Título – Fairy Tale
Resumo: Em um mundo tomado de magia e mistérios, com guerreiros endurecidos pela pobreza da terra, em um lugar esquecido, uma lenda permaneceu. Quem vai salvar a princesa? Heero & Relena
Disclaimer: Gundam Wing não me pertence (sim, sim, é a dura realidade T.T). Quem tem todos os seus direitos é a Sunrise e blá, blá, blá...
Ah sim, não ganho nadinha com isso, só o mero prazer de escrever!
Música do Capítulo – Protect me from what I want (Placebo)
ATENÇÃO: As personagens Cléo & Kelly são uma criação minha, se vocês quiserem usar, me peçam e me dêem os devidos créditos!
Capítulo009 – A Ordem
"…Protect me from what I want (x3)
Protect me, protect me
Maybe we're victims of fate
Remember when we'd celebrate
We'd drink and get high until late
And now we're all alone…"
A Ordem era secreta, uma entidade mantida as sombras, mascarada, existente desde os gloriosos tempos antigos. Atravessara surdinamente às passagens de século, por detrás das névoas escuras, mantendo-se a neblina, escondida, sobrevivendo às traquinagens do tempo. Prezavam muito a obediência, a organização e a funcionalidade prática das coisas, sabendo quando agir e quando se esconder, sabendo ficar às sombras e deixar as coisas acontecerem como deviam. Se pudessem, se lhes fosse possível, também sabiam quando deveriam interferir, favorecendo-se. Isso os fizera resistir e crescer, nos vácuos de poder deixados depois da queda do Grande Reino. Eram rígidos e intolerantes com os erros de seus participantes.
Cresceram tanto a ponto de se tornarem a única grande ordem ainda viva nos dias atuais. Ninguém conseguiria detê-los, nem mesmo as Grandes Cidades Independentes que restavam no mapa, unidas. Eram muito dispersas e desorganizadas para isso e não tinham nenhuma chance, no máximo impondo uma curta resistência. Se quisessem, ao estalar de seus dedos, tudo estava sob seu controle. Tinham homens infiltrados por todas as partes, em todas as posições, plebeias ou reais. Os ouvidos se espalhavam pelas terras mais inóspitas, discretos, eficientes, capacitados.
Depois de tanto tempo inteligentemente à margem, nas sombras sem formas, estavam prontos para tomar o que sempre tinha sido deles por direito. A ambição era fria e astuta, quase ferina na sua paciência, esperando com suas garras e saliva sedenta, prontas para dominar, sobrepujar seus inimigos, esmaga-los em sua oposição.
Fechados como eram, escondidos e sensatos, eram permeados pelas mais diversas regras, só recentemente se tornando mais aparentes, espalhando-se como um jogador agressivo em um jogo de xadrez, pronto para dominar, derrubar, arrebatar seu inimigo.
A pesada de seus soldados era dura e iria sangrar.
A ordem era organizada em uma pirâmide de poder, onde a base consistia nos de menos importância e o topo os mais poderosos. Não se aceitava nenhum tipo de falha, eram perfeccionistas natos, rígidos ao extremo, eliminando qualquer um que burlasse as regras, sem exceções. A base da pirâmide, os de menor influência, chamavam-se soldados, e muito embora não fossem uma ordem militar, todos eram assim chamados.
Na verdade, além disso, havia um acréscimo, pois como nas cartas do Tarot, eram divididos entre as Cartas Baixas, os soldados, e acima deles, os Arcanos Maiores. Além de serem como nas cartas de Tarot, as Cartas Baixas também recebiam divisões pelos quatro elementos da natureza, fogo, água, ar e terra.
Os Soldados podiam ter posições crescentes, do 2 ao Às. Depois disso, as poucas cartas intermediárias, seus comandantes, o Príncipe ou Valete que dividia funções e as obrigações de seus soldados, a organização, treinamento e chefe do exército, acima deles ainda, a posição de Rainha, represente da magia nas cartas baixas, que julgava e decidia culpas, fazendo valer as leis e acima dela, o general, o Rei, fechando o bloco da ordem. Todos deviam satisfações para seus superiores.
Eram quatro reis e quatro rainhas, os de Paus, ligados ao elemento Fogo, com poderes ligados a manipulação do próprio elemento, os de Espadas, ligados ao elemento do Ar, com poderes de localização e rastreamento, os de Copas, ligados a Água, controlando-a, e por fim, Ouros, ligados à Terra, com poderes voltados para a cura
Ao contrário de seus valetes, reis e rainhas, as cartas numeradas existiam aos montes, suas ordem de importância só servindo para mostrar o quanto você sabia ou aprendera, seguindo a ordem, 2 sendo o começo, 9 o maior que se podia alcançar. Os números tinham a ver com o conhecimento de magia do portador, e sua habilidade no manuseio da mesma, assim como sua habilidade nas lutas de espada e corporal, por fim tendo também conhecimentos teóricos e filosóficos. Eram uma ordem completa.
Sendo um 9 bem reconhecido, um dia era possível, embora difícil, passar à concorrida posição de Valete. De lá era possível especializar-se para a posição de Rei e Rainha e esperar uma vaga para um deles. Arcanos ocasionais apareciam para conferir os trabalhos das cartas mais baixas, os Arcanos Menores e levar novas missões. Eram eles que faziam as guerras, mas eram os Arcanos Maiores que as comandavam e decidiam sua existência, escondidos nas sombras.
A posição de Arcanos Maiores não era oferecida a criaturas comuns. Suas 21 posições, sem ordem de importância, só com diferentes funções, costumava queimar no almejo ganancioso dos de ordens mais baixas.
Tão altas eram, que nunca estavam, nem haviam estado todas as 21 posições ocupadas e elas só eram alcançadas através de uma atitude excepcional e muitos anos de treino ou através de uma habilidade única e impressionante.
Os Arcanos Maiores eram organizados e só deviam explicações ao Mestre de todos, ao Curinga, a quem deviam uma fidelidade cega. Ele era o mais antigo e imortal. Era a cabeça por detrás da Ordem Negra.
E não importava o quão intransigentes fossem com seus participantes, A Ordem era ainda mais rigorosa, austera e inflexível com seus Arcanos Maiores. Eles deveriam ser irremissíveis. Suas responsabilidades eram altas, as tarefas árduas, mas as recompensas eram igualmente proporcionais, vindo com um banho de ouro, conforto e poder, água dourada que jorrava, despertando o brilho da ganância humana nos corações mais negros.
A um reles soldado nunca seria revelado o verdadeiro nome e identidade de um Arcano, esse tendo de chama-lo assim, 'Arcano' ou seu número no baralho, sem nem saber suas habilidades secretas.
No fim, cada um tinha suas obrigações dentro da Ordem Negra e velavam por isso... Isso a mantivera inteira, isso a fizera sobreviver a adversidade, isso a fizera crescer, essa era a maneira de se sobreviver.
A Ordem deveria ser velada acima de tudo. Ela era a prioridade.
-/-
Une fora uma menina trágica. De grande ambição e vida extremamente sofrida, sempre sonhara com mais, nunca satisfeita com o que tinha em mãos. Era gananciosa e apreciava isso em si, agarrava-se a suas qualidades, tentando inutilmente lutar contra a maré de seu status social. Os pais eram camponeses e até para aprender a escrever e ler, algo totalmente fora de seu alcance, batalhara contra sua realidade. O homem que lhe ensinara trocava favores por lições, mas isso não a impedira, estava acostumada a deixar outras coisas de lado para conseguir sua vontade feita. O que era isso comparado a sua dignidade? A pobreza não tem dignidade, não tem o direito de tê-la, a miséria é só arrastar-se se contentando com os restos. Essa não era a vida que queria para si.
Sempre se sentira assim pois, de alguma forma, parecia estar sempre à procura de alguma coisa que faltava em si, algo essencial que ela parecia não ter, em sua vida havia uma grande lacuna, uma leveza dentro do peito, um grande vazio esperando para ser preenchido e ela esforçava-se. Era como se olhasse para o lado e se visse imperfeita no espelho, como se a imagem refletida não fosse totalmente nítida e sim, um pouco borrada. Era uma pessoa incompleta esperando para ser formada, esperando cumprir o seu destino, perdida nas tolas adversidades mundanas, rebaixada a condição de moribunda, o coração destinado a grandeza batendo forte no peito. Deveria haver algo mais, não é possível que aquilo fosse tudo.
Procurava algo que não tinha nome e vivia uma vida incompleta a procura-lo. Procurava alguma espécie de milagre.
Ainda menina, perdera seus pais em um ataque da peste negra. Depois disso, perdida e sem perspectiva ou esperança no mundo, viu-se sozinha pela primeira vez. Era uma menina sem teto, que não podia se sustentar, no meio do mato, com o mundo como inimigo. Mal completara dez anos e seu mundo, em guinadas seguidas e confusas já se via diante de um caminho definitivo. Estava condenada. Sem lugar para morar, fora expulsa de sua vila, virando nômade, morando onde podia, quando podia.
O mundo era um lugar frio, chiado e cinzento, com campos de trigo que faziam barulho e floresta com ameaças para cumprir. O universo a queria como sua cota de sangue, mas ela não se daria por vencida.
Vagando como podia no papel de uma mendiga, de vila em vila, passando por rios e caminhos escuros e densos, vegetações inóspitas e aldeias desconhecidas, pântanos esquecidos e recheados de animais truculentos, lutava contra as possibilidades de permanecer viva.
Moscas zuniam em torno de sua cabeça, como se fosse um cadáver quando quase parava de respirar, jogada na mata alta, por sede ou por fome. Seu rosto era sempre sujo de terra, assim como suas pernas e mãos. Sua roupa era sempre rasgada nos mais diversos pontos, assim como os dedos antes de uma criança, agora era frios e rígidos. Os olhos mostravam uma alma velha em um corpo jovem, uma esperteza sobrenatural e vivaz, sempre alerta.
O frio a castigava, mas ela o vencia. A fome a barrava, mas ela a vencia, os animais a cercavam, mas ela fugia. Driblava a morte como quem tem o símbolo da sorte impresso no peito. Era uma aberração da natureza.
Chegara a uma aldeia cinzenta e barrenta há alguns dias, ficando em uma barraca esquecida, escondida de seu povo como vinha fazendo, quase um bicho selvagem, quando, desprovidos de piedade ou comiseração, alguns aldeões resolveram fazê-la de brinquedo. Eram seis e invadiram seu barraco no meio da madrugada, aos risos, trovoadas fortes do lado de fora. A menina pulou do lugar onde estava deitada, indo para trás, rapidamente, mas vendo-se encurralada contra a parede.
Ela podia ver a fumaça da respiração saindo de suas bocas. Sua pele arrepiara-se como a de um cachorro selvagem, o desespero fizera seus dedos gelados.
Eles riam alto enquanto a olhavam, tirando os cabelos molhados da testa, apreciando, divertidos, às suas reações. Ali algo mudara, definitivamente. Algo quebrara. Ali percebera, percebera que se não lutasse, não lutasse com tudo o que tinha dentro de si, com todo o seu pânico, lágrimas e vontade de viver, morreria. De onde estava parada agora, em pé e arfando, com uma pequena adaga na mão, até a pilha de corpos que agora parecia se amontoar por todos os cantos, seriam apenas algumas horas.
Horas para seu corpo se juntar a pilha, fétido, como se nunca tivesse existido. Um arrepio perpassou seu pescoço, arrepiando seu couro cabeludo.
Ouvia uma voz aguda que gritava no fundo de sua cabeça, pedaços de corpos povoavam os cantos inóspitos de sua inteligência.
Outra trovoada seguiu a primeira e ela se abaixou, em uma pose colérica, parecendo um gato selvagem, guinchando alto. O céu de negrume denso e pesado era cortado por faixas transversais brancas e estrondosas.
Um trovão, um raio. Outro trovão, outro raio e então a solidão da quietude. O silêncio condensado era quase impessoal e invasivo, gritando em cada canto da floresta com sua melancolia tangente.
E então, em um barulho distante e metálico, começou a chover.
Nem ela saberia dizer como depois, mas matara os seis. A sensação era amarga e suas mãos estavam dormentes, o tanto de terra e sangue que a cobriam faziam parecer ter saído escavando do próprio túmulo.
Durante um longo tempo, tudo o que ela fez foi olhar para as mãos, em choque. O suor e a força com que segurara a adaga fizera com que a mesma grudasse em sua palma, só sendo solta junto a sua pele. A mão era carne viva. O sangue seco e marrom, debaixo das unhas uma mistura de pele e lama. O cabelo estava duro. Lacerações, cortes profundos e marcas roxas a cobriam por inteiro.
Encolhe-se no chão em posição fetal e grita, geme, se contorce e grita mais. Seu útero doía em pontadas regulares. Do lado de fora, ainda chovia, mas ninguém viria ao seu encontro.
Estava sozinha, ninguém se importava. Tinha lutado, mas, entre ela e a pilha de cadáveres viam-se apenas algumas horas.
E é quando a voz que gritava no fundo de sua cabeça vira um chiado. E ela desmaia.
Quando a descobriram pela manhã, viva e respirando, apenas dormindo silenciosamente, dobrada sobre si mesma e a carnificina a seu redor, fora acusada de bruxaria.
Incrivelmente, quando a puxaram pelo braço com violência, quase o deslocando aos berros, choros e gritos preenchendo o local que cheirava a vísceras podres, ela não protesta, ao contrário, os acompanha, solícita. Não fala nada e seus olhos estavam opacos. Trôpega, se deixa amarrar enquanto os homens faziam uma fogueira.
Perdera o viço da vida. Via o mundo de orbes vazias.
Os olhava com desinteresse, quase como se não fizesse parte desse mundo. Respirava com muita calma e estava em um estado entre acordada e dormente, sem sentir coisa alguma. Tudo parecia muito longe de sua compreensão. Sons, cheiros, sensações.
Acreditava ter se tornado um receptáculo, era um corpo vazio esperando para ser preenchido. Era como se sua vida estivesse estática, esperando alguma coisa acontecer para as engrenagens voltarem a mover-se para frente. Tudo acontecia lentamente, em imagens distorcidas e difusas. Ela ouvia sua própria respiração, alto.
E eles simplesmente apareceram.
Mais para frente, sempre tentaria lembrar aquele momento com muito afinco, mas seu torpor, tão próximo a uma semi morte, não lhe permitiriam. Quando algo de grandioso finalmente acontecera em sua vida, estava apagada demais para recordar-se.
Ganhou uma posição como Arcano Maior em treinamento. Fizera um ato excepcional, tornara-se digna, destacara-se. Fora isso que lhe disseram. Dado um novo objetivo em sua vida, treinara como louca, sem dormir, sem comer, dia após dia, apenas para chegar o mais alto que podia. Une vivia para queimar e queimava para viver. Era intensa e efêmera e sabia disso.
Os anos lhe passam gentis, garantindo-lhe beleza e lubricidade. Com seus vinte e dois anos de idade, depois de muito aprender e praticar, ganhara seu título de Arcano Maior, seu mais do que bem merecido lugar entre as vinte e uma posições. Sua carta era A Imperatriz.
A Dama, no baralho de Tarot, representava o poder, a beleza e a riqueza.
Sendo um arcano de realização, geralmente era representado nas cartas com um cetro de poder e também um escudo para se proteger, pois em sua posição, não pode ser permitido confiar em muitos.
Une fizera jus a sua carta. Crescera uma mulher belíssima, porém fria, inteligente e desconfiada. Era uma esfinge e guardava muitos segredos. Atrás de seu sorriso mordaz, sua máscara mortífera, muito se ficava oculto. Ela sabia seduzir como ninguém e acostumara-se a ter todas as suas vontades feitas. Era uma verdadeira mulher perigosa.
A carta representa alguém que cuida de sua aparência e de suas posses e que, além disso, é parte de um processo não concluído, aparecendo grávida em algumas representações para isso mostrar.
Entre as muitas coisas compartilhadas com sua carta, Une também não aceitava seguir só sua intuição, precisando de longos planejamentos para agir. Como sua carta, era um pouco arrogante, orgulhosa do que havia conseguido conquistar.
Gimel era batizada dentro da Ordem, pelo menos, era como era referida por todos inferiores a ela, todas as cartas menores. Gimel, que significava três. Era esse seu número, era isso que carregava dentro de si, era essa a capa que vestia.
Logo que fora nomeada, ganhara o mundo.
Tinha terras só suas, um castelo, tesouros, roupas finas, tudo que alguém poderia desejar. Estava em constante movimento, sempre em alguma missão. Tinha carruagens e cavaleiros a sua disposição, assim como diversas cartas menores, se assim decidisse comanda-las.
Ainda esperando sua apresentação oficial para o resto da Ordem, no aguardo de uma missão importante, realizava tarefas menores, que lhe chegavam por cartas, magia ou ainda entregue pela própria carta da Temperança, uma menina loira, que costumava fazer questão que as coisas saíssem sempre de acordo com o programado.
Como pessoa, não podia reclamar de sua existência, tendo tudo que sempre desejou, mas ainda assim, como na sua carta, que menciona algo não concluído, Une sentia-se incompleta, como se um vazio a tomasse por dentro, todas as vezes que se deitava na cama sozinha e ouvia o silêncio que invadia pela janela.
De certa forma, ainda sentia-se como a menina de corpo vazio, apenas esperando algo para lhe preencher, a ponta dos dedos congelados.
Quando finalmente fora apresentada, foi realizado um ritual de apresentação. Nele, conheceu todos os outros Arcanos Maiores e os quatro reis, rainhas e valetes, além de alguns aliados realmente importantes de alguns reinos. Era uma festa da nobreza.
Usara um vestido cor de vinho, rodado, em camadas, um espartilho muito justo na cintura, com intrincados detalhes, bardados em dourado, além de uma gargantilha de pérolas. Um batom da cor do vestido, brilhante nos lábios e, como era de se esperar em um baile de máscaras, uma máscara amarrada ao rosto, cheia de penas.
Ainda assim, sua presença, postura, corpo, olhos e comportamento, roubaram a festa. Quase todos suspiravam ao vê-la passar. Ficara injuriada que o Grande Mestre das Bonecas, o líder, o Curinga não viera, mas logo se conformara, vendo tudo o que tinha para fazer.
Era uma mulher pragmática que vivia um dia de cada vez.
Com furtivos sorrisos encantadores, cumprimentava cada um, dando-lhes a mão e conversando levemente, com gracejo, sedutora, rindo com sua voz grave. Os cabelos longos, castanhos, estavam presos em um coque frouxo, com diversas mechas escapando-lhe, cobrindo-lhe o colo que arfava com as risadas.
Seu tomara que caia deixava os seios volumosos em destaque, seus olhos vulpinos e puxados, castanhos, mostravam astúcia além da idade, sorrateiros, mostrando uma moça com a guarda alta.
A festa não mostrava sinais de economias, sendo feita em um salão de uma mansão onde provavelmente se caberia um exército de dragões, todos os afrescos sendo feitos de ouro, janelas que iam do chão ao teto, abertas, mostrando uma relva bem cuidada, as carruagens chegando a cada instante.
O chão frio, de pedra, fora lustrado para a ocasião, e os grandes quadros nas paredes até haviam perdido o aspecto austero, diante do brilho das champanhas e os vestidos de gala das raparigas. Todos riam, comiam e se divertiam.
Quando finalmente decidira-se que deveria se render e sentar-se em uma das mesas circulares, iluminadas pelo gigantesco candelabro pendurado, onde várias pessoas importantes sentavam e conversavam, alguém lhe toca o ombro, fazendo-a virar-se com violência, pela surpresa.
-Lady. – E um rapaz reverencia-se diante dela. Um rapaz, ou melhor, um homem jovem, de cabelos louros e espertos olhos azuis escondia-se atrás de uma máscara metade preta, metade branca. Ele tinha trejeitos afetados e parecia sorrir com deboche. O tuxedo que ele usava era de um azul escuro, e tinha detalhes em dourado, ao mesmo tempo contrastando e combinando belamente com a roupa que ela mesma usava.
Ela abaixa levemente em retorno, já cansada de tantas apresentações. Ele não parecia preocupado.
-Uma dança? – E ele estica-lhe a mão, aumentando ainda mais, de lado, o sorriso zombeteiro nos lábios. Com uma sobrancelha levantada diante de sua expressão, ela aceita.
Ele a puxa para o meio da pista de dança, segurando-a fortemente pela cintura. Os dois mantinham-se próximos enquanto deslizavam. Ele sorria enquanto grudava seu rosto próximo ao dela.
-Então, você é a nova Arcano Maior, que ocupou a posição de Imperatriz... Ainda mais bonita do que me disseram, se me permite dizer. – Ela se surpreende, empurrando-o. Segundo fora informada, ninguém ali saberia as posições de ninguém, só depois, na outra semana, seria feita uma reunião menor, só com os Arcanos Maiores, para apresenta-la.
Ele sorri escarninho diante de sua reação, afastando uma mecha de sua própria franja da testa.
A puxa novamente para si, não vendo resistência por parte dela.
-Não se preocupe, tenho muitos informantes. Não creio que ninguém mais saiba. – Ela se acalma um pouco, voltando a raciocinar.
-Quem é você? – A voz dela era como uma facada gelada, coberta de veneno. Ele a acha engraçada, o tom de ameaça não chegando até si. Ele a segura ainda com mais firmeza contra si, colando os corpos por completo, passando a roçar de leve a mão livre em seus cabelos e costas descobertas.
-Se precisa tanto saber... Sou como você, um Arcano Maior, sou o Imperador. – E ri baixinho.
Ela se pasma, embora não denunciasse sua reação. Deveria ser engraçado ou o que, que justamente a carta pareada com a sua soubesse exatamente quem era?
A Carta do Imperador combinava perfeitamente com aquele homem. Sendo a carta de número quatro no baralho do Tarot, deveria ser um guerreiro forte e governante absoluto, além de ser duro, inflexível e rico. Aquele homem parecia representar tudo aquilo.
Além do mais, era uma carta de realização, como a dela, tendo a perseverança e a conquista como qualidades.
O Imperador era dito gostar de planejar e colocar em prática seus mais audaciosos planos, além de controlar e comandar pessoas para suas conquistas materiais.
Com sua postura confiante e seu sorriso motejado e sedutor, ele simulava tudo aquilo, embora, ao contrário dela, parecesse se sentir plenamente satisfeito consigo mesmo, com sua posição e com sua vida. Ela podia senti-lo cheio de si, vigoroso, não vazio, como a si própria.
A atração fora instantânea.
Eram opostos, cartas complementares que pareciam queimar juntas quando em atrito e contato.
No final daquele dia, traindo-se, em um ato que seria único em sua carreira e sua vida, se vira puxando-o pela a mão, para treva dos gigantescos corredores, onde revelaram seus rostos e trocaram beijos ardentes e carícias íntimas. Entregara-se para ele sem receio, várias vezes seguidas, acabando por leva-lo a seu quarto.
Assim, iniciaram um tórrido caso de amor.
Depois dele, muitas vezes mais precisara se deitar na cama de outros homens, sem que nunca se importasse muito. Sempre acabava voltando para cama dele, a mais quente de todas, a mais macia, a mais insensata.
Na Ordem, não eram permitidos relacionamentos amorosos, estes podendo ser punidos de maneira severa, por isso, mantinham o caso escondido. Era seu lado desmiolado, era seu lado emocional que nunca permitira aflorar. Sozinho, ele segurava todo o seu coração, sozinho, carregava toda a sua fragilidade, sozinho, poderia destruí-la.
Estranhamente, depois dele, nunca mais se sentira vazia, era como se o caso estivesse ficado em algum canto perdido, por detrás das várias camadas de nuvens de seu cérebro. Estava ocupada. Tinha tudo.
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A mulher se aproxima, um vestido de cor marrom, justo, o decote de corte quadrado deixando o colo a mostra, a saia comprida de duas camadas apenas indicando uma longa viagem, uma trança na cabeça, fazendo volume aos sedosos fios castanhos.
Ela entra na residência com rapidez, sem se preocupar em ser impedida. Dirige-se com passadas decididas até o quarto, no andar superior, passando por criados e mais criados, cada um ocupado por seus afazeres.
Escancara a porta com violência, adentrando o quarto que estava na mais profunda escuridão. Ainda sem se abalar, a moça dirige-se para a janela, que sabia exatamente onde ficava, no lado oposto a porta dupla, entalhada de madeira, escancarando as cortinas compridas, que davam para uma pequena estufa. A luz do sol é forte e invade o local com violência.
Na cama de tamanho duplo, protegida por um pequeno biombo, há algum movimento. A moça não se atém aos quadros, ou ao vidro grande que a encarava poucos metros a frente, toda a riqueza não lhe interessava, apenas o movimento nas cobertas a sua frente.
A coberta se levanta e a figura de um homem e uma mulher são reveladas. Uma mulher bonita, de seios grandes, bem proporcionada, loira, de cabelos cacheados e expressão inocente, que olha em volta, tentando entender o que acontecia.
O homem apenas se espreguiça, demoradamente, sem lhe dar atenção. A moça tinha os olhos fixos nele. Estava parada com os braços cruzados, esperando com impaciência.
Treize boceja, cobrindo a boca com as costas da mão, e senta-se, esticando os músculos para cima, em um novo espreguiçamento, demorado como um gato esparramado em um dia de sol. Em seguida ele se vira e a encara, felino.
-Bom dia, minha lady. – Ela não se abala, ao contrário, aproxima-se.
-Saia daqui – Diz para a menina. Sua voz glacial parece funcionar, pois a menina reúne suas roupas no chão, correndo para a saída, ainda sem estar completamente vestida.
-Precisava falar assim com ela? – Ele pergunta, divertido, olhando-a de esguelha. Ela se senta a seu lado, puxando de sua saia uma carta.
-Por acaso se importa de me explicar o que diabos é isso? – E a voz dela era inexpressiva, mas ele já a conhecia há muito tempo, para saber a emoção contida em seus olhos.
Ele apanha a carta de suas mãos, mas não a abre, mostrando tédio.
-É sua primeira missão oficial, o que mais? Aparentemente, você guiará uma guerra. – Ela levanta-se, subitamente, diante disso, indo encarar a janela, um sorriso verdadeiro surgindo em seus lábios. Ele levanta-se, completamente nu, indo abraça-la por trás.
Ele conseguia ver a satisfação em seus gestos.
-Estou sentindo que hoje será um dia muito bom – E ela sorri, meiga, virando-se e abraçando-o, beijando-lhe os lábios, entrelaçando as línguas. Ele ri, levantando-a de leve do chão.
Como sua missão seria iniciada na próxima semana, Une decidira passar o tempo restante na companhia de seu amante. Ele era o único de quem não tinha segredos e com quem conseguia ser ela mesma. Sem saber como, quando, nem o porquê, se apaixonara, perdidamente. Confiava sua vida ao homem a sua frente.
Sem a necessidade de palavras, sabia que ele lhe correspondia em cada aspecto, em cada sentimento oculto. Nunca haviam precisado externar seu amor, não eram pessoas desse jeito.
Em uma noite, antes de recomeçar a viagem, na cama de seu imperador, depois de terem se entregado ao ápice do prazer várias e várias vezes, ela se via deitada ao lado dele, encarando-o nos olhos, sorrindo. Ele fazia o mesmo.
-Sente-se satisfeita com sua primeira missão importante? – E ela sorri, com os olhos brilhantes, concordando. Ele leva um dedo para sua boca, acariciando-a devagar, sentindo seu formato e textura.
-E você? – Ela pergunta em um suspiro.
Com o tempo, aprendera que Treize não era como parecera de início. Apesar de ambos serem gananciosos e cheios de cautela, ela era uma pessoa que gostava de crescer, e não se importava de fazer isso dentro da ordem, aos poucos, desde que continuasse sempre crescendo. Já Treize, ele tinha um pontada de megalomaníaco, perigoso, sempre desejando por mais, desejava sempre o impossível.
Eles simplesmente se encaram por algum tempo, até ele suspirar e sorrir, puxando-a de leve para si e mordendo-lhe o mamilo, de leve, para lambê-lo em seguida. Ela geme baixo de prazer e o abraça contra si, iniciando uma nova onde de prazer.
Ela deixa a mansão depois da semana passada com um sentimento pesado no peito, e enquanto andava em sua carruagem, com seu vestido negro e longo, como de costume ressaltando-lhe as qualidades femininas, vêm a sua mente que haviam invertido o papel. Agora, enquanto ela via-se satisfeita em sua própria pele, ele parecia ter algo faltando.
Respira fundo, sentindo o ar faltar em entrar em seu pulmão como deveria. Sentia algo de errado, podia quase ouvi-lo.
Treize era um jogador do perigo, pois apesar de suas conquistas e fama, desejava tudo àquilo que não podia ter. Era uma de suas principais características. Não havia sido assim, afinal de contas, que vieram a tornarem-se amantes em primeiro lugar? Ele a amava e sabia que jamais a poderia ter em seus braços e justamente por isso, a desejara mais do que a qualquer outra.
Aquilo já a incomodara no passado, mas agora, costumava simplesmente deixar o fato de fora.
Com o pesar da carruagem de um lado para o outro, voltava a abrir a carta em suas mãos. Iria ajudar o General, o Valete e o Rei de Paus, controladores do fogo a invadirem o reino dos elfos. Nenhuma criatura mágica poderia ser deixada na terra. Eles representavam uma ameaça e por isso, precisavam ser eliminados.
Olha a carta e a relê, detalhe por detalhe, depois volta a guarda-la no bolso do vestido rendado. Olha para fora, sentindo o sacolejar da carruagem a embala-la para um lugar distante. A paisagem que passava era dos mais diversos tons de verde, árvores, paisagens distantes, gados, tudo passava como um borrão, enquanto seus cavalos corriam, guiados pelo cocheiro.
Começava a ter sono.
Deixa escapar um sorriso triste de seus lábios. Nada podia fazer para ajudar seu amado.
Algo que lhe ocorre, próximo a uma revelação, uma epifania. Era engraçado pensar, comparando-se com uma menina determinada e selvagem, que fora há muito atrás, quase nada mudara. Ainda estava presa no movimento de vai e vem de uma carruagem.
Ainda assim, com tudo que ganhara, continuava sendo como um galho que balançava em dias de vendaval, indo para onde o vento a empurrasse. E o único momento que tomara as rédeas de sua vida foi quando, muito pequena, conseguira, sozinha, matar seis homens em uma dia de chuva.
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Apesar dos acampamentos de treinos permanecerem sempre juntos, agora, aprontando-se para guerra, os soldados tinham tomado distância, instalando-se em uma parte isolada de uma floresta, com o acampamento já montado, milhares tendas podiam ser vistas, até onde se alcançava o olhar. E enquanto descia da carruagem, a lady pensou o tamanho de todos os exércitos unidos. Se aqueles a sua frente eram apenas uma parte do exército de fogo, um arrepio lhe cortou a espinha. Não era a toa que diziam considera-los invencíveis.
Aproxima-se a passos rápidos, costumeiros, ajeitando as luvas de couro nas mãos enquanto andava, escoltada por um grupo de soldados, destinado a leva-la a tenda do general. Sua capa negra raspava o chão e o capuz já não lhe cobria a cabeça, o belo rosto a mostra, perigoso e tentador, sobre um longo e esguio pescoço alvo.
Não prestava atenção aos homens que a olhavam enquanto passava, ziguezagueando pelo acampamento. Não tinha tempo para isso. Dentro de si, o coração batia forte e excitado pela missão recebida. Não falharia, nunca falharia.
Deixam-na a frente da tenda maior, onde a moça entra, com passos pesados, apenas para olhar em volta. Os homens se levantam e a esperavam do outro lado, ela sorri jocosa e se aproxima. Eles a cumprimentam abaixando-se levemente. Ele responde com um aceno de cabeça.
Olha em seguida para os homens presentes, os rostos bem apessoados e de traços orientais. Eram o General e seu filho.
-Muito prazer General Chang, eu sou Gimel, o Arcano enviado para comandar a missão de invasão nessa guerra.
O general Chang sorri, deixando os traços arrogantes a mostra.
Bem, não atualizo desde Janeiro :O Fiquei bege que estava mexendo nesse capítulo desde então e resolvi postar! Mas assim, era para ele mudar total... Na verdade, tinha muita coisa que eu queria ter mudado...mas acho que nunca chegaria a publica-lo, então resolvi entrar em ação!
Aqui está o capítulo, explicando mais ou menos o funcionamento da Ordem dos Cavaleiros Negros e também, de onde se conhecem o Wufei e a Une...Babado total hahahaha
Espero publicar o próximo mais rápido, o enrosco não pode ser tão grande :torce os dedos:
Até a próxima, obrigada por acompanharem ^^~
Se quiserem saber um pouco mais sobre as Cartas de Tarô e por que escolhi determinados personagens para representa-las, suas descrições e encaixes, fiz um post aqui sobre isso:
sesshymaru (ponto) livejournal (ponto) .com (traço) 3775 (ponto) html
Coloquem os pontos e espaços nos lugares certos e vejam lá :)
11.06.2013
