SARA – PDV

Eu realmente não esperava ver aquele rosto novamente, não depois de tudo que aconteceu. Quando abri a porta, fiquei paralisada. Senti minhas pernas bambearem, faltar ar em meus pulmões. Era estranho sentir aquilo por não existia mais nada. Não existe mais nada, certo? Meu cérebro me questiona. Depois do impacto inicial...

- Você? O está fazendo aqui? – pergunto ao homem a minha frente.

- Uau docinho, é assim que você trata o amor da sua vida? – pergunta o moreno a minha frente enquanto se aproxima de mim.

Ele trajava uma calça jeans surrada e rasgada nos joelhos, botas pretas de couro cano curto, uma camisa brama simples e uma jaqueta de couro preta. Ele se vestia igual John Travolta, no filme Grease.

- Como é? Será que ouvi bem? Docinho? – falei com sarcasmo carregado na voz e com uma das mãos na direção da orelha sinalizando o ouvi bem. – O que você quer aqui? Aliás quem te deixou entrar? – pergunto e logo lembro de ter visto o carro da Érica lá embaixo, com certeza havia sido ela.

- Ei docinho calma. – diz ele tentando ser sedutor. – Foi aquela loira sem graça da sua secretária. – diz ele fazendo uma careta quando se refere da Érica.

- Não pode ser, ela não faria isso comigo. – digo já imaginando que ele deve ter feito algo para que ela permitisse sua entrada. – Vamos, diga o que você fez? – falo sentindo uma preocupação me percorrer. Dou alguns passos para ver se via algum sinal de vida da mulher.

- Éricaaa... Érica... ÉRICAAAA... – começo a gritar preocupada que ele possa ter feito alguma estupidez.

- Meu doce assim você me ofende, acha que eu faria alguma coisa contr... – ele é interrompido.

- Sara? O que houve? Por que está gritando? – aparece uma loira assustada por causa dos meus gritos.

- Nossa, você está ai... Por que não respondeu quando te chamei a primeira vez. – falo de uma vez, sentindo um certo alivio em vê-la. Mas antes que ela pudesse dizer algo o homem nos interrompe.

- SARA? É sério? Agora ela te chama pelo primeiro nome? – pergunta ele irônico e vejo a mulher a nossa frente corar. – Bom, pelo visto suas investidas discretas surtiram efeito heim, Érica? – pergunta ele olhando ainda mais irônico e malicioso.

- E... eu... eu não sei do que o senhor está falando. – diz ela visivelmente desconfortável.

Ele assim como Mike, insinuavam constantemente que Érica tinha uma queda por mim, eu por outro lado nunca percebi nada disso. Sempre fomos absolutamente profissionais. – Ah, cale a boca. – digo a ele irritada com seu comentário. – Tudo bem Érica, pode ir, depois conversamos. – digo a ela e sem responder nada, ela se retira.

- Bom, vejo que algumas coisas mudaram por aqui. – diz ele voltando a se aproximar.

- Pois é, mas isso não é da sua conta. – respondo firme dando-lhe um olhar severo e me afastando para manter distância dele.

- Docinho... então quer dizer que agora você resolveu sair do armário? Porque se for isso, vou adorar participar. – diz ele num tom totalmente imoral.

Respiro fundo para não voar no pescoço daquele homem. Quem ele pensa que é? – Primeiramente, pare de me chamar de docinho, não sou nada pra você, muito menos seu docinho. – digo andando em direção ao centro da sala para colocar minhas coisas em cima do sofá.

- Segundo, não saí de armário nenhum, você sabe muito bem que sou muito bem resolvida sexualmente e ainda que tivesse saído do armário isso também não é da sua conta. – digo de uma só vez para ele.

O estranho é que quando ele falou "sair do armário" imediatamente pensei na Jessica. Eu já havia experimentado mulheres quando era adolescente e antes de me mudar para L.A., mas isso foi uma fase.

- Terceiro, você ainda não me falou o que está fazendo aqui? Quando vi um carro igual ao seu na garagem do prédio, não podia acreditar que você teria tamanha cara de pau em aparecer aqui. – digo a ele que agora estava sentado me analisando.

- Ok, se você quer ir direto ao ponto, vamos lá. – disse ele apoiando o tornozelo direito sobre o joelho esquerdo e jogando o braço esquerdo sobre o encosto do sofá. – Vim aqui te pedir pra voltar. – diz ele como se fosse a coisa mais natural do mundo.

- Oi? – pergunto incrédula. Era verdade que por muito tempo desejei que aquilo acontecesse, mas não agora. Agora eu não o amava mais, certo? Meu cérebro que me questiona.

- Não se faça de sonsa de Sara. – ele se levanta e volta a se aproximar. Me mantenho em pé de frente pra ele. – Eu sei que você ainda me ama e eu percebi que cometi um erro enorme, então estou aqui para te pedir para voltar pra mim. – diz ele ainda mais próximo de mim.

Ryan e eu nos conhecemos em uma boate certa vez. Eu tinha acabado de entrar em Grey's e tinha saído para comemorar com Mike e uns amigos. Aquela noite tinha sido perfeita. Me diverti muito e estava imensamente feliz com a nova oportunidade de trabalho que havia parecido. E aí... Apareceu Ryan.

Ele é bonito, isso não posso negar. Tem um jeito meio descolado, que na época me interessou bastante. Ficamos juntos aquela noite na boate. No outro dia ele me ligou e assim começamos a namorar. Estava indo tudo perfeitamente bem até... Mike vê-lo beijando outra mulher em uma festa.

Apesar de gostar de Ryan, eu reconhecia que ele não me tratava bem. Era na maioria das vezes desrespeitoso. Olhava para outras mulheres na minha frente e, segundo Mike, ele estava mais interessado no meu dinheiro do que em mim. E apesar dos avisos de Mike e até de alguns comentários de Érica e outros amigos continuei com ele. Ele tinha algo que me prendia sem falar do sexo, era realmente INCRIVEL.

Quando o questionei sobre a mulher com quem ele estava, nem se deu ao trabalho de enrolar. Lembro das palavras dele até hoje - "Não posso te garantir exclusividade Sara, não ganho nada pra isso." – Aquilo realmente me feriu profundamente. Mas depois de um tempo, consegui superar.

- Você só pode estar louco. – digo rindo sarcasticamente. – Eu voltar pra você? – falei rindo mais alto. E sem que eu esperasse, ele me agarra e me beija. No inicio eu resisti, não queria beijá-lo, mas depois, não sei, foi como se ele tivesse extraído toda minha capacidade de resistência. O beijo daquele homem era algo...

- Viu, estou certo, você ainda me ama. – diz ele acabando com beijo e se afastando de mim. E eu continuo ali parada, sem dizer nada. Mas ver o riso vitorioso nos lábios dele me deixou extremamente enfurecida.

Desferindo-lhe um tapa que deixou minha mão ardida, ele se afasta um pouco, mas ainda com o riso nos lábios. – É assim que vai ser? Por que não me importo de apanhar um pouco se isso lhe der prazer. – diz ele.

- SAIA DA MINHA CASA RYAN. – grito a ele. – SAIA DA MINHA CASA AGORA! – ordeno ainda mais alto. Ele levanta as mãos pro ar em sinal de rendição e vai saindo.

– Pense bem Sara, por que eu não vou desistir assim tão fácil. – diz ele e imediatamente lanço em sua direção o primeiro objeto que consigo alcançar. Ele fecha a porta com rapidez para se proteger do meu ataque.

Fico ali parada não sei por quanto tempo, sem pensar em nada, apenas parada. Sentindo um turbilhão de sensações. Só sou retirada do meu transe quando sinto alguém me sacudir. Aquilo estava virando um hábito.

- Está tudo bem Sara? Ele fez alguma coisa? – pergunta uma loira visivelmente preocupada a minha frente.

- Hã? É.. Está sim Érica. – digo ainda meio anestesiada. – Vou me deitar. - digo desvencilhando-me das mãos da loira. - Mas antes disso, por que você deixou ele entrar? Como pôde permitir isso? – digo com um tom de decepção e irritação.

- Me desculpe, mas eu não pude evitar. – diz ela nervosa. – Acho que ele já estava a sua espera a muito tempo. – diz ela tentando explicar. – Quando cheguei ele já estava instalado na sala e tentei mandá-lo embora, mas ele disse que não iria e... – a interrompo.

- Se não foi você, quem foi? Será que ele arrombou a porta? – nessa hora corro em direção a porta para verificar a fechadura, mas estava totalmente intacta.

- Eu não sei. – diz ela simplesmente. – Mas pode ter sido o porteiro, afinal ele o conhece e pode ter inventado alguma desculpa. – finaliza ela.

- É, pode ser... amanha descubro isso. – digo recolhendo minhas coisas para levar pro quarto. – Mas e você, o que veio fazer aqui? Eu tinha te dado folga. – pergunto olhando em direção ao vaso espatifado no chão. Droga, era um lindo vaso. Resmunga meu cérebro.

- Eu vim... – sem esperar que ela me respondesse a interrompo, afinal ela tinha livre acesso a minha casa e se estava ali em sua folga, é por que tinha motivo.

- Por favor Érica, sei que é tarde, mas você pode dar um jeito nesses cacos pra mim? – pergunto e mais uma vez não espero ela responder e sigo para o meu quarto.

Caminho em meio a escuridão do meu quarto, já sabendo exatamente onde cada móvel estava disposto passo por eles sem esbarrar em nenhum. Sentindo a lateral da cama encostada nas minhas pernas, viro de costas e me jogo de uma vez. E fico ali imersa no meu silêncio.

Minha cabeça começa a dar voltas e voltas. – Como ele teve coragem de me beijar? Por que eu não parei o beijo? Por que eu sentia daquele jeito? - Comecei a me questionar, quebrando o total silêncio do quarto. – Eu o superei. Superei meus sentimentos por ele. Mas se é assim, por que estou com essa confusão de sentimentos dentro de mim? – Continuo a falar sozinha, como se esperasse que algum ser divino aparecesse ali e me desse às respostas.

Volto a mergulhar no silêncio e acabo dormindo...

JESSICA – PDV

Antes de chegar aos bastidores eu precisava ficar sozinha um minuto que fosse... Corri rápido para primeira escada de incêndio que vi. Fechei a porta atrás de mim e desabei. Comecei a chorar copiosamente, como se alguém tivesse apertado um botão e me ligado no modo mais emocional possível.

Com as costas ainda apoiadas na porta, desço escorregando até ficar completamente sentada no chão. Abraço minhas pernas e tento abafar o choro descontrolado que ainda insistia em sair. Vendo-me derrotada pelo meu descontrole, desisto de tentar controlar e apenas deixo as lágrimas rolarem.

Nunca havia me sentido tão humilhada na vida. Não bastasse ele menosprezar meus amigos e meu trabalho pra mim, ele tinha que fazer isso justamente na frente de todos, me deixando tão exposta ao ridículo daquela forma. A cada palavra dele me sentia diminuída perante meus amigos e perante a mim mesma. Isso não era justo.

Alguns minutos depois, percebo que meu choro havia passado, restando apenas um soluço. Respiro fundo tentando me recompor, eu precisava voltar para gravar minha cena final com a Sara. SARA, pensei. Até minha amizade com ela ele conseguiu "diminuir". Sempre que eu dizia que iria sair com ela ou com alguém do trabalho ele criava uma agenda de compromissos românticos, me "obrigando" a cumpri-la.

Sinto falta dela, da sua companhia, suas risadas, nossas saídas e às vezes até algumas bebedeiras. Sinto falto do seu abraço, do ombro amigo, do seu sorriso, seus olhos e da levantada de sobrancelha que ela dá... Preciso recuperar isso.

Já totalmente recupera da choradeira, volto pros bastidores e vejo de cara a Sara. Linda como sempre. Percebo ela meio inquieta, mas não da tempo de nada porque logo ouvimos o "ACTION" seguido de um "CORTA". Finalmente esse dia estava acabando. - pensei.

Termino minhas cenas e sou liberada. Saio voando pro meu trailer, queria ficar sozinha e ir pra casa. Chegando ao estacionamento, percebo que Christopher havia deixado meu carro, já que viemos nele. Deve ter voltado de táxi ou ligou pra alguém do escritório. – pensei. – Mas porque cargas d'água eu estou me dando ao trabalho de pensar nisso? – Me perguntei em voz baixa.

Quando me aproximo do meu trailer, ouço alguém me chamar, tento ignorar ao reconhecer de quem era a voz, mas de nada adiantou.

- Ei, estava te chamando, você não ouviu? – pergunta a loirinha a minha frente.

- Desculpe Tessa, é que o dia foi cheio e tudo que quero é ir pra casa ou pra qualquer lugar onde eu não precise ver a da cara de um certo alguém. – falei e abaixei minha cabeça encarando meus pés.

- É, eu sei. Queria saber como você está? – pergunta ela com um solidário. - E a propósito, já que você diz que quer ir pra qualquer outro lugar, por que não sai comigo? Terminei por hoje e a gente podia, sei lá, ir tomar alguma coisa. – pergunta ela com um olhar e sorriso que não consigo decifrar.

- Olha só, sério, não estou a fim de ficar de papinho sobre hoje... – interrompo minha fala ao perceber que estava sendo ríspida com alguém que não tinha culpa de nada e apenas estava tentando ser solidária.

- Ok, me desculpe, só pensei... – a interrompo percebendo que ela parecia meio chateada.

- Não, olha só, se alguém aqui precisa pedir desculpas sou eu. Fui grosseira com você sem necessidade. – digo colocando uma das mãos em seu ombro. – Para me desculpar, aceito seu convite, vamos beber um pouco ok? – finalizo, sabendo que era daquilo que eu precisava no momento. Álcool.

Ela dá um sorriso vitorioso e me abraça abruptamente, sou pega de surpresa pelo contato rápido, mas logo retribuo. Sinto o contato demorar mais do que deveria e, institivamente, lembro-me dos comentários do Justin a respeito dela. Mas não ligo pra isso na hora por que, até que estava confortável.

Me assusto ao ouvir passos de alguém atrás de nós. Me desvencilho do abraço da Tessa e, estranho uma atitude inesperada sua. Colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha ela diz "se precisar de alguém, sabe onde me encontrar"... E ainda por cima de chama de JCap. Ela estava ficando maluca? Que apelidinho é esse? E nós tínhamos acabado de combinar de sair. Mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, sou surpreendida com um beijo demorado DEMAIS no rosto. Ok, talvez o Justin possa ter um pouquinho de razão, sussurra meu cérebro pra mim. Ela se afasta nos deixando a sós. Agora, encarando a Sara, percebo o quanto ela estava linda vestida de Callie. O que até me faz confundir um pouco as coisas e chama-la pelo nome da personagem.

Seu abraço é tão acolhedor e terno, que eu poderia ficar abraçada a ela pro resto da minha vida. Sasha, assim como Sara, era minha amiga, mas o braço e aconchego delas era diferente. Com a Sara, era como se eu estivesse em casa, como se pertencesse aquele espaço entre seus braços. Nossa, como sentia falta da nossa amizade. – sussurrei.

Ela ainda tinha muito trabalho, então não podemos conversar muito, logo o Kevin começou a ligar. E como ela provavelmente ia sair tarde, nem poderíamos nos ver mais aquela noite. Mas bem que eu preferia muito mais a companhia dela do que a da Tessa.

Depois que nos despedimos, fui me trocar, logo a Tessa estaria ali me esperando para irmos tomar alguma coisa. Não demorou muito e ouço batidas na porta. – Só um minuto, já estou indo. – digo terminando de prender meu cabelo em um rabo de cavalo frouxo. Saio do trailer e encontro uma loirinha muito sorridente. Isso tudo é muito estranho. Meu cérebro resmunga.

Antes de entrar no carro, olho a silhueta de Sara nos observando. – Ué, ela não estava atrasada. – resmungo baixo, mas não o suficiente para a outra mulher deixar de ouvir.

- Acho que ela quer ter certeza que estarei cuidando de você. – diz a mulher ao lado da porta do carona. Ignorando completamente seu comentário, mando um beijo e aceno para Sara, que retribui. Ligo o carro e logo estamos na avenida principal.

Boa parte do caminho eu fiquei calada. Comentava uma coisa aqui outra ali sobre o assunto que ela puxava, mas na verdade nem estava dando muita atenção. De certa forma, eu estava me sentindo mal por isso, afinal ela estava até sendo bem legal e atenciosa comigo e eu só fingindo dar atenção.

- Me desculpa, eu achei que desse pra sair, mas agora vejo que estou sem ânimo algum pra ficar fazendo social em barzinho, ainda mais porque sempre tem paparazzi aqui e ali e tenho certeza que estou com cara de poucos amigos. – digo rápido e de uma só vez.

- Mas você vai gostar desse lugar, lá é reservado... – a interrompo antes de perder a paciência.

- Não, sério. Hoje não Tessa, quem sabe outro dia. – digo tentando parecer calma. – Agora vamos, me diga como faço para te deixar em casa.

- Não precisa, é um caminho totalmente oposto do seu, me deixa ali naquele ponto de táxi. - diz ela sem olhar pra mim.

- Nunca, você foi muito legal comigo hoje e independente disso jamais te deixaria em um ponto de táxi. – digo sendo sincera com ela.

- Tudo bem, mas só se você subir até meu apartamento. – diz ela.

- Você não desiste, não é mesmo? – pergunto.

- Você aceitou meu convite pra beber e não quer fazer social, então que outro lugar melhor do que meu apartamento? – pergunta ela.

- Está beeeemmm, você venceu dessa vez. – digo e ela comemora vitoriosa. – Agora vamos, me diga por onde vou. – digo e sigo as instruções dela.

Minutos depois estaciono na garagem do prédio dela. – Você não mora, você se esconde. – digo rindo e provocado a loira ao meu lado.

- HA HA HA, tão engraçada você. – diz ela saindo do carro e nos guiando para o elevador.

Subimos e logo estamos no seu apartamento. Ele era bem aconchegante. Iluminado em sua maioria por abajures fluorescentes, tinha um ar meio rústico pós-moderno. Paredes revestidas por uma espécie de alvenaria polida e envernizada, dava um ar relaxante ao local.

- Seu apartamento é bonito, você quem decorou? – pergunto observando algumas esculturas feita de um material semelhante a argila.

- Sim, sempre gostei dessa coisa rústica sabe? Um ar primitivo no meio da modernidade dos meus eletrônicos. - diz ela apontando para os eletrodomésticos.

- Ficou realmente muito bonito. – digo enquanto ela traz 2 taças de vinho branco. - Eu não imaginava que você teria um gosto assim. – digo quando tocamos nossa taça em sinal de brinde. Ela faz sinal e oferece para que eu me sente no sofá ao seu lado, ela se vira e fica de frente pra mim.

- Ah é? – provoca ela. – E como você imaginava meu gosto? – pergunta ela com um olhar meio provocante. Sinto estranhamente minha boca secar e dou um longo gole no meu vinho.

- Ah... você sabe... - gaguejo sem saber exatamente o que responder.

- Na verdade não sei. – diz ela com o mesmo olhar provocante e meio predatório.

Tento disfarçar meu desconforto. O que você veio fazer aqui? Grita meu cérebro comigo. Finjo estar preocupada com a hora.

– Acho que já vou indo, está muito tarde e amanhã você tem que estar no estúdio cedo. – digo desconcertada. – E morando longe desse jeito, é capaz de você ter que sair de casa daqui a meia hora pra chegar a tempo. – digo tentando soar calma.

- Gostou mesmo de me provocar né? – diz ela. – Você deveria morar longe assim também, você não sabe como é bom, paparazzi correndo atrás de você a todo momento. – diz ela enchendo nossas taças novamente.

Sorrio tentando parecer natural. – Aqui é tranquilo assim? – pergunto

- Muito! – afirma ela. – Óbvio que existem dias que não da pra sair sem ser clicada, mas na maioria das vezes é bem tranquilo. – finaliza ela.

A percebo ainda me estudando e isso volta a me deixar desconfortável. Bebo novamente um longo gole do vinho e antes que eu possa dizer algo ela volta a encher minha taça.

- Mas então, você não me respondeu o que você imaginava a respeito de mim? – pergunta ela.

- É que você está sempre envolvida com tecnologia, que sei lá, acho que imaginava seu apartamento algo futurista. – digo dando um riso desconcertado. Ela da uma gargalhada a minha frente.

- Está vendo, esse é o problema das pessoas, o predizer o outro sem conhecer. – diz ela. – Não é só você JCap, mas muita gente ali prediz muito sobre mim. – conclui.

Diante disso me sinto meio mal, a final de contas eu só estava daquele jeito meio arredio com ela por ficar dando ouvidos ao comentário do Justin. O que me fez perceber que eu estava sendo infantil.

- É verdade. – respondo a ela. – Viva a liberdade! – digo erguendo a taça.

- Viva a liberdade? – pergunta ela segurando o riso.

- É, viva a liberdade de viver como se quer viver, sem ligar para o que os outros dizem ou pensam. – dito isso ela ergue sua taça em direção a minha e brindamos.

Depois do momento constrangedor inicial que eu senti, resolvi me deixar levar. Bebemos o restante da garrafa de vinho, depois algum tipo de licor e por fim viramos umas boas doses de tequila. Ainda que estivesse meio bêbada, podia sentir os olhares da mulher em cima de mim. Mas aquela altura eu não estava mais me importando.

Já eram 1:30 da madrugada e me assusto ao perceber que estava a tempo demais bebendo e teria que está em algumas horas no estúdio de novo. Me levanto bruscamente do sofá o que faz minha cabeça rodopiar e quase caio.

- Ei, calma ai moça. – diz Tessa me segurando pela cintura.

- Não foi nada, só levantei muito rápido. – digo tentando sair de seus braços.

- Você não pode sair assim, está sem condições de dirigir. – diz ela ainda me segurando. – Você pode ficar aqui se quiser. – convida ela.

Imediatamente lembro dos comentários do Justin. – Não precisa, eu chamo um táxi. – dito isso saio de seus braços e tento caminhar em direção a minha bolsa para pegar meu telefone.

Tropeço no tapete e caio no chão. Imediatamente ela começa a rir de mim. E aquilo me irrita no começo, mas depois me junto a ela e sorrio da minha própria situação. – Em vez de rir deveria tentar me ajudar a levantar daqui. – digo estendendo a mão pra ela.

- Vem deixa eu te ajudar. – ela segura minha mão. – No três diz ela... UM... DOIS... TRÊS... – ela me puxa com força demais e se desequilibra ficando as duas no chão agora.

Rimos novamente da situação, mas de repente uma tensão cresce no ambiente e sinto pela primeira vez os lábios daquela nos meus em um ambiente diferente dos estúdios.

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Já passava das 2 da madrugada... Eu estava totalmente desorientado sobre onde ir. Precisava falar com alguém.

- Vamos lá Sasha me atende... – digo baixo, mas o homem a minha frente ouve.

- Algum problema senhora? – pergunta o taxista num tom solidário.

- Não senhor. – respondo sem dar espaço para mais perguntas. Continuo tentando ligar, mas só cai na caixa postal. Institivamente peço ao taxista para mudar o percurso. – Senhor, me leve para os estúdios da ABC por favor. – peço e logo ele muda o trajeto.

- Lógico, porque não pensei nisso antes? – me questiono. – Com todo o atraso de hoje, ela ainda deve estar por lá. – finalizo meu monólogo.

Assim que chego à porta principal, peço ao taxista que me espere e corro para dentro. Encontro Kevin terminando de organizar sua as coisas.

- Ei, loira o que você está fazendo aqui? Aconteceu alguma coisa? – pergunta ele preocupado.

- Não... quero dizer sim... não... esquece. – falo meio atrapalhada. – Você viu se a Sara ainda está por ai? – pergunto ansiosa.

- Não, ela saiu ainda pouco foi pra casa... – sinto que o interrompo, mas não me importo, apenas dou meia volta e saio correndo.

De volta ao táxi, dou o direcionamento para casa da Sara e ele segue atentamente as instruções. Chegando lá, pago pela corrida e desço indo em direção ao elevador. Aperto o botão do seu andar e espero subir. Nossa que elevador lento. Meu cérebro resmunga.

Ao chegar ao seu apartamento toco a campainha repetidas vezes. Bato na porta chamando por ela e nada. – Pelo tempo que ela saiu de lá já era para ela estar em casa. – falo comigo mesma. Desisto e resolvo ir embora.

Na espera pelo elevador fico pensando em toda loucura que havia sido o dia anterior. A porta se abre e vejo uma loira conhecida a minha frente.

- Ei Érica, que bom te ver. Sabe me dizer se a Sara está em casa. – sinto o olhar descontente da mulher ao me ver.

- Como poderia Jessica, acabei de chegar. – Minha boca se abre diante da grosseria daquela mulher. Primeiro por me chamar pelo meu primeiro nome e segundo pela resposta atravessada que me deu.

- Claro que sei que acabou de chegar Érica, mas imaginei que você sendo a empregada dela, saberia dizer-me se ela lhe disse algo. – essa hora é não estava nem um pouco a fim de ser educada.

- Sou secretária particular e não babá dela, a Sara já é dona do nariz para sair sem precisar pedir ou dar satisfações. – responde ela. Sinto um descontrole subir em mim e quase não me contenho em lhe dar umas bofetadas por sua insolência.

- De fato ela já está bem grandinha, disso eu sei com toda certeza. – digo provocando a mulher. Assim como Mike, eu desconfiava das intenções da Érica com sua chefe. – E se ela precisasse de babá, com certeza não seria você quem ela contrataria, você não faz o tipo dela. – digo olhando a mulher de cima a baixo, o que a deixa sem reação.

Já dentro do elevador, com um dos braços segurando a porta faço sinal para ela. – E então, vai ficar ai parada me olhando com essa sua cara ou vai sair do elevador? – pergunto apontando para saída. Ela sai, aceno um tchauzinho debochado para ela enquanto a porta se fecha. Com certeza ela estava uma fera.

Eu sabia que ela não gostava de mim, mas não sabia exatamente por que. Sempre a tratei bem e nunca havia sido grosseira com ela até hoje. Mike dizia que ela tinha ciúmes de mim por causa da Sara. O que era totalmente infundado. Sara, rum... com ciúmes de mim... até parece...mas até que eu ia gostar disso se fosse verdade e se não fôssemos a-mi-gas... sussurro dentro do elevador. A porta se abre. Sigo em direção a rua para pegar outro táxi e inevitavelmente voltar para casa sem poder dividir o que havia acontecido com ninguém.