Levi espreguiça-se no colchão duro enquanto abre a boca num longo bocejo que atrai a atenção de Erwin. Erwin volta-se para trás e sorri de uma forma que obriga Levi a retribuir ao sentar-se e pressionar a planta dos pés contra o chão frio de madeira da cozinha, olhando de relance pela janela para o jardim onde os primeiros sinais do amanhecer começam a pintar de laranja os verdes brilhantes da relva alta. Uma abelha desorientada voa contra o vidro velho da janela com uma pancada surda antes de continuar para o campo de gerânios que crescem à volta do poço. A divisão está silenciosa salvo o crepitar abafado do lume no fogão chamuscado e o chilrar dos pássaros lá fora, dois sons muito distintos que parecem formar uma harmonia perfeita para acompanhar o silêncio confortável da pequena cozinha.
Levi mantém os olhos no jardim, e assim que pensamentos e imagens da noite começam a ressurgir, afasta-los gentilmente para longe da mente. Sabe que haverão melhores alturas para pensar naquilo, sabe que haverão noites em claro no seu futuro que se enquadrarão muito melhor nessas memórias do que esta manhã dourada e serena. A escuridão não pertence aqui, Levi pensa para si enquanto levanta os braços acima da cabeça e estica as costas, não neste dia em que decidiu ficar totalmente livre de misérias. Volta o seu olhar para Erwin que está atento ao lume, girando a cadeira que tinha aproximado do fogão para poder olhar para Levi quando este finalmente quebra o silêncio.
- Dormi durante quanto tempo? - pergunta Levi a Erwin, a voz ainda rouca do sono.
- Só cerca de uma hora - responde o homem, ainda a sorrir levemente. - Mas parece-me que dormiste profundamente.
Levi resfolega, enfiando os pés descalços nos sapatos antes de passar os dedos à pressa pelo cabelo. - Essa é a tua forma de me dizeres que ressono? - pergunta a Erwin, que ri, soando um pouco embaraçado.
- Da forma mais moderada possível - assegura ele a Levi na brincadeira. - Mas sim, de facto, ressonas.
Levi dá uma gargalhada seca ao levantar-se devagar e a avançar para a porta. - Devias ter-te ouvido ontem à noite - reitera, divertido. - Já ouvi tempestades mais silenciosas do que tu.
Sai para o jardim, inspirando o ar fresco da manhã e o aroma da relva húmida e das bétulas ao caminhar pelo pequeno trilho de ida e volta da latrina. De ambos os lados vê teias de aranha, tecidas durante a noite entre os caules mais altos das flores e carregadas de gotas de orvalho que reflectem pequenos arco-íris para as folhas mais perto quando os primeiros raios de sol as trespassam. Levi deseja de repente estar descalço para poder sentir a frescura da terra contra as plantas dos pés. Inspira profundamente de novo e olha para cima para o céu azul pálido que promete um dia óptimo, tal como Erwin previra. A própria noção de vida parece estar enlaçada no ar, encapsulada dentro das plantas, da madrugada, da terra dura pisada sobre a qual Levi está, questionando-se de alguma vez vira cores tão vivas antes.
Entra na casa de banho, feliz por encontrar a água na cisterna ainda quente da noite anterior enquanto enche o lavatório e começa a lavar-se, lavando o fedor de transpiração que ainda restara da noite anterior das axilas e do pescoço e salpicando água para a cara antes de se secar e mudar para roupa lavada; um par de calças castanhas e uma camisa de algodão branco com as mangas arregaçadas até aos cotovelos. Quando regressa à cozinha, encontra Erwin a servir chá para duas canecas de esmalte antes de descer desajeitadamente para a cave para ir buscar leite, batendo com a cabeça no seu regresso ao topo. Deita uma gota para cada chávena e entrega uma a Levi, esfregando o ponto dorido na testa enquanto caminha para se sentar nas escadas que levam à porta. Levi junta-se a ele em silêncio, soprando para o chá para o arrefecer, os olhos a seguirem duas libelinhas enquanto estas zubem ao passar e desaparecer no pomar.
- Achas que ajuda, sermos recordado de coisas como esta? - pergunta Erwin de repente, inclinando-se contra a grade das escadas e esticando as longas pernas para caírem sobre os degraus mais abaixo.
- Mal não faz, acho eu - diz Levi com um encolher de ombros, e beberrica o seu chá. - É provavelmente melhor do que estar constantemente miserável a porra do tempo todo.
O homem concorda com um som baixo e afasta uma mosca da sua caneca preguiçosamente. Levi observa-o pelo canto do olho, vendo o perfil definido, as madeixas de cabelo despenteadas a caírem sobre a testa, o nariz romano sobre os lábios agora esticados num sorriso persistente. Como se tivesse sentido o seu olhar, Erwin volta-se para olhar para ele, as sobrancelhas ligeiramente franzidas de repente. Hesita por alguns segundos antes de falar.
- Espero sinceramente que não te sintas assim - diz, e a intensidade do olhar força os olhos de Levi a regressarem à linha de árvores no canto mais afastado do jardim. - Desejo muito que tudo isto seja uma melhoria e não um fardo.
- Claro que é uma melhoria - diz-lhe Levi de forma quase impaciente. - Achas mesmo que eu estaria a fazer isto se não fosse?
Erwin demora um momento a responder. - Não, suponho que não - diz, equilibrando a caneca de esmalte no joelho e continuando mais baixo. - Quero que saibas que, se chegar a altura em que prefiras terminar o teu envolvimento com-
- Hoje não - interrompe-lo Levi, sem ele próprio ter a certeza se o diz como uma resposta ou um pedido.
O homem solta uma gargalhada. - Como queiras - diz simplesmente e dá um grande trago no seu chá.
Ambos se voltam para olhar para o jardim, bebendo o chá sem falar, ambos confortáveis com o silêncio prolongado que parece tão adequado para a tranquilidade da hora matutina. Levi não consegue evitar sentir-se atordoado por tudo aquilo, o casebre, o jardim, a calma da manhã quente de verão e o facto de que as pessoas ainda podem viver desta forma, ter coisas destas na sua vida. No apartamentozeco aborrecido que partilhara com Kenny, Levi nunca sequer pensara em sonhar com lugar assim; eles nem plantas tinham em casa, quanto mais esta abundância de vida.
- É um sitio muito agradável - diz em voz alta, fazendo Erwin voltar-se para olhar para ele, como se estivesse surpreso pela súbita afirmação.
- Sim - concorda ele, e mesmo naquela única palavra Levi consegue perceber que ele está a sorrir de novo. - Muito agradável. Sinto que ainda gosto mais agora do que antes. Não que seja surpreendente. Acho que boa companhia pode melhorar qualquer lugar.
- Suponho que não tenha sido um desperdício então - diz Levi. - Trazê-los connosco.
- Não foi de todo - concorda Erwin mais uma vez. - Acho que tens razão. Estaríamos a fazer um péssimo trabalho se não tentássemos pelo menos divertir-nos tanto quanto possível. Afinal, nenhum de nós sabe quantos mais dias destes ainda nos restam.
Levi acena sem falar, bebendo o chá. O leite tem um sabor mais cremoso do que o costume. Quando um raio de sol cai quente sobre o seu rosto, Levi sente-se satisfeito não só por esse calor mas também por esta sensação de não ter de ser ninguém em particular ou alguma coisa para alguém, e a ausência de medo que encontrara neste lugar. Está ciente de Farlan e Isabel no quarto lá em cima, mas aqui sente-se diferente, eles parecem separados, como se as suas vidas não fossem responsabilidade sua, mesmo que fosse só por este dia. Olha para Erwin de novo, retribuindo o sorriso dele rapidamente antes de abafar o riso para a sua caneca, lembrando-se da expressão de Erwin quando se apercebera do erro que cometera quanto à relação de Levi e Farlan: olhos abertos e faces coradas, olhar a saltitar entre os dois. O sorriso de Levi torna-se uma gargalhada baixa só de pensar.
- O que foi? - pergunta-lhe Erwin, mas ele abana a cabeça, ainda a sorrir.
- Nada - responde. - Só me lembrei uma coisa engraçada.
Consegue ouvir os sons trazidos do interior pela porta aberta trás deles, passos leves nas escadas e pedaços sussurrados de uma conversa que Farlan e Isabel estão a ter enquanto descem. Olha para trás e vê-los entrar quase sem som na cozinha, como se estivessem de repente cautelosos perante a imagem para a qual tinham despertado. Farlan já está vestido com umas calças simples e uma camisa de manga curta, o cabelo com dificuldades para se manter arrebitado da forma que já de si era ridícula; o resultado era uma confusão desajeitada que ainda assim consegue estar mais apresentável quando comparado o ninho vermelho de Isabel, mais nós do que cabelo a cair-lhe sobre a cara. Quando os olhos de Farlan se cruzam com os de Levi, acelera para ultrapassar Isabel e descer os degraus como se estivesse subitamente consciente da sua erecção matinal, que Levi faz questão de ignorar enquanto o homem passa por eles, mal parando para lhes desejar bom dia.
- Espera por mim, Farlan! - grita Isabel atrás dele, correndo descalça pelo pequeno trilho em direcção à latrina vestida com uma camisa grande que lhe chega até aos joelhos das perninhas magricelas.
- Devia começar a preparar o pequeno almoço - murmura Erwin, esvaziando a sua chávena antes de se levantar, acenando a Levi para que continue sentado quando este se prepara para o seguir. - Por favor. És meu convidado, lembras-te?
Levi deixa-se ficar e fecha os olhos ao recostar-se contra as grades das escadas, deixando o sol brilhar sobre o rosto sorridente. A manhã está rapidamente a subir de temperatura, aproximando-se do dia quente que se promete tornar. Na altura em que Farlan e Isabel se juntam a ele, está sonolento e satisfeito, bebendo o resto do chá de um último trago enquanto eles se sentam nas escadas atrás de si. Olha de relance para a cozinha para Erwin, que se começara a atarefar com frigideiras e ovos. Consegue ouvi-lo cantarolar para si por entre tinidos e pancadas.
- Devíamos ir ajudá-lo? - pergunta Isabel num sussurro e Levi abana a cabeça.
- Aprecia mas é o sol - responde-lhe, fechando os olhos e deixando a cabeça cair para trás de novo. Sente o peso da noite mal dormida a puxar-lhe as pálpebras para baixo e boceja profundamente.
- Não dormiste bem, então? - inquire Farlan num tom casual que ainda assim chama a atenção de Levi. Encolhe os ombros para afastar o assunto.
- O suficiente - diz, preferindo não mentir descaradamente. - E vocês?
- Dormi tão bem, mano! - exclama Isabel excitada.
- Pois, e ressonaste muito bem também - troça Farlan com uma carranca na cara. - Estou praticamente surdo agora graças a ti.
Isabel faz uma careta ao homem antes de o empurrar com força e o fazer cair um degrau; Levi demora um momento a perceber que a indignação na cara dele é fingida e não real.
- E por causa disto - diz o homem, apontando o indicador à rapariga - vou pentear o teu cabelo hoje à noite.
- Não! - grita Isabel, tapando a juba despenteada com as mãos.
- Sim! - grita-lhe Farlan, a rir. - A sério, és impossível! Olha só para ti! Pareces uma criança selvagem. Não estás a ser criada por lobos, sabias?
- Não! - grita Isabel de novo, saltando do lugar e passando por eles a correr em direcção ao poço, enfiando a cabeça sob a bomba e molhando o cabelo antes de enxugar a água; as gotas caem na relva à sua volta e molham-lhe a blusa, criando manchas cinzentas no tecido branco. Levi fica a olhar para ela e ri-se enquanto ela salta pelo jardim antes de correr de novo escadas acima, ganindo à soleira da porta da cozinha quando o impulso dos seus passos fazem uma farpa espetar-se sob a pele do dedo grande do pé.
- Olha só o que fizeste - diz Farlan com um suspiro enquanto Isabel coxeia até à sala e se senta à mesa.
Levi sorri para si ao levantar-se e dirigir-se para a cozinha atrás de Farlan, que se ajoelhara à frente da rapariga e segurara o pé dela no colo. Erwin olha para eles do fogão com as sobrancelhas franzidas e parecendo preocupado até perceber que a situação não é séria. Tira cuidadosamente quatro ovos estrelados para pratos antes de pousar a frigideira.
- Acho que vi uma agulha algures por aqui - comenta ele antes de começar a remexer pelos armários, achando finalmente uma velha lata de bolachas recheada de material de costura.
Esteriliza a água e passa-a a Farlan, que começa a tirar a farpa do dedo de Isabel. Levi nota distraidamente o quão quieta ela fica, mal fazendo uma careta apesar do desconforto e da dor que deve estar a sentir. Senta-se à mesa também, esticando-se para segurar a mão de Isabel; ela olha para ele, parece quase surpreendida, antes da boca se esticar num grande sorriso e ela lhe apertar a mão com mais força.
- Não dói assim tanto, mano - diz-lhe ela, estremecendo quando Farlan finalmente agarra a farpa entre os dedos e a puxa de debaixo da pele; Erwin entrega-lhe um penso, que ele enrola à volta do dedo magrinho da rapariga.
- Já está, sua peste - diz Farlan, a sorrir. - Não que eu espere que me agradeças, sua selvagenzinha.
Por um segundo parece que Isabel está prestes a fazer uma carranca, mas em vez disso ela larga a mão de Levi e levanta-se, enrolando os braços à volta do pescoço de Farlan. O homem fica chocado por alguns segundos antes de retornar o gesto, parecendo genuinamente emocionado.
- Obrigada, Farlan - murmura Isabel. Levi consegue ver os olhos do homem a brilhar.
- Não queria dizer que tinhas de fazer isto - resmoneia ele antes de a largar e aclarar a garganta atabalhoadamente.
Levi troca olhares com Erwin quando ele leva os pratos para a mesa e ambos sorriem; repara em linhas ténues nos cantos dos olhos do homem e o seu sorriso aumenta ao interrogar-se como nunca reparara nelas antes. Sentam-se todos nos seus lugares para apreciarem o pequeno almoço que Erwin cozinhara: ovos estrelados com as gemas a escorrerem sobre fatias de pão torrado, e mais do chá que ele prepara tão bem.
- És quase tão bom a cozinhar como o Farlan - diz Isabel a Erwin depois de surripiar o último pedaço de pão do prato de Farlan.
- Não tenho assim tanta certeza - responde ele a rir. - Receio que ovos fritos sejam o máximo das minhas capacidades culinárias.
- Então quem é que cozinhou o borrego? - Levi lembra-se de repente. - Quando nos conhecemos.
Erwin olha para ele por alguns segundos e pela maneira como o seu olhar se desfoca Levi consegue ver que ele se está a recordar daquele primeiro encontro, e questiona-se se aquela memória lhe é estranhamente agradável como é para Levi, ou se ele se recorda do evento de maneira completamente diferente.
- Foi isso que comemos, não foi? - diz Erwin, a expressão ainda distraída. - Foi-me dado por uma vizinha. Ela estava preocupada que eu não me estava a alimentar bem.
- Aposto que ela também não estava errada quanto a isso - responde Levi, estalando a língua. - Se fores tão mau a cozinhar como és a limpar, fico surpreendido como é que ainda não morreste de fome.
- Então, então - repreende-o Erwin gentilmente.
Do outro lado da mesa Farlan resfolega audivelmente, disfarçando-o depois muito mal como uma tossidela quando Levi olha para ele de cenho franzido. Os olhos de Farlan evitam os dele, focando-se em vez disso no seu prato onde a gema do ovo deixara manchas amarelas na porcelana branca. Há algo estranhamente rígido na sua postura, como se estivesse ciente de Levi estar a olhar para ele e estivesse a tentar ficar muito quieto para que o corpo não revelasse o que quer que fosse que estivesse a sentir.
- Vamos nadar hoje? - pergunta Isabel, quebrando o silêncio tenso.
- Se quiserem - responde Erwin e volta a olhar para Levi. - Se calhar podíamos levar almoço, fazer um piquenique?
Levi encolhe os ombros. - Não vejo porque não.
- Também podemos alugar bicicletas como prometes-te, Erwin? - pede Isabel de forma quase estridente, as mãos apertadas à volta da sua caneca.
Erwin olha em torno da mesa para Farlan e Levi. - O que acham?
- Eu não sei andar de bicicleta - admite Levi casualmente, ganhando mais um escarnecer de Farlan.
- Acho que podes juntar isso à lista - diz o homem em tom de troça sem olhar para ninguém.
Um novo silêncio tenso cai sobre a mesa e Levi consegue sentir as sobrancelhas franzirem-se por mais do que a confusão e a mágoa que sente; esta última parece quase mesquinha depois de tudo pelo que já passara, e uma parte dele está surpreendida que algo tão trivial o possa fazer sentir-se tão mal. Olha para Farlan sem dizer nada. O homem cruzara os braços à frente do peito e olhava para o jardim de forma quase carrancuda, e algo naquela postura faz Levi lembrar-se de uma criança que se recusa a fazer algo que lhe mandaram. Quando Farlan finalmente resmunga um pedido de desculpas que ninguém pediu, Levi não sabe como o aceitar e apenas encolhe os ombros.
- Se é assim que me vês mesmo, porque é que não o dizes em voz alta? - diz ao outro homem num tom sem emoção que parece torcer ainda mais o nariz de Farlan.
- Sabes que não é assim que te vejo, Levi - bufa ele irritado. - Sabes que não era isso que eu queria dizer, por isso porque é que tens de falar assim? Era só uma piada, por amor de Deus.
- Pois - diz Levi baixinho. Pelo canto do olho, consegue ver Erwin a olhar longamente para Isabel.
- Ouve, já pedi desculpa - reitera Farlan, levantando a voz. - Não sei o que mais queres que eu faça. Queres que retire o que disse? Óptimo, retiro o que disse. Quem me dera não ter dito nada. Já estás feliz agora?
- Se calhar podes ir no suporte para bagagem? - interrompe Erwin antes que Levi possa dizer mais uma palavra. - Assim não terias de pedalar.
- Eu também não sei andar de bicicleta - Isabel diz tão alto que Levi sente que ela está desesperada para que parem com a discussão. - Posso sentar-me na bagageira também?
- Se alugássemos duas, achas que podes ir na outra? - Erwin pergunta ao virar-se para Farlan, que encolhe os ombros desdenhosamente.
- Claro - suspira, como se a simples ideia de levar um deles atrás seja extenuante. - Desde que não seja muito longe.
- Podemos ir agora? - pede Isabel, e Levi apressa-se a abanar a cabeça.
- Tenho de lavar a loiça primeiro - responde, levantando-se da mesa e começando a atarefar-se a tirar água da cisterna e despejá-la no lava-loiça.
Levi consegue ouvi-los sair da mesa também e saindo para o jardim onde o sol começara a ressequir a relva e encher a clareira de raios luminosos. Pela janela, consegue ver Isabel a caminhar pela erva alta, cantarolando baixinho para si ao dobrar-se para espreitar uma abelha zumbindo aos círculos em torno dos gerânios. O som de uma cadeira a raspar contra a madeira faz Levi voltar-se para trás e vê Erwin a levantar os pratos da mesa.
- Não precisas de fazer isso - diz-lhe Levi quando Erwin se curva para colocar os pratos na água quente. - Eu faço isto bem sozinho.
- Vamos despachar-nos mais depressa se formos dois - responde ele com um sorriso. - Queres que eu lave ou seque?
Levi passa ao homem uma toalha de chá gasta. - Como se eu acreditasse que ias lavar isto bem - resmunga ele e Erwin muda-se para a sua direita, rindo baixinho.
- A tua falta de fé nas minhas capacidades é impressionante - protesta o homem gentilmente, inclinando-se sobre a bancada quando Levi começa a esfregar as canecas de esmalte.
- Eu sei como é que tu és - riposta ele, e o encolher de ombros faz Erwin resfolegar.
- Sabes? - pergunta, e quando Levi acena ele continua: - Então informo-te que antes de tu apareceres eu tenho-me orientado sozinho de forma perfeitamente adequada por bem mais de uma década.
É a vez de Levi resfolegar enquanto passa as canecas por água antes de as entregar a Erwin.
- "Perfeitamente adequado" talvez para alguém que passou a vida a ter alguém que lhe fizesse tudo. - Levi dá a sua opinião em tom de brincadeira. - O que quer dizer que comes fora seis vezes por semana e lavas o chão uma vez por mês, se tanto, e não fazes ideia como se tira nódoas do que quer que seja.
- É verdade o que disseste à Lilian? - pergunta-lhe Erwin agora, passando o pano nas canecas. - A tua mãe ensinou-te mesmo tudo isso?
Levi encolhe os ombros. - Se ensinou, não me lembro - admite. - Não me lembro de uma altura em que não tenha feito as coisas assim.
Erwin acena mas parece sentir a relutância de Levi de falar sobre o assunto, e deixa a conversa cair enquanto continuam a lavar a loiça num daqueles silêncios descomplicados que partilham com frequência. Passado pouco tempo, Levi começa a olhar para Erwin pelo canto do olho, lembrando-se de repente que ele dissera a Farlan que fazia natação regularmente. Olhando para o físico do homem, dificilmente isso pode ser tido como uma surpresa, mas ainda assim Levi acha estranho. Para Levi, há algo estranho em imaginar o resto da vida de Erwin, as horas que não passam juntos, ele sentado no seu escritório com a sua papelada e sair para nadar numa daquelas piscinas cobertas. Quando se apercebe que Erwin reparou que está a olhar para ele, Levi regressa rapidamente para o lava-loiça, acabando de lavar o resto dos pratos sem voltar a olhar para o homem.
- Já podemos ir agora? - implora Isabel, aparecendo atrás deles vinda do jardim assim que Erwin pousa o último prato numa prateleira.
Levi olha para a sala onde Farlan se enroscara numa poltrona com um livro; sente a noite mal dormida a pressionar-lhe os olhos e mais do que tudo quer tirar peso de cima dos pés doridos. O calor do dia que entra dentro de casa fá-lo desejar poder estender uma manta no meio dos gerânios e descansar por um minuto ou dois com os raios de sol inclinados a servir de cobertor, acordando sonolento e satisfeito com uma aranha a passear-se gentilmente pelo braço.
Com o seu típico olhar observador, Erwin parece ver o cansaço de Levi. - Esperava que pudéssemos trabalhar um pouco mais do jardim hoje - diz ele à rapariga. - Livrarmo-nos de algumas daquelas ervas daninhas.
Isabel parece considerar por um momento antes de saltar, marchando para fora do casebre seguida por Erwin. Levi consegue ouvi-los dar a volta à casa enquanto ele vai para sala e se atira para o sofá, esticando as pernas e fechando os olhos que começaram a arder por falta de sono. Na poltrona, Farlan vira uma página ruidosamente, fingindo ler mais alguns minutos antes de desistir com um suspiro longo e pousando o livro no braço da poltrona.
- Levi - diz baixinho, fazendo-o voltar-se para ele com olhar inquisidor. - Quero que saibas que peço mesmo muita desculpa pelo que disse à bocado. Foi uma coisa horrível de dizer.
- Já te disse que não faz mal - responde Levi, desejando que pudessem simplesmente pôr aquilo para trás das costas. - Não te devia ter arrastado para esta viagem para começar. Não admira que estejas zangado comigo.
- Não é isso - retorque Farlan, parecendo quase desesperado. - Não tem sido tão terrível como eu pensei que fosse, mesmo. Não tenho nenhum problema com nada disto.
- Então é o quê? - pergunta Levi com o sobrolho franzido. - Há claramente alguma coisa que estou a fazer que te está a chatear.
- Só gostava que não continuasses a mentir-me a toda a hora - explica Farlan, fazendo a expressão de Levi franzir-se mais. Na parte detrás da mente, questiona-se se Farlan teria de alguma forma descoberto algo sobre a missão, mas como é que isso podia ser?
- Do que é que te tenho mentido? - pergunta, perplexo mas mentindo com facilidade. - Tanto quanto sei não tenho feito nada a não ser ser honesto contigo.
- Por favor, Levi - diz o homem, revirando os olhos e endireitando-se na cadeira - Eu sei sobre vocês os dois.
Levi abana a cabeça devagar, lutando para compreender, a mente ainda a tentar perceber como é que Farlan poderia ter descoberto o que Erwin é. Teria ele visto a nota que Levi lhe deixara a ele e a Isabel? Tudo o que escrevera fora 'Fiquem aqui' - como é que isso poderia ter revelado algo substancial sobre o homem mesmo que ele por acaso tivesse visto a nota?
- Não sei do que estás a falar - responde, fazendo a expressão de Farlan tornar-se surpreendentemente irritada.
- Já te disse, pára de me mentir - diz-lhe ele com severidade, baixando a voz quando ouve Erwin e Isabel do lado de fora da janela. - É suposto confiarmos um no outro, não é? Fazes alguma ideia do quão insultuoso é quando me escondes coisas desta maneira?
- Mas o que é que te estou a esconder? - insiste Levi. - Sinceramente, não sei do que estás a falar. Como é que é suposto não te insultar se não faço ideia porque é que estás insultado?
- Eu sei que andas a dormir com ele, Levi - murmura Farlan por fim quase zangado, agitando a mão e fazendo o livro cair no chão.
Levi fica com a mesma expressão franzida por mais alguns segundos antes de dar uma risada incrédula. - Não estás a falar a sério - diz com simplicidade, olhando para a cara sombria de Farlan. - Como é que ficaste com essa impressão, caralho?
- Oh, vá lá. É tão óbvio - reclama o homem baixinho. - Só pela maneira como ficam um ao pé do outro. Quantas vezes é que já te perguntei sobre isso? E quantas vezes é que me mentiste e me disseste que não há nada disso entre vocês os dois?
- Não te menti porque não há nada entre nós - diz Levi, irritado pela forma como o homem revira os olhos perante a resposta. - Só porque tu gostavas de dormir com ele não significa que todos nós gostássemos, sabes.
Os olhos de Farlan brilham de forma quase maníaca quando um sorriso feio lhe torce os lábios. - Ai é? - diz devagar. - Então suponho que tenhas uma boa explicação para o facto de eu ter descido as escadas ontem à noite e a tua cama estar vazia e não ter visto nenhum de vocês.
As palavras seguintes de Levi ficam presas na garganta por um momento demasiado longo, longo o suficiente para a expressão de Farlan se tornar vitoriosa.
- Não conseguia dormir - diz por fim para dar uma explicação que saiba ser minimamente concebível, e algures na parte detrás da mente pergunta-se porque é que se esforçou para arranjar aquela desculpa sequer. - Fui dar uma volta pela floresta.
- E deixaste-me a mim e à Isabel sozinhos no meio de nenhures com um completo estranho? Claro que sim - responde Farlan sardonicamente antes de pegar no livro e folhear as páginas até chegar à certa. - Nem sequer percebo porque é sentiste que tinhas de mentir sobre isso, Levi. Já te disse antes, a razão para o fazeres não me diz respeito desde que não o estejas a fazer por mim, ou pela Isabel.
- Não é isso que se passa - repete Levi, tentando pensar numa forma de sair da situação sem dizer a verdade, enojado pela comparação com Krieger que Farlan estabelecera sem sequer se aperceber. - Não menti sobre isso, não menti mesmo.
Farlan levanta o olhar do livro e Levi fica surpreso por ver que os olhos dele estão cheios de pena. - Pergunto-me se sabes que isso não vai acabar bem - diz ele, a voz quebrando de repente. - Eu sei que pensas que ninguém vai descobrir, mas por favor, acredita em mim quando te digo que há sempre alguém. E aí não vai importar o quão bonito foi ou quanto tu o querias ou quanto tu gostaste dele enquanto estiveram juntos.
Levi fica a ver Farlan fechar o livro à volta do dedo, vê-lo levantar-se à pressa, vê-lo correr pelas escadas acima e desaparecer para o quarto. Levi quebra o silêncio que o homem deixou para trás ao amaldiçoar-se em voz baixa. Desliza pelo sofá e fica deitado a fixar as tiras de madeira entrecruzarem-se no tecto e não consegue evitar pensar como Farlan não pode ser culpado por pensar daquela forma. Levi não vê sentido em negar a maneira como Erwin o trata mesmo que aquele afecto estranho não tenha nada a ver com o que Farlan imagina. Uma imagem de Erwin despido à margem do rio esgueira-se pela mente de Levi, queimando-lhe as bochechas ao fechar os olhos de novo, tentando não pensar o quão certo Farlan poderia estar se o mundo fosse um sítio diferente.
Levi não tem a certeza como aceitar que Farlan presuma aquilo, mas não parece que tenha muito mais voto na matéria; sabe que a meia-verdade que deixou escapar também não o teria convencido mesmo. Quanto a tentar arranjar uma explicação melhor, Levi duvida que outra coisa que não a verdade fosse convencer o homem por esta altura; outra coisa só se pareceria com uma tentativa desesperada para se desculpar. Levi suspira ruidosamente, perguntando-se se se incomoda mesmo com Farlan pensar o que pensa. Afinal, há coisas piores que ele poderia estar a presumir, e comparado com a verdade, isto parece relativamente inofensivo até se lembrar das últimas palavras de Farlan. Dado o historial do homem, não admira mesmo que ele receasse por Levi numa situação destas.
Roda para o lado e fica a olhar para a lareira vazia, focando-se por uns minutos na conversa abafada de Erwin e Isabel até os olhos se fecharem e ele se apagar, acordando apenas quando eles voltam para dentro, pontapeando os sapatos cheios de terra contra o chão ao pé da porta para não levarem mais sujidade para dentro do que o necessário. Levi senta-se, bocejando longamente e perguntando-se quanto tempo se passou.
- Devíamos ir? - Erwin pergunta-lhe e ele acena, para êxtase de Isabel.
Vai até à cozinha e prepara um almoço modesto, algumas sanduíches e pêssegos frescos, uma garrafa de água e outra de vinho. Quando regressa à sala, encontra-los todos à espera, até Farlan, que parece estar com melhor disposição, fumando à entrada do casebre com uma expressão estranhamente serena. Quando Isabel passa a correr e o agarra pelo braço para o arrastar para o carro ele até se ri e deixa-a puxá-lo, apagando o cigarro e entrando, abrindo a janela para Isabel espetar a cabeça para o lado de fora.
- Despachem-se lá! - exclama ela antes de desaparecer, fazendo Farlan rir e trancar a porta.
- É melhor fazermos o que ela diz - diz ele a Levi gentilmente, erguendo as mãos na defensiva enquanto começa a andar em direcção ao carro.
Levi mantém os olhos em Erwin enquanto o segue, questionando-se o quanto vira o homem mudar desde aquela noite em que a sua vida dera aquela reviravolta. Durante muito tempo depois disso houvera sempre algo tão sério nele, tantas coisas como esta que pareciam escondidas e reservadas para outra pessoa. Só agora, ao entrar no carro, é que Levi se pergunta se fora apenas a sua própria relutância em ver aquilo no homem, sentindo-se mais confortável em reduzi-lo a algo menos do que totalmente humano. Olha para Erwin, cuja expressão está relaxada com um sorriso enquanto liga o motor, e parece-lhe estranho que pudesse não ter visto isto antes, toda esta vida dentro do homem, toda esta plenitude da sua personalidade. Volta a lembrar-se da sua busca frenética no apartamento de Erwin por coisas que lhe fossem dizer quem o homem era na realidade e agora parece-lhe ter sido tão ridículo, ter dado voltas a armários de cozinha à procura do que estava mesmo à sua frente o tempo todo. Levi volta-se para olhar para o caminho de forma quase relutante, sentindo mais do que vendo o olhar de Farlan prolongar-se no seu rosto.
.
Conduzem até à periferia de uma vila próxima e Erwin deixa o carro perto de uma estalagem construída por grandes tijolos vermelhos. Levi consegue ver uma pequena fila de bicicletas na entrada. Junta-se a Isabel e Farlan a examiná-las enquanto Erwin entra no edifício, regressando passado cinco minutos com o dono, um homem encorpado de meia idade com um grande bigode a ficar grisalho e uma expressão preocupada.
- Só a rapariga e o homem de cabelo escuro - Erwin parece continuar de uma discussão anterior. - Ficaria surpreendido se algum deles pesar mais do cinquenta quilos.
O dono hesita por mais alguns segundos antes de soltar um suspiro resignado e acenar. - Muito bem - diz ele. - Podem ir na bagageira, com a sua palavra de que me vai pagar se houver algum estrago.
- Claro - concorda Erwin e estende a mão, que o outro homem aperta, ainda a parecer tão preocupado como antes. - Sabe de algum sítio aqui perto que seja bom para nadar?
O dono desculpa-se por alguns segundos e regressa com um mapa, que mostra a Erwin, apontando com o dedo. - Deviam ir ao longo da estrada principal e virar aqui à direita. Há um trilho pequeno, meio escondido no mato por isso têm de ter atenção ou vai escapar-vos, e seguem por mais uns poucos quilómetros e vão encontrar um sítio à beira rio que não é muito raso nem cheio de matagal. Deve haver uns quantos barcos a remos atracados lá, por isso vão conseguir reconhecer quando lá chegarem.
Erwin espreita o mapa por mais alguns segundos antes de agradecer ao homem, que avança para destrancar duas das bicicletas e as entrega a Erwin e a Farlan.
- Quero ir com o Erwin! - exclama Isabel excitada, saltando para o lugar do suporte para bagagem antes que Erwin consiga sequer colocar um dos seus grandes pés nos pedais.
- É capaz de haver algum trânsito na rua - avisa o dono da estalagem. - Um comboio descarrilou esta manhã não muito longe daqui. Estão a trazer pessoas para ajudar as coisas.
- A sério? - pergunta Erwin, esforçando-se para manter a bicicleta equilibrada com Isabel sentada na bagageira. - Um comboio do exército?
- Sim - responde-lhe o homem, coçando o ponto sem cabelo na cabeça. - Ainda não sabem a causa, mas ainda assim, é um golpe para nós.
Erwin acena pensativamente. - Houve mortos?
- Alguns, infelizmente - explica o homem. - Mas aparentemente, era um comboio de provisões, por isso não foram tantos como poderiam ter sido.
- Que terrível - murmura Farlan e todos concordam baixinho, inclusive o dono que regressa para a estalagem desejando-lhes um bom dia, enquanto Levi luta para manter o olhar afastado de Erwin.
- Devíamos ir andando, então? - pergunta-lhes Erwin e Isabel repete a sua resposta entusiasta quatro vezes, mudando o seu peso no suporte para a bagagem e segurando-se firmemente a ele com as mãos como se esperasse que Erwin fosse pedalar a uma velocidade que necessitasse de tais medidas.
Levi olha para Farlan, esperando um suspiro extenuado mas ficando agradavelmente surpreendido quando o homem acena e sorri. - Vamos lá então - diz ele, atirando uma perna sobre o celim.
Levi aproxima-se, as mãos cerradas à volta do saco de papel castanho que contém o almoço deles, e senta-se na bagageira, que é ainda menos confortável do que imaginara. Apoia o saco entre as pernas e enrola os dedos em torno da fina estrutura metálica do assento improvisado antes de levantar os pés para os suportes que saem do meio das rodas; escorregam de imediato e ele é forçado a flectir os músculos para impedir que eles raspem no chão.
- Estás pronto? - pergunta-lhe Farlan, voltando a cabeça para trás para o ver acenar.
Erwin e Isabel já tinham dado a volta ao pátio da estalagem quando Farlan consegue ter velocidade suficiente para manter a bicicleta equilibrada. Segue Erwin para a estrada principal, esforçando-se um pouco mais na subida mas pedalando com muito mais facilidade daí para a frente. Só na curva que fazem para alcançar o estreito trilho para a pequena floresta é que Levi se apercebe da força com que se está a segurar ao suporte e alivia um pouco o aperto, cerrando os dentes quando passam por cima de uma pequena ladeira; parece-lhe que estão a conseguir acertar em todas as pedras e altos pelos caminho. Apanham Erwin e Isabel, que parecem estar a gostar muito mais do passeio do que Levi.
Quando chegam ao pequeno troço de rio com dois velhos barcos atracados numa suave inclinação na margem, as pernas e costas de Levi estão doridas e já não consegue perceber se o cheiro intenso a suor é seu ou de Farlan, cuja camisa tem uma grande mancha nas costas. O sol está a brilhar num céu sem nuvens, não há uma brisa de vento a agitar a relva alta cheia de crepitares de gafanhotos e quando finalmente desmontam as bicicletas, a primeira coisa que todos parecem querer são longos tragos de água. Levi bebe por último enquanto Erwin retira uma manta da mochila e a estica no chão à sombra de uma grande faia antes de se sentar e suspirar longamente. Depressa se juntam todos a ele, excepto Isabel, que começara logo a correr junto à linha da água para espreitar pela superfície ondulante, inclinando-se num dos barcos.
- Há peixinhos aqui! - diz-lhes ela num grito feliz que faz Levi sorrir ao sentar-se ao lado de Erwin, que por sua vez se deitara de costas com os braços dobrados sob a cabeça.
- Tens um cigarro? - pergunta Farlan de forma familiar, aceitando a cigarreira que Erwin lhe entrega e acendendo um.
- Podes acender um para mim também? - pede Erwin, fechando os olhos e bocejando enquanto Farlan lhe passa um cigarro e segura um fósforo acesso contra a ponta.
Levi olha para eles com uma careta.
- Foda-se, vocês os dois são nojentos - diz-lhes quando o fedor começa a chegar-lhe ao nariz. - Sempre soube que tu não tinhas remédio, Erwin, mas tinhas de levar o Farlan para o fundo contigo?
- Por favor - diz Farlan e resfolega. - Quando era mais novo, fumava como uma chaminé. Costumava fumar um maço por dia quando era altura de exames.
- Fazendo o que eu faço, não posso mesmo evitar - responde Erwin quase na defensiva, olhando para o cigarro pensativamente antes de inalar uma grande quantidade de fumo.
- Mas que temperamento de merda que vocês têm - diz Levi na brincadeira.
- Bem, nem toda a gente é como tu - nota Farlan e sorri da mesma forma leve. - Se fossemos, o mundo seria de certeza um lugar melhor.
- E de certeza muito mais limpo - acrescenta Erwin quando Isabel corre para eles e se senta, inclinando-se para perto do homem e sussurrando-lhe alguma coisa ao ouvido. - Claro - diz-lhe com gentileza, sentando-se e remexendo na mochila durante alguns segundos antes de tirar um tecido verde escuro amarrotado, que entrega à rapariga. Ela levanta-se e desaparece atrás de umas árvores, regressando um momento depois envergando uma tshirt verde escura, as pernas despidas espreitando sob a bainha que lhe passa muito as ancas.
- Mas o que é isso, em nome de Deus? - pergunta-lhe Farlan, o riso na voz fazendo-a franzir a testa.
- Cala-te, Farlan! Não tinha nada para usar por isso pedi isto emprestado e tu podes não te meter no assunto.
- Desculpa - diz-lhe ele, erguendo as mãos na defensiva. - Juro que não digo mais uma palavra.
- É melhor que não - responde ela, marchando para se juntar a eles na manta. - Ou coso-te a boca enquanto dormes, estúpido da merda.
- E aí está a pequena selvagem - exclama Farlan, beliscando a orelha da rapariga. - Quem te ensinou a dizer essas coisas? Eu não fui de certeza.
Voltam-se todos para Levi, que lhes faz uma carranca.
- Eu não falo assim - reclama, ainda que ninguém pareça convencido.
- Disseste uns palavrões à poucos minutos - relembra-lhe Erwin. - Duas vezes.
- Foda-se, não te chamei estúpido da merda, pois não? - responde, fazendo com o que grupo comece a rir.
- Podemos ir nadar agora, Erwin? - pede Isabel ao homem assim que acaba de rir.
- Sim, creio que sim - responde Erwin, e a rapariga salta de felicidade e volta a correr para a beira da água outra vez. O homem apaga o cigarro e olha à sua volta enquanto as mãos remexem os conteúdos da mochila. - Só preciso encontrar um sítio para me mudar...
- Tenho a certeza que o Levi não se importa de te segurar uma toalha - comenta Farlan alegremente, mordendo um pêssego que tirara do saco de papel, disfarçando o sorrizinho por entre as dentadas.
Erwin troca olhares com Levi por um momento que faz as faces de Levi aquecer quando se lembra da noite anterior e se apercebe que há poucas razões para modéstia entre eles agora, e que considerando todos os factos, a sugestão de Farlan não é tão ridícula como parece. O outro homem parece ter-se apercebido disso mesmo também, ficando mudo durante tempo suficiente para Farlan aclarar a garganta audivelmente.
- Acho que me arranjo - murmura Erwin por fim antes de se levantar e caminhar para trás das árvores.
Levi volta o olhar para os padrões na manta para evitar ver os rasgos de pele despida mal escondida pela falta de cobertura da folhagem. Consegue ouvir Farlan a sugar o sumo do pêssego com boca ruidosamente e algo naquilo parece indecente. Atira um olhar de aviso ao homem, que lho devolve num meio encolher de ombros.
- O que foi? - pergunta inocentemente e Levi abana a cabeça.
- Devias parar com isso - resmunga.
- Parar o quê? - pergunta ele agora, fazendo Levi olhar para cima irritado.
- Pára - mal diz, e Farlan ri enquanto dá outra dentada no fruto, espalhando sumo pegajoso pelo queixo e limpando-o desleixadamente com as costas da mão.
- Pára de ser tão sério - repreende-o o homem, ficando subitamente em silêncio com o pêssego esquecido a meio caminho da boca.
Os olhos de Farlan estão fixos em algo atrás de Levi, que se volta para ver Erwin caminhar na direcção deles; o homem está a usar apenas uns calções de banho e o olhar prolongado de Levi cai sobre as coxas musculadas antes de o desviar rapidamente. Aqui, à luz do sol, a escassa quantidade de roupa de Erwin parece-lhe mais inapropriada do que a nudez dele nas primeiras horas da madrugada e Levi fica satisfeito quando o homem deixa cair o monte de roupa na manta e começa a andar para o rio. Consegue ver Farlan atirar olhares às costas do homem por entre dentadas no pêssego.
- Podes atirar-me à água? - a voz de Isabel chega-lhe sobre o chapinhar da água quando eles os dois entram no rio.
- Primeiro temos de ver se o fundo tem pedras - Levi ouve Erwin a responder-lhe.
Levi estica-se para o saco de papel e começa a comer, tirando metade da pele de um pêssego de uma só dentada. Consegue sentir Farlan a examinar cada movimento seu mas não diz nada apesar da irritação que lhe causa. Quando o homem começa a sugar o caroço do fruto ruidosamente, Levi quase deseja que ele engasgue nele.
- Sabes, estive a pensar um pouco quando fui para o quarto - diz-lhe Farlan sem ser encorajado, deitando-se na manta e respirando fundo. - E não te posso culpar exactamente.
- Pelo quê? - resmunga Levi.
- Pelo que fazes com ele - explica o homem preguiçosamente. - Quer dizer, vamos todos morrer mesmo não tarda. Mais vale aproveitares o tempo que te resta.
Levi volta-se para olhar para Farlan, que está a fixar o céu azul sem nuvens com uma expressão distante no rosto, quase maravilhada. Faz Levi recordar-se da mãe, de forma súbita e dolorosa - aquelas memórias são tão raras por estes dias. Ela costumava ter aquela expressão nos últimos dias, olhos no tecto e para além dele, como se alguma parte dela já tivesse desaparecido. Agora, Levi consegue ver que ela estava livre do medo do que viria, mas enquanto criança, fora a coisa mais assustadora que alguma vez vira.
- Desculpa - diz Farlan languidamente, mas algo no franzir da sua testa diz-lhe que está a ser sincero. - Fui muito mórbido outra vez?
Levi suspira e deita-se ao lado dele, dobrando um braço sob a cabeça e olhando para cima, franzido os olhos pela claridade. - Bem, não consegues evitar, pois não? - diz, cansado, e Farlan ri.
- Alguma vez te falei do meu livro preferido? - pergunta ele a Levi, que abana a cabeça. - A Ilíada. Conheces?
- Uma daquelas coisas gregas? - supõe Levi, franzindo o sobrolho quando Farlan confirma. - Nem por isso.
- É sobre a guerra de Tróia - explica-lhe Farlan, alcançando a cigarreira de Erwin e acendendo outro cigarro. - E sobre Aquiles, o maior dos Gregos, um herói de com capacidades sem precedentes em batalha. A sua mãe era uma ninfa do mar por isso ele é semi-deus e portanto nenhum mortal o consegue superar. A história começa quando ele está a discutir com Agamenão, rei de Micenas, que roubara um dos espólios de guerra de Aquiles, uma mulher chamada Briseida.
- Hã hã - faz Levi, fechando os olhos. - Deixa-me adivinhar. No fim do livro ele fica com a miúda e vivem todos felizes para sempre.
Farlan ri. - Não é bem - continua, dando uma longa passa no cigarro. - Primeiro, Aquiles perde o seu mais amado companheiro Pátroclo, que é morto por Hector em combate. Então Aquiles vinga a sua morte, mas acaba por profanar o corpo de Hector por onze dias, e portanto perdendo a sua honra. Antes da guerra terminar, o próprio Aquiles também morre.
- Parece mesmo algo que irias gostar - diz Levi a Farlan sem rodeios. - É uma alegria pegada do começo ao fim.
- Eu costumava lê-la com o Christofer - diz o homem, ficando calado ao apoiar-se no braço, olhando para Erwin e Isabel a chapinharem ruidosamente na água. - Vê-se bem que ele se preocupa mesmo contigo.
Levi não fala, mas vira-se de lado para ver os dois na água. Erwin aninhara Isabel nos braços para a atirar pelo ar, gargalhadas e gritos antes de ela desaparecer sob a superfície e só para ela nadar de volta e exigir que o fizesse de novo. Há algum tempo que Levi não se interrogava sobre o passado de Erwin, mas ao vê-lo afastar água do rosto a rir, recorda-se de todas aquelas vezes que se questionara se o homem vivia sozinho antes. Talvez haja alguém algures que tenha saudades dele, pessoas por quem ele está ansioso para regressar, uma mulher e filhos que já mal se lembram dele. Talvez ele desejasse poder fazer isto com eles mais do que tudo.
- Não sei quanto a ti - diz Farlan, começando a desapertar os atacadores dos sapatos e a enrolar a bainha das calças, cigarro pendurado nos lábios - mas eu quero arrefecer um bocado os pés.
Depois de Farlan se levantar e caminhar descalço pela relva, Levi volta a deitar-se e fecha os olhos, ouvindo com meio interesse os sons dos amigos, os gritos zangados de Farlan quando Isabel lhe atira água para cima, o riso da rapariga, o som lento e constante dos gafanhotos. O ar à sua volta está ameno na perfeição, quase como um ventre na sua omnipresença. Levi consegue cheirar a relva, as árvores, a riqueza de vida a toda a sua volta e pensa que é assim que é suposto ser, como ele deseja que pudesse ser por muito mais tempo. Consegue sentir a mão leve e tranquilizante sobre o peito a subir a descer com cada respiração que dá, e se pensar mais nisso deixa que a paz o embale para uma sesta, da qual Erwin o acorda uns minutos mais tarde, puxando uma toalha da mochila para se secar.
- Desculpa - pede ele, olhando para Levi a esticar os braços e a bocejar. - Não queria acordar-te.
- Não estava a dormir - responde Levi, mas não sabe bem por que o faz.
O homem senta-se a seu lado e tira uma sanduíche do saco de papel castanho, dando uma dentada esfomeada enquanto Levi dá um trago no vinho; tem um sabor amargo após o pêssego doce ainda estar gravado na língua. Olham para Farlan e Isabel enquanto eles espreitam pela superfície, provavelmente para verem os peixinhos curiosos que se reuniram nas águas pouco fundas para petiscarem os minerais que os passos deles levantaram. Isabel está sentada numa rocha plana na margem, os pés no rio enquanto Farlan se ergue a seu lado e olha para os pés.
- Oh, não, Farlan, faz cócegas! - exclama ela a rir quando um peixinho lhe começa a mordiscar os pés, e Farlan ri também.
Levi sente o coração ficar mais leve e mais pesado ao mesmo tempo, por um lado enchendo-se de felicidade por estar neste momento, e por outro detestando que vá inevitavelmente terminar. Luta contra o pensamento de Dresden que, ainda que sem a presença de Krieger, não lhe traz nenhum conforto. Interroga-se quase desanimado se algum deles poderá algum dia viver assim, livres e como eles próprios sem medo constante. Olha para Erwin que lhe sorri, a boca cheia de pão, antes de retirar o frasco da mochila e lho entregar. Levi dá um grande trago e faz uma careta.
- Obrigado - diz Levi antes de voltar a olhar para o rio. - Por isto, refiro-me. Nunca lhes poderia ter dado isto.
- O prazer é meu - diz-lhe Erwin gentilmente. - É mesmo. Não me lembro da última vez que me diverti tanto.
- Nem com a Lilian?
As palavras saem da boca antes de Levi as conseguir evitar e durante a extensão do silêncio que se segue, Levi pergunta-se se Erwin ficara ofendido. No final, ele suspira e diz: - Não. Nem com a Lilian.
- Achei mesmo que isso iria superar isto - resmunga Levi, fazendo Erwin aclarar a garganta.
- Bem - murmura ele - nunca disse que era desagradável.
Levi ri baixinho antes de dar outro trago no frasco e o passar a Erwin. - Pelo menos foi melhor do que a outra vez com-
- Sim. Com certeza melhor do que essa - interrompe-lo Erwin enfaticamente, bebendo o vinho avidamente antes de o devolver a Levi. Ele hesita durante uns bons dez segundos antes de perguntar: - Então e quanto a ti?
Levi ri de novo, desta vez amargamente. - Não há nada agradável nisso para mim - diz, as palavras saindo descuidadamente da sua boca. - Não nos últimos tempos.
Erwin acena devagar e mesmo sem olhar para ele Levi consegue sentir a pergunta sob a intensidade do seu olhar. Acaba por não a fazer, algo que deixa Levi grato, talvez pensando que seria melhor não puxar um assunto tão desagradável logo numa altura destas. Ficam ambos calados a observar Isabel e Farlan e a beber o vinho e o que quer que seja que esteja naquele frasco até os outros dois se reunirem a eles na manta, deixando manchas molhadas nas malhas onde se sentam. Isabel depressa começa uma explicação entusiasmada sobre os peixes, enquanto Farlan foca o seu olhar no vinho e no licor, bebendo com a avidez que apenas alguém que não prova uma gota há anos poderia ter.
- De onde da Áustria és? - pergunta Farlan a Erwin de repente entre goles.
- Viena - responde o homem enquanto Levi passa uma sandes a Isabel. - Alguma vez lá estiveste?
Farlan abana a cabeça. - Só estive em Paris - explica. - Como é que é Viena?
- Oh, é linda - diz Erwin a sorrir. - Edifícios antigos muito bonitos, galerias de arte, museus. A ti recomendo-te em particular o Museu Kunsthistorisches. Tenho a certeza que irias gostar.
- Sempre quis lá ir - responde Farlan, aceitando a sanduíche que Levi lhe oferece e dando uma dentada, continuando com a boca cheia, - mas nunca foi a minha primeira escolha. Na verdade, eu andava a poupar dinheiro para ir à Grécia antes de... bem, antes disto.
- Porquê a Grécia?
Farlan engole com dificuldade. - Para ver os locais épicos homéricos - explica ele. - O Chistofer e eu éramos obcecados com isso. Lembro-me que estávamos constantemente a falar sobre isso. Na verdade eu poderia ter pago a viagem sozinho mas eu sabia que não podia ir sem ele por isso continuei a juntar dinheiro.
- Christofer? - pergunta Erwin e Levi lança um olhar preocupado a Farlan, sentindo Isabel endireitar-se a seu lado.
Farlan fica calado durante alguns segundos, revirando a sandes na sua mão antes de dar um grande trago no licor. - O Christofer era... - começa, parando para aclarar a garganta - O Christofer era um amigo meu, mas não temos falado desde que saí de Berlim. Foi uma das primeiras pessoas a alistar-se por isso suponho que se tenha ido embora pouco depois de eu ir.
Erwin acena sem uma palavra, observador o suficiente para não fazer mais perguntas. - Esperemos que ele tenha tido sorte por lá - mal diz, fazendo Farlan abanar a mão de uma maneira estranhamente efeminada.
- Oh, tenho a certeza que ele está bem - diz o homem. - Ele sempre foi um soldado, mesmo quando éramos mais novos. Se alguém se vai safar bem por lá, é ele.
Erwin acena de novo e não corrige Farlan, ainda que seja claro para Levi que ele saiba que ninguém numa guerra se safe apenas pelas suas capacidades. Farlan continua a comer a sua sanduíche de forma um pouco menos entusiasta que antes, dando a Levi a impressão que o assunto o fizera perder o apetite. O silêncio desconfortável prolonga-se por mais uma dúzia de segundos até Isabel o quebrar.
- Podemos ir nadar outra vez, Erwin? - pergunta ela ao homem, que sorri e suspira cansado.
- Claro - diz ainda assim. - Deixa-me só descansar mais um minuto, pode ser?
Isabel acena e sorri também. - Tudo bem - concorda ela, atirando-se de volta para a manta ao lado de Levi ao sol. - De onde eu venho costumávamos deitar-nos da relva assim e olhar para as nuvens - diz-lhes ela, feliz. - Às vezes vias formas nelas, como cavalos e cães e coisas assim.
- Eu também costumava fazer isso quando era mais novo - diz-lhe Erwin ao deitar-se de costas também, a face corada de uma forma que faz Levi interrogar-se se ele estará bêbedo. - Havia um jardim atrás da nossa casa e em dias como este eu vinha para a rua para ler, e quando me cansava ficava a olhar para as nuvens.
- O que costumavas ler? - pergunta Farlan, juntando-se a eles os dois e deixando Levi como a única pessoa ainda sentada.
- Isto e aquilo - responde Erwin languidamente. - Kipling, Burroughs, Júlio Verne.
- Eu costumava adorar esses livros - confessa-lhe Farlan de forma quase sonhadora. - Depois de ler A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, tudo o que queria fazer era ir para Inglaterra e tornar-me um cavalheiro rico e aventureiro.
Erwin ri em voz alta. - Sem dúvida que serias muito bom nisso também - responde.
- Eu sei - concorda Farlan. - Fiquei devastado quando os meus pais me disseram que não tínhamos esse tipo de dinheiro.
- Talvez um dia venhas a ter - diz-lhe Erwin. - Podes sempre casar-te com uma mulher rica.
Farlan desata à gargalhada, quase sufocando-se no vinho que tem estado a beber. - Acho que se o fizesse agora, manteria o nome Friedrich - diz quando finalmente consegue falar de novo. - É o que me chamo hoje em dia - explica quando Erwin franze o sobrolho.
- Uma identidade secreta - divaga o homem. - Sem dúvida acrescenta um certo je ne sais quoi à tua personalidade já de si encantadora.
- Se isso não for conquistar alguém rico e poderoso, então não sei o que vai - diz Farlan e volta a rir. - É embaraçoso, mas às vezes ainda sonho com isso. Sempre soube que fui talhado para uma vida fácil.
Levi resfolega. - Que tipo de pessoa haveria de querer ficar com o cu sentado o dia todo sem fazer nada? - pergunta ao resto do grupo. - De onde eu venho, costumávamos cuspir depois de falarmos com pessoas como tu só para termos a certeza que não apanhávamos nada dessa merda dessa preguiça.
Erwin e Farlan olham um para o outro e riem. - Não te disse que ele era mesmo assim? - pergunta Farlan ao homem, que acena.
- É mesmo, não é? - responde, erguendo a garrafa de vinho quase vazia. - Um brinde a um verdadeiro herói da classe trabalhadora!
- Viva, viva! - exclama Farlan, e ambos bebem sofregamente antes de se deixarem cair na colcha, rindo como dois idiotas.
- Estão-se a passar? - resmunga Levi, olhando para os dois sem conseguir evitar o tom incrédulo.
- Vocês são todos malucos - resmoneia Isabel preguiçosamente da sua pequena nesga de sol, fechando os olhos. - É por isso que nunca gostámos de gente da cidade. Vocês complicam sempre tudo.
- Ensina-nos, então - diz-lhe Farlan, terminando o vinho. - Ensina-nos a filosofia de vida da tua gente.
Isabel faz uma carranca irritada antes de dizer simplesmente: - Tens cavalos e uma carroça. Tudo o resto é para enfeitar.
- Uma carroça, é? - Erwin pergunta-lhe pensativamente. - Então era assim que viajavas?
Isabel acena.
- Uma carroça e cavalos e ar fresco - repete ela. - Não precisas de mais nada.
Levi vê Erwin olhar a rapariga de forma carinhosa mas também com um traço de pena nos olhos.
- Não me soa nada mal - diz ele baixinho antes de se voltar a deitar e todos permanecem em silêncio por um longo momento antes de Farlan começar a conter o riso.
- O que foi? - pergunta-lhe Levi, e o homem começa a rir sem fôlego.
- Herói da classe trabalhadora - balbuceia ele, fazendo Erwin rir também enquanto Levi revira os olhos.
- Vocês são os dois uns idiotas da merda - repete-lhes Levi enquanto eles enxaguam as lágrimas dos olhos.
- Tenho a certeza que tens razão - diz Erwin, voltando-se de novo para Isabel. - Mas se vamos nadar mais um pouco, é melhor irmos agora.
Ambos se colocam de pé com esforço e Isabel corre para a água enquanto Erwin fica para trás, olhando para Levi. - Não queres ir nadar? - pergunta, e Levi abana a cabeça.
- Despido não vou - responde-lhe, certificando-se que não olha para Farlan mesmo com a risada que o homem dá.
- De roupa interior, então - diz Erwin, e há algo no sorriso dele que deixa Levi nervoso. - Mesmo assim vais estar provavelmente a usar mais roupa do que eu.
Farlan dá outra risada atrás deles quando Levi hesita por um momento antes de desapertar os atacadores dos sapatos, os dedos mal conseguindo desprendê-los. Levanta-se e despe-se rapidamente, seguindo Erwin até à beira da água, sentindo-se desconfortavelmente exposto na roupa interior justa ainda que Erwin mal tenha olhado de relance para ele desde que se despira. Fica a observar o homem caminhar para a água e mergulhar, nadando e rapidamente alcançando onde Isabel o aguarda. Levi enfia um pé na água; está muito mais quente agora do que estava de manhã cedo e ele continua a andar, mergulhando por fim a cabeça sob a superfície para sentir o fresco maravilhoso na pele do pescoço queimada pelo sol. Nada até onde Erwin e Isabel estão, esticando os pés para tocar no fundo lamacento. A água chega-lhe até ao pescoço enquanto que mal alcança o peito musculado de Erwin.
- Não é tão bom, mano? - pergunta-lhe Isabel, boiando deitada de costas e levantando as pernas para fora de água uma de cada vez.
Levi concorda em silêncio, tentando ignorar a sensação peganheta do lodo a entranhar-se entre os dedos dos pés. - Podia haver menos javardice - diz, levantando os pés e começando a nadar.
- Podes atirar-me de novo, Erwin? - pede Isabel ao homem, que sorri.
- Oh, posso? - responde-lhe ele, agarrando a rapariga pela cintura quando ela começa a gritar e içando-a nos braços antes de a girar devagar e a soltar; Isabel mergulha a cerca de um metro de distância e a água salta para todo o lado, fazendo Levi fechar os olhos e limpar a água da cara. A rapariga emerge poucos segundos depois, rindo loucamente.
- Outra vez! - exclama ela, fazendo Erwin rir antes de repetir todo o processo, para delícia de Isabel.
- Queres experimentar? - pergunta Erwin então a Levi enquanto nada para perto; a marca de divertimento na cara dele deixa Levi preocupado.
- Não - diz ao homem, que fica a olhar para Levi com as sobrancelhas espessas arqueadas.
- Não? - repete com um sorriso que faz Levi estacar a alguns metros de distância dele.
- Eu sei o que estás a pensar - diz Levi, provocando um ar de pura inocência na expressão de Erwin - e estou a dizer-te para parares de o pensar.
- O quê, eu? - continua Erwin, aproximando-se um passo. - Desde quando é que eu planeio o que quer que seja?
- Estou a falar a sério - diz-lhe Levi, sem conseguir tirar o sorriso da cara. - Não te atrevas-
Antes de terminar a frase, Erwin atirara-se para a frente e prendera Levi, puxando-o para perto e para fora de água; Levi consegue sentir a força dos braços dele por um segundo antes de o apoio do corpo dele desaparecer e ele cair, o ar quente do verão na pele por um instante até o rio o engolir, deixando-o subitamente leve após o peso de há apenas um momento atrás. Bate com os pés até à superfície, arfando por ar e indo atrás de Erwin que nada para longe, mantendo-se fora de alcance sem qualquer dificuldade.
- Não foi giro, mano? - pergunta-lhe Isabel sem fôlego na altura em que Levi atira água na direcção de Erwin.
- Nem um bocadinho, caralho - declara, fazendo Erwin rir à gargalhada. - Pois, é melhor ficares aí.
- Ou o quê? - provoca-o o homem, divertido. - Vais atirar-me ao ar?
Levi range os dentes para não rir. - Vou mas é afogar-te, seu merdas - diz ao homem, começando a nadar na sua direcção, nem se conseguindo sequer aproximar apesar das preguiçosas braçadas de Erwin. Só quando desiste da perseguição, começando a flutuar serenamente sobre as costas, é que o homem nada para perto.
- Espero que não estejas mesmo chateado - diz ele, fazendo Levi resfolegar.
- Claro que não - responde, mantendo-se atento a Isabel enquanto ela tenta apanhar um peixinho com as mãos na margem do rio. - Quase desejava não termos de ir embora.
- Podemos voltar amanhã - sugere Erwin. - Antes de regressarmos à cidade.
Levi dá um grunhido como resposta, fechando os olhos por um segundo antes de endireitar o corpo e enterrar os pés até ao tornozelo no lodo e regressando à margem. Assim que sai da água sente a roupa interior molhada agarrar-se ao corpo e não perde tempo a pegar nas roupas e marchar para trás das árvores para se trocar, puxando as calças sobre a pele nua antes de enfiar a blusa pela cabeça e espremer a roupa interior. Ao regressar para a manta cruza-se com Erwin, que lhe sorri antes de desaparecer atrás das árvores.
- Divertiste-te? - pergunta-lhe Farlan, e algo no tom da sua voz faz Levi atirar-lhe a roupa interior molhada contra a cara. O homem senta-se de imediato, surpreendido e a arquejar.
- Já te disse para parares com isso, não já? - responde Levi, sentando-se pesadamente e bebendo o resto da água que parece quente contra os lábios arrefecidos pelo rio.
Farlan atira-lhe o monte de roupa molhada contra as costas, fazendo-o rir. - Se calhar devias de parar de ler demais as minhas perguntas - sugere Farlan.
- Se calhar devias deixar de ler o que quer que seja - atira-lhe de forma imatura antes de ambos ficarem calados.
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Depois de Isabel e Erwin terminarem de trocar de roupa, reúnem as coisas, Levi dobra a manta entre ele e o suporte da bagageira para a viagem de regresso. Na altura em que chegam à estalagem, todos desejam poder ir nadar novamente, um sentimento que só aumenta no calor sufocante do carro, que se torna ligeiramente mais ameno quando abrem as janelas.
Não fazem nada até ao jantar, cada um deitado numa superfície que os satisfaça; Farlan numa poltrona, as pernas esticadas sobre o braço do sofá, Isabel no tapete em frente da lareira e Erwin no sofá, uma perna pendura sobre o braço e outra com o joelho dobrado. Levi senta-se na outra poltrona e apoia a bochecha na mão, bocejando a cada cinco minutos. Nenhum deles tem vontade de cozinhar e no final mal conseguem achar um acordo nas tarefas para preparar o jantar.
Antes do sol se pôr, carregam as cadeiras para o pomar, aproveitando a noite fresca e seguindo as libelinhas preguiçosamente com o olhar quando estas zumbem devagar em torno das macieiras. Erwin e Farlan fumam os seus cigarros silenciosamente enquanto Isabel vai buscar a sua colecção de submarinos, mostrando os recortes Erwin que parece surpreendido e interessado.
- Este é um Tipo VIIC - explica ela, apontando para a imagem de um submarino, o seu tom estranhamente sério. - Tem o mesmo número de torpedos que o um Tipo VIIB, mas também tem um sonar. É um pouco maior também, mas de resto não são assim tão diferentes um do outro.
- Estou a ver - diz Erwin baixinho. - Como é que sabes tanto sobre eles?
- Um amigo meu disse-me - responde ela distraída, seguindo para o próximo recorte.
Levi e Farlan trocam olhares mas não falam mesmo quando Erwin continua. - E o teu amigo, como é que ele sabia tanto?
- O irmão dele estava num submarino - explica Isabel, fazendo Levi voltar-se para ela. - Ele disse que era o que ele queria fazer também, mas tinham-no mandado para um navio em vez disso. Mas ainda assim sabia muito sobre submarinos, porque era o sonho dele.
- Onde é que o conheceste? - pergunta-lhe Levi agora, mas ela fica calada, folheando por entre as imagens com um olhar distante no rosto.
- Não vale a pena - diz Farlan a Erwin baixinho quando ele está prestes a abrir a boca. - Não vais conseguir tirar-lhe mais nada por hoje.
O homem parece acreditar em Farlan e desiste do que quer que fosse que quisesse dizer antes, voltando-se em vez disso de novo para os recortes de jornal. - E como é que se chama este?
- É um U-38 - diz-lhe ela como se a pergunta de Levi nunca tivesse sido feita. - É um Tipo IXA.
Vêem o resto da colecção dela antes de ela lhes desejar boa noite, sendo seguida por Farlan enquanto sobe as escadas para o quarto, e Levi suspeita que tenha menos a ver com o homem estar cansado e mais com ele querer fazer companhia à rapariga. Depois de eles se retirarem, um silêncio cai sobre o jardim, quebrado apenas pelo piar distante de um cuco até Erwin aclarar a garganta.
- Suponho que não devia puxar este assunto - começa ele, fazendo Levi virar os olhos para ele - mas queria pedir desculpa pelo que aconteceu ontem à noite. Acho que a minha falta de compostura te deixou desconfortável.
Levi volta o olhar para a relva molhada nos seus pés, ficando calado por um longo momento. - Não posso dizer se fiquei ou não - murmura por fim. - Eu próprio não tenho a certeza.
- Estou a ver - sussurra Erwin. - Não quereria que isto afectasse como te sentes sobre o nosso acordo.
- Não vai afectar - diz-lhe Levi rapidamente, sentindo-se confiante disso. - Não afectou. Não estou assim tão incomodado.
- Ainda bem - diz o homem, sorrindo para Levi. - É só que nunca vi-
- Não tens de te explicar - interrompe-lo Levi, ainda que não possa deixar de se interrogar como é que aquela frase teria terminado. - Acontece. Não precisamos falar sobre isso.
- Como quiseres - diz Erwin.
Apesar das suas palavras, Levi ainda fica a remoer aquilo na cabeça, o porquê de tudo aquilo. Lembra-se do fragmento de carta que encontrara, lembra-se das confissões de Erwin de solidão, mas para si parece que é uma pobre explicação; afinal, quão solitário se pode ele sentir depois de passar a noite com Lilian ainda nem há dois dias? Olha de relance para o rosto do homem naquele silêncio contemplativo que caíra sobre ambos de novo.
- Há quanto tempo vives na Alemanha? - pergunta Levi num sussurro. A forma como o rosto de Erwin se franze fá-lo recear por um segundo que ele vá recusar a responder de novo.
- Há pouco mais de dez anos - o homem responde com a voz igualmente baixa, a expressão a mudar entre cansaço e preocupação. - Ultimamente tenho-me sentido...
- O quê? - pergunta Levi quando as palavras de Erwin divagam e ele abana a cabeça.
- Não sei - murmura e suspira. - Suponho que tenho medo que me vá esquecer de tudo. Alguns dias é tão difícil lembrar-me.
Levi pensa naquelas palavras e acha que compreende. Não se passara metade desse tempo desde que saíra de Berlim, o único lugar que sempre vira como casa, e já os detalhes se começam a perder na sua mente: a cor das paredes da pequena loja deles, a vista da janela do quarto, quantos armários tinham na cozinha.
- Às vezes penso em todas as coisas que tive de abrir mão - diz-lhe Erwin baixinho, a voz cheia de uma súbita tristeza - e ao olhar para o que consegui alcançar, não posso dizer que tenha valido a pena.
Levi não sabe o que dizer e limita-se a acenar, olhando para a exaustão e para a mágoa na cara de Erwin e sentindo um aperto estranho no peito. Gostava de ter algumas palavras de conforto, algo que pudesse dizer, algum tipo de certeza que pudesse dar ao homem, mas a sua mente não lhe dá nada.
- Suponho que só tenho de levar isto até ao fim para ter a certeza - diz o homem e suspira. - Mas tenho a certeza que a espera é pior para ti.
Levi encolhe os ombros. - Às vezes não é - diz. - Não me consigo muito lembrar de uma altura antes de tudo isto. É mais fácil lidar com algo quando é o que sempre conheceste. Acho que é por isso que o Farlan tem tanta dificuldade em lidar com isto.
- Como é que era? - pergunta-lhe Erwin agora. - A tua vida em Berlim?
Levi suspira, pressionando as mãos contra os olhos por alguns segundos. - Parecia sempre que não pertencia ali - explica, questionando-se porque é que está a falar tanto. - Não parecia que podia pertencer em lado nenhum. Antes de me dizerem que eu era judeu, mal sabia o que isso significava. Todas aquelas coisas que dizem sobre comunidade e religião e tudo isso nunca fizeram sentido nenhum para mim. Nunca tive nada disso. Lembro-me como tudo me parecia injusto como o caralho, tudo aquilo só porque a minha mãe era judia. Nessa altura já ela tinha morrido há anos, mal me lembrava como é que ela era. Nunca conheci os meus avós e de repente eles tornaram-se as pessoas que determinavam o resto da minha vida por mim.
Olha para Erwin, receando a pena que está à espera de ver, mas encontrando compaixão em vez disso. - Que idade tinhas quando a tua mãe morreu?
- Não tenho a certeza - admite Levi. - O meu tio e eu não falámos muito sobre isso. Sei que não comecei a andar na escola até ele aparecer, por isso não podia ser muito grande.
- Lamento ouvir isso - diz-lhe o homem com gentileza. - Sei o que é perder um dos pais. É um tipo de dor muito particular.
Levi suspira. - Seria de pensar que não teria importância - murmura. - Como disse, mal me consigo lembrar dela.
- Eu acredito que há muitas coisas que não nos conseguimos lembrar - diz Erwin - que continuam a ser importantes para nós ao longo das nossas vidas. Ela foi a primeira pessoa que te segurou nos braços. Como é que isso pode não ter importância?
- É mais a única pessoa que o fez - sussurra Levi, soltando uma gargalhada baixa. - Antes do Farlan aparecer, pelo menos.
- Fico feliz que tenhas encontrado alguém que pudesse fazer isso - diz-lhe Erwin, os olhos nos tons lavanda do céu. - Não é bom ficar sozinho muito tempo.
- Como tu tens estado? - pergunta-lhe Levi antes de se conseguir controlar, fazendo o homem voltar-se para ele com uma expressão confusa.
- Sim - responde Erwin por fim. - Como eu estava antes.
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Quando Levi finalmente se arrasta para a pequena cama na cozinha, sente o peso do dia como uma dor que parece revibrar em cada músculo do corpo que ainda assim não o deixa fazer outra coisa que não seja adormecer assim que deixa a cabeça cair na almofada. Dorme tão profundamente que quando chega a manhã, demora quase um minuto a recuperar a noção do tempo e do local. A escuridão do casebre está cheia do som ténue do ressonar de Erwin que chega até à cozinha. Quando Levi se calça e sai para a rua, encontra uma névoa vaporosa a pairar sobre a relva alta, obscurecendo o caminho à sua frente enquanto ele vai à casa de banho e regressa. Começa a atear um fogo no fogão, sentindo o frio entranhar-se na divisão através da madeira do chão vindo da cave, ainda que o céu sem nuvens da madrugada prometa mais um dia quente.
Levi já está na sua segunda chávena de chá quando Isabel e Farlan acordam, esgueirando-se para a cozinha exageradamente em bicos dos pés para não acordarem Erwin. Ficam os três a falar baixinho enquanto Farlan continua a aquecer o forno e Levi se atarefa com a cisterna, tendo uma breve discussão com Isabel sobre a importância de banhos regulares. Na altura em que o anfitrão finalmente se junta a eles, o cabelo perfeitamente penteado de Isabel está a pingar água para o chão da cozinha enquanto Farlan está a acabar de fritar as salsichas para o pequeno almoço.
- Quanto tempo ficaram acordados depois de irmos para a cama? - pergunta Farlan Levi depois de Erwin passar pela cozinha a caminho da latrina.
- Não muito - diz-lhe Levi. - Nem meia hora.
- Tantas oportunidades desperdiçadas - murmura Farlan para a frigideira antes de tirar as salsichas para um prato e o levar para a mesa.
- Não comeces - atira-lhe Levi de novo, fazendo o homem suspirar.
- Já te disse, devias aproveitar enquanto podes. É só para isso que vale a pena no fim.
- Aproveitar o quê? - pergunta Isabel e Farlan abana a cabeça.
- Nada - explica com um sorriso. - Só este sítio. É tão agradável, não é?
Isabel acena e enfia um pedaço de salsicha na boca, cuspindo-o de volta para o prato segundos depois por lhe ter queimado a língua, fazendo Farlan suspirar e resmonear 'pequena selvagem'. Quando Erwin regressa à cozinha ambos o cumprimentam enquanto Levi lhe serve uma chávena de chá, que ele aceita com um sorriso.
- Obrigado - diz ele baixinho. - Prepara-lo sempre muito melhor do que eu.
- É o amor com que ele o faz - apressa-se Farlan a dizer ao homem. - É esse o segredo.
Levi fulmina-o com o olhar exasperadamente enquanto Erwin acena, pensativo.
- Ouvi dizer que pode ser surpreendentemente importante na culinária - diz com simplicidade, atirando-lhes um novo sorriso.
Depois do pequeno almoço, decidem regressar ao rio e deixar o casebre depois do jantar ao final da tarde, e parece a Levi que se deve menos a ser uma decisão prática e mais pelo facto de que nenhum deles está ansioso por voltar à cidade. Erwin leva-os de volta à estalagem para desespero do dono, que ainda assim concorda em lhes alugar duas bicicletas, ainda que fossem diferentes das do dia anterior. Quando Levi e Farlan param perto da margem onde se divertiram no dia anterior, Erwin e Isabel continuam para visitar uma quinta mais à frente da linha do leito, prometendo regressar dentro de duas horas antes de fazerem a viagem de regresso.
Farlan deixa a bicicleta apoiada contra uma árvore enquanto Levi desdobra a manta, esticando-a no chão e deitando-se, a relva a fazer-lhe cócegas nos tornozelos. O ar ainda tem aquele calor envolvente que parece descer sobre o corpo de Levi assim que os músculos relaxam e ele fecha os olhos, sentindo mais do que vendo o outro homem deitar-se a seu lado. Ficam assim durante muito tempo, sem falar, só a respirar o ar de verão com todos os seus aromas inebriantes, relva e água, terra e molhado, o cheiro enjoativo de salsichas de vaca e flores. Farlan suspira à esquerda de Levi, parecendo feliz.
- Esta vai ser uma boa memória - diz ele.
Levi concorda com um murmúrio, olhando para os ramos da faia, as folhas banhadas em raios de sol, o verde quase dolorosamente brilhante. Apercebe-se que esta será a única memória do género que tem, de dias de lazer passados simplesmente a ser, a existir, e não tem a certeza se esse facto o deixa triste ou não. Afinal, não é melhor ter apenas um que seja do que não ter nenhum?
- Espero que saibas que eu não queria que ficasses triste - continua Farlan, e Levi demora um momento a perceber que não estão a falar da mesma coisa. - Sobre tu e o Erwin, refiro-me.
Levi não consegue pensar em nada para dizer, não sendo capaz de fingir que há algo do género entre ele e Erwin, mas quando uma pequena voz no fundo da sua mente lhe diz que, a julgar pelo comportamento de Erwin, poderia haver, não se apressa a calá-la. Pensa nas palavras suaves do homem, o respeito no seu discurso, a gentileza do seu toque, e franze o sobrolho. Apesar do facto de que o aviso de Farlan não tenha um motivo real para se aplicar, Levi não pode negar que ele tem razão; estas coisas acabam mal mais vezes do que bem.
- Suponho que já vivi o tempo suficiente para ser optimista - continua Farlan quando Levi não fala - mas fico feliz que tenhas encontrado alguém. E quem sabe? Se calhar se a guerra acabar rápido vocês os dois possam continuar assim.
- As pessoas podem mesmo fazer isso? - pergunta-lhe Levi agora. - Pessoas como nós, faziam isso antes?
Farlan fica calado por um momento antes de suspirar. - Não, suponho que não - admite, parecendo desanimado. - Gosto de pensar que sem a guerra eu e o Christofer poderíamos... mas acho que tens razão. Pessoas como nós não o fazem.
Levi pensa nos poucos homens assim que conhecera em Berlim - bem, os poucos homens que sabia alguma coisa de pessoal, mais do que a curvatura da pila - e na altura parecera-lhe que a maioria era casado. Reparara nos anéis nos seus dedos e ignorara-os no mesmo momento; o que tinha ele a ver se eles eram casados? E Erwin, e se ele fosse casado também?
Ficam em silêncio e Levi fecha os olhos de novo, deixando o raspar suave das folhas e o murmurar do rio encher-lhe a mente e apaziguar os pensamentos que considera demasiado confusos nestas últimas poucas horas de prazer. Força-se a acreditar, mesmo que seja só por este pouco tempo, que não existe mais nada fora deste momento; nem a guerra, nem medo, nem Dresden. Após algum tempo o som do vento e da corrente estão misturados com o ressonar baixinho de Farlan, que embala Levi para um sono profundo. Sonha com o casebre; Erwin está sentado junto da lareira, de costas para Levi, as chamas a pintarem os braços de tons vermelhos. Levi chama-o, mas ele não se vira para trás e quando Levi se aproxima para ver a cara dele, vê que a cor se esvaíra da sua face e os braços estão cheios de cortes profundos que encheram a camisa de sangue. O homem não olha para ele ainda assim mas os olhos olham desfocados para o fogo, cintilando entre a vida e a morte, mãos languidas sobre os joelhos. Levi segura uma delas entre as suas, surpreso pelo frio súbito que o trespassa e que o acorda ao mesmo que uma explosão de barulho o força a abrir os olhos.
Apercebe-se que puxara Farlan para perto de si na manta, um hábito dos anos que passaram a dormir na mesma cama, e quando afasta da mão de repente o outro homem assusta-se e acorda, apressando-se a pôr-se de pé quando também ele vê os soldados a aproximarem-se pelo relvado. São cinco, jovens, mais novos que Levi e Farlan, envergando uniformes e olhando para eles a trocarem palavras sussurradas que Levi não consegue ouvir. Pelo bambalear dos seus passos Levi sabe que eles estiveram a beber demasiado, o que, acrescentado à arrogância das suas posturas, fazem o coração de Levi bater desenfreado. Olha de relance para Farlan que está a endireitar a bainha da camisa com mãos trémulas e não consegue evitar ver o quão culpados ambos devem estar a parecer.
- E o que é isto então? - um dos soldados diz, andando à frente dos outros. - O que é que foi isso tudo ainda agora?
- Nada - gagueja Farlan, atirando uma mão ao cabelo. - Estávamos só a dormir.
- A dormir? - repete o soldado e Farlan acena, olhando apressadamente para Levi enquanto os outros homens se aproximam.
- Sim - diz Farlan de novo, e algo na maneira como ele fala deixa Levi a pensar que não é a primeira vez que isto lhe acontece. - Adormecemos, foi só isso.
- Ele tinha os braços à tua volta - outro soldado diz, acenando para Levi, cujos olhos estão a saltar de homem para homem enquanto tenta determinar qual o melhor plano. - Todos nós vimos.
- Não foi nada - insiste Farlan, encolhendo os ombros e dando uma gargalhada forçada. - Ele está só habituado a agarrar a namorada assim. Não é, Lukas?
Levi olha para o outro homem e acena. - É isso - responde, tentando relaxar a sua postura quando se apercebe do quão tenso Farlan está. - Ela adora que eu faça isso.
- Então não és paneleiro? - o soldado pergunta agora a Levi.
- Não - declara Levi, tentando que a sua expressão tenha a quantidade certa de ofensa perante o insulto.
- Qual é o nome da tua namorada? - pergunta um do grupo enquanto o líder do gangue se avança e pisa a manta ainda no chão.
- Lilian - diz Levi, o primeiro nome que lhe vem à cabeça. - E é melhor que tires as tuas botas de cima da minha propriedade.
O soldado olha para baixo para a manta e de volta para Levi antes de limpar as solas dos sapatos lentamente no tecido e antes de continuar a avançar até estar mesmo à frente de Levi. Consegue sentir o sangue a pulsar no crânio quando aquele género de raiva calma começa a aumentar nos seus músculos e fixa o soldado nos olhos, desejando-los tão cegos e sem vida quanto aqueles que o homem já matou. Consegue sentir o cheiro do álcool no hálito do homem ao olhar para a cara dele, a mente cheia do conselho de Erwin.
- Desculpa lá - diz-lhe o homem, a voz carregada de escárnio. - Estava curioso p'a ver o que pensas fazer quanto a isso. Brochista de merda.
Levi olha para atrás do homem para os pedaços de relva agora colados na manta juntamente com sujidade e lama seca. Há um momento em que nada parece real, a tranquilidade de antes transformara-se tão depressa nisto, e por alguns segundos Levi pergunta-se se ainda estará a sonhar, se isto é uma continuação do pesadelo que tivera antes. Com o corpo a tremer de raiva, Levi olha para a figura que se eleva sobre ele - aquela amostra de sorriso nos lábios do homem, a cicatriz que lhe atravessa a sobrancelha - e resfolega antes de lhe cuspir para a cara.
Segue-se um momento de calma em que as mãos do homem se erguem à face para tocar o trilho húmido que o cuspo está a deixar ao deslizar em direcção ao seu queixo. Levi consegue ouvir Farlan arquejar à sua direita antes do rugido irado do homem se sobrepor. O homem investe contra Levi, mãos preparadas para o agarrar. Levi esquiva-se quase sem esforço, rodando à volta do homem e pontapeando-o com força atrás do joelho. A força do ataque fá-lo cair de joelhos no chão e Levi não perde tempo a enrolar o braço à volta do pescoço dele, acertando-lhe com um novo pontapé com a ponta da bota contra a virilha quando o homem tenta enxotar Levi de cima de si. O soldado dobra-se em dois, as mãos na virilha e a arfar por ar, e antes de um par de mãos fortes agarrarem a camisa de Levi pelas costas ele ainda lhe aperta o pescoço com mais força, deixando o homem esparramado e engasgado no chão. Consegue ouvir Farlan a gritar para pararem antes de ser esmurrado nas costas e uma outra voz irrompe, mais alta do que as outras - a voz de Erwin.
- Mas o que raios se passa aqui?!
Levi volta-se para ver o homem correr na direcção deles com Isabel atrás de si; o rosto dele está distorcido pela raiva ao empurrar o grupo de soldados até chegar a Levi e Farlan, mal olhando para o homem no chão ainda com a mão na garganta lutando para se levantar, sempre a olhar para Levi com uma sede de vingança latente.
- Estes paneleiros da merda - consegue o homem gemer. - Nós vimo-los... praticamente a comerem-se em público... enojam-me-
- Não estávamos a fazer tal coisa! - exclama Farlan ao voltar-se para Erwin. - Adormecemos, foi só isso, juro!
Erwin olha para ele e depois para Levi, as sobrancelhas espessas unidas, e Levi consegue ver a mente dele a trabalhar de forma febril, mapeando os detalhes, chegando a conclusões antes de precisar de fazer qualquer pergunta, tentando encontrar uma saída para a situação. Olha para o homem a esfregar o vergão vermelho no pescoço, a expressão a gelar.
- Sabes quem ele é? - pergunta ao homem, acenando para Farlan. - É filho do meu primo.
- E então? - atira-lhe o homem de volta - É um nojento de um-
- É bom que tenhas cuidado - interrompe-lo Erwin, a voz controlada e baixa - com o que é que o acusas.
- Porque caralho havia eu de me preocupar, seu filho da puta senil?
Levi vê o maxilar de Erwin cerrar-se. - Porque se te atreves sequer a murmurar merda dessa sobre o filho do meu primo, vou arrastar esse teu couro lingrinhas por todos os tribunais do Reich por difamação. Percebeste, Gefreiter?
O soldado olha para Erwin em desafio mas fica calado, talvez tentando pensar o que dizer a seguir, apontando um dos dedos tipo salsicha para Levi. - Aquele estava a tocar no outro. Todos nós vimos. Estavam deitados naquela manta e ele estava a tocar-lhe.
Erwin volta-se para Levi, a expressão solene, quase zangada. - Isso é verdade, Lukas?
Levi olha em volta para os soldados e para Isabel, que se aproximara de Farlan e segura a mão dele na sua. Olha de relance para o Gefreiter; o homem ainda está de cócoras pela dor na virilha e Levi sente vontade de rir, mas não o faz. Sabe que algo tem de ser resolvido aqui, mas não vê a solução.
- Também me cuspiu para cima e estrangulou-me - continua o soldado quando nem Levi nem Erwin falam.
- Isso é verdade? - pergunta Erwin a Levi de novo. - Cuspiste na cara de um soldado alemão? Atacaste-lo?
- Sim - diz Levi, apercebendo-se de repente como isto tem de acabar ao ver um traço de dor no rosto de Erwin. - Fiz isso mesmo. Chamou-me brochista por isso cuspi-lhe na cara. E apertei-lhe um bocado a goela.
O golpe acerta-lhe antes de Levi ter hipótese de se aperceber, uma pancada na cara com as costas da mão que o atira ao chão. A floresta de pernas à sua frente oscila de forma nauseante quando um zumbido alto começa a explodir nos seus ouvidos, ensurdecendo-o a qualquer outro som. A dor só chega depois, um lembrete agudo da força dos braços de Erwin, ainda que, mesmo com a dor latejante, Levi se questione se o homem se conteve. Cerra os dentes e estremece quando consegue apoiar um braço debaixo do corpo, o travo metálico de sangue na boca. Inspira quando o som do rio regressa devagar, levantando-se de novo antes de cuspir para a relva, a mancha de vermelho estragando o verde impecável, mesmo na altura certa para ouvir as palavras finais de Erwin.
-...fazem mais por este país do que tu alguma vez farás. Estás a perceber?
- Sim, Herr Strumbannführer - murmura, abrindo a boca apenas o absolutamente necessário.
- Ainda bem - rosna Erwin, zangado; Levi não olha para ele. - É bom que não te esqueças, caralho. E se eu te vejo sequer a olhar para o Friedrich de novo, mando-te direito para Buchenwald nesse mesmo instante. Estamos entendidos?
Levi estremece ao ouvir o nome, mas resmunga: - Sim, Herr Strumbannführer.
Consegue ouvir Erwin a expirar. - Que merda de confusão - diz, mais para si do que para outra pessoa, parece. - Um óptimo dia de férias completamente arruinado.
Levi quer rir - a declaração é tão correcta - mas limita-se a suspirar. Todo o lado direito da cara está a latejar com uma dor surda que o faz querer agarrar a cara e gritar todos os palavrões que sabe. Ao ouvir Erwin trocar mais umas quantas palavras com os soldados tenta reunir forças contra isto, e contra a realidade a que todos tinham agora sido forçados a regressar. Mas agora algo nessa tarefa parece pior do que antes. Amargamente, Levi volta atrás com o seu pensamento de antes, decidindo que é melhor não ter memórias como estas.
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Vão-se embora pouco depois, Erwin ordenando a Isabel para ir na bicicleta de Farlan. Levi senta-se no suporte para bagageira da bicicleta atrás de Erwin enquanto os soldados começam a despir-se, rindo-se entre eles agora como se nada se tivesse passado de todo, fazendo corridas até ao rio. Começam a viagem de regresso, parando de repente cerca de meio quilómetro depois quando Erwin salta da sua bicicleta e desaparece em direcção ao rio por entre o matagal, regressando com um lenço molhado, que dobra antes de entregar a Levi.
- Não sei quanto isto vai ajudar - diz ele, e algo no tom faz Levi pensar que ele está apenas a pensar em voz alta. - Não queria... peço tanta-
- Não é preciso - diz-lhe Levi, a dor no peito quase rivalizando com a da cara. - Não tens de pedir desculpa. Não há motivo.
Levi vê de relance a expressão de Erwin e é obrigado a desviar o olhar; ver toda aquela tristeza fá-lo querer arrancar a própria pele. Pressiona o lenço contra a cara devagar; o fresco ajuda, de facto. Quer dizer isso a Erwin, mas não consegue. Volta-se para Isabel e Farlan, que pararam alguns metros atrás.
- Estão bem? - pergunta-lhes, recebendo acenos mudos como resposta; há uma determinação estranha na expressão de Farlan, uma firmeza à qual não está habituado e que lhe prende a atenção por um momento.
Continuam o percurso num silêncio que dura até regressarem ao casebre e mesmo aí só trocam as palavras mais essenciais enquanto arrumam as coisas e saem. O único que tenta começar uma conversa durante a viagem de carro de regresso a Dresden é Farlan, que pergunta a Isabel se ela gostou da quinta, mas o encolher de ombros evasivo da rapariga é suficiente para o desencorajar de perguntar mais alguma coisa, e voltam todos a ficar em silêncio.
Quando finalmente sobem as escadas para o apartamento e entram desordenados pela porta, Levi não se consegue lembrar de uma altura em que se tenha sentido mais exausto, mais miserável, ou mais desgastado. Enquanto o dia escurece até noite para lá das janelas, Farlan cozinha um modesto jantar para todos, que comem no silêncio persistente. À noite, Levi não consegue suportar aproximar-se do outro homem, sentindo como se algo do conforto que o gesto costumava trazer-lhes tenha agora desaparecido de vez, e antes de adormecer, Levi interroga-se entorpecidamente quando é que deixara de saber como chorar.
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