notícias: Decebalus estava morto. Alguns diziam que fora sua própria espada, outros que tinha sido pego, e uma grande confusão se espalhava pelo acampamento. A pequena ruiva observava tudo com grande cautela e sem dizer uma única palavra, o que deixava Draco com arrepios. Nunca conhecera uma mulher calculista em toda sua vida.
Logo, as histórias tomaram forma de realidade: Tiberius Maximus, um veterano da legião que estivera seguindo o rastro do rei o encontrara morto. Estava claro que tinha cometido suicídio, e Draco ficou indeciso entre rir de sua covardia ou admirar a força que o permitira morrer em seus próprios termos. O velho soldado trazia consigo a cabeça e a mão da figura real, e todos lhe davam vivas com animação. Logo ele estaria a caminho do imperador, com direito a uma condecoração por sua participação na guerra, e alegrava ao rapaz vez os velhos e experientes sendo admirados por seus contínuos esforços.
Mas, os olhos da garota cheios de lágrimas o pertubaram. Era claro que ela confiara e amara seu rei, se não de uma forma perversa, com a sinceridade leal que costumava ser exclusividade dos homens. Limpando os olhos, ela fitou-o, firmemente, e levantando-se em um gesto firme e cheio de energia, falou:
"Diga-me o que quer."
Não sabia se estava mais surpreso com ela falar ou com o fato que claramente sabia latim. Seu olhar era destemido, e de todas as coisas, aquela era a mais impressionante.
"O que quer dizer?"
"Você me aprisionou. Não me tocou. Não é normal. Claro que quer alguma coisa."
Os dois se olharam por um longo tempo, ela claramente desafiando-o sem palavras, a admitir seus motivos quando mesmo para ele pareciam confusos.
"Agora que seu rei está morto é que quer falar? Acha que isso vai salvar sua pele?"
"O exercito dele continua nas florestas, pronto para emboscá-los. O tesouro dele continua intocado, e guerras custam caro. Ele pode estar morto, sim, mas esta guerra não está ganha, oficial, não para Trajano. Ele não vai se contentar com promessas e metades desta vez. Ele vai querer a Dácia inteira."
Era óbvio que ela tinha razão, mas ele estava surpreso com sua habilidade de análise. Que tipo de garota era aquela, já tão sabida dos modos e dificuldades da vida? Que garota era aquela que sabia tanto sobre o imperador, seus modos e objetivos? Como poderia ser tão fria e ao mesmo tempo, tão leal?
"E você me entregará estas coisas? Quer que eu acredite que sabe o que..."
"Meu rei está morto" ela respondeu, olhando para ele. "E eu hei de seguí-lo na morte, oficial. Não tenho nenhum amor pelo comando romano, ou me preocupo com o que será dos exercitos perdedores. Agora sei que meu rei gostaria de ver os traidores revelados por aquilo que são."
"Então não é traição da sua parte?"
Ela inclinou a cabeça lentamente, observando por um instante.
"Estou fazendo o que ele muitas vezes me disse que deveria ser feito em caso de derrota, como ele cumpriu sua palavra."
"Era amante dele?" perguntou o loiro, e ela riu.
"Nem dele nem de homem nenhum, não posso pertencer a ninguém que não à Deusa. E foi por isso que estava sendo protegida quando me encontrou."
Uma vestal, ou algo parecido. Não era de se surpreender que um homem estivesse disposto a duelar contra três por sua honra.
"Mas se o rei está morto, é hora que eu me torne uma mulher, pela primeira e única vez."
"O que quer dizer?" ele perguntou, a boca seca.
A ruiva o olhava com calma.
"Se me libertar - e eu sei que o fará, soldado, vejo isso em teus olhos - eu deverei subir com um homem de meu povo até a montanha onde o fogo sagrado é guardado, e retirar dele parte do combustível. O corpo do rei será colocado na pira, e enquanto o libertamos para a morte, eu e o homem celebraremos a vida, antes de nos entregarmos também a fogueira e a libertação final."
Ele a olhou, horrorizado. Eram barbaros, costumes absurdos, como poderiam desperdiçar assim uma vida humana? No entanto, era da política do império permitir que as pessoas mantivessem suas religiões, desde que não fossem danosas para os cidadões romanos. Diante de seu silêncio chocado, ela falou.
"Procure um homem chamado Bicilis. Ele de tudo sabe, e sem dúvida falará com vocês."
E, ela estava certa. Ele a deixaria ir.
Não sabia explicar exatamente porque fora com ela. Estava dispensado por uma semana, fora o que dissera seu general, uma pequena folga. E lá estava ele, acompanhando a garota que conseguira o direito de ter o resto do corpo de seu rei para a cerimônia tradicional e um tolo dácio qualquer que ia com ela para realizar os procedimentos apropriados.
A montanha de Lespezi não era o lugar mais atraente do mundo, mas podia entender porque era considerado um local sagrado. Havia uma qualidade diferente no ar dali, e os passos da garota - Ginevra, ele descobrira - adquiriam um ritmo quase irreal conforme caminhava em direção ao santuário. Os ventos frios cortavam naquele principio de inverno, mas ela mal parecia sentí-los, murmurando preces sem parar em uma espécie de transe.
Não era um local grandioso, mas havia uma inegável dignidade em seu santuário. A chama que serviria de pira funeral para o rei não era uma mera fogueira, mas um sistema complexo de alimentações da chama que não bruxuleava, protegida pelas paredes de pedra. Estava claro que aquele era um local antigo e sagrado, provavelmente mais antigo que os próprios dácios.
Ginevra despiu os restos mortais do rei enquanto entoava um cantico. Draco não era capaz de entender as palavras, mas os sons eram triste e lamentosos o suficiente para tocarem seu coração. Ele encolheu-se enquanto ela o lavava com água e untava com óleo. Seus ornamentos reais tinham sido tomados pelo Imperador, mas não parecia importar muito a garota agora, ainda que tivesse rangido os dentes e chorado amargamente quando soubera.
Ele ajudou o rapaz a colocar o corpo do rei no altar cheio de fogo, sob a supervisão cuidadosa da ruiva. Ela silenciou-se por alguns instantes, e os dois homens abaixaram a cabeça, embora ela continuasse a observar o morto de frente.
A mudança foi súbita, mas era claro que o pesar que os acompanhara naquela subida fora embora. As chamas subiram mais altas, e os incensos encheram o ar enquanto ela cantava e dançava alegremente com as roupas balançando em véus. Seus passos eram sensuais, e não estavam direcionados a ele, mas ao rapaz.
"Vá embora" ele alertou, olhando para Draco, mas este mal conseguia tirar os olhos dela. "Já viu o suficiente, senhor, vá embora!"
Mas os véus tinham caído no chão, exibindo os cabelos ruivos e brilhantes à luz do fogo. O corpo inteiro dela parecia mal coberto por transparências, mostrando e escondendo, e ele nunca se sentira tão atraido por mulher nenhuma, embora já não pudesse contar quantas tivera em sua vida.
Os cachos rubros se esparramavam pelas costas semi-nuas, e ela dançava olhando o jovem com claro desejo. Era um rapaz sem graça, e ele sentiu uma súbita raiva. Ginevra exibia os seios cheios de sardas para eles, chamando-os, instigando-os, como se ela não fosse mais uma mera garota, mas a própria Vênus, tamanha a tentação.
"Vá você." ordenou, empurrando-o para longe.
"Você não sabe o que diz" ele alertou. "Este é o caminho para a morte, senhor."
"Vá embora, garoto" rosnou, com raiva, e em nenhum momento a garota pareceu se importar com a conversa dos dois.
Mal o jovem saiu, obedecendo-o com receio, ela soltou os véus que lhe serviam de saia, ficando completamente nua. Ainda dançava, e sorria misteriosamente enquanto se aproximava dele e começava a despir-lhe da roupa.
Não demorou a ajudá-la, feliz de se ver livre das roupas, louco para responder seus desejos. Claro que não tinha intenção alguma de morrer, mas podia muito bem controlar uma garotinha depois de ter saciado sua vontade. Ela era linda demais para ser desperdiçada em um camponês sem graça.
Ele não esperava nada dela, mas apesar de uma virgem jurada, era claro que ela aprendera mais que o suficiente. Afinal, se seu dever era levar um homem até a morte, ela deveria saber enlouquecê-lo, e ela o fazia sem esforços. Ele sentiu-se perdido nos braços e pernas que o soltavam e apertavam junto com tantos outros músculos secretos, fazendo-o mal conseguir se controlar.
Ginevra tinha olhos de fogo e a voz doce que saiu da música cantada da tentação para as melodias ofegantes do amor. Não tão ofegantes quando gritadas, ela o puxava por inteiro, cabeça, corpo, cabelos, como se ele pudesse entrar todo dentro dela. O sangue não parecia incomodá-la, pois como uma mítica amazona ela cavalgava para a batalha, louca como uma guerreira, mas não era ira: era prazer. Os olhos dele se arregalaram ao vê-la desfazer-se em sons, cores e movimentos que jamais soubera que uma mulher era capaz de ter, tão mais do que os fingimentos óbvios das prostitutas do exército.
Não havia como evitar entregar-se também ao prazer, perder-se na forma como sua carne ardia junto à dela, e fechou os olhos, bento de emoção. Não viu a adaga dela abrir seu pescoço, e sua última sensação foi a glória de estar completamente ligado à ela.
Nunca descobriram o que aconteceu com o oficial, mas ainda haviam partes do exercito inimigo, e não era de todo estranho que tivesse sido capturado e morto no meio daquelas pequenas batalhas. Ninguém deu atenção à volta do menino escravo que partira com ele, seus olhos profundamente marcados pelo que vira, o encontro dos corpos divinos, a morte abençoada, e a entrega voluntária de Ginevra à própria pira.
E, nas montanhas romenas, seu corpo foi completamente consumido.
