VIII – O Quarto de Draco Malfoy

- Mestre? Mestre? Acorde mestre. A diretora quer vê-lo.

Uma voz irritante incomodava o sono de Draco, que rolava na cama evitando ao máximo acordar. Mas quem quer que seja que estivesse falando não parecia disposto a deixar Draco em paz. Cutucava-o e o chamava incessantemente. Por fim acordado, e desistindo de vez de dormir, Draco se virou na cama e viu Dobby, o elfo doméstico que há muitos anos trabalhou em sua casa, vestindo roupas ridículas, parado ao lado de sua cama.

- O que é? – disse com voz de sono, fechando os olhos novamente.

- A diretora, mestre. A diretora quer vê-lo.

- O que diabos ela quer comigo às – hesitou enquanto olhava seu relógio de cabeceira – 4:34 da manhã?

- Dobby não sabe, mestre. Dobby não sabe. A diretora só mandou todos nós acordar os professores. Parece que aconteceu algo com o professor Potter e...

- Potter? – o sono que ainda teimava em atingir Draco subitamente passou e rapidamente se sentou na cama. – O que aconteceu com ele?

- Dobby não sabe, mestre. A diretora só mandou acordar e...

- Você já disse isso, elfo.

- Mestre vai falar com a diretora?

Draco suspirou por um instante. Harry Potter estava morto, com certeza. McGonagall queria informar os professores, talvez, começar uma investigação – investigação inútil, diga-se de passagem, já que Draco tinha alterado muito bem as propriedades de sua poção. Talvez ela quisesse simplesmente pedir que os professores acalmassem os alunos. Informar o ministério. Chorar a morte do menino que sobreviveu - ou melhor, que não sobreviveu - em conjunto.

- Claro. Claro, elfo. Provavelmente ela tem algo de muito importante para falar. Deixe-me só trocar de roupa e...

- Não há tempo. A diretora pediu que vocês fossem o mais rápido possível e...

- Fique quieto, elfo. Ou você acha que eu vou sair andando pela escola assim? – disse, levantando e se dirigindo ao armário.

- Não há tempo, mestre! A diretora quer que seja rápido...

- Eu não vou até lá...

- Rápido, mestre! – disse Dobby, puxando a perna de Draco em direção a saída.

- Me solte, elfo! Você está achando que é quem para me dar ordens ou dizer o que eu tenho de fazer?

- Não é ordem de Dobby, mestre, é ordem da diretora.

Draco parou para pensar um instante. Realmente, se aparecesse todo arrumado à sala de McGonagall seria estranho. Por mais que quisesse estar lindíssimo para comemorar a morte bem sucedida de Potter, teria que dissimular mais um pouco. Vestiu apenas um sobretudo e abriu a porta de seu quarto.

- Você vai me seguir até lá ou eu já posso comemorar o fim de sua detestável companhia? – disse olhando para Dobby com desprezo.

- Dobby vai voltar para a cozinha, mestre.

Draco deixou o quarto sem esperar por ele. Estava jubilante. Harry tinha morrido, estava rico e finalmente poderia deixar para sempre aquela escola e a secretária nojenta. Andava pelos corredores com um sorriso quase imperceptível no rosto, pensando o que faria com a fortuna que ia ganhar. Talvez até pudesse parar de trabalhar. Chegou até a porta da sala de McGonagall e disse a senha: "Águia Prateada" – McGonagall não tinha o mesmo senso de humor de Dumbledore. Parado em frente à porta do escritório, preparou sua melhor cara de preocupação. Lá dentro uma conversa era escutada. Impossível de se compreender o que falavam. Draco abriu a porta e todos fizeram silêncio.

- Desculpe-me a demora, eu fui dormir tarde e...

- Até que enfim, Malfoy. Temos que conversar seriamente com você – disse McGonagall rápido.

Draco assentiu com a cabeça e começou a olhar todos os professores na sala. Todos com cara de preocupação, mas nenhum com cara de tristeza, de desespero. Estranho. Próximo à janela alguém estava sentado, enrolado em um cobertor, olhando para fora, como se não fizesse parte de nada que acontecia ali. A pessoa se virou por um instante e olhou para Draco antes de voltar a olhar para a janela sem fazer nenhuma expressão: era Harry Potter.

A mente de Draco começou a funcionar num turbilhão. Harry Potter não tinha morrido. Estava vivinho da silva e, provavelmente, imaginava que Draco tinha sido o responsável pelo incêndio em seu quarto. Àquela hora já tinha contado tudo para McGonagall e os outros professores. Àquela hora Hogwarts já estava cheia de Aurores por todos os cantos, só esperando que saísse da sala de McGonagall para ser preso. Provavelmente dementadores cercavam todo o terreno de Hogwarts para levá-lo diretamente para Azkaban, sem passagem de volta, talvez com direito a um beijo. Com certeza Slughorn tinha em seu bolso um frasco cheio de Veritasserum para fazer Draco confessar seu crime, McGonagall já estaria ali anotando tudo. Obviamente sua vida tinha acabado.

- Provavelmente os elfos não lhe contaram o que aconteceu – continuou a mulher. Draco sequer olhou para ela, continuava com o olhar perdido, o desespero comendo sua alma. – Draco? – insistiu McGonagall. Draco voltou de seu devaneio e virou-se para ela.

- Não, não, eles não me contaram nada – disse com a voz fraca, tentando ao máximo esconder o seu nervosismo.

- Draco, você está bem?

Ela está fingindo, Draco, ela está fingindo. Quer saber até onde você vai com isso.

- Estou bem, sim, diretora.

- O quarto de Harry pegou fogo – disse ela por fim, sentando-se. – Na realidade, por descuido dele e dos elfos...

Ela não está mentindo. Ela não é tão boa assim para mentir. Ela não teria porque mentir!

- Por sorte ele acordou antes que tudo de fato se consumisse. Parece claro a todos nós que não há mais nada a averiguar. Flitwick foi até lá verificar a situação do quarto e me garantiu que foi apenas um acidente e...

Draco tentava respirar aliviado. Parecia que, de fato, McGonagall não desconfiava dele, simplesmente o tinha chamado ali para o pôr a par do que tinha acontecido, afinal era um professor de Hogwarts e saber o que acontecia lá era o mínimo. A adrenalina ainda corria por suas veias, fazendo-o ficar mais ansioso do que deveria.

- Chamei todos os professores aqui; e você; por dois motivos. O primeiro é: não quero que essa história chegue aos ouvidos dos alunos. Acidentes acontecem em qualquer lugar mas não podem acontecer em Hogwarts. Há muitos anos o Ministério procura um motivo para fechar a escola e se depois da morte de Dumbledore eu consegui reabrir a escola, agora, o Ministério mal perdoa alunos que quebram o braço caindo da escada, imagine incêndios! Certo para vocês? Ninguém de fora desta sala deve saber do que aconteceu ao professor Potter. Nem filhos, nem esposas, nem amigos, nem monitores, muito menos alunos e pais de alunos. Certo?

Os professores assentiram levemente, Draco quase sorrindo novamente, ao ter quase certeza de que McGonagall não ia mandá-lo para Azkaban.

- Segundo: Harry precisa de um lugar para dormir esta noite. Não acho conveniente deixá-lo dormir sozinho, visto que está claramente em estado de choque – todos olharam para ele, que continuava a olhar pela janela, parecendo alheio a toda conversa que acontecia na sala. – Conversamos todos nós aqui, antes que você chegasse, Draco, e chegamos à conclusão de que o ideal é que durma em seu quarto.

- Quê! – disse quase num berro. No canto da sala Harry pareceu sair por um instante de seu estado de choque e olhou para Draco. Quase que imperceptivelmente fez que não com a cabeça.

- Sim, Draco. Seu quarto é o único quarto dentre os quartos dos professores que tem como abrigar mais uma pessoa por alguns dias e...

- Por alguns dias? Mas nem pensar! Hogwarts tem milhares de quartos por aí. Mande outro professor ir dormir com ele em um desses quartos.

- Qual parte de "o seu quarto é o único que tem como abrigar mais uma pessoa" você não entendeu?

- Ele não vai para o meu quarto!

No fundo da sala Harry fez que não mais violentamente com a cabeça, como que acreditando que Draco poderia mudar alguma coisa.

- Vai desrespeitar assim uma determinação minha, Malfoy?

- Mas é no mínimo absurdo Potter ir dormir comigo? Esqueceram quem sou eu?

- Draco, você não é mais nenhuma criancinha resolvendo diferenças Sonserina/Grifinória como aluno de Hogwarts.

- Mas é ridículo! Nem mesmo ele quer ir para o meu quarto – disse, apontando freneticamente para Harry.

Todos os professores voltaram o olhar para Potter, mas ele simplesmente fingiu que ninguém o tinha olhado, permaneceu olhando pela janela, como se algo de muito interessante acontecesse lá fora, bem mais interessante do que a discussão por seu destino naquela noite.

- Baseado no que você diz que ele não quer ir para o seu quarto, Malfoy? – disse Slughorn, pronunciando-se pela primeira vez.

- Ele acabou de olhar para mim e fazer que não com a cabeça, quando Minerva disse que iria para meu quarto – disse Draco quase berrando, os braços abertos em sinal de exasperação.

- Pelo amor de Deus, Draco! Harry está em estado de choque! Nem deve estar se dando conta de que estamos falando dele – disse McGonagall.

- Pelo amor de Deus digo EU! Olhem para ele! Ou vocês acham que eu inventaria que ele acabou de fazer sinais para mim?

Um silêncio incômodo correu a sala, como se todos acreditassem que Draco realmente tinha inventado que Harry tinha feito sinais para ele. Draco se manteve com uma expressão escandalizada, olhando para os professores, que o olhavam como se o acusassem de um crime.

- Draco, eu sei, e todos nós sabemos, que você e o professor Potter têm as suas diferenças – começou Flitwick -, mas será que você não pode ignorar esses problemas adolescentes, pelo menos por esta noite, por um bem maior?

- Mas nem ele quer ir para o meu quarto! Será que a decisão principal não é dele?

- Draco, não invente coisas – disse McGonagall decisiva. – Harry Potter vai para o seu quarto, e esta já é uma decisão tomada.

Cinco minutos depois Harry Potter e Draco Malfoy saíam da sala de McGonagall em direção ao quarto do segundo, em completo silêncio. Cada professor se dirigiu para seu próprio quarto, deixando os dois sozinhos, andando pelos corredores de Hogwarts. Draco sequer queria olhar para Harry. Espumava de ódio. Além do infeliz não ter morrido ainda teria o desprazer de tê-lo em seu quarto sabe-se lá até quando. A maior vontade de Draco era lançar um Avada Kedavra em Harry ali mesmo, no meio do corredor, e não precisar nunca mais vê-lo. Era ruim demais para ser verdade: um plano daquela complexidade, noites e noites tendo que compartilhar a mesma cama que Potter, para, no final de tudo, sobreviver e ainda por cima ir dormir em seu quarto. O plano tinha falhado mais uma vez. O plano perfeito tinha falhado. Outra grande vontade de Draco era pegar suas coisas, voltar para Londres ainda naquela noite; organizar a venda de uma de suas empresas, devolver o dinheiro da secretária e voltar para sua vida calma. Tudo tinha ido por água abaixo.

Ou não tinha?

Se Harry não o tinha denunciado para McGonagall, se Harry não desconfiava dele, então, o plano não tinha falhado. Era só tentar de novo, manter o relacionamento com Harry e preparar outra maneira de matá-lo. Verdade, verdade, depois do quarto ter pegado fogo, um outro acidente seria, no mínimo, suspeito, mas quem conseguiria provar? Outra grande verdade é que teria que superar a raiva que estava de Harry naquele momento – uma raiva que sabia ser momentânea - dissimular sabe-se lá por quanto tempo mais, e tentar matá-lo novamente; daquela vez, com sucesso – ao menos esperava. Ainda estava dentro do prazo da secretária. Seria só preparar outro crime. A parte mais difícil já tinha passado: se aproximar de Harry.

Com o canto do olho, olhou para trás. Potter andava em silêncio, com o cobertor jogado nas costas, segurando-o com as mãos junto ao corpo, olhando para baixo, parecendo compenetrado em observar o movimento de seus pés de encontro com o chão. Os dois já se encontravam no corredor do quarto de Draco. Quando pararam em frente a uma parede aparentemente igual às outras – a entrada do quarto – este se virou para Harry e disse algo, pela primeira vez desde que deixaram a sala de McGonagall, a raiva atenuada.

- Só tem uma coisa que até agora eu não entendi, Potter. Por que você relutou tanto em vir para o meu quarto? E por que, se você não queria vir, não disse isso a eles? – Harry permaneceu em silêncio. Ergueu a cabeça por um instante, olhou para Draco sem dizer nada com seu olhar, e baixou a cabeça novamente. Draco suspirou, demonstrando insatisfação, e virou-se novamente para a parede. – Abraço da Serpente – e, ao dizer isso, a parede se movimentou para o lado, abrindo espaço para que entrassem.

Harry, após entrar, permaneceu parado no meio do quarto, sem se mexer, enquanto Draco tirava o sobretudo e se dirigia ao armário.

– Vai ficar parado aí, Potter? Sente-se em algum lugar, ainda vou ter que arrumar sua cama – Harry andou vagarosamente até um sofá encostado à parede e se sentou sem tirar o cobertor que mantinha enrolado no corpo. – O que foi? O gato comeu sua língua? Ou ela se queimou com o fogo?

Harry olhou para Draco com os olhos arregalados. Por um instante Draco achou que ele começaria a chorar, mas simplesmente se encolheu no sofá, puxando o cobertor mais para perto.

- Quer dizer que eu vou ter que te aturar aqui mudo feito uma múmia? Ou será que você vai resolver responder as minhas perguntas? Não precisa fingir para mim que está em estado de choque; ele pareceu ter passado rapidinho quando McGonagall disse que você viria para cá. Aliás, por que você não queria vir para cá?

- Eu... – começou Harry, a voz tão baixa que Draco teve que se abaixar para escutar melhor. – Eu só não queria incomodar.

- Pff. Conta outra, Potter. Essa não me convenceu. Se você só não queria incomodar por que não disse isso a eles e me fez passar pelo malvadinho da história, que não queria dar abrigo para o colega de trabalho acidentado?

- Eu só não queria que eles me fizessem perguntas. Lembrar do que aconteceu não é algo agradável para mim.

- E o que aconteceu?

- Eu já disse que não quero falar disso, Malfoy.

- Não me convenceu, Potter.

- Okay, Malfoy, eu não queria contar para eles que eu estive trepando com você pouco antes do quarto pegar fogo – disse Harry com a voz mais ofensiva possível.

- Uh! Parece que o menino que sobreviveu repentinamente perdeu a classe. Desde quando você usa palavras de baixo calão como essa para se referir a sexo?

- Ah, cale a boca, Malfoy! – disse numa voz esganiçada, bem próxima de um choro, encolhendo-se mais ainda no sofá e virando a cara para Draco. – Este é outro motivo pelo qual eu não queria dormir aqui.

- Este qual? – disse Draco, dando às costas para Harry e indo novamente para perto do armário.

- Você, Malfoy! Eu tinha certeza de que você faria minha noite ainda pior. Sabe, eu já estou mal o suficiente quase tendo morrido hoje. Mas, é claro, você consegue deixar as coisas piores. Sabe, eu estou com você há meses e você não é capaz nem de fingir que gosta de mim.

- Talvez seja porque eu não gosto de você – respondeu vagamente, com a mesma frieza de quem responde perguntas de uma prova.

- É. Às vezes eu me esqueço disso. Me esqueço que eu sou apenas um brinquedinho sexual na sua mão.

- Não foi isso que determinamos, Potter? – disse, mexendo no armário, procurando algo.

- Nós nunca determinamos nada!

- Se para você nunca existiu um acordo silencioso de que nossa relação jamais passaria de sexo casual no seu quarto, que fique claro agora.

- Ah é? E por que você não me avisou isso antes que eu começasse a gostar de você, Malfoy?

Vários edredons caíram do armário em que Draco mexia logo após as palavras de Harry atingiram seus ouvidos. Draco engoliu em seco, enquanto abaixava e pegava os edredons em silêncio, processando a declaração de Potter. Como assim chegara ao cúmulo da idiotice de gostar de Draco? Na mente dele era praticamente óbvio que Potter jamais se apaixonaria. Draco era seu inimigo de infância, era o responsável indireto pela morte de Dumbledore, queria matá-lo! Mas aí se lembrou: na cabeça de Potter nada acontecia. Na cabeça de Potter, Draco era o cara que fazia sexo com ele toda noite, e não o cara que queria matá-lo. Draco tinha sido imprudente ao não imaginar que aquilo poderia acontecer, que tantas noites de carícias momentâneas pudessem evoluir na cabeça solitária de Harry Potter, e talvez, em sua própria cabeça.

- Você não gosta de mim, Potter – disse, pegando um edredom preto e jogando-o para Harry sem olhá-lo. – Agora livre-se desse cobertor mulambento e durma.

- Gosto! Gosto sim de você, Draco!

- Não me chame pelo nome, Potter. Não te dei essa intimidade.

- Não me deu essa intimidade? – repetiu num tom escandalizado. – Draco! Nós estamos juntos há meses! Te chamar pelo nome é o mínimo!

- Não, nós não estamos juntos, Potter.

- Não estamos juntos? E estamos o quê?

- Tendo uma relação heterodoxa, que começa na hora em que entro em seu quarto todas as noites e acaba quando saio. Fora de sua cama, Potter, não há nada.

- Draco, é impossível que você não sinta nada além de desejo sexual por mim!

- Não-me-chame-pelo-nome, Potter! – disse entre dentes.

- O que importa como eu te chamo? Draco!

- Importa, e importa muito. Eu só faço sexo com você, mais nada. Já disse, fora de sua cama, eu sou Malfoy e você é Potter. Acabou.

- Draco! Pelo amor de Deus! Você me fez ter uma expectativa na minha vida maior do que ver as pessoas me admirarem por algo que aconteceu há mais de oito anos! Você me fez ter outra visão de uma vida que simplesmente parecia ter pedido a utilidade. Draco, você fez dos últimos dias de minha vida dias felizes – disse, exaltado, levantando-se do sofá.

- Que pena, Potter. Não era essa, nem de longe, a minha intenção.

- E qual era a sua intenção?

- Me divertir – respondeu friamente, puxando os lençóis da cama, preparando-se para deitar. – Fazer sexo. Tornar minha estadia nesta escola algo divertido.

- E você é capaz de separar sexo, com a mesma pessoa por meses, de sentimento?

- Totalmente.

- Draco, como alguém pode...

- Se você não é capaz, Potter – cortou – eu, e muitas outras pessoas, são. Sexo por diversão. Sexo por prazer. Isto é mais comum no meu vocabulário do que sexo com sentimento.

Os dois ficaram em silêncio, de pé, olhando-se nos olhos, como se esperassem que o outro desse o braço a torcer, sem, no entanto, mover-se um centímetro para fora de suas próprias opiniões.

- É. Eu tinha me esquecido quem você é.

- Eu te disse hoje mesmo, Potter. Não é porque eu estou dividindo a cama com você que eu deixei de ser Draco Malfoy.

- Eu achei que você tivesse mudado... Ao menos... Um pouco – disse Harry em voz baixa, andando até perto de Draco.

- Por que achou isso?

- Porque algo tem que ter mudado.

- E por que algo tem que ter mudado?

- Porque eu me apaixonei por você, Draco – disse, encostando de leve a mão no rosto de Draco. Ele mexeu a cabeça levemente para trás, como se quisesse fugir do toque, mas, por fim, deixou que a mão de Harry atingisse seu rosto.

- Eu nunca pedi que você se apaixonasse por mim, Potter – disse em voz baixa.

- Eu também não pedi isso – disse, dando um passo para frente, quase se encostando em Draco.

- Então por que você... Não abandona esse pensamento absurdo? – perguntou com a voz entrecortada.

- Porque eu gosto dele. Por mais incrível que pareça, você me faz feliz, Draco.

Draco fechou os olhos por um instante, como se procurasse uma resposta para aquilo, mas não encontrou. Pela primeira vez Draco Malfoy não tinha o que responder para afastar Harry Potter de si.

- Sabe, Draco – disse, aproximando o rosto de um Draco estático e sem ação. Com os lábios há centímetros dos lábios do outro, murmurou. – Eu espero que, algum dia, você também me diga que eu te fiz feliz, mesmo que tenha sido por um instante, tão curto quanto um beijo – lentamente, venceu a pequena distância que separava seus lábios. Draco Malfoy ficou sem se mexer por um instante, antes de erguer os braços a puxar Harry para si, abraçando-o com a força que nunca tinha abraçado ninguém que se lembrasse.

Draco jamais admitiria, mas Harry o estava fazendo feliz, e por muito mais do que o instante de um beijo.