"Os animais lutam, mas não fazem guerra. O homem é o único primata que planeja o extermínio dentro de sua própria espécie e o executa entusiasticamente e em grandes dimensões. A guerra é uma de suas invenções mais importantes; a capacidade de estabelecer acordos de paz é provavelmente uma conquista posterior."
— Hans Magnus Enzensberger, Guerra Civil.
1º ano, saída de Rizempool.
Depois de uma triste despedida, somente me restava caminhar até o local indicado no pequeno papel em minhas mãos. Não fazia a mínima idéia do que me esperava por lá, mas estava muito ciente sobre para onde aquilo me conduziria.
Apenas pensar no que eu poderia ser forçado a fazer durante o tempo que aquela guerra durasse embrulhava o meu estômago. Me via tentado a dar meia volta e retornar àquela casa amarela, agora já muito distante. Retornar para as pessoas que lá me esperavam.
Inconscientemente, toquei meu braço direito, do automail. Eu tinha uma série de razões para querer fugir daquele meu destino marcado por mortes. Eu tinha uma promessa de retornar Al para seu corpo, eu queria poder apenas recuperar meus membros perdidos, e poder viver com as pessoas que eu considerava minha família.
Winry.
O desespero que ela sentira, o modo como ela tinha reagido à notícia da guerra... Eu me sentia culpado por tudo aquilo. Eu somente tinha conseguido fazê-la chorar mais uma vez. Seus olhos sem nenhum brilho, marcados com olheiras profundas que pareciam permanentes... Lembranças que resolveram chegar a horas inconvenientes.
- Droga – rosnei. Aquelas lembranças e pensamentos não eram nem um pouco recomendáveis pela minha atual situação. Eu não poderia pensar na Winry ou no Alphonse. Não naquele momento, onde eu estaria me preparando para matar pessoas.
Ergui a mão tentando me proteger da luz do sol, que surgiu durante o tempo em que eu me distraí; a trilha que eu estive subindo em uma colina agora chegava ao topo de um planalto. Mais à frente, mais de 20 carros estavam parados na beira de uma estrada de terra, e alguns soldados estavam em pé, vigiando a volta dos carros. Céus, era proteção demais, levando em conta por ainda estarmos em Rizempool.
Aproximei-me relutantemente do grupo, observando as pessoas nos bancos traseiros de vários veículos. Provavelmente seriam soldados e aspirantes que teriam sido chamados para aquela guerra. Muitos deles rezavam. Isso era algo que me irritava; as pessoas entregavam suas vidas e sua sorte, e pediam proteção a coisas inexistentes, em vez de viverem e acreditarem em si mesmas. Tolice.
- Você está 20 minutos atrasado – uma voz grave e irritantemente conhecida soou alguns metros atrás. Virei-me para encarar o Coronel, que ajeitava a gola do uniforme do exército com uma expressão presunçosa. Fechei a cara.
- Eu tinha... Que me despedir de algumas pessoas – respondi hesitante, tentando manter afastadas quaisquer expressões, rostos ou lembranças dessas pessoas. Resolvi provocar – Conseguiu fazer o mesmo com aquele bando todo de mulheres na Central, Coronel mulherengo?
Ele apenas se virou e começou a caminhar, colocando as mãos para trás – Não é hora para provocações, Fullmetal. – disse calmamente, entrando no primeiro carro da fileira – Logo, entre no terceiro carro. Vamos direto para o nosso destino, agora que você finalmente chegou.
Engoli em seco. O destino, com certeza, seria o acampamento onde ficaríamos para descansar e nos abrigaríamos em vários períodos. Aquilo infelizmente não era um pesadelo. Aquilo infelizmente não era fruto da minha imaginação fraca. Era a pura, porém dolorosa verdade que eu teria que enfrentar. Tentei me recompor e entrei no carro, sentando ao lado de dois aspirantes que provavelmente eu nunca teria visto antes daquele ato. Nenhum de nós três se preocupou com a hierarquia militar, continência, cortesia ou até mesmo de dizer uma sílaba. Cada um perdido em seus próprios pensamentos, enquanto sentiam o sacolejar do carro que começava a viagem pela estrada de terra.
Ninguém mais será capaz de me explicar por que eu estou aqui. Pensei, usando a mão esquerda para apoiar a cabeça. Era impressionante como uma única pedra no caminho pôde alterar o meu futuro, um mês atrás. Apenas o problema grave na saúde de um tenente tinha sido capaz de me recrutar. Agora eu ia, sem saber quando – ou se realmente voltaria.
Novamente o sol cegava a minha visão; o tempo passava, o sol subia – embora eu achasse que na verdade ele me perseguia. O calor e a cor alegre que o sol exerce é um consolo para aqueles fadados a vagar infinitamente pela escuridão. Para aqueles que seriam forçados a aguentar a dor da pura verdade; matar outras pessoas. Impedir outras pessoas de desfrutarem do sol, para sempre.
Minhas mãos começaram a tremer. Eu jurei que tentaria matar o mínimo de pessoas que conseguisse. Porém, cada metro rodado pelos pneus do carro, significava um metro mais próximo da forma mais comparável com o inferno.
É realmente certo que alguém tire centenas de vidas, destrua dezenas de casas, acabe com milhões de futuros, e volte ileso para casa e aproveite o seu tempo com sua família?
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As árvores verdes e diversificadas apenas aumentavam de número pelos caminhos que os carros faziam, a estrada de terra marrom era um tanto cheia de pedregulhos parcialmente enterrados, que sacudiam os veículos de forma violenta e acordavam vários soldados e aspirantes de seus sonos depressivos. Os carros viajavam o dia inteiro, o céu já não tinha mais sol. Mas eu nem ao menos tinha sido capaz de dormir; não queria, não precisava, não conseguia. Minha única forma de distração era a ampla paisagem que eu passava várias horas contemplando e percebendo as mudanças.
Não, nada é certo. Muitas coisas nesse mundo são erradas. A vida, em si, é um erro por existir; pois a única coisa que tira uma vida de forma tão violenta, é outra vida.
O que mais era de se estranhar era que em vez de se formar paisagens abertas e planas, a irregularidade da terra e o número de plantas altas e árvores grossas apenas aumentava. Algo impossível de utilizar em uma guerra. Mesmo a área usada para acampamentos e refúgios não era tão arborizada como a área onde em breve estaríamos dentro.
Tive que pigarrear de forma audível – Ainda estamos longe? – perguntei; eu tinha passado um dia inteiro sem nem ao menos abrir a boca, o que resultava em uma voz fraca e rouca.
- Quinze minutos. – o motorista respondeu. Assustei-me ao perceber que era uma mulher. Na verdade, era assustador pensar que eu estava no mesmo carro que três pessoas o dia inteiro, e nem ao menos sabia o sexo do motorista, ou como eram as vozes dos dois soldados, ambos com expressões tensas, sentados ao meu lado – Vocês estão bem aí atrás? – a motorista perguntou – Segurem-se, nós vamos adentrar a floresta, por completo.
A velocidade do que ocorreu depois foi extrema. Qualquer linha de pensamento pôde ser interrompida quando o carro inclinou-se repentinamente, descendo o relevo com velocidade, pulando por cima das pedras na estrada de forma perigosa. Cada metro rodado, os corpos dentro do carro eram jogados para todos os lados. Comecei a entrar em pânico. Árvores e seus troncos eram a única coisa que podia ser vista, presentes em todo o terreno. A motorista poderia muito bem acabar se chocando contra elas, e matando todo mundo. Céus, aquilo era praticamente uma guerra. Porém, contra a natureza.
Foi numa curva perigosa e um tanto repentina que me senti arremessado contra a porta do carro. Pude ouvir o vidro rachar pelo choque com a minha testa e senti o sangue escorrer até o rosto, acompanhado de uma dor lancinante – Mas o quê... – rosnei com as mãos na cabeça. Ou aquela mulher era louca, ou era um sinal de que eu não chegaria vivo no acampamento.
O carro prosseguia na mesma velocidade. Seu balanço começava a me deixar tonto, e não demorava muito para que eu sentisse que estava a ponto de vomitar. Sangue continuava saindo do corte na testa. Céus, por que machucados na cabeça tinham que sangrar tanto? E ainda pior, em vez de parar aos poucos, a mulher parara de forma brusca. Fui arremessado novamente, dessa vez contra o banco do motorista – Chegamos. – a mulher simplesmente falou. Mas aquilo fora uma deixa para sair do carro, e eu apenas pensei em fazer isso sem hesitar.
Quando coloquei os pés no chão, minhas pernas cederam e eu tive que me segurar na árvore mais próxima. A adrenalina liberada na situação agora fazia meu corpo tremer. Virei-me para a mulher, que me encarava com olhos de quem se divertia com a cena. Aquilo me irritava – Que merda de viagem foi essa? – rosnei, tentando me equilibrar sem auxílio da árvore.
Ela riu, mas apenas para que logo após me olhasse de forma séria – Isso não foi absolutamente nada. – disse – O enjôo, os machucados, os tremores... Se você parar para pensar, essas coisas se repetirão no ato da guerra. Claro que por outros motivos, muito mais fortes. Sem contar o seu psicológico. Se essa viagem lhe deixou assim... – comecei a prestar mais atenção em suas palavras, sentindo a seriedade profunda presente ali. Seu olhar mudou para pena - Não serei capaz de olhar para os seus olhos depois que você ver e ser o culpado por muitas mortes.
Dito isso, ela apenas saiu. Eu não senti mais nenhum medo ou sentimento de culpa por conta do fato de me tornar um assassino, na verdade, não senti nada. Eu era apenas um corpo trêmulo que fitava o chão inconsciente e inexpressivamente. Tinha me esquecido do porquê de estar no meio daquela mata densa, e tinha sido lembrado disso duramente, porém de maneira sincera. E real.
O que uma pessoa se torna, ao tirar uma vida? Como ficaria sua alma?
Levantei a cabeça e pude ver, logo mais à frente, algumas barracas do acampamento. É a hora do tormento, pensei enquanto adentrava o lugar. Lampiões discretos iluminavam a pequena trilha entre as centenas de barracas, que se estendiam em linha reta para norte e sul, até onde a vista – ou as árvores permitiam alcançar.
- Você é o senhor Elric? – um homem calvo e um tanto narigudo, que eu nunca tinha visto antes estava parado à minha frente. Assim que eu confirmei que era, ele me entregara um uniforme do exército – Aqui, você terá que usar isso. E esse número anexado à roupa é o número da barraca onde você ficará. – Olhei para o número 28, presente nas roupas do exército, depois para as barracas à minha frente; ainda era a 75. Descobrir para que lado ficaria a 28 seria um tanto trabalhoso.
Ele encarava a minha testa, autoritário – E, por favor, - acrescentou – limpe esse sangue do rosto, Elric.
Fechei a cara, e não recorri a quaisquer cortesias ou continência. Nem ao menos sabia se ele era um superior – Entendido – resmunguei me afastando. Parei em frente à barraca 75. Não conseguia enxergar os números das outras, pois cada um dos lampiões estava muito distante entre si para que não chamasse a atenção do inimigo. Pela lógica da ordem crescente, a barraca 28 estaria... À minha esquerda.
Foi caminhando pela trilha escura e sentindo o desconfortante olhar de pessoas desconhecidas nas costas, que eu pude perceber quanta gente fazia parte do exército sem que eu soubesse. Quanta gente transmitia o medo nos olhos, e quanta gente já não olhava mais com esse medo, e sim com frieza.
Por mais que eu andasse, as malditas árvores e pedras no chão pareciam sempre ser as mesmas. As únicas coisas que me permitiam pensar que eu tinha saído do lugar eram os rostos das pessoas e o número nas barracas. 33, 32, 31,... 28.
Finalmente, descanso.
Entrei naquilo que eu chamaria de "casa" por um tempo indeterminado. Duas camas bastante simples encontravam-se uma em cada canto da barraca pequena. Entre elas, estava uma bacia de metal mediana, e em seu interior estavam dois cantis com água e uma toalha branca.
Foi nesse momento que eu percebi o quanto sentia sede. Peguei um dos cantis na bacia e bebi quase todo o conteúdo, aliviado. Depois usei um pouco da água para lavar o sangue seco do rosto, e usei a toalha para enxugar. Vesti a farda do exército e me joguei na cama, olhando para a lona bege da barraca.
Quase nenhum barulho podia ser ouvido do lado de fora, exceto poucos murmúrios e os sons da natureza. Isso é tão calmo, pensei. Não havia modo de enxergar quaisquer rostos aflitos, e não era possível distinguir palavras trêmulas ou tristes nas vozes das pessoas, que caminhavam de volta às suas barracas, preparando-se para o que começaria – mas que nem ao menos o clima do lugar denunciava que isso viria a acontecer. É calmo... Demais. O cansaço provocado pela viagem agora começava a dominar, incentivado pela tranqüilidade do momento. Já sentia meus olhos pesados, minha mente enevoada de lembranças de pensamentos. Lembrei da minha mala, que eu tinha deixado no carro. Eu podia estar sentindo ou pensando em qualquer coisa, mas não tinha a mínima vontade de buscar a mala. Faria isso quando acordasse...
Eu corria pela floresta vazia e morta. Não conseguia avistar o extenso acampamento de maneira alguma. Era apenas um vazio melancólico... Eu estava completamente sozinho em meio à mata densa – Ei! – gritei, embora estivesse desesperançado de que alguém me ouviria – Tem alguém aí? EI!
- Estou aqui – senti meu coração batendo mais forte ao ouvir uma resposta, uma voz feminina, onipresente – Venha. Onde eu estou é seguro.
Não sabia para que lado tinha que ir, não sabia onde aquela voz estava – Quem é você?! – perguntei com uma ponta de desespero na voz. Viria do acampamento? Onde os militares tinham se escondido? Eu não sabia de nada. Nem ao menos tive resposta.
Apenas corri para qualquer lado, tropeçando em raízes e arranhando os braços nos galhos espinhosos. Era macabro. As árvores pareciam deixar o ar pesado, como se algo horrível tivesse sido executado em seu território.
- Tudo bem, Edward – a voz ecoava na escuridão, agora mais alta, e parecia vir de uma parte adiante na mata densa – você está seguro.
Continuei correndo, arfando em direção à voz. Gotículas de suor se formavam em volta do meu rosto, o ar parecia cada vez mais abafado. Aos poucos, comecei a sentir um cheiro estranho. Cheiro de morte.
Parei de correr, olhando para o chão aos meus pés. Quilômetros de corpos maltratados de alguma forma; tiros, facas, estrangulamento, mutilados. Senti meu coração parar por um momento, um enjôo crescente em meu estômago, e minhas pernas fraquejaram, me deixando de joelhos no chão.
- O QUE É ISSO?! – gritei para a escuridão infinita.
- Senhor Elric! – uma voz fina me trazia de volta à realidade.
Abri os olhos rapidamente e fui cegado pela claridade repentina. O sargento Fuery me observava, com um ar de preocupação presente em seu rosto. Levantei, me sentando na cama – Está tudo bem. – murmurei, passando a mão esquerda no rosto – O que você quer?
Ele recompôs a expressão, e bateu continência – Querem que eu leve o senhor à tenda do Führer. – explicou – Parece que a infantaria terá uma tarefa para realizar durante o meio-dia.
As coisas começariam mais cedo do que eu pensava. Levantei da cama – Tudo bem, tudo bem – resmunguei, grogue pelo sono, arrumando a farda bagunçada e o cabelo desgrenhado. Depois, fiz sinal de que eu estava pronto.
- Acompanhe-me, senhor Elric – Fuery ordenou, muito mais formalmente do que ele falava comigo na Central. Começou a me levar em direção ao outro lado do acampamento.
Suspirei em desagrado – Só mais uma coisa, Fuery... – comecei, bocejando no meio da frase – Pare de me chamar de "senhor". Eu me sinto como um velho.
- Tudo bem – ele respondeu. Não falei mais nada depois, nem ele. Apenas segui Fuery, passando por todas as centenas de barracas e tendas da noite passada. Ficava me perguntando sobre o que teríamos que fazer, se seria algo que resultaria em pilhas de corpos, ou coisas do gênero.
Fuery parou em frente a uma tenda e me permitiu passagem. Entrei hesitante, com uma sensação estranha. Ali dentro, encontrava-se cerca de dez soldados que encaravam o Führer, que estava com as mãos apoiadas em uma mesa onde podiam ser vistos dois mapas. Para o meu desagrado, Coronel Mustang também estava presente.
- Então, Edward – a voz grave do Führer soou de trás da mesa, fazendo com que eu voltasse total atenção para ele – Você já deve saber que essa guerra começou há bons três meses. – ele fez uma pausa, e eu apenas assenti e esperei que ele prosseguisse – É com pesar que digo, nesse curto tempo já tivemos muitas perdas, mas felizmente ainda exercemos vantagem contra as forças inimigas. Porém agora temos você, o Coronel e mais alguns Alquimistas Federais. Confiamos e lutaremos ao lado de suas habilidades, transformaremos isso em uma vitória e também tentaremos usar esse poder para termos menos mortes.
Apenas voltei a assentir com o tom severo das palavras do Führer, mostrando que estava ciente do que ele dizia. Mas a verdade era que por mais que eu compreendesse, minha consciência gritava em alerta. Céus, isso vai começar cedo demais! Engoli em seco. Provavelmente, tudo será repentino dessa forma por aqui. Fechei o punho e tentei parar de pensar no pior – Então... Há alguma tarefa destinada a realizar? – questionei, tentando ser um pouco mais cortês do que era de costume. Mas o nervosismo vencia naqueles momentos.
Ele pigarreou – Não só você, mas tal missão será para esse comando ao seu lado – jurava ter sentido um discreto tom de ameaça presente em sua voz – Mudamos de tática durante esses dias. Talvez, adentrar o local pelo lado norte nos dê maiores resultados do que atacar pela frente. Eles não iriam nos notar tão cedo – pausou novamente, olhando, penetrante, para todos os soldados presentes ali – Vocês serão devidamente armados, e seguirão para uma patrulha nos muros da parte norte. Isso ocorrerá daqui a algumas horas. Por enquanto, descansem para estarem dispostos a realizar a tarefa destinada a vocês.
Todos os dez soldados à minha volta bateram continência e se retiraram da tenda. Mas alguma coisa me fez permanecer ali, certas reflexões e medos que persistiam em me assustar. Na verdade, uma única dúvida que aquele meu lado fraco e covarde precisava que fosse esclarecida – Führer, eu... – iniciei a frase, receoso enquanto sentia o olhar pesado do Führer e certo interesse da parte do Coronel – Ninguém terá que morrer, certo?
Um silêncio se fez muito presente na tenda. Era melancólico, e parecia confirmar aquele meu medo. Mas aquele silêncio fora quebrado com uma gargalhada descontraída do Führer – Somente para se defender de alguma emboscada – ele respondeu, o riso pausando aos poucos até que sua expressão se tornasse séria – Elric, você precisa estar pronto para agir de forma impiedosa. Fraquejar em um lugar desses certamente terá como conseqüência a sua morte. Agora volte para sua barraca e descanse. Mandarei alguém lhe buscar quando chegar a hora de partir.
Baixei a cabeça, me virando em direção à saída. Cedo demais, pensei novamente. Céus, o que era isso? Eu era mais fraco do que pensava – e do que queria realmente ser. Era hora de levantar e resistir àquela vontade terrível de fugir. Somente faça isso por você, pensei. E era o que eu tentaria fazer. Por mim, e por mais ninguém.
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A formação estava pronta, os equipamentos para defesa estavam ali. Era a hora de seguir para a área norte... Foi nessa hora que eu parei. Área norte do quê?
- Coronel – chamei. Ele iria junto, apenas como uma precaução contra ameaças – Nós não estamos indo diretamente para o esconderijo do exército inimigo... Ou... – sentia uma raiva ardendo dentro de mim. Aquilo me parecia muito injusto – realmente... Estamos?
Pude ver uma centelha de pena no olhar do Mustang. Ele se virou, olhando em direção ao lado aonde iríamos, e colocou as mãos para trás – Não é o esconderijo de exército nenhum. Não há nenhum exército ou grupo rebelde à nossa espera do outro lado dessa floresta.
A resposta dele obviamente me chocara mais do que se respondesse somente um "sim". A raiva continuava crescendo, mas agora eu também me sentia redondamente confuso. Ou não
Aos poucos, simples fatos foram ligados na minha cabeça. "Vocês seguirão para uma patrulha nos muros da parte norte". O lugar era arborizado demais para estar perto de um terreno vazio e plano para servir como campo de batalha. Não. Não seria isso. Não podia ser isso – Mustang... – a voz saíra embargada e trêmula, com raiva e nervosismo perceptíveis, que não conseguia ser capaz de conter – O que isso... Quer... Dizer? – talvez, eu já soubesse a resposta.
E sim, Mustang sabia que eu tinha notado aquilo. E não poderia mais esconder. Suspirou pesadamente – Isso significa que nós estamos indo planejar o próximo ataque em outra parte de uma cidade, Fullmetal.
Eu já sabia.
E mesmo assim, ouvir a ênfase presente na frase acabou estourando a raiva contida, me fazendo voar até a gola da camisa do Mustang – Por quê?! – berrei, fazendo a atenção do pequeno comando voltar-se ao meu ato – O que eles fizeram de mais?! O que Ishbal também fez?! E por que você não impediu isso?! – eu arfava, estava chocado e indignado com aquilo.
Porque era sempre assim.
Mustang não reagiu de nenhuma maneira, não me tirou dali, não fez praticamente nada. E eu sentia vontade de socar algo com toda a minha força. Mas antes que eu fizesse isso, fui parado pela voz do Coronel – Ponha-se no seu lugar, Fullmetal. Eu não sou ninguém para negar ou proibir uma ordem do Führer. Aliás, ninguém aqui poderá fazer isso. Então, apenas nos basta seguir regras.
- Então pense como ser humano, e não como um oficial! – os gritos saíram o mais alto que minha voz permitia. Apertava o punho esquerdo com toda a força, tentando manter a raiva que me restava contida.
Dessa vez, o Coronel afastou meu punho – Isso seria insubordinação, e poderia ter conseqüências graves. Aqui nós apenas seguimos as ordens que nos são dadas. Por isso eu repito, como um superior: ponha-se no seu lugar. E como... Um amigo, eu lhe digo: para que a situação não fique ruim para você.
Trinquei os dentes, e descontei a raiva em uma árvore qualquer. Aquilo era desumano. Ishbal tinha sido desumano. Muitas coisas aqui eram desumanas. A diferença, é que dessa vez...
... Eu seria um dos monstros.
Tive que lutar para conseguir me recompor, e seguir caminho junto com o Coronel e os outros dez soldados. Era isso, eu seria um dos monstros. Cerrei os olhos com força, eu estava tendo pensamentos desnecessários demais nos últimos tempos. Apenas faça isso para não morrer, pensei. Apenas faça isso para não fazer aqueles que me esperam chorar. Por enquanto, aquilo seria o meu sustento psicológico enquanto eu conseguisse aguentar.
A caminhada seguia entre as quase conhecidas árvores da mata densa, até que eu pude avistar – ou pelo menos tentar ver o muro alto e branco que cintilava ao sol do meio-dia. Todos aceleraram o passo, instintivamente. Até que os dez soldados, eu e o Coronel parávamos cerca de dez metros do muro. Um dos portões da cidade, que ficava por lá, encontrava-se aberto, e quase era possível ouvir as vozes tensas das pessoas.
- Vamos – o Coronel ordenou. Mas parou ao dar dois passos, e virou-se para mim e para os que estavam atrás – Vocês dois aí atrás – disse, apontando para tais homens – Fiquem na retaguarda, não sabemos se algo pode frustrar os planos. Os outros, venham – dito isso, ele virou-se e voltou a ir em direção ao portão aberto. Eu e os outros oito soldados seguindo logo atrás.
Adentramos os portões da cidade. Pude ver que prédios e casas estendiam-se muito a sul e a leste. A cidade era realmente grande. Olhei para uma espécie de prédio de apenas dois andares, logo à frente. Quase tinha sido capaz de ouvir sons de armas. Talvez, soldados estavam por ali.
Mustang também tinha notado – Os problemas começaram mais cedo do que eu imaginava – murmurou para si mesmo, mas eu estava ao seu lado e consegui ouvir.
Fora ouvido um disparo de algum lugar. Depois, um grito de dor, e o soldado ao meu lado caía morto, no chão. Olhei para ele, arregalando os olhos. O plano fora frustrado antes mesmo de ser executado. Eles foram atentos, pensei. Apenas permaneci alerta.
Outros tiros. Mais dois dos nossos caíram no chão. Apenas restava eu, Mustang e seis dos soldados. A porta do prédio estranho tinha sido escancarada e cinco atiradores saíram, disparando.
- Atirem! – o Coronel ordenou. Fiz aquilo por instinto; mas não tinha conseguido acertar. Talvez, se eu tivesse acertado, não teríamos perdido mais um soldado, e eu não teria sentido uma dor lancinante no ombro esquerdo, onde uma bala pegara de raspão.
Da outra vez, eu atirei para matar, para não morrer.
O primeiro ano, fora praticamente inteiro assim. Patrulhas, mas das outras vezes, problemas não tinham sido encontrados. Eu tinha sido capaz de somente matar uma pessoa em um ano. Ainda assim, era algo que me deixava aterrorizado.
A explicação que me deram para a guerra contra aquela cidade foi essa: ela se desenvolvia na tal de "terra de ninguém" há alguns anos, e nenhum dos países das fronteiras se importava. Mas, ela crescia muito, e agora ameaçava prejudicar Amestris. E tinha que ser destruída. Destruída não pelos mesmos motivos, mas como Ishbal tinha sido anos atrás. Enfim, razões político-econômicas.
Pude mandar cartas, mas nunca soube quando elas chegaram – e se chegaram. Enquanto isso, apenas seguia minha tortuosa missão no exército. Ainda assim, estava me sentindo bem; ao mesmo tempo em que fazia patrulhas, outras vezes o exército atacava de verdade, e eu pude ter a chance de ser afastado disso.
Por enquanto.
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Olha só quem reviveu ç_ç
Desculpa a demora... Essa parte do cap (sim, essa parte: o segundo ano teve que virar outro cap, se não isso ficaria com 13.000 palavras, T_T) ia ser postada no dia 3 mas se eu contasse o que aconteceu... Vocês iriam criar teorias de conspiração super nonsense, que nem eu fiz (acredito que seja: 1)O mundo não quer que eu poste isso. 2)Macumba. 3)O mundo vai acabar depois que eu postar o próximo -quê?)
Eu sei que nem tem nada de guerra nesse cap, mas é que ficaria repetitivo demais. AMANHÃ eu vou postar o segundo ano, e ele tem mais coisas, e é maior do que esse capzinho aqui :3
Mesmo assim, espero que vocês não desistam de mim i_i eu quebrei a minha cabeça para fazer esse cap, é sério T_T HAEOIAEHSAEOISH
Obrigada por acompanharem... Reviews? :3
Beijos ;***
