Parte VIII
If you open your mind for me
You won't rely on open eyes to see
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Severus aguardava Draco calmamente na biblioteca, sorvendo uma xícara de chá, enquanto seus olhos vagavam pelos milhares de volumes à sua volta. Julgando pela sua aparência, ninguém diria que Severus estava – muito literalmente – à beira de um ataque de nervos.
Ele havia recebido uma chamada por Floo de Draco alguns minutos antes, pedindo que viesse com urgência até a Mansão, para discutirem o que ele havia descoberto no Ministério àquela manhã. Com a sensação de que nenhuma notícia boa poderia vir do Ministério da Magia, Severus deixou sua casa e foi até o lugar que estava começando a lhe dar arrepios.
Draco entrou na biblioteca, cumprimentando seu antigo professor com um aceno curto de cabeça, e tomando seu lugar atrás da escrivaninha. Severus esperou até que Draco tivesse executado alguns feitiços de privacidade ao redor dos dois antes de perguntar qualquer coisa.
"Eu fui até o Ministério hoje pela manhã. A notícia boa é que é um Weasley o encarregado pela Seção, então, pelo menos não teremos lidar com má vontade interna, quando e se conseguirmos achar alguma brecha nas acusações contra Harry.", Severus inclinou a cabeça ao ouvir a informação, mas não comentou, sabendo que havia um 'mas' seguindo as boas notícias, "No entanto, ele chegou às mesmas conclusões que nós. As chances da Ministra declarar Harry inocente sem que ele tenha pelo menos um filho são nulas. E a declaração de inocência dele é a única maneira de tirar aquele bracelete do pulso dele, sem que a casa se encha de aurores por ter um bracelete localizador quebrado."
Severus suspirou pesadamente. Não era como se nenhuma das notícias fosse realmente alguma novidade, mas ter a confirmação de todos os seus maus pressentimentos não era nada agradável.
Os dois homens se encararam alguns momentos, até ouvirem alguém descendo as escadas. Tirando os feitiços, depararam-se com um Lucius Malfoy sorridente, abotoando a capa em volta dos ombros.
"Ora, Severus, bom dia. Que bom que está aqui. Tenho de sair, prometi a Harry que cuidaria do caso daquele amigo dele que era um desastre em Poções. O Ministério não parece ter ficado mais competente com a sua nova administração, ainda prendendo pessoas inocentes.", ele suspirou, como se estivesse terrivelmente decepcionado, "Façam companhia a Harry, sim? Ele precisa ainda se adaptar à nova vida, talvez eu traga alguns amigos dele até aqui em breve.", ele disse, murmurando a última frase como se perdido em pensamentos, e saindo da casa, deixando Draco e Severus muito próximos de um ataque de pânico.
Sem precisarem dizer nada, os dois se dirigiram até o quarto de Lucius, sem querer imaginar o que encontrariam lá e, principalmente, sem quererem ser a pessoa que teria de contar a Potter que a sua única chance de liberdade era uma gravidez.
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Harry ainda não ousava se mover. 'Quebrá-lo' não era algo específico. Lucius queria 'quebrá-lo' em troca de ajudar Neville. O que ele queria que Harry fizesse? Deixasse que Lucius quebrasse todos os ossos do seu corpo? O que ele faria? Bateria em Harry? Torturaria? Mataria?
Arrepios corriam pelos braços do rapaz, a água que ainda havia em seu cabelo pingando gelada em seu pescoço, a mão de Lucius ainda acariciando seu estômago, enquanto o homem tomava seu café sem nenhuma preocupação no mundo, como se tudo fosse cor-de-rosa e belo naquela manhã.
Harry não sabia dizer por quanto tempo apenas ficou onde estava, sem se mover, tentando apenas controlar a sua respiração. Malfoy – Lucius, já que de acordo com os papéis que assinara na noite anterior ele também era Malfoy – tinha poder no Ministério. Ele não queria que Neville perdesse a liberdade, talvez até a vida, porque ele fora precipitado em agir.
Ele não conseguiria ter a morte de mais um amigo pesando sobre as suas costas.
Tentando controlar seu tom de voz, Harry respirou fundo e tentou tirar uma resposta mais específica do homem sobre quem estava sentado.
"O que você quer que eu faça?", ele perguntou mais uma vez, sua voz baixa ainda traindo uma certa raiva, mas muito menos do que antes.
Lucius pausou na sua leitura do jornal, pousando-o sobre a mesa, e indicando a outra cadeira para Harry com um gesto de mão. Harry sentou-se de frente para o homem e aguardou a resposta dele com a respiração quase presa.
Lucius o surpreendeu mais uma vez, sorrindo docemente para Harry e esticando uma de suas mãos para o rosto dele, acariciando a pele de maneira suave.
"Nós nos casamos ontem, Harry. Um casamento não se constrói com brigas e desentendimentos. O que eu quero que você faça é fazer nosso casamento funcionar."
Harry encarava o homem sem saber o que dizer.
"Eu... Eu posso tentar.", Harry respondeu, ainda confuso, fazendo Lucius sorrir mais uma vez, e aproximar seu rosto do dele, ao que Harry recuou quase involuntariamente. Ao fazer isso, a mão de Lucius, até então carinhosa, encontrou seus cabelos e segurou-os com força, a um passo de machucá-lo, fazendo Harry ficar tenso mais uma vez.
"Ah, mas aí está a questão, Harry. Você pode tentar, mas apenas tentar não é bom o suficiente para mim. Eu preciso de certezas. Porque eu, Harry, tinha um casamento perfeito. E você o destruiu. E por isso, você vai me dar o meu casamento perfeito de volta. Você vai ser o cônjuge perfeito para mim. E só tentar não é o suficiente."
"E o que você quer que eu faça?", Harry perguntou novamente, sua voz já tingida de desespero.
"O que você faria para salvar seu amigo, Harry?"
"O que quer que você queira.", Harry respondeu, fazendo a mão que segurava seu cabelo perdesse a força.
"Muito bem. O que eu quero que você faça é jurar pela sua mágica que você vai me obedecer. Você jura?"
Harry encarou Lucius, tendo a certeza absoluta que Lucius havia, finalmente, perdido a lucidez e estava claramente louco.
Ele já havia escutado a expressão 'jurar pela sua mágica', era isso que Lucius queria? Um juramento infantil, que até mesmo crianças do mundo mágico faziam o tempo todo?
"Eu juro.", ele respondeu, desconfiado, vendo Lucius pegar a varinha sobre a mesa.
"Ótimo. Vamos formalizar, então.", com um aceno rápido, Lucius abriu um pequeno corte na mão de Harry e outro na dele, juntando os cortes de forma que a pele se tocasse, Lucius ergueu a varinha mais alto e encarou seu esposo, "Você jura pela sua magia me obedecer sempre, independente da ordem? Jura não se ferir, ou tentar acabar com a sua própria vida de maneira alguma enquanto formos casados? Jura cuidar dos filhos que viermos a ter da maneira como eu disser que eles têm de ser cuidados? Jura obediência a mim, acima de todos os outros?"
"Juro.", Harry respondeu, a voz trêmula e assustada.
Ele não fazia ideia de que um juramento assim era possível, e tinha plena certeza que tal juramento era feito pura e simplesmente com magia negra.
Com mais um aceno, Harry viu uma labareda negra entrelaçar suas mãos, e então desaparecer, como se consumida pela sua pele.
Olhos verdes assustados encontraram um cinza satisfeito.
"Acredito que o juramento está no lugar."
"O que foi aquilo?", Harry sussurrou, fazendo Lucius sorrir e beijar sua testa, enquanto levantava-se e começava a se vestir.
"Um juramento pela sua magia. Pense nele como um Voto Perpétuo, onde a punição não é a morte, mas a perda da sua mágica. Afinal de contas, eu não iria querer que meu segundo cônjuge morresse. Você pode viver sem mágica, mas é claro que seria muito mais frágil.", Lucius saiu do closet, completamente vestido, e sorriu para Harry que começava a compreender a extensão do que havia feito, "Eu vou ir até o Ministério, acertar a situação do seu amigo. Vista-se, tenho certeza que Draco ou Gabrielle não se importarão em lhe fazer companhia até que eu volte. Não me espere para o almoço, eu só devo chegar para o jantar.", e inclinando-se, beijou os lábios de Harry suavemente e saiu do quarto, deixando o rapaz atordoado para trás.
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Quando Draco e Severus chegaram aos aposentos de Lucius e Harry, encontraram o rapaz com um olhar levemente espantado no rosto, encarando a sua mão direita sem se mover.
Preocupado com o que pudesse ter sido feito, Severus se aproximou cuidadosamente de Harry.
"Harry?", ele chamou suavemente, mas ainda assim o som da sua voz assustou Harry que virou o rosto de grandes olhos assustados para os dois homens, "Harry, o que aconteceu?", Severus indagou, esperando que não fosse algo tão grave que Harry fosse se recusar a contar.
"Neville.", foi o que o rapaz disse, e Severus olhou para o rapaz em confusão.
O que diabos Longbottom tinha a ver com o estado de Harry?
Quando ia pedir uma clarificação, Draco se aproximou de seu antigo professor e mostrou-lhe o jornal.
Lendo a manchete rapidamente, Severus concluiu que não era preciso ser um gênio para compreender o que havia sido feito através de manipulação de Lucius.
Agora só lhe restava descobrir o que Lucius havia exigido de Harry para livrar seu antigo colega.
"O que ele pediu, Harry?", Severus perguntou, seu tom ainda mais baixo do que o normal.
O rapaz fechou os olhos.
"Eu não sei direito. Ele... ele pediu que eu jurasse que ia obedecê-lo. Que eu jurasse pela minha mágica, e eu fiz.", quando Harry reabriu os olhos, eles estavam marejados de lágrimas, "Eu não achei que fosse possível. Ele disse que se eu desobedecer, eu vou perder a minha mágica, mas eu não me importo, por favor, me tirem daqui. Eu não me importo de virar um aborto, mas eu não... eu não consigo.", a voz de Harry se perdeu no fim, e as lágrimas corriam livremente pelo seu rosto, seus ombros sacudindo com soluços contidos.
Severus não se lembrava de ter visto Harry Potter chorar alguma vez na sua vida. Não em público. Não na frente de duas pessoas que, até alguns dias atrás, ele consideraria como suas inimigas.
"O que mais aconteceu, Harry?", ele pressionou, fazendo Harry parecer se encolher em si, e balançar a cabeça em negação.
Draco observava a cena com crescente apreensão. Ele realmente não entendia o que Severus estava insinuando, certamente a ameaça de perder a própria mágica era suficiente para fazer qualquer um entrar em desespero, mas aparentemente Severus estava certo, pois Harry começara a chorar ainda mais, parecendo tão desesperado naquele momento, tão pequeno.
"Harry, se você não nos contar, nós não vamos poder ajudar.", Severus insistiu, fazendo Harry sair da cama e se afastar dos dois, seus olhos faiscando de raiva e fúria mesmo em meio às lágrimas.
"Eu só preciso de UM TIPO de ajuda, e essa ajuda é me tirar daqui! Você não me ouviu? Eu NÃO ME IMPORTO de perder a minha mágica, mas eu NÃO CONSIGO MAIS ficar aqui. Não com ele. Por favor.", a última parte fora sussurrada de uma maneira tão desesperada que Draco teve de fechar os olhos, pois não aguentava mais ver a cena à sua frente.
"Harry, quando Lucius fez com você tomasse aquele juramento, o que ele disse sobre a sua magia não era literal. Esse juramento não vai consumir a sua magia, a sua mágica é parte de você. Abortos ainda têm a mágica deles, eles não são como trouxas, eles têm a magia e apenas não conseguem acessá-la. Se você conseguiu acessar a sua magia por um segundo que seja, você sempre vai poder fazê-lo.", Severus ia explicando o juramento enquanto se aproximava de Harry a passos lentos, guiando-o imperceptivelmente até uma das cadeiras, e sentando-se na outra, segurando o olhar de Harry no dele, "Quando o juramento foi feito em nome da sua magia o que isso quer dizer é que a sua mágica vai, literalmente, forçar você a cumprir o juramento. Sua consciência pode tentar desobedecer Lucius, mas a sua mágica vai forçá-lo a obedecer, porque a sua mágica sabe que você e ela não podem se separar. Não é possível. É como tentar separar seus pensamentos e você. Um não existe sem o outro."
"Mas ele disse...", Harry começou, mas Severus o interrompeu.
"Harry, o que quer que Lucius diga deve ser considerado sobre muitos ângulos antes de ser tomado como verdade. Ele está clinicamente instável."
Harry ficou em silêncio novamente, olhando para o chão.
Ele estava simplesmente tão... cansado.
Severus não aguentava ver aquele ar derrotado no garoto que já havia sobrevivido tanto.
"Harry, não perca as esperanças ainda. Draco foi até o Ministério hoje pela manhã, e nós temos notícias razoavelmente boas. Por que não se veste, e então nós podemos tomar café, enquanto explicamos tudo?"
"Eu não sei onde estão as minhas coisas.", ele respondeu com a voz fraca, como se não estivesse realmente se importando muito com o que estava acontecendo.
Draco chamou por um elfo, que disse que as coisas de Harry estavam guardadas em um cofre, e seriam devolvidas a ele quando mestre Malfoy mandasse, mas que as novas roupas de Harry estavam no closet, junto das do seu marido.
Draco foi com Harry até o closet, e teve de conter um suspiro, pensando que seu pai realmente não fazia nenhum trabalho pela metade.
O lado direito, tomado por roupas que supostamente pertenceriam a Harry, era uma coleção de vestes claras, tons de verde, azul, cinza e bege, cortadas à perfeição do tamanho do rapaz. O único problema era que as vestes não tinham o corte masculino tradicional, nem tampouco eram vestes de mulher: as roupas tinham um caimento andrógino, cortes mais retos que se insinuavam em curvas sem serem realmente curvas.
Lucius estava tirando toda e qualquer identidade que Harry pudesse ter. Estava tirando a sua liberdade, a sua dignidade, a sua vontade, seu espírito, e até mesmo sua maneira de se vestir.
Harry, no entanto, ainda estava com a mesma expressão de afastamento no rosto, e isso começava a enervar Draco. Escolhendo uma das peças mais escuras, um azul claro com bordados em azul petróleo na gola e nas mangas, Draco entregou as vestes para Harry, que foi até o banheiro se vestir.
Severus e Draco aguardavam tensos o momento em que teriam de contar a Harry que a única chance dele escapar daquela casa era engravidar do homem que estava lhe causando tantos problemas.
O rapaz voltou, já vestido, e com os cabelos secos, e Severus sentiu seu coração se apertar mais uma vez. Harry parecia mais um boneco de cera do que uma pessoa, o rosto fechado, sua expressão que não traía nada.
"Draco conversou com Weasley esta manhã. Percy, se não me engano, ainda está no Ministério, e ele quer ajudar.", nenhuma reação de Harry, "Ele concorda conosco que a Ministra possivelmente vai perdoá-lo pelos seus crimes mais tarde, mas ele também acha que isso só vai acontecer quando você estiver supostamente seguro ao lado de Lucius.", ainda nenhuma resposta do rapaz, que estava servindo-se de café em gestos mecânicos, "Harry, a sua única chance de fugir daqui é engravidar."
Olhos verdes que se ergueram, mirando a cama, agora feita pelos elfos, e então encararam Severus, vazios.
"Sabe o que é o pior?", Severus e Draco mantiveram-se em silêncio, esperando que ele falasse, "Ele fez com que eu jurasse que eu não ia acabar com a minha vida."
Draco e Severus continuaram em silêncio, simplesmente porque não havia mais nada que pudessem dizer.
Desculpem eu não ter postado ontem!
Esqueci o.o
Well, sejam amores e
R E V I E W !
