VII
Suspiros
"Porque todos os meus porquês sempre foram você."
1979, Inglaterra.
Ele desceu a rua em silêncio absoluto, mal ousando respirar. A cada esquina que virava, era como se esperasse ser assassinado a qualquer instante, as torturas dolorosas cravadas em sua mente com tanta força que doíam já como lembrança, mas parecendo quase agradáveis diante da perspectiva que ele trazia consigo.
Passos leves, ele podia jurar que os ouvira. Ou talvez apenas estivesse enlouquecendo mais precocemente do que imaginava. Mas a paranóia era perversa se comparada com a loucura: esta dessintonizava o seu agente do mundo, abraçando-o com um confortável manto de segurança, enquanto aquela só fazia enfurecer sua obsessão por permanecer no mesmo mundo que o afligia e enclausurava.
Regulus conhecia o lugar porque já havia passado por ali certa vez, há tanto tempo que mal poderia se lembrar, caso o ocorrido não fosse tão marcante. Sirius o havia tocado com os olhos, acariciado as íris miosótis com as suas, e parecera, senão saudoso, sentir sua falta.
Ele sabia que o primogênito ainda deveria estar naquele lugar.
Descuidadamente, Regulus se esforçou para ser notado. Se por aquelas ruelas imundas se escondia a Resistência, eles haveriam de saber da sua presença. Mas quanto mais esperava, mais sua coragem parecia ir se carcomendo.
Ele dobrou a esquina e se viu numa bifurcação. Do outro lado da rua havia um poste de luz elétrica, iluminando, solitário e miseravelmente, toda a quadra. Regulus caminhou ate estar ao seu lado, onde estancou, completamente visível mesmo à distância. Seu coração palpitava, ansioso.
Mas não demorou muito para acontecer.
A luz piscou algumas vezes, enfraquecida, até que finalmente desapareceu. Agora, só a lua iluminava a rua estreita com seus feixes de prata líquida, embora Regulus tardasse a se acostumar com o escuro. Quando o fez, já era tarde demais.
"Procurando por mim, Regulus?"
A noite de verão estava calma e fresca e, para ele, não poderia ser mais agradável. Seus pés descansavam sobre o tampo da mesa enquanto ele se equilibrava nas pernas traseiras da cadeira, desfrutando o seu sanduíche, também conhecido como jantar.
Sirius gostava daquele lugar por dois motivos: era longe e diferente de sua casa. O ambiente era simples, as ruas estreitas e mal iluminadas sem nenhum traço de ostentação, e a companhia era infinitamente mais agradável.
James estava sempre por ali, junto de Lily, assim como Peter e Remus, embora esse último se ausentasse com mais freqüência, naturalmente. A professora McGonagall aparecia apenas algumas vezes por mês, ocupada com os deveres acadêmicos, da mesma forma que Dumbledore. Mas, em geral, a movimentação pela sede da Ordem da Fênix era intensa, com aurores e inomináveis, civis e professores indo e vindo o tempo todo.
No momento, Sirius tinha agarrado um exemplar do Profeta Diário, cruzando a pequenina sala circular e esparramando-se por cima do sofá puído. Depois de passar os olhos pelo caderno principal, sem encontrar grandes novidades, ele decidiu se distrair com a seção de esportes, na qual um bruxo alto e corpulento segurava um troféu de quadribol, sendo cumprimentado por muitos outros, sorridente. Entretido com a matéria, só percebeu que os amigos chegavam pelo corredor quando a porta foi aberta.
"...e a segurança é fundamental", dizia Peter, gesticulando exageradamente, ligeiramente nervoso, enquanto James ouvia, atento, "não acha?"
"Ah, com certeza", eles ocuparam as poltronas da sala, de frente para Sirius, "É uma precaução."
Remus atravessou a sala e sentou-se no sofá ao lado de Sirius, fazendo com que este baixasse o jornal.
"Tudo bem, Moony?" A lua cheia recente tinha deixado marcas bastante visíveis no lobisomem, mas, apesar de tudo, Remus sorriu de leve, apenas um pouco cansado.
"Bem, sim. Tudo bem." Ele pareceu apreensivo. "Escuta, Pad. Acho que você precisa saber de uma coisa."
Sirius largou o Profeta Diário ao seu lado e virou-se para Remus, interessado.
"Então, diga."
Remus ficou em silêncio longamente, pensativo. Depois, levantou-se. "É mais fácil mostrar."
Sirius o seguiu para fora do aposento, mas antes que terminassem de cruzar os corredores, ele agarrou um dos braços de Remus, segurando-o com firmeza e virando-o para si.
"Me diz logo, Moony."
Remus não estava bem certo de como fazer aquilo, porque ele sabia como Sirius podia ser imprevisível – e suas reações não eram exatamente pensadas. Por fim, decidiu-se por dizer de uma vez: "Seu irmão está aqui, Pad. Achamos que ele é algum tipo de informante."
"Aqui?" Sirius sentiu um arrepio lhe subir pelo corpo. "Como ele sabe que é aqui?" O sentimento de culpa foi inevitável ao se lembrar de tê-lo visto numa estação de trem certa vez. "Onde ele está?"
"Não muito longe. Alastor queria mandar alguém -"
"Eu vou", interrompeu-o Sirius. "Diga a Alastor que eu cuido disso."
"Siri-"
"Nem tente, Remus." Ele passou uma das mãos pelos cabelos, os olhos anis mirando algo que o outro não podia ver, além dos corredores. "É o meu irmão. É hora de fazer isso parar."
"E se ele não quiser parar, Sirius?"
O grifinório não respondeu. Sirius deixou a Sede da Ordem da Fênix e alcançou as ruas escuras do bairro, seguindo a orientação de Alastor. Ele podia sentir que Regulus estava por ali, como se buscassem um ao outro, em algum lugar. Passos.
"Espera!", ele gritou, mas o menino não parou: suas pernas corriam, velozes, atravessando a praça. "Espera, Arc!"
Sirius dobrou a esquina e o viu sob a luz, procurando vida nas sombras, vulnerável. Ele se aproximou sorrateiramente, empunhou a varinha e apontou-a para o poste. A luz vacilou algumas vezes antes de se render completamente, sumindo no mar de escuridão.
"Procurando por mim, Regulus?"
Ele parou sob a árvore e examinou-a, deixando que o outro o alcançasse. Sirius apoiou as mãos nos joelhos, puxando o ar com força.
"Você... ficou... louco?"
"É alta, Al. É alta demais", ele murmurou.
Os miosótis fixaram Sirius e o primogênito fraquejou como nunca antes. Os orbes de Regulus faiscavam em chama viva e forte, fulminante, quando o caçula sorriu.
"Eu nunca perdi você."
"E daí que é alta? Você já subiu em árvores maiores!", comentou sabiamente. Regulus lhe esticou os braços e afastou as mãos, que estiveram juntas em forma de concha, mostrando-lhe o pequeno pássaro.
"Dessa vez eu vou precisar de você."
Sirius sentiu o sangue esquentar dentro das veias e não se conteve: "O que está fazendo aqui?"
"Por que você pergunta se já sabe a resposta?"
"É por causa daquele louco? É por causa daquela merda de Toujours Pur?"
Regulus meneou a cabeça.
"Por sua causa, Sirius. A causa é você."
Sirius juntou as mãos, entrelaçando os dedos, e Regulus se equilibrou ali, subindo num dos galhos com dificuldade.
"Você sabe que isso não vai dar certo, não sabe?"
Sirius riu, descrente. "Por minha causa?"
Ele observou o irmão, que sempre lera tão bem quando não o tinha em seus braços, e não o compreendeu. Regulus se tornara ilegível. Misterioso.
"Ria, Sirius. Eu vim te ver."
"E por que você faria isso?"
Regulus se equilibrou, segurando o passarinho com cuidado. "Vai dar certo, sim!"
"Não vai, não! Ele é muito pequeno!"
O caçula bufou. "O tamanho dele não importa, ele vai voar!"
"Por que você faria isso?", ele repetiu. Sirius se aproximou num passo, fazendo Regulus recuar e recostar-se na parede, seus lábios de repente muito secos. O primogênito estava tão perto que o sonserino podia ver o próprio reflexo nos olhos anis de Sirius, como espelhos d'água. Não, espelhos não. Regulus tinha certeza de que aquele menino que via nas íris do irmão não era uma imagem falsa, mas real. Regulus se via nos olhos de Sirius tal como era e fora até ali não apenas para ver o primogênito, mas também para se reencontrar. Foi o caminho que Regulus escolheu.
Sorriu.
"Ele não vai!", teimou Sirius, mas o caçula não lhe deu ouvidos, esticando-se sobre o galho. Com o queixo tocando a madeira, ele abriu as mãos na frente do rosto, libertando o passarinho, que pareceu desnorteado.
"Voa, passarinho! Voa!", mandou, mas nada aconteceu.
"Seu sorriso é um mistério, Regulus."
Os miosótis pareceram revoltosas tempestades.
"Tal como o seu coração, Sirius. E você nunca permitirá que eu faça parte dele. Não há lugar para mim, meu irmão. Não há lugar para..."
"Nós", ele completou. "Isso nunca nos deteve."
"Voa! Voa!"
"Eu já falei! Ele é pequeno demais, ainda não sabe voar!", insistiu o primogênito. Regulus o mirou, irritado.
"Acredita nele, Al!"
"E que diferença isso faria?"
"Não, isso nunca nos deteve. Mas deveria tê-lo feito, precisamente."
Sirius deu de ombros.
"É, você está certo. É só um traidor."
"Isso pode fazer toda a diferença!"
Regulus quis dizer a verdade a Sirius, visto que jamais teria a chance novamente. Dizer que ele não era um traidor. Dizer que estaria junto do irmão, ao lado dele até o último minuto. Mas não o fez.
"Sim, eu sou."
Sirius levou o olhar do irmão ao passarinho, duvidoso. O passarinho era muito pequeno, mas talvez...
"Voa", pediu Regulus, quase implorando, "Voa!"
Ele sabia que tudo o que ele precisava fazer era falar tudo errado. Assim, Sirius não teria de lidar com as conseqüências dos atos do caçula.
"Eu sou um traidor" – eu nunca trairia você.
"Um filho muito melhor" – gostaria de ter sido mais como você.
"Estou do lado certo da guerra" – eu não tenho um lado, senão o seu.
"E você morrerá, Sirius. Morrerá por seus amigos, lutando contra você" – eu caminharei até a minha própria morte, por minha escolha. Enfrentarei a morte por tudo o que você amou, porque tudo o que eu amo é você.
"É assim que acontece, meu irmão. Uma loucura de sangue e morte. E nós estaremos no meio disso. Morrer sozinho, é? Espero que doa, o que você acha?"
Sirius o empurrou contra a parede dolorosamente, seus olhos claros cheios de raiva fixando o irmão mais novo.
"Não me desafie..."
"Eu o desafio todo, Sirius Black", sua voz estava tremendo de nervoso.
"Voa!"
"Desista, Arc! Ele não..."
"Acredite!" Suas bochechas acerejaram, deixando Sirius estarrecido, o contraste dos miosótis com as maçãs do rosto intrigando o primogênito. "Acredite nele!"
"Eu o desafio pelo que tem feito, por aquilo que fez e tudo o que ainda fará." Foi a primeira vez que Sirius percebeu haver muito mais de Regulus para compreender e que, tê-lo em seus braços não era decifrá-lo, mas senti-lo e aceitá-lo. "Mas, principalmente, eu o desafio por tudo aquilo que você nunca fez, nem fará."
O silêncio entre eles se tornou pesado e infinito. Nenhum dos dois desviou o olhar. Regulus tentou se desvencilhar dos braços de Sirius, mas o grifinório se aproximou ainda mais, tocando seu peito, como se sua vida dependesse disso.
"Não deixarei" – ele sussurrou no ouvido do caçula, sua voz morna, agora doce e calma, enquanto seus lábios tocavam a pele delicada do irmão – "você partir."
Sirius uniu seus lábios e Regulus sentiu seu coração perder um compasso, ferindo-se com tudo o que ele jamais pronunciaria. Ele nunca poderia dizer ao irmão como realmente se sentia sobre eles - ele nunca poderia dizer 'eu amo você', mesmo que esta fosse sua verdade absoluta. Aquela que lhe indicava o caminho, que seria o melhor dele, deveria também ser seu mais doloroso segredo. Um segredo que poderia matá-lo, se ele não estivesse prestes a caminhar até a própria morte.
"Eu sinto muito, Sirius", sua voz fria, tão forte quanto ele conseguiria forjar, visto que estava em total auto-destruição, acordou o primogênito e o grifinório foi empurrado de volta para longe do sonserino, "eu já parti."
"Voa! Voa!"
"Voa!" Regulus quase se desequilibrou para olhar o irmão. Só quando o ouviu repetir, sorrindo, "Voa!", acreditou. E eles disseram mais uma vez, em uníssono: "Voa!"
E o passarinho piou antes de levantar no ar.
Continuaram se encarando e nunca foi tão difícil de lidar com o espaço vazio entre eles. Ambos não o queriam, mas reconheceram que não havia nada que pudessem fazer a respeito.
Aquele era o seu último olhar.
"Ele está voando, Al! Ele está -" Regulus escorregou e Sirius arregalou os olhos, assustado.
"Arc, cuidad-"
Regulus deu as costas a Sirius, incapaz de observar seus olhos claros por mais nenhum minuto. Mas ele não sabia como começar a caminhada: suas pernas estavam pesando toneladas.
Coragem, Sirius lembrou-lhe em seus pensamentos mais profundos, Coragem para fazer o que precisava ser feito.
"Adeus, meu irmão."
E a cada passo ele sentiu como aquilo era difícil. Como era difícil saber que Sirius estaria mais seguro se não soubesse o que o caçula fez – o que o seu irmão fez por Sirius e que, mais tarde, descobriu que era o mesmo que fazer por ele.
Ele levantou o rosto e observou Sirius sob o seu corpo, preocupado.
"Al, você está bem? Me desculpe, eu não queria cair em cima de você!"
"Estou bem, tá tudo bem, Arc! Eu peguei você..."
"Obrigado." Ele sorriu, precioso. Sirius deu de ombros, sem graça.
"Eu sempre..." Seus olhos entraram em contato de novo e o primogênito acerejou, "Sempre segurarei você pra não te deixar cair."
Mas o seu primeiro passo foi interrompido por uma lágrima intrusa, vergonhosa, que ele nunca deixou correr, e palavras dolorosas, que pungiam e acariciavam de uma vez só.
"Adeus... Arc."
Ele seguiu pelos caminhos escuros, os miosótis úmidos, duros como a lápis-lazúli, sem nunca titubear na intensidade. Ele sabia que aqueles passos nunca seriam refeitos, mas continuou a andar para onde quer que suas pernas o levassem: à sua redenção, à sua ruína – à morte.
"Você não chorará a minha morte, mas se lembrará de mim." Seus lábios se curvaram quase cinicamente, um resquício de esperança inundando o seu sorriso precioso, "Lembre-se de mim, Sirius. Lembre-se de nós."
Ele levou uma das mãos para dentro do casaco e tirou do bolso interno a velha fotografia. Dois garotos sorriam de volta para ele, inerentes ao futuro e ao passado. Eles viveram o presente, sem saber o que os esperava.
A tragédia. A desgraça. A queda.
E descobriu que sempre esteve pronto para fazer o que precisava ser feito.
"Lembre-se porque, no fundo, nós ainda somos aqueles meninos, brincando escondidos no jardim de casa."
Os miosótis derramaram suas últimas lágrimas nas seguintes palavras, lavando a sua alma de todo o receio da solidão mórbido do escuro.
"Você não chorará a minha morte, mas você sabe que eu sempre estarei aqui para você. Basta me procurar."
Ele levantou os olhos para o céu escuro, guardando a fotografia sobre o peito, como se fosse preciosa, e sorriu. Sorriu para as estrelas, para Sirius e para ele.
Para as estrelas que contariam a sua história muito tempo depois que já tivesse ido.
I… will protect you in the night
(Eu... te protegerei na noite)
I... am smiling next to you
(Eu... estarei sorrindo ao seu lado)
