The Collector.
(O Colecionador)
Helena Darkhölme.
09
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... Fraturas expostas, hemorragia interna e pulmão perfurado. Mas a lista não está grande o bastante, então vamos adicionar cegueira temporária.
Reaper estava orgulhoso de sua obra prima.
No momento, ele encontrava-se com uma das mãos entrelaçada a de Hilary. Ela fez questão de contar sobre o "ladrão de fera bits" e especialmente sobre o Brooklyn sem esconder qualquer detalhe mórbido. E Reaper conseguiu reviver o momento como um bom e organizado assassino em série, mas não escondeu a preocupação e a surpresa. Soube também que a passagem de Hiro foi rápida, sendo que ele precisa viajar e conseguir um tratamento especializado para Brooklyn em outro país. O voo saiu de madrugada e ele não teve tempo de se "despedir". Quem sabe em outra oportunidade - que seria em breve.
De longe, Reaper observava a maioria dos Bladebreakers tentando entender os princípios básicos do "ladrão" e seus motivos. Eles conversavam na varanda sem ter vergonha de repreender exclamações, perguntas e ideias insanas. O mais irônico disso tudo era que eles estavam falando de sua pessoa e sem saber - muito menos desconfiar - que o perigo estivesse apenas a poucos metros de distância.
Mas Reaper não parecia ser perigoso agindo como bobo apaixonado. Então ele se inclinou e depositou um beijo rápido e tímido na bochecha dela, ainda mais ao ver Tyson mandar um olhar irritado à ele.
Foi o suficiente para ela rir e corar.
Kenny abriu um arquivo no laptop desligando o volume para que Dizzie não atrapalhasse. Ultimamente eles tiveram uma briga sobre a quantidade de dados armazenados das antigas lutas e que seriam desnecessários para os próximos seis séculos. Ele não queria se desfazer dessas informações e Dizzie também não cooperava, insistindo que sua placa de processamento não funcionava adequadamente. Kenny não a ouviu por mais que ela gritasse em seu ouvido. Dessa maneira, o pequeno nerd tinha alguns sentimentos repreendidos e amargurados.
Apesar disso, ele não precisava dos conselhos amorosos de Ray. Jamais iria se vestir de modo sexy para agradá-la.
-Ao que parece, ele foi seguindo uma ordem. Provavelmente dos mais fracos aos mais fortes.- Kenny tentou explicar enquanto mostrava uma linha do tempo com os principais bladers que perderam as fera bits e as capacidades de cada uma.
Ele passou a noite fazendo aquilo e estava orgulhoso de si mesmo.
-O que quer dizer com isso, Kenny?- Tyson se inclinou para ver melhor. Ah, se ele tivesse prestado atenção nas aulas de história, provavelmente iria entender o que aquelas linhas vermelhas com as fotos e datas destacadas representavam.
-Bem... – Kenny respirou fundo temendo que fosse dizer era a verdade- Tyson foi o campeão mundial da ultima vez, provavelmente o "ladrão" pode estar tramando alguma coisa.
-Pra pegar nossas fera bits.- Ray disse num sussurro chamando a atenção deles- É tão simples... É como se ele estivesse treinando pra nos encontrar. Como se fosse uma preparação- disse essas palavras em um tom alarmante.
-Como se adiantasse alguma coisa... - gabou-se Tyson com sua pose de campeão e com os olhos brilhando, mas foi rapidamente repreendido por olhares indiretos e nada amigáveis.
Voltou a se sentar de cabeça baixa. Ninguém ali estava com paciência para suas gracinhas e tudo que ele queria era apenas amenizar a situação desenvolvendo sorriso no rosto de seus amigos.
-O Reaper não joga beyblade, né?- Max perguntou com inocência puxando o Ray pela manga. – Ele poderia nos ajudar, sabe?- olhou em direção ao casal que ria por algum motivo bobo.
-Ele disse que não tem beyblade ou uma fera bit. Além do mais, se tivesse a Dizzie iria nos avisar da presença.- Kenny retrucou sem retirar os olhos do computador. Digitava rapidamente em busca de algumas noticias relacionadas aos roubos dos bit-bichos, mas sem obter sucesso extraordinário por enquanto.
Desde a destruição da cidade no último campeonato, beyblade não tem recebido muita atenção da mídia. O esporte não era mais encorajado como antes e isso machucava um pouco cada coração ali. Afinal, era algo com que eles cresceram junto e fizeram deles o que são - incluindo felicidades instantâneas e dores que ainda assombram a vida de cada um. Ver esse "descaso" tornava as coisas mais difíceis.
-Ele disse que é uma brincadeira extremamente perigosa capaz de causar danos a sua beleza corporal.- Tyson reclamou com uma voz engraçada e metida, tentando imitá-lo com os movimentos das mãos e o jeito que Reaper mexia a cabeça em confirmação.
-Sério?- ele foi encarado pela imensidão azul cheia de curiosidade e inocência.
Todos suspiraram. Quando Ray ia explicar ao Max que aquilo não se passou de uma piada, pois sarcasmo não adiantava e só complicava as coisas, um estrondo veio de dentro do dojo. Acompanhando o movimento dos amigos, Hilary se levantou rapidamente e puxou Reaper quase o fazendo beijar o chão.
Chegando ao local, Tyson pode ver o russo com os punhos serrados se segurando para não explodir de raiva. E percebeu naquele momento que a situação tinha ido longe demais, até mesmo sua parede parcialmente destruída não ousava exclamar um "ai". Ray notou o estado crítico e sem quebrar o contato visual com o amigo, pediu com gentileza e em tom baixo para que todos saíssem do local. Entretanto ficou surpreso quando percebeu que ninguém mais estava ali. Todos tinham saído de fininho e em completo silencio. É claro que nenhum deles queria permanecer ali, principalmente acompanhado pelo Kai em seu estado assassino psicopata de mau humor.
Ficar ali era tentativa de suicídio.
Kai atirou o celular contra a parede numa onda de puro ódio.
Após algum tempo cheio de sussurros, ele apareceu na sala com um andar calmo acompanhando o rosto fechado. E apesar disso, um leve transtorno era percebido em seus olhos. Todos pararam de sussurrar com sua chegada evitando mandar olhares de preocupação. Um grande e irônico momento de silencio dominou a sala, parecia que todos os presentes tinham se esquecido de respirar. Reaper continuava com sua expressão calma e serena se recusando a abrir um sorriso malicioso só de imaginar quem ligou para Kai Hiwatari.
-Ligaram do Hospital de Moscou. –finalmente ele disse em voz baixa. Ele queria que ninguém tivesse ouvido e agora teria que dar algumas explicações. Acabou por suspirar profundamente antes de pronunciar a frase- Tala Ivanov recebeu a "visita".
Exclamações, olhares assustados, palavras repreendidas e uma pitada de lamentação tomava conta do ar. Tudo isso fazia Reaper se sentir... Enjoado.
-Ele foi encontrado num hospital em São Petersburgo, sem identidade e em coma.- tornou a explicar quase cuspindo as ultimas palavras e ignorando toda aquela onda de comoção. Afinal, nada daquilo serviria. Ao mesmo tempo que não mudava o fato, não o acalmava.
-Mas... Isso foi recente?- Ray tremeu as palavras ao perguntar. De uma forma ou de outra, ele estava preocupado, mesmo que Tala fosse um blader que não tinha tanta intimidade. Na verdade, estava mais preocupado pelo melhor amigo que parecia arrasado e que se esforçava para não demonstrá-lo.
Pelo menos Kai estava sendo mais verbal.
- Tala não foi reconhecido por ter o rosto levemente desfigurado.- mergulhou o rosto numa das mãos evitando olhar para os amigos.
-Alem de estar paraplégico- Reaper o repreendeu com pensamentos. Como ele foi incapaz de mencionar isso? Apertou levemente a mão da namorada, demonstrando seu ressentimento pela situação. Recebeu uma caricia no braço, como se fosse para acalmá-lo.
-Após se recuperarem, os Blitzkrieg Boys estavam procurando pelo capitão até que receberam uma ligação privada dizendo onde ele estava internado...- Kai voltou a dizer em tom baixo sem desviar os olhos do chão.
Ele não gostaria de encará-los agora.
-Ala 12, quarto particular 109.- antes de pegar o vôo par o Japão, Reaper fez uma pequena visita a ele, certificando do seu trabalho bem feito e deixando um bilhete carinhoso avisando sobre Wolborg, além dos chocolates e balões coloridos.
Ele era um colecionador que se preocupava com as vitimas. Ainda mais por Ivanov nunca ter recebido esse tipo de coisa quando criança. Seu passado era escuro e cheio de dor, mais frio do que o inverno rigoroso da Rússia. Talvez um pouco de cor ajudasse a se sentir melhor.
-Ele foi transferido para o hospital de Moscou ontem.- levantou a cabeça sem focar ninguém ignorando todos aqueles olhares -Ian foi o único que viu o atacante.-ele disse em voz alta em tom menos lamentável e surpreendentemente um pouco animada.
Ian não fazia mais parte do grupo de beyblade, mas continuavam amigos por motivos que nem eles sabiam. Ele só estava no local e na hora errada.
Reaper se esforçou ao máximo para não causar nenhuma mudança em sua expressão. Engoliu seco quando as perguntas surgiram dando oportunidade de respirar melhor.
Ele foi visto.
Um calafrio passou por sua espinha enquanto a memória era ativada contra sua vontade.
Tala Ivanov.
Obcecado por poder, é um líder nato com uma personalidade impetuosa. Sua fera bit é o Wolborg, um lobo branco que domina o gelo.
Tala foi o capitão da equipe Blitzkrieg Boys (antigamente chamada Demolition Boys), sendo uma equipe criada por Voltaire Hiwatari com propósitos de dominação mundial e aquisição de fera bits. Tendo esses propósitos em mente, Boris Balcov e seus cientistas fizeram dele um experimento. Colocaram em Ivanov um implante cibernético e as ondas cerebrais que foram ativadas causaram transtornos mentais a longo prazo.
Seu passado é melancólico. Quando criança, o pai perdeu o status de soldado e tornou-se violento e abusivo, dessa maneira ele batia no restante da família enquanto era movido por álcool. Quando a mãe os abandonou, Ivanov foi deixado a própria sorte, assim ele aprendeu a roubar para sobreviver e continuar inteiro.
Com temperamento difícil, Tala normalmente está irritado embora que fora treinado para não demonstrar qualquer emoção.
Dedos estralando e Tala tossiu sangue.
Seus ossos congelavam a cada floco de neve que tocava em suas recentes feridas. Embora a respiração estivesse pesada, ele não conseguia sentir as próprias pernas. Ele não conseguia mexê-las, mesmo com a tamanha força e vontade que aplicava. A visão ofuscada apenas acompanhava uma sombra que parecia dançar se misturando com a paisagem branca. Tala nunca imaginou que um dia odiaria a neve.
Tala podia ver sangue espalhado a sua volta, sentia a mesma dor do seu bit-bicho, só que quadruplicada e não sabia se iria aguentar por muito tempo. Wolborg estava ao seu lado, ofegante e sangrando o suficiente para derreter a camada de gelo que dividia o lago e a superfície. Ele levantou a cabeça percebendo a chegada indesejada do inimigo e rosnou quase sem voz ao vê-lo se abaixar o suficiente para tocá-lo.
Wolborg sentiu sendo acariciado por mãos extremamente geladas. Mas por algum motivo aparente ele não queria quebrar aquele contato. Ele rosnou novamente fechando os olhos e sentiu uma pontada de uma dor aguda percorrer o corpo todo. Olhou para seu dono e soltou um lamento baixinho como um pedido de desculpas antes de desaparecer numa faixa de luz cintilante.
Tala foi dominado por um ódio anormal ao ver sua fera bit desaparecer.A lamentação o fez ser consumido por um sentimento completamente desconhecida que beirava a sua insanidade. Serrou as mãos na neve enquanto tremia descontrolado, mas não de frio ou medo.
-Você vai pagar por isso - cuspiu ameaçadoramente enquanto tentava se levantar. De alguma maneira, ele foi anestesiado. Do mesmo modo que não sentia as pernas, ele não sentia mais dor. Apenas um ódio crescente que consumia cada vez mais seu coração de gelo. E sim, Tala tinha uma criatividade incrível em questões de criar sofrimento.
Enquanto se aproximava, Reaper abaixou o capuz revelando sua identidade. Os olhos roxos brilharam em solidão doente.
-Tenha mais respeito com a morte, Ivanov.- falou em tom autoritário antes de chutar sua cabeça. E ouviu o barulho do crânio batendo contra o gelo.
Saiu andando até a moto de neve. Com as costas da mão limpou o fino arranhão em sua bochecha tirando qualquer rastro de sangue grudento e congelado em sua pele. Ele estava ficando descuidado e um pouco cansado daquilo tudo, tinha quase certeza que havia um corte profundo em seu braço. Diferente das outras vezes, Reaper não sentiu aquela animação toda para batalhar, mas uma espécie de melancolia.
Ele não sabia ao certo porquê, mas se simpatizou com o ruivo. Seja pelo passado doloroso ou pela lealdade a Wolborg.
Apesar disso, a única coisa que Tala conseguia ouvir era o distanciamento do único ser vivo que poderia salvá-lo. A esperança morria cada vez mais, embora estivesse agachada ao seu lado sussurrando palavras confortantes. Logo, ele se tornaria parte do gelo, o mesmo elemento que controlava e que era a base de sua alma. Ele queria rir diante disso tudo.
A neve tinha cor de sangue e estava acompanhada da amarga solidão.
