O Caso do Livro Roubado

Capítulo 9: Lawrence

Já sofri decepções amorosas antes, um bocado de vezes. Mas nunca nada desse calibre.

Estou destruído. Humilhado até a última gota. Acabo de levar o maior chute da minha vida, ser deixado pela mulher de que gostava pra ficar com um coroa com idade para ser meu pai. E o pior é que se trata do bruxo mais poderoso da atualidade, e simplesmente não dá pra competir com isso.

E pensar que eu bati ele, duas vezes. Aha, o sujeito podia ter me fritado com um feitiço só! O que diabos eu estava pensando?

Agora só enchendo muito a cara mesmo antes de voltar pra casa. Mas eu bem que poderia ter aparatado de volta à Londres primeiro. Imbecil. Porque esse lugar literalmente fede, o firewhisky está uma bosta e vou ter que pagar dois sicles a mais só por outra porção de gelo pra colocar na mão. E se ao menos o Três Vassouras ainda estivesse aberto a essa hora eu não estaria aqui sentado nesse balcão imundo, olhando pra esse barman com cara de... Peraí, ele realmente parece com... Não, não é possível! Nem eu sou tão azarado assim.

– Hei, cara, tem fogo aí? – pergunta uma voz feminina logo atrás de mim.

Fogo? Caramba, somos bruxos! Use sua varinha, dona.

– Não – respondo secamente, sem nem ao menos me dar ao trabalho de virar para trás. A última coisa que quero ver na minha frente agora é uma mulher. Ô raça!

Mesmo assim ela se senta no banco desconjuntado ao meu lado, o cotovelo apoiado sobre o balcão e me encarando. Seus cabelos curtos são espetados como os de um moleque, e o sorriso é de moleque também. Os olhos amarelos transbordam malícia e parece estar um pouquinho embriagada.

Não, Lawrence, nem pense nisso. Já não aprendeu a lição?

– Tudo bem, eu não fumo mesmo – ela faz uma pausa pra me dar uma longa olhada avaliatória, e parece satisfeita com o resultado. – Quer me pagar uma bebida?

Escora-se de costas no balcão e cruza as pernas num gesto exagerado. Ainda está me comendo com os olhos. Conheço esse tipo, e se chama encrenca. Mas, hei, o que eu tenho a perder?

– Claro – faço um gesto pra barman, que completa o copo dela com a mesma cara de tédio com que estava desde que cheguei. – Não que você pareca estar precisando de mais uma, senhorita...?

– Rolanda – se apresenta e estica a mão na direção do meu rosto, obviamente para que a beije. Ok, vamos fazer seu jogo. – E eu sempre preciso de mais uma.

Não posso deixar de sorrir. Essa mulher não está só flertando comigo, está praticamente me molestando! E, vá lá, talvez seja exatamente disso que estou precisando nesse momento: sinceridade.

– Muito prazer, eu sou Lawrence.

Ela faz uma careta e se empertiga. Se eu não soubesse, pensaria que disse alguma coisa errada.

– O Lawrence da Minerva?

– Não mais – retruco com raiva. Se tinha um nome que eu não queria escutar agora, é o dela.

– Ah – Rolanda assente brevemente e parece já estar interessada de novo. – O que houve?

– Não quero falar sobre isso agora – e não quero mesmo. Ela concorda com um aceno e eu prossigo. – Você é amiga dela?

– É, colega de trabalho. Sou instrutora de vôo em Hogwarts.

– Hogwarts. Sempre Hogwarts!

– Nem me fale – com outra careta, ela vira o copo e chama o barman de volta pra lhe servir mais uma dose. – Se eu vir mais um pirralho na minha frente hoje, juro que vou vomitar. Em cima dele.

E dá uma verdadeira gargalhada maléfica.

– Gostei de você, Rolanda.

– Idem. Uma pena você que já esteja ocupado, Lance.

Vejam só, ela já me deu um apelido.

– Não estou mais, e já faz... – paro e consulto o relógio de pulso, pela milionésima vez desde que deixei aquele castelo infernal – duas horas e dezessete minutos.

Mas quem é que ainda está contando, afinal?

– Bem, não me parece muito tempo.

– Acredite, tem gente que acha isso mais do que o suficiente. – Levo meu copo à boca pra forçar mais álcool contra minha própria amargura e com isso ela repara na marca vermelha na minha mão, já aliviada pelo gelo.

– O que houve seu punho?

– Machuquei na cara do Dumbledore – explico, exibindo minha última migalha de dignidade. Essa é a única parte que se salva dessa história toda. – Soquei o velho maldito.

Pra minha surpresa o bruxo até então calado e carrancudo do outro lado do balcão abre um sorriso caloroso pra mim, ri baixinho e dá um tapinha amistoso no meu ombro. Será que estava escutando a gente? Huh, sujeito esquisito.

Já Rolanda me encara, primeiramente incrédula, e depois com um misto de compreensão, admiração e pena. Não sei até que ponto isso me incomoda ou deveria incomodar. Há um certo prazer mórbido em exibir assim minha ferida ainda não cicatrizada, não sei explicar ao certo. Talvez conquistar compaixão alheia e assim também encontrar um jeito subentendido de expor o crime de Minerva. Fazer disso uma maneira totalmente civilizada de chamá-la de vaca e o outro de canalha, nas entrelinhas. Ou quem sabe seja só o firewhisky barato fazendo efeito mais rápido que tinha calculado.

Mas se eu esperava que ela fosse me oferecer algum apoio, não podia estar mais enganado. Parece quase contente.

Mulheres, tsc.

– Ah, entendi. Bem, desculpe por dizer isso, mas não é surpresa pra ninguém que tenha olhos. Os dois...

Se amam – interrompo secamente. Como todo bom homem traído, parece que sou mesmo o último a saber. – Já fui informado, muito obrigado.

Ela volta a rir e se levanta. Um aceno breve pro barman, gira os calcanhares e segue a passos firmes na direção da porta.

– Hei, onde você vai?

– Pra Hogwarts... – vira-se novamente pra mim, me olhando de cima pra baixo de um jeito bastante sugestivo. Demora-se em certa parte de minha anatomia até que me sinto corar. – A menos que sua casa fique mais perto.

– Hã?

– Estou lhe oferecendo uma oportunidade de dar o troco, caso não tenha notado.

Meu queixo cai. Não estou tão bêbado assim, mesmo assim não tenho plena certeza de que entendi direito. Já fui cantado antes, mas assim de forma tão direta chega a ser intimidador.

– Você vem ou será que está esperando um convite formal?

– Eu definitivamente gostei muito de você.

Termino meu drink num gole só e enfio a mão no bolso pra pagar a conta, mas o dono da espelunca faz um gesto negativo e diz que é por conta da casa. Estranho, mas não sou eu quem vai reclamar.

Bem, talvez minha sorte esteja mudando.


Nana Snape: Opa, eu é que agradeço. Foi trabalhoso de escrever, mas gratificante em saber que tem gente curtindo tanto quanto eu.

Uhura: Eu pessoalmente gosto mais desse, hahaha. Acho o Albus tão fofo... E essa "coisa dos pés" é que, sei lá, sempre achei que o Albus tem cara de podólatra.

Mamma Corleone: Que embalando pra presente que nada! Eu quero mesmo é desembrulha-lo, se é que vc me entende... ;)

n/a: Bem, eu sei que ninguém queria saber que fim levou o coitado do Lawrence, mas como autora eu me senti obrigada em finalizá-lo como se deve.

E esse era pra ser o último capítulo, mas eu ainda garanto ao menos mais um epílogo por aí.

Um beijão e até +!