História Oito: O homem que convoca a União Dourada
O caminho era longo, mas possível de se percorrer.
Passando por todas as Casas do Zodíaco, e pedindo permissão a todos os seus respectivos moradores, Ícaros de Sagitário prosseguiu até a Grande Casa, morada de Atena e do Grande Mestre. Chegando a sexta casa, a de Virgem, ele sentiu a necessidade de parar por um momento, para refletir, antes de passar adiante. "Será que Delfos encontra-se acordado, ou continua em sua profunda meditação? Ele é um ser tão sábio, tanto quanto o Grande Mestre. Se alguém pode saber de algo, esse alguém são eles dois".
Entrando na Casa de Virgem, ele parou em seus primeiros passos. "Mas que sensação é essa?". Saindo as pressas da morada, constatou algo diferente. Não era só uma sensação, mas algo físico também. Seu cosmo começou a se intensificar sem sua vontade, ao ponto dele se tornar uma estrela no meio da escuridão que tomava esse local. "Não acredito. Meu pedido para falar com o Grande Mestre resultou em uma União Dourada". O Relógio Zodiacal que sempre ficava apagado agora mostrava dozes luzes azuis enegrecidas, "O Fogo Perfeito". Cada Símbolo solar recebia agora seu próprio fogo, todos estavam acesos. Aquele era o símbolo que representava a União Dourada, onde todos os cavaleiros de ouro devem se reunir para uma reunião de emergência na Grande Casa, juntamente com o Grande Mestre. Aqueles que não comparecessem sem uma justificativa seriam considerados traidores do Santuário.
Ícaros percebeu que a situação poderia ser bem mais grave do que esperava. Concentrando o seu cosmo, abriu as asas e levantou vôo. Quase que imediatamente, ele já estava sobrevoando as Doze Casas, algo proibido exceto nessas situações de urgência. Os fogos do Relógio somente são ascendidos quando falta uma hora para o fim do prazo de resposta. Pelo que parece, o Grande Mestre está muito bem acordado, e ansioso para contar algo aos cavaleiros dourados. Ícaros não fez cena e se apressou ainda mais, voando cada vez mais alto e rápido.
No Portão Sagrado.
- O senhor está bem, mestre Orrin? – perguntou um pouco ansioso o jovem aprendiz Geord.
- Eu… É, estou bem sim, Geord. Diga-me: o que houve aqui? E como vim para no portão? – Orrin estava confuso. Sua cabeça ainda doía muito, suas veias ardiam a cada batida do coração, mas tudo estava relaxando aos poucos.
- Espero que minha prece tenha sido suficiente, mestre Orrin de Cão menor.
Orrin ergue-se um pouco tonto, mas se sentiu melhor e se ajustou. Olhou para quem havia falado com ele. Era o cavaleiro de Taça, senhor Serafim de Taças. Entendendo tudo rapidamente, olhou para o belo cavaleiro a sua frente e agradeceu com um gesto simples. Andando com um pouco de dificuldade, viu o estrago que se encontrava o Portão Sagrado. Construções haviam sido afetadas, e agora alguns cavaleiros supervisionados por Portos de Hércules estavam destruindo cuidadosamente as estruturas mais abaladas e irrecuperáveis. O portão estava tombado. Vários soldados sendo ajudados por pessoas. Aos poucos, tudo estava voltando ao normal, só que significativamente afetado. Olhando agora para Geord e Serafim, perguntou:
- Então, alguém pode me explicar? Estou confuso com tudo isso.
- Bem, senhor Orrin, não estava presente o tempo todo, mas sei que foi um Mensageiro da Destruição. E pelo que seu jovem discípulo me contou, a amazona que o atacou tinha a missão de confundir nossos focos de Cosmo enquanto o poderoso Mensageiro deixava o seu sinal. Ele gravou sua mensagem a fogo no próprio portão tombado que destruiu. Somente despertei quando senti o terrível ataque que realizou. Mas não foi somente o Portão Sagrado que sofreu avarias, pelo que vejo, não?
- É, senhor de Taças. Aquela amazona possuía ataques terríveis. Sua técnica era inútil contra sua própria armadura. Havia algo vivo naquela armadura. Podia agir independentemente de movimentos da sua dona. Era como se houvesse um elo mental entre a amazona e sua defesa. Não pude derrotá-la, mas impedi que prosseguisse, se essa fosse a sua vontade.
- E a armadura dela encontrava-se entre as constelações de Atena?
- Não. Tinha a forma de um morcego.
- Morcego, você diz… Sabe o que está acontecendo agora?
- Como assim? – Orrin ficou um pouco perdido. "Onde ele quer chegar mudando de assunto?", pensou.
- Olhe o senhor mesmo. – e apontou para a praça mais acima.
Orrin observou o Relógio Zodiacal mais ao longe. "O que?", pensou. "Os fogos estão acesos? Mas isso significa que está para acontecer uma União Dourada. Tudo isso em apenas uma noite. O que está acontecendo afinal?". Olhou duvidoso para Serafim, que respondeu com o mesmo olhar.
- Descanse, mestre de Cão menor. Continuaremos com o processo de vigia e reconstrução nos passado pelo lorde dourado de Sagitário. Agora vá! Eu ordeno que seu aprendiz o impeça de caminhar por muito mais tempo. Vá descansar!
- Não precisa ordenar nada, senhor de Taças. Já vou mesmo. Tenha uma boa noite, ou o que restar dela.
- O mesmo. – e virando para o portão, prosseguiu – Mas saiba que não é do gosto do nosso inimigo matar rapidamente. Eles gostam de mexer com nossas emoções primeiramente, destruir ou abalar nosso espírito, a fim de apreciar nossas fraquezas antes de nos destruir.
- O quê? – perguntou confuso – O que sabe sobre minha adversária?
- Não mais que você…, mas conheço mestre e suas táticas. Boa noite. – e voltou suas atenções ao ambiente.
Na Grande Casa.
Mal havia acabado de pousar, Ícaros já estava caminhando pelo longo Corredor das Estrelas, após entrada principal da morada. Ele possui esse nome devido possuir em seu teto um imenso mapa das constelações. Foi terminado há pouco menos de oito anos, quando o Grande Mestre assumiu sua posição atual, e quando o cavaleiro de ouro de Libra ainda estava presente no Santuário. Ninguém sabe o que ocorreu com o cavaleiro que representava a balança da justiça no Santuário, só sabem que um dia ele sumiu, e deixou sua armadura de ouro para trás. Ninguém tem autorização de mexer naquela armadura vazia, e o Grande Mestre atual disse que pagaria com a vida quem tocasse na balança sagrada. O guardião das doze armas do zodíaco dourado havia sumido misteriosamente.
Ele finalmente chegou à porta que levava até a sala de reuniões. Abrindo-a, ele pode notar que tudo estava como sempre foi nesse local: tranqüilo. A sala é aberta em suas paredes, apenas possuindo colunas jônicas belíssimas. O centro circular da sala era coberto por uma abobada muito alta, elevada pelas colunas. Do topo, encontrava-se dependurado uma maquete móvel do sistema solar feita de latão, construída também há oito anos. O clima frio da noite que ia embora trazia uma pequena neblina ao local, que estava rasteira. O visitante andou em direção do Círculo Solar, desenhado no chão na ordem igual à posição das Constelações do Signo Solar. Localizando seu lugar, Ícaros posicionou-se. Fechando os olhos e cruzando os braços, pôs a meditar. "Espero que Delia já esteja dormindo. Desde quando sai não dei mais notícias sobre meu paradeiro. Espero que não fique preocupada".
- Não ficará, lorde Ícaros de Sagitário. – uma voz séria e serena quebrou o silêncio da sala.
Assustado, Ícaros abriu os olhos rapidamente, e observou o dono da voz que entrava na sala circular. O ser posicionou-se em seu lugar no Círculo. Esse ser era Delfos de Virgem, o Oráculo de Delfos.
