Mu descia as escadarias até Áries apressado, a cada passo que dava aumentava a velocidade sem perceber.
Todas as ressentes emoções vividas o deixavam afoito. A reunião com Athena e toda sua compaixão e benevolência, enchiam seu coração de paz e alegria, mas era só se lembrar da despedida de Shaka em Virgem, que sentia vontade de sair correndo não importando o destino.
Descia degrau por degrau, perdido na lembrança da proximidade entre seu rosto e o dele, o aroma do hálito morno indo diretamente até suas narinas, a voz baixa que eriçava seus pelos e finalmente as palavras ditas.
"Se ele soubesse os efeitos devastadores que seu gesto de amizade me causaram". O lemuriano pensou ao enxugar o suor da testa com um suspiro.
Tão distraído, surpreendeu-se quando notou já se encontrar nos fundos do Templo de Áries, e para seu total desgosto o cosmo do cavaleiro de Touro, que o aguardava na parte residencial.
— Até me esqueci desse infeliz. — resmungou para si mesmo, retirando o elmo e massageando a testa — Melhor acabar com isso de uma vez.
Apesar de não querer papo com o ex-marido, Mu sabia que ainda tinham acertos a fazer e não fugiria mais de seu problema com o taurino.
Desse modo, adentrou sua casa livrando-se da armadura de Áries no caminho, ficando com as roupas modestas que usava por baixo e com algum descontentamento notou que sua bagagem não estava onde a deixou. Aldebaran provavelmente a levara para dentro.
Confirmou suas suspeitas assim que cruzou a porta de entrada para os cômodos residenciais de seu templo, e avistou o taurino sentado no modesto sofá da sala de estar, com o embrulho ainda em mãos e sua mala no acento ao seu lado.
Imediatamente seus olhares se cruzaram, era nítido o nervosismo e ansiedade nos olhos escuros de Aldebaran, enquanto as duas jades majestosas de Mu pareciam estar vazias de qualquer emoção.
O ar ficou pesado, o vento não mais entrava pela grande janela de madeira que iluminava o cômodo e até a temperatura parecia diminuir diante da frieza estampada no rosto do lemuriano.
Aldebaran suava frio, buscando em sua mente toda a determinação para iniciar a conversa, ou quebrar o clima ruim. Agora ali, frente a frente com o marido a coragem parecia ter-lhe abandonado, tudo o que sentia era medo e vergonha.
Foi com certo alívio que o brasileiro viu o ariano finalmente se aproximar a passos lentos, e se sentar na poltrona logo a sua frente, do outro lado da pequena mesa de centro.
O silêncio ainda pairou sufocante entre os dois por mais alguns instantes, até que após dar um longo suspiro e cruzar os braços sobre o peito, Mu o quebrou.
— Você queria conversar comigo a sós! Pois bem, aqui estou! — a voz do lemuriano saiu seca, grave e ríspida, pois usava de todo seu autocontrole para manter-se calmo.
Touro abriu a boca para falar algo e desistiu, a fechando em seguida. Nervoso, limpou a garganta, passou a mão na testa suada, desviando os olhos para o chão sem saber por onde começar, pois a postura agressiva do lemuriano não estava ajudando em nada.
— Vamos Aldebaran. Não tenho o dia todo. Estou curioso para saber o que tem para me dizer, meu... "marido".
A acidez e ironia das palavras atingiram em cheio o taurino, que desesperado, resolveu que falar qualquer coisa era melhor do que não falar nada.
— Como foi a conversa com a deusa? — Aldebaran falou finalmente, com voz baixa enquanto apertava o embrulho entre as mãos — pode não parecer, mas estou muito angustiado com sua punição, eu...
— Pois não fique. — Mu interrompeu impaciente ao descruzar os braços e reforçar sua fala com um gesto — Athena se mostrou benevolente e diante dos atenuantes peguei apenas uma punição disciplinar leve.
— Louvada seja. — o alívio era visível no rosto brasileiro.
— Mas não é para falar sobre isso que eu e você estamos sentados aqui nesta sala, Cavaleiro de Touro.
— Não, não é.
Aldebaran então respirou fundo, colocou o embrulho na mesa de centro, ajeitou os cabelos com dedos nervosos e enfim tomou coragem.
— Mu, eu não sou capaz de por em palavras o tamanho do arrependimento que eu sinto pelo o que aconteceu. Eu sofri muito desde que você sumiu. Fiquei desesperado para te encontrar. Eu sei que não queria me ver e que o que fiz foi horrível, sei que te fiz sofrer, mas eu sofri também, foram três meses em que eu chorei de arrependimento, desesperado pensando que nunca mais iria te ver. — o moreno olhava dentro dos olhos do lemuriano, tentando mostrar a ele a sinceridade de suas palavras. Tomado pela emoção, os olhos escuros já se punham marejados e a voz embargada — Não teve uma única noite em que eu consegui dormir tranquilo, pois a culpa e o medo de te perder me assombravam a todo instante. Eu só pensava em te encontrar, em te pedir perdão e concertar tudo entre nós. Eu errei, eu sei. Errei com você, comigo e com nosso casamento. Mas por todos os deuses do olimpo Mu, eu te amo. — vendo que suas palavras pareciam não alcançar o coração de Áries, já que este se mantinha inabalável, Aldebaran não conseguiu segurar o pranto sofrido de desespero e o medo — É verdade! Não me olhe assim, eu te amo demais, Mu! Eu fiz uma besteira, cometi um vacilo, mas você é tudo na minha vida carneiro...
— Não me chame assim! — Mu respondeu aumentando o tom de voz ao fazer um gesto ríspido. Ver o brasileiro chorando e lhe fazendo juras de amor apenas o irritava — Não pareceu que eu era "tudo na sua vida" quando fornicou com aquela mulher.
As palavras atingiram Aldebaran como um tapa no rosto.
— Não fala isso, Mu! Aquilo não significou nada, eu juro. Foi um momento de fraqueza, onde me deixei levar por insegurança, carência, sentimentos ruins que eu tentava disfarçar, sei lá... — tentava se justificar aos prantos, ora escondendo o rosto entre as mãos enormes, ora voltando a olhar suplicante para o ariano — A carne é fraca, estava há meses sem te ver, sozinho, num lugar estranho. Em algum momento eu deixei de pensar com a cabeça de cima e com o coração e pensei com a cabeça do pau.
Mu revirou os olhos, indignado.
Era muita cara de pau do taurino lhe falar aquilo. Por isso mesmo não se deixava abalar pelas lágrimas do outro, ao contrario, toda a cena lhe parecia patética. O discurso não passava de desculpas prontas e óbvias que só o deixavam ainda mais magoado.
— Isso deveria justificar alguma coisa? — Mu indagou, cruzando novamente os braços.
— Não justifica nada, eu sei. — Aldebaran abaixou a cabeça, envergonhado.
— Pois eu também passei meses longe de você. Só que enquanto eu te esperava paciente e saudoso, pois acreditava que meu honrado marido estava arriscando a vida em uma missão sagrada, você me traía!
— Porque eu fui um burro idiota. — o taurino olhava para o ariano, com o rosto banhado em lágrimas — Eu já te disse que eu sei que errei, só os deuses sabem o peso da culpa que eu carrego.
— Mas eu não sei. Qual o peso da sua culpa?
Como não houve resposta, Mu respirou fundo, pois agora queria saber a verdade. Portanto foi mais direto.
— Quero te fazer uma pergunta, Aldebaran. Mas quero que olhe dentro dos meus olhos e em nome da amizade que um dia tivemos e dos anos de relacionamento, fale a verdade!
O taurino engoliu em seco, temeroso pelo que viria. Sabia que ao conversar com o ariano, seria questionado sobre muitas coisas, mas agora temia o peso da verdade.
Assim que o moreno enxugou as lágrimas e acenou com a cabeça para que prosseguisse, Mu se inclinou para frente, apertou os olhos, e franziu a testa de maneira intimidadora. Não queria saber dos detalhes, mas precisava sanar aquela dúvida.
— Aquela foi a única vez? — perguntou sério como jamais esteve em sua vida.
A resposta veio na forma de longos segundos de silêncio interrompidos por um soluço forte de Aldebaran, que não suportando o olhar inquisidor de Mu, desviou o olhar e começou a chorar copiosamente, tentando abafar o som dos soluços com uma das mãos.
A culpa estampada em toda sua enorme figura chorosa.
— Não... — de olhos fechados o taurino confessou — Não, foi.
Mu respirou fundo, fechou os olhos e jogou o corpo para traz, se apoiando no encosto da poltrona em silêncio.
Porque não estava surpreso?
Aquela resposta deveria doer, faze-lo sofrer ainda mais. Porém, tudo o que sentiu ao ouvir aquelas palavras foi pesar. A confirmação de que seu casamento não passava de uma ilusão.
Aldebaran lhe contara outra mentira, pois não fora apenas um momento de fraqueza, havia sido mais de um. Impossível alegar que não sabia o que estava fazendo, quando traiu uma vez e repetiu a dose.
Vendo a postura calada e introspectiva de Mu, o Cavaleiro de Touro, enxugou as lágrima s que não paravam de cair, e em um gesto abrupto de desespero levantou do sofá, cruzou a distância entre os dois e se jogou de joelhos diante do lemuriano, chamando sua atenção.
— Mas foi só com aquela mulher, e apenas nessa ultima missão, Mu, eu juro! Eu não vou mentir pra você eu... eu... — dizia afoito tentando se explicar enquanto o ariano permanecia sem reação — Eu saí com ela algumas vezes, mas não significou nada para mim, era só uma mulher que conheci em um bar duas semanas antes de você chegar lá. Era só sexo, mais nada. Eu nem lembro mais o nome dela. Eu juro por todos os deuses, eu não sou um canalha que o traía constantemente, nunca dormi com ninguém em outras missões! Droga, Mu! Não me olha assim, você sabe que não sou um canalha. Eu já me arrependi até o ultimo fio de cabelo. Me perdoe, por favor, me perdoe. Eu te amo! Não vamos jogar fora quatro anos felizes de casamento por causa de um deslize, um erro não pode ser maior que todo o nosso amor.
— Ao contrário, Aldebaran! Não foi apenas um deslize, como você diz. Foram vários não é? Duas semanas de deslizes. — Mu o interrompeu com um suspiro cansado. Assistia aquele típico drama taurino sem conseguir se comover. Aldebaran sempre fora extremamente teatral, mas a decepção que sentia era tanta, que sentimentos como pena, tristeza e raiva eram totalmente suprimidos e anestesiados pelo desgosto — Você não apenas foi infiel ao nosso casamento. Você traiu a minha confiança, a minha amizade e a minha lealdade. E isso eu não sou capaz de perdoar.
Completamente devastado e percebendo que suas súplicas e apelos não surtiam efeito, o taurino lembrou-se do presente abandonado sobre a mesa de centro. Imediatamente o apanhou com as mãos trêmulas e estendeu para Mu, na tentativa de tocar o coração dele.
Sabia que não seria fácil ter o perdão do marido. O Cavaleiro de Áries sempre fora um homem muito firme em suas decisões, mas em nome do amor que dizia sentir, Aldebaran precisava tentar.
— Por favor, Mu. Pegue. — suplicou.
— O que é isso?
— Depois que você sumiu, eu entrei em desespero. Precisava ocupar minha mente ou enlouqueceria, por isso eu decidi fazer esse presente com todo o meu amor e lhe dar como pedido de desculpas.
Mu estava relutante em aceitar o presente, mas acabou tomando o embrulho das mãos do taurino vencido pela curiosidade. Sem muita paciência retirou o papel vermelho revelando uma foto dentro de uma belíssima moldura entalhada a mão.
Como bom artesão que era, não pode evitar reparar nos detalhes belíssimos da moldura, que pela cor e textura parecia ser feita de pau-brasil. O entalhe mostrava um campo florido, uma arvore com seus galhos frondosos formando o espaço vazio para a foto ao centro, e em um dos lados repousavam tranquilos um carneiro e um touro. Os animais pareciam felizes com as cabeças unidas em uma carícia enquanto ruminavam a grama.
Sem duvida um trabalho maravilhoso realizado com muito capricho.
Porém desviando a atenção da madeira, Mu repousou seus olhos na foto. Rodeado pelos irmãos de armas estava ele e Aldebaran, na arena do Santuário, no exato momento em que fora pedido em casamento. Touro sorria de joelhos e estendia uma caixinha a Mu, que tímido e corado, arregalava os olhos e escondia a boca com as mãos.
— O dia em que você disse sim, foi o dia mais feliz da minha vida, Mu. Enquanto esteve fora eu tive muito tempo para pensar no que eu fiz, e também no quanto eu não quero te perder. — Aldebaran quebrou o silêncio recém-instaurado. Como o ariano olhava fixamente o presente sem falar nada, talvez tivesse conseguido toca-lo e essa era sua chance — Eu só quero uma chance, Mu. Uma chance para ter seu amor de volta, para concertar o que eu mesmo estraguei. Eu sei que ainda é recente e seu coração ainda está ferido e magoado, mas eu vou provar que ainda pode confiar em mim. Uma chance carneiro... É só o que eu quero. — após esse pedido, Aldebaran se calou, aguardando paciente uma resposta.
Realmente o presente havia tocado o coração de Mu, mas não da forma como o taurino esperava.
O ariano sentiu uma tristeza profunda ao ver aquela imagem.
Somente agora, depois de tudo o que havia passado, é que conseguia ver com nitidez que seu casamento estava fadado ao fracasso antes mesmo de ter começado.
Aquela foto exibia uma verdade cruel que ele e Aldebaran se negaram a enxergar, pois ao contrário do que parecia, não havia um casal apaixonado naquela imagem. A realidade era que naquela foto, Mu não estava feliz e sim visivelmente constrangido pela atenção recebida, aterrorizado por ter a vida íntima exposta diante de tantas pessoas, pressionado a aceitar o pedido, enquanto Aldebaran se declarava apaixonado e exibia as alianças como um troféu. Mu era seu troféu.
Mas o lemuriano não estava pronto para casar, namoravam a tão pouco tempo que ainda tentava entender o que sentia pelo brasileiro. Quando o pedido aconteceu, se sentiu perdido e confuso, teve medo de dizer não e magoar o taurino, jogando fora uma grande amizade e um relacionamento que parecia promissor.
Ali foi o começo do fim.
Nesse instante, segurando aquela fotografia, finalmente entendeu perfeitamente o que Shaka lhe dissera sobre os tipos de amor, e com imensa tristeza em seu coração, Mu teve certeza de que nunca havia amado Aldebaran como era amado por ele. O relacionamento deles havia sido uma via de mão única. Por mais que gostasse do taurino, nunca seria capaz de dar a ele a paixão, o amor e o desejo que ele queria.
Talvez fosse essa a chave de tudo.
Aldebaran havia tentado suprir o que faltava entre eles, buscado em outros braços o amor que Mu nunca poderia lhe dar.
Sim, nunca! Pois a paixão avassaladora que o taurino havia tentado despertar em si durante quatro anos, havia brotado recentemente em seu coração... por Shaka.
— Pelo amor da deusa, Mu! Fale alguma coisa, qualquer coisa, só não me deixe nessa agonia.
A voz aflita do brasileiro, que ainda aguardava de joelhos, o despertou de seu estado de reflexão e profunda melancolia. Estava na hora de dar aquela conversa por encerrada.
— Era isso que precisava conversar comigo quando bloqueou minha passagem por touro? — indagou o lemuriano.
— Sim.
— Tem mais alguma coisa que queria falar?
— Não... Quer dizer, eu tenho mais muitas coisas pra te dizer, mas sei que precisa de um tempo para pensar e que se eu ficar aqui insistindo é pior... Então por enquanto é só. Eu sei que pisei feio na bola, mas eu só quero uma chance para provar que não está tudo perdido.
Levantando-se da poltrona, Mu esfregou o rosto com a mão livre, a fim de aliviar a tensão que sentia. Acenou em seguida para que o outro se levantasse, pois o ver de joelhos lhe incomodava terrivelmente. Assim que ficaram ambos em pé, frente a frente, estendeu o braço e devolveu o porta retrato.
— Pois agora é a minha vez de falar. — disse sério e decidido — Sinto muito, Aldebaran! Não posso aceitar seu presente.
— Por favor, não faça isso, fique com ele. Eu passei noites e mais noites o esculpindo para você. — o brasileiro insistia, se recusando a segurar o presente rejeitado.
— E ainda assim não foi capaz de perceber o erro que cometeu! Você me disse que essa foto representa o dia mais feliz de sua vida, não é? Pois olhe bem para ela e veja além de si próprio. — o ariano bradou de forma enérgica, enquanto balançava a imagem diante dos olhos do taurino — Eu estava constrangido, Aldebaran! Você sabe disso. Eu fui exposto e exibido como uma conquista na frente de todo mundo.
— Mu... — o taurino arregalou os olhos diante da atitude tempestiva do outro.
— E digo mais, foi proposital! Você tinha medo de que eu lhe dissesse não, pois nosso namoro era muito recente, e eu ainda estava descobrindo meus sentimentos por você, então armou uma armadilha. Um pedido de casamento escandaloso, em frente a todos os cavaleiros, aprendizes e servos, de maneira que acuado eu não o recusaria, por medo de magoa-lo.
— Que isso, Mu, não fale desse jeito. Eu sei que eu exagerei no pedido, mas na época mesmo você me deu uma bronca e depois me perdoou.
— Exato! Foi sempre assim, você pisando na bola e eu perdoando. Nosso relacionamento inteiro foi baseado em suas vontades e não nas minhas. Quando eu aceitei o namoro eu deixei muito claro que o amava como um grande amigo, mas estava disposto a tentar transformar esse amor em um relacionamento.
— E nós conseguimos, Mu.
— Não, nós não conseguimos, Aldebaran. — Mu então usou a telecinese, para trazer para perto a lixeira que ficava perto no cantinho da sala — É isso que tem nessa droga de foto, é isso que ela representa. O quão egoísta você é, e o quão tolo e ingênuo eu fui. — sem pensar duas vezes o lemuriano atirou o porta retrato na lixeira, para desespero do taurino que recomeçara a chorar — Eu me enganei o tempo todo, eu pensei que mesmo que eu não tivesse me apaixonado, nossos casamento era feliz, pois eu havia aprendido a te amar e respeitar como meu marido. Havia amizade, companheirismo, carinho... lealdade, Aldebaran, lealdade!
— Isso não é verdade, nosso casamento não é uma farsa, Mu. Eu errei feio sim, mas não acabou tudo, eu te amo!
— Amor bem egoísta, não? Deveria ter sido honesto comigo desde o começo. Comigo e com você mesmo. — Mu deu um longo suspiro e esfregou as mãos no rosto, agitado — Se o meu sentimento não era suficiente para você, se estava infeliz, deveria ter me falado, e agora não estaríamos os dois nessa situação.
— Não fala isso, Mu! Não diga que o que sente não é suficiente. Claro que é. — o taurino bradou andando em círculos em meio ao choro, até que voltou a ficar de frente para o lemuriano — Eu fui cretino, idiota, estava triste, cheio de inseguranças, não estava bem, ai fui levando com a barriga, e quando vi eu estava na cama com aquela mulher. Mas foi só sexo Mu, eu juro.
— Não é apenas pelo sexo, Aldebaran. É por tudo que envolve essa traição. Desde o começo você me manipulou, depois me enganou, fingiu que estava tudo bem, quando não estava. Me fez pensar que éramos felizes, quando não passava de uma mentira. Eu era mais que apenas seu companheiro, eu era seu amigo e eu esperava que você fosse tão leal a mim quanto eu era a você, e isso inclui me falar a verdade sobre o que sentia. Era esse tipo de relacionamento que queria? Eu iludido, enquanto você afogava as mágoas entre as pernas de outra pessoa?
— Não, Mu, claro que não. Eu nem sei como cheguei a esse ponto, eu só não suportava a ideia de te perder. Eu não quero te perder. — suplicava mais uma vez.
— Já perdeu! — a resposta veio direta e sem qualquer sombra de hesitação.
Enquanto o taurino entrava em negação e desespero, Mu caminhou até sua mala que estava sobre o sofá, e do zíper lateral retirou uma pequena pasta com alguns documentos dentro.
— Você não está pensando direito, está nervoso, precisa se acalmar. — o taurino suplicava enquanto o seguia.
— Eu estou calmo. Se não estivesse, eu e você estaríamos agora em uma guerra de mil dias. — Áries disse ao se virar e retirar apressado a papelada da pasta e entrega-la a Touro — Hoje de manhã, antes de vir ao santuário eu passei no centro de Athenas e providenciei isso. Preciso que assine, pois daqui a poucas horas preciso estar na cela de detenção e quero deixar tudo acertado.
— O que é isso? — o brasileiro disse ao receber os papéis, passando os olhos marejados pelas paginas, sem conseguir ler muito bem do que se tratava.
— São os documentos necessários para a dissolução da nossa união estável. Quero resolver de uma vez por todas a nossa situação. — falava enquanto procurava uma caneta pela sala — Como cavaleiros, não possuímos bens para partilhar, não temos filhos para dividir a guarda ou qualquer outro assunto que gere conflito judicial. Por isso, tudo o que precisamos fazer é assinar esses documentos, reconhecer as assinaturas em cartório e estará feito. Tome, assine, por favor. — estendeu a caneta que havia encontrado na estante.
Mas Aldebaran não a pegou. Incrédulo olhava dos papéis para o ariano, alternadamente como se ambos fossem aparições fantasmagóricas.
— I-Isso n-não é sério, é? — gaguejou em choque.
— Eu pareço estar brincando?
— Você acabou de voltar...
— Eu voltei para o santuário, não para você. Não estamos mais juntos há três meses, Aldebaran. Nosso relacionamento acabou no dia em eu o peguei transando com aquela mulher no Egito. — o ariano encava firme o semblante atarantado do taurino
— Mas arranjou isso antes de se apresentar no santuário? — o brasileiro acenava com os papéis, ainda atordoado — Nem havíamos nos encontrado. Eu pensei que... íamos conversar antes, e que...
— Pois pensou errado. Queria conversar antes? Pois bem, já estamos conversados. Por favor, assine. — Mu estendia novamente a caneta.
Aldebaran não apenas não pegou a caneta, como se afastou um passo, encolhendo os braços e mantendo os papéis do divórcio longe, como se aquela caneta estendida fosse algo terrível.
— Não me olhe assim. Você sabia, quando olhou nos meus olhos aquela noite, que havia acabado tudo entre nós. — o lemuriano prosseguiu, com a caneta ainda em punho — Sabia que se fosse pego, eu não o perdoaria. Por isso gritou meu nome em desespero, correndo até mim. Eu não sou um homem de meias palavras Aldebaran, eu tenho honra, lealdade e caráter. Juramos fidelidade um ao outro quando nos casamos e assinamos a união estável, só que você descumpriu sua parte em nosso acordo. Não há mais volta. — como Aldebaran não reagia, Mu massageou a têmpora com a outra mão, e com um suspiro cansado deu mais um passo em direção a ele — Por favor, não torne tudo mais difícil do que já é. Apenas assine!
— Não! — a negativa soou baixa, enquanto lágrima s escorriam silêncio sas dos olhos arregalados de Aldebaran.
Em completo estado de negação, o brasileiro não conseguia conceber a ideia de que Mu não voltaria para ele. Era surreal, dolorido demais. O amava tanto que não suportava saber que não o teria mais ao seu lado.
— Não... — repetiu um pouco mais alto.
— Não faça isso, pela deusa. Assine de uma vez, não tem como impedir nossa separação.
— Não, Mu, eu não vou assinar isso aqui. Você não pensou direito, eu vou te reconquistar, e tudo isso não vai passar de um problema superado. — em um ato de puro desespero, Touro começou a rasgar os papéis em suas mãos — Eu não vou assinar nada... Eu me recuso a dissolver nossa união estável.
Mu se enfureceu de vez com aquela atitude imatura e ridícula.
— Pensei que pudesse lidar com você como homens adultos que somos, mas sua teimosia o cegou. Você não tem que aceitar ou recusar nada seu idiota. Eu não quero mais você. — o ariano bradava irritadíssimo, ao ponto de fazer balançar os cabelos — Só esta piorando as coisas. A separação vai acontecer quer você queira ou não, esse seu chilique infantil apenas atrasou o processo, não tem litígio quando não se tem bens ou filhos. Já que você quer assim, aguarde a intimação judicial, pois eu vou entrar com dissolução mediante juizado, e perante o juiz será obrigado a assinar.
— Veremos! Eu vou procurar um advogado. Um casamento não termina assim, com uma assinatura em uma droga de papel. — a discussão agora se tornava cada vez mais acalorada.
— Nosso casamento acabou quando decidiu foder aquela mulher, Cavaleiro de Touro. — Mu berrou, finalmente mandando o resto de sua paciência para o submundo — A escolha foi sua.
— Não acabou, porque eu não acredito que não me ame mais.
Mu precisou segurar o riso tamanho o absurdo que acabara de ouvir. A vontade de gritar que estava apaixonado por outro veio até a ponta da língua e voltou, engolindo a confissão de volta com muito custo.
Não podia se expor ainda mais. Provavelmente Aldebaran desconfiaria de que fora por Shaka que havia se apaixonado, então tudo estaria perdido, pois o taurino faria um escândalo e não sabia qual a reação do virginiano ao saber do seu amor pecaminoso por ele. Um retiro espiritual em algum buraco da Índia, provavelmente.
Foi então que o lemuriano resolveu encerrar de vez aquela balburdia.
— Vá embora. — ordenou em tom grave ao apontar para a saída e abrir a porta com telecinese — Ficarei duas semanas em detenção. Durante esse período quero que recolha tudo que é seu desta casa, da mesma forma que quero todos os meus pertences que estão em Touro, devolvidos. Não tem mais permissão para adentrar os cômodos residenciais do Templo de Áries, a não ser exclusivamente para executar a tarefa que lhe dei, fora isso apenas sua passagem pelo pátio será tolerada. Não é mais bem vindo em minha casa.
— Você está cometendo um erro Mu, eu sei que está. Ainda vai se arrepender disso. Mas eu te perdoo, pois eu sei que está fora de si. — Touro enxugava mais algumas lágrimas teimosas, não acreditando que haviam chego aquele ponto.
— Cale a boca e saia agora! Ou o colocarei para fora a força. — o cosmo do lemuriano começou a se elevar perigosamente. Não era um blefe.
Diante da ameaça de Mu, Aldebaran caminhou até o lixo, pegou o porta retrato que havia esculpido, colocou de baixo do braço e rumou até a porta. Antes de cruza-la o olhou uma ultima vez para ariano, e não suportando o desprezo que vinha dele, abaixou os olhos e saiu sem dizer nada.
Assim que ele passou pela porta, Mu a fechou com tanta força, que quase quebrou.
Esgotado e frustrado com o desfecho trágico daquela conversa, se atirou no sofá desanimado e ficou ali, estirado no acento com os olhos perdidos em algum lugar do teto de pedra.
Sabia que não seria fácil pedir o divorcio, não havia ser mais teimoso do que um taurino. Ainda assim não esperava por aquele barraco.
Não havia a menor possibilidade de não se divorciar. Como Aldebaran rasgara os papeis da separação simples, teria que entrar com um pedido para que ele fosse judicialmente intimado e obrigado a comparecer em cartório para que só então a dissolução fosse realizada diante de um Juiz. Apenas um jeito mais trabalhoso e demorado de realizar o inevitável.
Com o olhar vago, Mu analisava friamente em que pé estava sua vida pessoal.
Levou um par de cifres, o ex-marido infiel se negou a assinar o divórcio sob a alegação de que ele, Mu, ainda o amava, e como se fosse a cereja do bolo, estava completamente apaixonado e atraído pelo melhor amigo de infância: monge, casto e candidato a Buda.
Toda aquela situação era tão ridícula e esdruxula, que quando notou estava rindo de puro nervosismo, diante da bizarrice que se tornara sua vida.
Será que tinha como piorar?
Oh sim, pois em poucas horas deveria se encaminhar para a prisão, para cumprir sua punição, por ter surtado e sumido para o alto do Himalaia.
Seu único conforto era saber que Kiki estava bem longe em treinamento com os cavaleiros de bronze, e por isso não presenciaria todo aquele vexame.
Kiki era como um filho. Queria poupa-lo do sofrimento dos detalhes da separação, o menino gostava muito do taurino, e tinha certeza de que ainda não sabia de nada, caso contrário já teria se teleportado para seu lado de onde quer que estivesse, choroso e preocupado. Se os deuses o abençoassem tudo estaria resolvido até retorno do menino, e o choque seria menor.
Olhando pela janela, percebei que à tarde já estava bastante avançada, tinha pouco mais de uma hora para se arrumar. Não havia mais tempo para divagações, na prisão poderia pensar no que quer que fosse.
Apressado, o lemuriano se levantou com um pulo, correndo com sua mala para seus aposentos.
Em uma hora, havia tomado um banho, trocado de roupa, desfeito a bagagem da viagem, e feito outra pequena para levar consigo.
Pontualmente às seis horas da tarde, Mu se apresentava na prisão comum, para cumprir sua sentença.
Seriam dias torturantementes longos para o Cavaleiro de Áries.
