Disclaimer: Se Harry Potter fosse meu, provavelmente não teria havido Harry Potter. Só o Snape. E algumas mulheres bem selecionadas para arrancá-lo de sua miséria. E talvez alguns Comensais da Morte. Como a vida não se parece em nada com os sonhos Harry Potter pertence a J.K. Rowling e seus afiliados comerciais e por causa disso Snape está morto. Nenhum dinheiro será obtido com essa publicação.


As Areias do Tempo

O Fabuloso Destino de Jane Greengrass


E um volver de teus olhos transparentes

Um olhar dessa pálpebra sombria

Talvez pudessem reviver-me n'alma

As santas ilusões de que eu vivia! – Alvares de Azevedo


Julho de 1976

Andava de um lado para o outro, apoiada firmemente em sua bengala, sulcos profundos formados na terra, um caminho perfeitamente marcado do percurso que fazia todo o santo dia desde aquela maldita visão. Se não soubesse que era, de fato, uma vidente absolutamente talentosa já teria começado a duvidar de si mesma.

Já fazia quatro anos e desde então, religiosamente, sempre no mesmo horário ao pôr-do-sol ela vinha aqui, esperando. Sempre esperando a mulher aparecer.

Cassandra Trelawney era uma mulher impressionante. Na juventude fora dona de uma beleza exótica e morena, herdada do homem misterioso que havia seduzido a herdeira virgem de uma poderosa família puro sangue e fugido logo depois para retornar a vida nômade de um Romani, uma beleza que fazia palpitar o coração dos jovens a quem ela jamais se entregou ou ao menos se interessou. Tinha sete anos quando previu quem seria seu marido e foi por ele e apenas para ele que ela se guardou.

Clarividência, o dom da profecia, ver o futuro. Ao longo da história o desejo de se descobrir o destino, a chance de poder controlar suas escolhas assolava a humanidade, curiosidade corroendo-os por dentro. Ah, mas eles não tinham que suportar o fardo. Os tolos vinham, ouviam sobre suas vidas e absorviam apenas o que queriam, sobre eles não pesava a sombra do conhecimento. O mau agouro da morte vindoura que vem ceifar as vidas daqueles que amamos. E por isso ela trazia aquele olhar sombrio, por isso seus ombros se curvavam sob um peso invisível. Porque o conhecimento do futuro é capaz de extinguir a chama de vida mais ardente, pois os pesares do mundo muitas vezes enterram as alegrias de viver.

Ela ergueu os olhos para o céu que já se tornara escuro, suspirando de pesar ao constatar que o tempo havia passado e mais uma vez nada acontecera. A mulher não estava ali. Talvez se ela esperasse apenas mais um pouco...

_ Vovó venha pra dentro, a senhora vai acabar congelando aqui fora.

Cassandra se virou de repente ao som da voz de neta mais nova. Sibila estava parada por entre as ramas das árvores, seu corpo frágil e magro lutando contra o frio repentino que se abatera na Inglaterra, embora fosse pleno verão, estava envolta em muitos xales que faziam com que parecesse ainda mais pequena, seus olhos dois pontos brilhantes por trás das lentes grossas dos óculos – Eu não entendo porque vem aqui todos os dias.

_ Estou esperando, minha querida.

_ Esperando o quê? – sua voz se elevou algumas oitavas com a exasperação.

_ Aparentemente alguém que nunca virá. Venha cá e ajude uma velha senhora a encontrar o caminho para o calor de uma boa lareira.

Sibila se adiantou, tropeçando na barra da saia que vestia, mas quando suas mãos pequenas encontraram o braço envelhecido de sua bisavó seu aperto era firme e seguro. Quando ambas as mulheres se viraram, em direção ao estreito caminho que levava a casa um clarão irrompeu atrás delas que se viraram assustadas, olhos arregalados para a figura que jazia caída no chão.

Cassandra correu em direção à mulher, erguendo a mão num silencioso agradecimento e ao mesmo tempo sorrindo um tanto satisfeita com o conhecimento de que seu dom jamais falhara com ela, nem mesmo uma vez. Ela se ajoelhou ao lado da mulher, com alguma dificuldade é verdade, estendendo uma mão um tanto trêmula para o rosto bonito e afastando um cacho rebelde de seus olhos.

Era ela. A mulher com a qual havia sonhado há tanto tempo e cuja chegada aguardava ansiosamente. Quando seus dedos encontraram a pele macia da moça os olhos de Cassandra tornaram-se brancos e a sua frente, com a clareza da realidade nua que se estendia ao seu redor, ela viu o que precisava ser feito, embora a natureza de suas visões fosse tão etérea como uma nuvem de puro vapor nos céus.

_ É uma noiva. – disse a voz assombrada de Sibila enquanto ela se ajoelhava ao lado da avó, seus dedos tocando cuidadosamente a renda bordada do vestido branquíssimo e falava num sussurro quase inaudível – Quem é ela? De onde veio? Porque está aqui? É seguro chegar assim tão perto?

No lugar de responder, até mesmo porque não tinha uma resposta de fato, Cassandra estendeu as mãos para o pequeno medalhão dourado nas mãos da jovem, guardando-o cuidadosamente nas dobras de seu vestido, longe do olhar de sua neta.

_ Venha, vamos levá-la pra dentro antes que fique doente – erguendo-se ela retirou sua varinha e apontando-a para a mulher conjurou mantas quentes que a cobriram e então a levitou suavemente todo o caminho até a casa.

Hermione abriu os olhos apenas para fechá-los com força quando o teto começou a girar sobre sua cabeça. Respirando fundo ela tentou de novo e dessa vez, agradecidamente, tudo permaneceu imóvel. Ela tinha uma dor de cabeça incrível e não se lembrava direito de como acabara deitada, mas sabia que precisava se levantar depressa porque tinha algo importante a fazer.

_ Nem pense nisso mulher, você precisa ficar deitada.

Ela havia se erguido nos cotovelos, preparando-se para se sentar quando a voz estranha a alcançou e ela se virou assustada, encontrando uma mulher sentada numa poltrona ao lado de sua cama. Era uma figura bastante impressionante.

A mulher já parecia bastante velha, mas havia muita força emanando por detrás daqueles olhos escuros, realçados pelo traço escuro que os contornava. Estava vestindo um longo vestido azul, de um tecido tão delicado que era como se vestisse uma camada fina de água sobre o corpo, um turbante dourado escondia seus cabelos que, Hermione tinha certeza, eram completamente brancos.

_ Quem é você? – Hermione fez a primeira pergunta que lhe ocorreu, embora muitas outras estivessem brigando por um lugar em sua boca, principalmente depois que ela constatou que não fazia a mínima idéia de onde estava ou como viera parar ali.

_ Você pode me chamar de Cassandra.

_ Onde eu estou?

Cassandra se recostou nas almofadas macias em que estava apoiada, olhando criticamente a mulher à sua frente – Eu temo que a pergunta mais pertinente e urgente nesse momento, minha cara, não seja onde, mas quando.

Hermione arregalou os olhos, tentando entender as implicações do que aquela mulher dissera, uma vasta gama de possibilidades tomando forma em sua mente extremamente racional. O diário, o vira-tempo, seu casamento... Snape!

_ Quando? – ela falou, num sussurro.

Cassandra olhou-a criticamente, medindo cuidadosamente o que falar. Como falar.

_ Hoje são 14 de julho de 1976. – ela decidiu pela verdade simples.

_O QUÊ? – Hermione gritou, tonando-se imediatamente afobada. – Não, é impossível... eu não pretendia voltar tanto tempo... Apenas alguns anos... Onde está o vira-tempo? Onde está? Eu preciso voltar... meu casamento...

Ela continuou balbuciando, as vezes frases inteiras ininteligíveis, agitando-se cada vez mais antes que, sem cerimônia alguma, Cassandra empurrasse uma xicara em suas mãos trêmulas, ordenando secamente que bebesse sem reclamar.

_ O que é isso?

_ É um chá e uma poção calmante. Nós temos muito o que conversar e eu preciso que você pare de balbuciar coisas sem sentido.

Hermione bebeu calmamente, não sem antes dar uma boa fungada no chá, tentando reconhecer o conteúdo. Ela bebericou, apenas um golinho e já sentiu-se melhor. Aquecida por dentro e bem mais calma. E então ela tomou um longo gole, antes de descartar a xicara no criado-mudo ao lado de sua cama e recostar-se mais uma vez.

Cassandra pigarreou – Então... pode começar a me contar como veio parar aqui?

Hermione olhou para aquela mulher impressionante que a olhava em troca tão atentamente. Ela sabia que o que fizera era muito perigoso, sem contar que a garantia uma passagem só de ida direto para Azkaban e que compartilhando os detalhes do seu delito com qualquer pessoa a colocava cada vez em perigo maior, mas não conseguia afastar a sensação de que poderia confiar nessa estranha mulher. E foi com um suspiro resignado que ela começou a contar sua história, impelida a falar, seja pela confiança que sentia pela mulher, seja pelo conteúdo suspeito do seu chá.

Ela falou durante muito tempo e sobre várias coisas. Contou sobre a guerra, sobre o acidente com a sua mãe. Falou sobre as coisas terríveis que havia visto e feito. Sobre Ron. Sobre Harry. Sobre Gina e Luna e Neville. E todos os que morreram. E Dumbledore. E seus medos. E seu casamento. E tantas coisas inúteis e frívolas que ela sentia que precisava colocar pra fora. E Cassandra ouviu atentamente, pacientemente.

Quando ela finalmente terminou de falar, fungando e enxugando as lágrimas, Hermione sentia-se abençoadamente esvaziada, como se um peso muito grande tivesse sido removido dos seus ombros.

_ Bem, isso explica muita coisa. Interessante... muito interessante de fato. Agora, eu temo minha querida, que você não possa voltar imediatamente para o seu tempo.

_Porque não?

Muito lentamente a mulher estendeu sua mão para Hermione e em sua palma jazia inerte o seu vira-tempo, novamente quebrado.

_Oh! – foi tudo o que conseguiu dizer – Mas eu não posso ficar aqui! Já seria perigoso se a senhora tivesse somente me visto, quanto mais tendo ouvido tudo o que eu te contei! Não sei o que pode acontecer, mexer com o tempo pode ser desastroso!

_ Bem, minha cara, isso é óbvio. Talvez, se você tivesse pensado melhor nisso, antes de tentar voltar no tempo, toda essa confusão poderia ter sido evitada.

Hermione despencou de volta nos seus travesseiros, a culpa triste e amarga voltando a pesar sobre os seus ombros.

_Felizmente... eu talvez conheça alguém que pode ajudá-la, se você estiver disposta a compartilhar seus segredos com mais alguém. Não se preocupe, é alguém que está acostumada a lidar com todo o tipo de coisas secretas.

Hermione olhou longamente para Cassandra, e percebeu que infelizmente não tinha escolha a não ser confiar no juízo da mulher e rezar para que ela estivesse certa. Ela deu um aceno tremulo de cabeça.

_Muito bem, mas por enquanto nós devemos criar uma identidade pra você, minha querida. Porque na minha opinião já tem gente demais nessa casa se perguntando quem você é.

Hermione tornou a dar um aceno fraco, engolindo em seco. E agradeceu novamente a Mérlin por ter-lhe concedido uma memória tão boa, conforme Cassandra mergulhava nas minúcias do que viria a ser sua nova identidade, ao menos provisoriamente.

Foi muito tempo depois que Cassandra já tinha ido, que Hermione, agora tentando memorizar um novo nome e história, percebeu que embora tenha lhe contado quase toda a sua vida, nunca chegou a mencionar Severo Snape.


Severo esticou-se lentamente, mesmo em seu estado obnubilado ele ainda sabia que não podia rolar muito na cama demasiadamente estreita ou acabaria de cara no chão. Quando ele tomou coragem para sentar-se na cama, bocejando e esfregando os olhos ao mesmo tempo, já haviam se passado quinze minutos desde que o despertador tocou. Como ele gostaria de simplesmente deitar de novo e cobrir a cabeça para aproveitar mais algumas horas de sono, mas sabia que era impossível.

Ele levantou, meio cambaleante e foi imediatamente desperto quando o pé colidiu dolorosamente com a cômoda que ficava espremida ao lado da porta e ele deixou escapar uma dúzia de palavrões que envergonhariam uma prostituta. Abriu a porta cuidadosamente, escutando atentamente. No final do corredor estreito, atrás de uma porta fechada ele podia escutar o ronco do seu pai, reverberando pelas paredes finas e pensou estupidamente que se parecia demasiado com o som de um porco. O que não o surpreendeu, afinal de contas, já que o sujeito – que ele não ousava chamar de homem - dormindo por trás daquela porta, definitivamente era um.

Ele se dirigiu para o banheiro, ligando o chuveiro para esperar a água esquentar, o que não acontecia as vezes. Enquanto esperava ele deu-se uma olhada rápida no espelho acima do lavabo e imediatamente se arrependeu, fazendo uma careta.

Não podia ver muita coisa, pois o espelho estava todo manchado de preto graças à infiltração da parede onde ele fora fixado. Já havia alguns anos que ele havia abandonado a esperança de ser bonito. Simplesmente não aconteceria.

Desse modo o reflexo de um adolescente pálido, com longos cabelos muito negros, nesse momento revolvidos numa espécie de ninho no lado esquerdo da cabeça e um nariz que parecia continuar a crescer continuamente e que agora era um pouco torto depois de ter sido quebrado por James Potter no último semestre, o encarou de volta. Ele ainda conseguia visualizar o pescoço e o início do tórax, os ossos da clavícula se destacando sob a pele fina. Mas ele deu um sorrisinho, ainda um tanto orgulhoso da recente penugem negra que havia surgido no peitoral.

Ele esticou o braço esquerdo, testando a água, que misericordiosamente estava morna, embora nem de longe tão quente quanto ele gostaria nessa manhã estranhamente fria. Com um suspiro ele se despiu rapidamente e entrou debaixo do chuveiro.

Ele desceu em direção à pequena cozinha ainda enfiando um dos braços pela manga do moletom muito puído, amaldiçoando as escadas rangentes, quando ouviu Tobias xingar de dentro do quarto, antes de voltar a roncar. Com um pouco de sorte ele conseguiria sair antes do pai acordar, o que, por si só, já evitaria uma grande dor de cabeça.

Sua mãe já estava acordada e, espremida entre o fogão e a mesa pequena, terminava de coar o café. Ele afundou suavemente na cadeira, apoiando o queixo da mão e olhando para as costas de Eillen.

Como ele, ela era também muito magra, os pulsos finos agitando-se quando um pouco de água fervente escorreu em suas mãos. Ele também tinha herdado dela os cabelos negros e finos e a pele pálida. Quando ela se virou e colocou a garrafa de café na frente dele, Severo pode ver a sombra verde/azulada que cobria o lado direito do seu maxilar, ainda que ela tentasse esconder jogando pra frente o cabelo comprido. As rugas há muito já haviam se insinuado ao redor dos seus olhos, e ele podia notar o cinza cada vez mais evidente onde antes só havia o negro dos seus cabelos. Se ele a visse passando por ele na rua, adivinharia que estaria beirando os cinquenta anos. Severo sabia que ela ainda não tinha passado dos trinta e sete.

Ele derramou para si um pouco de café em um copo rachado, embalando-o em suas mãos para o calor. O silêncio se estendia entre eles, denso e desconfortável, mas nenhum deles conseguia pensar em algo para dizer. Em algo agradável, pelo menos. Ela empurrou um prato com um pedaço de pão com manteiga, mas ele recusou, concentrando-se no gosto meio amargo do café.

_ Eu ainda não vi a Lily – ela disse de repente, encostada no fogão, com os braços cruzados sobre o peito e olhando-o de cima com uma expressão ilegível. – Não desde que você veio para as férias.

Severo preferiu encarar o fundo do copo de café, vendo o pozinho negro que havia escapado ao coador de pano rodopiar lá no fundo, quase hipnoticamente. Ele pensou que o silêncio constrangedor era uma alternativa bem melhor, do que a questão que ficou solta no ar entre eles. Ele engoliu em seco.

_ Nós... – pigarreou e tentou novamente – Nós não estamos mais conversando.

A mãe continuou a olhar para ele, com aqueles olhos castanhos sem brilho, mas que pareciam invadir sua alma. Ela abriu a boca para dizer mais alguma coisa, mas foi rapidamente cortada.

_ Eu não quero falar sobre isso. – disse rapidamente, ainda evitando os olhos dela. Bebeu de um gole só o resto do café e fez uma careta para o amargor intenso que se concentrava no fundo do copo. Ele se levantou, enxugando a boca na manga e virando-se para sair e quase trombando com seu pai. Severo não tentou esconder a expressão de nojo.

Tobias ainda era um pouco mais alto que o seu filho, e por isso ainda podia olhá-lo de cima. Mas bem, ele pensou amargamente, o menino ainda tinha alguns anos para crescer e ele tinha certeza que se tornaria tão alto quanto ele. Severo também havia herdado os seus olhos escuros e embora sua voz ainda estivesse mudando, ele podia adivinhar que se transformaria no tom sedoso e profundo que ele mesmo um dia possuíra. Mas as semelhanças terminavam aí e ele não fazia ideia de onde o menino havia herdado o nariz.

Tobias Snape era um homem grande. Alto, com ombros largos e braços poderosos. Ele havia sido lutador de boxe nos primeiros anos de sua juventude, mas havia rapidamente sido expulso de todas as academias que frequentara, porque não conseguia deixar de arranjar briga e sempre bebia demais. Nessa época ele era uma figura bonita. Não o tipo clássico de beleza, mas ainda assim impressionante. O corpo era formidável, repleto de músculos que cobriam a pele levemente bronzeada. O cabelo castanho aloirado cortado em estilo militar, os olhos escuros sempre vigilantes e um cigarro pendendo nos lábios cheios. Eillen nunca teve a menor chance, quando ele decidiu cortejá-la.

Atualmente, no entanto, o homem refletia toda a decrepitude dos rumos que sua vida havia tomado. Ele continuava largo e os braços continuavam a ser fortes, como demonstrava o hematoma do rosto de Eillen, mas ao invés dos músculos de outrora eles estavam gordos e flácidos. A barriga pendia sobre o cós da calça, e escapava sob a regata suja de gordura e bebida e muito apertada deixando uma faixa de pele morena e peluda a vista. No topo da sua cabeça já não crescia cabelo algum, e o resto de cabelo que ainda existia estava grande demais, sujo e despenteado demais caindo sobre as orelhas. Mas um cigarro continuava pendendo sob os lábios cheios.

Tobias e Severo se encararam longamente, olhando nos olhos um do outro com puro desprezo, um se recusando a ceder espaço para o outro passar. Houve um tempo em que Tobias não teria escrúpulos ao tirar o filho do caminho com um safanão, empurrando-o longe. Mas não mais. Severo ainda era um moleque franzino, e obviamente fisicamente mais fraco, mas havia magia nele e não tinha havido surra ou castigo que tivesse conseguido extirpar essa maldição do mesmo jeito que ele fizera com Eillen. Se pressionado demais, Tobias havia aprendido uma lição amarga, o garoto acabaria por manifestar a magia e normalmente de uma forma muito dolorosa. E foi por isso, somente por isso, que ele se afastou ligeiramente, apenas o suficiente para Severo passar sem tocá-lo.

Severo se afastou rapidamente para o quintal, uma veia ainda pulsando em sua têmpora, porque apenas respirar o mesmo ar que o pai era capaz de deixa-lo fervendo. Ele chutou aberta a porta de um armário pequeno e prestes a desmoronar que ficava no canto do quintal, ao lado do tanque de lavar roupas e retirou sua vassoura, muito velha e muito acabada, mas ainda assim eficiente. Ele havia acabado de montá-la, os olhos perseguindo ao redor para se certificar que não estava sendo visto, quando os gritos no interior da casa começaram. Ele fechou os olhos brevemente, mas deu um impulso com os pés e já estava voando disparado no céu em direção a Londres, antes que o primeiro copo fosse arremessado dentro da cozinha.

Ele pousou a vassoura no terraço d'O Caldeirão Furado, jogando-a rapidamente sobre o ombro antes de descer as escadas em direção ao térreo. Mesmo às sete e meia da manhã, na sua opinião adolescente uma hora tão ímpia, o lugar estava fervendo com o movimento. O velho atendente, estava atrás do balcão, limpando com um pano uma caneca, e cumprimentou-o cordialmente quando ele passou correndo:

_ Não vai parar para o café hoje, Snape? – o velho sorriu para o rapaz, ainda lhe restavam alguns dentes e ele parecia ter a estranha mania de querer exibi-los tanto quanto fosse possível, assim como a mania de pentear para o lado esquerdo da cabeça os poucos fios de cabelo que ainda tinha.

_ Não Tom. – ele virou-se rapidamente, ainda caminhando em direção aos fundos do bar – Eu já estou atrasado.

E com um último aceno eles se despediram. Snape sacou sua varinha, batendo cuidadosamente nos tijolos certos para abrir a passagem que o levaria ao Beco Diagonal. Ele se permitiu parar apenas para respirar fundo, apreendendo os milhares de odores desse lugar que ele tanto amava. O Mundo Bruxo era sua verdadeira casa, muito mais do que o barraco em que morava durava os verões na Rua da Fiação.

Aqui, havia sempre uma cacofonia de sons e cheiros e imagens e texturas... todos os seus sentidos atacados pelas mais diversas sensações. Ele não gostava das grandes multidões que o cercavam, mas a essa hora do dia o movimento ainda não tinha começado pra valer e achava a experiência de andar pelas vielas quase agradável. Ele nunca conseguiu afastar completamente a sua primeira impressão desse lugar, quando sua mãe o trouxera e ainda era pequeno o suficiente para agarrar-se as saias dela assombrado pela visão do que se estendia a sua frente. É claro, muito do assombro tinha se perdido nos últimos anos, mas uma pequena pontinha dourada de admiração ainda estava lá e ele tinha sensação de que sempre estaria.

Ele se dirigiu a passos largos em direção à Travessa do Tranco, passando pelas ruas e becos que agora já lhe eram muito familiares. Quando ele chegou ao seu destino ele testou a fechadura e como sempre a porta ainda estava trancada. Rapidamente ele pescou uma chave no seu bolso traseiro e abriu a porta, fazendo tinir o pequeno sino que ficava sob ela. Do lado de dentro já se podia ouvir todo o tipo de zumbidos estranhos que provinham da saleta no fundo da loja em que a proprietária passava o dia trabalhando em completo mistério. Com um suspiro ele percebeu que durante a noite a mulher havia desfeito todo o seu trabalho do dia anterior.

_ Eu já cheguei Sra. Greeengrass! – ele gritou irritado, sem esperança de ser notado pela mulher, enquanto se abaixava para recolher o primeiro livro do chão e colocá-lo de volta na prateleira.


_ Jane. – ela repetiu pra si mesma, encarando seus próprios olhos no espelho na tentativa de soar convincente – Jane Greengrass.

Não adiantava. Ela olhava para si mesma repetindo seu novo nome diversas vezes, mas ainda soava terrivelmente estranho em seus ouvidos. Não era Jane Greengrass que a encarava de volta, era Hermione Granger. O que era engraçado, pois durante os últimos tempos Hermione Granger era a última pessoa que ela desejava ser, mas de quem agora não conseguia se desapegar.

Ela estava um pouco diferente. Começando pelas roupas, que ela achava tão estranhas. Mas então, acostumada com a moda dos anos 90 e de repente sendo arremessada na segunda metade da década de 70 poderia causar esse efeito. Ela não tinha certeza se poderia mesmo se acostumar. Tudo que tinha sido oferecido a ela parecia amplo e estampado e colorido demais, mesmo para o padrão das vestes bruxas que ela estava acostumada. O que significava muita coisa, pois ela passou anos testemunhando a excentricidade de Alvo Dumbledore. No final ela transfigurou tudo em algo mais ao seu gosto, e certamente mais discreto e esperou que não estivesse muito fora de lugar, pois tudo o que ela mais desejava era não chamar a atenção. Não a surpreendeu, no entanto, quando mais tarde ela foi informada que as roupas que agora estavam cuidadosamente dobradas em seu quarto pertenciam a Sibila Trelawney.

E eis outra coisa espantosamente estranha. De seus professores em Hogwarts a primeira que Hermione chegou a detestar a tal ponto como abandonar sua classe foi Sibila Trelawney. A mulher sem dúvida parecia uma charlatã, com sua sala cheia de incensos e livros de interpretação de figuras nas borras de café e o eterno cheiro de xerez barato. No entanto ela era, de fato, uma vidente talentosa e uma que previra a queda e ascensão do Lord das Trevas. Mas nesse exato momento ela não era nada disso. Era apenas outra adolescente desajustada que estava se preparando para frequentar o seu sétimo ano em Hogwarts. E Hermione era agora obrigada a se adaptar a essa nova versão de sua antiga professora, e pior ainda uma versão que parecia se esforçar para se tornar sua amiga.

E ela não podia culpá-la, a complexa história inventada por Cassandra colocava-a em um lugar digno de pena. Aparentemente um dos sobrinhos de Cassandra era um aborto. Seu irmão não havia querido a vergonha de assumir um herdeiro que não tivesse poderes mágicos, e ao invés de simplesmente descartá-lo a morte – como comumente acontecia dentre as famílias puro sangue – por amor a sua esposa ele decidiu escondê-lo junto aos trouxas. A criança foi criada por um velho casal, como se fosse seu próprio filho, embora ainda levasse o sobrenome do pai.

Acontece que, obviamente, o menino havia crescido. E se casado com uma trouxa, que lhe deu dois belos rapazes, tão sem poderes mágicos como eles mesmos. E seus filhos então, haviam novamente crescido e se casado. E de um desses casamentos nasceu Jane.

A verdadeira Jane Greengrass havia morrido cedo, ainda bem criança vítima de varíola de dragão. Mas é fato que havia apresentando um talento particular para a magia desde muito pequena, a ponto de chegar a chamar atenção do seu bisavô, que ainda vigiava de longe o filho renegado e seus descendentes. Ela chegou a ser introduzida na família, ainda que meio na surdina, e dentro de uma das caixas empoeiradas no sótão podia ser encontrada a foto de Brutus Trelawney, que em seu leito de morte segurava nos braços uma garotinha de cerca de cinco anos. Infelizmente a doença que acamara Brutus era contagiosa e acabou afetando a menina, que em tão tenra idade não conseguiu superá-la. De forma que o caso todo foi rapidamente abafado e durante muito tempo fingiu-se que nada disso tinha acontecido.

Mas agora Jane Greengrass retornou, buscando o apoio de sua família bruxa para conseguir escapar de um casamento forçado, embora altamente rentável, com um trouxa do ramo petrolífero, que ela suspeitava estava tão somente interessado em abusar da sua magia. De sua família trouxa restava somente o avô, o aborto rejeitado, que aparentemente se ressentia de seus poderes e não nutria, justamente por isso, muita afeição para com a neta.

Essa era a história que Hermione tinha que sustentar, pelo tempo em que permanecesse nessa época. Infelizmente, no estado em que estava, entre muito preocupada, chateada com todas as atenções indesejadas e beirando o desespero, não ocorreu-lhe pensar que essa era uma situação que a colocava permanentemente no seio dessa família e que pareceria muito estranho se ela sumisse repentinamente, como deveria acontecer quando ela voltasse para o seu próprio tempo. Ou o porquê de ela carregar agora o mesmo sobrenome da mulher que havia lhe devolvido completamente restaurado o vira-tempo que a havia trazido para esse lugar no tempo completamente inesperado.

Hermione e Cassandra aparataram juntas na Londres trouxa, dirigindo-se rapidamente para o Caldeirão Furado. A vidente entrou no estabelecimento a passos largos, sem sequer olhar para os lados. Hermione cumprimentou animadamente uma versão mais jovem do barman que ela conhecia, antes de se lembrar que ele provavelmente nunca a tinha visto na vida. Ao menos por enquanto.

Elas ignoraram completamente a parte decente do Beco Diagonal e se dirigiram resolutas para a parte mais sombria, na Travessa do Tranco. Hermione esfregava as mãos juntas, tentando mantê-las aquecidas.

_ Estranho não é? – ela perguntou repentinamente, tentando puxar conversa – Esse frio todo no meio de julho... e bem! Olha essa névoa, com certeza não é normal!

_ São os dementadores – Cassandra respondeu sombriamente – eles estão se reproduzindo.

Hermione reprimiu um arrepio, lembrando-se que da última vez que ouvira falar de dementadores se reproduzindo Voldemort estava começando sua escalada em rumo à dominação do Ministério. E então, ela se deu conta de que provavelmente era exatamente isso que estava acontecendo. Ninguém havia falado nada com ela, mas havia ouvido os sussurros, do poderoso Mago que estava tentando unir as famílias tradicionais da Aristocracia contra a miscigenação dos bruxos.

_ Onde estamos indo? – ela perguntou, notando a familiaridade do trajeto.

_ Vamos encontrar a minha irmã, confio que ela seja capaz de ajudá-la com o seu... problema.

A caminhada continuou durante mais algum tempo, as duas perdendo-se dentro dos caminhos tortuosos. Se Cassandra notou que Hermione não estava de modo algum em ambiente estranho, ela tratou de não mencionar. Finalmente eles pararam em frente ao lugar que foi durante algum tempo o refúgio de Hermione.

O que ela notou imediatamente – e com alguma surpresa - é que a vitrina estava conservada, e ao invés da almofada solitária que a enfeitava na primeira vez que se deparou com a loja, agora repousava sobre o tecido roxo um exemplar de "Poções Muy Potentes", ao lado dele um exemplar de "As Trevas que Habitam em Você", o último causando-lhe um arrepio.

Se Hermione havia pensando que a vitrine – e os livros que estavam nela – poderiam lhe causar surpresa, ela não estava de modo algum preparada para o que – ou quem – a receberia lá dentro.

Cassandra entrou no recinto primeiro e Hermione ainda demorou um pouco para segui-la, entretida que estava com seus pensamentos, portanto ela estava completamente despreparada para o que a esperava. A profetisa já estava adentrando pela porta dos fundos, apenas barra do seu longo vestido visível através da ombreira da porta, e um despretensioso – Faça-se à vontade Jane, isso pode demorar... – ainda reverberando pelo ar. E ela estava prestes a fazer exatamente isso, os olhos inevitavelmente atraídos para as prateleiras repletas, quando o viu.

Seu primeiro pensamento foi o de que toda essa confusão terá valido a pena somente para que ela pudesse viver esse momento. O seu segundo pensamento foi o de que ele estava tão jovem. E por fim, o terceiro pensamento foi o de que ela nunca o tinha visto antes em nada, que não fosse preto. Tudo isso no milésimo de segundo que ela demorou para reconhecer a sua figura.

Severo estava sentado atrás de uma montanha de livros, diversos papéis espalhados ao seu redor. Ele estava encostado na cadeira, enfiado num moletom que fora azul marinho certa vez, mas que agora estava descorado. Uma mecha dispersa aventurando-se em um dos lados do rosto. Um pergaminho estava erguido à sua frente, e ele estava concentrado em sua leitura. Uma pena girando displicentemente na mão direita, os dedos longos sujos de tinta. O cabelo continuava a cair por sobre os olhos e, com um rosnado impaciente, ele ergueu a mão para colocá-lo atrás da orelha, deixando um rastro azulado de tinta na bochecha.

Hermione tentou suprimir uma risadinha, mas não foi bem sucedida. Quando ele levantou os olhos do pergaminho para olhar em sua direção, o olhar que ele lhe deu não era exatamente agradável.

_Oi. – ela disse desajeitadamente, soltando o ar que ela não se lembrava de ter prendido, a mão direita balançando no ar inutilmente. Ele ergueu uma solitária sobrancelha.

_Você vai comprar alguma coisa?

_ Bem... não imediat... – mas ele já havia retornado à sua leitura. Bem, ele continuava grosseiro. Não é como se ela já não estivesse acostumada.

Hermione ainda encarou-o durante algum tempo, antes de se virar para inspecionar uma das prateleiras. O lábio inferior preso entre os dentes. Ela desejou ardentemente que tivesse maiores habilidades sociais, para que não sentisse tantas dificuldades em iniciar uma conversa com um estranho. Principalmente com um estranho que já era deveras conhecido. Ela abriu a boca pra falar, mas fechou rapidamente. Ela tentou de novo, mas o que saiu foi uma espécie de gemido indistinto. Pigarreando ela se forçou a falar:

_ Isso é... hum... fascinante não é? Toda essa coisa com o tempo e os dementadores. – ela disse, gesticulando fracamente em direção à nevoa que se agarrava a vidraça da loja. Pelas calças de Mérlin, ela estava comentando sobre o tempo! Se pudesse teria chutado a si mesma.

Mas aparentemente isso havia chamado sua atenção, porque ele baixou o pergaminho que estava lendo e tornou a encará-la – O que você quer dizer?

Se houvesse uma imagem para representar Hermione nesse momento seria a dela mesma saltando no ar, com o punho fechado em riste – É anormal, não é? Esse frio todo e a névoa no meio do verão. Eu só posso supor que sejam os dementadores. É o que acontece quando eles estão se reproduzindo.

Quando ele fez uma careta, ela completou – Não é uma imagem que a gente quer na cabeça, não é? Honestamente, eu nem posso começar a imaginar a mecânica da coisa.

Isso arrancou dele um meio sorriso, tão fraco que ela quase não o notou. Mas a impeliu a se adiantar, a mão direita estendida – Eu sou Herm.. Jane. Jane Greengrass.

Severo encarou a mão dela na sua frente, pelo tempo de um batimento cardíaco, mas então ele finalmente estendeu a sua própria, concedendo um firme aperto de mãos.

_ Severo Snape.

Eles ainda conversaram um pouco, uma conversa desajeitada e pontuada por momentos de silêncio constrangedor, já que ambos eram, infelizmente, quase que completamente socialmente incompetentes. Mas ela lhe explicou sobre o que havia lido a respeito da reprodução dos dementadores e ele pareceu ouvir atentamente, as vezes questionando uma informação ou outra. Ainda era muito cedo – não opinião de Hermione – quando Cassandra reapareceu, convidando-a a se juntar a ela na saleta misteriosa que ela nunca fora autorizada a entrar.

Assim que Hermione passou pela porta uma mão a agarrou e a trouxe para mais perto da luz, no meio da sala. A senhora Greengras estava mais magra, os cabelos apenas começando a se tornarem grisalhos, embora ela ainda parecesse um tanto descabelada, apesar do coque com que tentava domar os cabelos. Os óculos fundo-de-garrafa estavam agora empoleirados na ponta do seu nariz, e ela a olhava criticamente.

_ Bem... não é nenhuma beleza. Brutos não era lá essas coisas, mas tinha o seu charme. Essa aí não puxou nada da nossa família, é completamente sem atrativos.

_ Ariadne! – Cassandra ralhou, olhando-a severamente. A irmã caçula nunca tinha descoberto o traquejo social, e sempre teve o hábito de falar bem mais do que a polidez permitiria.

Ariadne se limitou a balançar os ombros, sempre incorrigível e indesculpável – Dê-me logo esse seu colar, pra eu ver se posso consertá-lo.

Hermione tirou da bolsa o vira-tempo quebrado e o entregou a mulher, que se afastou imediatamente para começar a examiná-lo. Se já não estivesse acostumada com a sra. Greengras, Hermione podia ter-se ofendido, mas foi estranhamente reconfortante descobrir que sua empregadora não mudara quase nada nos mais de vinte anos que a separavam entre ser apresentada a Jane Greengrass e Hermione Granger.

Cassandra revirou os olhos – Essa é minha irmã, Ariadne Greengrass. Ela é um pouco excêntrica – ela sussurrou, conspiratoriamente – Mas se há alguém da Grã-Bretanha capaz de consertar o seu vira-tempo é ela.

E então elas esperaram. E esperaram mais um pouco. E um pouco mais, apenas ouvindo a senhora Greengrass resmungar consigo mesma, enquanto examinava o vira tempo com diversos tipos de lentes, sob diversas luzes, sacudindo a varinha numa série de movimentos complicados.

Hermione aproveitou para dar uma boa olhada em volta. Ela sempre tinha tido curiosidade para descobrir o que havia dentro dessa salinha, mas estranhamente estava decepcionada.

A sala não muito grande era retangular, sem nenhuma janela e extremamente mal iluminada, salvo o foco de luz que estava sobre as três mulheres. Ela podia divisar o contorno de mesas que estavam encostadas ás paredes, todas cobertas com lençóis empoeirados, para esconder dos olhos intrometidos os objetos que sustentavam. Havia um leve zumbido de magia no ar, que parecia mais denso aqui do que lá fora. Mas a sala não mostrava nada de extraordinário. Aparentemente.

_ Não tenho certeza se vou poder consertar isso. Vou precisar examiná-lo por mais tempo. – Ariadne a interrompeu de seus devaneios – Eu não sei qual é a origem de toda essa magia negra, mas...

_ O quê? – Hermione gritou, perturbada – Que magia negra?

_ Ora, minha filha, esse vira-tempo fede a magia das trevas. Eu ainda não consegui identificar o que exatamente ela é ou faz, mas posso te dizer que o que estava aqui dentro devia ser muito maléfico, pois só os vestígios da magia estão conseguindo deixar os meus cabelos de pé.

_ Mas... – A mente de Hermione correu, tentando analisar um milhão de possibilidades ao mesmo tempo. Parte dela queria esbravejar que se esse era um objeto das trevas, então a culpa era da própria Ariadne, que o havia entregado a ela. Mas sua parte racional, argumentou que essa Ariadne ainda não tinha lhe entregado objeto das trevas nenhum, e apontando isso só causaria ainda mais confusão.

Em seu terceiro ano, quando conheceu as dores e as delícias de se usar um vira-tempo Hermione havia mergulhado em uma pesquisa profunda a respeito do tempo e daqueles que haviam ousado mexer com ele. O que ela descobriu, no entanto, foi o suficiente para fazê-la perder o sono em muitas noites, morrendo de medo de que, ao voltar apenas algumas horas, ela pudesse... sei lá... pisar em um inseto e mudar o rumo de toda a humanidade. Quando ela e Harry voltara algumas horas no tempo para salvarem Sirius, no momento ela se sentiu exultante, mas depois ficou pensando o porque de Dumbledore escolheu que eles salvassem o padrinho de Harry ao invés de capturar Pettigrew, ou mesmo lembrar Lupin de beber sua poção de Acônito. Evitando assim o ressurgimento do Lord das Trevas. A única conclusão que ela pode chegar foi a de que o vira-tempo não passava de uma ilusão. Uma ilusão de poder sobre as coisas. Porque tudo acontecia exatamente como devia acontecer, a mudança no tempo incluída nessa cadeia de eventos. Não significava que era fácil de aceitar o próprio destino.

_ Em quanto... – ela engoliu em seco, tomando uma decisão – em quanto tempo a senhora acha que conseguirá me dar uma resposta?

_ Não posso dizer com certeza... mas não menos que algumas semanas. Enviarei uma coruja quando conseguir alguma informação que preste.

Hermione concordou com um aceno – Muito obrigada, a senhora não faz ideia do quanto isso é importante pra mim.

E com isso ela se afastou da sala, em direção a frente da loja. Severo continuava sentado, dessa vez enchendo de notas um pergaminho amarelado, mas ele ergueu os olhos quando ela retornou. Ela não conseguiu conter um sorriso brilhante e nem evitar que seu coração saltasse uma batida.

_ Foi um prazer. – ela disse subitamente, com a mão já na maçaneta da porta. Ele não falou nada, apenas ergueu uma mão solitária num gesto de despedida. Para ela foi o suficiente.

Hermione decidiu que havia feito a viagem no tempo por um motivo, e não importa se ela houvesse voltado muitos anos mais do que havia previsto. Ela voltou por causa desse homem. E o inferno congelaria antes que ela desperdiçasse a oportunidade de conhece-lo melhor.


Nota: eei vocês! Finalmente não é? Tenho que dizer que não conseguia mais esperar que a Hermione viajasse no tempo, mas infelizmente - ou felizmente, dependendo do ponto de vista - toda essa primeira parte da fanfic precisava ser escrita, porque ela vai ajudar a explicar o que vai acontecer com a nossa heroína eventualmente e o porquê de ela desejar tanto reencontrar o Snape. Mas eu prometo que daqui pra frente haverá mais interação entre eles. E muito mais do jovem Severo. A segunda parte da fanfic começa agora, deve englobar o período da primeira guerra e um pouco após.

Caso alguém tenha feito as contas, então sim, Hermione está mais velha do que o Snape. Cerca de cinco anos mais ou menos. Alguém aí tem alguma idéia do que é, de verdade, o vira-tempo?

No mais muito obrigada a todos os que me deixaram um review, sempre nos estimulando a continuar. Respondi aqueles que eu pude, mas pra quem perguntou se essa história é uma tradução a resposta é não. É uma produção original de minha autoria. :)

beeijos pra vocês.