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'Hey, te encontro lá em baixo daqui dez minutos.' Disse Jane para Frost, enquanto ajeitava a arma na cintura.

'Okay. Franky vem comigo.' Ele avisou.

'O que? Achei que ele fosse comigo... mas okay. Eu fico com Korsak.'

'Korsak não vai.' Ele deu de ombros.

'Como não?'

'Jane, ele não tem mais quarenta anos, se é que você me entende.'

'Cristo, é só uma vigília!' Resmungou a outra.

'Eu pedi para Stevens ir com você.' Ele adicionou num tom mais baixo, quase esperando por um soco de Jane em seguida.

'V-ocê o quê?' Ela se engasgou nas palavras, pega de surpresa.

'Você precisa de companhia. Precisamos de dois carros, você sabe disso. Faltava uma pessoa, como vi vocês conversando outro dia, achei que não se importaria em ter ela como sua companhia.'

Jane virou a cabeça para o lado pensativa. Frost supôs que ela estava pensando em um jeito lento e doloroso de matá-lo.

'Ou você pode levar Maura, quero dizer...' Ele acrescentou rapidamente.

'Não.' Jane o cortou com rapidez. 'Ela não é uma policial, Frost. Não quero que ela corra algum risco.'

'Então... Helena?'

'É. Helena.'


Maura estava em sua casa, sentada numa cadeira que lhe parecia dura demais. Não tinha ninguém por perto e nem mesmo Bass estava ao alcance de sua vista. A casa estava silenciosa como um templo. Se antes o silêncio da casa a relaxava, a ajudava a se concentrar para poder ler um artigo sobre patologia forense enquanto bebericava uma taça de vinho, depois dos Rizzolis o silêncio passara a ser um incômodo. Nesses dias em que Jane, Angela ou mesmo Frank e Tommy não passavam por lá, ela se sentia sozinha no mundo outra vez. Mesmo estando cansada, do jeito que estava agora, de quebra era ótimo chegar em casa e encontrar vozes empolgadas e abraços calorosos. Ela não sabia onde ninguém tinha se metido essa noite, exceto por Jane, que havia mandado uma mensagem no celular avisando sobre a vigília - e não é como se ela própria não tivesse avisado pessoalmente, mais cedo no mesmo dia.

Maura passou os olhos mais uma vez pelo título do artigo, levou a taça de vinho à boca e sentiu o estômago reclamar de fome antes de dar o segundo gole. Talvez devesse mesmo comer algo. Nem se lembrava quando tinha comido pela última vez naquele dia. Deitou o papel sobre a mesa, se levantou e foi até a cozinha. Abriu a geladeira pensando em preparar uma salada, nada muito pesado para a noite. Dentro dela, Maura encontrou um sanduíche de pão sírio guardado em um tupperware. Angela. Ela sabia antes mesmo de alcançar a nota rabiscada em cima da tampa.

'Maura, querida, fiz esse para você, só no caso de não ter jantado ainda. Suco de laranja também. Amor, Angela.'

Tão maternal, ela pensou e sorriu. Ela agarrou o sanduíche agradecida, mas dispensou o suco. Preferia mesmo o vinho. Assim que fechou a geladeira se deu conta de algo.

Em um canto da sala havia uma foto de Jane, Angela e ela ao meio, abraçada pelas duas. Em seu quarto ela sabia que em outro porta-retrato a foto de si própria e Jane lhe lançava um sorriso imenso. Jane tinha um duplicata no seu apartamento. No quarto de hóspedes, ela continuou divagando, há tantas roupas de Jane que a morena poderia passar uma semana ali, sem a necessidade de voltar para casa para buscar mais. E Jane nem tinha tantas roupas assim.

Maura olhou para a casa de hóspedes e viu que a luz de fora estava acesa. Ela teve certeza de que Angela estava lá, e por algum milagre a mulher não havia aparecido naquela noite para conversar com a ela. Talvez esteja cansada demais, deduziu. Até mesmo uma mulher energética como Angela precisa dormir mais cedo as vezes. Essa mulher criou três crianças barulhentas e tão energéticas como ela. Algum descanso lhe cairia bem agora. O que a fez se lembrar de Frank.

Frank fazia o papel de irmão protetor enquanto Jane não estava por perto, por ordens dela, com certeza. Como da vez em que a detetive precisou depor em um caso que fora julgado em outra cidade. O preso havia sido transferido de Boston para lá, e ela passou quatro dias fora, que foi o tempo que durou o julgamento. Frank nunca aparecera tanto na casa de Maura quanto nesse período. Ou no necrotério. Ou na cantina perguntando se podia se juntar a mesa para almoçar com ela. No terceiro dia, sufocada pelo homem, Maura decidiu mandar uma mensagem para Jane.

'É melhor você parar de mandar Frank me rodear. Ele deve ter coisas melhores para fazer.'

'Eu não sei do que você está falando. Também estou com saudades, a propósito.'

A morena retrucou. Ela nunca admitiria que mandara Frank fazer isso, mas Maura sabia que ela o tinha feito. Ela se pegou sorrindo com a lembrança. Eles são minha família, é aqui que pertencem agora, ela concluiu e passou os olhos pelo porta-retrato mostrando as três figuras alegremente envolvidas num abraço e em seguida para a casa de hóspedes onde Angela ficava. Sua vida havia mudado radicalmente por conta dos Rizzolis, e Maura, que gostava de controle e previsão, viu-se invadida e carregada por uma onda de amor nessa família que a colocara muitas vezes em situações que não podia controlar, situações que obrigou ela a se desarmar e finalmente entender que família se trata disso. Descontrole, vozes erguidas, situações engraçadas e desastrosas, abraços e sorrisos calorosos. Bilhetes na geladeira.

E eu sou a família deles também, ela concluiu com um sorriso aberto, apertando inconscientemente o sanduíche. Satisfeita e alegre com a conclusão que chegara, voltou-se até a geladeira, agarrou o bilhete que estava dentro e o colou na porta. Ficara bem ali.

Finalmente, retornou à mesa e delicadamente comeu o lanche preparado por Angela, que tinha caído muito bem com o vinho que estava bebericando, a propósito. Por mais de uma hora a loira leu e escreveu observações nos textos, os olhos já estavam pesando, por conta do vinho e do cansaço do dia, mas ela estava disposta a terminar as poucas páginas que faltavam. Ouviu Bass mostrar sinal de vida, talvez protestando a luz acesa até tarde. Ela se levantou novamente, agarrou um morango e ofereceu para o cágado que o comeu sem ensaios. Uma vez feito, Maura estava prestes a se sentar novamente na cadeira quando ouviu a campainha tocar. Ela conferiu o relógio. Faltavam 15 minutos para meia-noite. Quem haveria de ser?

Relutante, caminhou lentamente até a direção da porta e quando reconheceu a figura esperando a ser atendida, o coração foi a mil. Ela girou a maçaneta e abriu a porta de uma vez.

'Ian.'


'Sinto muito por Frost ter te metido nessa.' Jane disse para Helena e tomou o ultimo gole do café que já não estava tão quente. O carro estava estacionado próximo à casa que ela visitara mais cedo o suficiente para ver alguma movimentação, caso tivesse alguma, mas também longe o suficiente para não ser visto de volta.

Helena riu docemente e respondeu. 'Tudo bem, eu não teria nada melhor para fazer hoje a noite.'

'Bom, eu, pelo menos, poderia pensar em muitas coisas.' Jane riu e jogou o copo de café vazio no banco de trás.

'Nesse frio? Eu não consigo pensar em mais nada, senão coberta, cama e um bom filme.'

'Isso é bem atrativo. Eu acrescentaria uma boa companhia.'

'Você pode apostar.' A mulher sorriu e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.

Silêncio se instalou entre as duas. Havia um tipo de tensão no ar que incomodava Jane. Sem conseguir lidar com isso, ela achou melhor voltar a falar.

'Então... Como estão as coisas?' Que estúpido, ela pensou. Ela já não tinha perguntado algo do tipo mais cedo? Para seu alívio, a resposta veio facilmente.

'Lembra daquele caso que lhe falei outro dia? Fechei ele hoje.' Ela disse com certo orgulho.

'Oh, é por isso que esse sorriso não consegue sumir do seu rosto?' Jane notou.

'Em partes.'

'Isso é ótimo. Parabéns.' Jane disse sinceramente e viu os olhos de Helena brilharem.

'Obrigada. Foi um caso muito... complicado.' Helena disse com certa timidez. Talvez o caso a tenha afetado pessoalmente, Rizzoli pensou, mas achou melhor não se meter em coisas que não lhe diziam respeito. Em vez disso escolheu responder de outra forma.

'Quando a gente resolve esses casos, são os que nos dão mais satisfação, certo?' Ela disse olhando para as próprias cicatrizes nas mãos e depois para Helena.

'Certo. Agora posso dormir em paz.'

'Conheço a sensação.'

'Eu sei que conhece.' Helena disse em voz baixa, pegando uma mão de Rizzoli.

A morena sentiu-se um tanto invadida, mas não esquivou-se do toque. De repente, os dedos de Helena traçavam a cicatriz no dorso de sua mão.

'Hoyt, certo?'

'Por favor, não diga o nome dele no meio dessa escuridão.' Jane riu, nervosa.

'Desculpa. Dói?' Ela ainda acariciava a mão da morena.

'As vezes. Quando o tempo muda para chuva ou quando faz muito frio...'

Helena acariciou uma última vez a mão de Jane e a soltou. 'Eu tenho minhas cicatrizes também.' Ela virou-se de costas para Jane e ergueu a blusa, expondo sua pele branca, um corpo bem definido. No meio das costas Jane distinguiu uma fina linha branca na horizontal quando Helena usou a luz do celular para iluminar o local.

'Vê?'

'Sim...' Ela fez menção de tocar o lugar, mas retirou as mãos em seguida.

'Você ouviu falar naquele serial killer que esfaqueava os dois rins das mulheres e enquanto elas morriam ele as estupravam?'

'Sim, oh meu Deus! Você trabalhou nesse caso?'

'Foi como consegui essa cicatriz.'

'Ele...?'

'Não. Não foi isso. Nós conseguimos encurralá-lo na própria casa, mas ele me pegou. Tentou me usar como meio de escape, tentou subir para o telhado, mas em um dos degraus ele pisou em falso, pelo menos é o que eu acho que aconteceu, e talvez tenha pensado que eu tenha reagido e não hesitou em enfiar a faca em mim. Foi por três centímetros que meu rim não foi atingido.'

'Quanta sorte.'

'Bom, infelizmente não. E é meio irônico, na verdade. Ele havia escapado de duas juridições diferentes, a nossa era a terceira. Ele matava sempre no dia três, treze e vinte e três. Ficava um mês em cada cidade e adivinha? Ela só havia matado duas pessoas na minha. A pior parte: ele era obsessivo compulsivo, não conseguia deixar nada inacabado. Eu era quem ele havia deixado inacabado, e depois da facada ele conseguiu fugir.'

'E ele voltou para terminar o trabalho?' Jane supôs, corretamente.

'Sim. E foi aí que eu terminei com ele.'

'Boa garota.' Jane disse com um sorriso cortando os lábios.

'Foi um longo caso. Bem, mais cansativo do que realmente longo, de qualquer forma.'

'E é por causa de casos assim que os detetives são viciados em cafeína.' Jane disse para descontrair. Helena riu e concordou com a cabeça.

'Exatamente.'

'Eu atirei em Hoyt também, você sabe. Ele está morto, mas eu nunca vou esquecer o nome dele ou o rosto. É meu fantasma particular. Vem me assombrar algumas vezes em sonhos.'

'O mesmo para mim.'

'Ele quase matou Maura.' As palavras saíram por conta própria, sem Jane se dar conta e sem saber, principalmente, porque havia dito isso agora.

'Bruce, esse era o nome dele, matou uma colega de escola.'

'Oh, Deus. Sinto muito...'

'Obrigada...' Ela agradeceu, visivelmente abalada com a memória.

'E Bruce? Jura? Que tipo de nome é esse?'

'Um nome de serial killer?' Helena sorriu, para o alívio de Jane. A última coisa que ela precisava ou queria era Helena deprimida ao seu lado.

'Quer saber? Talvez você atraia pessoas com nomes estranhos.'

'Oh, é mesmo?'

'Meu nome do meio, e se você contar para alguém eu mesma me encarrego te tirar seus rins, é Clementine.' Ela disse para provar seu ponto, esperando que a piada não caísse pesado. Para seu alívio a mulher riu, achando graça.

'Você acaba de se provar certa.'

'Okay... Você poderia pelo menos ter dito 'não é assim tão ruim'. Eu ficaria menos constrangida.'

'Bem, é incomum, mas não ruim.'

'Não ajuda muito agora.'

'Oh, sinto muito.'

'Tudo bem. É culpa da minha mãe mesmo.' Ela deu de ombros.

Helena mantinha o sorriso nos lábios. Jane se sentiu tão a vontade de repente. Ela tinha compartilhado algo de sua vida que não compartilhava com quase ninguém e não se sentia nenhum pouco desconfortável por isso. Ela podia ser ela mesma na companhia de Helena e isso lhe caiu bem. Observando o perfil da outra morena, Jane notou o quão bonita ela era. Um nariz perfeito, arrebitado. Lábios volumosos e bem desenhados, olhos amendoados, com um tom de marrom se misturando com um caramelo claro. Os olhos ela não podia ver, mas já tinha memorizado. Helena pegou Jane a estudando e uma sorriu para a outra.

'Você e Maura estão juntas?' Ela perguntou sem rodeios.

'Eu e..? Não... Não. Não juntas.' Jane se viu perdendo as palavras. Ela não esperava por essa pergunta.

Helena esperou um instante e como Jane não acrescentou mais nada, ela presumiu que o que havia deduzido antes estava correto. 'Oh.' Disse ela, e então se silenciou, o que deu tempo para Jane raciocinar. Talvez Helena estivesse afim dela mesmo. Ela já havia pensado nisso, se sentira um pouco estranha, mas no fundo estava procurando por algo, por uma resposta, porque ela própria estava atraída por uma mulher. Não estava? Ou ela estava apenas confundindo as coisas? Talvez Helena pudesse ajudá-la a clarear esses pensamentos sombrios. Ela sentiu a pulsação acelerar apenas com o pensamento. E se ela estivesse errada?

Num pulo ela saiu do transe. O celular estava vibrando e, atrapalhada, ela tentou alcançá-lo no painel do carro. O aparelho voou para baixo do banco de Helena, e Jane, amaldiçoando, dobrou o corpo em cima das pernas da outra mulher para poder apanhá-lo. Quando finalmente conseguiu fazê-lo, o aparelho parou de vibrar. Constrangida, Jane endireitou o corpo. Uma mão estava na coxa esquerda da morena, o corpo inclinado perigosamente perto de Helena. Ela olhou para sua mão e tentou movê-la, mas alguma coisa a impedia. Talvez os olhos hipnotizantes de Helena sobre os dela. A morena sorriu sugestivamente para Jane, colocou a mão sobre a dela, a outra mão no rosto da detetive, inclinou a cabeça e beijou-lhe os lábios lentamente. Pelo menos era assim de que Rizzoli se lembrava de que tinha acontecido. E naquele momento onde a pessoa espera uma resposta, onde todas as tensões estão flutuando em toda parte a espera de um gesto, Jane decidiu que aqueles lábios mereciam ser beijados. E assim ela o fez. Ela estava beijando Helena e Helena estava beijando ela. Ela não sabia se era errado, mas era definitivamente bom.