NdT: Bem-vindos ao segundo livro de HP&FP! Um novo ano começa numa Hogwarts reconstruída após a guerra. O que Harry fará agora que não precisa mais lutar contra comensais e bruxos das trevas que o querem morto? O que Draco fará com sua nova rotina escolar obrigatória e sem o respaldo de tudo que sempre fez dele um Malfoy? Isso e muito mais é o que descobriremos ao longo dos 16 capítulos que compõem "O último ano".
Antes de seguir, gostaria de agradecer à Rukia, Nina e Karol pelas reviews e pelo incentivo que estas proporcionam. E meu mais sincero agradecimento à Zafy por ter criado esta fic maravilhosa e me permitido traduzi-la. É uma honra e um prazer. ¡Gracias, Zafy!
Agora sim, boa leitura! *-*
HARRY POTTER E O FABRICANTE DE POÇÕES
SEGUNDO LIVRO: O ÚLTIMO ANO
CAPÍTULO 8:
A VIAGEM DE TREM
"Nem todo ganho é uma vitória e nem toda perda é uma derrota".
Anônimo
1º de setembro de 1998, da Plataforma 9 ¾ , Londres, à Hogwarts.
Ainda podia lembrar a primeira vez que havia chegado a essa estação, quando não sabia sequer como chegar à plataforma 9 ¾, quando viu pela primeira toda a família Weasley, ou quando apreciou o enorme trem escarlate, com suas nuvens de vapor, os gatos correndo por todos os lados e o ulular das corujas, a primeira conversa que teve com Ron ou o quão intrometida havia se mostrado Hermione naquele dia... Havia tantas recordações, muitas lembranças ofuscadas pelas recentes, ofuscadas por uma guerra.
— Se não nos apressarmos, não encontraremos um vagão vazio — apressou-lhes Hermione, enquanto cruzavam o caminho até as escadas do trem, tirando Harry de suas lembranças e trazendo-o à realidade; aquela onde todos se colocavam a um lado e os olhavam de maneira diferente a como os haviam visto antes. Harry começou a achar que teria sido boa ideia aceitar o transporte pela rede flú que sugeriu a professora McGonagall... Ou melhor, a diretora McGonagall.
— Vamos, companheiro — disse Ron, apressando-o e fulminando com o olhar um grupo de garoto de segundo ano que os apontava muito de perto.
Cruzaram o que faltava de caminho e por fim puderam subir no trem. Os corredores estavam um tanto cheios, porém não tanto como nos anos anteriores. Talvez fosse pela hora; desta vez Hermione se encarregou de que chegassem bastante cedo para evitar multidões. Essas haviam sido suas palavras, e funcionou em algo, pelo menos, pois puderam acomodar-se em um dos vagões do final sem ter que procurar muito.
Harry sentou em frente a Ron e Hermione e olhou pelo vidro a quantidade de garotos e garotas que iam e vinham de um lado a outro, chamando-se e cumprimentando-se, mães e pais abraçando seus filhos, meninos pequenos chorando... Colou mais seu rosto ao vidro, por um instante lhe pareceu ter visto uma loira cabeleira serpenteando entre a grande quantidade de gente, quase achou ter visto Malfoy, mas logo já havia desaparecido. Provavelmente era sua imaginação.
— Este ano será genial — começou a dizer Ron —, estaremos no último curso, ainda continuamos sendo monitores e estou certo de que logo te pedirão que seja o capitão da equipe de quadribol, poderemos ganhar a taça das casas e...
— Estudar? — Interrompeu Hermione, enquanto já pegava um livro. Harry esteve seguro de que ela já estava adiantando as aulas e sorriu ante esse ato de cotidianidade.
Desde aquela manhã antes de regressar da Austrália, Harry e Hermione não voltaram a tocar no assunto "gay", contudo ela cumpriu sua promessa e lhe fez chegar alguma informação sobre como era tudo no mundo mágico, basicamente leis e costumes. Harry esteve muito desanimado por isso durante vários dias, até que finalmente decidiu que, no fim das contas, não importava o que o mundo pudesse dizer. Absolutamente. O mundo mágico não havia acreditado nele a maioria das vezes, não tinha por que ganhar sua aprovação, somente a de uma pessoa... A de seu melhor amigo, ao qual não pode dizer nada. E não por falta de tempo; depois da Austrália, estiveram por mais de duas semanas vendo-se quase todos os dias, no entanto, não pode reunir coragem para lhe dizer nada.
— De verdade, está bem? — Perguntou Ron de repente.
— Hã?
— Perguntei se está acontecendo algo com você... Parece distraído.
Harry e Hermione trocaram olhares e Harry pensou que talvez a longa viagem até a escola fosse suficiente para confessar a Ron o que lhe ocorria, ademais, Hermione estava ali, ela sempre poderia controlá-lo.
— Bem...
— Olá, rapazes! — A porta do trem se abriu de repente e uma Ginny muito linda e arrumada entrou sorrindo. Harry desviou o olhar para a plataforma novamente, frustrado pela interrupção e incomodado pela presença dela. Ginny ignorou o detalhe de que Harry não a cumprimentou e se sentou ao seu lado, perto demais para o gosto dele.
*Flashback*
Harry mal conseguiu dormir um pouco. Sentia-se ainda um tanto cansado e confuso pelo fuso-horário; eram apenas 4 horas da tarde, mas tinha desejo de se enfiar na cama, embora, sentado na sala com uma xícara de chá e um livro, fizesse o possível para não sucumbir ao sono. Não ainda, pelo menos.
A lareira lançou uma labareda verde e um instante depois Ginny estava ali de pé e sorrindo de maneira culpada.
— Oi — murmurou Harry. Realmente não tinha vontade de vê-la, menos ainda nesse momento.
— Harry! — Disse ela, caminhando em direção a ele. — Olha que tive de me inteirar que você voltou através de meu irmão... Que desconsiderado.
— Não sabia que tinha que te avisar — replicou Harry. O sono e a dor de cabeça o deixavam de mau humor.
— Harry — suspirou Ginny, sentando-se junto a ele —, acho que ambos podemos reconhecer que nos excedemos um pouco — colocou sua mão na perna dele e lhe deu um olhar intenso, e Harry se afastou apenas um pouco.
— Bem...
— Senti demais sua falta e sei que você também deve ter sentido a minha, creio que este tempo que passamos afastados nos deixou pensar no que realmente importa, e o que realmente importa para mim é que te amo.
— Ginny, não — disse Harry, colocando-se de pé e se distanciando alguns passos dela.
— Não?
— Pensei que havia deixado claro da última vez...
— Na última vez você estava chateado... E te compreendo, não tem que se desculpar.
— Não ia me desculpar — interrompeu Harry. A expressão de Ginny mudou abruptamente, já não sorria mais. — Eu dizia que da última vez deixei claro que você e eu já não tínhamos nada... Que não posso continuar contigo.
— Já não me ama, por acaso? — Perguntou, colocando-se de pé e Harry rezou para que não se pusesse a chorar. — Me esqueceu assim tão facilmente?
— Não é como se fosse fácil assim, simplesmente creio que isto não pode funcionar entre a gente... Não quero te machucar e menos ainda criar expectativas que não vou poder cumprir.
— Eu creio que pode funcionar sim, você nem sequer está dando uma chance a isso — reclamou ela, aproximando-se mais a ele —, eu não te esqueci, pensei em você em cada dia, como fiz durante todo o tempo em que você desapareceu...
— Sinto muito — murmurou Harry. Se não se tratasse da irmãzinha de Ron, talvez tivesse lhe dito a verdadeira razão, que na realidade não tinha nenhum interesse nela, e nem em nenhuma de seu gênero, mas sabia que era muito provável que ela contasse a Ron e não queria que seu amigo se inteirasse dessa maneira. — Acho que é melhor que você vá embora.
— Há alguém mais? — Perguntou arqueando uma sobrancelha. — Conheceu outra garota, não é?
— Não — Harry se apressou em negar, sabendo que em parte não mentia. Não conheceu outra garota, afinal de contas.
— Você não me engana... Está mudado... Conheceu alguém lá?
— Ginny, é sério, não tenho que te dar explicações nem nada...
— Oh, claro que sim, Harry. Tem que me dizer que raios acontece com você. Por que de repente já não quer nada comigo?
Harry negou com a cabeça e lhe deu as costas, enquanto tratava de pensar na melhor forma de fazê-la entender. Os braços de Ginny de repente o apertaram, pode sentir o corpo da garota apertando-se contra suas costas de modo bastante possessivo.
— Harry — murmurou ela suavemente —, senti saudades... E muita. Agora que não há ninguém, podemos ter mais tempo para fazer qualquer coisa que queira...
— Isso não é o que quero! — Disse Harry, afastando-se talvez com muita brusquidão.
Ginny entrecerrou os olhos, tinha as bochechas coradas.
— E o que é que você quer? Ou melhor, quem é que você quer?
— Vá embora — pediu Harry —, apenas deixe assim, isto não vai funcionar...
— Não te implorarei, Harry. É certo que agora que você é um grande herói de guerra, o mundo estará aos seus pés, mas eu não te implorarei.
— Não quero que me implore, nem que se aproxime de mim ou me beije. Nada! Não quero nada! — Harry terminou gritando.
Ginny fez uma expressão de irritação e caminhou com passos largos até a lareira, desaparecendo por ela instantes depois. Harry se certificou de deixá-la bloqueada, não tinha vontade de receber mais visitas.
Desde aquela tarde, não voltaram a se ver, mas para Harry ficou o sabor amargo daquela briga. Às vezes não compreendia como é que haviam mudado tanto...
*Fim do flashback*
— Será genial, estaremos todos na mesma classe — disse Ginny com alegria, dando uma olhada para Harry.
— Sim, agora Hermione te fará estudar também — replicou Ron com um sorriso, embora não deixasse de olhar de esguelha para Harry.
Harry imaginou que o mais provável era que seu amigo ainda tivesse o oculto desejo de vê-los juntos. Ah, se Ron soubesse... Pensou.
— Suponho que já tenha escolhidas as suas disciplinas — comentou Hermione, tratando de suavizar a conversa.
— Não sei... Harry, quais você escolherá? Perguntou Ginny, com um sorriso inocente para Harry.
— Creio que... Irei procurar algo lá fora — disse, colocando-se de pé.
— Mas, lá fora está cheio — objetou Ron.
— Não demorarei — respondeu, enquanto abria a porta do compartimento, sem olhar para Ginny ou para nenhum deles.
ººººº
Antes ir à escola era divertido. Lembrava claramente: no dia em que devia partir, se levantava extremamente cedo, ansioso demais para continuar dormindo. Sua mãe e seu pai tomavam o café da manhã com ele, deixavam que comesse todos seus pratos favoritos e lhe davam as típicas recomendações "Estude muito", "Ajude Crabbe e Goyle", "Nos avise se vir alguma coisa que seja denunciável no conselho de pais"...
No entanto, agora as coisas são diferentes, pensou enquanto terminava as torradas com ovo frito que sua mãe havia lhe preparado. Após aquela briga, naquele dia em que submergiu no silêncio, repassando sua vida completamente, sua mãe parecia ter esquecido sua zanga, pois não fez mais nenhuma reclamação, e Draco se encarregou de fazê-la saber que havia entendido a mensagem, já não se queixando mais e, inclusive, ajudando-a em todo o possível. Mais ainda, nos últimos dias se entreteve preparando poções para deixar sua mãe abastecida durante sua ausência.
— Sei que agora será mais difícil, mas tudo ficará bem enquanto você saiba passar despercebido...
— Eu sei.
— E não deixe que te provoquem.
— Não, não deixarei.
— Nem sequer Potter e seus amigos.
— Potter — murmurou Draco com certa raiva, recordando que havia lido há dois no Profeta que o "Grande Salvador" voltaria à escola também. Perguntou-se por que ele simplesmente não usava sua grande fama e passava para a escola de aurores ou para o que fosse que quisesse fazer... Oh, Merlin! Nem sequer ia se livrar de ver a cara dele durante todo o curso.
— Não me meterei com ninguém, não deixarei que ninguém me incomode e me comportarei bem, mãe.
Narcissa sorriu para ele e passou o braço pela mesa para aperta-lhe a mão. — Sim, estará bem... Você estará.
— Não se preocupe, te escreverei esta noite... E todas as vezes que queira — na realidade, se sentia culpado por deixá-la sozinha novamente, porém não havia nada que pudesse fazer; o Ministério lhe exigia que terminasse os estudos para se converter em um bruxo produtivo. Sim, claro, como se alguém fosse lhe dar um emprego...
Para chegar à estação, usou pó de flú. Havia insistido em ir só, sabia que sua mãe não seria bem vista ali e não queria se arriscar a que alguém lhe dissesse algo; não poderia suportar e teria que defendê-la, e isso só significava problemas, de modo que, fazendo levitar seu malão com a varinha, se encaminhou até a plataforma, ansioso porque não sabia qual seria o alcance da reação dos demais ao vê-lo.
Quando entrou na plataforma e os garotos e pais deixaram de falar para encará-lo com ódio e com claras intenções de vingança, desejou ter uma capa de invisibilidade, algo com que se cobrir para realmente passar despercebido. Ainda era cedo, havia pensado que podia chegar a um vagão sem muita gente ao redor, mas estava enganado.
Desvencilhou-se de alguns grupos de bruxos e bruxas, tratando de realmente não encarar ninguém, porém sem baixar a cabeça. Tinha a varinha em um dos bolsos, e embora soubesse que não podia usá-la caso alguém o atacasse, era reconfortante senti-la entre seus dedos. Viu o trem escarlate, tal como sempre, rodeado de vapor e com os garotos subindo e descendo por todos os lados, e então tropeçou... Ou melhor, lhe lançaram uma azaração do tropeço.
Oh, quanto sentia falta de usar esses feitiços agora!
Uma grande gargalhada ressoou, muita gente rindo ao seu redor enquanto ele se colocava de pé. Sentia suas bochechas rubras de raiva. Não tinha nada de engraçado, porém não daria esse prazer para eles. Alisou sua túnica o melhor que pode, sua horrível e ordinária túnica, e sem olhar para ninguém, seguiu caminhando. Uma voz soou entre a multidão: "Comensal!".
E Draco não se virou, continuou avançando com passos lentos entre a multidão, enquanto mais pessoas gritavam e murmuravam. Escutou "Assassino" e "Mentiroso", porém não era nada a que não estivesse acostumado. Finalmente agradeceu ao trabalho de verão, pelo menos ali havia aprendido a não deixar transparecer o quanto ser insultado lhe afetava.
Quando finalmente conseguiu chegar às escadas, subiu no trem e olhou para os corredores; os alunos estavam caminhando, entrando e saindo dos vagões. Conforme avançava, muitos deles ficavam quietos, só o observando. Compreendeu que alguns ainda lhe tinham medo e isso não pode deixar de reconfortá-lo ao menos um pouco.
Escutou uma gargalhada, uma gargalhada que antes havia detestado, mas que agora não se fazia tão desagradável. Com um pouco mais de tranqüilidade, abriu a porta de um dos vagões; dentro estavam Blaise, Pansy, Millicent, Daphne e Theo, e Draco deu um suspiro de alívio, pelo menos seus companheiros seguiam ali.
— Olá, rapazes — disse com elegância enquanto entrava, mas então Theo e Blaise se puseram de pé. Seus olhares não eram de boas-vindas.
— O que acha que está fazendo? — Perguntou Blaise.
— Bem... Entrando, é claro.
— Não pode entrar aqui — replicou Nott. — Ficou completamente louco?
— Quem disse que não posso entrar aqui? — Draco cruzou os braços e lançou um olhar feroz, aquele olhar que antes os havia intimidado. Desta vez não parecia funcionar.
— Será melhor que você vá embora, e o mais rápido possível — disse Pansy, colocando-se de pé também. — Rápido.
— Estão me expulsando? Com que direito?
— O fato de que esteja condenado e que seja um comensal não te dá direito de arrastar a gente também. Você se dá conta do que nos mostrar contigo faria com a nossa reputação?
— Do que estão falando? Nós somos companheiros de casa — Draco tomou um pouco de ar e avançou mais uns passos —, e justo agora me sentarei neste vagão.
Os demais garotos se olharam e logo começaram a mover seus malões.
— Pois bem, pode ficar com o vagão, porém te direi duas coisas: agora você é o pior que pode haver como companhia, deveria ter ficado em casa, ajudando sua mãe. Não quero que se aproxime de nós, nem que fale conosco, nem sequer nos olhe... — Disse Nott, enquanto fazia levitar um par de malões.
— Sim, você é um comensal para alguns e para outros é um traidor — sibilou Pansy, muito perto dele —, não creia que não se sabe que sua mãe traiu você-sabe-quem. Por isso ela e você estão livres, não é? Se venderam.
Draco se acomodou o melhor que pode no banco, fingindo total indiferença ante todas essas palavras.
— Sim, deveria andar com cuidado... Agora sim que você está sozinho — murmurou Millicent, enquanto saia atrás dos demais.
Quando a porta se fechou, finalmente Draco deixou escapar o ar completamente, sentindo-se só. Nem sequer os de sua casa queriam estar com ele. Só de pensar no ano escolar que iniciava, já lhe parecia interminável.
ººººº
Devia saber que sair não era uma boa ideia depois de tudo. Já nem sequer carregava a mochila com a capa de invisibilidade, e pela quantidade de alunos que nesse momento se moviam pelo corredor, teria sido difícil avançar coberto por ela.
Em seu caminho encontrou-se com vários de seus companheiros da AD, todos quiseram cumprimentá-lo e comentar o quão contentes estavam porque voltariam às aulas.
— E então me deram uma nova varinha. O senhor Ollivander já abriu novamente a sua loja... Ainda não tem tantas varinhas como antes, mas... — Seamus lhe comentava, porém Harry se distraiu olhando em direção ao fundo, onde um grupo de garotos saia com tudo e com os malões. Se perguntou se por acaso haviam sido expulsos ou algo parecido. Ainda à distância, esteve certo de quem se tratava: dos Sonserinos do sétimo ano, ainda que, claro, faltasse seu líder e os dois guarda-costas. Chutou-se mentalmente; claro que sabia que Crabbe havia morrido... Ele o viu morrer...
— Harry? — Insistiu Seamus, e Harry se virou para vê-lo, interrogante.
— Desculpe... O que?
— Se o senhor Ollivander fez uma varinha nova para você também.
— Não... Eu recuperei a minha.
— Pensei que não podia consertar — replicou Seamus, acariciando-se o queixo.
— Eh... — Harry titubeou um momento. Na verdade, apenas Ron e Hermione sabiam que havia reparado a sua varinha. — Ele usou o mesmo núcleo...
— Ah...
— Escuta... Te vejo logo, devo ir... — Disse Harry, já avançando até o vagão de onde viu os Sonserinos sair.
— Claro... Ainda usamos o mesmo dormitório — disse Seamus com um sorriso.
Porém, Harry não respondeu. Ia pensando no esquisito que era que todos abandonassem um vagão. Acaso, ao invés de terem sido expulsos, feriram alguém? Ou talvez uma briga?
Diminuiu os passos conforme avançava. De repente o corredor foi esvaziando quando o trem começou a se mover; o som da chaminé do vagão preencheu o ambiente e sentiu o já tão conhecido balanço. Alguns ainda o encaravam e sorriam, porém já muito poucos. Todos já estavam entrando em seus compartimentos.
Harry se inclinou ligeiramente para frente, dando uma rápida olhada pelo vidro, e o viu: Malfoy estava sentado, com as pernas cruzadas e um livro entre as mãos. Parecia bastante concentrado.
Abaixou-se rapidamente e se perguntou se acaso Malfoy decidiu querer o vagão para si só e enxotou os demais. Parecia-lhe estranho vê-lo só, sem Crabbe e Goyle ao lado; era como se lhe faltasse algo. Ele não o havia visto desde a guerra e tampouco havia fotos recentes nos jornais. Um pouco mais encorajado porque o rapaz estava completamente absorto na leitura, se aproximou ao vidro novamente... Ele parecia mais magro, o seu rosto pelo menos, o cabelo caia solto sobre o rosto e ia até os ombros, já havia deixado de lado o gel e o cabelo ordenado. Sua túnica não era nem de longe tão elegante como as que costumava usar e seus lábios estavam apertados, como se estivesse irritado. Já não se parecia quase nada ao Draco Malfoy da escola, que era capaz de fazê-lo se aborrecer com somente um comentário, e embora mal pudesse ver os seus olhos, estava seguro de que o olhar de superioridade e de deboche havia desaparecido.
Draco grunhiu e fechou o livro de vez, isso fez com que Harry se sobressaltasse e se escondesse no exato momento em que esses olhos cinza viravam para vê-lo.
Pensando em se acaso Malfoy realmente o viu ou não, correu o mais depressa que pode até o vagão onde estavam seus amigos, lamentando que tivessem escolhido um no outro extremo do trem. Entrou rapidamente, abrindo e fechando a porta de golpe. Ron e Hermione, que estavam se beijando nesse preciso momento, deram um salto para trás, se afastando como se queimassem.
— Desculpe — murmurou Harry, se deixando cair no assento em frente e agradecendo que Ginny não estivesse mais.
— Aconteceu alguma coisa? — Perguntou Hermione. Ainda se mostrava corada, assim como Ron. Harry tratou de ignorar o incômodo de encontrá-los em meio a algo íntimo.
— Nada... Estive espiando — admitiu Harry —, e vi Malfoy, isso é tudo.
— Oh, não diga que a doninha* estava te incomodando — protestou Ron. — Por acaso ele já não tem advertências suficientes?
— Advertências?
— Sim, já sabe, Harry — explicou Hermione —, se refere àquelas que o Ministério lhe fez... Um só erro e irá parar em Azkaban.
— Ah... — Harry lembrava daquilo, havia lido no Profeta, assim como que ele retornaria às aulas. — Não, não estava incomodando... Eu apenas estava observando-o... Parece muito diferente.
— Claro, o pai dele está morto e ele não tem mais ouro... Espero que agora aprenda um pouco de humildade — disse Ron com um sorriso satisfeito demais para o gosto de Harry —, é verdade que a vida às vezes dá muitas voltas...
— Ron, não seja cruel, ele simplesmente tem o que merece, mas não faremos disso uma festa. Nem de nenhum dos castigados do Ministério — repreendeu Hermione.
Harry negou com a cabeça. Seus pensamentos retornaram à conversa pendente com Ron, mas, como sempre lhe ocorria, foi incapaz de iniciá-la durante todo o trajeto.
ººººº
Que merda eles estão pensando? Ele não era pestilento. Não tinham nenhuma autoridade nem direito a lhe dizer que não se sentasse junto a eles, afinal teriam que vê-lo durante todo o curso, e era melhor que se acostumassem porque não ia embora. Não que tampouco tivesse outra opção. Estava condenado a permanecer ali e terminar o curso sem se meter em problemas.
Enquanto lia sem prestar real atenção ao livro de runas, pensou que na realidade, além do tempo que passou na Mansão na última época, quando Yarik já havia partido, nunca esteve realmente só. Crabbe ou Goyle sempre estiveram ao seu lado, não importava o que passasse... Claro, até que a guerra desatou e os foi perdendo pouco a pouco. Porém, ainda que não quisesse pensar na guerra, nem naquela etapa de sua vida, devia reconhecer que nunca fez o trajeto no trem para a escola sozinho. Jamais. E não se sentia bem, se sentia abandonado e derrotado.
Fechou o livro com força, frustrado por seus pensamentos e sentimentos, e notou o movimento a um lado, justo no momento em que uma cabeleira despenteada desaparecia, e suspirou. Por um momento pensou em se colocar de pé e irritar Potter, mas sabia que não era permitido fazer isso; levantar sequer a voz talvez significasse a entrada em Azkaban. Por outro lado, por que raios Potter estava ali lhe espiando? Queria se vangloriar de sua vitória? Ver o pobre comensal caído em desgraça? Ou acaso esperava que o agradecesse por tê-lo salvado àquelas duas vezes? Três vezes, se corrigiu, pois ele também o salvou de Azkaban ao dar seu testemunho. Porém, se fosse isso, podia esperar sentado. Ninguém lhe pediu que o ajudasse. Muitas vezes ainda pensava se não seria melhor ter morrido naquele inferno, talvez nesse momento já estivesse reunido com Yarik, com seu pai e com Crabbe, quem sabe...
O olhar azul de sua mãe apareceu em sua cabeça, o olhar sereno e confiante que lhe deu quando na manhã seguinte, logo após a grande discussão, ele apareceu muito mais calmo e decidido. O sorriso daquela primeira noite quando voltou depois de seu julgamento. Se ele tivesse morrido, sua mãe já não teria ninguém.
Deixou o livro sobre o assento e se virou completamente para a janela; as manchas verdes lhe faziam ver que estavam atravessando o campo, do lado de fora tudo estava nublado e cinzento. Era melhor se entreter na paisagem e não nas lembranças e pensamentos que não o levariam a lugar nenhum.
ººººº
Passou o resto do trajeto jogando xadrez com Ron, salvo as interrupções que seus companheiros fizeram para cumprimentá-lo uma vez mais. Neville foi o primeiro a chegar e não ficou muito tempo; Harry devia reconhecer que ele se mostrava bastante mudado, já não parecia tão desatento como antes. Ele havia recebido as felicitações do Ministério por ajudar durante a guerra e defender seus ideais em tempo adversos na escola, liderando um grupo contra os irmãos Carrow. Harry supôs que sua avó agora sim se sentia orgulhosa dele.
As gêmeas Patil também passaram por ali, e inclusive Dennis Creevey, embora já não houvesse aquele brilho em seu olhar; pelo visto, ainda não tinha superado a morte de seu irmão, Colin. Ele dizia estar feliz por voltar às aulas.
Quando finalmente o trem parou, Harry experimentou certa ansiedade por chegar ao castelo. Não voltou a pisar nele desde que havia ido aos funerais. Sabia que o repararam e restauraram, adicionaram medidas de segurança e renovaram alguns professores, porém não podia deixar de associar esse lugar com as mortes e com a guerra. Novamente se perguntou se era uma boa ideia voltar.
Uma mão sobre seu ombro o fez girar. Hermione lhe deu um pequeno sorriso.
— Vamos Harry. Está tudo bem.
— Sim, está.
ººººº
Desta vez preferiu esperar que o burburinho se distanciasse. Não queria que voltassem a empurrá-lo ou azará-lo, e muito menos enfrentar os olhares de ódio e repulsa que os demais lhe davam. O sentimento era muito mais forte ao saber que agora até seus próprios companheiros de casa o tratavam como um pária; se havia algo de que esteve seguro durante todo esse tempo, era de que seus companheiros, os que em sua época se diziam amigos, não se afastariam, que talvez fosse incômodo no início, mas não que a reação deles fosse similar ou pior que a do resto do mundo.
Quando o murmúrio no corredor diminuiu, se colocou de pé e abriu a porta do vagão. Levitando seu malão à sua frente, encaminhou-se em direção à saída, porém não deu mais que alguns passos quando os viu: o "Grande trio de ouro" saia de outro dos vagões, aparentemente tiveram a mesma ideia que ele. Rei Weasley* e a sangue ruim (devia lembrar que essa palavra deveria ser eliminada de seu vocabulário antes que o metesse em problemas) iam de mãos dadas e Potter ia atrás. Parou, esperando que eles descessem primeiro, evitando o encontro. Surpreendeu-lhe ver o novo casalzinho junto, sempre achou que seria com Potter a que se uniria a... Sabe-tudo (essa parecia uma alcunha melhor), mas, pelo visto, Potter estava muito a vontade com o arranjo.
No último momento, Weasley girou até ele e seus olhos se encontraram. O olhar dele era de superioridade, de quem se sabe vencedor. E o pior de tudo, era verdade, Weasley foi o vencedor e ele o perdedor.
Granger e Potter seguiram o olhar de Weasley e por um instante quase inexistente seus olhos se detiveram nos verdes de Potter; havia algo diferente naquele olhar, algo distinto, ainda que não soubesse identificar o que era. Porém o instante passou e o trio desceu do trem. Draco ainda esperou um pouco mais para depois finalmente descer. Talvez conseguisse lugar em uma das carruagens dos alunos menores.
ººººº
Sim, definitivamente mudado. Sua postura e seu olhar eram diferentes, não era de derrotado, porém tampouco eram os de antes. E andava só. Se perguntou se acaso os companheiros dele o haviam deixado sozinho... No fim das contas, ele era um ex-comensal liberado e muitas das famílias de seus colegas foram julgadas e observadas; nem todos caíram, mas muitos sim.
Na viagem de carruagem, para o descontentamento de Harry, Ginny voltou a se unir a eles, junto com Luna que, como sempre, parecia um pouco fora de lugar enquanto narrava a viagem que seu pai lhe havia prometido para o Natal. Ainda que Harry entendesse a atitude do senhor Lovegood, não podia deixar de se sentir estranho ao ouvir falar dele como se nada tivesse acontecido, como se ele nunca tivesse querido entregá-los aos comensais. "Era a vida de sua filha que estava em jogo", havia defendido Hermione, e Harry respondeu que muitos comensais também estavam ameaçados e que, no entanto, não os deixaram usar essa desculpa. Pela primeira vez em muito tempo, sua amiga havia ficado sem respostas.
Conforme se aproximavam, ele ia se afastando da conversa, olhando atentamente para os grandes portões e para o jardim do castelo; parecia como se nada tivesse acontecido ali, como se nunca tivessem sido atacados por um grupo de dementadores, ou como se jamais tivesse visto Hagrid sendo atacado e quase assassinado pelos descendentes de Aragog, ou Hermione salvando Lavander Brown do horrível ataque de Fenrir Greyback, como se esse lugar não tivesse sido testemunha de muita dor, sangue e sofrimento. Mas, ele sabia. Ele sabia e recordava cada momento, cada segundo. Não podia, por mais que o castelo parecesse novo, esquecê-lo.
ººººº
Sentiu-se um tanto idiota quando finalmente pode subir em uma das carruagens. No interior havia dois meninos e duas meninas, do segundo ano ao que parecia. Pelos brasões nas túnicas, sabia que eram Lufa-lufa e se mostravam bastante atemorizados para lhe pedir que buscasse outra carruagem.
Concentrou-se no caminho, ignorando os olhares dos garotos enquanto a carruagem continuava avançando lentamente em direção ao castelo; aquele que agora o aborrecia, pois de alguma maneira seria sua nova prisão durante os meses seguintes.
Assim que a carruagem parou, saltou para fora, sentindo-se contente de se livrar daquele silêncio tão incômodo. Viu como a maioria já se encaminhava pelo jardim até o castelo. Só por hábito, alisou sua túnica mais uma vez e avançou alguns passos até que sentiu a mão fria e ossuda de alguém em seu ombro. Girou com bastante rapidez, afastando-se do toque para encontrar-se cara a cara com Argus Filch, que o encarava com os olhos entrecerrados.
— Malfoy — disse o ancião, dando uns passos até ele. Ao seu redor, alguns dos companheiros se detiveram para ver o que passava —, isso não são modos.
— Tampouco pôr a mão em cima de mim para me parar — Draco cruzou os braços e lhe deu um olhar desafiador. Não estava fazendo absolutamente nada de mau e o homem não podia enfeitiçá-lo, era um mero aborto.
— A diretora te espera em seu escritório. Deseja que vá para lá antes de ir ao Grande Salão e me pediu que me assegurasse de que você compareça.
— Para que a diretora quer me ver? — Perguntou Draco, bastante desconfiado. O homem deu de ombros e fez um gesto com a cabeça, indicando-lhe o caminho até o castelo. Ao seu redor, Draco escutou os murmúrios dos demais enquanto finalmente seguia o zelador pelo caminho do jardim. Perguntou-se que raios podia ter feito para já ser chamado ao escritório da diretora.
ººººº
Avançou pelo corredor até o Grande Salão, com suas quatro mesas compridas e a elevada mesa dos professores ao centro, com o teto enfeitiçado para simular o céu — nesse momento escuro e já salpicado de estrelas —, e com o barulho próprio do banquete de início de curso; sua mente ainda navegando entre as boas e as más lembranças. Seus amigos o puxaram até um dos extremos da mesa e rapidamente foram rodeados pelos seus demais companheiros.
— Mas se não é o nosso grandioso Harry Potter — disse uma voz cerimoniosa a um lado. Harry se virou para ver Nick quase-sem-cabeça flutuando muito perto dele. — Bem-vindo.
— Oh, obrigado. Como está? — Sorriu Harry.
— Ainda morto e quase sem cabeça — respondeu o fantasma. Harry apenas percebeu um pequeno movimento a um lado; Hermione dando um cutuque em Ron, certamente para que ele se abstivesse de fazer algum comentário próprio dele.
— Bem... — Harry não sabia como responder a isso. Que bom? Que pena que ainda continue morto?
— Me alegra tanto que tenha voltado... Estava justamente dizendo ao Barão que, definitivamente, você devia voltar. Era o certo, depois de tudo.
Harry assentiu distraidamente enquanto procurava com o olhar o Barão Sangrento, lembrando a história que se tecia entre ele e a Dama Cinzenta, uma história bastante triste.
O fantasma se afastou novamente, cumprimentando aos demais garotos e garotas da casa, e Harry se deu conta de que todos estavam muito mais animados que em outros anos, talvez porque aquele reencontro, depois de vários meses do fim da guerra, era o início de um tempo de paz, de um tempo normal por fim. Pode ver Parvati junto a Lavander, falando em sussurros como era o costume delas, e mais adiante a Dennis Creevey conversando mais animadamente com um par de garotas que o escutavam atentamente. Diante dele, Seamus e Dean estavam rindo juntos, Neville e Ginny também falavam animadamente, inclinando-se até Ron para rir de alguma piada. Inclusive Romilda Vane e Jimmy Peakes conversavam animadamente; todos faziam isso, todos exceto ele.
— Harry? — Murmurou Hermione para ele, e Harry lhe sorriu. — Tem certeza que está bem?
— Oh, vamos. Claro que sim — disse com um sorriso quase sincero. Devia estar bem, era o que se esperava dele, que agora estivesse bem e que fizesse o que pudesse para ser feliz. Embora, claro, o fato de ser gay e ainda viver nadando em lembranças da última batalha não fosse o ponto mais próximo à felicidade.
ººººº
Draco passou direto, mal escutando a bagunça no Grande Salão, e caminhou atrás de Filch pelas escadas de mármore, agora completamente limpas e novas, e pelos corredores reformados, até a porta guardada por uma gárgula de pedra de olhar feroz.
— Albus Dumbledore — disse Filch e a gárgula se moveu para um lado, deixando o espaço livre para enxergar a passagem em forma de escada de caracol, que se movia sozinha. — Vamos, rapaz, que a diretora não tem toda a noite — Filch o apressou e Draco simplesmente entrou, subindo lentamente até se encontrar diante de uma porta de madeira. Antes de sequer bater, a voz da diretora se fez escutar.
— Entre, senhor Malfoy.
— Boa noite — disse Draco, com toda a educação possível, enquanto entrava no escritório reformado. Pode ver os quadros dos diretores antigos encarando-o atentamente, especialmente dois deles: Albus Dumbledore e Severus Snape. Perguntou-se como havia sido possível que aquele quadro estivesse ali entre os ilustres diretores.
— Sente-se, isto não demorará muito — disse a professora McGonagall. Ela usava sua túnica escura e seu chapéu de lado, com o cabelo preso. Talvez parecesse um pouco mais velha e cansada, mas em seus olhos podia ver a decisão e a força que sempre teve.
— Filch me disse que a senhora queria me ver.
— O senhor Filch — corrigiu a professora e Draco assentiu. Não queria entrar em uma discussão com a diretora em seu primeiro dia.
— Sim, o senhor Filch.
— Bem, veja, senhor Malfoy, temos um pequeno problema com você — a professora lhe lançou um olhar intenso e Draco sentiu-se um tanto envergonhado, lembrando os maus-tratos que a mulher havia sofrido durante o curso anterior.
— Eu não fiz nada — se defendeu.
— Como sabe, o Ministério nos impôs a sua presença como um exemplo de que, de alguma forma, alguns dos que se portaram mal podem endireitar seus caminhos — começou a falar com voz rígida, ignorando sua defesa —, contudo, a escola tem um conselho de pais, um conselho que não está muito contente com o fato de que, e acredite, não é minha opinião pessoal, que um ex-comensal esteja junto a seus filhos, ainda mais os de sua casa, pois compartilharia um tempo maior com eles.
Draco se perguntou, com certa esperança, se por acaso o enviariam de volta para casa; não seria sua culpa, afinal. Eram eles que não o queriam ali, o Ministério não poderia castigá-lo por isso.
— No entanto, a lei é a lei e deve ser cumprida — continuou a professora e Draco tratou de não demonstrar sua desilusão —, e por isso decidimos fazer algumas mudanças e concessões para você, sob a promessa de que se comportará adequadamente.
Genial, pensou Draco, mais outra promessa. Por acaso também teria que firmar um compromisso ou contrato?
— De que concessões, exatamente, a senhora está falando?
— Bem, o senhor permanecerá como membro da casa de Sonserina, é claro, e os pontos que ganhe ou perca pertencerão a essa casa. Contudo, é recomendável por agora, e quase me inclino a pensar que durante o resto do curso, que não compartilhe o salão comunal nem os dormitórios com eles.
— E onde se supõe que dormirei ou estudarei? — Perguntou Draco, com voz mais irritada do que pretendia.
— Preparamos um lugar para o senhor — a professora McGonagall se pôs de pé —, ao terminar o banquete, procure o senhor Filch e ele o guiará. Obviamente, prefiro que nenhum dos alunos se inteire da localização de tal lugar e que o senhor se comporte de maneira adequada.
— Claro — Draco se colocou de pé também, sabendo que a conversa havia terminado. O enviariam a um lugar isolado, para que tivesse o mínimo contato com todos, embora depois do recebimento que lhe deu os colegas de Sonserina, não podia deixar de se sentir, de algum modo, aliviado.
— E não creia que faço isso pela sua segurança. Este é o primeiro curso após a guerra e não quero que haja problemas. Lembre-se disso, senhor Malfoy — a mulher disse com voz rígida no momento em que já caminhava até a porta.
— É claro. — Como eu ousaria pensar que é para me proteger? Disse a si mesmo com sarcasmo, seguindo a diretora até a saída.
ººººº
As conversas e risadas foram cessando pouco a pouco quando alguém mais entrou no grande salão. Harry, assim como seus amigos, se virou o suficiente para ver um pálido e magro Draco Malfoy caminhar, com toda a arrogância que lhe caracterizava, até a mesa da Sonserina. A seu passo, os demais garotos ficavam em silêncio, apenas observando-o, até que o silêncio foi rompido pela voz de um rapaz do quinto ano, um Lufa-lufa, que disse em voz alta e clara: "Comensal".
Isso bastou para que os demais alunos começassem a gritar e insultar também, porém Malfoy parecia completamente imune a esses adjetivos, enquanto chegava a sua mesa. Harry viu os olhares duros que lhe deram os demais garotos sonserinos antes que Malfoy elegesse, por fim, se sentar em um dos lados vazios da mesa, completamente só, tal como veio no trem, tal como o viu chegar a Hogwarts.
Os monitores se colocaram de pé, inclusive Hermione e Ron (com um pouco de resistência), e instaram os demais alunos a se comportarem e deixarem de gritar e insultar. Harry se sentia um pouco chateado com toda a situação e lançava olhares de advertência a seus companheiros e em seguida a Malfoy, sentado com as costas completamente reta e o cabelo solto, olhando para frente e sem nenhuma expressão em seu rosto. E embora parecesse que nada lhe afetava, Harry sabia que ninguém era tão cara de pau como para tolerar que a escola inteira o insultasse.
E foi ai que a professora McGonagall entrou no grande salão e então as vozes finalmente cessaram. Harry a havia visto há poucas semanas, quando ela foi visitá-lo no Largo Grimmauld, no entanto, de pé, junto à cadeira do centro, diante de todos os alunos, se mostrava muito mais imponente.
Atrás dela, foram chegando os demais professores. Harry conhecia a maioria, mas havia vários rostos novos. Perguntou-se qual dele daria o curso de DCAT, recordando os anos anteriores e suas constantes mudanças. Imaginava-se que a maldição que Voldemort lançou sobre o curso havia terminado, de modo que aquele novo professor não teria por que deixar a escola ao acabar o ano.
— Boa noite — começou a dizer a professora McGonagall, com um sorriso em direção aos alunos —, me dá muito prazer que todos os senhores estejam aqui este ano, dispostos a aprender muito e com vontade de estudar...
Harry escutou o pequeno grunhido que Ron soltou e girou no momento exato em que Hermione lhe dava um olhar de advertência. Um tanto divertido porque na realidade algumas coisas nunca mudavam, girou novamente para dedicar-se a ver os demais alunos; as mesas não pareciam tão cheias como em anos anteriores, mas havia uma grande quantidade de rapazes e moças, com suas túnicas escuras e olhares nostálgicos.
— Devem saber que os feitiços de proteção foram incrementados, então podem se sentir seguros dentro do castelo...
Seu olhar se deteve um instante em Malfoy novamente. Continuava exatamente na mesma posição, olhando para a professora como se fosse o discurso mais interessante que tivesse escutado em sua vida. Seus companheiros de casa, todos sentados longe dele, não deixavam de lhe lançar olhares de ressentimento. Harry se perguntou, como já havia se perguntado antes, se por acaso seria seguro deixar que Malfoy voltasse à escola. O Ministério optou por isso, pela reforma dos liberados, obrigando-os a trabalhar e, no caso de Malfoy (o único tão jovem que nem havia terminado a escola), estudar, mas se essa era a forma que os outros bruxos e bruxas recebiam àqueles "reformados", talvez somente criassem uma nova onda de ódios e rancores. Como tudo aquilo era difícil. Não podiam afastá-los do mundo mágico, porém tampouco integrá-los...
— Como sempre, os toques de recolher são inflexíveis. O senhor Filch estará vigiando os corredores junto aos monitores, e o aluno que for encontrado fora da cama será castigado e a casa a qual pertence perderá pontos — Harry voltou sua atenção para o discurso da professora novamente, lembrando das vezes em que ele esteve fora da cama em horas inapropriadas. Perguntou-se se agora seria divertido fazer isso só por fazer, não por ter que descobrir nada maligno ou tenebroso. —... O bosque proibido continua sendo proibido. Há muitas criaturas que vivem ali e entrar é arriscar a vida inutilmente.
— Principalmente com as filhas de Aragog — Ron murmurou baixinho ao seu lado e Harry assentiu rapidamente, recordando não a tarde em que, junto a Ron, escapuliu até o bosque em busca de respostas, senão de Hagrid sendo atacado por muitas delas. Pensou que talvez assim, após aquela terrível experiência, o meio gigante se curaria de seu estranho apego. No entanto, não foi assim, e todas aquelas criaturas ainda o encantavam, inclusive lhes havia mostrado, algumas semanas antes, todo seu plano de ensino para os cursos que ministraria. Hermione o havia ajudado um pouco, excluindo alguns assuntos perigosos demais.
— E antes de iniciar a cerimônia de seleção, vamos apresentar nossos novos professores, que compartilharão este curso conosco.
Um pequeno murmúrio encheu o salão apenas um instante antes que a voz da professora se impusesse mais uma vez.
— À minha direita, vocês têm o professor Cepheus Monroe, que nos dará a honra de compartilhar seus conhecimentos em Poções — um homem bastante jovem e com túnica azul levantou a mão e sorriu amplamente. Parecia bastante amável e Harry esperou que este ano o curso de poções fosse muito mais simples que nos anteriores.
— Ao seu lado, podem ver o professor Steven Cooper, que vem dos Estados Unidos, onde também era professor. Ele nos ajudará com Estudo dos Trouxas — o homem junto a Monroe fez um rápido assentimento. Era já idoso e trajava uma túnica escura, parecia um pouco arrogante pelo olhar que lhes estava dando.
— À minha esquerda, podem ver o professor Petrus Cummings — um homem com olhar não muito amável e cabelos acinzentados, um tanto gordo e baixo, fez também um assentimento. Harry franziu o cenho; ele não parecia muito amável, o mais provável era que fosse o professor de DCAT, onde devia se esforçar para alcançar os N.I.E.M's —, ele será nosso novo professor de Transfiguração, devido ao fato de que não poderei seguir exercendo tal cadeira, como vocês compreenderão... — um murmúrio se estendeu novamente pelo salão. Havia dito Transfiguração, não DCAT... Então, quem...?
— Além disso, o professor Cummings será o novo diretor da casa de Sonserina. Confio em que vocês se entenderão muito bem.
O professor deu uma olhada em direção à mesa das serpentes e a recorreu lentamente, detendo-se um momento a mais em Malfoy. Agora somente restava aquela mulher junto à Cummings. Era bastante pequena e magra, com o escuro cabelo cacheado caindo solto sobre os seus ombros, seus olhos cor de mel olhavam para os demais alunos com um sorriso que parecia até mesmo de diversão.
— E, finalmente, temos a nova professora de DCAT, a senhorita Lyra Loewenthal — voltou a falar a professora McGonagall. O salão ficou de súbito em silêncio, enquanto a professora Loewenthal fazia um rápido assentimento.
— Não é muito...? — Ron começou a perguntar para Harry.
— Ron — advertiu Hermione, e Ron fechou a boca imediatamente. Harry voltou a fixar o olhar na mulher, não havia esperado que ela fosse a professora de DCAT.
— E, o último anúncio antes da seleção: como compreenderão, da mesma forma que não posso atuar como professora de Transfiguração, tampouco posso atuar como diretora da Grifinória, de modo que decidimos dar essa função à professora Hooch, a quem todos vocês conhecem e, seguramente, apreciam — os companheiros de Harry começaram a aplaudir, bastante entusiasmados, e inclusive alguns se puseram de pé enquanto a mulher levantava as mãos, pedindo-lhes silêncio.
— Espero — disse, dirigindo-se agora para os professores — que se sintam à vontade e como em casa. Bem-vindos.
O aplauso explodiu uma vez mais até que as portas do grande salão se abriram. Hagrid, que fez um gesto de saudação para Harry e seus amigos, caminhava com uma pequena almofada e o chapéu seletor sobre ela, e dirigindo uma longa fila de meninos e meninas pequenos, que olhavam para todos os lados e caminhavam apertados uns contra os outros. Realmente teve que dar razão a Ron, cada vez pareciam menores, e assustados inclusive. Um par deles apontou em direção a Harry, Hermione e Ron com total atrevimento enquanto caminhavam. Ron emitiu um pequeno grunhido enquanto Harry desviava o olhar.
— Diretora, os novos alunos — disse Hagrid, com voz alta, enquanto colocava o chapéu seletor sobre um tamborete que estava ao centro, diante da mesa de professores. Todos puderam observar que ainda se mostrava um tanto chamuscado pelo feitiço que Voldemort lançou na batalha final. A professora Hooch, então, se adiantou com uma grande lista em mãos.
O salão caiu em um grande silêncio, expectante, enquanto a boca do chapéu se abria lentamente:
A guerra terminou
e o bem ganhou
contudo, uma nova luta começa
a da reconstrução
a de perdoar e esquecer
a de criar uma sociedade verdadeiramente pacífica
sem mais distinções ou discriminações
Os Grifinórios com sua valentia
os Corvinais com sua inteligência
os Sonserinos com sua astúcia e
os Lufa-lufas com sua dedicação
Poderão consegui-la?
Quererão consegui-la?
Perante todos vocês um mundo novo
com a liberdade e a tranqüilidade
que a morte de muitos custou
Saberão cuidá-lo?
Saberão mantê-lo?
E, de repente, a boca se fechou uma vez mais. Por um instante, todos ficaram em silêncio até que a diretora McGonagall começou a aplaudir, sendo imitada pelos demais professores e em seguida pelos alunos.
—Este ano ele não estava inspirado, não é? — Perguntou Ron.
— Claro que estava, o que disse é muito certo — repreendeu Hermione.
— Ora, vamos. O mundo já está em paz. Do que mais precisam?
— Acho que ele tem razão... — Murmurou Harry, lembrando de Malfoy e pensando nos outros "reformados". — Não terminará até que as pessoas parem de acusar e atacar.
— Ora, vamos, ninguém está atacando — disse Ron, e Hermione ia replicar, quando a voz da professora Hooch se fez escutar novamente.
— Agora iniciaremos a seleção. Quando disser os seus nomes, por favor, passem para frente e sentem-se no tamborete para que o chapéu possa identificá-los na casa a qual pertencem.
As crianças diante do chapéu pareciam apertar-se mais entre eles, enquanto a professora esticava o longo pergaminho. Harry sentiu simpatia por eles, recordando sua própria seleção, aquela que agora lhe parecia tão distante.
— Aczel, Lucas — um menino magricela e de cabelo escuro deu um passo a frente. Parecia tremer ligeiramente enquanto a professora deixava o chapéu cair sobre sua cabeça.
— Corvinal!
O menino deu um pequeno salto e a professora lhe tirou o chapéu. Enquanto corria em direção à mesa que lhe indicavam, seus companheiros da Corvinal gritaram e aplaudiram com força.
— Bester, Aphra — uma menina de cabelos longos e loiros, soltos sobre suas costas, avançou com passos lentos e o olhar fixo para frente.
— Sonserina! — Gritou o chapéu que somente a tocou. A garota se pôs em pé com a mesma calma e caminhou até sua mesa, enquanto a mesa da Sonserina aplaudia e se colocava de pé.
Harry então se fixou em Malfoy mais uma vez, sentado ali, olhando para frente, as mãos sobre a mesa e as costas retas. Parecia imperturbável, não havia aplaudido nem mostrado maior entusiasmo e seu comportamento o intrigava mais e mais.
— Chepstow, Julian — disse a voz de Madame Hooch, porém Harry mal a escutou; continuava com o olhar em Malfoy, analisando o seu comportamento estranho. Reagiu quando seus companheiros começaram a aplaudir e ovacionar Chepstow porque pertencia à Grifinória.
A seleção continuou, com as mesas gritando e animando, conforme ganhavam novos companheiros.
Green, Holly — mais outra menina saiu à frente.
— Lufa-lufa!
— Herrick, Jenny — uma menina bastante alta e com tranças no cabelo correu em direção ao chapéu.
— Grifinória! — Gritou o chapéu e Harry tornou a se colocar em pé para aplaudir, tal como seus companheiros.
— Laffont, William — um garoto bastante nervoso se adiantou.
— Sonserina! — As demais mesas ficaram em silêncio, enquanto o garoto corria com entusiasmo para a mesa e se sentava junto a uma dupla de garotos do terceiro ano. Ao que parecia, eram seus parentes.
Anne Laskier foi sorteada para Corvinal, e Josephin Leigh para Grifinória, seguiram Ken Melcombe para Lufa-lufa e Stuart Parry e Sara Rendall para Sonserina. Nicolas Salk foi escolhido para Grifinória e Pierre Thorpe para Corvinal, Zillah Toledano para Grifinória e, finalmente, Leticia Viertel para Sonserina.
Harry notou, inclusive, que os alunos de primeiro ano se esforçavam para sentar-se o mais distante possível de Malfoy, que permanecia da mesma forma que o havia visto antes. Pelo visto, era uma sorte que a mesa fosse tão grande e que não tivessem tantos alunos durante esse ano. Suspirou aliviado quando finalmente tudo terminou, realmente estava faminto e mal podia esperar para que o jantar começasse. Ao seu lado, Ron tamborilava na mesa com os dedos, certamente mais ansioso que ele.
— A todos os nossos novos companheiros, bem-vindos à escola e à suas casas, onde estou certa que todos os farão se sentir muito bem. E, agora sim, podemos dar o ano por iniciado — a professora McGonagall agitou a varinha e as mesas se encheram de pratos para o banquete. Os alunos aplaudiram entusiasmados antes de começarem a comer.
Ron e Harry comiam em silêncio, praticamente devorando a comida, enquanto Hermione murmurava e conversava calmamente com Ginny. Por muito tempo, ninguém mais disse nada, Harry podia escutar os alunos do primeiro ano, aos novatos cochicharem alegremente.
— E será fantástico que ele esteja em nossa casa, não é? — Disse uma menina. Harry estava seguro de ter ouvido seu sobrenome. Herrick, inclinando-se até outro menino, Chepstow, continuou.
— Sim, mas mamãe disse que ele não gosta que o incomodem e que por isso ninguém o viu desde que você-sabe-quem perdeu.
— Terá todos esses poderes que dizem?
— Não sei, mas é melhor não incomodá-lo. Dizem que ele pode enfeitiçar todo mundo só com o pensamento e...
Harry não foi o único que o notou, pois o silêncio se estendeu entre a mesa enquanto Chepstow dizia o último comentário. Ambos os garotos se viraram enrubescidos para os maiores. Harry arqueou uma sobrancelha e negou com a cabeça antes de retornar ao seu jantar. Detestava que falassem dele, detestava a popularidade, e antes pelo menos na Grifinória havia podido manejar a situação razoavelmente bem, mas agora com os novatos e com o fim da guerra, seria muito mais difícil.
ººººº
Draco tratou de não parecer entusiasmado demais enquanto se servia um pouco mais de purê e carne. Não que não sentisse saudade da comida de sua mãe, mas não quis aceitar o dinheiro para o carrinho de lanches que sua mãe queria lhe dar naquela manhã. Não que tivesse servido de muito; assim que a mulher dos lanches passou pelo seu vagão e o viu, passou direto como se não o tivesse visto. De modo que ali estava ele, faminto e tratando de não parecer um morto de fome, escutando as conversas divertidas de seus demais companheiros e tratando de não se mostrar incomodado pela forma como todos o estavam ignorando. Agradeceu que nenhum deles se metesse com ele durante o resto do banquete.
Quando todos estiveram aparentemente satisfeitos e os últimos pratos de sobremesa desapareceram, a professora McGonagall se colocou de pé mais uma vez e as conversas cessaram imediatamente.
— Agora é hora de descansar. Amanhã temos aulas, mas antes reiterarei as recomendações que devem levar em conta, para o caso de alguém não ter ouvido: devem acatar os horários do toque de recolher e obedecer aos professores. Este ano se voltará a jogar a copa de quadribol, ainda não pudemos enviar as cartas para escolher os capitães, porém estas chegarão durante a semana seguinte; dentro de três semanas começarão os testes, os de primeiro ano não poderão participar das equipes ainda... — Draco bufou irritado, lembrando como a Potter, sim, deixaram jogar desde seu primeiro ano. — Agora, em ordem, por favor, sigam aos monitores até seus salões comunais... — O olhar da professora McGonagall se deteve em Draco um momento a mais e por um instante pensou que talvez a mulher pudesse dizer algo que o metesse em problemas ou o deixasse em evidência, algo do tipo a "Não se aproximem nem provoquem ao pobre ex-comensal", porem não aconteceu. — Boa noite a todos.
ººººº
Harry se pôs de pé e Ron e Hermione se adiantaram, pois ainda conservavam seus postos de monitores, para guiar os menores até a torre. Harry ficou de lado, junto a Neville, Dean e Seamus, que já conversavam alegremente sobre a temporada de quadribol. Ginny, junto a Lavander e um par de garotas que conhecia de vista, também se uniram a eles, todos falando tranquilamente enquanto o salão ia se esvaziando pouco a pouco.
Quando finalmente decidiram sair, Harry se fixou uma vez mais em Malfoy. Os de sua casa já haviam ido e ele permanecia sentado ali, com um cotovelo sobre a mesa e o rosto apoiado de lado, olhando para os alunos de maneira desinteressada, quase entediado. Pareceu-lhe estranho que ele não se unisse a seus colegas ou que sequer se movesse para chegar ao seu quarto.
ººººº
Esperou o que lhe pareceram horas até que finalmente os alunos terminaram de sair, então Filch se aproximou a ele novamente. — Malfoy, a diretora me pediu que te mostre seu quarto.
Draco fez apenas um assentimento e se pôs de pé, realmente morria de sono e esperava que o lugar não ficasse muito longe. Caminhou atrás do homem pelos corredores e se cruzaram com vários grupos de alunos que iam de um lado para o outro, alguns se viravam para encará-los de maneira curiosa, enquanto continuavam se afastando. Subiram até o terceiro andar, em uma área onde, segundo sabia, havia somente salas de aula em desuso; por um momento, temeu que o enfiassem em uma simplória sala reformada, apenas para escondê-lo em algum lugar. Caminharam um pouco mais até parar diante do retrato de uma fada, uma muito bonita, rodeada de estrelas prateadas, no fundo só havia escuridão, ressaltada ainda mais pelas estrelas. Draco nunca o tinha visto antes.
— Bem, Malfoy, é aqui — o homem apontou para o quadro. — A senha é Paz.
Draco ergueu uma sobrancelha ante o olhar zombeteiro do homem e não disse nada, simplesmente olhou para a fada, que sorria de maneira tranquila enquanto seu cabelo loiro ondulava ao redor, notando sobre o quadro o letreiro "A Fada Formosa", e disse com voz firme — Paz.
A fada lhe deu um sorriso mais cálido e o quadro se tornou mais profundo, deixando ver um pequeno e escuro corredor. Draco nem sequer virou para se despedir do homem, apenas entrou; assim que o fez, as tochas iluminaram o corredor e o lugar pelo qual tinha entrado se solidificou, fechando dessa maneira a entrada. O corredor era uma pequena ante-sala para o que era seu quarto, um circular, com paredes de cor clara, sobre uma delas havia uma bandeira de sonserina, e no centro uma confortável cama de dossel de cor verde-escuro. A um lado, uma escrivaninha e uma porta que levava ao banheiro; de alguma maneira, se parecia bastante ao quarto que havia compartilhado com os de sua casa nos anos passados, mas não podia ignorar que não era o mesmo, porque agora se encontrava só.
Deu mais uma olhada ao redor, abrindo a porta do banheiro: uma pequena banheira e os demais itens sanitários pareciam bastante finos e adequados. O lugar, não podia negar, era amplo e a grande escrivaninha a um dos lados, junto a uma estante vazia, lhe deu a entender que talvez a diretora e os professores preferissem que ele passasse a maior parte do tempo ali, fazendo os deveres.
Tomou um banho e trocou de túnica; não tinha muitas agora, e assim que deixou a túnica que havia usado durante o dia sobre o chão, está desapareceu tal como ocorria nos aposentos de Sonserina, para que os elfos pudessem lavá-las. Agradeceu que os elfos da escola ainda se encarregassem de limpá-las, pois em casa sua mãe já havia lhe ensinado os feitiços de lavagem e não lhe agradava muito fazê-los.
Ainda um tanto sonolento, sentou-se na cadeira de madeira, diante da escrivaninha, pegou um pedaço de pergaminho e uma pena e dedicou uns minutos para escrever à sua mãe, lembrando sua promessa.
Disse a ela que estava bem, vivo e a salvo (esperou que sua mãe não se chateasse pela piada cruel), e que a seleção foi entediante, que jantou bastante, que nenhum de seus companheiros se meteram com ele e que agora estava bastante cansado e que iria dormir logo.
Evitou lhe contar sobre o quarto separado ou sobre a maneira fria como seus companheiros o tratavam. Sua mãe não precisava disso.
Consultou o relógio mais uma vez e comprovou que ainda tinha tempo de sobra para correr até o corujal e voltar. Esperou encontrar alguma coruja que quisesse levar sua carta.
ººººº
Tudo voltou à normalidade, pensou enquanto se deixava cair naqueles cômodos e velhos móveis diante da lareira, junto a Ron e Hermione. A um lado, podia ver Neville, que ainda carregava com ele o pobre do Trevor, e a Dean e Seamus conversando. As garotas do sétimo ano haviam feito um pequeno grupo no outro extremo, conversando entre risadas bobas.
— Acha que te escolherão para ser capitão novamente? — Perguntou Ron.
— Não sei... Nem sequer sei se vou querer o posto. Agora estou pensando em outras coisas...
— Outras coisas além do quadribol? — Ron perguntou incrédulo.
— Claro que há mais coisas — criticou Hermione —, agora devemos nos focar no que faremos mais adiante, com o resto de nossas vidas...
— Eu já decidi isso — disso Ron, um tanto sério. Harry e Hermione o encararam assombrados.
— Sério?
— Sim, eu... — Ron arqueou uma sobrancelha, um pouco chateado. — Por que lhes parece inacreditável?
— Não dissemos isso — se defendeu Hermione e Harry assentiu rapidamente em apoio à resposta de sua amiga.
— Tá, que seja — Ron deu um profundo suspiro —, estive falando com George... E decidimos que recomeçaremos o negócio da Gemialidades Weasley assim que eu termine o curso.
— Pensei que ele estava na Romênia com Charlie — disse Harry, recordando a última vez que havia ouvido sobre ele.
— Sim, está lá, tratando de levar tudo com calma... Disse que ainda se sente um pouco estranho por não ter Fred ao lado — o olhar de Ron ensombreceu bastante. Harry teve que reconhecer que, efetivamente, era muito difícil imaginar a um sem o outro... Pensou no quanto George devia estar passando mal agora.
— Oh... — Hermione apenas murmurou.
— Porém, ele voltará em alguns meses, quando se sinta bem, e em seguida iniciará o negócio novamente. Eu prometi ajudá-lo.
— É uma ideia muito boa — comentou Hermione, pondo suas mãos sobre as de Ron e sorrindo carinhosamente.
— Será genial — Harry o animou com um sorriso.
— Será, vocês logo verão.
ººººº
Ao que parecia, não havia sido o único a decidir enviar uma carta a essa hora da noite. Quando chegou ao corujal, uma dupla da Corvinal e um Lufa-lufa já estavam ali, atando as cartas às corujas. Os garotos lhe deram olhares de rancor, que ele ignorou o melhor que pode, enquanto chamava uma das corujas da escola, agradecendo que não se negasse a levar a carta e sentindo falta da sua eficiente coruja... Nem sequer sabia o que tinha acontecido com ela, ao final.
Quando já saía para regressar ao seu novo aposento, os garotos ainda continuavam no corredor, pelo visto esperando-o. Tratou de não se mostrar temeroso ou assombrado por isso e passou direto.
— Escreve para sua mãe comensal? — Perguntou um deles. Draco se virou um instante para vê-lo melhor; pensou recordar que seu sobrenome era Whitby, mais novo que ele. Ignorou seu comentário e somente o encarou de mau jeito antes de seguir andando.
— O Ministério sabe o que você escreve? — Perguntou outro. Draco escutou suas vozes perto demais, soube que estavam se aproximando a ele.
— Não te disseram que deve nos tratar com respeito? — Atacou outro deles, enquanto o segurava por um ombro e o fazia virar.
Draco se sobressaltou pelo toque e os encarou com ódio. Reconheceu a outro deles: Ackerley, um Corvinal também mais novo.
— Me deixem em paz.
— Uuh, sim! Cantarolou o outro Corvinal que não conhecia. — O comensal pede que o deixem em paz.
— E, claro, acha que tudo é como antes e que o deixaremos em paz — completou Whitby, com deboche.
— Vão à merda — respondeu Draco, antes de se virar, ou tentar pelo menos, pois um golpe no peito o fez bater contra a parede e lhe fez soltar um pequeno grunhido de dor.
— Isso não é respeito, Malfoy — disse Ackerley, com malícia na voz, enquanto se aproximava novamente a ele.
Draco tratou de se adiantar e correr, mas os outros dois garotos já estavam sobre ele, segurando-o com força.
— A casa de meus tios foi atacada durante a guerra e eles sofreram muito por culpa de vocês — reclamou Ackerley, para em seguida lhe dar um forte golpe no estômago.
Draco tratou de se defender, porém sujeito como estava era impossível, e devia ser honesto, a menos que fizesse uso de sua varinha, não sabia outra forma de se defender; brigar aos punhos com qualquer um deles seria uma batalha perdida. Os golpes continuaram vindo da parte do garoto, enquanto sentia seus braços intumescidos por causa da força com a qual lhe seguravam. Quando um novo golpe lhe acertou em cheio no rosto, sentiu o sabor do sangue em sua boca.
— Que fique claro, Malfoy... Pode ser que o Ministério pense que você seja reformável, mas nós não esquecemos — disse finalmente o garoto que Draco não conhecia, enquanto o deixavam cair ao chão. Ergueu a vista de maneira desafiadora para eles, ainda sentindo como um pequeno fio de sangue escorria pelo seu queixo.
— Já lhe tiraram suas vontades, comensal — disse finalmente Whitby, antes de se afastar.
Draco ficou deitado por mais um tempo, ofegando e tratando de se acalmar. Era genial, apenas levava metade do dia no castelo e já havia sido atacado. A ideia de sair o mínimo possível de seu dormitório lhe pareceu mais agradável que nunca.
Checou seu relógio mais uma vez; já faltava pouco para o toque de recolher e não queria se meter em mais problemas, de modo que reuniu todas as forças que pode e se colocou de pé. Arrastando os pés e segurando-se nas paredes, caminhou o mais depressa que pode até seu quarto, quatro andares abaixo.
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Já era um pouco tarde e ele se sentia muito cansado para continuar no salão comunal, de modo que, deixando Ron e os demais abaixo, subiu para o seu dormitório e vestiu o pijama. Estava organizando algumas coisas em seu malão quando viu o mapa do maroto; fazia muito tempo que não lhe dava uma olhada e só para passar o tempo, o levou à cama com ele e o golpeou com sua varinha. Dedicou-se a estudar as áreas do colégio, vendo a grande quantidade de alunos reunidos nos salões comunais e alguns em seus quartos. A diretora McGonagall ainda estava em seu gabinete, e viu Pirraça flutuar perto do banheiro feminino do segundo andar. Seu olhar elevou-se um pouco mais e então viu algo que lhe chamou a atenção: Malfoy se movia muito lentamente em um dos corredores do terceiro andar. Olhou para seu relógio e viu que a hora do toque de recolher quase havia chegado e Malfoy estava muito longe de seu salão comunal. O que Malfoy estaria fazendo ali? Além do mais, movendo-se de maneira tão lenta... Então a etiqueta que dizia Draco Malfoy parou e de repente desapareceu. Harry piscou algumas vezes, não acreditando no que havia visto, e procurou ao redor dos outros corredores, mas ele já não estava em nenhum lado. Por um louco momento, pensou em colocar a capa de invisibilidade e investigar o que Malfoy estava aprontando, mas lembrou que já não era seu trabalho averiguar o que faziam os demais, incluindo Malfoy, e que, além disso, Malfoy merecia o benefício da dúvida. Estava certo de que ele havia aprendido a lição e que não faria nada ruim. Certo?
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Depois de passar cerca de meia hora na banheira com água quente, se deixou cair na cama, ofegando suavemente pela dor nas costas e os hematomas no abdômen. Por sorte, havia trazido de casa algumas poções e os golpes em seu rosto desapareceriam no dia seguinte. Pelo menos não se mostraria tão machucado como tinha ficado.
Suspirou profundamente e tratou de buscar uma posição adequada para dormir. Sentiu falta como não pensava que sentiria de seu dormitório, já não o da mansão ou o do salão comunal da Sonserina, mas daquele pequeno dormitório na casa de sua mãe, em Rútland. Pensou nela e esperou que realmente estivesse bem e que não passasse a noite pensando nele.
Com um movimento de varinha, as luzes das tochas diminuíram até quase deixar tudo em penumbras. Puxou um pouco mais as mantas e tratou de não pensar no quão solitário se sentia nesse momento.
NdT2: Na versão em inglês de HP, Malfoy brinca com o sobrenome de Ron, fazendo trocadilho. Então, é comum chamá-lo de Weasel (doninha), e faz sentido se lembrarmos que os Weasley vivem num lugar que auto-denominam A Toca... É claro que, vindo de Draco, a gracinha sempre é tomada da pior forma. No quarto ano, Bartô Jr. transforma Malfoy num animal similar, um Ferret (furão), e este passa a ser chamado assim por Ron e Hermione, em retaliação. Na versão espanhola (não li os livros, portanto não sei se é canon ou fanon), adaptaram os apelidos para La comadreja (Weasley) e El hurón (Draco), que tem o mesmo propósito da versão inglesa, mas que infelizmente não foi adaptado da mesma forma na nossa versão pt. Então, como estou traduzindo uma fic onde essa troca de alcunhas aparecerá com alguma frequência e importância, pensei em fazer uma adaptação própria, mas que não fugisse à história. Então aqui, Malfoy continuará sendo a fantástica doninha quicante e Ron passará a ser tratado por Rei Weasley, em alusão àquela agradável música que Malfoy em pessoa escreveu durante o quinto ano, para as partidas de quadribol. Eu imagino que Ron e qualquer outro sacaria na hora o teor pejorativo de ser chamado de rei logo por Malfoy.
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PRÓXIMO CAPÍTULO: A ESCOLA DE MAGIA E BRUXARIA DE HOGWARTS
