Capitulo VIII: Bigamia.

Sakura caminhava meio atordoada pelo aeroporto de Hong-Kong, todos falavam uma língua completamente diferente daquela que conhecia, assim que acordou do coma uma médica muito bondosa lhe ensinou a escrever novamente, foi o que lhe salvou. Li ia um pouco mais à frente, caminhando imponentemente, a menina pensou que realmente era muito difícil acreditar que ela foi um dia casada com ele. Ela reparou em como as moças do aeroporto olhavam para ele discretamente e sorriam. Estaria ela num conto de fadas? Pensava enquanto observava o alto rapaz a sua frente. Ele era tão elegante, fino, educado, apesar de ter confessado que não era muito sociável com os outros, coisa que Sakura custava a acreditar. Dava para ver que era um homem rico, muito rico...

Li olhou para trás e reparou que Sakura o olhava, a menina ruborizou-se e abaixou a cabeça envergonhada. "O que quer fazer primeiro?"

"Ver o meu filho...será que seria possível?"

"Claro", respondeu com um leve sorriso, "Tem uma pessoa que ficará muito feliz em lhe ver também."

"Quem?"

"Sua melhor amiga".

"Ela está aqui na China... não me diga que ela só fala em chinês?"

"Não se preocupe, ela é japonesa como você".

"Que bom!", a resposta foi acompanhado de um belo sorriso.

Os dois entraram na limusine do grupo Li e se dirigiram até a mansão, Sakura observou que o motorista quase caiu duro quando a viu, mas se conteve na frente do patrão. O trajeto foi silencioso, Sakura reparou que Syaoran estava mais nervoso do que o de costume, mal ela sabia a enorme dúvida que existia no rapaz agora, bem ou mal, estava casado com outra mulher agora, mas também nunca havia se separado de Sakura, isso era bigamia. Assim que se aproximaram da grandiosa mansão, a menina se sentiu entrando num castelo. Sorriu não sabendo se era de encanto ou de nervosismo. O carro parou e o motorista abriu a porta para ela, ainda a observando de maneira assustada, ela sorriu docemente para ele em agradecimento ao galanteio. Ela parou observando a enorme residência, Li parou ao lado dela. "Não tenha medo".

"É enorme. Acho que daria umas 1000 pessoas morando aqui."

"Nem tanto", falou subindo os degraus da varanda, "Vamos?"

Sakura apertou as mãos nervosa, gesto que Li percebeu. "Tudo terminará bem, não se preocupe".

"Assim espero."

O mordomo abriu a porta e como o motorista encarou Sakura lívido, Li o cumprimentou polidamente e Sakura apenas deu um sorriso sem graça não sabendo o que falar para o homem em chinês. Li trocou umas palavras com o mordomo e este apontou para uma porta que dava para o pátio. Sakura não entendeu o que falavam, mas percebeu que se tratava de Shaolin, o seu filho. Li com um gesto pediu para que o acompanhasse. Eles cruzaram o salão e Sakura pode ouvir o mordomo comentar qualquer coisa espantado sobre a sua presença. Li parou observando uma bela moça de cabelos longos negros brincando com um menino de quase 4 anos de idade. Sakura parou ao lado dele observando-os. "É ele? Shaolin?"

Li confirmou com a cabeça. "Venha comigo". Sakura ia atrás dele tensa, como reagiria com uma criança que era o seu filho, mas não sabia, olhava para a grama verde como se tentasse achar respostas para como agir àquela situação. Li parou fazendo com que ela batesse nas fortes costas do rapaz, levou uma mão no nariz para verificar se não havia o quebrado. "Tomoyo", Li chamou a moça.

Tomoyo estava tão entretida com a brincadeira com o pequeno que mal havia percebido a aproximação do marido. Ela levantou o rosto e sorriu para ele.

"Já de volta, querido? Pensei que só voltaria a noite."

"Eu encontrei uma pessoa..." Li estava tenso e Tomoyo percebeu isso.

"Pessoa?" Perguntou se aproximando dele e não reparando na pequena moça que estava atrás dele reclamando do nariz doendo. Li deu um passo para o lado revelando Sakura ainda com a mão no rosto. Tomoyo arregalou os olhos rasos de lágrimas, estava paralisada, como se um raio a atingisse. Sakura abaixou a mão e encarou a bela e desconhecida moça. Tentou sorrir sem graça enquanto reparou que lágrimas rolavam pelo canto dos olhos violetas.

"Meu Deus..." Disse Tomoyo dando uns passos ao encontro dela e parando a frente de Sakura. Ela tocou de leve o rosto da querida amiga apenas para ter certeza que não estava tendo uma alucinação, de repente Sakura pode sentir ser envolvida pelos braços brancos como a neve, enquanto ouvia os soluços de Tomoyo ao ouvido. O que poderia fazer? Apenas retribuir o abraço.

Li foi até a criança e a pegou no colo observando as duas amigas abraçadas.

"Quem é ela papai?" Disse Shaolin apontando para Sakura.

Li não respondeu ao filho, não sabia o que responder direito para ele. Shaolin sempre teve Tomoyo como sua mãe talvez não conseguisse entender direito as coisas.

Tomoyo se afastou de Sakura, mas ainda tinha suas mãos nos braços da amiga. "Você voltou para nós..." Sakura desviou os olhos para Li pedindo ajuda para o que responder.

"Ela não se lembra de nada, Tomoyo".

Tomoyo virou-se para encarar o rapaz. "Como assim ela não se lembra de nada?" Depois se virou para Sakura, "Não se lembra de mim, Sakura? Sou eu, Tomoyo..." Disse com um bondoso sorriso. Sakura balançou a cabeça timidamente e viu a bela moça piscar uma dezena de vezes os olhos violeta. Por fim ela se afastou e deu uns passos para trás sem tirar os olhos dela. Sakura virou-se para Li e sorriu vendo a criança que ele carregava nos braços. "Shaolin..." Li sorriu e levou o filho até a mãe. Sakura o pegou nos braços e passou de leve a mão nos cabelos rebeldes do filho. "É muito parecido com você", falou para Li.

"Mas tem os seus olhos..." Ele completou.

Sakura sorriu e começou um pequeno diálogo com o menino para o conhecer melhor, ela via que ele também não a reconhecia e se sentiu um pouco aliviada com isso, era assim que se sentia, como uma criança começando a aprender ou reaprender sobre a vida. Ela o colocou no chão e de mãos dadas com ele começou a caminhar pelo quintal.

"O que aconteceu, Syaoran?" Perguntou Tomoyo observando mãe e filho começando a se entenderem.

"Eu a encontrei numa casinha de pessoas humildes numa pequena cidade do Japão."

Tomoyo levou uma mão até a boca tentando controlar as lágrimas. "Mas o que aconteceu a ela? Porque ela sumiu durante tanto tempo? Porque ela não se lembra de nós?"

"É isso que eu vou descobrir e eu juro que acabo com a raça de quem fez isso com ela".

Tomoyo olhou de relance e marido e pode ver uma veia saltada na sua testa, Li estava com raiva. "Mas e o corpo? Você não o reconheceu?"

"Na verdade estava tão abalado que apenas o reconheci pela aliança, lembre-se que os corpos estavam carbonizados, não tinha como reconhecer eles visualmente... Deus como eu me arrependo de não ter pedido um exame de DNA..."

"Porque alguém forjaria a morte dela?"

Li balançou a cabeça passando a mão nos cabelos rebeldes. "Eu não sei, sinto como se estivessem jogando comigo, Tomoyo! É sempre assim, quando penso que as coisas entraram nos eixos sou surpreendido novamente. Alguém está jogando com a minha vida e...", Tomoyo olhou assustada para o marido, "...eu vou descobrir quem é."

Sakura acordou e olhou para o teto do seu quarto. Tinha pedido para ficar em qualquer quarto que não fosse o mesmo que o de Li, depois que acordou do seu coma e lhe contaram o que provavelmente aconteceu a ela, tinha pegado verdadeiro pânico de homens. Já tinha recebido propostas de namoro e até de casamento na pequena Kataya. Até mesmo Makoto, já havia lhe proposto casamento, mas ela não aceitou. "Meu Deus, o que vou fazer agora?" Pensava em voz alta enquanto fitava o teto branco. A imagem de Li aparece nele, fazendo a menina piscar olhos rapidamente. Seria ele o homem que ela sonhava quase todas as noites? Como ela poderia saber se não conseguia ver o rosto dele. A menina se virou para o lado e olhou pela janela o sol lá fora. Ontem tinha sido um dia difícil, encarar todas aquelas pessoas a olhando de maneira suspeita e assustada. Pensou até que tinha matado a mãe de Li, pois a senhora começou a passar mal assim que a viu. Era tão estranho. Era como se fosse um fantasma para aquelas pessoas. Mas o que mais estranho fora descobrir que Tomoyo e Syaoran eram casados agora. A menina fechou os olhos lembrando do dialogo com a suposta amiga de infância.

Sakura brincava com Shaolin, sorte que o menino sabia um pouco de japonês, quando Tomoyo sentou perto deles.

"Acho que ele gostou de mim" Falou sorrindo.

"É claro que ele gostou de você".

Shaolin entregou um desenho para Sakura. "É uma casinha?" A criança respondeu que sim e começou a mostrar cada parte do desenho, desde as árvores até as pessoas que apareciam pelas janelas. Sakura sorriu quando o pequeno apontou para o desenho de uma moça de olhos verdes. "É você!" A criança falou sorrindo, "E este é o papai e a mamãe..." Apontou para o casal formado por uma moça de cabelos negros longos e um rapaz com os cabelos rebeldes iguais aos do pequeno. Sakura olhou de relance para Tomoyo. Uma criada chegou perto do grupo e Tomoyo pediu para que levasse o pequeno pois já era hora de dormir. A criança reclamou um pouco mas foi. Não antes de dar um beijo em Tomoyo. A criança olhou para Sakura e ela sorriu lhe dando um beijo no rosto e passando a mão pelo seu cabelo.

Sakura soltou um longo suspiro vendo o pequeno ser levado pela criada. A criança acenou com as mãos para as duas. "Logo ele se acostumará com você e voltará a ver como a mãe dele."

"Será?"

"Claro!" Falou ela alegremente, "O Syaoran acha melhor vocês irem se acostumando aos poucos".

"Se ele acha melhor... então é o melhor." Disse catando os lápis coloridos de Shaolin que estavam espalhados pelo chão. A moça olhou de relance para Tomoyo e viu que a moça a admirava. "Ele disse que nós éramos amigas..."

"Sim, desde a quarta série."

"Nossa, é muito tempo..."

"Sim.." Ela falou sorrindo, "Tenho você como a minha irmã, mais até, muito mais. Que bom que voltou Sakura."

"Sakura..." A moça repetiu como se tentasse acostumar com o novo nome.

"Syaoran me contou o que aconteceu."

"Contou?"

Ela balançou a cabeça positivamente, Sakura reparou que os olhos dela estavam rasos de lágrimas. "Não se preocupe, eu estou bem." Disse se levantando com os lápis e papeis nos braços. Tomoyo também se levantou.

"Acho que vou dormir também, hoje foi um dia muito estranho".

"Tenho certeza que sim."

"Será que a senhora Li está melhor?"

"Ela só ficou um pouco emocionada, mas já está passando bem, não se preocupe mais com isso."

"Que bom!" Sakura olhou para a escada que dava para o segundo andar, "Em que quarto eu vou dormir?"

Tomoyo deu alguns passos brincando um pouco com as mãos. "Você quer dormir no seu antigo quarto ou prefere dormir com..."

"Não!" Ela quase gritou, "Não quero dormir com ele".

"Ele é seu marido."

"Como ele pode ser o meu marido se eu mal o conheço?"

"Ele nunca a forçaria a nada".

Sakura andou um pouco desnorteada pela sala, como se procurasse por onde fugir. "Ele nunca a esqueceu, todos os dias da vida dele, não teve um dia que eu não o vi triste pensando em você".

"Como pode saber disso?"

Tomoyo sorriu docemente, "Porque eu sei".

Sakura olhou de relance para a moça curiosamente. "Você ficou com ele neste tempo todo?"

"Cada dia, cuidei de tudo por você como eu prometi".

"Prometeu?"

"Fizemos uma promessa quando tínhamos 17 anos que uma cuidaria da família da outra se acontece alguma coisa".

"Mesmo?" Ela arregalou os olhos. "Então eu acho que eu devo lhe agradecer, não é?"

"Na verdade, eu é que tenho que lhe agradecer, fui muito feliz aqui, mas agora está na hora de você assumir o seu lugar novamente."

"Lugar? Do que está falando?"

"Da futura matriarca da família Li ou pelo menos... da senhora Li."

"Eu não sei... talvez... eu não me lembro de nada, para mim tudo isso é um sonho ou um pesadelo..."

"Eu estou casada com o Syaoran", Tomoyo falou de uma vez. Sakura deixou todos os lápis caírem. Tomoyo olhou para eles espalhados pelo chão e depois encarou a amiga. Ela pode ver tristeza vindo deles, mesmo que Sakura acreditasse que estava apenas surpresa.

"Mas como assim casada? Casada mesmo? Tipo, marido e mulher?"

Tomoyo confirmou com a cabeça, Sakura se abaixou rápido para catar novamente os lápis que havia deixado cair. "Está chateada?"

"Não...Claro que não..."

"Está com ciúmes?"

Sakura saiu da sala quase correndo, não deixando a jovem falar mais nada.

Sakura levantou e espreguiçou-se olhando para o imenso espelho onde a sua imagem refletia.

"Então eles estão casados... melhor assim. Se ele é casado quer disser que ele a ama, isso, ele a ama e não me ama..." Ela balançou a cabeça para dissipar os pensamentos "Quanta besteira eu estou pensando". Olhou novamente para o reflexo do espelho e se viu toda despenteada. Pensou em como Tomoyo era tão linda, delicada e passava tanta seriedade, tanta doçura e ela era apenas uma garota desmemoriada, distraída e caipira. Bateram na porta, com certeza deveria ser uma das inúmeras empregadas perguntando por alguma coisa, era incrível a quantidade de pessoas que existia naquela casa. A menina caminhou até a porta e a abriu ainda bocejando.

"Bom dia." Cumprimentou Li levantando o rosto que antes fitava o chão. Sakura se cobriu com os braços e corou. "Eu trouxe isso para você". Disse estendendo uma sacola. "São algumas roupas limpas".

"Obrigada" Disse pegando a sacola das mãos dele.

"Posso entrar?"

Ela adoraria disser que não, mas não respondeu nada. O rapaz entrou e olhou para o quarto. "Tomoyo sempre cuidou muito bem dele, acho que ela sempre soube que um dia você voltaria."

Sakura tirava as roupas de dentro da sacola e olhava de relance para Li que ainda admirava o quarto. "Este era o nosso quarto antes de você ir embora para o Japão."

Ela levantou o rosto encarando-o. "Eu não lembro de nada, para mim este é apenas um quarto", disse dando os ombros. Li sorriu sem graça, era estranho para ele ouvi-la disser que aquele quarto era apenas um quarto, se foi ali que aconteceu a primeira noite dos dois, que foi naquele quarto que viveu as primeiras noites com a mulher que amava. Bem, agora tudo não passava de um quarto. Como ele queria que aquele quarto não passasse disso. Depois que voltou para a China a primeira providencia foi trancá-lo e fingir que ele nunca havia existido, porem Tomoyo sempre mandava que uma das criadas o mantivesse limpo e arrumado, apenas as roupas Li fez questão de doar, seriam inúteis trancadas nos armários. O rapaz caminhou até a janela e olhou para fora, Sakura percebeu que ele batia de leve a mão fechada no parapeito. "Está preocupado?"

"Hã?"

"Você parece nervoso, é com a minha presença aqui?"

Li sorriu sem jeito novamente. "Desejei sua presença na minha vida durante estes dois anos, é claro que ela me deixa ansioso".

Sakura olhou novamente para as roupas que ela tinha espalhado na cama. "Mas pelo jeito você teve quem te apoiasse este tempo", falou sem encarar ele.

"Está falando de Tomoyo?"

"Acho que sim." Perguntou levantando os olhos.

Li demorou um pouco para responder, Sakura começava a mostrar ciúmes, isso era bom por um lado. "Shaolin precisava de uma mãe, pensei que você tinha morrido".

"Mas eu não morri..." A resposta foi um pouco mais alto do que a moça queria que saísse. Ela balançou a cabeça um pouco atordoada e foi até a porta do quarto. "Eu preciso tomar um banho... poderia me deixar sozinha".

Li cruzou o quarto e parou bem na frente dela, tão próximo que Sakura podia sentir o calor do corpo dele. "Tomoyo não dormir comigo esta noite..."

"Não?" Ela levantou os olhos para ele.

O rapaz abaixou o rosto fazendo seus lábios ficarem a centímetros dos de Sakura. "Não". Os dois ficaram um tempo assim como hipnotizados um pelo outro, até que Li levantou o braço e tocou de leve o rosto da amada, fazendo Sakura sentir arrepios por todo o corpo. "Nunca deixei de amar você Sakura e Tomoyo sempre soube disso."

"Isso não importa mais, vocês estão casados e..."

"Estou casado com você também."

A moça se afastou um pouco de perto dele ainda fitando os olhos castanhos. "Você é casado com nós duas..."

"Vou resolver esta situação".

"Você é bígamo!"

"Hei, espera aí, eu não sou bígamo, eu estava viúvo quando me casei com Tomoyo."

"E vai querer agora ficar com nós duas? Isso não está certo, senhor Li, se não fosse pelo meu filho iria embora agora mesmo desta casa."

"Perdeu sua memória mas continua a mesma orgulhosa de sempre, não estou lhe prendendo aqui Sakura. Não é minha prisioneira, é livre para ir onde quiser."

"Pois eu iria mesmo embora se não fosse por Shaolin".

"O que espera que eu faça Sakura, estava viúvo, precisava me casar, precisava dar uma mãe para Shaolin."

"Eu sou a mãe dele, não sou?"

"Sim claro... mas todos, inclusive eu tínhamos certeza que estava morta."

Sakura ficou calada olhando para o rosto de Li. "Você tem razão, mas já que você resolveu aparecer na minha vida e me colocou nesta situação, me diga o que eu posso fazer?"

Ele passou a mão sobre o cabelo o despenteando mais e depois arrumou o nó da gravata. "Contratei uma psicóloga para você. Ela irá lhe ajudar a lembrar do seu passado."

"Acho... acho que é melhor não... acho que o melhor é deixar as coisas como estão." A jovem mulher falou incerta.

"Do que está falando?'

Ela o encarou nos olhos e engoliu em seco para finalmente conseguir dizer o que sabia que era o certo. "Acho melhor eu ir embora... sua esposa agora é Tomoyo. Eu não posso... ser sua esposa." Terminou de falar com um fio de voz desviando os olhos do rapaz para o chão encarpetado.

"Porque não?" Perguntou se aproximando dela.

"Por que eu sou apenas uma camponesa que mal sabe ler e escrever! Eu não posso ser casada com você!"

Sakura tentou fugir dando uns passos para trás, que pergunta ele tinha feito, como ela poderia ser casada com um homem daqueles. Ele era casado com Tomoyo, aquela mulher que lhe tratou com tanto carinho.

"Do que tem medo Sakura?" Falou se aproximando mais da moça e a encurralando contra a parede. "Do que tem medo?"

"Quem disse que estou com medo?"

"Conheço você melhor que ninguém, Sakura. Sei que está com medo? Medo de mim..."

"Então porque não vai embora? Porque não me deixa?"

Ele repousou suas mãos na parede imprensando Sakura que o fitava com os olhos inquietos. "Não antes de me responder porque está com medo de mim."

Ela o sentiu se aproximando, ela queria beijá-lo, queria experimentar a sensação dos lábios se tocando, mas como num flash lembrou-se da sua imagem no espelho assim que acordou do coma, do seu rosto quase deformado devido aos hematomas. "Não!" Gritou empurrando ele e tentando fazer com que se afastasse dela. Ele prendeu os dois punhos dela. "O que aconteceu, Sakura? O que aconteceu com você?"

"Por favor...me solta, me deixa!"

"Não! Enquanto não falar comigo!" Falou segurando mais forte os punhos da jovem.

Sakura se debatia tentando se livrar dele, tentando se afastar não só daquele homem como das únicas lembranças que tinha. Ela começou a chorar, chorava não por ele estar machucando os seus punhos, mas por toda a situação, ela estava tentava inutilmente ser forte, mas não conseguia, ela queria se lembrar de tudo, mas tinha medo, medo do que se lembraria. "Por favor me solte..." Sakura pediu em voz baixa, "...está me machucando..."

Li soltou imediatamente os punhos da esposa e deu um passo para trás olhando transtornado para a moça que se abraçou com seus próprios braços e soluçava a sua frente. "Eu não... eu não queria..."

Sakura virou o rosto ainda em lágrimas e encostou-se à parede olhando para o janelão do quarto. "Você não entende, você não consegue entender..."

Li permaneceu em silêncio.

"... como posso ser sua esposa se eu te conheci a menos de dois dias, como posso acreditar que tivemos intimidades se eu nunca vi o seu rosto, como posso ser mãe se eu não sabia que tinha um filho, se não me lembro da minha gravidez, do seu nascimento... como? Me responda como posso viver uma vida que eu não consigo acreditar que é minha e sim da senhora Tomoyo?"

Syaoran a abraçou com força e Sakura retribuiu aos prantos. Ele estava sendo egoísta, ele estava pensando apenas nele e na sua vontade louca de ter a ex-mulher de volta que não tinha pensado nela e nem em Tomoyo. Como sempre ele tinha sido um egoísta. "Me desculpe..." Sussurrou ao ouvido dela enquanto afagava os cabelos da mulher que amava. Sakura balançou a cabeça no peito do rapaz enquanto apertou mais forte a cintura dele.

Sakura começou as suas sessões com a psicóloga, no começo ela se sentiu nervosa e arisca com a senhora Miu Lay mas depois a velha senhora conseguiu a sua confiança. Já haviam se passado uma semana que a moça tinha se mudado para a China. Sakura estava cada vez mais encantada com Tomoyo, era realmente com se ela fosse sua irmã, a acompanhava em todos os lugares e fazia questão de que saíssem com Shaolin para o parque. Sakura reparava que a bela moça observava ela e o filho brincando com um sorriso, um sorriso sincero.

"Syaoran, posso entrar?"

Li levantou o rosto e viu a figura de Tomoyo parada na porta do seu escritório. Ele sorriu e respondeu. "Claro, Tomoyo." Ela entrou e se sentou na cadeira a frente da mesa fitando o marido. Tomoyo havia se apaixonado por ele sem dúvida, Li se mostrou um marido carinhoso e preocupado com o bem estar dela, além de ótimo pai. No fundo ela estava feliz sendo a esposa dele e mãe de Shaolin, mas não era este o seu lugar, este era o lugar de Sakura. "A que devo a honra da sua visita ao meu humilde e chato lugar de trabalho?"

Ela sorriu docemente com a brincadeira do rapaz, realmente era muito raro visitar o marido no escritório. "Preciso lhe falar sobre Sakura."

Li ergueu uma sobrancelha. "Sobre Sakura?"

"Sim, ela está com Shaolin na recepção."

"Porque os trouxe aqui?"

"Na verdade, saímos para passear depois da sessão dela e resolvi vir aqui te visitar e lhe convidar para jantarmos fora esta noite, o que você acha?"

"Não sei se será uma boa Tomoyo."

"Percebi que tem evitado Sakura. Não janta mais conosco, chega em casa e vai direto para sua sala de treinamento e só vai falar com Shaolin quando tem certeza de que ele está sozinho ou com as criadas..."

Li levantou e virou-se para apreciar a vista do seu escritório. "Não vou mentir para você Tomoyo..."

"Ainda bem, pois ficaria muito triste se fizesse isso".

Syaoran virou-se para ela e a viu sorrindo docemente, Tomoyo era um anjo, era o seu anjo. Ele tinha sido infinitamente feliz ao lado daquela mulher, mas agora, agora que o seu verdadeiro amor voltou, tudo havia mudado. Não que ele tivesse deixado de amar Tomoyo, mas era um amor diferente do que sentia por Sakura.

"Minha presença incomoda Sakura, ela se sente mal perto de mim e isso também me faz mal. Entenda que também não está sendo fácil para mim esta situação... mas preciso preservar Sakura."

"Eu entendo", ela respondeu indo até ele e parando a sua frente, "imagino como deva está sendo difícil esta indiferença de Sakura com relação a você. Sei que nunca conseguiu esquecê-la, Syaoran, sei que a ama com todo o seu coração". Tomoyo passou de leve sua mão na face do marido e sorriu. Ele segurou a mão dela.

"Tomoyo, talvez Sakura nunca mais volte a se lembrar de mim, não quero viver sempre com esta maldita esperança de que um dia ela acordará e se lembrará que me ama ou que me amou um dia. Preciso continuar vivendo a minha vida com ou sem ela.. com ou sem você..."

Tomoyo olhou séria para ele, talvez ele tivesse razão, talvez Sakura nunca mais se lembrasse de quem era ou se algum dia voltasse a se lembrar talvez o amor que ela sentia por Li tivesse acabado, ou não... eram tantas dúvidas que a vida tinha se tornado um jogo de loteria. "Mesmo que ela não se lembre, será fácil voltar a se apaixonar por você..."

Li ergueu uma sobrancelha e continuou fitando Tomoyo, o que ela queria disser com aquilo? "Do que está falando, Tomoyo?"

"Ela sempre pergunta onde você está."

Li se afastou da moça e sorriu de lado. "Para ter a certeza de que eu não estou por perto."

"Como pode ter certeza? Como pode ter certeza de que o sentimento que ela nutria por você desapareceu junto com a sua memória?"

"Tomoyo, por favor, não banque a garota romântica, nós dois sabemos que se ela não se lembra do que viveu comigo não tem como se lembrar de que algum dia no seu passado me amou."

"Amor é um sentimento, não é uma lembrança."

Li pegou o rosto de Tomoyo entre suas mãos e beijou sua testa docemente. "Não vamos discutir isso, minha querida, volte para o seu passeio com Shaolin e Sakura e vamos esquecer esta história de jantar, está bem?"

Tomoyo reparou que não tinha mais como convencê-lo de que estava sendo um cabeça-dura, acabou desistindo da sua idéia de jantar os quatro juntos. A moça saiu do escritório e encontrou Sakura brincando com Shaolin no colo.

"O que ele disse? " Perguntou Sakura tentando disfarçar a ansiedade.

"Ele acha que ainda é muito cedo para isso. Acha que é melhor você continuar com as sessões com a senhora Miu Lay e depois que já estiver segura podemos marcar esta confraternização em família", Não era do feitio de Tomoyo mentir, mas tentou amenizar a situação pois percebeu a decepção da amiga.

"Se ele acha isso então está bem." Respondeu Sakura tentando parecer desinteressada.

Nesta hora entrou na sala um rapaz vestido elegantemente, Sakura virou o rosto para ver quem entrava na sala e sentiu como se todo o seu sangue tivesse escorrido com a imagem do homem a sua frente. Ele sorriu de lado e inclinou a cabeça cumprimentando as duas mulheres de Syaoran e a secretária.

"Boa tarde, gostaria de falar com o senhor Li?"

Sakura não conseguia mais ver a imagem do homem, de repente os seus olhos começaram a pesar e o seu corpo a perder forças, de repente tudo era apenas escuridão a sua frente.

"Porque foge de mim, gracinha, vou fazer você alcançar o céu como Xiao Lang nunca conseguiu fazer você chegar..."

"Me largue, me deixe em paz!" Gritava Sakura enquanto se debatia para se soltar do homem que a segurava com força.

"O que foi? Está com medo de sentir prazer, garota!" Ele gritou depois de dar um soco na moça.

Sakura caiu no chão com a dor, depois sentiu se atingida mais uma ou duas vezes. Ela chorava enquanto tentava se levantar para fugir do agressor. Ela não conseguia ver o rosto dele, era como se o rosto estivesse borrado impossibilitando de identificar quem ele era, mas ela pode sentir as mãos dele percorrendo todo o seu corpo, tentando arrancar suas roupas...

"Por favor, não! Me solte! Por favor!" gritava tentando se livrar daquelas mãos.

"Cala boca, sua vadia!" A resposta era sempre acompanhada por mais agressões.

"Não!" Sakura levantou da cama suada e se debatendo quando sentiu ser segurada pelos braços. "Calma! Foi apenas um pesadelo! Acalme-se!" Ela abriu os olhos e viu o rosto desesperado de Li a sua frente a segurando. A moça começou a chorar e se abraçou ao rapaz tentando se livrar do pesadelo que teve. Tomoyo estava sentada no outro lado da cama e observava a tudo com os olhos rasos de lágrimas. Li virou o rosto para ela, ainda fazendo carinho nos cabelos de Sakura. "Vai ficar tudo bem, eu prometo, Sakura, vai ficar tudo bem..."

A moça ainda soluçava no peito dele, como ela queria acreditar que tudo ficaria bem, mas aquele não tinha sido um pesadelo, tinha sido uma lembrança e ela sabia muito bem do que era.

"Como ela está?" Perguntou a Senhora Li assim que viu o filho e a nora descendo as escadas.

"Está dormindo com a ajuda dos remédios que a senhora Miu Lay receitou." Respondeu Tomoyo.

"Que susto eu levei quando vi Xiao Lang entrando por aquela porta com ela nos braços, pensei que tínhamos a perdido novamente" desabafou a senhora sentando no sofá com as mãos no peito.

Li passou a mão pelo cabelo e se jogou na poltrona, o estado dele era deplorável, estava com a camisa fora da calça e com as mangas dobradas, ele nem mesmo se lembrava onde tinha largado a gravata e o terno.

"Meu Deus, o que aconteceu com ela, Syaoran?" Perguntou Tomoyo.

"Teve uma lembrança..." Respondeu "Para mim já chega, quero que a Senhora Miu Lay pare com as sessões e os medicamentos!"

"Enlouqueceu, Syaoran?" A moça se revoltou, "Está louco em parar o tratamento dela. Assim, do nada, ela nunca conseguirá recuperar a memória!"

Li se levantou e começou a caminhar para fora da sala, "Mas é isso mesmo que eu quero, não quero mais que Sakura se lembre de quem era, deixa-a começar a viver a partir de agora!"

"Você está louco?"

"Não, só não quero que ela se lembre do que aconteceu, prefiro a perder para sempre do que provocar mais dor a ela, a vida deu a chance dela esquecer de tudo, não serei eu e o meu egoísmo que irá fazer com que a mulher que eu amo viva num pesadelo".

Tomoyo acompanhou o rapaz sair da sala enquanto tirava a camisa, ela sabia para onde ele estava indo, estava indo se trancar novamente na sala de treinamento para socar o saco de areia até fazê-lo estourar como sempre fazia quando se encontrava em situações que não podia fazer nada. Li tinha aberto mão de Sakura, preferia perder a esposa para sempre do que fazer com que ela voltasse a se lembrar não só do que viveu com ele, mas do que aconteceu com ela antes de ser jogado no barranco semi-morta.

"O que está acontecendo Tomoyo? O que está acontecendo com o meu filho?"

"Syaoran acabou de abrir mão da felicidade dele, senhora Yelan, ele acabou de fazer isso..."