Mas não foi tanto faz. A alguns andares e uma incrível quantidade de paredes de distância, Lily encarava os bolos, horrorizada, sem tanto fazer. Tinha a boca entreaberta em choque, incompreensão, frustração e ultraje. James, por sua vez, abriu e fechou a boca algumas vezes, quando encontrava algo pra dizer – mas aí desistia. Mordeu o lábio inferior com uma força latejante, segurando-se para não rir: aquele era um péssimo momento para rir. Mas a vontade era tão grande, tão grande... Não, aquele realmente era um péssimo momento para rir.
"Parece que o aprendiz venceu o mestre," lançou, depois de dominar por completo a arte de segurar a risada. Encarou novamente seu bolo branco de morango, em perfeitas condições. Lindo. Nivelado. Fofo. Grande. Pedindo pra ser mordido... E depois o bolo de Lily, o de chocolate. Parecia ter três dedos de espessura. Todo rachado. Com... relevos. E um afundado bem no meio. Lily ergueu os olhos do seu fracasso, e James percebeu um brilho distinto neles. Estariam marejando? O garoto engoliu em seco, tentando melhorar a situação. "Não ficou tão ruim, Lily... Olha que carinha... simpática. Hummm! Que vontade de comer ele," consertou, sorrindo o menos amarelo possível.
"Potter, essa é a coisa mais feia que eu já vi na minha vida inteira!" Ela não estava triste. Estava lívida. Emputecida. Pra lá de ultrajada. "Esse bolo ingrato resolveu abatumar justo hoje? Bem feito, a gente não vai comer ele também! Vai ficar fadado a apodrecer pro resto da vida. Eu, que fiz ele com todo amor e carinho pra receber isso em retorno? Essa coisa feia? Eu fiz tudo certinho!" bradou, irritada, fitando o bolo inconformada. Gesticulava sem cuidado, fazendo com que James pegasse o bolo em questão e o abrigasse em seu colo, para que o coitado não fosse atirado em uma das paredes.
"Calma, Lily, não ficou tão feio. Beleza não é tudo na vida. Olha, por exemplo... err..." James suspirou, tentando pensar em alguém que coubesse dentro do contexto. "...a McGonagall. Ela não é bonita," concluiu, enquanto Lily deixava-se escorregar até o chão, apoiada de costas para o balcão. Já sentada, a ruiva tirou o avental, jogando-o ao seu lado.
"Você acha a McGonagall gostosa, Potter?"
"Não! Não foi isso que eu quis dizer... uhh... Mas ela é boa. É uma pessoa muito boa, não é? Que nem o seu bolo. Ele não é bonito, mas é bom. E gostoso, diferente da McGonagall. Pra ser sincero, não tem nada a ver com a McGonagall, ela deixou de ser uma pessoa boa. Vou trabalhar nuns exemplos melhores futuramente." Mas nada do que ele falasseparecia mudar o humor de Lily, que passara de raivoso para triste. Ela parecia desolada. "Sério, meu bem, a única coisa é que... ele broxou." James não conseguiu evitar o comentário de escapar pelos seus lábios. Se lembrara da conversa de momentos atrás com Sirius, e ver aquele bolo pequeno e afundado simplesmente caíra perfeitamente na metáfora dos dois. Gargalhou da própria piada interna, enquanto Lily erguia os olhos para encontrar os dele, na menção do 'meu bem'. James Potter havia acabado de chamá-la de meu bem e seu bolo dera bizarramente errado, algo estava muito errado no mundo. Ia responder, mas Potter não parava de rir. Cruzou os braços em frente ao tórax, esperando desgostosa que a graça acabasse. E demorou. Lily só conseguiu falar quando enxergou lágrimas nos olhos dele, que mantinha uma mão na barriga como se essa estivesse doendo. Sentado na frente da garota, com a outra mão segurando o bolo de chocolate fracassado, James respirava fundo, recuperando o fôlego.
"Nem você merece um bolo broxa, Potter, nem você. E olha que você tá na minha lista de TOP1 pessoas que merecem coisas ruins." James riu alto, imaginando o super tamanho da lista infinita que se resumia em uma pessoa.
"Fico comovido pelo seu apreço pela minha pessoa. Ah, deixa eu te falar, Sirius disse que todos estavam nos esperando para começar o debate, e eu falei pra eles começarem sem a gente, tudo bem?" Lily ergueu a sobrancelha, curiosa em saber como é que eles haviam se comunicado nesse meio tempo. Concluiu que, na verdade, preferia nem saber e assentiu indicando que estava ok com aquilo. "Vamos fazer as coberturas e ir pra Sala Precisa, quero comer meu bolo."
"O que você fez, né?" indagou Lily ironicamente, enquanto levantava do chão.
"Não, o meu. O que você fez pra mim, com muito amor e carinho."
Lily riu, pegando uma vasilha pra fazer a cobertura. "Vamos fazer assim, a gente faz um creme de chocolate pra colocar em algumas partes e bota granulado em cima, tá? E no de morango a gente faz tudo lindo, com chantilly desenhado e morangos no topo."
Dito e feito. Lily colocou, com a ajuda de James, um pouco de um creme engraçado que levava leite-condensado no interior do bolo de chocolate. Não encontrou muita dificuldade, uma vez que ele já estava bem despedaçado. Jogou um pouco de granulado em cima e, com a faca, fez um circulo no meio do bolo, retirando a rodela afundada. Quanto ao bolo de morango, Lily se sentiu uma verdadeira confeiteira enquanto o decorava com uma espessa camada de chantilly e alguns morangos no canto para dar o charme final. Satisfeita com o resultado, exclamou:
"Potter, esse é bolo mais lindo que a gente já fez!"
"Como se a gente tivesse feito muitos bolos na vida," brincou James, fazendo com que Lily apontasse para o bolo feio de chocolate. "Err, não, Lily, a gente não fez esse daí, você fez. Eu meramente ajudei na cobertura." Lily ignorou a resposta, enquanto cortava dois pedaços de cada um dos bolos e servia a si mesma e a James Potter. Passou um garfinho pra ele, que acabara de puxar dois banquinhos para os dois se sentarem. James partiu logo para o bolo feio que ganhara de presente, cortando o pedaço em seu prato pela metade e levando-o à boca. Lily permaneceu alguns segundos analisando a imensa quantidade de comida que ele levara à boca, mas a curiosidade de saber o resultado de seu próprio bolo foi grande demais para que ela fizesse algum comentário a respeito. Ao invés disso, levou uma pequena porção do seu pedaço à boca, surpreendendo-se ao concluir que estava incrivelmente gostoso.
"Nossa," murmurou o garoto, comendo a outra metade de seu pedaço em uma só garfada. "Ficou muito bom. Muito feio, mas muito bom. McGonagall." Serviu-se de mais bolo de chocolate, ignorando o pedaço do de morango, encoberto por chantilly.
"Ah, mas você não disse que a McGonagall deixou de ser boa?" indagou a ruiva, cortando com o próprio garfo uma parte do bolo de morango que brilhava em seu prato.
"Disse, mas é só uma raivinha momentânea minha." disse, esperando curiosamente que a menina experimentasse o bolo que havia feito. Lily o fez antes de responder, mastigando várias vezes.
"Obrigada pelo bolo, Potter. Ficou muito bom. Pra um aprendiz eu te digo que me surpreendi."
"Aprendi com a melhor," cumprimentou James, finalmente experimentando o bolo que havia feito. "Nossa. Fala sério, o cara manda muuuito," gabou-se, matando o pedaço que tinha no prato e estendendo a mão para servir-se de mais, tanto do bolo de morango quanto do chocolate. Lily revirou os olhos, resolvendo ignorar demonstrações gratuitas de arrogância. Tinha que admitir: o bolo ficara gostoso mesmo. E bonito, pra completar. Melhor que o dela.
"Não quando o cara fala na terceira pessoa. Por que você tá com raivinha momentânea da McGonagall?" desconversou, antes que tivesse presenciar uma cena onde o ego de James Potter monopolizasse o oxigênio. Continuou comendo o resto dos dois pedaços de bolo em seu prato (a ruiva ainda não comera nem metade), anotando mentalmente que o Maroto comia muito, muito rápido, e em grandes porções. Não que essa fosse o tipo de anotação mental muito útil para referências futuras, não é como se ela tivesse qualquer intenção de disputar quem come mais pudins de carne com ele, mas aquela era uma curiosidade... interessante. Lily balançou a cabeça, querendo se livrar de pensamentos tão sem sentido como aqueles.
"Porque ela e oSlughorn vêm se queixado há anos de que a temporada de Quadribol começa bem na entrega do trabalho interdisciplinar do sétimo-ano sobre a relação entre poções e transfiguração. Eles dizem que é a matéria mais importante do último ano, que o trabalho é a introdução necessária para o aprofundamento e que o Quadribol atrapalha. Então Dumbledore resolveu fazer a experiência de começar a temporada mais cedo, semana que vem. Semana que vem!" Potter enfiou um grande pedaço do bolo de chocolate na boca, mastigando violentamente em sinal de irritação. Parecia descontar sua raiva transformando o bolo já um pouco disforme em pequenas partículas trituradas. "Você acha possível o primeiro jogo depois de três semanas de aula? E é Grifinória contra Sonserina! Emmeline Vance e Edgar Bones se formaram ano passado, perdemos um goleiro e uma artilheira, e McGonagall parece achar que três semanas é o tempo perfeito pra arranjar duas pessoas novas e treinar, sendo que temos que dividir o campo com os idiotas da Sonserina," continuou Potter, parecendo perfeitamente confortável em despejar agressivamente toda sua raiva pra cima de Lily, a qual ouvia com um quê de divertimento (muito bem camuflado em uma expressão de seriedade, é claro). A ruiva nunca entendera a grande fascinação por Quadribol, ou qualquer outro esporte. Eram somente sete idiotas voando atrás de uma bola. Só aprendera a dar mais valor ao jogo à medida que sua antipatia pela Sonserina aumentava, o mesmo motivo que a fazia dar duro para ganhar pontos para sua casa. Mentalizou a imagem do antigo time de Quadribol da Grifinória: James Potter como apanhador, Sirius Black e Gracus Sían como batedores, Emmeline Vance, Mary McDonald e Lui Dorlechini como artilheiros e Edgar Bones como goleiro. Era, provavelmente, o melhor time da Grifinória desde que entrara em Hogwarts, e o melhor time da escola. Haviam ganhado não só a taça, como todos os jogos.
"Mas vocês conseguiram um artilheiro e um goleiro?" Pegou mais um pedaço fino do bolo de morango, enquanto Potter devorava seu terceiro de chocolate, que ela fizera para ele.
"Conseguimos, mas é temporário. Espero sinceramente encontrar um goleiro melhor mais pra frente. Caradoc Dearborn substituiu o Edgar, mas ele é péssimo. Por outro lado, a Mary e o Lui se deram muito bem com a Leslie, ela é realmente muito boa. Mas não tem o mínimo interesse em ficar no time," acrescentou Potter, balançando a cabeça negativamente, em resignação. Descansou o prato no balcão, dando um tempo para seu estômago. Ainda se pudesse contar com Sirius e Gracus, incumbidos de nocautear o maior número de Sonserinos possíveis, nem tudo estaria perdido... Mas não era bem esse o caso. "E não é como se nós esperássemos cooperação completa do Sirius como batedor. Ao invés de estraçalhar o apanhador – que é o que precisávamos – ele se mantém ocupado demais estraçalhando Gracus quando o garoto representa a função deles." Lily não sabia qual das duas informações a surpreendera mais, decidindo optar pela primeira:
"Leslie Wallace?" Perguntou a ruiva, ainda que obviamente soubesse a resposta. Não conhecia nenhuma outra Leslie grifinória.
"É. Ela só vai jogar sexta que vem porque Sirius insistiu muito."
"Por que ela não quer ficar no time, se é boa?" Lily recebeu um sorriso enviesado de resposta. Potter demorou um tempo para elaborar uma frase para falar, provavelmente analisando o que poderia ser dito a seu favor.
"Você já viu, alguma vez, um treino de Quadribol?" indagou calmamente. Lily negou com um aceno de cabeça, não entendendo onde ele queria chegar. "Eu e Sirius não somos as pessoas mais simpáticas do mundo mágico num treino. Leslie não gosta disso, não tá acostumada a ser tratada com algo que não seja carinho da nossa parte. E não é como se ela funcionasse à base de ordens, chega a ser irritante." Lily mordeu o lábio inferior para não rir. Deveria ser hilário ver Leslie Wallace desacatando as ordens de Potter, por mais que não fosse muito fã da menina. Era ainda menos fã de Potter – por isso valia a pena.
"Mas Sirius não tem nada a ver com isso, ele fica irritado com ela?"
"Sirius tem tudo a ver, tem uma certa hierarquia no time: os jogadores, e o capitão. Ou seja, os cinco, e eu e o Sirius."
"Mas só tem um capitão por time, Potter." Lily arqueou a sobrancelha, estranhando. Até ela, que não era chegada ao esporte, sabia das regras básicas. Será possível que Sirius Black era enxerido a ponto de sair brigando com Leslie Wallace?
"Não no nosso. Por mais que eu seja o capitão oficial, é como se dividisse o cargo com Sirius. Somos uma dupla, Lily. Eu sei que isso parece bizarro, mas nós pensamos igual, temos as mesmas técnicas, damos as mesmas ordens. A única diferença é que eu sou mais paciente. Enfim, Leslie tem uma mira muito boa e voa incrivelmente bem, mas não é especialmente habilidosa em marcar alguém. Sirius ficou louco quando ela disse que arrancar a goles de alguém à força era falta de educação." Lily começou a rir, imaginando a cena. Podia visualizar perfeitamente um Sirius Black vermelho mandando uma Leslie Wallace recusante marcar os sonserinos. "Não é por mal, ela simplesmente não tem a agressividade necessária pra isso. Por mais que seja um jogo lindo, Quadribol é meio bruto. Então Leslie nos disse que, para o bem do nosso relacionamento, ela só vai pro campo num uniforme nesse primeiro jogo," concluiu, resumindo sua pequena explicação sobre a brutalidade do jogo: não queria soar como um babaca apaixonado pelo esporte (...ainda que fosse um, de carteirinha!).
"E por que Sirius não honra seu papel de batedor em jogos contra a Sonserina?" indagou Lily, subitamente lembrando-se do comentário que o moreno fizera pouco antes. Potter pegou mais um pedaço do bolo de chocolate, fazendo com que ela se perguntasse como cabia tanto doce dentro daquele corpo. Ainda assim, estava contente por ver seu bolo fracassado ser vítima de tamanho desejo.
"O problema mesmo é o apanhador da Sonserina, Regulus." Lily sentiu um calafrio esquisito à menção do nome do Black-caçula, engasgando pateticamente em surpresa. Potter arqueou a sobrancelha intrigado, assistindo-a tossir freneticamente em vão, já que não havia nada preso em sua garganta que deveria sair de lá. Sem entender como um ser humano poderia engasgar com a própria saliva, James serviu um copo de suco de limão, estendendo-o para Lily. "Não sei se você sabe, ele é irmão do Sirius," continuou, decidindo pela abordagem mais prática que conseguiu pensar: fingir que aquilo não havia acontecido. Lily, inspirada pelo maroto, pareceu esquecer imediatamente que acabara de engasgar e botou uma expressão desentendida para ilustrar sua reação ao que ele falava. "Pois é, eles são irmãos sim. Sirius não deixa ninguém tacar balaços, ou goles, ou cuspe, ou qualquer coisa no irmão dele." Lily se surpreendeu pela própria vontade de rir do que ele dissera. Em situações normais a imagem de Potter cuspindo em qualquer ser humano seria um tanto quanto revoltante, mas lá se encontrava ela: segurando a risada. Entretanto, a surpresa foi embora bem rápido, dando espaço para a lembrança de quais seriam as vítimas do cuspe do maroto: sonserinos comensais. Ainda se fossem só sonserinos a idéia não seria muito concebível, mas sonserinos comensais, como Mulciber, Nott, Avery... e Snape e Regulus Black? Concebível, aprovado e encorajado. Lily se perguntou de onde aquele ódio todo viera, concluindo que era algo que há muito tempo tentava ignorar e fora escancarado com a chegada da guerra.
"Eles se dão bem?" perguntou a menina, querendo tirar sua cabeça da história do cuspe. Observou, pela primeira vez, a expressão de James Potter oscilar, a certeza se esvaindo a cada piscada. Hesitante, o maroto parecia realmente desconfortável em continuar a conversa. Lily estava prestes a desviar o assunto, quando ele voltou a se pronunciar.
"Não. Mas ninguém pode tocá-lo, o que é realmente ruim, tendo em vista que ele é um apanhador realmente bom." Não melhor que eu, acrescentou James mentalmente, ciente de que aquele não era um bom comentário para lançar. Nenhum outro apanhador era tão bom quanto ele. "Não é questão de se dar bem, ou se dar mal... eles simplesmente não se dão." Lily ergueu a sobrancelha, confusa. Na sua terra 'não se dar' e 'se dar mal' eram sinônimos. "Eles não se falam desde que Sirius mudou para minha casa. Não se olham quando cruzam o mesmo corredor, fingem que não sabem da existência um do outro. Sirius não fala do Regulus, e eu acredito que a recíproca seja verdadeira."
"Significa que ele se importa, então. O Black, eu quero dizer. Err, o Sirius..." corrigiu Lily, ao notar que estava se tratando de dois membros da família Black, e que deveria especificar. Era engraçado se referir à Black como... Sirius. "Se ele não deixa ninguém machucar o Regulus é porque ainda se importa." Potter se mexeu desconfortavelmente no banquinho, coçando o queixo como quem não sabe o que dizer. E lá vinha outra rodada de situação atípica.
"Acho que ele se sente culpado," disse James, praticamente jogando a frase no ar, encarando o momento seguinte como uma ótima oportunidade para ficar calado. Se quisesse que Lily entendesse, teria que explicar desde o começo. "Regulus é um Black. Não um Black como Sirius, um Black como... os Black." Procurou compreensão no rosto da ruiva, voltando a falar somente quando encontrou. "Ele tem os mesmos valores que a família dele tem. Talvez um pouco menos, talvez Sirius o tenha influenciado um pouco, não sei..."
Lily se perguntou se Potter sabia que o irmão caçula do melhor amigo tinha se juntado ao bando de Voldemort, começando a perceber que não.
"Mas Sirius não. Ele nunca se encontrou dentro daquela loucura, sabe? E quando ele veio pra Hogwarts tudo mudou. Ele caiu na Grifinória, conheceu pessoas ótimas, me conheceu... Sirius acha que se tivesse caído em outro vagão no trem, com outras pessoas, talvez agora estivesse na Sonserina. Mas eu fui o empurrãozinho final, eu fiz com que ele quisesse, de certa forma, ir pra Grifinória. E ele restabeleceu todos os conceitos dele. Quando voltou pra casa, era uma pessoa completamente diferente", continuou James.
Lily tomou um gole do seu suco de limão, notando que falara mais sobre Black nessas últimas semanas do que em sua vida inteira. Queria poder contar pra Marlene, mas uma parte sua sabia que Liserre e Potter estavam confidenciando coisas que deveriam morrer ali.
"Eu nunca achei que fosse dizer isso, Potter... mas fico feliz por Black ter te conhecido. Ainda que a memória daquele vagão no expresso de Hogwarts não esteja na minha bagagem de lembranças preferidas, sabe-se lá o que teria acontecido se não fosse você, e sim Mulciber, quem tivesse trocado meia-dúzia de piadinhas com Black. Já é insuportável demais ter que viver com Sirius Black causando no lado bom da força, imagina se fosse ele causando no lado negro dela?" E enquanto James Potter ria do que ela havia dito, Lily teve um insight: entendeu, ao som daquela gargalhada aberta, o que a estava inquietando já há algum tempo. Agora ela se julgava do mesmo lado de Sirius Black e James Potter. Esses, donos de suas duas únicas potenciais inimizades desde o primeiro ano de Hogwarts, eram agora farinha do mesmo saco que ela". Algo grande demais havia surgido, e esse algo era grande o suficiente para esmagar os seis anos de antipatia que Lily nutrira pelos dois. Algo grande o bastante para fazer com que se unissem, ainda que não de forma convencional (leia-se: independente da vontade que a garota reprimia, muitas vezes, de amaldiçoá-los).
"Regulus veio pra Hogwarts no ano seguinte e foi direto para a Sonserina. Isso fez com que os dois perdessem muito o contato, sem contar que Sirius tava naquela fase de expor para o mundo o quanto ele era diferente do resto da família. Mas eles se falavam. Se provocavam, brigavam o tempo todo. Nas férias era a mesma coisa, implicavam um com o outro, mas não é como se não jogassem Quadribol ou disputassem uma partida de xadrez. Entende? Sirius sempre esteve presente, ainda que sua presença fosse uma dezena de resmungos e ofensas. Até que ele resolveu fugir de casa. Acho que demorou tanto porque, no fundo, ele ainda tinha esperança de converter Regulus pro lado brilhante da força." Potter riu, suavizando um pouco a expressão. "Mas chegou num ponto onde ele não conseguia mais ficar lá, então fugiu. E os dois nunca mais se falaram. Acho que ele se culpa, até hoje, por ter ido embora. Regulus já era grandinho demais, já tava feito, com ou sem o Sirius lá, não ia mudar nada. Não tinha nada que ele pudesse fazer, mas Sirius se culpa, acha que abandonou o Regulus."
Lily mordeu o lábio, impedindo-se de berrar em plenos pulmões que o caçula dos Black não era digno da menor culpa, nem da culpa de Sirius Black (que até então, para Lily, dividia o pódio de pessoa mais insuportável com Potter). Picuinhas a parte, a ruiva se sentia mal pelo maroto. Queria berrar o que tava entalado em sua garganta, queria dizer com todas as letras para que ele não se sentisse culpado por abandonar um irmão ridículo que se aliara aVoldemort. Lily queria dizer para Sirius que Regulus era um infeliz por não ter puxado ao irmão – e aquele era o melhor elogio que já fizera a Sirius Black, até em pensamento.
"Um dia Sirius vai ver que ele não podia ter feito nada," disse Lily, desgostosa por não ter encontrado nada melhor para falar. Resolveu encerrar o assunto, a raiva a consumindo por dentro. "Bom, vamos pro debate? Acho que a gente pega uma boa parte, se formos agora," sugeriu, levantando-se do banquinho enquanto passava, discretamente, o indicador pela lateral do bolo de morango, enchendo o dedo de chantilly. Levou o dedo à boca, confiante que o marotonem havia percebido.
"Eu vi," flagrou James, petulante. "Ok, vamos. Mas onde vamos esconder os bolos?" Ele considerou momentaneamente deixar na cozinha, mas parecia mancada deixar dois bolos tão gostosos no ambiente de trabalho de dezenas de elfos-domésticos sem nem oferecer um pedaço a eles.
"E daí que você viu? O bolo é meu!" Lily exclamou, agora confiante de que não estava fazendo nada errado. Passou o dedo na lateral do bolo de novo, comendo uma grande quantidade de chantilly. "E como assim onde vamos esconder? Olha o tamanho deles, Potter. Você não espera realmente comê-los inteirinhos, né?" indagou, enquanto James levava o dedinho inocente e sedento por chantilly até o bolo de morango, recebendo um tapa nas costas da mão. "É meu, nem vem."
"Eu que fiz," insistiu ele, ignorando o tapa e desenhando um J bem em cima do bolo. Chupou o dedo em seguida, recebendo um olhar horrorizado por ter destruído justo a parte de cima, e não a lateral. "E sim, eu tinha a esperança de não ter que pôr na roda. Sirius vai cair em cima deles como um leão faminto. E Dorcas e Peter... ah, Peter... Olha, ainda dá tempo pra você reconsiderar," continuou, ocupado em começar a desenhar um A na frente do J. Lily puxou o bolo para si, escrevendo seu nome embaixo do JA incompleto, lambendo o dedo em seguida. Bem que seria uma boa idéia socializar aquele bolo e dar para a infeliz da Dorcas Meadowes a parte de cima, cheia de saliva concentrada.
"Não, Potter, nós vamos pôr na roda sim. Seria muito egoísmo da nossa parte não compartilhar um bolo tão gostoso, feito por você ainda por cima," disse, maliciosamente. Sentiu-se ridícula, por um momento, por estar sentindo um prazer tão imenso só em imaginar Dorcas comendo sua saliva, mas espantou os pensamentos de que aquilo era criancice ao mentalizar as cenas nojentas que envolviam a saliva da menina e de Remus Lupin. Sendo trocadas.
"Vamos deixar uma parte para os elfos," James falou, fazendo com que Lily se despertasse de seus pensamentos maldosos e erguesse o olhar paraencontrar o garoto cortando pedaços dos dois bolos. Desviou o olhar rapidamente, refletindo sobre a surpresa de descobrir que James Potter sinceramente considerava elfos-domésticos. Observou Potter cortar um pedaço generoso do bolo de morango, se certificando de deixar a parte cujos JA e LILY estavam escritos intacta. Desenhou as últimas três letras de seu nome e acrescentou um &, transformando os rabiscos em 'James & Lily' no final das contas. Chupou o dedo de chantilly, sujando os cantos da boca e até o nariz. Lily se controlou para não rir, feliz por ele não estar ciente da condição lambuzada em que se encontrava. Seria muito engraçado perambular pra cima e pra baixo com um maroto cheio de chantilly no rosto.
Lily perdeu, de fato, a conta de quantas pessoas olharam curiosamente para Potter enquanto os dois subiam para o sétimo andar. O garoto, entretanto, parecia nem sequer ter notado. A grande verdade é que James estava ocupado demais em dedicar cem por cento de sua atenção à Lily para perceber qualquer olhar de outra pessoa que não ela. Na visão da garota, entretanto, ele não ligava para os olhares porque era metido o suficiente para achar que era natural tanta atenção. Cruzaram o corredor do sétimo andar em um silêncio confortável, ambos carregando seus respectivos bolos nas mãos.
"Soco Amaretto Lime," murmurou James, fazendo com que a Sala Precisa se abrisse para os dois.
Uma rajada de tensão os atingiu no instante em que a Sala se abriu, revelando vozes ensandecidas que pareciam disputar entre si pra ver qual conseguia superar a outra no quesito volume. Lily e James avistaram focos de conversas paralelas, ou melhor, de brigas paralelas, já que aquela zona parecia tudo,menos um debate civilizado. No meio de toda a gritaria, os colegas nem perceberam a presença dos dois recém chegados. Liserre estava parada, em pé, balançando a cabeça negativamente de modo frenético, os olhos marejando. Marlene praticamente grasnava pra cima de Alice, gesticulando enquanto defendia seu ponto: "O que essa pirralha tá dizendo?! Não faz o mínimo sentido! Ela mesma se contradisse!". Do lado delas Leslie Wallace e Sirius Black discutiam, e a menina parecia verdadeiramente ofendida. Lily estava começando a entender a discussão, mas sua atenção foi desviada por uma voz ainda mais alta: Gracus Sían berrava, em plenos pulmões, para uma pequena platéia. Dorcas, Remus, Darius e Frank o ouviam. Peter Pettigrew era o único alheio à confusão, encolhido num canto da Sala, perto de James e Lily.
"Rabicho, o que tá acontecendo?" perguntou James, entre os berros.
"Nunca vi maior concentração de raiva! Tá todo mundo tenso esperando a primeira oportunidade pra explodir com o outro. Leslie deu sua opinião, Dorcas fez um comentário sarcástico sobre os Estados Unidos, que deixou a Liserre numa espécie de transe, e virou esse caos! Nunca vi um debate tão fracassado," miou o gordinho, na dúvida entre qual discurso voltava sua atenção para. O tom grave de Gracus Sían, entretanto, ganhou da defensiva calma e confiante de Leslie Wallace.
"...juro que eu não entendo como eles podem se considerar bruxos. Praticamente cospem em cima das nossas leis, costumes e tradições! Desvirtuaram todos os nossos valores e princípios, acham bonito pagarem de modernos e de libertadores, como se estabelecer cotas pra nascidos-trouxas fosse algo muito digno," continuou Gracus Sían, esbravejando. Gesticulava violentamente, e Lily se afastou um pouco para não ser atingida por saliva – o gêmeo praticamente cuspia as palavras, ilustrando sua fala. "Todos sabem que a Magia surgiu com Merlin na Grã-Bretanha, e dela surgiram as treze famílias, que simbolizam o começo da nossa espécie. Até que uma dessas famílias, os Castus, se rebela contra o Conselho e resolve migrar para outro continente, espalhando nossa existência em outros lugares. Isso é errado, é simplesmente errado! América, um continente novo e desesperado, cheio de selvagens. Se parasse aí, eu não ia nem discutir, não é como se algum bruxo que se preze realmente queira conviver com algum Castus traidor ou algum de seus agregados, mas não, eles não ficaram satisfeitos em se isolar. Quatro séculos depois e eles resolvem integrar os Estados Unidos ao Conselho, como se alguém quisesse saber deles. Sabe, já fez a cagada, assuma ela! Quis se retirar do mundo mágico, então vá com Merlin, pra bem longe da gente. Depois não vem tentar incluir esse seu mundinho novo e torto pra dentro de uma civilização milenar. Eles são a escória, a escória."
Lily arqueou a sobrancelha, um pouco surpresa pela hostilidade do garoto. Sabia, desde sempre, que havia uma rixa muito grande entre os bruxos europeus e os bruxos americanos, mas não imaginava que fosse algo tão intenso assim. Aprendera nesses mais de seis anos convivendo com bruxos europeus que, se tinha algo que eles realmente prezavam era a tradição, ainda que isso implicasse em uma vida totalmente alheia à tecnologia.
"Que mal lhe pergunte, mas por que você tem tanto ódio de uma família tão antiga?" perguntou Remus secamente, fazendo com que Lily se identificasse com o desprezo dele. Aquilo já era um exagero estrondoso. Lembrava vagamente da história da família Castus, que causara uma ruptura imensa no mundo da magia há quase meio milênio, mas não entendia a razão própria para nutrirem tanta raiva contra eles, que foram somente inocentes em achar que seus ideais algum dia dariam certo.
"Eu não tenho ódio deles, Lupin. Só acho ridículo o Conselho ter permitido a reintegração deles na sociedade depois de tudo o que fizeram," respondeu Gracus, na esperança de retomar seu discurso sobre os contras dos estadunidenses. Entretanto a discussão chamara a atenção de Leslie Wallace, que largara Sirius Black falando sozinho para dar seu parecer:
"É uma idéia linda a de liberdade, mas é uma completa utopia. Achar que bruxos e trouxas poderiam conviver pacificamente, completamente cientes da existência de magia, é algo que está pra lá da inocência. Os Castus condenaram muitos bruxos inocentes à morte quando resolveram revelar ao mundo a nossa existência. Sem mencionar que fragmentaram a própria sociedade mágica, quando começaram a reunir adeptos aos seus ideais. Graças às ações deles todos os bruxos tiveram que fugir da inquisição por mais de três séculos. Mas essa é outra discussão, que a gente deveria deixar pra outro dia," acrescentou, ao notar que Sirius Black ia ficando cada vez mais vermelho, por ter sido deixado no vácuo. Lily notou o sotaque escocês infinitamente mais carregado, talvez pela rapidez com a qual proferia tais palavras. Rapidez que, além dos gestos frenéticos, faziam o topete de Leslie Wallace balançar. Lily se perguntou o quanto ela havia se mexido naquele debate, para que seu habitual topete, formado pela parte da frente do cabelo que ela jogava pra trás (com exceção da franja comprida), estivesse prestes a ceder. Era sempre tão estável. Leslie, que já tinha dado o assunto por acabado, voltou a discutir com Siriussobre a sua liberdade de expressão, ignorando completamente a própria interrupção que fizera na conversa alheia.
"Sim, não era nem esse o meu ponto. O que os Castus fizeram, mais cedo ou mais tarde algum outro ia fazer e se ferrar tentando. O meu ponto é: todos concordaram que a melhor forma de se resolver isso era com a saída permanente deles do nosso mundo. Não era pra eles procriarem feito formigas, fundarem escolas e leis e uma nova sociedade, muito menos se arrependerem depois e quererem oficializar essa sociedade. Estados Unidos da América. Huh. Ridículo."
A atenção de Lily – a qual há algum tempo já parara de achar a discussão em questão tragável – foi atraída para o debate entre Leslie Wallace e Sirius Black, mas mal ouviu duas palavras quando a voz de Gracus voltou a bradar, o que a trouxe de volta para a platéia dele: "É uma coisa que ninguém entende o que eles estão fazendo no nosso mundo. Tudo lá é torto! Não faz o mínimo sentido. Eles trabalham sob a legislação constitucional, mas cada estado tem suas próprias leis. Qual é a dessa Constituição porca, se os estados têm autonomia para legislar e liberar a pena de morte? Um absurdo o poder não ser centralizado, deve ser um caos." Ela finalmente entendeu de onde surgira uma discussão tão abrangente sobre os Estados Unidos. Aquilo era interessante. Sabia um pouco sobre a geopolítica daquele país, mas somente sobre a parte trouxa dela.
"As revoltas nativistas demoraram meio século pra serem inspiradas pelo Iluminismo, e, ah... tudo lá é atrasado," acrescentou Gracus, o que, na opinião de Lily, fora praticamente um contrato de monopólio do debate. Ele não calava a boca, hein? "Eu entendo que tudo isso da Constituição começou com a competência territorial. Depois do Império Romano, o mundo se fechou em feudos com medo dos bárbaros invadirem, e praesses feudosse relacionarem foram criadas moedas e leis que seriam o topo da pirâmide, leis que todos os feudos deveriam seguir, ainda que cada um tivesse sua parcela de regras internas. Ainda assim, quando isso terminou, o parlamentarismo foi o que se instalou nas civilizações mais avançadas. Aí vêm os Castus e se inspiram em algo que deu errado, de novo? Pode até estar dando certo pra eles atualmente, porque o povinho Zé-Ninguém que compõe a sociedade mágica dos Estados Unidos se acha muito libertário e estão dispostos a fazer dar certo... mas até quando? Estão fadados ao fracasso. Isso que dá cuspir nas origens. Presidencialismo, que piada."E Lily não sabia mais pra onde olhar. Marlene agora se juntara a Sirius pra brigar com Leslie Wallace, Remus aparentemente achara a opinião de Gracus de um extremo preconceito e estava muito disposto a defender os pobres coitados dos americanos. Lily ouviu Potter bufar ao seu lado, apontando a varinha para o pequeno pufe preto (o que ficava rodeado pelos outros pufes e sofás, mas que, naquela altura do campeonato não abrigava nenhum pé – sua real função). O objeto começou a pegar fogo, atraindo a atenção de todos os presentes.
"Ca-ham," pigarreou Potter, enquanto se livrava do fogo alto que ele próprio havia criado – e, diga-se de passagem, que havia superado as expectativas. Crepitava em tons avermelhados. Lily observou a cena incrédula, pensando que pigarrear com um feitiço sonoro teria sido bom o bastante, mas não, James Potter gostava de causar impacto. A garota balançou a cabeça negativamente, decidindo que o drama de Potter os custara muito: o pufe preto. A Sala Precisa se encarregara de tirá-lo de circulação, deixando um grande vão no meio da roda. "Por um momento eu me perguntei como é que tinha parado num lugar cheio de hipogrifos com dor de dente, até me tocar que, ah, não, esses são os meus amigos mesmo," disse o maroto de óculos, dando passos largos até o ambiente dos pufes. Uma pequena mesa de madeira com pés torneados se materializou no lugar onde costumava ficar o pequeno pufe preto, mesa essa que James usou de apoio para o bolo de morango cujos nomes JAMES & LILY ilustravam. O garoto encostou-se em uma parede, certificando-se que tinha uma visão periférica para dar seqüência ao seu sermão. "O que é isso? Quando nós surgimos com os debates, a idéia era nos unirmos pra melhorar, pra discutir um fato de todos os ângulos possíveis e tentar tirar proveito disso, e não tentar se matar. Você tá estressadinho? Vai voar, vai chutar sonserinos, vai comer, sei lá! Se tranca no dormitório e não sai mais de lá. Mas arrancar a cabeça do coleguinha de debate não é uma opção. Marlene, Sirius, se vocês não têmo preparo emocional pra aceitar que existem pessoas cujas opiniões diferem da de vocês, não se incomodem em subir até o sétimo andar na próxima sexta. A proposta do debate é bem simples de se entender: pessoas debatendo. Sem opiniões contrárias não há debate. Dorcas, eu mais do que qualquer um aqui prezo a sua espirituosidade, mas salve um pouco dela para quando as pessoas estiverem mais bêbadas, fazendo o favor. Ainda que você não faça por mal, tem gente que se ofende com seus comentários, especialmente se essas pessoas estiverem sóbrias. Gracus, a parcela de Americanos nessa escola é tão pequena que não chega nem a um por cento, o que faz com que eu me pergunte what the hell você tá fazendo falando mal deles, sendo que nem convive com algum. Eu tenho certeza que as suas críticas seriam muito bem recebidas pelo Ministro da Magia, então qualquer reclamação, mande uma coruja pra ele."
Lily prendeu a respiração, apreensiva. Ouch. Que direto. A ruiva dirigiu-se até a mesa, colocando o bolo frustrado nesta, feliz por todos estarem se recuperando da bronca pra darem a devida atenção ao bolo feio e fracassado. Sentou-se no sofá azul, notando que todos assumiam seus lugares de costume no círculo, quietos. Só Marlene parecia ter se ofendido com o sermão. Trocou um olhar de 'Quem morreu e deixou a liderança para James Potter?' com Lily, controlando-se para não fazer bico enquanto sentava ao lado da melhor amiga.
"Discussões, reclamações, comentários maldosos e desentendimentos são bem vindos, desde que civilizados. Eu sei que tá todo mundo com os nervos à flor da pele, eu sei que os Tousaint não estão mais entre nós, eu sei que a McGongall diminuiu potencialmente nossas chances de ganhar o jogo contra a Sonserina, eu sei que os N.I.E.M.'s e N.O.M.'s são mais assustadores do que parecem quando chegam, eu sei que todo mundo precisa extravasar. Mas maneirem, a gente arranja outro jeito de extravasar. Ninguém tá aqui pra brigar," finalizou James.
"Sabe, Pontas... depois desse desfecho, eu cheguei à conclusão de que as pessoas até te levariam a sério, se você não estivesse com o rosto coberto de chantilly," brincou Sirius Black, que voltava da mesa de comida com uma faca em mãos e se dirigia à mesinha de centro para pegar uma porção generosa do bolo de morango com a mão. Todos pareceram rir do comentário dele (até a vítima James Potter, o que fez Lily e Marlene se entreolharem confusas. Oi? Ele não havia acabado de dar o maior sermão da história?) "Olha, JAME, comi seu S, de Sirius Black," murmurou, enquanto engolia um grande pedaço do bolo, onde o final do nome de Potter antes estivera escrito. Lily trocou outro olhar com Marlene, concluindo que aquele era outro comportamento maroto esquisito do qual elas não faziam parte, o de não brigar, ainda que seu melhor amigo tivesse te dado uma surra verbal. Marlene se esforçou para não guardar ressentimentos pela bronca, mas a verdade é que ela estava certa e nada do que James Potter lhe dissesse mudaria este fato. "E agora eu vou comer seu J. Ame. Ohn, que meigo. Aliás, o que é aquilo ali? Comida que o Kreacher me mandou?" provocou, no deleite da certeza que aquele troço feio que identificara como um bolo era o bolo frustrado que James havia tentado fazer. O de morango era, com certeza, o de Evans, já que estava bom e bonito. James engasgou numa risada, contentando-se em desviar o olhar para não responder.
Lily, embora não soubesse exatamente o que Black quisera dizer, não era inocente o bastante pra achar que aquilo fora um cumprimento ao seu bolo fracassado. Vendo que Potter, em uma demonstração irritante de sua nobreza Grifinória, não iria denunciá-la como progenitora de uma comida tão esmilinguida, resolveu se pronunciar. Estufou o peito, enchendo-se de um orgulho fajuto:
"Aquilo, Black, é o meu bolo."
"...um bolo que o James fez pra você?"
"Não, um que eu fiz pra ele," disse, bufando. Não sabia o que lhe incomodava mais: admitir em voz alta que tinha feito aquele bolo feio, ou admitir em voz alta que tinha feito aquele bolo feio para James Potter. Sentiu Liserre erguer o olhar para encontrar o dela, sorrindo brevemente. Lily afundou mais e mais no sofá, começando a imaginar o quanto seria legal se um buraco negro de repente a sugasse de lá e a privasse de tamanha vergonha.
"Você por acaso se irritou com algo que ele fez e resolveu descontar no coitado do bolo?" perguntou Sirius Black, ainda tentando encontrar a lógica por trás daquilo. Era razoável sua explicação. Evans e James saíram para cozinhar (...hahahaha!). Evans e James fizeram bolos. James irritou Evans. Evans tacou o bolo na parede, durante um acesso de raiva – parecia justo. Evans se arrependeu e resolveu dar um Reparo no bolo. E ele ficou assim.
"Almofadinhas, pára de comer o bolo de morango que eu fiz. Você já comeu o J, o M e o S. Sobrou um AE." Reclamou Potter, lançando um olhar magoado para Lily. Ele disse que os dois deveriam ter escondido o bolo!
"Perdeu, playboy. Relaxa, ainda tem a Lily inteira aqui," murmurou o amigo, arrancando risadas dos outros. Mas Sirius Black não estava mais dedicando sua atenção ao bolo de morango: fitava a gororoba disforme de chocolate com uma ruga na testa, cheio de curiosidade. Cortou um pedaço daquilo, com a faca cheia de chantilly, enquanto Dorcas Meadowes voltava da mesa de comida no outro canto da sala com outra faca em mãos, rumo ao bolo de morango. James abriu a boca para contestar, mas foi interrompido antes que pudesse de fato fazê-lo:
"Nem vem, James. Quem mandou pôr na roda?" disse Dorcas, cortando um pedaço pra ela e um para Remus. À medida que as pessoas continuavam se servindo, Lily recebia mais olhares de frustração de Potter. Black agora levantava o polegar na direção dela, indicando que o bolo gongado tinha seu apoio.
"Bom, podemos voltar ao debate, ou tá todo mundo ocupado demais se empanturrando com os meus bolos?" sugeriu James, magoado. Recebeu vários acenos afirmativos, ainda que o restante se servisse dos bolos (a maioria ignorando solenemente a gororoba disforme que Lily fizera). "Leslie, já que você tá com a mão na massa, pode começar uma nova rodada resumindo o que aconteceu e nos deleitando com sua opinião?"o garoto intimou, potencialmente mais aborrecido por Leslie Wallace ter se servido justamente do bolo de chocolate – ela parecia ser a única disposta a se aventurar a comê-lo. Lily ouviu Marlene soltar um muxoxo de irritação ao seu lado, embora não tivesse feito a mínima questão de escondê-lo dos demais.
"Você que manda," cortejou Leslie, fazendo uma reverência exagerada. Deu uma garfada no bolo e sentou na ponta do sofá branco, ao lado de Dorcas e de Sirius, o qual estava no seu habitual pufe laranja. "O tema que a Liserre propôs foi sobre a máxima pena que um bruxo pode receber, que é o beijo do dementador ou a prisão perpétua, depende do país. Também sobre a hipótese da pena de morte. Bom, todo mundo focou nessa parte e esqueceu sobre os dementadores, a discussão geral foi se somos ou não à favor da pena de morte ser implantada. Frank, Sirius, Marlene, Alice e Liserre concordam, eu, Gracus, Darius, Peter, Dorcas e Remus somos contra. Frank acha que 'Olho por olho, dente por dente', Sirius é a favor da retaliação de qualquer um que tossir pra fora da lei (tirando ele próprio), Alice e Liserre acham que a pessoa deve ter o que ela merece, assim como Marlene, que acha que se você mata alguém, deve morrer por isso."
Lily sentiu um pequeno desprezo na voz de Leslie Wallace ao representar o ponto de Marlene, sem mencionar a provocação ousada em relação a Sirius Black. Sentiu um arrepio percorrer a espinha só de imaginar a resposta dos dois: conhecendo-os como conhecia, sabia que não deixariam barato.
"Darius defende a possibilidade das pessoas se arrependerem do que fizeram e não merecerem morrer por um erro. Peter acha a pena de morte algo muito extremo, Remus concorda com ele e acredita que existem outras formas de lidar com essa situação. Dorcas e Gracus radicalizaram e admitiram que só são contra a pena de morte porque acham que passar o resto da vida na prisão tendo sua felicidade sugada é bem pior do que morrer, castigo que eles julgam apropriado para Comensais da Morte. Ah, vale lembrar que Sirius ficou na dúvida: concordar com Dorcas e Gracus ou ser a favor da pena de morte, mas acabou se decidindo pela segunda opção, desde que a morte em questão seja lenta e dolorosa," continuou, proferindo a última frase com um quê dramático e acusatório, como se estivesse realmente sentida pela opinião de Sirius Black, o qualapenas lhe lançava olhares descrentes como resposta, os braços cruzados em frente ao tórax em sinal de poucos amigos. "Eu, entretanto, concordo com Darius e defendo a capacidade das pessoas de se arrependerem-"
"Oh, sim, então se Você-Sabe-Quem tiver subitamente uma descarga de consciência e se arrepender de tudo o que fez, a sua solução é tacá-lo numa prisão e esquecer todas as vidas que ele tirou?" ironizou Marlene, deixando a boa educação de lado e interrompendo Wallace. Sirius elevou a mão no ar, num sinal de aprovação infantil. Lene contribuiu com seu high-five, o semblante provocativo. Lily observou James Potter revirar os olhos, provavelmente contando até dez para não expulsar seu melhor amigo e a melhor amiga de Lily do debate.
"Esquecer? Com a quantidade de crimes que Voldemort cometeu, se fosse mandado para Azkaban, veria o nascer do Sol por entre grades pelo resto da vida, você chama isso de esquecer?" Pronto. Leslie Wallace estava ultrajada. Ignorou solenemente o raio de tensão que atingiu a sala ao pronunciar o nome que não deveria ser nomeado e desatou a rebater com tudo o que pensava, a rapidez das palavras acompanhando seu raciocínio, o sotaque escocês se acentuando a cada vírgula. "Caso você não saiba qual é o intuito da prisão, Marlene, eu te explico: é castigar quem descumpriu a lei. Castigar. E qual é o intuito do castigo? Punir uma pessoa para que ela aprenda com seus erros, se conscientize e possa voltar a freqüentar a sociedade. Prisão não serve pra tacar transgressores e deixá-los mofando lá, prisão é uma segunda chance-" Mas, pela segunda vez, Leslie Wallace não conseguiu terminar de falar: Marlene se enfurecera novamente.
"Você tá se ouvindo, Wallace? Você consegue ouvir o que você mesma tá dizendo, o absurdo que você tem coragem de dizer achando que tá certa? Você realmente, realmenteacredita que Você-Sabe-Quem pode cumprir uns meses em Azkaban e voltar para a sociedade, livre, leve e solto?!"
Lily – que não ousara se meter – tinha uma breve noção do que estava acontecendo ali. Por mais que concordasse em parte com Wallace e em parte com Marlene, sabia que a amiga estava sendo parcial ao ouvir o argumento da escocesa. Não estava dando a menor abertura para ouvir o que ela tinha a dizer, além de deturpar muito das poucas palavras que Wallace conseguia realizar a proeza de compartilhar.
"Ora, McKinnon, acho que você já deixou bem clara sua falta de capacidade para compreender conceitos simples, mas aqui vai um conselho pra você, pra facilitar seu entendimento: deixe as pessoas falarem, antes de sair contestando uma coisa que nem foi dita." Lily arregalou os olhos, perguntando-se se não estava na hora de alguém se pronunciar e interromper a briga das duas. Nunca, em mais de seis anos de convivência, ouvira alguém se dirigir à Marlene dessa forma. Não que a amiga fosse brava, mas impunha respeito, além de nunca ter dado liberdade pra ser tratada assim. Pelo visto, Marlene compartilhava da mesma opinião, e em um tom púrpura, já começara uma frase resposta para Wallace, mas esta a ignorou solenemente, continuando o que dizia. "Nunca disse que Voldemort deveria cumprir meses em Azkaban e sair pimpão de lá, até porque eu não tenho embasamento pra definir qual seria a pena dele, uma vez que não o conheço o suficiente, não sei se ele é louco. Se ele for, eu acredito que não poderia viver em sociedade, que deveria ser detido em um sanatório. Se não for, por mim ficaria o resto da vida em Azkaban."
Sirius Black, que mordera os lábios para não rir ao ouvir o fora de Leslie em Marlene, não tivera tanto sucesso em ignorar este comentário.
"Como assim se ele for? Paixão, caso você ainda não tenha notado, o maluco sai correndo atrás de nascidos-trouxas berrando em parseltongue – achando que tá abalando com aquele ssssss ridículo – e excomungando todas assuas gerações, antes de torturá-los, matá-los e cuspir em seus corpos destroçados. A sanidade mental dele ainda está em pauta? Porque, juro, eu tinha a leve impressão deque a loucura dele já era fato incontestável." E aconteceu, mais uma vez, algo que Lily não entendia. Black, ao terminar de falar, abriu um sorriso de orelha a orelha para Wallace, tacando a bolinha que fizera com o guardanapo na menina. Wallace revirou os olhos sorrindo, jogando a bolinha na cabeça dele de novo antes de continuar.
E a tensão? Lily olhou de soslaio para Marlene, encontrando-a na mesma indignação. O hábito esquisito que os Marotos, Leslie Wallace e Liserre tinham de discutir e no momento seguinte estarem sorrindo e brincando um com o outro era incompreensível. Na terra de Lily, as pessoas não eram tão bipolares assim; se estavam discutindo, estavam discutindo, se estavam irritados uns com os outros, estavam irritados e não mudavam de posição no segundo seguinte. Suspirou, decidindo que o mecanismo do relacionamento deles era complicado demais para ser levado em consideração.
"Meu amor, nós não estamos lidando com fatos aqui, e sim versões. Não tem como afirmar que ele é louco," disse Wallace, calmamente, adotando um tom ligeiramente doce.
"Lord das Trevas te diz alguma coisa?" indagou Sirius, fazendo voz de quem tentava explicar algo simples para um bebê, só pra provocá-la. Wallace riu, mandando um beijinho pra ele. Ah, não... eles não estavam tendo um momento, não é? Que ótimo, momento ternura Black & Wallace.
"Sua família curte artes das trevas também, paixão, e tem os mesmos ideais que Voldemort. Eles são loucos?"
"Bom, minha mãe certamente não bate muito bem," constatou Sirius, arrancando risadas dos demais – menos de Marlene, que continuava ofendida por Black tê-la traído e se bandeado para o lado de Leslie Wallace, que agora se ocupava em encontrar, no pufe dele, um lugar pra ela também. Pra ela também. No mesmo pufe. Aff.
"Foi só pra reforçar o meu ponto, sua família não é louca, só tem ideais diferentes, é aí onde eu queria chegar," começou a escocesa, falando mais pra ele. Desviou os olhos de Sirius, apoiando a cabeça na curva do seu pescoço e se voltando para os outros presentes. "Voldemort pode ser louco-"
"Les, você pode, por favor, parar de falar esse nome?" murmurou Liserre, aborrecida.
"Dumbledore e meu avô falam."
"Bom, você não é Dumbledore nem seu avô."
"É ridículo não mencionar o nome dele, só faz com que a bola de neve aumente. Você vai me desculpar, Liserre, mas o medo de dizer o nome só aumenta o medo da própria coisa, e eu acho que Voldemort já tá desfrutando de muito terror por aqui," respondeu, em tom definitivo. Liserre se assentou no próprio lugar, desistindo de discutir. "Como eu ia dizendo, ele pode até ser louco, mas pode não ser. Se for louco, é uma pessoa que não tem condição de conviver em sociedade, porque não é responsável pelos próprios atos e-"
"Agora você tá dizendo que Você-Sabe-Quem não é responsável pelos próprios atos?" Interrompeu Marlene, pelo que pareceu a qüinquagésima vez no debate. Leslie Wallace respirou fundo, e Lily reconheceu a tentativa da menina de não responder com má-educação.
"Estou dizendo que talvez ele não seja, ou você acha que loucos são responsáveis pelos próprios atos?"
"Lógico que são."
"Quando uma pessoa alega insanidade, e a pena muda, você acha o quê? Que é porque o júri acordou de bom humor?" retrucou, a paciência começando a falhar. Estava começando a desistir de conseguir expor o seu ponto por completo - com aquela Marlene destilando veneno, ficaria bem complicado. Recebeu um cutucão de Sirius, e um olhar que dizia claramente para ter paciência. "Pessoas loucas não podem responder pelos seus próprios atos, porque são loucas e não conseguem entender exatamente o significado do que fizeram. Nasceram assim, oras, não é como se tivessem culpa. Óbvio que ainda serão punidas pelo que fizeram, mas eu acho que a gente devia levar isso em consideração. Vai ver Voldemort é louco, eu não sei. Muitos acharam que Grindelwald era louco também, e ele não tinha um pinguinho de maluquice."
Metade da sala rugiu em desaprovação, enquanto a outra metade parecia confusa, esperando resposta. Sirius Black voltava ao seu antigo humor em relação a Wallace, fazendo uma careta de repreensão muito grande.
"Oh, sim, Grindelwald era super são, tadinho," ironizou Marlene, não conseguindo ignorar a provocação. Leslie Wallace certamente tinha alguns parafusos a menos, se tinha alguém naquela sala que era louco, Marlene já havia identificado. E coitada, falava tudo numa convicção!
"Grindelwald era são sim. Ele não lutava pelo massacre de qualquer um, lutava pelos ideais dele, que, por sua vez, não são os mesmos que os nossos. Ele podia até ter meios um pouco questionáveis, mas não era louco," disse Wallace, olhando diretamente para Marlene.
"Um pouco questionáveis? Ele exterminou metade da população bruxa por um ideal dele!" berrou Marlene, mais alto que a reclamação de Sirius Black.
"Sim, mas só porque ele queria atingir um fim, não por maldade. Não tô justificando as ações dele, porque não as acho justificáveis, só estou defendendo o ponto dele não ser louco. Ele exterminou porque realmente acreditava no que pregava, porque acreditava que deveria fazer alguns sacrifícios para conseguir atingir o que queria. Não acho que no começo, quando ele idealizou todo o movimento, tenha imaginado que tomaria proporções tão astronômicas, as coisas simplesmente deslancharam e acabaram dando no que deu. Nem por isso ele foi morto. Foi para a prisão, onde vai passar o resto da vida pagando por tudo o que fez. E se arrependeu. Ele se arrependeu. Se Grindelwald não é um exemplo de que pena de morte é desnecessária, então, sinceramente, eu me abstenho."
Potter abriu a boca para responder, o que levou Lily a se surpreender por ele não ter se pronunciado até então. A surpresa infelizmente não foi embora, porque no momento seguinte ele mordeu os lábios, parecendo considerar.
Só Black mantinha a mesma opinião ao ouvir o desfecho de Leslie Wallace, de que aquilo era o maior absurdo. Mas Lily não achava que tinha o que considerar. Sabia que sua opinião era um pouco parcial, mas não conseguia ignorar. Assim como Marlene não conseguia admitir as idéias de Leslie Wallace, porque ambas compartilhavam de um conflito de interesses chamado Sirius Black, Lily não conseguia aceitar o exemplo de Leslie Wallace, porque se tratava de um episódio de preconceito com nascidos-trouxas, grupo do qual fazia parte. O pior é que concordava com o ponto de Wallace, só desejava que ela o tivesse exemplificado de outra forma, e não com Grindelwald. Entendia que não estava defendendo-o em si, e sim o fato de não ser louco, mas sua opinião sobre ele nunca mudaria: era repugnante. Assim como a família Black, assim como os Sonserinos que se achavam superiores a quem não havia nascido em um berço mágico. Isso era uma coisa que Lily nunca conseguiria entender, o preconceito. Era diferente de James Potter, Liserre e Leslie Wallace, que não tinham um pingo desse preconceito, lutavam contra ele e o abominavam, era diferente. Porque Lily não entendia. Assim como Potter, Liserre e Wallace não entenderiam porque alguém afro-descendente ou homossexual seria descriminado no mundo trouxa, Lily não conseguiria nunca pegar a fundo o preconceito contra nascidos-trouxas, simplesmente por não ter nascido naquilo. No seu mundo preconceito contra negros e gays era algo que a sociedade já adotara, e por mais que ela não concordasse, era uma constante. Assim como as famílias antigas puro-sangue, que já tinham o conceito da superioridade muito bem instalado.
Assim como Lily, Black mantinha a mesma opinião ao ouvir o desfecho de Leslie Wallace: de que aquilo era o maior absurdo.
"Sinceramente, paixão, é melhor você se abster mesmo, eu prezo demais por você pra te ouvir falando isso na frente de pessoas cujas famílias foram extintas por Grindelwald. Eles certamente não hesitariam em te colocar no seu lugar," disse ogaroto, a voz rouca e baixa, mas alta o suficiente para que todos ouvissem. Lily congelou com a grosseria dele, assim como o resto da sala, num silêncio mortal. Mirou Leslie Wallace, encontrando o mesmo choque no rosto dela, que mantinha a boca entreaberta em surpresa. E mágoa. A menina levou certo tempo para revidar, e no momento em que Lily viu os olhos dela brilharemantes de se moverem, teve certeza de que Black se arrependeria.
Não deu outra. Wallace ergueu-se um pouco, esticando as mãos para alcançar o bolo de morango em cima da mesa. Voltou ao pufe com o rosto lívido, mirando o bolo coberto de chantilly com tudo no rosto de Sirius Black, que não teve tempo nem de respirar – muito menos de se esquivar. Após tacar o doce na cara dele, levantou-se num salto.
"Isso é pra você aprender a adocicar a sua vida, pra aprender a nunca mais ser grosso comigo. Hostilidade não leva a nada, e eu fiz o meu melhor pra ignorar toda a sua falta de educação, mas você, como o grande teimoso que é, conseguiu acabar com a minha paciência. Então toma, aproveita o docinho!" bradou ameaçadoramente, recolhendo sua mochila e marchando em direção a porta. Antes de sair, deu olhada no estrago, balançando a cabeça negativamente.
Na medida em que a escocesa falava, os olhos dos expectadores se arregalavam mais e mais – Liserre até levara a mão à boca. Lily ainda estava tendo certa dificuldade para conceber a idéia de Sirius Black tendo um bolo tacado na cara, e aparentemente, o mesmo também, porque continuava olhando para onde Wallace estivera, paralisado. James Potter parecia realmente dividido entre gargalhar da desgraça alheia e ficar de luto pelo bolo que fizera, seu rosto acompanhando sua indecisão com caretas. Dorcas Meadowes, entretanto, foi quem iniciou a rodada de risadas, não custando muito para reunir seguidores.
"Ótimo, genial, justo o bolo que eu fiz pra Lily," reclamou Potter, entre risadas. Remus era, possivelmente, a figura mais bizarra: gargalhava, abraçando a própria barriga, sem emitir som nenhum. Lily se perguntou como alguém podia rir sem fazer barulho, e concluiu que podia passar o dia todo gargalhando só de vê-lo gargalhar.
"Bom, eu acho que isso indica o final do debate," murmurou Marlene, que parecia ser a única a não ter achado graça – até Sirius Black ria da própria desgraça agora, lambendo o rosto melecado e lutando com Potter para impedi-lo de dar dedadas em sua bochecha, lamber e então voltar o dedo para seu rosto cheio de chantilly, para repetir o processo. O resto da sala recolhia os materiais, o burburinho já formado pelos recentes acontecimentos.
"E a festa?" perguntou Dorcas Meadowes, com materiais em mãos e um prato com uma quantidade generosa de pudim de carne também. Peter, ao seu lado perto da mesa de comida, a ajudava a carregar tudo, pondo a mochila nas costas para livrar as próprias mãos. "De hoje à noite e tal, vai ter, né?" continuou, incentivada pelas expressões de confusão dos outros, que pararam de conversar para fitá-la.
"Cala a boca." E, estranhamente, aquilo viera de Liserre, que, sentada, encarava a grifinória com inconformidade. "Alguém tira essa menina daqui," sussurrou, fazendo com que até Black que se entretinha em lamber a si mesmo desviasse sua atenção para observar a tensão. "Eu sei que você é a falta de noção personificada, mas caso não tenha notado, tem pessoas morrendo ao seu redor, pessoas numa guerra, pessoas perdendo parentes. Ninguém consegue nem sentar nessa sala e debater, o que te faz pensar que uma festa estava sendo sequer cogitada? Acorda," acusou Liserre, toda a frustração a atingindo com tudo depois de tanto tempo resguardada.
"A guerra tá acontecendo há anos! Ok, nesse último mês ela meio que estourou, o Profeta Diário publica desaparecimentos todo santo dia e a situação tá mais tensa mesmo, mas eu não acho que a solução é parar de viver por conta disso e...-"
"Você não acha porque, como eu disse, não tem um pingo de noção, mas ao contrário de você, Dorcas, as outras pessoas estão de fato vivendo. Vivendo a realidade, com o pé no chão, porque isso é viver. Ninguém tá com climapra festejar, todo mundo tem no mínimo meia-dúzia de coisas pra se preocupar, os Tousaint eram um símbolo para o mundo mágico, fizeram muito pelos nascidos-trouxas, mas você não sabe o significado de luto, pelo visto." E, dizendo isso, Liserre se levantou do pufe onde até então se mantinha, rumando em direção ao banheiro.
Sirius Black passou os olhos entre todos os que ainda estavam na Sala Precisa, encontrando todos com expressões de surpresa. Um choque cauteloso, ninguém ousava abrir a boca. Dorcas tentava inutilmente justificar para si mesma o que chamava de o surto da louca da Liserre, enquanto o resto se mantinha num silêncio eterno, com receio de falar alguma coisa inconveniente. Marlene e Lily se entreolharam numa concordância não verbal de irem atrás da amiga, mas quem quebrou o silêncio foi Sirius Black e sua imensa quantidade de glicose no rosto.
"Eu vou lá," anunciou, aproveitando a brecha para terminar de se limpar – eis a arte de unir o útil ao agradável. Seguiu em direção ao banheiro, ouvindo o burburinho recomeçar na medida em que o abandonava. Fechou a porta atrás de si, atraindo a atenção de Liserre que estava sentada num banquinho em um dos extremos do banheiro. "Você quer conversar sobre aquilo?" indagou, dirigindo-se até a pia. Arregaçou as mangas para não molhá-las e abriu a torneira, começando pelos pedaços grandes de bolo que ainda estava em seu rosto e colocando-os de lado na pia, já que não passariam pelo ralo.
"Você quer conversar sobre ter sido grosso com a Leslie?" rebateu Liserre, sorrindo enquanto assistia à tentativa fracassada de se limpar do melhor amigo, que mais estava era tomando um belo banho.
"Não particularmente."
"Idem. Tô bem sem falar sobre isso."
"Se bem no seu dicionário é a visão que eu estou tendo, acho que tá na hora de redefinir meus conceitos," brincou Sirius, observando-a com um quê dramático pelo reflexo no espelho. Em todos esses anos, o maroto nunca vira Caprice Liserre explodir como havia acabado de fazer.
"E essa é a acusação de um cara cheio de bolo no rosto. Obrigada pelo consolo, mesmo assim," retrucou a loira, controlando-se para não rir da cara dele - e desistindo da tentativa ao vê-lo retirar um pedaço relativamente grande de bolo do rosto e ao invés de colocá-lo no cemitério improvisado, levá-lo a boca. Respirou fundo, frustrada. A descarga de adrenalina que tivera momentos antes não estava mais presente em seu corpo, que automaticamente liberara uma quantidade considerável de endorfina pós-estresse. A menina, agora relaxada, não podia manter o cansaço longe por muito tempo, nem a insatisfação gerada ao reavaliar suas próprias palavras sem o agravante do calor do momento. Tinha exagerado com Dorcas, não precisava ter falado daquela maneira. Se sentindo culpada, a corvinal se amuou no canto, quieta.
"Disponha, mas sem machucar meus sentimentos,"Sirius disse, sua risada rouca ecoando logo em seguida. Observou a loira deixar o banquinho pelo reflexo do espelho, caminhando em sua direção. Liserre abraçou seu melhor amigo por trás, procurando consolo. Descansou o rosto nas costas largas dele, que sentiu sua respiração ritmada, o coração batendo de forma compassada em suas costas. Inclinou a própria cabeça, apoiando-a na da menina, permanecendo alguns segundos assim, de olhos fechados.
"Targeo," murmurou Liserre, e, ao abrir os olhos, Sirius Black encontrou suas imagens refletidas no espelho, ainda abraçados, a corvinal com a varinha na mão e o grifinório sem sombra do que antes fora um bolo cheio de chantilly em seu rosto. "Ainda que você fique muito bonitinho todo decorado de bolo de morango, o cheiro tava me dando náuseas," ela o provocou rindo, guardando a varinha nas vestes na medida em que se afastava do amigo. "Vamos" murmurou, quando sentiu que o breve momento fora o suficiente para se recompor. Sentiu sua mão ser tomada pela de Sirius, erguendo o rosto para mirá-lo. O menino sorria de lado, em um daqueles sorrisos transcendentes que te fazem pensar que, estranhamente, ele entendia o que acontecia. Retribuindo o sorriso, de mãos dadas, Liserre os conduziu pra fora do banheiro. Encontrou a Sala Precisa quase vazia, com a exceção de Remus, James, Lily e Marlene.
"Você queria falar alguma coisa, Sirius?" indagou Remus, lembrando-se da estranheza do amigo enquanto cruzava, juntamente com Sirius e James, a porta da Sala Precisa. Lançou um último olhar à Liserre, Lily e Marlene, acenando com a mão enquanto terminava de se despedir das amigas. Voltou sua atenção para os dois marotos, que pareciam petrificados quanto a menção que acabara de fazer. "Que foi?" perguntou, parando no meio do corredor para dar mais importância à situação. James assobiava, lançando olhares para pontos estratégicos como o teto, os próprios pés e muitas vezes o horizonte – na tentativa de parecer indiferente. Sirius estava enrijecido, e fixava Remus com uma certeza desconcertante – como se tentasse se convencer de que aquilo estava certo. Após analisar a postura dos dois, Lupin concluiu que ai, lá vem bomba. E veio.
"Remus... Eu fiquei com a Liserre." E, pelo visto, Sirius Black não era o único a despejar uma grande revelação em cima de um amigo. A não muitos metros dali, Caprice Liserre passava por uma situação igualmente constrangedora, enquanto encarava Lily e, principalmente, Marlene, perdida no próprio embaraço.
"Eu fiquei com Sirius Black."
N/A:
Milhões de desculpas. =/
Nhi, sem brincadeira, sei que minha demora não é justificável, só me resta tentar explicar que tudo o que podia ter dado errado nesse meio tempo, deu! Sem contar que alguém muito maldoso gongou o capítulo, não é possível hahaha até ficar sem mouse eu fiquei, perdi partes do capítulo, desanimei, entrei num bloqueio... bom, mas aí está. Espero que as vinte páginas compensem a demora cavalar, prometo (tentar) não demorar tanto das próximas vezes! Assim que der eu posto o capítulo oito, que é um dos meus preferidos eeeee! hahaha
Ah, e eu coloquei a foto dos bolos no meu perfil, tá? HAHAHA todo mundo pode ver a coisa feia que a Lily fez.
Resposta dos comentários sem login:
Tati: Nããão, querida. Não foi nada demais, nem se beijaram, só dormiram juntos. Que bom que você gostou! =) atualizado.
Francineide: Ceeertamente o Sirius é o melhor! Migs o sufi.
Gika: Ceninhas do cotidiano tem tooodo o meu amor.
Cris: Aeee! Finally postei.
