Capítulo 8
Novamente, ás seis horas Bella já tinha terminado todo seu trabalho. Seus companheiros se despediam dela com acenos e desejando-lhe boa noite. Dessa vez ela não pensou em tomar uma ducha, ela estava suada e isso ajudaria a manter Edward longe dela, ou pelo menos era o que ela esperava.
Ao chegar à calçada, ela não se surpreendeu ao encontrá-lo encostado no corrimão da escada da porta do prédio. Ele usava uma calça jeans escura e uma camiseta branca de gola em V deixando a pele perfeitamente lisa e branca à mostra, fazendo com que Bella se odiasse por ter deixado a ducha de lado. Era difícil permanecer toda suada e cansada do lado de um homem tão perfeito.
Além do fato dela estar suada, havia algo mais tornando a cena diferente do dia anterior, Edward estava sorrindo. Não um simples sorriso, era um sorriso aberto e provocante. Aquilo era tão estranho que antes que ele pudesse dizer qualquer provocação, Bella disparou:
— Porque esse sorriso besta na cara?
Edward desencostou-se do corrimão e Bella notou que ele estava sem os óculos escuros e seus olhos estavam tão verdes que a deixaram tonta. A lembrança do dia em que quase fora atropelada por ele voltou a sua mente e um detalhe lhe chamou atenção. Os olhos dele aquela noite estavam escuros e ela se lembrava bem, pois ela nunca havia visto olhos tão escuros como aqueles.
— Eu por acaso sou proibido de sorrir – a voz dele estava carregada de sarcasmo, ela quase podia sentir o sarcasmo atravessando a pele dela – Ou por acaso, meu sorriso te deixa constrangida?
Bella ainda estava concentrada demais na cor dos olhos dele, portanto ela não o respondeu, ao contrário, ela simplesmente lhe fez outra pergunta:
— Seus olhos não são pretos? – Edward piscou e o sorriso dele vacilou.
— Não – ele respondeu rápido – Meus olhos são verdes, Isabella.
— É, eu estou vendo, mas na noite que você quase me atropelou, seus olhos estavam pretos. E não venha me dizer que eu sou louca porque eu me lembro perfeitamente daquela noite.
Edward franziu a sobrancelha, vasculhando a mente até encontrar a lembrança daquela noite.
— Ah sim, meus olhos ficam escuros quando eu estou... Como posso dizer... Com fome.
Os olhos de Bella se arregalaram aos poucos, enquanto ela processava a informação. Assim que ela compreendeu a informação contida naquela frase, todo o corpo dela ficou tenso e de repente ela não conseguia respirar. Edward assistiu ela ficar vermelha, por um segundo ele achou que ela tinha pensado que ele havia dito aquilo com segundas intenções, o que não era uma total mentira naquela situação, mas após ver a cor sumir completamente e ela ficar sem ar, ele percebeu que ela estava com medo.
— Ah, por favor, Isabella, nós já passamos dessa fase do medo, não passamos? – Ele se abaixou para ficar à altura dos olhos dela, enquanto sacudia levemente os ombros dela – Qual é, eu sou um vampiro, subentendesse que eu me alimente de pessoas. Não vá me dizer que só entendeu isso agora?
Bella puxou o ar com força pela boca e ele percebeu que dizer aquilo não havia ajudado em nada. Ela estava ficando mais pálida e ele não tinha a mínima ideia do que fazer.
— Escuta, Isabella, ter um ataque de pânico agora não é legal, sabe as pessoas podem achar que eu estou tentando te estuprar quando, na verdade, eu não tenho a mínima intenção de fazer isso – o sorriso sacana voltou a tomar conta dele, era impossível não a provocar – Agora, se você continuar com isso eu serei obrigado a fazer respiração boca a boca em você e eu não me responsabilizo se você gostar.
Os olhos dela se arregalaram novamente, Edward estava pronto para segura-la, pois ele tinha certeza de que ela desmaiaria, mas surpreendendo-o, ela o deu um forte empurrão enquanto toda a cor voltava ao seu rosto.
Ela saiu andando decidida, e a única coisa que Edward conseguia fazer era rir enquanto caminhava despreocupado até alcançá-la.
— Você deveria ganhar um prêmio, sabia? Ninguém me faz rir assim em séculos.
— É, eu deveria ficar lisonjeada por ser a palhaça de um vampiro prepotente, obrigada.
— Você deveria ficar lisonjeada por ainda estar viva – apesar de ainda estar rindo, Bella sentiu a firmeza na voz dele, não era uma brincadeira daquela vez.
Bella esperou que Edward começasse a reclamar do metrô e ficasse emburrado, mas o sorriso sacana continuava estampado no seu o rosto e nem por um segundo ele reclamou do empurra-empurra na hora de entrar no vagão. Como se não bastasse, ele não quis se sentar, apenas conseguiu um lugar para Bella e permaneceu em pé na frente dela.
Ela começava a achar que além de prepotente e orgulhoso, ele havia se tornado bipolar. Ou isso, ou ele estava usando drogas fortes de procedência duvidosa, não que ela achasse que drogas teriam algum efeito sobre ele, mas ela já havia se acostumado com todo aquele mal humor e sarcasmo, um sorriso genuíno era algo que ela ainda não havia visto.
Ele continuou sorrindo por todo o caminho do metrô até o apartamento dela, em alguns momentos ela jurava tê-lo ouvido cantarolar baixinho, mas assim que os olhos dela o alcançavam ele estava num silêncio profundo, fazendo Bella duvidar da própria sanidade.
— Antes que você suba correndo com medo de ser atacada por mim, – ele começou assim que chegaram à porta do prédio. – precisamos esclarecer algumas coisas.
A humana manteve a sobrancelha levantada, uma cópia perfeita da expressão que Edward mantinha com ela a maior parte do tempo.
— Não me olhe desse jeito, mocinha – Edward debochou, passando a mão pelos cabelos para tirar alguns fios da frente dos olhos – Vou ser rápido. Como você é obviamente contra ficar trancada dentro do apartamento, que não é tão seguro assim, você precisa manter contato comigo, já que eu não vou ficar atrás de você vinte e quatro horas por dia.
— Que bom que temos essa sorte, não é? – Bella soltou assim que ele parou de falar – Escuta, toda essa proteção é realmente necessária?
— É claro. Agora se você quiser tentar quebrar alguma viga na cabeça do James, vá em frente, menos trabalho para mim, mais comida para ele. – A expressão de choque voltou a tomar conta do rosto de Bella enquanto outro ataque de riso ameaçava Edward – Me empreste seu celular.
Bella permaneceu encarando-o, tentando juntar um mais um e entender como o assunto tinha mudado da viga para seu celular. Ela ainda estava processando a informação quando ele estendeu a mão e tirou o celular do bolso lateral da mochila dela, fazendo um sinal com o dedo para que ela permanecesse calada quando ela ameaçou reclamar. Em segundos o celular estava na mão dela, com um "Edward" escrito na lista de contatos.
— Se alguma coisa acontecer, me ligue. – Ela o encarou perplexa, duvidando seriamente de que, caso o tal de James resolvesse atacá-la, ela fosse conseguir alcançar o celular e dizer "Alô" – Algo importante, por favor. Não me ligue caso seu chuveiro não consiga esquentar e você esteja só de toalha, se quiser tornar nossa relação mais animada, apenas me avise.
Ele piscou, enquanto o rosto dela ficava vermelho e ela desviava o olhar. Ter se alimentado mais cedo fora uma ótima ideia, já que toda a ação e "diversão" o deixara de bom humor o bastante para implicar a cada segundo com a humana.
— Se eu precisasse de alguém para "concertar meu chuveiro", acredite eu não pensaria em você – ela colocou todo o sarcasmo possível em cada pala – Eu tenho vizinhos muito mais eficientes e prestativos.
Ela finalizou com um sorriso tão sacana quanto o que vampiro mantinha, eles se encararam por alguns segundos, desafiando-se, até Bella desviar o olhar e subiu as escadas despedindo-se com um leve aceno da mão.
— Vou aguardar ansiosamente sua ligação, querida. – Edward gritou quando ela estava alcançando a porta, recebendo em resposta apenas um olhar mal-humorado.
O humor de Edward havia lhe dado inspiração, fazendo com que ele fosse direto para seu apartamento escrever mais algumas páginas de seu livro, sorrindo como não sorria a séculos.
Pantufas e pijamas eram as roupas mais confortáveis da história da humanidade na opinião de Bella. E naquele momento, enquanto ela estava jogada na poltrona ao lado da vidraça, lendo um livro de seu autor favorito, era a única roupa que ela queria estar usando.
Ela não levara a sério a história de que James poderia vir atacá-la, ela ainda se lembrava bem de toda a briga, mas começava a achar que Edward só ficava aparecendo porque queria se divertir com ela e uma hora ele iria finalmente cansar e deixá-la em paz.
A campainha soou e Bella levantou a cabeça devagar, o rosto de James preencheu seus pensamentos, mas foi logo afastado quando ela pensou que poderia ser Angela. Mesmo quando ela se lembrou que Angela sempre a ligava antes de ir visitá-la, ela manteve-se firme, recusando-se a deixar seus pensamentos serem tomados por um medo bobo.
Ela deixou o livro de lado e caminhou até a porta. Suas mãos tremeram levemente antes de girar a maçaneta.
O corredor estava vazio. Bella colocou a cabeça do lado de fora e espiou o corredor, não havia ninguém lá. Ela bufou com raiva e voltou para dentro, mas antes que ela fechasse a porta um homem pareceu se materializar do nada em frente a porta. Ela paralisou completamente, o homem que estava ali parado, não era qualquer homem, era um vampiro. Pior ainda, era um vampiro que ela havia atacado com uma viga. James.
Num impulso, Bella esticou o braço e bateu a porta com toda a força que tinha. E mesmo assim ela continuou parada, encarando a porta, esperando ela explodir em milhares de pedaços e que James entrasse e terminasse o que começara a duas noites atrás.
─ Isabellaaaa. - A voz selvagem dele cantarolava o nome dela do lado de fora, deixando um arrepio correr pela espinha de Bella. - Abra a porta para brincarmos, só um pouquinho?
Uma voz na cabeça dela dizia para ela ignorá-lo, achar o celular dela e ligar para Edward, seria fácil cumprir esse plano se ela ao menos conseguisse se mover. Pelo canto do olho ela viu o celular jogado de qualquer jeito em cima do sofá, ela só precisava dar alguns passos, pegar o telefone de discar um número e estaria salva.
─ Vamos, não seja tão chata. – Ele continuava a falar. Bella não conseguia entender porque ele simplesmente não chutava a porta para a longe e entrava de uma vez. – Ok, já que você não quer colaborar, vamos fazer do jeito difícil. Ou você abre essa porta e me convida a entrar... ou eu vou fazer uma visita a adorável senhora que mora no andar de cima e arrancar a cabeça dela. Você escolhe.
Outro arrepio. A imagem da senhora pequena e alegre, que tinha dois gatos e que Bella sempre ajudava a carregar as compras no fim do mês veio em sua mente. Ela não podia simplesmente ignorá-lo e deixá-lo fazer mal a um inocente e ela sabia que se ligasse para Edward, ele não chegaria a tempo. Na verdade, ela não tinha escolha.
Fazendo uma força extrema ela moveu as pernas em direção a porta, precisou respirar várias vezes antes de conseguir abrir a porta. Ele estava sorrindo. E seria um lindo sorriso se não fosse tão perigoso.
─ Chantagem emocional sempre funciona – mais arrepios, Bella não sabia como ainda conseguia ficar em pé quando todo o seu corpo parecia estar sendo atacado por descargas elétricas. – Agora, por favor, me convide a entrar.
Não havia como convidá-lo, ela não conseguia nem ao menos respirar. Ele deu um passo para mais perto da porta e olhou-a como se houvesse uma barreira.
Finalmente, ela entenderá. Uma lembrança das histórias de vampiro que ela costumava ler surgiu em sua mente. "Vampiros só podiam entrar na casa de alguém, se fossem convidados". Por isso ele não quebrará a porta, por isso ele ainda estava do lado de fora e ela ainda tinha um pescoço para chamar de seu, por isso sua vizinha estava em perigo. Ela precisava convidá-lo.
─ Você... quer... – ela passou segundos intermináveis tentando articular as palavras sem que som algum saísse de sua garganta. Fechando os olhos e respirando fundo ela tentou novamente. – Entre, por favor.
Ainda de olhos fechados ela ouviu a risada seca dele, ele iria entrar a qualquer momento agora. Lentamente, ela abriu os olhos e como se fosse o que faltava, ele deu um passo para dentro do apartamento, sorrindo como um lobo prestes a atacar. Um choque de adrenalina passou por todo o corpo dela e todos os membros voltaram a obedecer. "Corra". A mente dela não precisou ordenar duas vezes.
Seus pés a levavam direto para o sofá, faltava pouco para ela se jogar em cima dele e pegar seu celular. Quando seus pés deram impulso em direção ao sofá, um braço firme rodeou sua cintura e a trouxe para trás, seu corpo se chocou com algo firme como uma parede, mas ao sentir uma respiração fria em seu pescoço ela soube que não havia sido em uma parede que ela tinha batido.
─ Para que correr, docinho? A diversão está só começando – a boca dele estava colada na orelha dela e uma onda de enjoo atingiu seu estômago. – Se você está com tanta pressa para começarmos, eu posso te levar até o sofá. Apesar de preferir a cama, vou respeitar seus desejos.
Com um tranco Bella foi jogado, caindo de qualquer jeito e batendo a cabeça com força no braço do sofá. Ela podia sentir o celular sob as costas dela, precisava apenas encontrar uma maneira de pega-lo sem que James nota-se.
Ele estava andando em volta do sofá, admirando a sala-cozinha. O loft de Bella era grande e amplo, por ter sido parte de uma antiga fábrica, o apartamento ocupava todo o andar, com poucas paredes e espaço suficiente para que ela pudesse despojar os moveis pelo lugar sem uma ordem de cômodos exata.
Sua sala era formada basicamente de um sofá branco de três lugares de frente para uma estante grande, que ocupava boa parte da parede oposta, cheia de livros e com uma televisão no centro. A estante estava colocada entre as duas janelas grandes que iam do chão ao teto deixando o ambiente claro e fresco nos dias de verão. No meio da sala havia uma mesa de madeira que era usada oficialmente como apoio de pés.
A cozinha ficava atrás, separada da sala apenas por uma bancada branca de mármore. Ela ficava abaixo de um mezanino, no qual se situava a cama de Bella. Ela havia gastado muito para fazer aquele mezanino, mas havia sido uma ótima ideia, por ser o teto do apartamento alto, ela conseguia mesmo do mezanino, ter a claridade da janelas da sala. Havia ainda um closet e um banheiro lá em cima.
Era seu lugar perfeito e ver James andando por todos os lados, olhando cada detalhe como se estivesse planejando uma mudança lhe dava náuseas. Ela aproveitou enquanto ele andava distraído e sentou-se no sofá, agarrando o celular e tentando apertar os botões certos antes que ele voltasse.
Quando seus dedos estavam quase apertando o botão de discagem, seu celular simplesmente desaparecera de sua mão, indo parar, sabe-se lá Deus como, nas mãos de James. Ele a olhava com uma expressão de falsa indignação.
─ Querendo acabar com a diversão tão cedo, docinho? – ele ainda não havia olhado para a tela do celular e Bella rezava para que ele não o fizesse – Ou, quer convidar mais alguém pra festa? Tudo bem, eu gosto de público. Agora, vejamos quem você acha que seria adequado participar da brincadeira.
Os olhos dele desviaram-se dos dela e olharam para a tela. A única salvação de Bella era aquele aparelho, ela não sabia qual seria a reação dele ao ver o nome de Edward, mas sabia que não seria das boas. Ela estava preparando-se mentalmente para ver seu celular voar pela sala e virar migalhas ao atingir a parede, mas o vampiro a surpreendeu novamente. Um sorriso desenhou-se pelo rosto dele e em menos de um segundo havia se tornado uma gargalhada alta.
─ Eu sabia que podia contar com você para deixar minha noite interessante, Isabella – ele olhou mais uma vez para a tela do celular e riu mais um pouco. – Eu imaginei que depois de toda aquela proteção dele com você no galpão abandonado vocês teriam algum tipo de contato, mas também imaginei que teria que te torturar um poupo para fazer você chamar ele. Mas isso? – Ele mostrou o celular onde o nome e o número de Edward eram visíveis – É uma assinatura de que você é realmente importante para ele.
Bella duvidava seriamente dessa possibilidade, os dias que passara com toda a prepotência e hostilidade de Edward deixaram claro que ele ficava ao lado dela unicamente para se certificar que ela não iria abrir a boca sobre o que aconteceu.
Seu estômago se manifestou quando ela pensou nisso, por algum motivo ela sabia que ele tinha meios mais eficazes para mantê-la calada, tais como, matá-la. Mas por algum motivo ele não escolhera a opção mais óbvia e uma parte dela realmente queria atribuir isso a possibilidade que James havia acabado de propor.
Enquanto seu cérebro brincava com possibilidades, ela sentiu o celular novamente na sua mão, após encarar por alguns segundos o nome de Edward ela levantou os olhos para James.
─ Vamos lá, deixe as coisas interessantes. Ligue para ele. – a expressão de Bella se transformou em puro espanto – Não me olhe assim, não estou te dando chance de ser salva, estou me dando a chance de acabar com aquele vampiro de uma vez e ainda ter alguma diversão com você.
Após essa informação toda vontade de ligar para Edward sumiu de sua mente, ela não queria ser usada como isca, muito menos como um brinquedo de vampiro. Ela analisou suas opções, poderia ligar para Edward, e James faria dela uma Barbie enquanto ele não chegasse, poderia se negar a ligar e ele poderia fazer coisas piores. Mais uma vez Bella estava sendo manipulada por suas emoções, mas dessa vez a única a ser prejudicada era ela mesma, seja qual for a decisão que tomasse.
Antes que pudesse perceber, seus dedos haviam tomado uma decisão e apertado o botão de discagem. Tremula, ela levou o aparelho até a orelha e aguardou
─ Alô – a voz de Edward atendeu depois de dois toques. A voz de Bella sumiu e ela não sabia o que dizer. Ela queria chorar, queria gritar, queria desligar o telefone, fazer qualquer coisa, menos ter que fazê-lo vir até ali e enfrentar aquele vampiro novamente. – Alô?!
─ Edward... – foi um sussurro, quase um gemido, ela nem tinha certeza se ele realmente havia ouvido, mas não se achava realmente capaz de falar mais que aquilo. Era tudo que ela conseguia e quando disse o nome dele, ela desmoronou.
O sussurro do outro lado da linha lhe informou quem era. Edward ouviu perfeitamente a voz de Isabella dizer o nome dele, mesmo que houvesse sido tão baixo.
─ Não me diga que seu chuveiro não esquenta? – Ele sorria, daria tudo para ver a expressão de raiva nos olhos dela naquele momento. Então ele a ouviu soluçar, a respiração falhando do outro lado da linha. Não podia acreditar que ela estava realmente chorando. – O que aconteceu, Isabella?
Houve uma movimentação do outro lado da linha. Edward a ouviu exclamar alguma coisa e então outra voz atendeu ao telefone.
─ O chuveiro dela está em perfeito estado, mas eu não me importaria em verificar. – Edward ficou tenso. James estava no apartamento dela, aquela humana descuidada havia realmente o deixado entrar. Ah, ele queria torcer o pescoço dela. – Como vai, Edward?
─ Estava tudo muito bem até alguns segundos atrás. – Todo tom de sarcasmo havia sumido, Edward havia se tornado um caçador e o que ele mais queria agora era separar a cabeça de James do corpo.
─ Acho que você já deve saber que eu estou com sua humana e tenho planos bem interessantes para nos divertirmos. – Edward ameaçou a madeira da bancada de sua cozinha enquanto a voz de James ia chegando aos seus ouvidos. – E, olhe que interessante, ela achou que seria uma boa ideia você se juntar a nós nessa festinha. Eu achei uma ideia magnífica.
─ Será uma festa para mim quando seu corpo não souber mais o que é ter um cérebro.
─ Ideia interessante... – a voz de James se afastou um pouco do telefone – Edward me deu uma ideia... O que acha de eu testá-la em você antes de ele tentar comigo, docinho?
Ele falava com Isabella. Era uma provocação e Edward sabia disso, ele não iria se abalar. Iria agir friamente como um bom caçador.
─ Não acho que seja tão divertido assim praticar em humanos, James.
─ Então, porque você não vem até aqui para conferirmos essa hipótese?
Edward ouviu o telefone ser desligado, seu celular havia virado pó um segundo depois. Ele chegaria lá antes que James notasse.
Dessa vez as expectativas de Bella estavam corretas e o celular dela foi parar na parede. James se aproximou dela e segurou o rosto dela com mãos frias forçando-a a encará-lo. Os olhos dele estavam negros e ela se lembrou do que Edward havia dito sobre como os olhos dele mudavam quando estava com fome. Se aquela regra valesse para todos os vampiros, aquele na sua frente estava com fome e ela sabia que a artéria que passava pelo seu pescoço era um self-service perfeito para ele.
─ Do que nós vamos brincar? – Ele se aproximou mais e encostou o nariz no pescoço dela, respirando fundo. – Seu cheiro é maravilhoso... Faz alguns dos meus instintos rugirem.
Bella sentiu a mão de James subir e descer lentamente por seu pescoço, precisamente onde a artéria pulsava, era estranho sentir a mãe gelada dele encostar com tanta intimidade em sua pele suada, impulsos enjoativos atacavam seu estômago.
Ela nunca quis tanto que Edward aparecesse com toda aquela prepotência e arrancasse James de cima dela.
Uma batida forte na porta fez James se afastar dela e caminhar até lá, Bella sabia que era Edward, ninguém mais bateria em sua porta com tanta firmeza e autoridade. Ela sentiu um alivio tomar conta de seu corpo.
— Eu não sei se você já o convidou para entrar, então é melhor eu ser cuidadoso, não? – A voz de James veio da porta. Bella simplesmente não conseguia ordenar seu corpo a se mover e virar para olhar e verificar o que ele estava fazendo. – Edward?
Nenhum barulho veio do outro lado da porta, ela ainda prendia a respiração e acabara de perceber que a tela de sua televisão servia como um espelho, lhe dando uma visão pouco embaçada do que acontecia atrás de si.
James hesitou por um tempo em frente a porta, pensando no próximo passo. Houve um movimento na janela ao lado e Bella viu uma mão abrindo-a e um corpo alto e forte aparecer. Edward não respondera ao chamado de James porque ele não estava na porta, ele estava pendurado na janela de Bella, olhando-a intensamente.
Bella esperou que ele pulasse para dentro e corresse até onde James estava, mas ele apenas ficou parado lá, esperando... Com um choque, ela entendeu porque ele ainda não entrará. Ela não o convidara para entrar, como James havia presumido corretamente e naquele momento ele estava esperando por aquele convite.
Ela precisava tomar uma decisão, James estava abrindo a porta e olhando para o corredor, aquele era o momento perfeito.
— Entre! – A palavra saiu em um sussurro entre a respiração de Bella, ela mesma mal ouvira, mas fora o suficiente, pois um segundo depois Edward estava de pé no meio da sala, com a pose mais selvagem e elegante que Bella já havia o visto fazer.
James se movera tão rápido quanto Edward ao ouvir o sussurro de Bella, sua posição de ataque não tinha toda a elegância quanto a dele, era completamente selvagem, um leão prestes a atacar.
— Entrando pelos fundos, Edward? Que deselegante. – A voz de James era apenas um rosnado, nada parecido com o tom controlado que ele usava para se dirigir a humana há alguns segundos atrás.
— Ameaçando mulheres indefesas, James? Que sujo. – Edward permanecia completamente composto. Bella podia jurar que a qualquer momento ele empunharia uma espada e começaria um duelo de esgrima como um lorde inglês, isso se não fosse pelo rosnado preso no peito dele que denunciava que não haveria uma luta limpa.
— Mulheres indefesas não têm defensores de honra como você, ou devo dizer... Cão de guarda?
Um sorriso irônico se formou no rosto de Edward e Bella sabia, mesmo sem muita experiência, que ele iria fazer alguma piada.
— O cão de guarda aqui, conseguiu te enganar direitinho. Afinal, eu nunca quis protegê-la, eu apenas usei o interesse que sua mente absurdamente pequena tem nela. Sabe, eu sabia que uma hora ou outra você iria querer algum brinquedinho, é normal, na sua idade. Então, eu só mantive o brinquedo por perto.
O queixo de Bella caiu, o que era bem impressionante devido ao fato que nenhuma outra parte do corpo conseguia se mover. Ela mal podia acreditar que havia servido como isca. Ela sabia que ele não queria realmente protegê-la. Ele deixara isso obvio desde o começo. Mas usá-la como isca, aquilo sim era surpresa. Bella teria atacado uma almofada na cabeça dele e gritado algumas boas verdades, se ao menos conseguisse se controlar.
Enquanto Bella tentava encontrar uma resposta boa o suficiente, James saltou do lugar que estava e atacou Edward de uma vez só. Ela apenas viu o borrão, antes dos corpos se chocarem com a parede ao lado de sua estante. Houve um barulho alto, seguido por lascas da pintura caindo por todos os lados.
— Bella, corra. – a voz de Edward vinda do meio do pó foi o que fez Bella finalmente acordar, todos seus movimentos voltaram de uma vez e o choque de adrenalina finalmente tomou conta de seu corpo. Ela pulou por cima do sofá e correu em direção à porta, pronta pra sair sem olhar para trás.
Seus pés escorregaram pouco antes de alcançar a porta, mas ela manteve-se de pé, quando puxou a maçaneta, porém nada aconteceu.
— Ops, esqueci de avisar – a voz de James veio de algum lugar no meio da briga – Eu tranquei a porta, docinho.
Bella encostou as costas na porta e prendeu a respiração. Dessa vez a briga parecia dez vezes pior porque Bella conseguia realmente ver eles se movimentando. A luz de seu apartamento deixava tudo mais real e mais assustador.
A luta estava aparentemente empatada, os dois se batiam o tempo todo com uma força gigante. Edward conseguiu derrubar James, fazendo com que o assoalho afundasse no local em que ele caiu. Uma fração de segundo depois, Edward estava sendo jogado em cima do sofá, transformando-o em dois.
Bella não ousava interferir dessa vez, mas ela tinha quase certeza que acabaria como uma sem-teto quando aquela briga terminasse. Parecia simplesmente impossível que algo permanecesse de pé depois daquilo.
Para provar esse pensamento, James levantou Edward e o jogou sobre sua mesa de centro, fazendo com que várias lascas se prendessem no corpo dele. Ele se recuperou rápido, mal dando tempo para que James voltasse para posição de ataque.
Com passos vacilantes, Bella começou a andar em direção ao mezanino, parecia o lugar mais seguro para se estar, uma vez que era o mais distante possível da briga. Ela subiu a escada lentamente, temendo tropeçar caso corresse.
Do mezanino ela quase se sentia em um coliseu, a visão de cima da briga arrepiou seu corpo e roubo-lhe a respiração, suas mãos agarraram a grade com força. A única coisa passando em sua mente naquele momento era o que aconteceria caso Edward perdesse aquela luta.
Em meio a tantos chutes e socos, James conseguiu paralisar Edward, segurando-o pelo pescoço, Bella esperou pelo pior naquele momento. Ela sabia que se ele morresse, suas chances de sair viva daquele apartamento seriam nulas, nada mais impediria James de transformá-la em lanche. Mas, Edward foi mais rápido outra vez, com um golpe certeiro ele quebrou o braço que James usava para imobilizá-lo e começou a bater nele com força e numa velocidade quase humana, o suficiente para que Bella pudesse acompanhar cada golpe.
Ele atingia com força cada parte do corpo dele, ela ouvia o barulho constante de ossos quebrando e um arrepio tomou conta de todo seu corpo. Com um movimento firme, Edward arrancou uma lasca de madeira da perna e enfiou direto no coração de James. Uma lufada de ar escapou da boca dele, enquanto todo seu corpo ficava tenso e murcho.
— Criatura de merda. – Ele disse entre dentes encarando os olhos negros de James – Mande minhas saudações para o demônio.
Edward soltou a lasca e deixou o corpo de James cair no assoalho completamente paralisado. Bella continuava parada, contemplando a cena sem conseguir raciocinar direito.
Ela acompanhou com os olhos enquanto Edward lentamente se virava em sua direção, ele mantinha a respiração pesada e uma expressão feroz. Ele começou a caminhar em sua direção enquanto arrancava os pedaços de madeira que ainda estavam em seu corpo.
— O que eu disse sobre deixar alguém entrar nessa merda de apartamento? – Cada palavra foi pontuada por uma lasca sendo arrancada e jogada pela sala a cada passo que ele dava.
Ele chegou ao pé da escada e arrancou uma lasca grande de seu ombro direito, fazendo uma pequena careta antes de jogá-la com força do outro lado do cômodo.
— Viu só o que aconteceu? – Ele começou a subir as escadas e a única coisa que Bella conseguia mover eram os olhos, que acompanhavam Edward sem piscar. – Eu tive que vir até aqui e destruir metade da sua sala só porque você não consegue manter a porta fechada.
Ele havia parado ao seu lado e mesmo assim ela não se mexera. Edward soltou um suspiro longo e sem o menor cuidado retirou as mãos de Bella da grade e virou-a para si. Todo o corpo dela tremia e ele sabia que devia tentar acalmá-la, mas toda a adrenalina da briga o deixara cego de raiva.
Seu lado vampiro desejava sangue mais que tudo, precisava recuperar todos os machucados. Ele realmente planejava matá-la para pôr fim de uma vez por todas na bagunça que havia se tornado sua vida.
Mas ele não conseguiu. Assim que os olhos castanhos dela o encararam e ele viu todo aquele medo transbordar, algo dentro dele acordou. O silêncio da mente dela o deixava anestesiado, fazendo com que ele escutasse mais claramente outras coisas. Como os batimentos acelerados do coração dela, o sangue correndo por todas as artérias, o ar entrando e saindo dos pulmões como se ela houvesse corrido uma maratona. Era tão simples que doía.
Enquanto ele segurava as mãos dela, tentando encontrar os motivos para matá-la, Bella começou a se acalmar lentamente. Definitivamente, Edward não esperava por aquilo. Ele esperava que ela começasse a gritar, espernear e entrar em choque depois daquilo tudo. Mas ali estava aquela humana estranha, respirando mais lentamente e fazendo seus batimentos diminuírem gradualmente
O único sinal de medo eram as lágrimas grossas que desciam como uma cascata de seus olhos castanhos. Fazia muito tempo desde a última vez que um humano chorou perto dele e aquilo fora um choro de medo. A humana em seus braços chorava de alivio e Edward mal sabia como lidar com isso.
— O.… ob ... Obrigada. – Um fio de voz saiu entre os soluços que começaram a crescer em seu peito. Ela tremia mais conforme os soluços aumentavam e num impulso, ela se soltou das mãos de Edward, passou os braços pequenos em volta da cintura dele e afundou a cabeça em seu peito.
Naquele momento, Edward ficou paralisado pela primeira vez em séculos. A hesitação durou apenas alguns segundos, pois logo depois seus braços se encaixaram nas costas da humana e mesmo sem querer admitir, ele nunca se sentira tão vivo.
