"Caro Sirius,
Serei honesto: essa sua carta me deixou muito tempo sem saber o que responder. Você não teve condições de colocar uma data e ela veio parar em minhas mãos de um jeito inusitado. Como calcular o tempo real que se passou? Anos? Essa é a sua percepção, Padfoot. Mas um dia em Azkaban pode se passar com a lentidão de anos. Então eu penso que a crueldade da pena não tem limite: condenados a estagnação e alienação, sem nada para somar a passagem do tempo além da própria consciência. E aí está você, meu precioso companheiro das bravatas infantis, mal podendo distinguir o que é realidade e o que é uma peça pregada por uma mente torturada e acuada. Seu sofrimento foi enorme, Sirius. E injusto. Alguém deveria ter dito praquelas crianças cheias de esperança que a vida tem esse senso de humor duvidoso. Sonhávamos o futuro que nunca será alcançado. Mas não é de sonhos que a vida é feita? Quando isso nos é tomado, o que sobra? Será esse o principio de Azkaban? Onde temos nada, nem mesmo um simples sonho para acalentar a existência, pois essa própria existência é nada mais que um pesadelo? De pesadelos entendo bem, Padfoot. Tenho a impressão de viver em um sonho de angústia do qual desperto uma vez por mês, sempre às Luas Cheias, e quando a bestialidade vem a mim... então é a minha real essência se libertando. Baboseiras de um velho tolo e sem esperanças. Divagações sem sentido. Penso quando iremos nos encontrar, Padfoot. Ah, talvez nem tudo esteja perdido! Minto ao dizer "sem esperanças", pois você é a minha esperança, Sirius. Você é toda a esperança que tenho pelo futuro. E é tão forte que me impulsiona. Por ter conseguido manter durante anos uma vitória que eu, em seu lugar, não manteria por semanas. Ilusão ou realidade? O necessário para que você não deixasse de ser quem você é. O homem que eu admiro. Eu pensei bastante ao ler essa tua carta sobre a possibilidade de enviar minhas respostas e aguardar. A dúvida sobre o que aconteceria me manteve distraído e roubou o foco de meus pensamentos por alguns dias. Confesso que sou covarde. Não pude remetê-las. Me agarro a incerteza, já que confirmar minhas suspeitas poderia estilhaçar a esperança que depositei sobre seus ombros. Eu sei, Padfoot. Crescemos, amadurecemos, erramos e aprendemos... mas algumas coisas nunca mudam! Que bom que seja assim! Ainda despejo meus dramas sobre você, mesmo que já tenha carregado tanto! Eu pediria seu perdão, como já pedi em cartas anteriores, mas... você me entende, não é? Você me aceita e me acolhe, porque você é o único, dentre todos, que me compreende por completo. Padfoot, eu não quero a culpa de não ter dito tudo o que eu queria. Sirius, eu sempre am[riscado]. Preciso parar por aqui. Eu... talvez pior do que guardar um segredo seja revelá-lo no momento errado. Esteja bem,
Moony
PS: nunca irei me acostumar com você sendo tão formal comigo! De verdade...
PS2: Você se arrepende das coisas que vez, Padfoot? E das que não fez por medo? Eu tenho medo, sabe... medo do que guardo. E de ser tarde demais..."
