VIII
Após abraçar a Mana, Gackt sentiu que tinha necessidade de cigarro. É, sempre que transava ele precisava de um cigarro depois. Olhou o amante, o qual ainda se encontrava sorrindo, encostado em seu peito... e pensou em como poderia pedir pra fumar sem ser indelicado.
- Mana...
- Sim...?
- Eu... você se importa se eu fumar?
- Ah... eu sempre me esqueço! Você fuma...! É verdade, há pessoas mais viciadas em fumo que outras, logo... você se sente muito dependente da nicotina?
- Não... mas... confesso que fumar depois do sexo é bom...! Se não se importa...
Mana sorriu a ele.
- Não... contanto que depois venha aqui me abraçar!
- Ora, claro que venho...!
Dando alguns beijos em seus lábios, Gackt levantou da cama e foi acender um cigarro. Tentava fazer com que a fumaça não chegasse em Mana, dado que ele não fumava... e ficou ainda sentindo aquela onda maravilhosa de placidez que tomava seus membros.
"Huuuuuun, como pode...? Foi tão intenso, que é como se eu ainda sentisse...! E com alguém que... é biologicamente homem!"
Enquanto fumava e olhava para a vista da janela que ficava logo na parede a frente, pensava... pensava que valera a pena comprar aquele monte de cacareco pra transa. "Afinal, pode ter sido trabalhoso, mas poxa...! Que gozada boa...! E ele geme igualzinho mulher, se tivesse a voz um pouco menos grave... e, é claro, eu espero sair com ele mais vezes! Puxa, com uma delícia dessas na cama, nem vou mais precisar ficar caçando amantes...!"
Ficava pensando... mas logo começou a pensar na banda também. E o produtor...? Será que estranhara o fato de Mana ser travesti? Será que aceitaria...? Oh, as preocupações com aquela noite haviam sido tantas, que ele esquecera da produção... e como a noite havia sido bem sucedida, os pensamentos dele... eram todos agora para aquilo. Contas a pagar, dinheiro, se ia dar certo...
Sem que Gackt percebesse, Mana levantou da cama. E só foi sentir quando o crossdresser o abraçou por trás.
- Ah, está aí...?
- Estou, mon amour... espero não estar incomodando...
- Claro que não... apenas penso se a fumaça vai lhe incomodar...
- Hum... eu acho que vou tomar banho...
- Ah, eu vou com você! Se não se importar...
- Claro que não...! Bem, após a nossa... noite de amor, digamos que eu já perdi a vergonha de ficar pelado pra você...
Gackt sorriu, apagou o cigarro, jogou as bitucas na lixeira do banheiro... e viu que o banheiro de Mana tinha uma banheira...
- Oh, Mana, uma banheira...! Nem lembro da última vez em que me banhei em uma!
- Pois não se faça de rogado...! Vou encher pra gente, tá?
- Ora, Mana...
O crossdresser encheu a banheira, e depois espalhou várias essências nela... e logo após, ambos entraram nela. Gackt continuou acariciando o corpo do amante, e o beijou nos ombros. Aconchegando-se atrás dele, sussurrou em seu ouvido:
- Mana... quer fazer de novo?
- Hum...? Sexo?
- É... foi fácil, não foi...?
- Foi sim... mas... hum, aqui...?
- É, na banheira... assim você prova em vários ambientes...
Mana sorriu.
- Está certo... mas... faça com carinho, tá? Não é porque a primeira já foi, que as outras poderão ser bruscas...
- Claro que não, minha linda boneca...! Eu disse... eu disse a você... que uma linda flor como você não se força. E não é só para a primeira vez que falei aquilo...
Sendo assim, Gackt tomou a Mana para si novamente... e sentiu que o prazer de estar com ele, tão superior aos demais...
OoOoOoOoOoOoO
Ao final de mais aquela transa, Mana e Gackt ainda se beijavam na banheira.
- Un, Mana... foi tão bom... você é tão diferente... de tudo que tem por aí...!
- Em... em que sentido?
- Em todos...! Você é atencioso, você é magnífico... e, Mana... depois de transar com você, é como se o, digamos, "efeito" da transa ainda ficasse... por mais meia hora no corpo! É a primeira vez que me sinto assim, é sério...
- Hum... então eu posso dizer que estou sendo especial pra você?
- Muito...
Ambos se beijaram mais uma vez, e então Mana saiu da banheira. Enxugou-se, vestiu uma cueca (ele usava cueca quando não se vestia estritamente de mulher) e por cima um dos corriqueiros kimonos azuis. Lembrava um roupão ocidental...
- Gakuto, pode ficar aí mais um pouco se desejar... eu vou fazer alguma coisa pra gente comer, tá bem?
- Oh, Mana, vai se dar a esse trabalho...
- Precisamos comer, ora! E você... vai passar a noite aqui comigo, não vai...? Diz que vai!
- Eu vou sim.
- Oh, que bom...! Qualquer coisa, tenho roupa de dormir aqui... já hospedei alguns homens na casa, então talvez a roupa que serviu pra eles sirva pra você também.
Gackt sorriu, e mandou um beijo a Mana a distãncia. O crossdresser sorriu, e desceu as escadas em direção à cozinha. Gackt saiu da banheira, se enrolou numa toalha e foi fumar mais um pouco...
E de repente começou a pensar... no que Mana lhe falara. De morar junto com ele...
"Ah, cara, morar com um travesti?", pensou Gackt, achando a idéia absurda. "Quer dizer, ele é gostosinho na cama, ele cozinha bem, e além de tudo é realmente uma pessoa especial... mas é... um traveco! Que é que eu vou fazer pra apresentar pros meus conhecidos, 'Ei, cara, esse aqui é meu namorado'? Magine, não tem cabimento!"
E continuou fumando... mas pensou que Mana poderia talvez se ofender ou constranger... pois se ele guardara a virgindade por tanto tempo, talvez esperasse um compromisso...
Não! Ele não podia. Adorava transar com ele, adorava até a companhia dele - mas pra algo mais sério, jamais.
Então, como... se esquivaria?
Enquanto pensava nessas coisas e já estava para lá do quinto cigarro, ouviu a voz do amante chamando:
- Gakuto-san, está pronto! Venha comer!
O cantor apagou o último cigarro e desceu, ainda enrolado na toalha. Ao chegar na cozinha, Mana sorriu pra ele.
- Hum, fica tão bonito de toalha na cintura...
- Você também fica lindo de kimono... hum, o cheiro da comida está uma maravilha!
- Pode se servir... coma o quanto quiser...
Gackt sentou-se, já se sentindo salivar, e comeu. Comeu com gosto. Repetiu, como fizera das outras vezes.
- Hum, Mana, é tão bom...
O crossdresser sorriu... e passou a mão no ombro do amante, com carinho.
- Fico tão feliz... de ter você aqui comigo...
Gackt observou os olhos de Mana, os quais ainda estavam com as lentes azuis... e se assustou. Ele... estava apaixonado. Com um olhar totalmente encantado por si... e depois daquela transa fenomenal então... putz, aí é que ele ia continuar gamado mesmo!
E agora...?
O cantor sorriu para o amante, deixou o prato na pia e começou a lavar a louça.
- Espere, Gakuto, não precisa lavar...!
- Precisa, oras!
- Oh, Gakuto...!
Mana sorriu, pensando que aquilo se dava por ele querer se dedicar a si... mas na verdade, temendo aquele apego todo de Mana, Gackt não queria se sentir em dívida para com ele... em nada.
Enquanto o parceiro acabava de lavar a louça, Mana andava pela cozinha, mexendo em uma mecha de seu longo e negro cabelo de oriental. Olhou para o relógio... já eram dez horas!
- Gakuto, que hora você costuma dormir?
- Ah... sabe como é, solteiro, sem emprego fixo... eu costumo dormir só depois da meia-noite!
- Então a gente pode fazer algo de legal até lá...
- Algo... de legal?
- É... do tipo... jogar video-game?
- Ah, você quem sabe!
- Mas hoje eu quero jogar algo um pouco mais "light", como Mario Kart. O que acha?
- OK, deixa só eu guardar isso... onde costuma guardar sua louça, Mana-chan?
- Aqui... - o crossdresser indicou o armário onde guardava as coisas, e após isso foi até a sala ligar o game. Gackt ficou olhando, admirando o perfil esguio e bonito dele. "Hum, rapaz... eu sei que esse apego dele pode ser perigoso, mas... como resistir a uma coisinha gostosa dessas?"
O vocalista guardou as coisas e foi ter com Mana no sofá. Jogaram Mario Kart por horas seguidas, na verdade mais ainda do que as duas horas as quais se propuseram... e Mana ganhou todas!
- Ora, Mana, quem diria que uma moça jogaria video-game tão bem...!
O guitarrista fez uma expressão indignada.
- Eu não sou uma moça...!
- Ah... me desculpe! Mas mesmo um... um crossdresser... a gente não imagine que vá se interessar tanto assim por games!
- Pois eu adoro games... e jogo melhor do que você, que não se traveste!
Ambos riram.
- É, tem razão. Mas veja, está um pouco tarde... não acha melhor a gente dormir?
- Verdade! Que coisa, desse jeito nem vai dar pra fazer o meu cooper de manhã...
- Deixa, Mana! Fique comigo na cama até mais tarde...
Aconchegando-se nos braços de Mana, Gackt beijou seu rosto, e Mana sorriu. Estava se sentindo tão feliz...
- Ei, Mana, ainda está com a maquiagem? Não tirou na hora do banho?
- Não... só tiro na hora de dormir. Com sabonete especial, todos aqueles apetrechos que usualmente as mulheres usam...! E depois passo cremes, e tudo mais...
- Ah, sim... bem... como eu não tenho maquiagem pra tirar, você se importa... se importa se eu for dormir na sua frente?
- Claro que não, ma chérrie! Deve estar com sono... faça o seguinte, sabe aquele armário grande que tem no quarto?
- Sei...
- Então... nele, tem vários pijamas. Alguns meus, outros que eu uso pra emprestar pros hóspedes. Pegue um do seu tamanho e... se vista! Fique à vontade, sim...?
Gackt sorriu, e beijou Mana num selinho. Em seguida, subiu as escadas e entrou no quarto. Viu que o cheiro da cera das velas, as rosas, tudo aquilo ainda se encontrava muito presente... e pensou... pensou que queria transar com ele muitas outras vezes! Céus, que droga potente era aquela...! Que tesão...! E que esmero pra se arrumar, pra se pintar, pra se perfumar, pra tudo...!
Enquanto encontrava e colocava o pijama, ouvia os passos de Mana no corredor, indo ao banheiro para fazer seu "ritual de demaquilação e hidratação de pele". Após estar pronto, recolheu as pétalas da cama, guardou-as na sacola que trouxera e deitou-se enfim. O sono começava a bater... afinal, duas transas, mais de dez cigarros, comidinha gostosa... hum... fora um dia e tanto!
Virou-se de lado e quase pegou no sono. Quase, pois antes que dormisse de fato, escutou os passos de Mana ao entrar no quarto. Ouviu o amante acender o abat-jour e deitar a seu lado... e quando olhou para ele...
Foi um choque. De repente, Gackt se deu conta de que nunca, nunca antes, havia visto Mana completamente sem maquiagem. E ele não era feio, pelo contrário era até bem bonito... mas... mas lembrava a um homem.
É. Um homem.
Tinha rosto de homem, e isso denunciava, mais do que o fato de Mana ter voz grossa, ou até mais do que o pênis que Gackt masturbara apenas algumas horas antes, que ele havia se deitado com... um homem. E não com uma mulher.
Naquele momento, naquelas poucas frações de segundo, lembrou do primeiro encontro com Mana, no restaurante de "ramen". Lembrou que, na primeira vez em que escutara a voz do travesti, pensara que era um homem dublando por trás de alguma parede, ou debaixo de uma mesa. E então...
E então, naquele momento, com Mana de "cara lavada", era como se o "verdadeiro Mana" houvesse saído de trás da parede, e trocado de lugar com a moça. A moça... fora ralo abaixo, junto com o demaquilante.
Meu Deus, ele era realmente homem!
E o pior disso tudo... é que Mana somente resolvera trocar de lugar com a moça após eles transarem. Duas vezes. E depois de infindáveis beijos na boca! E depois de todo aquele "carnaval" só pra tirar a virgindade dele!
Gackt quase sentiu nojo. Seu estômago se revirou, e ele... ele não teve coragem de olhar Mana no rosto outra vez.
Virou para o lado oposto ao que Mana se encontrava, mas o crossdresser o abraçou de "conchinha". Para piorar a situação, encostou-se todo nele e sussurrou em seu ouvido:
- Estou tão feliz de estar aqui... Gakuto-san... você é a primeira pessoa que divide cama comigo... eu adoro você.
O guitarrista beijou o lóbulo da orelha do cantor, acariciando seu peito enquanto o fazia. Longe de isso vir a excitar Gackt, apenas o fez... se sentir ainda pior...
A vontade que tinha era levantar da cama, sair andando, voltar pra casa e nunca mais voltar lá. Mas e agora...? Seu trabalho também dependia daquilo... dependia de ter Mana como seu "patrão" quase... e como...? Como então ficar ali, naquela cama, naquela casa, se não gostava...? Se finalmente a razão se sobrepusera à emoção, e ele enfim percebera que Mana era incrivelmente homem?
Também, pra quê ele insistira tanto naquele projeto absurdo... de tirar a virgindade dele? Agora era aquilo! O travesti estava gamado, e ele... ele conseguira levá-lo pra cama, mas a que custo?
Se não fosse tão, tão impulsivo... se não houvesse pensado só com a cabeça de baixo...! Se houvesse ao menos... refletido sobre
isso, pedido pra ver ele sem maquiagem antes, sei lá, qualquer coisa...! Encantara-se por toda aquela "produção" feminina, que não passava disso mesmo... uma produção! E ele caíra naquilo...!
Mana percebeu que havia algo errado com o amante... e lhe perguntou.
- Gakuto, o que você tem...?
- Ahn... nada... eu acho... que não estou muito bem do estômago.
- Oh, céus...! Acho que exagerei no tempero...!
- Uhn... deixe pra lá, Mana... eu logo vou ficar bem.
- Pobrezinho... - o guitarrista se apoiou, recostado, em cima de um cotovelo, e com a outra mão acariciou os cabelos e os ombros de Gackt - Pobre, pobre Gakuto... eu acho que exigi demais de você hoje, sim...? Fez tanto só pra me dar uma noite perfeita...
O modo sussurrado de Mana falar, tão perto de seu ouvido, num modo que era parecido com o de uma mulher sussurrar, mas o timbre... o timbre inconfundivelmente masculino, fez com que ele ficasse ainda pior. Gackt suspirou.
- Quer que eu faça um chá pra você, amour...? - perguntou Mana, solícito. Era isso! Gackt pensou que devia aceitar, pois assim ficava ao menos alguns... minutos... longe daquele... daquele homem, que lhe seduzira com maquiagem e rendas!
- É, tudo bem... eu agradeço.
- Eu já volto, amour... já volto pro nosso ninho de amor...
Sem que o cantor esperasse, antes de sair Mana lhe deu um beijo. De língua. Gackt teve de fechar os olhos e tentar pensar, incessantemente, no rosto de Mana maquiado. Somente assim ele conseguiu levar o beijo até o final sem vomitar.
Quando Mana enfim saiu do quarto pra fazer o chá, Gackt enfim respirou. Socou o travesseiro, com raiva.
- Caramba, e essa agora! Perdi até o sono!
Levantou, foi até a sacada e ficou observando a paisagem. Sua vontade era de pular, imediatamente, dali pra baixo.
- Inferno!
Pensou no cigarro, mas trouxera apenas um maço... e o primeiro, que já viera começado de outro dia, já acabara. Que droga, nem o consolo do fumo ele tinha!
Tomou o ar fresco lá fora, pensando no que fazer. Procurava um emprego novo? Mudava de cidade? Voltava pra casa dos pais? Tinha de se afastar de Mana, antes que a coisa ficasse realmente séria!
E ele, que horas antes lhe dissera palavras tão bonitas, que elogiara tanto a sua beleza... qual! Meia dúzia de panos, de rendas, de anáguas, espartilho, meias, perfume estrangeiro... e maquiagem! Toda uma tralha, uma inútil tralha, feita só pra seduzir! Pois sim!
Sentiu raiva. E ele, que apenas uma semana antes dissera que não saberia o que fazer caso visse alguém querendo bater em Mana, sentiu ganas de ir lá embaixo e esmurrá-lo. Esmurrá-lo por não ser mulher, por ser tão lindo como crossdresser, e por ter aceitado transar com ele mesmo sendo homem.
Suspirou de nervoso. Tinha de se acalmar. Agora não tinha mais jeito, tinha de dormir ali - abraçadinho com o traveco! E agora sem sono ainda...
Não muito depois, Mana voltou com o chá - e viu Gackt sentado na cama.
- Está melhor, amour?
Gackt teve de respirar fundo, para aparentar calma. Em seguida disse:
- Estou... mas acho melhor beber o chá mesmo assim.
- Aqui está...
Sem coragem de olhar para o rosto masculino de Mana, Gackt tomou o chá das mãos dele e bebeu. De um gole só. Em seguida, ainda sem olhar para Mana, devolveu-lhe o recipiente. Mana colocou-o em cima da cômoda do quarto, e estranhou... o fato de Gackt sequer lhe dizer um "obrigado". Mas pensou que ele estava mal e não lembrara... portanto, deixou passar.
Gackt deitou na cama, ainda para o lado oposto do amante. Mana deitou um pouco longe dele...
- Gakuto... eu vou ficar aqui, para não atrapalhar o seu sono, tá bem?
- Ah... tudo bem, Mana.
"Melhor assim!", pensava, enquanto tentava pegar no sono... mas ainda demorou. E quando enfim dormiu... sonhou com o Mana homem saindo detrás da parede do restaurante de "ramen" e matando a linda moça com quem ele, Gackt, se deitara naquela noite mesmo.
To be continued
OoOoOoOoOoOoO
