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*The Scientist - Coldplay
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Minha rotina nos três meses que eu fiquei em casa por causa da licença maternidade era dedicar quase vinte e quarto horas para cuidar de Thomas. Ele necessitava de meus cuidados o tempo inteiro conforme se adaptava ao meu mundo que ao pouco eu o apresentava e tomar conta de um bebê requeria muita energia de minha parte, mesmo com a ajuda de Abigail, a empregada que também era babá que Esme contratou, e de Edward quando ele tinha tempo.
Conforme ele avançava na residência em neurologia, suas horas de plantão ficaram menores, mas conseqüentemente ele precisava gastar mais tempo estudando em casa para ser o número um entre os outros residentes. Ele não queria ganhar status no hospital apenas por ser filho do coordenador, queria ser reconhecido por mérito próprio e eu o apoiava nessa decisão por saber muito bem como ele sentia incomodo ao ser chamado de "Filho do Dr. Cullen", mas ao mesmo tempo ele tinha muito menos tempo para ficar comigo e com Tom.
Raras eram as vezes que ele terminava os estudos antes da meia noite e podia ficar abraçado comigo na cama assistindo televisão e mais raras ainda eram as noites que nós tínhamos disposição para transar. A rotina do casamento começava a bater na porta de nossa casa, mas eu tentava contornar a situação.
Ao poucos, o próprio Thomas começou a criar sua rotina e eu precisei ir me adaptando aos horários que ele criava, como a acordar às cinco horas da manhã para ele mamar, cochilar apenas uma hora antes de ele acordar outra vez com a fralda para trocar ou enjoado com o leite. Mesmo que eu não fizesse outra coisa além de cuidar de meu filho, ao final do dia eu estava destruída e queria apenas dormir e descansar um pouco, não conseguia nem ao menos comer algo. Logo eu emagreci todos os quilos da gravidez e voltei ao meu corpo anterior sem fazer nenhum esforço... Quer dizer, meu esforço maior era acompanhar o crescimento rápido de um bebê.
O tempo passou tão rápido e Thomas nos mostrava novidades a cada dia, mas minha apreensão de precisar voltar ao trabalho só aumentava com o crescimento de meu bebê. Eu queria que ele fosse pequeninho e dependente de mim pelo resto da vida, pois cuidar de alguém com tanta dedicação era um prazer inigualável que eu nunca pensei que fosse experimentar em minha vida. Quando descobri a gravidez, sabia que minha vida agora iria ser dedicada ao bem estar de meu filho, mas ao experimentar essa nova realidade eu passei a entender certas atitudes que Reneé teve quando eu era criança e dependente dela e pude finalmente dizer "ela tinha razão". Isso só me deixava mais desesperada com os dias de minhas férias do trabalho terminando.
Na noite anterior ao meu retorno ao trabalho, eu repassava todas as informações com Abby a cada hora antes de ela ir para casa, dizendo as mesmas coisas que ela já sabia por já ter escutado e por ter criado dois filhos, mas eu estava preocupada demais por deixar meu filho pela primeira vez.
- As mamadeiras com o leite estão na geladeira, na terceira prateleira. - falei mostrando onde elas estavam pela terceira vez. - Tom mama a cada...
- Três horas. - ela completou a frase com um sorriso divertido nos lábios. - Eu já sei disso tudo, senhora Cullen.
- Eu sei, desculpa. Mas eu estou tensa demais por voltara a trabalhar amanhã...
- Não se preocupe, ele ficará bem e a senhora só irá trabalhar até o começo da tarde, nem é tanto tempo assim.
- Parece uma eternidade para mim. - falei suspirando de cansaço.
- Vá descansar, assistir televisão, relaxar. - ela disse segurando minha mão com carinho e a envolvendo com as suas.
- Vou tentar. - falei sorrindo, mas por dentro eu estava uma pilha.
- Até amanhã, senhora Cullen. - Abigail disse pegando a bolsa sobre a bancada da cozinha.
- Até, Abby.
Eu realmente precisava relaxar naquela noite para não ter um infarto de nervosismo e eu verifiquei todas as coisas de Thomas uma última vez antes de subir a escada em direção ao quarto. Edward estava sentado na cama assistindo televisão, pois era seu dia de folga e ele não tinha muita coisa para estudar, e eu tirei meu robe para deitar ao seu lado e me reconfortar em seu peito.
- Abby já foi? - ele perguntou passando o braço ao redor de meu corpo e beijando meu cabelo.
- Já. Acho que ela não estava mais agüentando me escutar repetir as mesmas coisas durante toda tarde. - respondi observando o noticiário e esperando alguma notícia me impedir de ir trabalhar no dia seguinte. - Eu vou sofrer todas as vezes que tiver que deixar o Tom?
- Se eu te conheço bem, vai. Você se apega demais com as pessoas, com nosso filho não seria diferente.
- E quando ele for para escola pela primeira vez? Ou sair de casa para ir à faculdade? - perguntei com um claro desespero. - Eu não sei se vou suportar, baby.
- Nós ainda temos uns vinte anos pela frente antes de ele sair de casa, Prince. - Edward respondeu rindo, mas eu não conseguia relaxar. - Não precisa sofrer por antecipação assim.
- Eu nunca vou relaxar em relação ao Tom.
- Hum, acho que vou ter que achar uma solução para isso... - ele disse retirando o braço ao redor de meu corpo e inclinando em minha direção. - Seria muito atrevimento de minha parte?
- Nenhum... - respondi passando uma mão em seu cabelo enquanto ele deitava sobre mim. - Eu simplesmente adoro seus atrevimentos.
Ele riu antes de me beijar e depositar seu peso sobre meu corpo, me imprensando contra a cama daquela maneira que me enlouquecia rapidamente. Suas mãos descendo por meu rosto enquanto ele me beijava e seu quadril forçando minhas pernas a abrirem tinha o poder de me fazer derreter e praticamente ovular em poucos segundos, principalmente quando ele subiu minha camisola até embaixo dos meus seios para acariciar minha barriga e a brincar com os dedos na barra de minha calcinha.
Edward sabia de verdade como me fazer relaxar e eu já tinha esquecido a tensão em minha mente, mas o choro vindo da babá-eletrônica me fez recordar rapidamente.
- Um minutinho... - falei virando o rosto e tentando levantar, mas Edward não parava de morder meu pescoço. - Baby...
- Ele vai parar de chorar. - ele resmungou contra minha pele, mas eu segurei o seu rosto.
- Ele deve estar percebendo que eu ficarei fora por algumas horas amanhã. - falei colocando um sorriso em minha face para convencê-lo. - Eu só vou verificar o que ele quer.
- Ok... - ele bufou saindo sobre meu corpo.
Sua frustração cortava meu coração, mas se o Thomas começasse a chorar qualquer hora do dia eu não hesitaria e largaria o que estivesse fazendo para correr até seu quarto, algumas vezes saindo no meio do banho para ver como ele estava. Meu coração simplesmente não suportava saber que meu filho precisava de mim e eu não iria atender ao seu pedido clássico de socorro, por isso que deixei o mais rápido possível o quarto e fui encontrá-lo.
Virado com a barriga para cima e mexendo as pernas de modo nervoso, Thomas estava bastante vermelho de tanto chorar e eu o tirei do berço rapidamente, o colocando em meu colo enquanto tentava entender o que ele queria. Verifiquei sua fralda, tentei colocá-lo para mamar, mas Thomas não parava de chorar e ficava cada vez mais irritado com algo desconhecido por mim.
- O que você tem, Tom? - perguntei o colocando contra meu peito e o balançando um pouco para acalmá-lo.
Eu nem tinha o balançando muito e já fazia algum tempo desde que ele mamou pela última vez, mas Thomas vomitou um pouco no meu ombro e engasgou enquanto emitia um barulho parecido com um espirro. Já estava acostumada com os vômitos em meu ombro depois que ele mamava e o coloquei na posição anterior para deitá-lo no berço, mas sua face ficando em um tom arroxeado e um barulho de chiado saindo enquanto ele tentava respirar me fez congelar no meio do quarto. Nunca senti tanto desespero como naquele dia.
- Edward... - chamei com um fiapo de voz enquanto levantava o Thomas para tentar entender o que estava acontecendo. - Edward! - gritei quando ele demorou a aparecer.
Edward apareceu em segundos depois do meu grito de desespero e ficou assustado quando viu as lágrimas desaguando em minha face enquanto eu segurava o Tom com certo receio. Ele o pegou no colo para que eu me acalmasse, mas isso só piorou minha situação porque eu comecei a praticamente gritar enquanto chorava mais ainda.
- Bella, o que aconteceu? - ele perguntou olhando nosso filho enquanto eu e Tom chorávamos mais ainda.
- Ele vomitou e ficou engasgado... - respondi entre os soluços. - Ele ficou roxo, Edward. E não conseguia respirar...
- Tudo bem, acalmasse. - ele disse observando a face de Thomas em um tom menos avermelhado. - Nós vamos levá-lo ao hospital para certificar que ele está bem, certo?
- Certo... - assenti e tentei respirar normalmente.
- Vá limpar o vomito em seu ombro e se trocar enquanto eu ligo para meu pai. Ele está de plantão essa noite.
Olhei mais uma vez para Thomas - que chorava baixo e respirava com dificuldade - e deixei o quarto de volta ao meu, me trancando no banheiro. Desabei a chorar outra vez enquanto passava a toalha de rosto em meu ombro para limpá-lo e meu peito se comprimia com medo do que pudesse estar acontecendo com o meu frágil bebê de três meses apenas. Thomas já havia vomitado outras vezes, o que geralmente acontecendo com bebê após a mamada, mas ele nunca tinha ficado roxo daquela forma nem sentindo dificuldade para respirar e isso só me deixava mais desesperada ainda. Peguei o primeiro vestido no meu guarda-roupa e minha bolsa sobre a cômoda para descer as escadas correndo em direção à cozinha.
- Certo, já estamos indo. - escutei Edward falar ao telefone antes de desligar.
- Ele está melhor? - perguntei observando Thomas na cadeirinha que prendia no banco do carro sobre o balcão da cozinha.
- Parou de chorar, mas ainda está respirando com dificuldade. E eu escutei um chiado no peito dele quando fiz um exame rápido. Meu pai acha melhor levá-lo para a emergência agora.
- Eu vou colocá-lo no carro enquanto você troca de roupa. - falei voltando a chorar, mas em silêncio dessa vez.
- Não se preocupe, Bella. - Edward disse beijando minha testa e limpando algumas lágrimas. - Ele ficará bem, não será nada de grave.
- Eu estou com medo... - sussurrei antes de abraçá-lo forte e desaguar contra o seu peito nu.
- Todos nós estamos, mas o Tom é um bebê saudável e perfeito. Deve ser apenas um engasgo comum em bebês.
Funguei alto para dissipar as lágrimas e enxuguei meu rosto com as mãos. Edward me deu um sorriso calmante e um beijo delicado antes de subir a escada para trocar de roupa e eu saí da casa segurando a cadeirinha de Thomas com bastante cuidado. Eu estava tão preocupada com meu filho que sentei no banco do traseiro do carro para não sair de seu lado em nenhum momento durante o trajeto longo para o hospital e colocava o dedo embaixo de seu nariz minúsculo para verificar se ele ainda continuava respirando.
Edward estacionou o carro na vaga para funcionário e eu carreguei Thomas no colo com delicadeza, o colocando o mais ereto possível para ele não engasgar novamente ou sentir falta de ar. Carlisle nos esperava na recepção da emergência e caminhou com pressa ao nosso encontro quando viu o filho com olhar de aflição e a nora com os olhos vermelhos de tanto chorar. Aquela era a primeira crise envolvendo o novo membro da família Cullen e eu não duvidaria muito se Esme já não estivesse a caminho naquele momento.
- Como ele está? - ele perguntou enquanto nos dirigia para uma sala de atendimento. - Eu já chamei a pediatra de plantão, ela deve chegar em alguns minutos.
- Ele teve um princípio de apnéia, mas acho que foi proveniente do vômito que ele deve ter aspirado. - Edward explicou com aquele tom de emergência de hospital e Carlisle indicou a maca onde eu deveria deitar o Tom.
- Não deve ser nada grave. - ele disse para me acalmar, mas novas lágrimas insistiam em jorrar por meus olhos.
A porta da sala se abriu bruscamente e uma médica bastante jovem - talvez mais velha que eu poucos anos - entrou com o estetoscópio rosa ao redor do pescoço e jaleco com detalhes coloridos nos bolsos. Ela tinha um sorriso bobo nos lábios e cumprimentou Edward com um abraço muito íntimo ao se aproximar de nós, o que me fez não gostar dela desde aquele primeiro segundo.
- Então, esse bebê lindo é seu filho? - ela perguntou inclinando em direção a Thomas e fazendo gestos para chamar a atenção dele.
- É. - Edward respondeu com o orgulho estampado na face.
- E o que ele tem?
- Ele estava chorando e vomitou quando Bella o carregou, ficando com falta de ar logo em seguida.
- Quem é Bella? - a mulher perguntou como se eu fosse um fantasma na sala.
- A mãe do bebê. - falei em um tom grosseiro que talvez não fosse necessário. - Eu.
- Oi, prazer. Sou Rebecca Brewe, pediatra do hospital, mas pode me chamar de Becca. - ela disse estendendo a mão para mim, mas eu ignorei com um olhar de raiva.
- O que o Thomas tem, Dra. Brewe? - perguntei em um tom de poucos amigos e eu vi o olhar que Carlisle lançou para Edward. Tensão.
- Aparentemente, nada... - ela respondeu o observando na maca.
- Nada? - eu retruquei quase gritando. - Ele ficou roxo, com falta de ar e você me diz que ele não tem nada?
- Acho melhor você esperar lá fora enquanto a Dra. Brewe faz os exames, Bella. - Carlisle disse tocando meu ombro como se me segurasse para não avançar naquela mulher e eu realmente seria capaz disso.
- Vamos, Bella. - Edward pediu me segurando pelo braço e me tirando da sala.
- Eu não vou deixar meu filho sozinho com essa mulher... - disse tentando voltar para dentro, mas Edward me segurou.
- E eu não vou deixar você tratar a Becca dessa forma. - ele retrucou irritado. - Você viu a forma que você a tratou lá dentro, Bella?
- Ela é louca, Edward. E incompetente, porque ficou sem saber o que o Thomas tinha e...
- Não diga que uma médica que meu pai contratou é incompetente. - Edward disse me lançando um olhar de reprovação que chegava arder. - A Becca irá descobrir o que o Thomas tem e você vai ficar mais calma, pode ser?
- Pare de se referir a ela com esse apelido idiota. - murmurei caminhando para uma poltrona na recepção e sentando com os braços cruzados.
- Pare de ficar se estressando a toa. - ele retrucou sentando ao meu lado. - Ele vai ficar bem.
- Eu só vou acreditar nisso quando ele estiver em casa e em perfeito estado. - murmurei afundando meu rosto entre minhas mãos e sentindo uma mão afagando meu ombro.
- Eu também estou assustado e preocupado, mas ele não tem nada grave, Bella. - Edward sussurrou ficando próximo de mim e beijando meu ombro.
- Meu coração parecia que ia derreter de desespero quando eu vi o Tom ficando roxo e não conseguindo respirar, Edward. - falei mexendo em meu cabelo sem pentear, mas ele me abraçou forte.
- Eu vou fazer até o que estiver fora de meu alcance para manter nosso filho bem, entendeu?
Eu entendia perfeitamente que Edward faria o impossível em relação a Tom, mas meu coração de mãe de primeira viagem encarando a primeira doença do filho não me deixava confiar fielmente nele. Meu bebê estava sendo examinado por uma médica que eu não confiava - apesar de saber que Carlisle nunca deixaria o neto em mãos erradas - e eu não tinha a menor noção do que ele tinha ou poderia ter. Poderia não ser nada, mas também poderia ser algo muito grave e minha mente só conseguia focar no pior conforme os minutos passavam e nenhuma notícia era dada.
Uma hora depois e três copos de café forte - não agüentei, voltei ao meu vício de café naquela noite - Carlisle finalmente saiu da sala de emergência que Thomas estava e tirou as luvas cirúrgicas usava. Eu tentava entender o que seu olhar dizia, mas meu nervosismo me deixava quase cega enquanto ele se aproximava.
- Ele está bem. - ele disse antes que eu abrisse minha boca. - Becca o medicou e fez todos os exames necessários para descobrir o que ele teve.
- E o que ele teve? - Edward perguntou antes de mim.
- Uma crise de refluxo um pouco mais séria do que acontece normalmente com bebês da idade do Tom, mas não é nada que vocês precisam se preocupar por agora.
- Como assim? - eu finalmente consegui falar. - Por agora?
- O Thomas precisará passar por alguns meses de observação em relação à posição que ele dorme e as mamadas. Nós só teremos certeza se ele tem um problema de refluxo mesmo com seis meses de idade, mas pode não ser nada.
- Mas ele ficou roxo...
- Porque ele aspirou o vômito e os pulmões dele ainda não estão tão bem estruturados assim. - Carlisle disse tentando me acalmar. - Bella, o Tom ficará bem.
- Eu posso vê-lo?
- Ele está no berçário.
- Eu te levo lá, Bella. - Edward disse segurando minha mão.
Meu coração não ficou mais calmo até eu estar em frente ao vidro do berçário e Edward indicou o berço onde Thomas dormia calmamente de bruços, suas costas tão delicadas subindo e descendo enquanto ele respirava com mais facilidade agora. Foi inevitável, mas meus olhos encheram de lágrima ao ver meu filho bem depois de todo o susto e Edward me abraçou forte enquanto alisava meu cabelo tentando me acalmar.
- Não precisa mais chorar. Você não está vendo que ele está bem? - ele disse apontando para o bebê dormindo em paz.
- Eu sei que ele está bem, mas ainda é angustiante saber que ele pode estar doente.
- Bella, refluxo infantil não é grave e é tratável. É mais comum do que você imagina.
- Mas eu quero que meu filho seja perfeito e saudável. - murmurei sem controle algum sobre minhas lágrimas e o aperto dos braços de Edward aumentou.
- Ele é perfeito e saudável como nenhum bebê consegue ser, mas esse foi apenas um dos episódios onde ele ficará doente e nós dois sentiremos desespero no começo.
Era nesse tipo de ocasião que eu me sentia despreparada para ser mãe, quando Thomas tinha algo que demonstrava que nem tudo seria como eu queria. Ele não iria ser sempre o bebê mais saudável de todos e passaria por situações que me deixariam angustiada, mas se eu tivesse Edward ao meu lado me dando forças, acho que conseguiria agüentar as surpresas de criar um filho.
Minha noite foi infernal porque eu não conseguia dormir com medo de Thomas se engasgar novamente mesmo que Edward me dissesse diversas vezes que ele ficaria bem. Eu havia seguido todas as instruções que Becca tinha nos dado – antes de engatar uma conversa com Edward sobre algo que somente eles entendiam – e ele agora dormia com o corpo um pouco elevado por causa do refluxo, mas mesmo assim eu não conseguia ficar mais de vinte minutos sem checar com o dedo sob seu nariz se ele ainda respirava. O mais incrível era que Edward não acordou um minuto durante aquela madrugada e nem parecia estar ciente do mundo ao seu redor enquanto roncava contra o travesseiro.
Não era pra menos ter olheiras do tamanho do Grand Cannyon na manhã seguinte e precisar beber quase uma jarra inteira de café para me manter acordada para o primeiro dia de volta ao trabalho. Com uma quantidade generosa de corretivo e base em meu rosto para ficar um pouco apresentável para o mundo e meu coração em pedaços dentro de meu peito, eu observei mais uma vez Edward com Thomas no colo após eu o ter dado de mamar e minha vontade era mínima de deixar minha casa sem eles.
- Você vai se atrasar. – Edward comentou vendo minha expressão de choro. – Bella, quantas vezes eu ainda vou precisar dizer que ele ficará bem?
- Nenhuma mais. – falei balançando a cabeça e fungando para não chorar outra vez. – Eu já estou de saída.
- Abby chegará daqui a pouco e meu plantão hoje só começa às duas horas, então eu ficarei de olho nesse moleque durante a manhã.
- Mas qualquer coisa, até um soluço fora do comum...
- Eu irei te ligar, manda pombo correio e sinal de fumaça, já sei. – ele disse enquanto eu tentava arrumar o cabelo arrepiado de Tom igual ao seu. – Boa sorte.
- Obrigada. – murmurei levantando o rosto para beijá-lo e depois beijando o topo da cabeça minúscula de nosso filho.
Oito horas depois, mais três copos de café extra-forte, uma briga com o câmbio automático de meu carro que eu ainda não estava acostumada a dirigir e muita coisa para fazer no primeiro artigo de volta, eu finalmente cheguei em casa no meio da tarde. Edward já estava no hospital e chegaria mais tarde do plantão e eu encontrei Abby lavando a louça quando entrei na cozinha.
- Oi, Abby. – falei deixando minha bolsa e meu laptop sobre o balcão. – Como está Tom?
- Dormindo. – ela respondeu sorrindo daquela maneira que me deixava calma com facilidade. – Ficou um pouco irritadinho quando o pai foi pro trabalho, mas aquele cd que o senhor Cullen gravou o fez dormir na hora.
- Claro, Prince sempre o acalma. – sorri ao lembrar esse detalhe. – Eu vou dar uma olhadinha nele agora.
- Quer algo para o jantar?
- O que você conseguir fazer com o pouco que tem na geladeira está ótimo e eu prometo que amanhã vou ao supermercado comprar o que está faltando.
Eu tinha uma pilha de artigos para revisar e muita pesquisa para fazer além das outras tarefas da casa, mas perdia facilmente uma hora do meu dia observando Thomas dormir no bercinho. Meu filho era o bebê mais lindo do mundo – sério mesmo - e a cada dia estava mais parecido com Edward, até o modo de colocar uma mão sobre o olho quando dormia de bruços sendo igual ao pai. Era por isso que eu o amava tão intensamente, pois ele era a miniatura perfeita de meu homem perfeito.
Babar pela cria e seu modo fofo de respirar lentamente me atrasou de verdade e eu passei o restante do dia e o começo da noite trancada no escritório com meu laptop pesquisando sobre os últimos acontecimentos em cultura mundial, agradecendo por Tom ainda estar dormindo. Me entupi de mais café forte por causa de minha dependência por cafeína e comi qualquer coisa feita de tomate que Abby preparou e me trouxe um pouco para comer. Eu não tinha nem tempo para ir ao banheiro e quando me lembrava desse fato praticamente corria para não fazer xixi nas calças.
Já deveria ser muito tarde quando a porta da garagem que dava acesso a cozinha bateu me indicando que Edward estava em casa. Olhei no relógio na área de trabalho de meu laptop e verifiquei que já passava da meia noite e que eu deveria estar dormindo para acordar cedo no dia seguinte, mas o trabalho parecia nunca ter fim.
- Ainda acordada? – ele perguntou parado na porta com a mochila sobre o ombro.
- Muito trabalho. – respondi o olhando por cima de meus óculos de grau que usava quando passava muito tempo lendo e escrevendo. – Você chegou cedo...
- Trabalhei na maternidade hoje por falta de residentes lá. – ele disse rodeando a mesa para beijar meu cabelo e eu senti um perfume doce vindo dele.
- Por que você está cheirando como CH*? – perguntei curiosa.
- Como eu disse, trabalho na maternidade. Muitas avós e tias animadas querendo abraçar um doutor bonitão, sabe?
- Rá rá, muito engraçado, Edward. – murmurei cansada até para ter uma crise de ciúmes corretamente.
- Ah, sem chilique não tem graça. Vou jantar então...
- Abby preparou "qualquer-coisa-com-tomate" e deixou na geladeira.
Ele respeitou meu espaço e eu agradeci bastante, apesar de sua brincadeira sobre como as mulheres caíam aos seus pés – nenhuma novidade – nunca fosse bem-vinda. Edward sabia como eu me sentia insegura por ele ser o elemento da relação irresistível para os outros e eu como eu ainda me perguntar por que ele ficou comigo, mas ele sempre cortava minhas crises dizendo que eu era a mulher de sua vida e que ele me amava além de todas as outras coisas.
Tudo estaria perfeito e eu terminaria meu trabalho antes do imaginado se o choro baixo de um Thomas irritado não ecoasse através da babá-eletrônica e me fizesse perder toda a linha de raciocínio do último parágrafo.
- Edward... Thomas... Por favor. – gritei sem capacidade de formar uma frase corretamente.
- Ok. – ele gritou da cozinha.
Mas dois minutos depois, quando eu finalmente fiz meu cérebro em estado de latência pegar no tranco, ele gritou do alto da escada:
- Ele está com fome.
Fechei a tampa no computador e joguei meus óculos sobre a mesa bufando de cansaço de raiva, correndo escada acima para pegar Tom no colo de Edward e sentar na poltrona que tinha em seu quarto enquanto abaixava a alça da camisa que eu usava e abria aquele sutiã de amamentação totalmente broxante. Amamentar deveria ser um momento de paz entre mãe e filho, mas não foi que aconteceu, pois eu bocejava a cada minuto e a sucção de Thomas em meu seio esquerdo parecia uma massagem que me deixava mais sonolenta ainda. Cometi a burrice de reclinar a poltrona para trás e em questão de segundos eu estava dormindo com ele sobre meu peito caindo no sono junto comigo. Só acordei quando Edward o tirou de cima de mim e eu percebi a situação que havia me metido.
- Eu preciso terminar o artigo... – murmurei arrumando minha blusa.
- Você faz isso amanhã. – Edward disse colocando meu braço ao redor de seu pescoço e me carregando no colo com facilidade.
- Eu sou uma péssima mãe que dorme enquanto está alimentando o filho. Eu nunca vou ser uma mãe como a minha foi e a sua é...
- Ninguém disse que seria fácil, Prince. – ele disse me deitando em nossa cama e me cobrindo com o edredom.
Mas também havia me dito que seria tão difícil assim e até o final daquela primeira semana sendo mãe e jornalista eu tomei uma decisão que não foi bem quista por Edward e as outras pessoas ao meu redor; voltei a fumar. Eu sabia perfeitamente que era um hábito assassino e que de certa forma eu iria envolver meu filho, mas por outro lado eu precisava de meus dois cigarros na pausa do almoço para não enlouquecer de vez.
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