O Bardo e o Pardal
Capítulo 9
- Com licença, meu senhor. Posso lhe falar por um momento?
- Lasho? – respondeu o conde, em um tom de voz que deixava claro que ele não havia gostado da interrupção – Não vê que estou ocupado?
- Tudo bem, Muldovar. – falou o rei Markash, levantando-se de sua cadeira e indicando que a conversa que estavam tendo terminava ali – Já fiz a minha parte por aqui. Agora, dependerá de você.
- Majestade, eu... Eu só não consigo compreender por que isso é tão importante... – tentou falar o conde, demonstrando grande preocupação em sua voz.
- Você conhece Licahla, meu bom amigo. Sabe como ela é...
- Mas... essa é a questão... como o que ela pensa pode ser assim tão importante...?
- Muldovar. – falou o rei, severamente – Licahla é minha esposa e rainha de Onel. É evidente que o que ela pensa é importante.
- Claro, majestade... certamente que sim; eu não quis dizer o contrário... – continuou o conde, suando frio – Só quis dizer que talvez devêssemos relevar o que ela falou, afinal... Ora, o senhor bem sabe como são as mulheres... – e tentou forçar um sorriso que disfarçasse seu nervosismo.
- Na verdade, Muldovar, não sei. – o rei continuava sério – O que está tentando dizer?
- Meu senhor... As mulheres, por vezes, são emotivas demais... Muitas vezes, elas ignoram a razão para agir de acordo com o coração. É evidente que não vejo nisso um defeito, mas, em certas ocasiões, é preciso que a razão prevaleça. E, nesse caso em particular... não vejo como a rainha possa estar sendo racional. O que ela pede é desnecessário e, de certo modo... Irracional!
- Confio em minha esposa, Muldovar. Se ela acredita que isso é o certo, devo apoiá-la.
- Não digo que deva fazer o oposto, majestade... – Muldovar já cerrava seu punho com força, tentando controlar a raiva que ia tomando conta dele – Mas... pense comigo... Devemos ser racionais agora... precisamos ser frios, lógicos e...
- Sabe, Muldovar... Agora, tendo essa conversa com você, certifico-me de que Licahla está certa em seu julgamento. Você precisa mesmo me mostrar um outro lado seu para que eu realmente possa lhe confiar o cargo de meu vizir real.
- Meu senhor, por favor... seja razoável... Já não provei minha capacidade? Minha fidelidade? Já não lhe dei todas as provas de que sou a pessoa mais indicada para ocupar tal posto...?
- Não. Como Licahla bem apontou, falta algo muito importante, que você precisa me provar que possui. Enfim; não vou mais discutir sobre isso. Minha posição está tomada. – e, sem esperar resposta do conde, deu meia-volta e deixou o salão.
Lasho, assim que se viu a sós com o conde, correu até ele, de forma que fazia transparecer sua inquietação:
- Mestre...? Eu preciso falar com o senhor... É urgente...
- Lasho! – bradou o conde – Não vê que agora não é um bom momento? – e voltou a esconder o rosto entre as mãos, com os cotovelos apoiados sobre a mesa.
- Mas... mestre... é importante...
- Lasho, o cargo de vizir real pode estar escapando de minhas mãos nesse exato instante. Preciso cuidar desse problema agora e nada é mais importante que isso nesse momento, entendeu?
- Mestre, mas o que tenho a lhe falar é sobre um outro plano seu que... também deu errado...
Os olhos abriram-se vagarosamente. Suas pálpebras pareciam mais pesadas que o de costume.
Via-se confuso. Onde estava? O que havia acontecido?
E, de repente, uma série de imagens veio à sua mente de uma vez.
O bosque, o lago, o gelo... Ikki!
Hyoga levantou-se rápido e sentiu o corpo dolorido. Percebeu que estava em uma carroça, sobre um monte de feno. E, ao seu lado... estava Ikki.
O moreno estava desacordado e o loiro, pensando no pior, sentiu o coração disparar. Aproximou-se do rosto do outro e pôde constatar que ele respirava. Dessa forma, Hyoga pôde também respirar aliviado.
- Ikki? Ikki, acorde... – falou o loiro, sacudindo levemente o outro. Mas Ikki não dava qualquer resposta.
Nesse momento, Hyoga olhou ao seu redor e viu que estavam em frente à cabana de Ikki. E percebeu que tudo estava recoberto por uma grossa camada de neve... Sentiu-se confuso, pois não estava com frio, e não vestia roupas que o abrigassem devidamente da baixa temperatura. Estava com as mesmas vestes que usara naquela noite com Ikki... aquela noite cujos acontecimentos confundiam-se na cabeça do loiro. Lembrava-se de ter caído na água... e Ikki fora atrás dele. Mas e depois? Como saíram de lá? E há quanto tempo estava desacordado?
Olhou novamente ao redor e viu que, pela quantidade de neve no chão, ele ficara inconsciente por, no mínimo, um dia inteiro.
E então, sentiu o desespero tomar conta de si mais uma vez. Pulou da carroça e dirigiu-se apressadamente para o celeiro.
Lá dentro, encontrou sua mãe deitada sobre a cama. Correu até ela e tentou acordá-la uma, duas, três vezes. Mas Natássia sequer se movia. Respirava, assim como Ikki, mas tão fraco que parecia que, a qualquer momento, daria seu último suspiro. O rapaz loiro mal conseguia pensar, tomado pela angústia. Cogitou a possibilidade de buscar ervas para fazer um chá para sua mãe. Mas logo lembrou-se: o campo já devia estar todo coberto por essa grossa camada de neve. Já não havia mais ervas... e sua mãe despedia-se da vida, de tal forma que o jovem viajante nada poderia fazer para evitar essa fatalidade.
Esgotado, enfraquecido, desesperado e impotente, Hyoga, que estava ajoelhado ao lado da cama, mergulhou o rosto sobre os lençóis que cobriam sua mãe e começou a chorar.
- Então é verdade... – uma voz cortou o silêncio entremeado por soluços – Você... sobreviveu. – o homem olhava para Hyoga como se estivesse vendo um fantasma.
Hyoga levantou o rosto amargurado. Havia reconhecido aquela voz:
- Conde Muldovar... – falou, em um fio de voz.
Muldovar ainda não conseguia reagir. Olhou para Lasho interrogativamente:
- Quando saí daqui, ele estava inconsciente, assim como Ikki! – disse Lasho, como se tivesse de se justificar por algo.
Nesse momento, como se a lembrança de Ikki o tivesse despertado, Hyoga olhou na direção da porta, recordando-se de que o moreno ainda jazia sobre a carroça, exposto a todo aquele frio.
Levantou-se e caminhou com a pressa até a porta, onde foi interrompido pelo conde Muldovar:
- Aonde vai? – perguntou secamente.
- Vou levar Ikki para dentro da cabana. Está muito frio lá fora.
- Ikki não precisa disso. – respondeu o conde, com os dentes à mostra – Ele tem grande resistência ao frio ou ao calor, esqueceu-se? Ele treinou para isso; ele tem preparo para suportar isso...
Hyoga ignorou o comentário do conde e foi até a carroça. Lá chegando, percebeu que o corpo de Ikki tremia muito, o que preocupou bastante o loiro. Puxou-o para si, com delicadeza, tomou-o em seus braços e carregou-o para dentro da casa.
Após acomodá-lo em sua cama, Hyoga foi colocar um pouco d´água para esquentar. Pensava em fazer compressas com água quente, talvez um chá para Ikki e também para sua mãe... O rapaz loiro suspirou. Ele mesmo sentia-se fraco, mas tinha de fazer algo. Entretanto, sentia muito medo de não ser capaz de fazer qualquer coisa...
Quando Muldovar e Lasho entraram na cabana, Hyoga sustentava um olhar vazio, olhando, pela janela, para toda aquela neve. O conde preferiu evitar o jovem loiro e foi direto até o quarto de Ikki. Lá chegando, constatou que o moreno tinha febre:
- Lasho... como isso é possível? – falou o conde, em voz baixa, para não ser ouvido por Hyoga.
- Não sei, meu senhor.
- Ikki tinha preparo suficiente para suportar todo esse frio... Aliás, por que ele ainda está inconsciente? A água fria e congelante daquele lago mataria uma pessoa comum, como esse... forasteiro. Mas Ikki tinha força suficiente para ficar lá por muito tempo e o máximo que poderia ocorrer seria ele perder os sentidos, mas nunca ficar nesse estado... – e virando-se para seu pajem – Faz quantos dias, Lasho?
- Três dias, mestre.
- Três dias! Três dias era tempo mais que suficiente para que ele houvesse recobrado as forças, despertado... No entanto, ele não apenas se mantém desacordado como também se vê fraco e doente! E o outro, ao contrário, está em pé, forte, como se nada tivesse acontecido. Não compreendo...! – Muldovar estava estupefato.
- Bem... vai ver, Ikki não era tão forte quanto o senhor pensava, mestre. – sorriu discretamente o pajem.
- Que absurdo, Lasho. Ikki detinha um poder fantástico e você sabia disso.
- À primeira vista, é o que podia parecer, mestre... Mas talvez estivéssemos enganados. E essa é a prova: Ikki não teve forças suficientes para passar por essa provação. Ele agora se vê completamente enfraquecido, enquanto o forasteiro, que não tem poder algum, exibe a força e energia que deveriam estar presentes em Ikki. Por isso, se uma pessoa normal conseguiu resistir quando Ikki sucumbiu, sou obrigado a concluir que seu afilhado é mais fraco do que imaginávamos. – destilou o pajem, com alguma satisfação.
De repente, os olhos de Muldovar se iluminaram como se ele houvesse compreendido algo:
- Espere um pouco! Repita o que acabou de dizer, Lasho!
- Repetir o quê, mestre? Que Ikki é fraco?
- Não, Lasho! A idéia que você acabou de apresentar... Ora, mas é claro! Como não tinha pensado nisso antes?
- Perdão, mestre... mas não estou conseguindo acompanhar seu raciocínio...
- Lasho, Ikki nutria sentimentos por esse forasteiro... Eu já sabia disso, mas não esperava que tais sentimentos fossem tão fortes a ponto de ele estar disposto a dar sua vida por ele...
- Mestre, ainda não entendo aonde quer chegar.
- Ikki está, de fato, muito poderoso. Mais do que eu imaginava... – o conde coçava o queixo, animado – Ele está despertando muito poder, e até mais rápido do que eu esperava. Quem diria que ele conseguiria evoluir tanto em tão pouco tempo?
- Evoluir? – exaltou-se Lasho – Mestre, Ikki está doente e enfraquecido! Como pode achá-lo forte se...
- Lasho, mas será que você é tão incapaz assim de entender o que digo? Tente observar a situação por outra perspectiva! Ikki, na verdade, está tão forte que foi capaz de salvar não apenas ele mesmo, mas Hyoga também!
O pajem ia falar mais alguma coisa, mas, nesse instante, compreendeu o que Muldovar estava dizendo:
- Percebe agora? Ikki conseguiu proteger o forasteiro, transferindo-lhe grande parte de sua energia; o suficiente para que o rapaz sobrevivesse. E, mesmo passando tanta energia para o outro, ainda assim, restou o bastante para que ele não morresse!
- Está bem, mestre, já entendi. – falou Lasho, frustrado ao perceber, mais uma vez, quão grande era a diferença de poderes entre eles – Mas e quanto ao fato de... seu plano ter dado errado? – disse, buscando mudar de assunto.
- Ah, sim... Temos ainda esse problema... – respondeu Muldovar.
Início do Flashback
- Mestre, o que você fez? – espantou-se Lasho, ainda sem acreditar no que acabara de ver.
- O que era preciso para tirar esse forasteiro de nossas vidas.
- Mas... era parte do seu plano que Ikki também morresse?
- Ikki não vai morrer, Lasho. Quanta ingenuidade de sua parte. – falou o conde, com os braços cruzados e os olhos fixos no lago, cuja camada de gelo estava agora toda despedaçada.
- Não? Mas então... como espera que ele sobreviva? Os dois já estão lá embaixo há algum tempo... Acho que Ikki não conseguiu encontrar o forasteiro para trazê-lo à superfície.
- Mesmo que o tenha encontrado, ele não conseguirá salvá-lo. Fiz com que o corpo do rapaz fosse tragado com toda a força para o fundo do lago.
- Meu senhor, Ikki é teimoso. Não vai desistir de salvar Hyoga, ainda mais agora que percebemos o que ele sente por esse forasteiro. E, se não conseguir salvá-lo, creio que preferirá morrer a seu lado...
- Não duvido disso. – respondeu o conde, retirando-se dali calmamente.
- E... o senhor não se importa? – Lasho estava confuso – Não deseja que ele morra; mas não parece preocupado em tirá-lo da água o quanto antes...
- Ikki é perfeitamente capaz de aguentar um pouco mais. Ele foi treinado para isso.
- Então... vamos esperar que ele regresse à superfície depois de perceber que não pode salvar o forasteiro?
- Claro que não, Lasho. Que pensamento ridículo! – zombou o conde – Ikki deve estar, a essa altura, desacordado. Não tem como ele voltar à superfície por conta própria...
O pajem sentiu o orgulho ferido pelas palavras do conde. Calou-se; a ele pouco interessava mesmo se o moreno viveria ou morreria...
Quando o conde montou em seu cavalo, olhou para o céu e percebeu que o inverno chegaria mais cedo que o previsto. Então, virou-se para seu pajem, que também se preparava para montar em seu cavalo e disse-lhe:
- Vá até aquela taverna que fica aqui perto e peça socorro. Diga que ouviu gelo se partindo e que pessoas caíram na água. Alguns homens deverão sair para resgatá-los, mas você não deverá ir junto. E evite ao máximo que vejam seu rosto, ou que o vejam com cuidado. Não quero que seja reconhecido quando as pessoas da taverna o virem novamente.
- Como assim?
- Alguns homens deverão vir até aqui e conseguirão retirar Ikki e Hyoga da água. Bem, quando finalmente aqui chegarem, o forasteiro já deverá ter morrido. Mas Ikki, graças aos treinamentos de controle corpóreo que vínhamos fazendo, estará ainda vivo. Ele tem força o suficiente para manter seu corpo em uma temperatura ideal, além de ser também capaz de suportar a falta de ar por muito mais tempo que o normal. No entanto, ele deverá gastar muita energia nesse processo, de modo que deverá ficar desacordado por uns... três dias, ao cabo dos quais você deverá aparecer, reclamando-o como seu amigo desaparecido. E, nesse momento, não seria interessante que percebessem ser você a mesma pessoa que os alertou sobre o acidente.
- Mas por que ir atrás de pessoas na taverna? Por que não tirá-lo daqui agora mesmo?
- Porque se essas pessoas o resgatarem, elas mesmas irão cuidar dele durante esses três dias. Você quer ficar cuidando dele durante esse tempo, Lasho?
- Não, meu senhor. – compreendeu o pajem – Obrigado por me poupar desse serviço.
- Não agradeça. Estou poupando-o desse trabalho porque, nesses dias que virão, começarão os preparativos para a festa em que serei nomeado vizir real e precisarei de sua ajuda para resolver alguns últimos detalhes antes da grande noite.
- Claro, meu senhor. Então... devo partir agora mesmo?
- Sim. E não se esqueça: assim que os homens deixarem a taverna para resgatar Ikki, desapareça. Eles não devem vê-lo mais que o necessário. Vou agora para o castelo; tenho assuntos a respeito de minha nomeação a tratar com o rei. Depois de cumprida sua tarefa, vá também para o castelo encontrar-me e dizer se tudo saiu conforme o planejado. Daqui a três dias, você voltará à taverna para levar Ikki de volta à cabana.
- Certo, mestre. – ia partindo quando lembrou-se de mais uma coisa – Ah, meu senhor... ia me esquecendo. E quanto à mãe do forasteiro? O que fazemos com ela?
- Deixe-a. – respondeu o conde, com rispidez – Ela ficará sozinha por esses três dias e, fraca como estava, não deverá sobreviver para receber a notícia de que seu filho morreu. É até melhor assim; que eles se encontrem na outra vida. Agora vá, Lasho. Está ficando cada vez mais frio. Se demorar muito, os homens não virão por medo de serem pegos pela nevasca que se aproxima...
- Sim, senhor. – respondeu o pajem que, em seguida, montou em seu cavalo e partiu dali.
Três dias depois, Lasho retornou à taverna conforme o combinado com seu mestre. Tudo havia corrido de acordo com o planejado: a festa de nomeação do conde para o posto de vizir real parecia estar bem encaminhada, e agora Lasho vinha buscar Ikki para levá-lo de volta à cabana. Já havia escutado, por alto, que o moreno tinha sido resgatado no mesmo dia em que alertara aos homens da taverna sobre o acidente. Assim, ao entrar na taverna, dirigiu-se rápido para a taverneira, a fim de executar o quanto antes a tarefa de que tinha sido incumbido:
- Olá, minha boa senhora! Talvez possa me ajudar... Venho de muito longe em busca de um amigo meu, que está desaparecido. Disseram-me que ele poderia estar aqui, pois há três noites, resgataram um homem que se afogava em um lago congelado, não é mesmo?
- Oh, sim, sim! – respondeu a velha senhora, enquanto servia vinho para alguns clientes – Fizemos o resgate antes da tempestade de neve começar.
- E... conseguiram retirá-lo da água?
- Foi muito difícil, mas meu marido e outros homens conseguiram resgatar os dois.
- Ah, sim... havia mais alguém?
- Havia, sim. E, felizmente, conseguiram retirar os dois com vida.
- Com vida? Os dois? – Lasho não soube disfarçar sua perturbação ao ouvir essa notícia.
- Sim. Isso não é bom? – estranhou a taverneira, ao ver as feições daquele rapaz que tinha diante de si contraírem-se de angústia.
- É... É claro que sim. – tentou se recompor – Eu... posso ver se o homem que resgataram é meu amigo? Porque, se for, gostaria de levá-lo para casa.
- E o que fazemos com o outro rapaz?
- Bem... eu... – Lasho coçou a cabeça, nervoso – Se estavam juntos, meu amigo deve conhecê-lo, então... se for o caso, eu o levo também.
Assim, a taverneira encaminhou Lasho para os quartos da taverna, nos quais muitas viajantes se hospedavam para passar a noite. Abriu a porta de um deles e Lasho, assim que entrou, encontrou Ikki deitado sobre uma cama e, na outra, Hyoga.
- Estão aí. – falou a taverneira, apontando para os dois – Desde que os retiramos da água, estão inconscientes. Mas acho que já estão bem melhor do que há três dias e, em breve, devem despertar.
O assombro em ver Hyoga vivo impedia Lasho de reagir. A senhora então perguntou:
- E afinal... é seu amigo ou não?
- É, sim. – conseguiu dizer o pajem – Eu... devo levá-lo agora. E levarei também o outro.
- Tem como levar os dois?
- Sim, estou com uma carroça aí em frente. – Lasho falava, visivelmente nervoso.
Dessa forma, depois de deixar a taverna com Ikki e Hyoga acomodados sobre um monte de feno na carroça, Lasho partiu em direção à cabana com a cabeça cheia de pensamentos que seguiam basicamente uma única dúvida: "E agora? Com o forasteiro vivo, o que Muldovar irá fazer?"
Compreendendo que era uma situação grave, Lasho concluiu ser imprescindível que Muldovar ficasse a par dessa situação o mais rápido possível. Assim, tão logo chegou à cabana, não se deu sequer ao trabalho de levar os dois rapazes para dentro da casa; pegou seu cavalo com pressa e partiu rumo ao castelo.
Fim do Flashback
- Por que não resolveu o problema você mesmo quando viu que ele estava vivo? – rosnou o conde.
- Eu... – Lasho hesitou em responder – Eu fiquei um pouco apreensivo, mestre. Ele tinha sobrevivido quando não havia chances disso ocorrer! Algo tinha acontecido e eu não sabia o que era... Então, achei melhor chamar o senhor para decidir o que faríamos a respeito.
- Entendo. Além de não possuir iniciativa, você é um covarde. – e olhou com desprezo para seu criado, que mantinha a cabeça baixa – Bem, vou resolver isso logo. Tenho muitos problemas para tratar no castelo com o rei e já perdi tempo demais por sua causa.
- Por minha causa, mestre? – indignou-se o pajem.
- Sim, por sua causa. Afinal, você não soube cuidar deste problema por conta própria e me fez vir até aqui perder meu precioso tempo.
- Mas... a culpa não é minha, mestre! Foi Ikki quem complicou tudo! – Lasho começava a elevar seu tom de voz – Foi ele quem decidiu dar parte de sua energia para salvar a vida do forasteiro e...
- Como é? – Hyoga estava parado à porta do quarto segurando uma vasilha com água quente – Ikki... salvou a minha vida? – perguntou o rapaz loiro, que ouvira apenas a última frase dita pelo pajem.
- Obrigado pela sua discrição, Lasho. – falou o conde, em um tom de reprovação. E, virando-se para Hyoga – Sim; meu pupilo sacrificou-se por você. Não havia compreendido isso até agora? – disse com frieza em sua voz.
- Eu... eu não sei... – Hyoga parecia perdido – Eu ainda não entendo o que aconteceu... Não consegui parar para pensar no que houve... Não compreendo como sobrevivi e cheguei aqui... – o viajante parecia estar ainda em estado de choque.
- Vocês chegaram aqui porque Lasho os trouxe. Ele os encontrou em uma taverna, onde ficaram por três dias depois de terem sido resgatados. E você está vivo porque Ikki esteve disposto a morrer para salvá-lo. Ele passou boa parte de sua energia vital para que você sobrevivesse, mas em compensação, ele agora está aqui, em um estado deplorável. – respondeu o conde, com os dentes à mostra.
Hyoga colocava sobre a testa de Ikki uma compressa de água quente enquanto ouvia as palavras austeras do conde. Seu coração se apertava cada vez mais. Ainda se via muito confuso, mas compreendia bem que as duas pessoas que mais amava sofriam por sua culpa:
- Eu... sinto muito. É tudo minha culpa. Se eu não tivesse forçado Ikki a ir até o lago, se não fosse pela minha estúpida idéia de deslizarmos sobre o gelo congelado... nada disso teria acontecido e Ikki não estaria desse jeito agora... – Hyoga falava mais para si mesmo que para os dois homens que o ouviam calados – E minha pobre mãe... Ela não teria ficado abandonada, prestes a perder a vida por conta da falta de seu filho...
O conde percebeu quão fraco e confuso se via o rapaz loiro e um sorriso discreto desenhou-se em sua face. Uma das grandes habilidades de Muldovar era encontrar meios de tirar proveito da fraqueza dos outros. E, em seu íntimo, algo lhe dizia que poderia se beneficiar muito do estado em que Hyoga se encontrava agora.
- Existe algo... qualquer coisa que eu possa fazer para me redimir do mal que fiz a Ikki? – a pergunta era sincera e a voz demonstrava disposição em realmente acatar o que lhe mandassem fazer.
- O melhor que pode fazer é se afastar dele. Ikki tem uma vida aqui e você o confundiu, fazendo-o acreditar que o que você queria era também do desejo dele.
Hyoga ouviu aquilo sem discordar ou rebater as palavras do conde. O viajante já não tinha tanta certeza de tudo o que pensava antes.
- E... em relação a minha mãe? O senhor saberia me dizer se há algo que ainda possa ser feito para salvá-la? – a voz vinha carregada de uma humildade que muito agradava ao conde. De fato, essa situação começava a lhe parecer cada vez mais vantajosa...
- É muito difícil. Nesses três dias, o corpo dela se enfraqueceu muito. Lasho, que vinha aqui todos os dias, até tentou cuidar de sua pobre mãe, enquanto procurava por vocês dois, que haviam desaparecido... – mentiu o conde – Mas o que ele poderia fazer se não havia mais ervas? Afinal, a tempestade de neve já havia encoberto todo aquele campo...
Hyoga olhou para Lasho e, com um sorriso verdadeiro, disse:
- Muito obrigado por tentar cuidar de minha mãe...
O pajem acenou com a cabeça, aceitando o agradecimento do loiro; mas, em seguida, desviou o rosto por não conseguir encarar aquele sorriso que o outro lhe direcionava.
Depois, voltando a olhar para o conde, Hyoga prosseguiu:
- Mas o senhor não disse que é impossível fazer algo pela minha mãe. Falou apenas que é muito difícil...
- Deveras. – respondeu o conde, sentindo algum contentamento dentro de si. Sua intuição estava certa; ele tinha muito a ganhar com o ocorrido.
- Então... o que pode ser feito? – a voz de Hyoga mostrava determinação – Não importa quão difícil ou doloroso isso possa ser para mim. Eu aceito fazer qualquer coisa para salvar minha mãe.
- Tem certeza, meu jovem? Às vezes, falamos que somos capazes de qualquer coisa, mas não é bem isso que queremos dizer... há sempre um limite que...
- Não há limites nesse caso. Eu faço qualquer coisa. Se me disser que preciso dar minha vida em troca da dela, não hesitarei em fazê-lo.
- Ah... então creio que chegamos a um entendimento. – sorriu o conde, de forma sombria – Mas não se preocupe; não terá de dar sua vida por ela. Bem, não literalmente...
- O que preciso fazer? – perguntou o rapaz, ansioso.
- Logo explicarei. Primeiro, preciso dar uma olhada em alguns dos livros de magia que tenho aqui para me assegurar de algumas coisas. – e, vendo a angústia nos olhos do loiro, continuou: – Não se preocupe; tenho certeza de que há algo que se pode fazer pela sua mãe. Antes, porém, é necessário que me recorde de alguns detalhes para que tudo seja feito da forma adequada...
- Bem... está certo, então. Vou aproveitar e levar um pouco de água quente para minha mãe enquanto faz sua pesquisa.
- Faça isso, meu rapaz. Daqui a pouco, Lasho e eu seguiremos até o celeiro para encontrá-lo.
Hyoga então adiantou-se para pegar a vasilha que estava ao lado da cama de Ikki. Nesse instante, fitou o rapaz que permanecia adormecido, ignorando tudo que se passava ali. Ao olhar para o moreno, sentiu algo parecido com a sensação de um possível arrependimento do que estava prestes a fazer. Mas calou esse sentimento que insistia em se fazer presente, alertando-o sobre um erro que poderia custar-lhe muito. Sacudiu a cabeça como se pudesse espantar esses pensamentos e suspirou. Enfim, tomou a vasilha com água em suas mãos e deixou o quarto.
Assim que se viram a sós, Lasho apressou-se em perguntar:
- O que está pensando em fazer, mestre? Vai mesmo ajudar o forasteiro? Pensei que o quisesse morto...
- Isso foi antes de perceber que ele me é muito mais útil vivo, Lasho. – respondeu o conde, observando Hyoga caminhar até o celeiro pela janela do pequeno quarto.
- Útil? Como...?
- Esse rapaz é a solução que eu buscava. Com ele, poderei resolver dois problemas de uma só vez.
O pajem franziu a testa como quem tentava entender.
- Eu tenho um trunfo em minhas mãos, Lasho. Graças a ele, eu conseguirei não apenas resolver meus problemas com Ikki, como também serei capaz de solucionar minha situação com o rei e, principalmente, com a rainha de Onel. Tudo isso de uma única vez. – os olhos negros de Muldovar brilhavam de satisfação.
No celeiro, Hyoga caminhava com pressa até o leito de sua mãe. No entanto, quando já se via bastante próximo a ela, tropeçou em um pedaço de madeira e a água quente voou na direção da cama. Em um gesto instintivo, Hyoga fez um movimento com a mão, como se assim pudesse impedir que a água se derramasse sobre o corpo inerte de Natássia. E foi nesse instante que algo incrível aconteceu diante de seus olhos.
A água que caía, ante esse movimento, congelou-se...
... caiu sobre o chão...
... e espatifou-se em inúmeros cristais de gelo sobre o solo.
O rapaz loiro, que estava ajoelhado por conta de sua queda, olhou incrédulo para suas próprias mãos. Então lembrou-se de algo que Muldovar havia falado...
Ikki transferira-lhe parte de sua energia vital para protegê-lo, para salvá-lo...
E, ao que parecia, havia transferido algo mais...
Continua...
