Pelo quinto dia consecutivo, Sesshoumaru se viu fora de casa antes do meio-dia, bem antes por sinal. E não se tratava de única mudança em seus hábitos, mas já tinha desfrutado de tanto sexo na vida que poderia se abster por uma ou duas semanas. Na verdade, nenhuma mulher que não fosse Rin o interessava naquele momento.

Depois de tomar o café da manhã, decidiu tratar de alguns negócios antes de seguir em direção ao píer do Tâmisa, disposto a acompanhar de perto a corrida de barcos a remo.

A primeira parada foi no clube noturno Jezebel, que ainda nem abrira as portas já que as tinha fechado havia menos de duas ou três horas. A jogatina corria solta ali até altas horas da madrugada.

Mesmo sendo tão cedo, Jakotsu, o proprietário, deixou Deverill entrar logo que percebeu que era o marquês quem batia à porta.

-#O que o traz a esta hora em meu estabelecimento, milorde?

-#Preciso fazer uma pergunta, Jakotsu. Na verdade, várias. E todas podem lhe trazer vantagens econômicas.

-#Fico sempre feliz de ser útil a um cliente leal de meu estabelecimento.

Sesshoumaru sentou-se a uma das mesas de jogo e não perdeu tempo com conversa fiada.

-#O senhor mantém anotadas as dívidas de seus freqüentadores, não é?

-#Certamente, senhor.

-#Dividas de jogo e de bebida?

-#Sim, ambas. - Jakotsu sorriu. - Parece que uma segue a outra.

-#Faz sentido. Teria, por acaso, anotações sobre as dívidas do sr. Naraku Cobb-Harding?

-#É confidencial milorde.

Sesshoumaru tirou a carteira do bolso.

-#Acontece que Naraku é meu amigo e, para salvar a família de qualquer embaraço, pensei em comprar as dívidas dele com o senhor. Por um preço razoável naturalmente.

Jakotsu não se fez de rogado.

-#Espere um momento milorde.

O homem desapareceu da sala de jogos e não demorou em voltar trazendo um livro, que entregou a Sesshoumaru.

Naraku devia oitocentas e vinte libras entre dívidas de jogo e bebida.

-#Sei que está se perguntando como foi que deixei a dívida chegar a esse montante. Acontece que o sr. Cobb-Harding me assegurou de que se casaria com uma herdeira antes do fim do mês e que então me pagaria.

Sesshoumaru franziu a testa. Como Naraku tinha sido otimista.

-#Pois posso garantir, sr. Jakotsu, que a herdeira em questão está interessada em outro pretendente.

-#Oh, maldição! O senhor deve ter certeza disso, já que é tão bem relacionado.

-#O que acha de me vender a dívida do sr. Naraku por um preço razoável?

Jakotsu não escondeu o interesse.

-#E o que seria razoável, milorde?

-#Digamos quinhentas libras?

-#Oitocentas me deixariam dormir mais tranqüilamente.

-#Quinhentas libras na mão o fariam dormir mais tranqüilamente, que oitocentas, que, provavelmente, nunca verá à sua frente.

Por um momento, Jakotsu mordeu o lábio, parecendo perdido em pensamentos.

-#Que tal seiscentas libras em dinheiro?

-#Feito - Sesshoumaru concordou, contando as notas e as entregando a Jakotsu. - E os papéis?

O homem deu a Sesshoumaru as promissórias assinadas por Naraku, sem sem piscar os olhos.

-#Oh, milorde, avise seu amigo de que ele não será bem-vindo ao Jezebel no futuro, a não ser que venha com dinheiro no bolso.

-#Será um prazer informá-lo, sr. Jakotsu.

Quando Sesshoumaru deixou o clube, tinha as promissórias das dívidas de Naraku no bolso. Oitocentas libras que seriam usadas para chantagear o jogador. Assobiou então chamando um coche.

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Depois de passar por vários clubes, Sesshoumaru tinha pagado mais de treze mil libras e comprado promissórias assinadas por Naraku no valor preciso de vinte e três mil, duzentas e oitenta e cindo libras.

Quantia mais do que suficiente para livras Rin de qualquer aborrecimento daquele patife.

Sentiu vontade se seguir diretamente para a casa do jogador e bater à sua porta ou derrubá-la e fazer suas exigências. O melhor, porém seria mandar-lhe um bilhete, dizendo claramente que estava de posse de todas as promissórias.

Sesshoumaru consultou o relógio. Eram mais de onze horas. A corrida de barcos já devia ter começado. Não se preocupava com a segurança de Rin, já que Fitzroy era um idiota, e ela sabia bem disso. E se tivesse o mínimo de juízo, não subiria em um daqueles barcos estreitos.

Estaria lá apenas para assistir ao espetáculo.

E era exatamente o que Rin fazia quando Sesshoumaru chegou ao cais.

-#Onde estão os seus irmãos – ele perguntou, olhando em volta.

-#Devem estar na margem, berrado com Fitzroy. Parece que acreditavam que eu estaria em um dos barcos e participaria da corrida.

-#E por que pensariam assim?

-#Não sei de onde tiraram a idéia. Jamais lhes afirmei que faria tal coisa.

-#Seus irmãos se preocupam com sua segurança, Rin.

-#Sei disso. Mas me deixaram claro que seria mais seguro eu não entrar em barco algum. Como se isso tivesse me impedido, caso eu resolvesse contrariá-los. Eles não iam poder me impedir de ....

-#Eu a impediria.

-#Como? Mas.....

-#Mas isso não tem nada a ver com liberdade e sim com afogamento – comentou, sorrindo. - Eu, no entanto, tenho uma idéia melhor que não exige termos de inalar o cheiro ruim do Tâmisa.

-#E o que poderia ser?

-#Pensei em almoçarmos juntos – ele respondeu, esperando que esse programa soasse mais aventureiro do que de fato era.

-#Um almoço?

-#Sem acompanhante.

Sesshoumaru percebeu que o argumento convencera Rin de imediato.

-#Então, vamos? - ele propôs.

-#Não precisamos informar os meus guardiões onde estamos indo.

-#Podemos informá-los e ainda assim seguirmos com o nosso programa – o marquês opinou.

-#Desde quando segue as regras de comportamento adequado, Sesshoumaru?

Aquela era uma boa pergunta. Porém, ele tinha uma boa resposta.

-#Desde que me tornei o seu guia. Preciso garantir sua sobrevivência. Afinal, terei em meus calcanhares nada mais, nada menos doque os irmãos Griffin.

Rin suspirou.

-#Então sua única preocupação é a autopreservação?

-#O que mais poderia ser?

Ela voltou a suspirar.

-#Podemos então deixar um bilhete aos meus irmãos?

-#Esplêndida idéia. Menos chances de alguém sair ferido.

Isso feito, estavam livres para darem o próximo passo.

-#Onde almoçaremos? - Rin perguntou, dando o braço a Deverill.

-#O restaurante Próspero é o mais perto daqui. E a comida, deliciosa.

Ela concordou e caminharam em silêncio, enquanto Sesshoumaru se congratulava por ter habilmente evitado a intervenção dos Griffin.

-#Acha que ando parecendo uma tola ultimamente? - Rin indagou, quebrando o silêncio.

-#Não que eu tenha notado. Está se referindo a alguma coisa em particular?

-#Sinto-me como se estivesse exigindo coisas fantásticas ao mesmo tempo em que não tenho idéia de como alcançá-las. Outras são muito agradáveis.... como os seus beijos, que acabam por me confundir.

Os beijos eram agradáveis?

-#Não sabe o que quer, minha querida. Pelo menos reconhece que quer alguma coisa. Mas até onde pensa ir?

Rin parou, depois o encarou de frente, sem hesitar.

-#Na verdade, eu gostaria que me beijasse novamente.

Isso tinha sido bem direto.

-#E eu gostaria de voltar a beijá-la. - Sesshoumaru soltou um longo suspiro. - Mas não vou.

-#E quanto à minha aventura? Os beijos podem ser exatamente uma ousadia minha. Não concordou em me ajudar?

-#Sugiro que escolha outra coisa. Dois beijos em uma mulher inocente é o meu limite. Se vierem mais beijos, ela não terá chances de continuar inocente.

-#Mas não pode.....

-#Acredite no que digo, Rin. Da próxima vez, não pararei no beijo e sua honra estará manchada.

Ela puxou a mão que Sesshoumaru segurava, irritada.

-#Então por que está aqui? Você apregoa aos quatro cantos ser egoísta, um misógamo. No entanto, levanta-se cedo para garantir que eu não cometa uma loucura, atirando-me de uma ponte morrendo afogada. Por que faz coisas que contradizem o que fala?

Não poderia responder a pergunta usando a sinceridade.

-#Estou apenas tentando agir como um amigo, Rin. Não é algo com que eu esteja acostumado, ao menos não com uma mulher. Trata-se de uma nova experiência para mim e errei quando ousei beijá-la.

-#E na segunda vez?

-#Foi um erro ainda maior.

-#Um erro – ela repetiu, colocando as mãos nos quadris. - Não chega ser muito lisonjeiro de sua parte.

Apesar da frustração crescente e de sentir-se excitado, o marquês forçou uma risada.

-#Está aborrecida porque não pretendo seduzir a irmã de meu melhor amigo?

-#Eu......

-#Fique agradecida. Lembre-se, se houver um escândalo, você terá de se casar. Como deve ser o seu nebuloso marido em potencial? Um idiota? Pois você flerta com o escândalo simplesmente por estar ao meu lado em público. Você precisa escolher. Procura uma aventura para depois voltar correndo à vidinha de sempre, ou pretende chegar aos extremos e sofrer as conseqüências? - Sesshoumaru aproximou o rosto a ponto de sentir o aroma dos cabelos de Rin.

-#Sei quais seriam as conseqüências.

-#Saber na teoria é uma coisa, sabê-las na prática, é bem diferente. Sendo assim, está mentindo.

Ela ruborizou, pondo-se a caminhar de novo. No que foi seguida por Deverill.

-#Essa não e uma prerrogativa minha?

Quando desviou o olhar, Sesshoumaru soltou a respiração. Rin o surpreendia cada vez mais. Mesmo sugerindo que ele seria a aventura escolhida, isso apenas provava o quanto ela era inocente. De repente, o marquês se tornava uma espécie de príncipe encantado naquela história toda.

Precisava reconhecer uma coisa. Seria mais fácil ser frio a brutal se quisesse de fato ser excluído dos planos de Rin.

-#Então me diga quem está considerando para ser seu marido – ele pediu.

-#Por que? Quer caçoar de cada escolha minha?

-#Você me pediu ajuda. Eu a estou oferecendo.

-#Oh, enquanto você estiver no controle da situação, não é? Dois beijos, mas nenhum mais porque poderá começar a se interessar verdadeiramente por mim?

E ele que julgara dizer as coisas sem rodeios.

-#Ora, essa é a minha prerrogativa. - Sesshoumaru respirou fundo. - Vamos lá, Rin. Pelo menos eu poderia informá-la dos hábitos de seus possíveis candidatos a marido.

-#Posso vir a lhe dizer os nomes. Mas, de volta á minha aventura, alguma sugestão?

-#Ainda estou pensando em alguma coisa.

Chegaram ao restaurante e se acomodaram. Só de estarem sem acompanhante, já era uma aventura, mas não do tipo que Rin queria.

-#Tem certeza de que quer ser vista na minha companhia não é considerado um escândalo?

-#Melbourne confia em você. Eu confio em você – ela respondeu enquanto observava as pessoas que almoçavam nas outras mesas.

-#Muito bem. - Ele fez um sinal para o garçom. - Dois copos de vinho Madeira – pediu – e a melhor refeição que podem oferecer.

O garçom não demorou a trazer o vinho.

-#Alguma notícia de Naraku? - ela perguntou, enquanto tomava um gole do delicioso Madeira. - Será que ele vai insistir em me chantagear?

-#Não acredito. Cuidei para que ele me ouse se aproximar de você. Ou melhor, cuidarei disso ao voltar para casa.

-#Posso perguntar como vai conseguir tal proeza?

Um sorriso nos lábios surgiu nos lábios de Sesshoumaru.

-#Um cavalheiro nunca revelaria seu planos.

-#Mas......

-#Sim, eu sei. Não sou um cavalheiro. Muito bem. Pretendo chantageá-lo.

Rin arregalou os olhos.

-#Com o que? - perguntou, sem disfarçar a incredulidade.

Deus do céu, o que Deverill estava pretendendo fazer com Naraku? Conhecendo o marquês, havia tantas possibilidades que ficou em dúvida em qual começar a imaginar.

-#Infelizmente, tive que recorrer ao mais tedioso dos métodos. Dinheiro.

-#Como assim?

-#Sesshoumaru tomou um gole de vinho.

-#Naraku é um jogador. E não muito hábil. Eu comprei todas as promissórias que ele assinou nos clubes de jogo. Logo que voltar à minha casa, pretendo enviar uma carta, informando-o do fato e exigindo que me pague o que deve ou deixe o país. E que também mantenha a boca fechada no que diz respeito às tentativas covardes de roubar a virtude de uma dama.

-#Covardes? - Rin repetiu, percebendo a raiva que havia na voz de Sesshoumaru. - Esse não é um termo que parece constar de seu vocabulário.

-#Bem, esse não é ainda o texto final de minha carta.

-#E se acontecer de Naraku simplesmente pagar as duplicatas?

Sesshoumaru deu risada.

-# Não tem condições de fazê-lo. A não ser que encontre uma..... Não vai ser capaz de pagar – ele respondeu, sem fazer maiores considerações.

Rin estudou a expressão do marquês por um longo momento.

-#Ia dizer que Naraku somente poderá saldar s dívida caso encontre uma herdeira com quem possa se casar, não é? - Ela não esperou a resposta e continuou a falar: - Não estou magoada por conhecer as razões que fez Naraku se aproximar de mim. De certa forma, já sabia. Por Deus, sei que não é por amor.

Rin ficou pensativa por alguns instantes.

-#Algo a preocupa?

-#Se Naraku encontrar uma herdeira, que o aceite como marido, ele poderá pagar a dívida. Quem garante que ele não vai aplicar o mesmo golpe que tentou comigo para convencê-la a aceitar o seu pedido de casamento.

Sesshoumaru suspirou.

-#Muito bem. Encurtarei o prazo para o pagamento da dívida, não lhe dando tempo para cortejar moça alguma.

-#Não me parece muito decente – ela murmurou, sabendo que no fundo estava contradizendo Deverill apenas porque se irritava com a idéia de os homens manipularem as mulheres.

-#Chantagem nunca foi um ato de decência, minha querida.

-#Quanto custou comprar as promissórias? Não é justo que use o seu dinheiro, Sesshoumaru. Diga-me, quanto custaram as promissórias?

-#Não mais do que eu estava querendo gastar – informou ele. - Na verdade, eu estava até disposto a gastar mais para forçar esse sujeito a sumir de nossas vistas.

O almoço foi servido eles se entretiveram em saborear a deliciosa refeição.

-#Então, Rin – Sesshoumaru disse em tom casual, interrompendo uma garfada -, estava para me contar quais são seus candidatos a marido.

-#Não, eu não estava.

-#Mas poderia me dizer assim mesmo, não é?

-#Não cheguei a fazer lista alguma. Apenas me passaram alguns nomes pela cabeça.

-#E Naraku era um deles?

A curiosidade que havia na voz de Sesshoumaru a surpreendeu..

-#Sim, quero dizer, se eu viesse a conhecê-lo melhor e gostasse dele, talvez pudesse tê-lo considerado para entrar na lista.

-#Estranho, não é? Se ele soubesse disso, certamente não teria agido de forma reprovável. Bastaria cortejá-la com decência.

Ela não havia pensado nisso, mas Deverill agora abria seus olhos. Era possível que outros cavalheiros estivessem sendo delicados e encantadores visando apenas seus objetivos pessoais. Não, não. Era melhor não pensar assim.

-#Eu teria sido capaz de conhecer o verdadeiro caráter de Naraku mais cedo ou mais tarde, não é?

-#Bem, isso agora não importa. Naraku está fora de sua lista. Diga-me outro nome possível.

-#Lorde Dennis Cranston parece um cavalheiro simpático – ela respondeu, apesar de que não estava verdadeiramente interessada em Dennis.

-#Oh, não me diga uma coisa dessas. Pode escolher melhor, Rin. Alguém com mais cérebro.

-#Ele é bonitão – ela protestou. - E você prometeu não caçoar das minhas escolhas.

-#Na verdade, não me lembro de ter feito essa promessa. Quem mais está na lista?

-#Hum....... Não consigo pensar em mais ninguém.

Sesshoumaru riu e Rin perdeu-se em pensamentos. Não era possível uma pessoa ser tão atraente e ao mesmo tempo tão cínica como Sesshoumaru.

-#Muito bem, nenhum nome. E quanto à sua aventura? Já teve alguma idéia? Alguma coisa em que eu possa concentrar os meus esforços?

-#Oh, Sesshoumaru, sugira alguma coisa que possa ser divertido e ousado. Não consigo tomar uma decisão.

Ele ficou pensativo por alguns instantes.

-#Posso fazer sugestões, claro. Andar em um balão , cantar no palco de um teatro, velejar prlo oceano Pacífico, viajar pela Índia ou China, cavalgar por Grosvenor Square com os seios descobertos, dar tiros dentro do Parlamento......

-#Oh, pare com isso! - Dividida entre o riso e o assombro, Rin tomou o resto do vinho. - Nada do que citou me interessa, a não ser, quem sabe, viajar em um balão.

Ele segurou as mãos de Rin.

-#Pense no que deseja fazer, minha querida. Darei um jeito para que realize o seu desejo.

Seria tão fácil escolher alguma coisa doida e livre. Provavelmente teria sido, mas a verdade se mostrava perturbadora: Sesshoumaru era a aventura que almejava.

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Sesshoumaru mandou Rin para casa em um coche. Assim que ela entrou na mansão, o comité de recepção estava a sua espera. Porém, havia mais alguém.

-#Tia Kaede! - ela exclamou, lembrando-se naquele minuto de que marcara um almoço com a tia e havia se esquecido completamente do compromisso. - Oh, Deus, faltei ao almoço. Lamento tanto.

-#Não se preocupe, minha querida. Apenas fiquei preocupada com o que poderia ter acontecido, já que não me mandou bilhete algum avisando do cancelamento.

Oh, a memória começava a lhe faltar com tão pouca idade. Abraçou a tia enquanto observava a reação de Bankotsu, que estava nas proximidades.

-#Já comeu? Quer que eu peça a Stanton que traga alguns sanduíches? Ou prefere chá?- perguntou à tia, levando a senhora para a sala de estar.

-#Rin.

Ela sentiu um frio na espinha ao notar o tom frio na voz do irmão mais velho.

-#Sim?

-#Gostaria de conversar com você em meu escritório. Agora.

Tia Kaede deu um leve empurrão na sobrinha.

-#Esperarei na sala de estar, querida. Stanton, traga-me chá, por favor – a condessa pediu.

-#Claro, milady. - O mordomo imediatamente fez sinal para uma criada.

Rin seguiu Bankotsu e não conseguiu deixar de sentir um friozinho no estômago quando ele fechou a porta do escritório.

-#Recebi seu bilhete – ele disse, caminhando até a janela e olhando para a rua.

-#Quis informá-lo onde eu estaria, como me instruiu a fazer. - Fingindo serenidade, ela se sentou em uma das cadeiras mais confortáveis da sala.

-#Nós a procuramos na corrida por mais de uma hora. Alguém finalmente nos contou que a tinha visto ao lado de Sesshoumaru. - Bankotsu sentou-se e ficou em profundo silêncio, encarando-a. Na verdade, estou grato de que tenha decidido não participar daquela aventura maluca.

-#Oh, Bankotsu, eu nunca faria uma coisa tão tola. Sabe disso, não é?

-#Não sei. Pensei que a conhecesse, mas ultimamente você tem me confundido. Como aconteceu de encontrar Deverill?

-#Ele também estava me procurando. Provavelmente para me impedir de entrar no barco de Fitzroy.

O duque balançou a cabeça concordando.

-#E onde almoçaram?

-#Não preciso lhe dar essa informação.

-#Suponho que não. - Por um longo momento, ele ficou em silêncio, o olhar voltado para o pequeno jardim que havia do lado de fora da casa. - Estou surpreso de que, com todos os riscos que tem assumido, não apenas chegou a salvo em casa como tem conseguido evitar escândalos. Peno que seja sensato alertá-la, porém ,que mesmo o mais talentoso jogador perde de vez em quando.

-#Sei disso. Mas quero me arriscar.

-#Ainda não terminei de falar. Uma das razões pela qual nós..... eu permiti que você desfrutasse de tanta liberdade, foi para que não encarasse a vida com a mesma inexperiência que eu. Mal havia começado a estudar em Oxford quando herdei o título e passei a ser responsável por Hashi, Miroku e você. Mas suponho que a ignorância não seja uma desculpa. E talvez isso faça com que sua rebeldia seja culpa minha.

Rin levantou-se imediatamente.

-#Se tivesse escolhido me dar menos liberdade, estaria duplamente errado.

-#Em geral, as meninas nobres não vão pescar com meninos, nem nadam no lago, nem cavalgam nos animais dos irmãos a ponto de quebrar os braços, Rin. E quando elas crescem, não se aventuram em passeios a Vauxhall por conta própria, nem ficam almoçando com conhecidos libertinos.

-#Pensei que Deverill fosse o seu melhor amigo.

-#E é. Mas você é minha irmã. - Bankotsu respirou fundo. - Se quer encontrar um marido por conta própria, que o faça. Se quiser visitar o Vauxahall ou assistir ás corridas de barco, um de nós a acompanhará, sem qualquer reclamação. Mas pelo amor de Deus, não se arrisque demais.

Rin fechou os olhos por um momento, tentando organizar os pensamentos, para que pudesse finalmente expor suas idéias a Bankotsu com clareza.

-#Meu irmão gosto muito de você. E não me olhe desse jeito. Por herança você é um líder, o que leva a se achar responsável por todos nós. Não se esqueça de que o mesmo sangue corre em minhas veias.

-#Sei disso.

-#Então deveria se lembrar de que até eu completar quinze anos eu podia.... fazer as mesmas coisas que você. A partir dessa idade, eu já não podia mais.

-#Rin......

-#Neste momento, quero assumir alguns riscos. Só que agora assumo minha responsabilidade, tomo as minhas decisões e sei que deverei arcar com as conseqüências, caso cometa um erro. Se errar, a falta é minha. Não sua.

-#Você pode ver as coisas desse modo, mas o resto de Londres não .Eles......

-#Não me importo com o que pensam de mim. Sei que eventualmente terei de me contentar com sonhos e ambições menores, e que, por causa das regras sociais e por ser uma Griffin, serei forçada a me casar com algum tolo escolhido, mas nesse meio tempo quero alguma distração, mesmo que curta.

-#A minha preocupação é que você se arrependa do que vier a fazer....

-#Mas será um erro que cometi por vontade própria.

Bankotsu a deixou dar a última palavra, o que era bem significativo para Rin. Ela havia explicado o seu ponto de vista ao irmão, e, mesmo assim, ele não ficara ao seu lado. Ninguém, a não ser Sesshumaru, ficava. Bem, mas Sesshoumaru não contava.

Lágrimas corriam pelo rosto quando ela se dirigiu ao encontro da tia.

A condessa a recebeu de braços abertos.

-#Desculpe-me novamente, titia – pediu, procurando esconder as lágrimas.

-#Minha querida, sei que está precisando desabafar com alguém. Pode confiar em mim.

Rin achou que era melhor não revelar a paixão por Sesshoumaru. Decidiu contar apenas o essencial.

-#Declarei minha independência.

-#Peep já me contou isso. O que você entende por isso?

-#Anunciei que serei eu a escolher o meu marido, sem a intervenção da família, e que faria o que me desse vontade. Como, por exemplo, vestir-me a meu gosto.

Tia Kaede tomou um gole de chá.

-#E Melbourne não aceita a sua nova liberdade?

-#Oh, ele aceitou.

-#Aceitou? Então o problema é que você não está gostando da nova liberdade?

-#Também não é isso.

-#Minha querida, creio que preciso de mais informações, antes de poder lhe oferecer algum conselho ou ajuda.

-#Oh, se eu pudesse me explicar, tia. - Rin balançou os braços em um gesto que deixava claro que se sentia sem rumo. - Tenho essa oportunidade de ser livre como sempre quis e não sei como desfrutá-la.

-#Mas foi almoçar com lorde Deverill sem uma acompanhante. Isso me parece uma ato de liberdade, Rin.

-#Não foi. Não com Deverill. Quero dizer, ele faz coisas em minha presença que a maioria dos homens não faria. Porém, é o melhor amigo de Bankotsu. Conhece as regras.

-#As regras....... - tia Kaede repetiu em um tom de dúvida.

-#Ou seja, um comportamento padrão que os Griffin, assim como toda a sociedade, deve seguir.

-#Quer dizer que se sente muito segura na presença de Deverill? - perguntou a tia, sem esconder o riso irônico. - Não penso que possa usar essas duas palavras na mesma sentença: segurança e Deverill.

Rin tinha que admitir a veracidade daquela declaração. Tudo começou até de maneira inocente, mas não demorou a mudar, principalmente depois que Sesshoumaru a tinha beijado. Mas, a despeito dos eventuais flertes verbais, o marquês já deixara claro que nada mais haveria entre eles. E ela queria muito mais.....

Para não se trair por um rosto corado ou um tremor das mãos, afastou imediatamente a imagem de Sesshoumaru da mente.

-#Trata-se de um dilema difícil – a tia apinou. - A liberdade, quero dizer. Acredito que tudo tem um preço.

-#Foi o que Deverill me disse.

-#Ao menos, sensato ele é.

Sim, Deverill tinha aquela e outras qualidades, apesar de negar. Ele a surpreendia sempre.

-#Do que realmente preciso agora – Rim assentiu depois de tomar um gole de chá - , é entender o que estou tentando fazer. Quantas bobagens, não, tia?

-#Querida, sua mãe era minha irmã. Uma filha de um conde que subitamente se viu casada com um duque. E não um duque qualquer, mas o duque de Melbourne. Um título de oitocentos anos, pertencente a uma família que data dos tempos dos romanos. Não foi fácil também para Elizabeth. Mas ela decidiu que valia a pena. Orgulhava-se de ser quem era e do legado que deixava aos filhos.

-#Então devo parar com essa história de independência e implorar a Melbourne que me arranje um marido da escolha dele? Alguém que me mereça?

-#Não. Deve fazer o que pensa que é necessário para ser feliz. Apenas tenha em mente que terá que compartilhar o nome de sua família com alguem que o mereça.

-#Sei disso. - Ela beijou a tia no rosto. - E não me esquecerei desse fato. Obrigada, titia.

-#Penso que não fiz nada, mas ofereço sempre o meu ouvido quando precisar conversar com alguém, querida. - A condessa terminou o seu chá e levantou-se. - Não pedirei que seja cuidadosa, pois tenho certeza que será.

-#Tentarei – Rin confirmou , acompanhando a condessa até a saída.

E precisava tentar de verdade, considerando o que quase acontecera com Naraku Cobb-Harding. O que teria acontecido, se não fosse por Sesshoumaru, que por duas vezes havia ido em seu socorro.
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Sesshoumaru mandou um de seus criados entregar a carta a Naraku, mas esperou na rua, observando discretamente a casa, para tentar descobrir qual seria a reação do rapaz. Como havia imaginado, em menos de dez minutos, Naraku saía apressadamente e se dirigia a Pall Mall. Seguindo-o a uma distância discreta, Sesshoumaru permitiu-se sorrir ao ver o tolo entrar de clube em clube, obviamente tentando verificar se haviam vendido as suas promissórias. A resposta deve ter sido devastadora. No que dizia respeito ao marquês, cada grama de agonia e desespero era bem merecido.

Naraku podia berrar, praguejar e desabafar a sua raiva, mas não lhe restava nada mais por fazer. Apesar de Sesshoumaru não ter confessado a Rin, temia que o patife pudesse difamar alguma debutante ingênua de Londres.

Sendo assim, na carta a Naraku, ele tinha sido especifico. Ou Naraku pagava o que devia ao marquês, ou deixava o país. E isso em menos de um mês. Caso contrário, Sesshoumaru recorreria à polícia e o devedor de mais de vinte e três mil libras ficaria atrás das grades por um bom tempo.

Como Naraku demorava sair do clube White, Sesshoumaru se aproximou discretamente. Viu o rapaz sentado a uma mesa, com uma garrafa de uísque à frente. Evidentemente, pagara aquela despesa com dinheiro vivo.

Sesshoumaru sorriu. Não costumava arruinar a vida dos outros, mesmo porque não se importava com ninguém. Mas esse homem em particular tinha ousado perturbar a paz de alguém que lhe era muito querida.

Por um breve instante tentou nomear seus sentimentos, mas ao chegar perto da conclusão, recusou-se a nomear o que estava sentindo.

Além do quê, o sumiço permanente de Naraku era mais importante naquele momento.

Sesshoumaru não tinha nenhuma intenção de ficar observando o crápula se embebedar, então voltou ao local onde havia deixado seu cavalo e afastou-se dali. Se fosse em outros tempos, Deverill teria alguma atividade um tanto sórdida com que se entreter. Porém, por alguma razão, sentia-se diferente.

Seguiu para casa. Não desfrutava da companhia de uma mulher havia uma semana. Não, não era verdade, porque passara um bom tempo com Rin. E, quando não estava com ela fisicamente, não pensava em mais nada. Nenhum libertino perdia seu tempo com apenas uma mulher, especialmente uma com quem não tinha ilusões de conseguir qualquer vantagem além da amizade.

Que ridículo!

Se não fosse pelo maldito papel com que Melbourne o controlava, poderia estar agora com Kagura ou com alguma outra mulher casada e amoral. (NA. Sei nem mesmo ele acredita no que disse) No entanto, queria mesmo ficar com alguma delas ou contentar-se com a companhia de Rin?

Entrou em casa e o mordomo apontou as várias cartas que haviam chegado.

-#Cartas de quem, Jaken? - o marquês quis saber.

-#Oh, lady Kagura, assim como lady kana, lady Caster, a srta. Yura Young, lady Rin, lady Bethenridge..........

-#Obrigado, Jaken. - Sesshoumaru parou de subir as escadas. - Disse lady Rin?

-#Sim, milorde.

O coração de Sesshoumaru pareceu perder o compasso, mas logo retomou o batimento normal.

-#Convite ou carta?

-#Carta.

O mordomo voltou para onde estava a bandeja de prata com as correspondências e pagou a carta de Rin. Subiu as escadas até alcançar Sesshoumaru, entregando o envelope.

-#Mais alguma coisa milorde?

-#Não pode ir.

Sesshoumaru entrou em seus aposentos e sentou-se à escrivaninha. Colocou a carta de Rin à sua frente, antecipando o prazer de ver o que ela escrevera. Por fim, desdobrou o papel.

Sesshoumaru,

Pensei em uma aventura. Quando poderei lhe contar qual é?
Rin.

-#Só isso? - Ele virou a folha para ver se havia mais alguma coisa escrita.

Nada. Não havia nem os tradicionais termos como querido, Sesshoumaru, de sua......

Frustrante.

Um pensamento cruzou sua mente. Talvez ela tivesse mostrado a carta a Melbourne e assim se restringido a um texto curto e seco.

Sentiu-se animado novamente. Sim, deve ter sido isso.

Pegou uma folha de papel da gaveta e uma pena.

Rin, ele escreveu falando alto o que punha no papel. Estarei no Caster Grand Ball esta noite. Se planeja comparecer ao evento, poderemos conversar.

Não sesshoumaru decidiu. Soava muito impessoal. Rasgou o papel e começou um novo bilhete. Ficarei feliz de escutar qual é o seu palno.

Assim era melhor, mas precisava deixar claro que estava sendo gentil, caso Melbourne pegasse a carta. Começou então um terceiro texto. Reserve a quadrilha ou alguma outra dança para mim. Deverill.

Sim, estava perfeito. Assoprando para a tinta secar, ele enfiou o papel em um envelope, selou-o e chamou um criado para entregar a correspondência.

Sesshoumaru tinha aproximadamente cinco horas até o início do baile. As demais cartas que recebera, e não havia se interessado em ler, deveriam conter pedidos das mulheres que se sentiam felizes se ele as convidasse para dançar. Naquele momento, porém, não queria nada com elas. Seu desejo era sentir uma gostosa sensação , enquanto pensava no encontro com Rin.

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Rin recebeu a carta de Sesshoumaru e a leu sob os olhares curiosos de miroku.

-# O que é isso? - o irmão perguntou

-# Nada. - Ela tentou entender a linguagem impessoal de Sesshoumaru.

Claro, que ele suspeitara que um dos irmãos Griffin podia interceptar a correspondência. Mas, na sua presença, o marquês agia de outra forma receptiva. Rim sentiu as pernas fraquejarem, só em imaginar na possibilidade de trocar outro beijo.

-#Pretende ir ao Caster Grand Ball esta noite, não é? - Miroku indagou.- Parece que e o baile mais esperado da estação.

-#Planejo ir sim.

-#Conosco?

-#Pensei em compartilharmos da mesma carruagem, se não se importarem.

Por um momento, Miroku nada disse.

-#Por quanto tempo mais essa bobagem vai durar?

-#Imaginei que estivesse do meu lado, Miroku.

-#E estou, se a deixa feliz. Mas, para ser honesto, Rin, não vejo o que vai conseguir, a não ser mais algumas discussões com Melbourne. Pensa que não percebi que saiu chorando do escritório do duque quando tia Kaede estava aqui?

-#Não chorei.

-#Não sou cego, sabia? Seus olhos estavam vermelhos e lacrimejantes. Se quer saber a minha opinião, não acredito que Melbourne a force a se casar com alguém que não seja de seu agrado.

Casamento. Ela havia se esquecido de que esse fora o principal motivo de sua rebelião.

-#Porém, sei que não vai se colocar contra Bankotsu se ele fizer o contrário e me forçar um casamento que não quero.

-#O que me surpreende é vê-la pedindo conselhos a Deverill, quando não pede nenhum a mim.

-#Apenas ouço os conselhos do marquês e faço o que desejo.

-# Ouvir os conselhos de Deverill sobre como agir em casos de amor é ridículo, Rin. Ele não tem coração, por isso é o homem menos qualificado da Inglaterra para Ajudá-la a arranjar um marido.

Rin enfiou a carta de Sesshoumaru no bolso e levantou-se.

-#Não vou discutir mais esse assunto. Você também pode escolher com quem se aconselhar sem que nenhum de nós interfira.

-#Estou feliz como eu sou, não preciso de opiniões alheias – ele retrucou, mas Rin já começava a sair da sala, fingindo não ouvi-lo.

Era bom que Miroku se sentisse feliz, pensou, no entanto, apenas contrastava com sua própria realidade. Ela não era feliz; sua vida era repleta de brigas e desafios, e ainda assim as chances de conseguir tudo o que desejava permanecia distante.

Mesmo sua revolta não estava levando as coisas para a direção que queria. O homem em cujos braços gostaria de estar escrevia cartas lacônicas e não prometia nada, apenas sugeria um encontro para uma dança.

-# Homens – ela murmurou subindo as escadas para examinar os dois novos vestidos do ateliê de madame Costanza que tinham acabado de chegar e decidir qual usaria naquela noite.

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-#Exatamente quantos vestidos novos você tem? - perguntou Hakudoushi à irmã quando entravam no salão de baile.

Rin ajeitou o traje verde que escolhera usar naquela noite.

-# Eles ainda estão chegando. Encomendei pelo menos uns quinze. Por que pergunta?

-#Talvez porque cada um deles encurta minha vida em pelo menos uma década.

Sorridente, Rin acenou para algumas amigas.

-#Então espero comparecer ao seu funeral na próxima quarta-feira.

Ela olhou discretamente para os convidados, temendo que Naraku estivesse presente. Era certo que contava com a presença de Sesshoumaru, mas ele parecia não ter chegado ainda. Talvez tivesse surgido alguma coisa mais interessante que o desviara do baile.

Ao entrar, cruzou o salão e foi conversar com as amigas, comentaram sobre o que vinha acontecendo na estação. Distraída, ouviu alguns mexericos sobre quem havia conseguido ficar noiva e quem continuava sem nenhum pretendente. Enquanto tagarelava, Rin mantinha os olhos discretamente presos à porta de entrada. Muitos convidados estavam chegando, mas nem sinal do marquês de Deverill.

-#Soube que Phillipa Roberts ficou noiva? - Rachel Edderly cochichou ao ouvido de Rin. - Com lorde Ulbright.

-#Não! - Sango exclamou, cobrindo a boca. - O pai dela ameaçou deserdá-la, caso se encontrasse com o barão mais uma vez.

-#Pois é verdade, mas com a fortuna dos Ulbright, ela não vai se importar em ser tirada do testamento do pai.

-#O barão é vinte anos mais velho do que Phillipa! - Rin lembrou as amigas.

Diacho, onde está esse homem? Enquanto se fingia interessada no que as amigas contavam, inclusive conseguindo participar da conversa, Rin começava a se irritar com a ausência de Sesshoumaru.

-#Falando em escândalo..... - Rachel virou-se para ela. - O que me diz dos seus passeios com o marquês de Deverill?

Surpresa, Rin arregalou os olhos. Afinal não havia feito nada de errado e já comentavam sobre os seus passeios. Oh, trocaram dois beijos.....

-# Não há nada além de amizade entre mim e Sesshoumaru. É o melhor amigo de Melbourne.

-#Sei disso, mas mamãe me contou que ambos estavam no Próspero, almoçando juntos. E sem acompanhantes.

Então esse era o prenúncio de um escândalo, Rin pensou. Deverill a tinha alertado de que estar na companhia dele era arriscado, mesmo com as bênçãos de Melbourne.

-#Pelo amor de Deus, Rachel! - exclamou, abanando-se com o leque para dar mais ênfase ao protesto. - Acho que tenho o direito de almoçar com um amigo da família, se eu assim o quiser. E em um lugar aberto, com trinta pessoas a minha volta.....

-#Bem, suponho que não haja nada de mais mesmo – a srta. Edderly concordou. - Apesar de que não sei se eu teria coragem de ir algum lugar com Deverill, com acompanhante ou ......

Sem se virar, Rin soube que Sesshoumaru estava ás suas costas. Esperou um momento, deliciando-se com a sensação de prazer que a presença do marquês lhe provocava, e então se voltou para ele.

-#Boa noite, milorde – cumprimentou, fazendo uma pequena reverência.

-#Lady Rin.

A expressão daqueles olhos verdes a fez estremecer e sentir a boca seca. Considerando a natureza da aventura que avia escolhido, talvez fosse melhor não incluir Sesshoumaru. O problema, porém, era que não conhecia mais ninguém em que pudesse confiar. Como se fosse a razão pela qual ela queria a companhia dele.......

Atrás do marquês havia uma verdadeira fila de cavalheiros à espera, para falar com as damas.

-# Percebo que estou bloqueando o caminho para o paraíso – constatou ele, com um tom irônico. - Vejo você mais tarde?

-#Somente se reservar uma dança comigo.

Sem responder, ele rabiscou o nome no cartão de danças. Voltou-se então para Rachel Edderly:

-# Se alguma vez chegar a ter coragem de me conceder uma dança, avise-me. - Em seguida, lançando um último olhar para Rin, caminhou para onde estavam os irmãos Griffin.

Rachel tapara a boca com as mãos.

-#Oh, o marquês ouviu-me dizer que não tinha coragem de sair com ele. Oh, não! E me fez um convite!

-#Ele apenas foi gentil – Rin explicou, rindo do medo da amiga e ao mesmo tempo com ciúme por Sesshoumar ter sugerido a Rachel que dançaria com ela. - Você não precisa aceitar o convite se não desejar.

-# Diz isso porque sabe que Deverill jamais ousaria seduzir a irmã de seus amigos. Eu, contudo, não posso contar com tal proteção.

A orquestra começou a tocar uma quadrilha e Rin engoliu em seco. Sesshoumaru não estava à vista. Consultou o seu cartão e notou que ele havia escrito o nome ao lado de uma valsa, a primeira que tocariam naquela noite.

Sango cochichou alguma coisa em seu ouvido.

-# Amigos, hein? ...... Tem certeza de que ele sabe o que é amizade?

-#Claro que sim, caso esteja se referindo a lorde Deverill. Ambos sabemos. E ele tem informações interessantes a me dar. Isso é tudo. Pelo menos o marquês não fica falando do tempo e da cor do céu em Londres nesta época do ano.

-#Tenha cuidado – a amiga aconselhou em voz bem baixa. - Muito dos que estão aqui provavelmente vão adorar imaginar algum tipo de relacionamento mais íntimo entre vocês.

-# Sei disso. - Rin suspirou. - Pelo menos Melbourne não dá importância a essas bobagens. Caso contrário, minha declaração de independência teria anulado uma semana atrás.

-#Já fez sua lista de pretendentes? - Sango perguntou.

-#Pensei em alguns nomes – mentiu. - Ainda não estou preparada para revelá-los. Primeiro quero ter certeza de que são de fato interessantes.

-#Se tiver sorte, eles lutarão entre si e restarão menos para facilitar a sua escolha.

Com uma risada, Rin guardou o cartão de danças na bolsa. Estava totalmente preenchido.

-#Está pronta, lady Rin? - Thomas Chesterfield abriu passagem entre alguns cavalheiros e colocou-se ao seu lado. - Creio que a próxima dança é minha, não?

-#Naturalmente, sr. Chesterfield.

Quando a música começou a tocar, ela e seu companheiro curvaram-se um diante do outro e começaram a se movimentar no ritmo da quadrilha.

-#Está mais bela que a própria Vênus – Chesterfield disse quando, por um momento, ficaram lado a lado.

Ela desejou que ele não estivesse se referindo a uma vênus que havia na pintura de Botticelli. Afinal, no quadro, a deusa estava nua. Depois do que acontecera com Naraku desconfiava de todos os comentários, imaginando um duplo sentido em cada um.

-#Mas adorável do que Afrodite – Chesterfield acrescentou quando a dança os aproximou mais uma vez.

Então era isso. Estava apenas a comparando com as deusas em geral, independentemente de estarem nuas ou não.

Oh, Deus, por que não ficava satisfeita em receber um elogio? Aparentemente havia adquirido uma ponta do cinismo de Deverill.

A quadrilha juntou Rin a Hakudoushi.

-#Com quem está dançando? - ela perguntou ao irmão.

-#Com lady Charlotte Evans. E quem é o seu par?

-#Chesterfield.

-#Um idiota – Hashi falou e se afastou, levado pela dança.

Porém, Rin apenas concordara em dançar com Chesterfield, não em se casar. Comentavam que Thomas poderia ter futuro na política, se viesse a se decidir por tal. Não era sua culpa que não era atraente, nem charmoso como o marquês de Deverill.

Ainda estava pensando nos motivos de Chesterfield não a interessarem, quando a música acabou e o casal se dirigiu à mesa dos refrescos.

-#Foi esplêndido dançar com você – Thomas elogiou. - Fiquei pensando se não gostaria de ir comigo a um piquenique. - Ele ruborizou.- Tenho muitos planos para o futuro como você deve saber.

-#Oh, sim, já ouvi falar sobre eles.

-#Acredito que todos nós temos planos de algum tipo – Deverill disse, intrometendo-se na conversa. - Talvez você pudesse chamar os seus de aspirações, Chesterfield.

-#Mas tenho planos de.........

-#Mantenha-os para você – o marquês o interrompeu e voltou-se para Rin. - Não me concedeu uma valsa?

Seguiram para pista de dança, deixando o pobre rapaz em busca de bebidas mais fortes.

-#Isso foi realmente necessário? - ela perguntou. - O coitado só me convidou para um piquenique.

-#Oh, ele era um dos seus maridos em potencial? Minhas desculpas. Volte lá e termine a sua conversa. Deve estar desesperada para saber o futuro brilhante que ele planeja.

-# Você o deixou tão nervoso que nunca mais vou conseguir conversar com ele.

-#Duvido que conseguisse fazê-lo antes.

A valsa começou, Sesshoumaru a segurou pela cintura e a puxou, estreitando a distância entre eles, talvez mais perto do que o aconselhável. O coração de Rin disparou, Tanto de ansiedade como de excitação. Precisava contar a ele o que tinha em mente na quela noite. Ao mesmo tempo, ficou imaginado que fazia o marquês ser mais atraente do que os outros homens, mesmo os mais decentes.

-#Sesshoumaru, faça algum elogio para mim.

-#Como?

-#Diga-me algo que falaria para impressionar uma dama.

Um sorriso malicioso surgiu naquela boca sensual.

-#Meus elogios não são apropriados para ser ditos em público.

-#Tente, por favor

Ele suspirou.

-#Muito bem. - Dançaram em silêncio por um momento. - Um elogio. Hum......

-#Oh, pare com o suspense – ela protestou, enrubescendo. - Certamente e capaz de pensar em alguma coisa.

Rin esperou que ele fizesse algum comentário sobre a cor dos seus olhos, ou os cabelos, ou a semelhança com alguma deusa. Em vez disso, ele assumiu um ar muito sério.

-#Você é a mulher mais interessante que conheci em minha vida.

Esse era provavelmente o melhor elogio que ela poderia esperar ouvir.

-#Considerando o número de mulheres que já conheceu – disse, sorrindo, sem deixá-lo notar o quanto estava emocionada -, sinto-me honrada.

-#E também pode me contar qual aventura escolheu? - Sesshoumaru indagou em voz baixa, aproximando os lábios do rosto de Rin.

Meu Deus. Se Melbourne e Deverill não fossem amigos, o marquês estaria em grandes apuros naquele momento. Aliás, ela também. Estar ao lado daquele homem a deixava totalmente confusa.

-#Estive pensando no que gostaria de fazer e me dei conta de que é algo que não faço desde criança.

Sesshoumaru franziu a testa, sem entender aonde ela queria chegar.

-#Explique-me, por favor.

Respirou fundo, agora vinha a pior parte, explicar. Na verdade, nunca havia imaginado como era difícil falar sobre coisas simples como:

-#Quero...... quero nadar – informou de supetão.

-#Nadar?! - espantou-se ele. Isso é fácil. Tenho de admitir, porém, que estou desapontado.

-#Mas é o que quero fazer. É importante para mim.

-#Por que?

Rin mordeu os lábios. Pelo menos, ele não a estava ridicularizando.

-#Quando meus irmãos e eu éramos crianças, costumávamos nadar no lago de Melbourne Park quase todos os dias durante o verão. Metade do tempo nadávamos nus. Ninguém se importava, porque éramos crianças e estávamos nos divertindo. Quero sentir essa sensação de novo, Sesshoumaru.

-# Nua?! - Ele continuava em estado de choque.

-# Esse não e o ponto. Eu gostaria de nadar em um lago. Digamos que à meia-noite, no Hyde Park.

Sesshoumaru afastou-se para poder fitá-la e entender a proposta que acabara de ouvir.

-#É errado o que quero fazer?

-#É mais espetacular do que pode imaginar, Rin. Quer nadar nua à meia-noite em um lugar público?

-#Mas estará totalmente escuro.

-#Então está determinada a fazê-lo?

-#É claro. E gostaria que me ajudasse, porém, se não quiser se envolver, encontrarei outra pessoa....

-#Quando?

-#Vai me ajudar?

-#Você ainda tinha dúvidas que sim?

De repente, ela se sentiu ainda mais nervosa do que antes. Não poderia recuar.

-#Fiz algumas consultas. Amanhã à noite teremos lua nova e tempo bom.

Sesshoumaru sorriu, com os olhos brilhando.

-#Oh, fez uma pesquisa. Isso é admirável.

-#Todo o cuidado é pouco. Sei que posso me envolver em uma enorme encrenca.

-#Não deixarei que nada lhe aconteça.

A valsa terminou, mas continuavam presos pelo olhar.

-# Consegue sair de casa sem que ninguém a veja?

-#Isso não será problema. Darei um jeito.

Olhando para Melbourne de soslaio, Sesshoumaru concordou.

-#Minha carruagem estará esperando por você na esquina de sua casa à meia-noite. Se mudar de idéia, mande um recado.

-#Não vou mudar de idéia – ela murmurou.

Sesshoumaru levou-a até as amigas e afastou-se.

Deus meu, ele murmurou para si mesmo. Esperava alguma coisa ousada, algo como as aventuras que sugeria antes. Mas nadar........ Rin tinha escolhido algo simples, que daria prazer apenas a ela.

Isso significava sua rebelião. Não queria brigar com os irmãos nem desafiá-los.

Até poucas semanas antes, tudo o que interessava a Sesshoumaru era encontrar uma mulher e, se ambos estivessem dispostos, iriam se divertir juntos. A partir do momento em que deixara de ver Rin Griffin como uma garota e havia passado a enxergá-la como, mulher em que ela se tornara, sua vida tinha mudado.

Rin queria coisas que não eram tangíveis, não se interessava em dinheiro nem bens. Tudo o que ele tinha visto e aprendido com o pai, observando a fila de amantes que entravam e saíam do quarto do velho marquês, mesmo de seu quarto, lhe ensinara que as mulheres eram manipuladoras. Não pensavam em nada mais além da própria segurança financeira.

-#Está se sentindo bem? - Hashi perguntou, aproximando-se e pegando um copo de vinho do porto que um garçom servia. - Parece que viu um fantasma.

-#Estou bem – Sesshoumaru respondeu, distraído. Fitava Rin ao lado de um rapaz com quem dançaria em seguida. - Apenas observando.

-#Tem idéia do que Rin pretende? - Hashi notou para quem o amigo olhava.

O marquês forçou uma risada, enquanto se servia de vinho também.

-# Acha que ela confiaria em mim para me revelar alguma coisa mais íntima? Sou a encarnação do pecado, lembra-se? Dou conselhos, não escuto confissões.

-#Fico pensando que tipo de conselho pode dar a minha irmã, exceto dizer o que ela não deve fazer.

-# Por que a repreendem tanto?

Hakudoushi franziu a testa, estranhando a pergunta.

-#Ora somos irmãos e zelamos por ela. Além do quê, costumamos dizer uns aos outros o que fazer ou não.

-# Então por que Rin está tão revoltada e Miroku não, por exemplo?

-# Não tenho certeza se gosto desse interrogatório, Deverill. Melbourne pediu que você mantivesse Rin longe de problemas. O resto não é de sua conta.

Aquele tipo de conversa agressiva era comum entre os homens, por isso Sesshoumaru não se importou, respondendo no mesmo tom:

-#Se eu conseguisse descobrir a razão da rebeldia de Rin, poderia ter uma idéia do que ela pretende fazer. E não precisaria ficar vigiando-a o tempo inteiro.

Hashi tomou um gole de vinho e deu os ombros.

-#Se eu tivesse a mínima idéia das intenções de Rin, talvez não me preocupasse tanto. Mas não tenho. Que irmão não se interessaria em saber com quem a irmã fala ou com quem dança? Não queremos que ela se case com um caça-dotes, que termine por nos explorar.

-#Então é essa a preocupação de vocês?

-#Eu mesmo não saberia ser tão sincero.........

Sesshoumaru ficou imaginando se Melbourne pensava da mesma forma ou se levava em conta os sentimentos da irmã. Se todos pensassem como Hashi, isso explicava a revolta de Rin. E também por que o duque precisava pedir ajuda de fora, mesmo de alguém como ele. Se ela não encontrasse o que procurava, os Griffin estariam em apuros. E ele, o melhor amigo da família, encabeçaria a fila.

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Bom tá ai gente o maior capitulo que já escrevi até hoje.......

No próximo teremos a primeira noite de amor dos dois....... hahahhaha
Ninguém acertou qual seria a aventura que ela escolhera....

Agradeço pelas Reviews, leio cada uma com muito carinho, e elas me dão animo para escrever mais rápido....