7º Capítulo: A confissão

No dia seguinte à conversa com as amigas, Sakura acordou bem cedo (o que era RARÍSSIMO, e ainda mais pelo tempo que levara a adormecer na noite anterior) e dirigiu-se à escola. Não tinha aulas de manhã, nem Ryo, mas combinara encontrar-se com ele lá, para irem dar um passeio e conversarem.

Ao chegar ao portão da escola, encontrou Ryo encostado ao muro de pedra, com um ar triste e pensativo. "Se calhar ele percebeu que era grave, o que eu lhe tenho para dizer" pensou Sakura. Foi para ao pé dele e deu-lhe um beijo na face.

"Já nem um beijo a sério mereço…" pensou o rapaz, suspirando.

(Ryo) – Disseste que tínhamos que falar. Para onde vamos?

(Sak.) – Eu estava a pensar ir ao aquário, que é um lugar calmo.

(Ryo) – Por mim tanto faz.

Sakura tomou aquilo como um sim e foram, sem trocar nem mais uma palavra, até ao aquário.

Ao chegarem lá, Sakura conduziu Ryo até ao aquário das alforrecas, um dos lugares que eles os dois mais estimavam. Era uma espécie de cubículo com 2 ou 3 metros quadrados, muito escuro. Existia um banco e, defronte desse, situava-se o aquário das alforrecas. Era relaxante estar ali a observar os movimentos fluidos dos corpos das alforrecas, que iluminadas adquiriam todas as cores possíveis e imaginárias. Era ali que eles os dois costumavam ir para namorar, longe dos comentários trocistas dos colegas.

(Sak.) – Ryo… Eu tenho uma coisa para te dizer.

(Ryo) – Eu sei.

(Sak.) – Vai ser muito difícil, tanto para mim como para ti, mas eu tenho mesmo que te dizer… Eu já não te amo.

(Ryo) – Eu sei…

(Sak.) – Sabes?! – perguntou, espantadíssima.

(Ryo) – Sei. Não me beijas, não estás perto de mim, quase não falas comigo nem me olhas nos olhos. Eu não sou burro, percebi logo – esclareceu Ryo, curvando-se e começando a chorar baixinho.

(Sak.) – Ryo… Eu não queria que isto acontecesse… - confessou a rapariga, com lágrimas nos olhos. Passou-lhe o braço por cima dos ombros e encostou a boca ao seu ouvido – Custa-me tanto ver-te assim… Mas eu não posso mudar os meus sentimentos para com uma pessoa.

(Ryo) – Posso ao menos saber quem é o dono do teu coração? – questionou, endireitando-se.

(Sak.) – Sim. É o Shaoran Li, que anda agora na minha turma. Conhece-lo?

(Ryo) – Sei quem ele é. Ele frequenta a equipa de basquetebol masculino da escola… Mas ele não tem namorada?

(Sak.) – Tem.

(Ryo) – E ele gosta de ti?

(Sak.) – Não sei, mas acho que não. Não da maneira que eu gosto dele.

(Ryo) – E um dia deu para te apaixonares por ele? – espantou-se Ryo. – Pelo que ouvi, ele só entrou ontem para a tua turma.

(Sak.) - Eu já o conhecia. Ele andou na minha turma do 4º ano. E aí eu apaixonei-me por ele, mas nunca lho disse. Quando terminou o 4º ano, ele voltou para Hong Kong e nunca mais o vi. Uns anos mais tarde, conheci-te e comecei a gostar de ti, achando que o havia esquecido. Mas parece que sempre o amei, porque, mal o vi, percebi que nunca o esqueci…

Fez-se um silêncio muito incomodativo.

(Sak.) – Desculpa…

(Ryo) – Não peças desculpa. Não tens culpa. O amor não se domina. Mas eu não fico aborrecido. Só quero que sejas feliz… Se não pode ser comigo, que seja com outra pessoa… E, mesmo que ele não goste de ti, vais ser sempre minha amiga.

(Sak.) – Obrigado, Ryo. Nunca te esquecerei, e quero mesmo muito que continuemos amigos… - estendeu-lhe a mão – Amigos?

(Ryo) – Podes crer! – exclamou, batendo a sua mão na dela.

Ainda faltavam três horas para as aulas começarem, por isso, Sakura e Ryo decidiram dar uma volta pelo aquário.

(Sak.) – Podemos primeiro ir ver os golfinhos? – implorou Sakura, pois esses eram os seus animais preferidos.

(Ryo) – Claro.

E foram para o exterior, onde se encontrava o grande tanque dos golfinhos. Estava prestes a começar o espectáculo dos golfinhos, e Ryo disse a Sakura para assistirem. Sakura adorou. Apesar de já ter visitado o aquário várias vezes, nunca vira o espectáculo dos golfinhos. Era realmente deslumbrante. Aqueles animais graciosos saltavam entre arcos, acenavam às pessoas, puxavam barcos, brincavam… Eram muito inteligentes. No fim do espectáculo, Ryo levou Sakura para perto do tanque, chamou um dos treinadores e pediu-lhe para Sakura fazer uma festa a um dos golfinhos. O treinador, habituado a pedidos destes, apressou-se a chamar um golfinho. Sakura, com a mão a tremer, fez uma pequena festa na cabeça do golfinho, sentiu a sua pele macia. Agradeceu imenso ao treinador e a Ryo. E, como forma de agradecer ao Ryo, convidou-o para almoçar com ela, que ela pagava. O rapaz aceitou, e foram os dois almoçar a um fast-food do aquário, que servia uns hambúrgueres muito bons. Divertiram-se muito. Ao chegar a hora de irem para as aulas, dirigiram-se juntos para a escola, pois era o único dia em que tinham um horário igual: não tinham aulas de manhã e tinham a tarde toda cheia.

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Ao fim da tarde, Sakura tinha levado três recados para o pai assinar, um em cada aula que tivera. Até em Ginástica, a sua disciplina preferida, esteve distraída. Era a única aula que tinha em conjunto com a turma do 11º B, a turma da Erika e do Ryo. Rika e Erika trocaram cotoveladas cúmplices. Já sabiam que a conversa com Ryo tinha corrido bem, mas que a amiga detestava fazer as pessoas sofrer e vê-las tristes, e também sabiam que Sakura estava nervosíssima quanto ao encontro com Shaoran, que decorreria a seguir àquela aula. Mas outra coisa preocupava a mente de Rika…

Sakura chegou ao balneário toda partida. Estivera tão "nas nuvens" que levara com montes de bolas na cabeça e a sua equipa perdera por causa dela, o que era muito incomum. Normalmente, todos queriam a Sakura na sua equipa, pois ela era das melhores jogadoras a tudo. Mas aquele dia era especial. Sakura esperou que todas as colegas, com excepção de Rika, Erika e Chiharu (outra das suas amigas, que também já sabia dos amores e desamores de Sakura), saíssem do balneário e, em seguida, tomou um duche rápido e maquilhou-se, coisa que MUITO raramente fazia.

(Er.) – A Sakura está a dar-lhe com força. – comentou Erika, em voz alta e a rir-se.

(Chiharu) – Ele vai ficar embasbacado a olhar p'ra ti. Estás toda produzida!

(Er.) – Não queres por o meu perfume?! Dizem que os rapazes ficam loucos com ele! – gozou. – Não dizes nada, Rika?

(Rika) – Não faço comentários – Rika era mesmo assim, calma e madura de mais para se pôr com gracinhas parvas.

(Chiharu) – Ó Sakurinha… Tens a certeza que não queres levar-lhe flores?! Flores de cerejeira!

(Sak.) – Param de gozar?! Já estou farta das vossas parvoíces!

(Chi.) (falando para Erika) – A Sakura está mesmo in love ! Há muito tempo que não a via tão nervosa.

(Er.) – Pois. Até se maquilha e tudo. Com esta dedicação toda, ele vai-lhe cair aos pés!

(Sak.) – Já disse para pararem! Senão…

(Er. & Chi.) – Senão o quê?! Vais bater-nos?! – exclamaram, fingindo estar indignadas.

(Sak.) – Claro que não. MAS VOU FAZER-VOS CÓCEGAS! – gritou, atirando-se para cima das duas.

Estavam no chão a rir-se, quando Shaoran abriu a porta do balneário.

(Sha.) – Mas o que está aqui a acontecer?! Ouvem-se os vossos gritos lá fora! Os outros rapazes pensam que vocês encontraram ratos ou assim!

(Sak.) – NUNCA TE ENSINARAM A NÃO ENTRAR NOS BALNEARIOS DAS RAPARIGAS?! – berrou Sakura, sem se aperceber de quem era. Quando viu que era Shaoran, ficou super envergonhada. "Agora é que ele vai ficar com uma linda impressão minha!"

(Er.) – Não há ratos nenhuns! Estávamos só a fazer cócegas umas às outras.

(Sha.) – Hmmm. Está bem. Então vou avisar os rapazes de que não é preciso chamar os bombeiros!

As três raparigas soltaram uma gargalhada.

(Sha.) – Sempre vamos ao parque?

(Sak.) – Sim, se não te importares. Gostava de falar contigo.

(Sha.) – OK. Fico à tua espera no portão. Até já! – exclamou, quando saiu.

Sakura corou e as amigas não perderam a oportunidade.

(Er.) – Até já, Sakura – imitou.

(Chi.) – Sim, meu amor – disse Chiharu, imitando a voz de Sakura.

(Sak.) – Parem lá com isso. Tenho que me despachar!

Erika e Chiharu ajudaram-na a acabar de se maquilhar e puseram-lhe um pouco do perfume de Rika, porque Sakura achou o de Erika muito forte e Chiharu não tinha levado perfume. Sakura vestiu o casaco que Tomoyo lhe fizera, um casaco curto azul-escuro, e preparou-se para sair.

(Sak.) – Desejem-me sorte!

(Rika & Er. & Chi.) – Boa sorte!

(Er.) – E vê lá se não te babas muito!

Sakura deitou-lhes a língua de fora e saiu do balneário. Chiharu também saiu, pois ia para casa com o Takashi Yamazaki, o seu amigo "colorido" (embora ela dissesse que era SÓ um amigo) e não o queria fazer esperar. Após as duas terem saído, Rika virou-se para Erika e, com um olhar sério, começou a questioná-la.

(Rika) – Agora tenho que te perguntar uma coisa.

(Er.) – A mim? – inquiriu, admirada.

(Rika) – Sim. E não quero que me mintas.