I'd use you as a warning sign
That if you talk enough sense, then you'll lose your mind
And I found love where it wasn't supposed to be
Right in front of me, talk some sense to me
(Amber Run - I Found)
Meu corpo, desacostumado com o prazer sereno do sono e da falta de lembranças ruins tomando forma de pesadelo, moveu-se inquietamente até conseguir me despertar do transe gerado pelo medicamento. Por alguns instantes, tudo o que vi foram borrões que fizeram com que o ar parasse de circular pelo meu cérebro, obrigando-me a fechar os olhos mais uma vez e a repetir incontáveis vezes que eu não estava vivendo dentro de um sonho; Peeta estava ali.
Eu poderia estar enganada por culpa do meu estado febril, mas de alguma forma, meu inconsciente urrava que não era outra ilusão para ser posta no meu baú de alucinações. A forma como o meu corpo estava reagindo era a certeza que eu precisava ter para me enrolar em uma manta e sair em disparado dali, na esperança de encontrá-lo no corredor ou até mesmo sentado confortavelmente no sofá da sala, bebericando um pouco de chá ou lendo alguns dos livros empoeirados de Prim. Assim que me vi sozinha no meio do vazio, senti que involuntariamente os meus dedos trêmulos mal conseguiam mais segurar a manta contra o meu corpo e, quando percebi, meus pés descalços haviam me levado até a porta da casa Mellark.
Não deveriam ser nem seis horas da manhã, conclui enquanto o meu indicador deslizava pela madeira da porta em uma incerteza fatigante. A névoa que saia da floresta chegava a esconder os meus pés e os poucos raios de sol não conseguiam me aquecer da forma que o pedaço de pano marrom esquecido na soleira da minha própria casa conseguia; tudo ainda era um borrão, as certezas ainda eram incertas e o receio se mesclava com a minha febre, fazendo com que os meus ombros começassem a me empurrar para baixo.
Nada passava de um borrão.
Tudo era consumido pelo preto.
xxx
— Você precisa parar de fazer isso.
Foi a primeira coisa que escutei quando tornei a abrir os olhos. O ambiente mudará – a neblina não cobria mais os meus pés, ao invés disso, pequenas toras de madeira crepitavam na lareira localizada no meio da sala e reaqueciam cada mísero poro do meu corpo, confortando as minhas preocupações como uma carícia quente em uma manhã de verão.
Pisquei os olhos lentamente, sentindo como as minhas pálpebras insistiam em fazer com que os meus olhos se fechassem para não abrir, porém de repente a carícia que antes vinha da lareira passou a vir de dedos que se perderam entre os fios do meu cabelo, colocando vagarosamente algumas mechas enroscadas para trás das minhas orelhas.
— É claro que você iria sair de casa ardendo em febre, — escutei Peeta murmurando mais para ele do que para mim e, por mais que eu quisesse entortar o nariz e alegar que eu não estava tão mal quanto ele imaginava, somente tombei a minha cabeça para o lado para permitir que os dedos dele tivessem um acesso melhor ao meu cabelo. — eu deveria ter trancado a porta.
— Você não estava lá. — Minha boca falou antes que meu cérebro conseguisse impedi-la. Quis culpar a febre, mas preferi por incriminar o afago ameno que recebia continuadamente. — Acordei e você não estava lá de novo.
Não pude ver a reação de Peeta ao escutar as minhas palavras, mas senti o corpo dele se acomodando ao lado do meu no sofá e os calos que antes deslizavam pelo meu couro cabeludo agarraram os meus braços, movendo-me como se eu pesasse uma pluma até o meu corpo reclinar no dele de uma forma natural, quase como se tivesse sido ensaiada.
A respiração falha dele só poderia significar que, como de costume, ele se perdera dentro da própria cabeça, tentando digerir o peso das minhas palavras e tudo o que elas poderiam implicar. Não precisei de uma desculpa para deixar nossos corpos se moldarem como se fossem o mesmo, não era a primeira ou segunda vez que utilizávamos o calor corporal para nos protegermos contra o frio, todavia, tanto ele quanto eu sabíamos que daquela vez, nada tinha a ver com a necessidade que tivemos ao longo dos anos; daquela vez eu só queria estar ali, tentar finalmente aceitar que Peeta não estava onde os meus olhos não podiam vê-lo. Meu corpo só queria tatear o dele, sentir nas minhas digitais as cicatrizes e os movimentos mais simples que o corpo dele poderia produzir, como o subir e descer do peito por conta da respiração.
— Eu achei que era outro sonho. — Sussurrei, não me importando mais em deixar a minha boca tomar o controle da minha linha de raciocínio.
— Não consegui encontrar remédios para febre. — Peeta falou com cuidado, deixando um braço descansar em cima do meu abdome e senti a minha pele ardendo com o contato – não de febre, mas de alívio. — Sua... Sua mãe e Prim devem ter usado os que elas tinham para ajudar algumas pessoas do Distrito. — Soube que ele estava medindo as palavras, talvez até mesmo elaborando-as antes de soltá-las, por isso pus o meu braço sobre o dele, roçando os dedos das nossas mãos em um toque quase que superficial, mas tão tórrido que me fez perder o fôlego por vários segundos que se seguiram. — Pensei que poderia encontrar Pulmonaria¹ na floresta para fazer um chá.
— Você entrou na floresta? — Ergui o meu rosto para, pela primeira vez desde que chegara ali, encará-los nos olhos. As bolsas roxas logo abaixo dos cílios apenas me diziam que ele dormira ainda menos do que eu. — Peeta, você...
— Não sobrou muita coisa da floresta, Katniss. Eu só percebi isso quando atravessei o que restou do cercado. — Ainda sem me encarar diretamente nos olhos, ele soltou um suspiro penoso e voltou a falar, — mas me encontrei com a Danica no caminho, aquela senhora que antes trabalhava no...
— Eu me lembro dela. — Cortei, não querendo conversar sobre qualquer assunto sobre o antigo Distrito naquele momento.
— Ela me ofereceu gengibre e hortelã para preparar poder preparar outro chá que estimula a circulação e a transpiração. Foi por isso que eu não estava com você depois que você adormeceu.
— Você não precisava ter feito isso, Peeta.
Quis agradecê-lo, contudo tudo o que consegui fazer foi juntar nossas mãos e enlaçar os nossos dedos firmemente. Tranquilizei-me quando me recordei que eu estava conversando com Peeta, que ele saberia que aquela era a minha forma estranha de agradecê-lo por fazer coisas como aquela.
Peeta então sorriu. Sorriu de uma forma tão plena e flegmática que, mais uma vez, senti um fervor tomando conta do meu corpo e de mim por inteira. Eu, tão desacostumada com aquele sentimento de calmaria, apenas me permiti a observar meio estupefata e fascinada o sorriso que permaneceu nos lábios dele até os mesmos se moverem para sussurrarem: — A esse ponto você já deveria saber que não há nada que eu deixe de fazer para ter a certeza de que você está bem, Katniss...
Antes que eu pudesse assimilar o que havia me sido dito, ele abriu os olhos ainda com um sorriso banhado em adoração, autorizando os nossos olhares a se fundirem em um momento que se tornou só nosso. Tudo o que se passava dentro de minha cabeça enquanto meu olhar não desviava do dele era um mantra em que o meu cérebro repetia sem parar "PeetaPeetaPeeta", apenas.
— Eu não vou a lugar algum sem você, Katniss. Não mais.
¹ Pulmonaria - essa planta medicinal é antiinflamatória, sudorífica e expectorante e, por isso, ajuda a abaixar a temperatura corporal. Ferva 3 xícaras de água com 2 colheres de soa de pulmonaria seca e deixe abafado por uns 20 minutos e coe. Deve ser bebido de três a quatro vezes ao dia.
N/A: falam que quem é vivo sempre aparece e queria dizer que nesses últimos anos não fui nada além do que um zumbi. Faculdade, OAB, monografia, ENADE, sem contar os trabalhos para serem feitos, estágios em que trabalhei como um cavalo de guerra e todas as outras porcariadas que me impediram de me focar um pouco nos meus hobbies. Porém agora estou "livre" (entre aspas porque agora sou de fato, adulta, e tenho contas para pagar e problemas para responder) e como sempre cumpro o que prometi, vou terminar essa história que me assombra há meses.
Peço desculpas por qualquer coisa, não sento para escrever algo que não seja relacionado com Direito há muito tempo então não faço ideia do que digitei hoje. Não reli os livros por não ter tempo, nem assistir ao último filme eu assisti ainda – você foi tarde, 2015! -, mas agora vou aproveitar esse tempinho que tirei para descansar e ver se aproveito para finalizar essa história (que só deve ter mais uns 5 capítulos) e botar no papel outras histórias que guardei para mim por séculos.
Se alguém ainda lê essa história, obrigada por não ter desistido de mim. Se ninguém mais lê essa história, a culpa é minha e eu entendo. Mas se você por acaso está lendo o que eu estou digitando loucamente nesse exato segundo e puder me deixar um "alô" (aka review) eu vou agradecer profundamente.
Obrigada por tudo e eu senti saudades.
PS: vou tentar dar uma organizada no meu , mas se vocês quiserem falar comigo, podem me procurar no twitter (audpburn) ou no tumblr (audpburn e springfolks), vou amar conversar com vocês por lá!
