Capítulo Oito.

Atravessamos a rua de mãos dadas e entramos no hospital sabendo que todos estavam nos olhando, mas com toda honestidade, eu não me importei, porque depois da noite de ontem, eu quero essa mulher sempre. Eu nunca tive um relacionamento em que eu pudesse falar sobre o trabalho. Que eu pudesse desabafar sobre meus pacientes sem ter que ser um robô imparcial o tempo todo. Com Kate, em casa, fazíamos qualquer coisa, menos conversar. Principalmente sobre o trabalho. Já com Bella é diferente – porque agora eu tenho seu número de telefone e permissão para chamá-la pelo seu apelido – e nós tivemos uma noite incrível. Mesmo com o fato que eu dormi logo que cheguei, mas ela não se importou, jantamos e fizemos boas sacanagens que me deixarão sorrindo pelos próximos dias.

Hoje de manhã ela acordou meio estranha, falou no telefone com alguém e depois desceu meio distante, porém poderia estar sonolenta também. Chegamos à sala dos médicos para trocar de roupa, ela e Rosalie se trancaram no banheiro como toda manhã, mas dessa vez não havia risadinha ou barulhos engraçados, apenas silêncio. Emmett olhou desconfiado para porta. Jasper chegou a virar e eu sentei, esperando. Algo estava errado. O que será que ela tem? Bella é uma pessoa fácil de ler. E meu instinto diz que algo está muito errado. Carlisle entrou e me desejou sorte no meu transplante e perguntou se iria aguentar ficar todo plantão e eu disse que sim.

As duas saíram do banheiro, Bella parecia em outro mundo, completamente perdida e Rosalie meio confusa. Elas abriram seus armários e tiraram seus jalecos com suas coisas.

- Podemos conversar por um momento? – Bella perguntou e assenti. Jasper, Emmett e Rosalie saíram. Benjamin entrou, encheu seu copo e café, nos deu um aceno e saiu. Ela sentou na minha frente. – Eu sei que talvez esse coração demore muito ou possa vir rápido, estamos sempre correndo no trabalho e ontem nós tivemos outro tipo de conversa. Enfim, eu só quero ter certeza que estaremos na mesma página.

- Você quer marcar um horário para falarmos sobre nossas maneiras de trabalhar em uma sala de cirurgia? Acho que fomos bem à primeira vez e em todas as outras.

- É um transplante cardiopulmonar, Edward.

- Eu sei, querida. Depois do almoço, na hora livre?

- Ótimo. – sorriu, levantou e saiu.

Totalmente estranha. Será que ela não gostou que eu tenha preparado o café da manhã? Duas noites seguidas era muito? Indo rápido demais? Meu Deus, estou completamente perdido como uma garotinha. Meu bipe tocou e era Jéssica, estava atrasado para as primeiras visitas. Respirei fundo e levantei, saindo da sala e parando próximo ao elevador quando vi Bella e Kate juntos.

- Então você está saindo com o meu marido? – Kate perguntou e Bella riu.

- Eu não sei se você casou tão rápido depois do divórcio, mas se está falando de Edward, seu ex-marido, nós estamos tendo muitas noites de sexo alucinante. Satisfeita? – Bella retrucou e eu ouvi Kate grunhir.

- Sexo alucinante? – perguntei e Kate saltou. Bella me deu um sorriso e entrou no elevador. – Vejo você depois, baby.

- Oi Edward. – Kate me deu um sorriso que eu costumava adorar e agora me enche de irritação. Falso. Pisquei e entrei no elevador. Ela parou em nossa frente. As duas saíram no andar da pediatria. Bella olhou para trás e piscou. Eu ri. Totalmente louca.

O elevador abriu novamente no meu andar e Jéssica me deu um olhar exasperado enquanto falava com os internos.

- Quem vai apresentar o primeiro paciente? – perguntei e eles ainda estavam na fase de saltar quando ouviam a minha voz. Jéssica revirou os olhos.

- Dois, apresente-se. – disse meio irritada e eles foram buscar os prontuários enquanto ela virava pra mim. – Você está namorando a Dra. Swan? – perguntou e eu ri. – Não que seja uma coisa ruim, ela é legal, mas eu divido o apartamento com a psicopata da sua ex-mulher que teve uma discussão horrível com a mãe dela ontem à noite e mal pude dormir porque você foi visto chegando sozinho na casa da Dra. Swan. Achei incrível que ela morasse tão perto. Será que encontro um apartamento por aqui também?

- Eu tenho um apartamento vazio. Era meu quando solteiro, aluguei por um tempo e o casal teve um bebê e eles saíram. É seu. Fiquei em outro enquanto esse ainda estava alugado...

- Eu te amo. – Jéssica suspirou.

- Sei o quanto é difícil morar com Kate. – retruquei porque ela era uma "colega de quarto" realmente complicada.

- Ângela disse que era só por um tempo.

- Porque foi isso que ela disse para Ângela, achando que eu iria voltar atrás.

- Ela não lava as suas calcinhas e isso está me dando nos nervos. – resmungou e os internos chegaram. – Vão, gente, por tudo que é mais sagrado, tenham um pouco de ousadia!

Quando saí de casa, Kate surtou. Ela quebrou a maior parte das coisas que tínhamos e ficou com sua mãe por algumas semanas, alegando que o apartamento que morávamos era nosso e devíamos viver juntos ali. Na mesma semana em que Tanya colocou a sua filha para fora para me reconquistar, Ângela e Benjamin decidiram morar juntos, então, ela disse a Ângie – que dividia seu apartamento com Jéssica – que era apenas por algumas semanas. Em todo caso, eu não me interesso onde ela mora. O nosso apartamento agora é dela.

O horário de visita se estendeu um pouco mais porque os internos estavam meio surtados que a Dra. Swan iria fazer uma cirurgia que eles nunca haviam visto antes, ainda mais em uma criança em estágio avançado. Eles estavam pedindo liberação para assistir e tomar notas. Eu os liberei e pedi que focassem. Meu último quarto era um paciente reincidente, que está esperando transplante do fígado para começarmos o tratamento da sua doença valvular cardíaca. Assim que terminei as visitas, assinei prontuários e li o relatório noturno, solicitando novos exames para pacientes que Dr. York deixou marcado e a enfermagem deixou passar.

Fui bipado por Bella. Ela estava me chamando na sua UTI NEO. Desci pela escada mesmo, não querendo socializar com quem poderia encontrar no caminho. Coloquei a roupa cirúrgica e entrei. Ela estava do lado de uma incubadora, falando suavemente com uma enfermeira. Observei o menino recém-nascido e intubado mexer-se suavemente. Peguei o prontuário e fiz a anotação dos sinais vitais, fazendo a minha própria marcação.

- Esse menino lindo nasceu essa madrugada e apresentou um APGAR baixo, segundo Dr. Evans. Os exames foram feitos com urgência e os recebi essa manhã. – disse suavemente e segurou a mãozinha dele. – Cardiopatia idiopática. Os exames estão na segunda parte do prontuário.

Abri os exames e suspirei.

- Não seja negativo. Ele está acordado e pode sentir a sua energia. – murmurou em tom de reprimenda. – O pequeno Jackson precisará de um transplante.

- Já entrou em contato com UNOS? – perguntei baixinho.

- Alice está com o pai fazendo isso nesse momento.

- Ele é prioritário.

- Solicitei que entrasse em contato com os responsáveis da lista 1B. Eu te chamei aqui para ficar ciente que estamos aguardando mais um transplante.

- Ok. Eu vou fazer minhas anotações aqui no prontuário e vou achar Alice para passar algumas orientações.

Saímos juntos da UTI.

- Soube que vai fazer uma estrituroplastia agora. É aquela paciente? Foi confirmada a doença de crohn?

- Sim e em estágio avançado. – me puxou para um canto mais vazio. – Vou fazer a cirurgia para obstrução, mas as minhas únicas fichas estão no tratamento clínico. Eu sei que é comum confundir a síndrome com a doença, mas, foram oito internações, Edward. Nenhuma criança permanece com a síndrome muito tempo com antibióticos agressivos. A mãe me pediu um relatório e Carlisle disse que infelizmente sou obrigada a dar. Eu não gosto da Dra. Denali porque não nos demos bem em poucos encontros, mas não queria ser aquela que daria fundamentação para um processo de negligência.

- Oito internações e todas elas com o mesmo tratamento clínico?

- Sim. E ela dava alta para criança fazer o tratamento com o pediatra regular.

- Mas isso é culpa nossa também. Culpa do hospital em não ter sinalizado a Dra. Denali que ela estava errada.

- São muitos pacientes, Edward. Não dá para diretoria analisar todos os casos em dez andares de atendimento cirúrgico. – sussurrou de volta e cruzei meus braços, não satisfeito. Temos funcionários para isso e decidi conversar com meu tio. – Tanya foi negligente e infelizmente o hospital vai pagar uma parcela disso. A minha esperança é ter sucesso nesse tratamento. A mãe não parece culpar a instituição e sim a médica, porque disse que todos os outros funcionários foram maravilhosos, exceto ela. Eu tive que afastar Kate do caso apenas pelo seu sobrenome.

Respirei fundo e encostei-me à parede, não acreditando que isso estava acontecendo. Nós iremos perder muito dinheiro em processos e eu só queria estrangular a minha ex-sogra.

- Tenho que me preparar para a cirurgia.

Observei-a ir e fui bipado. Meu Tio Carlisle estava me chamando, provavelmente para falar sobre tal caso. Cheguei em sua sala e encontrei minha mãe e o grupo de advogados. Seria uma longa manhã antes que eu tivesse que entrar em uma cirurgia depois do almoço. Ocupei uma cadeira e começamos a discutir os eventuais processos e como poderíamos reverter para que os danos fossem mínimos. Meu divórcio estava custando muito mais caro porque a mãe rancorosa da minha ex-mulher decidiu que poderia se vingar de mim através dos seus pacientes.

No meio da reunião, no entanto, recebi a notícia que havia um coração a caminho para meu jovem paciente. Bella tinha razão. Era como se ela tivesse previsto que aconteceria. Sempre positiva sobre seus pacientes. Essa conversa dela sobre energias faz muito mais sentido agora que eu estava correndo para ala da pediatria para dar as boas novas a família e pedir que Ângela e Jéssica preparassem o paciente para começarmos o transplante.

- A Dra. Swan está em cirurgia. – Ângela disse.

- Informe-a e irei começar, assim que ela terminar deve seguir direto.

- Não dá para esperar?

- Essa criança está esperando há anos então, não, não dá para esperar. Assim que o órgão chega, ele é preparado e a cirurgia começa, talvez dê tempo de ela sair.

Ângela assentiu e saiu rapidamente. Eu estava tão animado e positivo que precisava me apegar a isso para a cirurgia dar certo. Desci para preparação do órgão e da sala de cirurgia. Eu sabia que os internos estavam eufóricos e correndo para todo lado. Transplantes são muito esperados e quando eles finalmente chegam, é quase como um evento entre os médicos. A sala de observação estava cheia e a sala de cirurgia também. Jéssica ficou de um lado e eu e Ângela do outro.

- Alguém avisou a Dra. Swan que iremos começar? – perguntei antes de abrir o paciente.

- Ela está terminando. – Ângela respondeu com as mãos levantadas.

- Acionar microfone. – pedi e pude ouvir conversas da galeria. – Atenção. Hoje vocês estão assistindo o primeiro transplante cardiopulmonar de suas carreiras, peguem seus cadernos e aprendam o máximo que puderem hoje. Vamos começar.

Fazer parte de um hospital escola é muito mais que competir por cirurgias e por isso quando abri o peito do paciente e ouvi o suspiro coletivo por nunca terem visto uma criança sendo transplantada, eu me senti orgulhoso em poder fazer parte da história de todos esses novos médicos como eu era alguns anos atrás. Jéssica e Ângela estavam atentas quando a porta abriu e Bella entrou. Jéssica trocou de lugar com Ângela.

- Que bom que chegou para a cirurgia, hoje é um lindo dia. – disse e Bella apenas me olhou antes de assumir o seu lugar.

Nós trabalhamos em sincronia, porém, ela não parecia muito alegre comigo, respondendo apenas o necessário, melhor dizendo, nem o necessário, olhando para as residentes para ver se elas estavam completamente afiadas. A cirurgia finalizou com sucesso e o paciente não estava com indícios de rejeitar o órgão. Ela permitiu que as residentes fechassem o paciente e finalizamos com palmas na galeria. Assim que o paciente saiu estabilizado, ela foi à frente, livrando-se da roupa cirúrgica.

- Ei, foi tudo bem na sua primeira cirurgia?

- Foi ótimo. – murmurou e lavou as mãos, tirou a mascara e a touca.

- Então nós acabamos de sair de uma longa e muito boa cirurgia com um paciente que eu acompanho há anos e estou satisfeito, mas você parece estar pronta para me atacar com um bisturi.

Bella respirou fundo e abriu a boca, mas a excitação de Ângela e Jéssica a deixou quieta.

- Nós vamos descer para almoçar, vocês vem?

- Claro, estou faminta e precisando de uma pausa. – Bella respondeu e saiu com elas, sem olhar para trás.

Durante o almoço ela ficou distante, conversando com Rosalie, Ângela e Jéssica sem olhar na minha direção. Até entender a mente confusa dessa mulher, que muda de humor o tempo todo...

No meio do almoço, nossos bipes tocaram e havia uma confusão na emergência, eles precisavam de mais médicos devido a uma correria no metrô, incluindo pessoas pisoteadas e atropeladas.

- Espero que esse dia simplesmente melhore. – Rosalie resmungou meio irritada. – Perdi um paciente hoje. Estou meio chateada, então, me ignore.

- Quem? – perguntei curiosamente. Rosalie raramente perdia seus pacientes.

- João Ninguém. Agora mesmo que nunca serei capaz de recuperar um rosto para reconhecimento. – bufou cruzando os braços.

- Eu pedi um bebê hoje. – Jasper reclamou também. - A mãe caiu e o bebê de oito meses faleceu.

- Não perdi ninguém. Não podemos chegar a sete mortes no dia. – Bella murmurou azeda. Estou começando achar que meu desempenho ontem a noite foi uma tremenda merda.

- Ou vira 14. – Emmett comentou.

As portas do elevador abriram e o caos parecia ter fixado residência na emergência.

- Ainda estou com fome. – Bella gemeu.

No caos, nos dividimos, chamando ao outro quando as especialidades se cruzavam. Estava um barulho ensurdecedor e eu mal conseguia auscultar meus pacientes. Ouvi um grito de um homem e quando virei, ele arremessou Bella contra parede. Emmett o segurou por trás e o um enfermeiro conseguiu ceda-lo. Deixei meu paciente com Jéssica e levantei Bella do chão. Seu rosto estava lavado de sangue.

- Estou bem, preciso apenas de um pano. – colocou a mão na sua testa.

- Não até ver esse corte. – disse e a levei para uma estação distante. Meu paciente estava parando e Jéssica me gritou. Agarrei uma enfermeira. – Atenda a Dra. Swan. – pedi e virei para Bella. – Faça o curativo e uma TC.

- Estou bem, Edward.

- É uma ordem.

Perdi o paciente. Merda.

- Diga a hora da morte, Dra. Stanley. – suspirei frustrado. – Chame o necrotério.

Voltei para o próximo paciente e a vi atendendo uma mulher com ferimento no rosto. Parei do seu lado e ela estava apenas com um curativo acima de um corte que precisava de pontos. Esperei que terminasse com a paciente e a arrastei pelo braço até fora da emergência, chegando ao primeiro andar, onde havia uma estação fixa de curativos. Sem paciência, sentei-a na maca e puxei a mesa preparatória.

- Isso pode esperar. Temos uma emergência cheia e é só um corte. O paciente estava assustado.

- Não pode esperar. Eu vi a queda e a força que bateu contra a parede e o chão.

- E temos pacientes que foram pisoteados porque havia uma suposta bomba no metrô.

- Bella, você é uma médica e sabe as consequências de uma queda. Você pode não sentir nada porque a adrenalina está correndo em seu corpo, mas o que aconteceria se relaxasse e desmaiasse dentro de uma sala de cirurgia?

- Você está um pé no saco hoje. – reclamou e gemeu com a picada da agulha. – Ele só estava assustado, é um momento traumático. Havia uma marca de bota no peito.

- Quieta. Vou começar a costurar o seu rosto.

- Edward, não é porque nós estamos transando que você pode crescer para cima de mim.

- O que eu fiz além de estar cuidando de você, tentando costurar a sua linda testa e você não fica quieta?

- Hoje você começou a nossa cirurgia antes de mim, tudo bem, eu conheço o protocolo, mas me deixou louca quando disse "Que bom que chegou para a cirurgia, hoje é um lindo dia" como se eu fosse uma aluna atrasada e você um professor pé no saco. Era minha cirurgia também. – disse e segurou minha mão. – Deus, isso dói.

- Nunca levou pontos antes?

- Claro que não.

- Só mais dois e estará pronto. – disse e voltei com a agulha, ela gemeu. – Eu não comecei a cirurgia sem você por falta de consideração. Você estava com outro paciente e terminando. E chegou em um perfeito horário, eu ainda estava explicando sobre os ventrículos. E depois eu estava cuidando de você. Não seja uma chata irritadinha. – beijei seus lábios. – Tive uma noite de sexo maravilhosa, sempre fico muito animado no dia seguinte. – sussurrei conspiratório.

- Estou satisfeita com todo sexo que tivemos essa noite, foi realmente incrível e devemos repetir em breve antes que eu comece a ficar ainda mais rabugenta. Acho que não estou tendo um bom dia. – suspirou e se encolheu, tentando fugir da sutura.

- Eu percebi. Não desconte em mim.

- Não só em você. Descontei em um monte de gente. – murmurou e se encolheu com a última picada. Ela soltou um gemido de dor. – Vai ficar alguma cicatriz?

- Eu sou bom em suturas, obrigado. – rebati secamente e ela riu, relaxando. – Quer me contar o que aconteceu?

- Recebi uma notícia muito ruim hoje cedo e acho que estou processando até simplesmente ficar sem importância. – disse levantando os dedos e fazendo o sinal de algo pequeno entre eles. – Pode demorar um tempinho até me acostumar, mas não sei se vai parar de doer agora.

- Podemos conversar sobre isso depois, se quiser um bom ouvido para se abrir. Sou ótimo conselheiro. – brinquei e ela me segurou pelo jaleco e me beijou. – Está bem? Sonolenta?

- Edward eu realmente acredito que você gosta quando te mando a merda.

Voltamos para emergência, mas ela respeitou a minha ordem em atender somente casos leves. Quando finalmente a sala ficou vazia e os casos cirúrgicos já estavam encaminhados, eu decidi que podia tomar um banho e comer alguma coisa. Não a encontrei em lugar nenhum, tomei banho, comprei um lanche e fui para sala de descanso, encontrando ela e Rosalie lá dentro. As duas gritaram pelos pacotes que estavam no meu braço, então dei meia volta e comprei mais comida.

Bella e Rosalie estavam deitadas na mesma cama e abriram o saco da batata e as latinhas de suco.

- Eu espero que essa cidade seja gentil essa noite. O pessoal que saiu do plantão de 36 horas hoje de manhã disse que foi muito tranquilo. Quando é conosco, acontece o apocalipse. – Rosalie enfiou várias batatas na boca. – Eu precisaria de mais uma noite de sexo para suportar isso. – bufou e Bella riu, dando-me um rápido olhar. – Não comecem a transar com os olhos, estou bem aqui.

- Quer que chame Emmett? – provoquei e ela jogou um travesseiro em mim. – Em falar nisso, como estão? Dois dias seguidos é muito para vocês.

- Eu sei. Mas não consigo explicar. – suspirou e virou pra mim. – Você me conhece há seis anos e conhece Emmett a sua vida inteira, existe alguma chance que isso possa dar certo? Por que eu me conheço o suficiente para saber que não vou perdoá-lo se ele fizer uma merda comigo e ao mesmo tempo nós não temos nada, foram duas noites de sexo maravilhoso, por que estou me torturando?

- Porque você costuma torturar as garotas e caras que saem, agora vocês dois estão se torturando e isso é incrível, quase me dá vontade de andar atrás de vocês com um saco de pipoca. – retruquei rindo. Ela levantou o dedo do meio.

- Diz o cara que ficou choramingando "ela não me ligou ainda".

- Ei! – Bella falou de boca cheia. – Eu estava com raiva dele.

- Mas ele é quem pega o número de telefone das garotas e nunca liga. – Rosalie apontou na minha direção. – Foi maravilhoso vê-lo olhando no celular a cada cinco minutos.

- Eu só dei meu número de telefone para ele ontem à noite. – sorriu muito orgulhosa de si mesmo. Bufei revirando os olhos.

- Quando crescer eu quero ser como você. – elas bateram as mãos juntas.

- Rose, você e Emmett são muito parecidos, isso pode ser muito bom ou muito ruim, mas cabe a vocês tentar. – disse e olhei para Bella, que enfiava várias batatas na boca, olhando-me meio nervosa. – A gente tem que tentar, tentar e tentar até achar um caminho que dá certo.

- Não sou boa com relacionamentos. – Rosalie suspirou. – Emmett também não.

- Eu acho que vou dormir um pouco agora. – Bella disse e eu bati na cama que estava sentado. Ela riu e pulou as três camas no caminho, pulou por cima de mim e deitou contra parede. Segurei seu rosto e a beijei. Ela embolou as pernas com as minhas e puxei o lençol em cima de nós dois.

- Vão ficar se beijando aí, não é?

- Cala boca, Rosalie.

- Cheguei criançada e fiquem em silêncio que eu estou morto. – Emmett deitou onde Bella estava, deu um beijo em Rosalie e puxou o lençol.

Por um milagre, conseguimos dormir por uma hora e meia. Bella e eu fomos chamados por Jasper, ele estava em um parto de emergência cuja mãe tinha problemas cardíacos, estava hipertensa e a criança em sofrimento fetal. Foi um parto difícil e a criança quase não resistiu. Eu vi a tristeza no olhar de Bella ao solicitar internação na UTI. Jasper terminou com a mãe e ela ficou estável em sua pressão, prescrevi o tratamento e acrescentei no prontuário.

- O que está acontecendo? É a terceira criança essa semana que nasce com sofrimento fetal. Ela demorou muito a voltar, reflexos lentos, eu vou ter que pedir a Emmett uma consulta, porque quanto mais tempo, mais chances de desenvolver deficiências. – Bella suspirou e Jasper estava olhando para frente.

- Essa era tecnológica permite que as mães tenham acesso a todo tipo de informação, incluindo aquelas que acreditam que não é preciso fazer acompanhamento médico durante a gestação. Essa mãe se programou para fazer parto com doula. Uma mulher de quarenta anos, hipertensa, que se não tivesse um marido contrário a sua opinião, poderia ter falecido em casa e o seu filho também. – Jasper disse e enfiou as mãos no bolso do jaleco. – Não vou dizer que sou contra ao parto humanizado, desde que seja dentro de um hospital.

- Eu já fiz um parto em uma casa, foi algo assustador. – Bella murmurou e cruzou os braços. – Minha vizinha em Los Angeles, foi um caos. Ela deu meu nome a sua filha. Eu vou subir e ver como foram os primeiros exames do bebê.

- Vou conversar com o marido sobre minha paciente.

Entrei no andar da cardiologia encontrando Jéssica um pouco alterada com uma das enfermeiras, como é uma ocorrência comum, não me dei o trabalho de me intrometer. Segui direto para minha UTI, coloquei minha roupa de proteção e entrei, verificando cada paciente, conversando com os que estavam acordados e vi que havia dois que se passassem a noite bem, Eric poderia dar alta amanhã cedo para o quarto.

- Eu não acredito que terei dois dias inteiros em casa. – Jéssica bocejou. – Falta pouco para o café da manhã, vai querer alguma coisa? – perguntou e bateu com a testa no vidro. – Estou tão cansada.

- Foi tão ruim assim a discussão delas? – perguntei incapaz de conter a minha curiosidade.

- Tanya foi cruel com Kate, ok, eu não estou defendendo sua ex-mulher, mas a mãe dela é uma vaca. Disse que Kate era inútil já que foi incapaz de assegurar um casamento lucrativo com você.

- Me sinto um pote de ouro.

- E você é, McSteamy, mas não pelo seu bolso. Olha, talvez agora tenha a chance de ter alguém que goste de você pelo que é, até porque, sabemos que dinheiro não falta na conta bancária da Dra. Swan. – sorriu me dando uma piscadinha esperta.

Alice saiu do elevador meio agitada e me olhou, seus olhos estavam cheio de lágrimas e parecia profundamente assustada. Ela estava de folga essa madrugada, mas eu vi que estava usando o scrub cinza dos internos. Desencostei da parede e ela veio, com as mãos tremendo.

- Foi tudo muito rápido. – disse meio descontrolada. – Ele estava bem, eu juro.

- De quem está falando, Alice?

- Seu pai. – sussurrou e me segurou. – Tia Elizabeth não estava se sentindo bem e pediu que dormisse lá hoje para ajudar a olhar Tio Edward. Eu disse que ela poderia dormir que eu tinha que estudar, então, eu devo ter cochilado, não sei.

- O que aconteceu com meu pai?

- Ele rolou da escada. Encontrei-o desacordado e o fiz os primeiros socorros...

Não ouvi mais. Empurrei a porta da escada e desci todos os andares correndo. Ouvi que Alice vinha atrás de mim e quando cheguei na emergência, encontrei minha mãe parada, falando com um enfermeiro, ela estava chorando e secando os olhos com um lenço.

- Ah, querido. É um milagre. – disse me abraçando apertado.

- O quê? Como assim? Cadê meu pai? – não dava para esconder meu desespero.

- Ele está estável agora, já fez radiografia. Por precaução, fizemos um ECG, mas seu machucado não foi profundo e ele está bem.

- Então o que é um milagre, mãe?

- Ele lembra.

- O quê? Lembra-se de quê?

Então a cortina do leito que ele estava foi aberta por um enfermeiro e Bella estava sentada com ele, fazendo um curativo na sua mão. Meu pai estava rindo, apontando algumas coisas e me deu um sorriso.

- Ele se lembra dela, Edward. Assim que chegou aqui, reconheceu a Bella. Isso não acontece há tanto tempo... – fungou e sequei seu rosto, beijando a sua testa. – Foi um susto, estou um pouco emocional. A coitada da Alice foi maravilhosa. Nem parece que sou uma médica também, porque quando o vi caído no chão, eu não conseguia lembrar meu nome. Ela foi ágil e maravilhosa.

Abracei Alice e ela chorou. Ela é a princesinha da família. Minha mãe não quis ter mais filhos e então meu pai é terrivelmente apegado a Alice. Ela é afilhada dele. Bella se afastou do meu pai com uma risada e veio até nós.

- Ele está bem. Incrivelmente lúcido e sem nenhum arranhão grave. Sua radiografia não apresentou fraturas. Podemos deixá-lo em observação por algumas horas, o que não acho uma boa ideia devido a sua agitação por ficar no hospital ou podemos deixá-lo em casa descansando. Foi só um susto.

- Prefiro levá-lo antes que levante e comece a diagnosticar os pacientes dos leitos vizinhos como da última vez. – minha mãe retrucou. – Obrigada pelo seu rápido atendimento, querida.

- Sorte a minha estar aqui. Emmett foi comer, ele estava irritando as enfermeiras então eu vim cobri-lo para descansar. – sorriu e me deu uma piscada.

- Ei querida, podemos ter um chá da tarde no jardim hoje? – meu pai perguntou a minha mãe. – Edward e Bella poderiam vir também.

- Eu adoraria, mas ainda tenho algumas longas horas de plantão. – respondi rindo da sua sugestão tão natural.

- Eu disse pra você ser advogado. Médicos não tem vida social.

Minha mãe pegou a mão dele e beijou. Alice foi até ele e deu um abraço, provavelmente aliviada. E eu nem podia descrever o que estava sentido. Meu pai foi um homem incrível e que revolucionou a medicina a sua forma. Eu não conseguia entender a manobra da vida ao deixá-lo tão debilitado. Nós nunca cogitamos deixá-lo em uma clínica, minha mãe praticamente pôs a sua carreira de lado para cuidar dele e eu faço o que posso. É uma realidade difícil de encarar e muito complicada de conviver. Como filho, sinto-me impotente ao ver meu pai tão jovem deteriorando-se diante meus olhos.

Senti a mãozinha da Bella pegando a minha e ela entrelaçou nossos dedos. Ficamos parados, de mãos dadas, olhando meu pai interagir com minha mãe e Alice. Ele estava feliz e toda vez que está assim, memorizo, para me dar forças quando ele não está bem. Sentir Bella me dando forças em algo que me dói me deixou ainda mais feliz.