Capítulo 9 - Uma visita casual ao Rei dos Titãs

Depois de ouvirmos a Grande Profecia, Quíron nos liberou para nossas atividades no acampamento. Eu fui para a aula de grego com Annabeth, mas estava muito distraído. Em um ponto, ela me deu um tapa.

"Ei!" reclamei. "O que foi isso?"

"Vamos lá, Percy." ela ralhou. "Eu sei que você deve ter muito na sua cabeça agora, mas enquanto nada concreto acontecer, você precisa continuar treinando."

"Não estamos treinando." eu fiz bico.

Ela riu. "Estamos sim. Estamos treinando o cérebro. E isso é tão importante quanto os golpes de espada."

Eu revirei os olhos. Maldita ela e sua sabedoria.

"Me diga de novo por que eu achei que ter aulas com uma filha de Atena seria uma boa ideia." eu pedi. "Toda essa 'sabedoria'" fiz aspas com os dedos "é irritante."

Ela riu de novo. "Você achou que era uma boa ideia porque você é um cara inteligente. Por incrível que pareça."

"Por que todo mundo acha que por ser um filho de Poseidon, eu sou meio idiota?" ralhei.

"Você é um pouquinho idiota às vezes." ela disse. "Um idiota adorável."

Eu não tinha certeza se isso era um elogio mascarando a ofensa, mas não podia pensar muito sobre isso pelo bem do argumento.

"Mesmo assim..." fiz bico de novo.

Ela riu mais uma vez, apertando minha bochecha. "Não se preocupe com isso, Cabeça de Alga. Apenas se concentre no livro agora."

Claro que ela ia dar um jeito de usar meu apelido e me mandar estudar tudo na mesma frase. Maldita ela.

Voltei os olhos para o livro, tentando me concentrar nos nomes de deuses, deusas e monstros que o livro, todo em grego, mostrava. Annabeth continuou explicando uma e outra coisa, me dizendo tudo que ela sabia. Uma das partes boas de estudar com ela era o olhar nos olhos dela quando ela explicava as coisas pra mim. Seus olhos brilhavam, e ela se empolgava de um jeito fofo enquanto dizia um e outro fato acontecido há tantos mil anos.

Sem contar que, bem... Estávamos meio próximos e eu adorava sentir o cheiro único que ela sempre parecia exalar. Por que garotas como ela tinham que cheirar tão bem? Era quase tortura. Meu TDAH não me deixava me concentrar muito no livro quando o cheiro me atingia, e isso era tudo culpa dela.

Se eu morresse porque não conseguia me lembrar o nome de algum monstro horrível, a culpa seria toda de Annabeth Chase.

~.~

O resto do dia se passou normalmente, com Nico, Thalia e Annabeth lançando nem tão casualmente alguns olhares de esguelha pra mim sempre que me viam. Não era muito legal, mas eu sabia o que eles estavam pensando: Será que é ele o semideus da profecia?

É, eu também me perguntava isso. E quanto mais eu me perguntava, mais eu tinha certeza que era. Meu pai tinha me dito que quando me revelasse ao mundo, era porque algo grande (e ruim) estava para acontecer. As Parcas tinham avisado-o disso há séculos, muito antes que meu pai tivesse se envolvido com a minha mãe.

E agora, eu estava aqui. No Acampamento Meio-Sangue, tendo sido reclamado como filho de Poseidon no primeiro dia. Já fazia quase um mês que eu chegara, e por enquanto estava tudo normal.

Até ontem, quando um cão infernal, aparentemente invocado por alguém do acampamento, tinha aparecido e tentado me matar.

Eu não conseguia parar de pensar em quem teria feito isso. E por quê. Por que alguém iria querer chamar um cão infernal para me matar? Eu não me lembrava de ter sido grosso ou rude com ninguém, e eu sempre procurei tratar todo mundo bem. Ser o filho raro de Poseidon já era difícil o bastante sem ninguém tentando me matar.

Depois do jantar, durante a cantoria na fogueira, eu senti um par de olhos em mim. Procurei pelo anfiteatro, discretamente, a fonte do olhar que estava me deixando incomodado, e devo admitir: não fiquei surpreso ao ver Luke me olhando, do outro lado do anfiteatro.

Seus olhos pareciam ferozes, duros, mas sua expressão era ilegível. Quando viu que eu o olhava, ele desviou o olhar para a fogueira, e a sensação de incômodo passou.

Voltei meu olhar para frente também, cada vez mais certo de que Luke tinha tido algo a ver com o ataque do cão infernal. Só podia ser ele... certo? Mas o que eu tinha feito a Luke que o deixara assim comigo?

Algo me dizia que não era comigo, mas eu não podia definir o que era exatamente. E como eu não podia provar nada, também não queria dizer minhas desconfianças a Quíron ou mesmo Annabeth, Nico ou Thalia. Ainda era muito cedo, e Thalia e Annabeth conheciam Luke desde que chegaram no Acampamento. Eu não podia soltar nenhuma bomba dessas para elas sem provas.

A fogueira terminou, e fomos dispensados para a noite. Eu sabia que deveria ir para o meu chalé, mas fiquei sentado no mesmo lugar, esperando que o anfiteatro esvaziasse. Eu precisava de um pouco de ar fresco, precisava colocar minhas ideias no lugar.

Thalia parou perto de mim no seu caminho para os chalés.

"Não vai pro seu chalé, Percy?" ela perguntou, o cenho franzido.

Eu balancei a cabeça. "Não agora."

Ela suspirou.

"Ainda com a história da profecia na cabeça, hein?" ela perguntou, sentando ao meu lado.

Vi Annabeth franzindo ao olhar para nós enquanto saía do anfiteatro com seus irmãos de chalé. Quando me viu olhando, ela desviou o olhar. Eu franzi, sem entender sua reação.

"É..." respondi Thalia.

Ela me deu um tapinha amigável nos ombros. "Não se preocupe. Tudo vai se encaixar na hora certa."

Eu assenti. Olhei para ela por um segundo, pensando, egoísta, em como as coisas poderiam ser diferentes.

Thalia tinha nascido dois anos antes de mim. Mas Annabeth me contara que quando ela, Thalia e Luke chegaram no Acampamento, estavam sendo perseguidos por ciclopes. Thalia se ofereceu para atrasá-los e acabou morrendo. Zeus teve pena de sua filha e a transformou num pinheiro, que ainda existia no alto da Colina Meio-Sangue, bem na fronteira.

Uns bons seis anos se passaram até que o Velocino de Ouro foi resgatado e trazido ao acampamento, e sua magia tinha trazido Thalia de volta, como Annabeth me dissera. Mas Thalia não tinha envelhecido enquanto era um pinheiro. Ela tinha doze anos quando fora transformada, e, um ano depois do Velocino tê-la trazido de volta, cá estava ela, com apenas treze anos.

Se Thalia nunca tivesse sido transformada em pinheiro, ela já teria dezenove anos agora. E a Grande Profecia poderia já ter acontecido e ter sido sobre ela. Mas agora, comigo chegando ao acampamento, era muito mais provável que fosse sobre mim, que estava com dezessete.

Era egoísta, eu sabia, mas eu não podia deixar de pensar: e se eu fosse o semideus da profecia e acabasse estragando tudo? O primeiro monstro que eu enfrentara num combate real tinha sido o cão infernal na noite anterior; e eu certamente não estava pronto para salvar o mundo.

Thalia se levantou, tendo ficado em silêncio pelos últimos minutos enquanto eu divagava.

"Eu vou pra o meu chalé. Não fique muito tempo fora, o toque de recolher é feroz." ela riu. "As harpias podem te pegar."

Eu ri e assenti. "Tudo bem, obrigado. Já já eu vou."

Ela assentiu e saiu do anfiteatro, me deixando completamente sozinho. Não demorei ali. Saí do anfiteatro e me dirigi à praia dos fogos, bastante deserta, principalmente a essa hora da noite.

Havia um pequeno cais num ponto da praia, e foi pra lá que eu fui. Andei pela pequena estrutura de madeira e me sentei na ponta. Tirei a sandália e coloquei os pés para fora, mergulhando-os na água do oceano.

Fechei os olhos e imediatamente me senti melhor. O oceano sempre me fizera sentir melhor. Minha mente pareceu se limpar de pensamentos indesejados, e tudo que eu podia pensar no momento era em aproveitar a brisa do mar e deixar que as preocupações fossem para o fundo do meu cérebro.

"É bom, não é?"

Eu pulei ao som da voz do meu pai. Abri os olhos e o vi ao meu lado, sentado com os pés também para fora. Ele usava bermudas e uma camisa havaiana. Seus olhos estavam fixos no oceano.

"O quê?" perguntei.

"A sensação de calma." ele me olhou com um pequeno sorriso. "Eu sei muito bem por quê você veio para cá ao invés de voltar para o chalé."

Eu me senti corando, então desviei o olhar dele para o oceano escuro à nossa frente.

"Eu precisava respirar." eu sussurrei.

"Eu sei." ele suspirou. "Eu sinto muito."

"Não é sua culpa."

"É, sim." ele disse. "Você não teria tantos problemas se não fosse meu filho."

Parei por um segundo antes de responder.

"De todas as coisas, jamais pensei que o deus do mar fosse de se lastimar." eu brinquei.

Ele sorriu, e isso era prova de que tinha funcionado.

"Tem razão, não sou. Só quero protegê-lo, Percy. E isso ficou mais difícil." ele disse. "Um cão infernal te atacou ontem. Se não fosse proibido pelas leis antigas, eu teria ido até o Mundo Inferior chutar o traseiro de Hades por isso."

Eu ri um pouco, mas então lembrei das minhas suspeitas. Eu poderia contar ao meu pai, certo?

"Pai..."

"Sim?"

"Eu não acho que Hades tenha algo a ver com isso." comecei. "Alguém de dentro chamou o cão."

"Ele tem um filho aqui, Percy." meu pai disse, calmamente.

"O que, você acha que Nico o chamou? Isso simplesmente não faz sentido!" eu reclamei. "Nico é meu amigo."

Meu pai franziu, mas não respondeu. Ele sabia que eu tinha razão.

"Mas tem um cara. Eu acho que foi ele. Desde que eu cheguei que percebi que ele tem algo estranho, eu só não sei o que é." eu disse.

Ele virou para me olhar.

"Quem?"

"Luke Castellan." eu disse baixinho, meio com medo de ser ouvido. "Filho de Hermes."

Meu pai franziu e voltou a olhar para o oceano.

"Me lembro dele. História triste, sim..." ele disse, quase como para si mesmo. "Eu não sei. Você tem alguma prova?"

Me encolhi.

"Bem, não... Mas eu sinto que tem algo estranho com ele. E hoje, na fogueira, ele me olhou de um jeito muito... inquietante."

Meu pai assentiu.

"Continue de olho nele. E tome cuidado." ele disse.

Eu assenti. Não falamos mais nada por alguns minutos, então ele suspirou.

"Você sabe que é você, não é? O semideus da Grande Profecia?"

Eu assenti, engolindo seco. "Já imaginava."

"Eu sei que você fará a coisa certa, Percy." ele disse. "Você nasceu pra isso."

"É muita responsabilidade." eu disse.

"Eu sei. Mas você não vai estar sozinho. Nunca."

Eu olhei para ele e seus olhos verde-mar, como os meus, me encaravam com genuína preocupação, mas também com sinceridade e, eu ouso dizer, amor.

"Nunca." ele repetiu.

Eu assenti e sorri. Ele sorriu de volta. Então se levantou.

"Preciso ir. E você precisa ir para a cama."

Eu ri e me levantei também. Ele me deu dois tapinhas nas costas e me desejou boa noite, e eu voltei para o meu chalé.

Assim que fechei os olhos, desejei que não tivesse conseguido dormir.

Meus sonhos me levaram ao escuro interminável que eu tinha experimentado apenas na noite anterior. Mas dessa vez, havia uma voz.

"Você irá me ajudar, garoto." a voz era sombria, e parecia vir de todos os lugares. "Irá ajudar a me reerguer."

De algum jeito, eu sabia que a voz falava comigo.

"Seja lá quem você for," eu disse, minha voz inexplicavelmente trêmula. "eu não vou ajudar você."

Uma risada foi a resposta que eu recebi. Uma risada fria e maligna, que arrepiou todos os pelos do meu corpo. Então o preto foi substituído por um tom escuro de vermelho, e eu percebi que estava à beira de um abismo. Dei dois passos para trás.

"Você irá me ajudar," a voz falou, agora vinda de dentro do abismo. "querendo ou não. Seu pai ajudou a me colocar aqui, e agora você irá me tirar."

Eu engoli em seco.

"Desista, eu não vou fazer nada por você." eu tentei soar firme, mas ficava cada vez mais difícil. O abismo exercia uma força gravitacional em mim, era como se me puxasse, tentando me convencer a fazer o que ele queria...

"É o que veremos, filhote de deus." disse a voz, agora zangada, o que me deixou completamente apavorado. "É o que veremos."


Uia, e agora?

Desculpem a demora, o tempo voou e eu nem percebi rs

Logo volto com mais. Não esqueçam de comentar!