Disclaimer: O anime/mangá Inuyasha não me pertence. Ele e seus personagens são de autoria de Rumiko Takahashi. A história aqui descrita é apenas e somente para dirvesão e não fins lucrativos.
MDP: Universo Alternativo (História totalmente diferente da narrada por Rumiko em sua série de Anime/Mangá)
Gênero: Romance/Aventura
Por: Telly Black
Resumo Geral: Ele, Hanyou e Herdeiro do trono da cidade proibida. Ela, uma Miko - aquelas que eram consideradas sagradas pelos Humanos. Viviam em dois extremos, mundos separados não apenas pelo ódio, mas pelas fronteiras da terra e da água. Mas quando os dois extremos se encontram, aos poucos, descobrem que não estão apenas unidos pelas Marcas de um pecado.
Marcas de um Pecado
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Ai
\Capítulo Nove\
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O vento da manhã soprava calidamente refrescando o clima quente a castigar a Terra. Sentada em uma pedra, Kagome sentia seus cabelos serem atirados de um lado ao outro, a fazendo pensar que teria sido uma boa ideia prende-los.
Passou os dedos nos cabelos, tentando manter os fios juntos enquanto assistia os rapazes lutarem, sabendo que, embora tenham alegado o fazer para mostrar-lhe como ocorria uma batalha real, ambos lutavam por outro motivo.
Desde o dia anterior, o Príncipe do Reino de Batsu agia estranhamente; Criava conflitos, sem mais nem menos, com o rapaz humano. E mesmo ele lhe dizendo não estar incomodado com a presença do Houshi, tinha certeza de que mentia. Fora capaz de sentir a raiva dele, assim que decidiram permitir que o rapaz viajasse ao lado deles.
Mas ela não podia deixar Miroku sozinho. Como havia os ajudado a fugir, passou a ser um problema das Miko e seria morto acaso fosse capturado. Era melhor ficarem juntos.
Suspirou, e olhou para as flores brancas que enfeitavam todo aquele campo aberto.
Ainda podia ver a expressão na face do Houshi, ao ouvir o nome para onde iam. E a de horror, ao descobrir, que o verdadeiro motivo para a viagem até Batsu, não era por almejarem sumir das vistas das Miko. Mas, por Inuyasha ser o Herdeiro do trono. O Herdeiro que carregava a espada que, no passado, matara várias Miko.
Embora ninguém conhecesse sua aparência, todos temiam a espada de nome Tessaiga, forjada a partir de um dos caninos do maior Youkai existente, para proteger sua mulher amada e seu reino. Um lugar alvo de inúmeros ataques por causa de sua riqueza.
Juntamente com ela, outra espada fora forjada. Mas desta, ninguém jamais havia tido informações. Por isso apenas podiam imaginá-la como tendo o mesmo poder destrutivo da Tessaiga. Ao menos era isso que se contava nas histórias.
Suspirou.
Inuyasha conseguiu desarmar o Humano com extrema facilidade, e derrubá-lo na grama com uma rasteira. Sorrindo vitorioso pela quarta vez, o Hanyou apontando a Tessaiga, na bainha, para o pescoço do humano. Provando que poderia assassiná-lo se desejasse.
Satisfeito, o Príncipe deu as costas à ele, dando a batalha como encerrada. Entretanto, Miroku não estava feliz em perder todas as partidas. Sorriu de forma estranha antes de, sem aviso, saltar nas costas de Inuyasha.
Outra briga se iniciara e Kagome girou os orbes em tédio.
"Homens!"
# Vão continuar brigando até quando?
Não obteve resposta alguma, enquanto o meio-Humano tentava trazer seu atacante ao alcance de sua vista.
# Certo… - resmungou. – Apenas espero que não continuem brigando até o anoitecer.
Soltou o ar com força.
Sentiu o vento soprar mais forte, e estreitou os olhos procurando algo no campo. Por segundos, esqueceu a batalha, pois fora capaz de ouvir a baixa e calma melodia de uma flauta. Ficou de pé, ao ouvir mais uma vez o mesmo som, porém num volume e tempo maiores.
Não havia ninguém ali. Então de onde vinha aquele som?
Ao som do pesado baque, voltou à atenção para o Príncipe e o Houshi fugitivo. Os dois estavam rolando na grama, trocando soco como duas crianças a brigarem pelo mesmo brinquedo. Ela já havia visto brigas assim entre as crianças ou as Miko mais crescidas de Shima no Ten, mas ao contrario de tantos socos, elas usavam as unhas e puxavam os cabelos. Isto seria mais uma diferença entre homens e mulheres?
Ela nunca brigara fisicamente com ninguém, mas não conseguia se imaginar agarrada nos cabelos de outra mulher durante uma briga. Mais sensato e menos ridículo parecia fazer com que tudo acontecesse com troca de socos.
Passou a mão nos cabelos, exasperada, acreditando apenas ver o termino da luta quando um deles parasse de respirar.
"Isso já está se tornando ridículo!" Pensou, decidida a por um fim naquilo.
Entretanto, antes pudesse fazer algo, sentiu o local onde fora mordida por Inuyasha, e que estava escondido por um grosso colar, latejar dolorosamente. Levou a mão ao pescoço, e soltou um fraco gemido de dor, enquanto o ar lhe era roubado. Inclinou-se para frente, e fechou os olhos com força enquanto respirava profundamente. O mundo girou ao seu redor e a dor cessou.
"Kami!" Clamou, enquanto tentava se manter de pé, para não acabar chamando a atenção de Inuyasha.
Tornou a sentar sobre a pedra. Seria melhor esperar o susto passar antes de interrompê-los.
# Jamais pensei viver para ver uma Miko comprometida com um Youkai! – comentou o humano, segurando os punhos do Hanyou que tentava estrangulá-lo. – Por que, e exatamente quando, a desposou? – quis saber sentindo os braços começarem a reclamar, e sabendo que o Hanyou não usava toda a força contra ele. – Ora… vamos… responda-me! Eu realmente possuo a curiosidade. Está certo! – forçou mais o braço, afastando as mãos dele de seu pescoço. – Então me responda algo… - sorriu de forma estranha. – Já se deitastes com ela? Ela é boa no que faz?
O Hanyou estreitou os olhos, desacreditando na pergunta realizada. Mesmo que realmente estivessem casados, a intimidade entre quatro paredes era de interesse exclusivamente deles, não de terceiros.
Aumentou um pouco mais a força, e livrou-se das mãos dele, alcançando o pescoço. E esquecendo-se da presença de sua Contratante, fechou suas mãos ao redor da pele Humana. Iria estrangulá-lo. Mataria-o ali e agora.
O Humano segurou suas mãos, puxando o ar com força na tentativa de respirar, enquanto tentava pronunciar algo.
# Está certo… Já chega de infantilidade! – ao ver a seriedade da discussão aumentar, a donzela decidiu que já estava na hora de terminar com aquilo.
Uma barreira surgiu ao redor deles, jogando-os a metros de distância um do outro. Levantou-se, pegou a mala onde estavam seus pertences, e foi até Inuyasha. Ignorando o olhar que ele lhe lançava, atirou a mala sobre ele.
# Sinto ter de usar força contra vocês, crianças, mas foi à única maneira de aquietá-los. – ouviu Miroku se queixar com dor, mas o ignorou. – Não almejo ver sangue derramado a esta hora da manhã. – cruzou os braços, o encarando. – Então… agora que já pararam de agir como crianças mimadas, e pensam racionalmente… creio que possamos continuar a viagem antes do anoitecer, e impedir que sejamos alcançados pelas Miko, novamente.
O Houshi e o Príncipe trocaram olhares indignados antes de seguirem a donzela, a afastar-se rapidamente.
...
Os olhos de rara cor dourada, uma das características mais marcantes de sua família, estreitaram-se irritados com a luminosidade provocada pelo Sol poente. Mais um dia se passava sem ele ter noticias do paradeiro de seu único herdeiro. E a dúvida estava começando a consumi-lo por dentro.
Myouga começava a temer pela saúde de seu mestre.
Mesmo sendo um Youkai, a fraqueza abatia o corpo outrora imponente. Fraqueza que ele tentava combater desde o dia da morte de sua amada Izayoi, e do abandono do primogênito por causa do amor de uma traidora e assassina. Fraqueza a conseguir vencer o combate desde o desaparecimento de Inuyasha. O filho que ele jurara proteger.
Inu no Taishou passava horas no quarto. Pensava. Tentava descobrir onde o filho estava. Por que não mandava notícias. Imaginava se Inuyasha desaparecera por vontade própria, ou se fora levado por um daqueles invasores.
# O jantar já está pronto, Majestade. – a voz do conselheiro o arrancou dos devaneios, e Inu no Taishou o encarou sem pronunciar qualquer palavra. – Se o Príncipe Inuyasha realmente estiver vivo nós iremos encontrá-lo, Meu Senhor. Mas se continuar desta maneira, é capaz de não resistir até seu retorno.
# Você tem razão, Myouga! – afirmou, com um sorriso fraco nos lábios. – Necessito estar bem de saúde para o retorno de Inuyasha… Necessito estar vivo para pedir perdão por tais palavras pesadas a abandonarem meus lábios… Necessito ouvi-lo dizer que me perdoa… antes de morrer. – fixou os olhos no conselheiro. – Pode se retirar Myouga… irei banhar-me e vestir-me para poder cear.
O Conselheiro realizou uma reverência e abandonou o cômodo.
Com passos apressados, não se permitiu ficar aliviado com a aceitação de Seu Senhor, afinal, o brilho depressivo nos orbes, ainda existia.
Sabia que cometeria um erro, e seria seriamente punido caso seu ato chegasse aos ouvidos do Soberano, entretanto não poderia permitir que continuasse daquela maneira.
Chamou uma das criadas, enquanto ordenava que outra encontrasse o General da guarda do Reino.
Lina recebeu pegou um tinteiro e uma pena, sem questionar, enquanto redigia exatamente todas as palavras pronunciadas por ele. Ao fim, selou o envelope e o entregou nas mãos de um dos seus serviçais mais fiel.
# Vá sozinho à Arashi, e entregue a carta ao Seu Senhor! – mandou, observando a expressão surpresa tomar conta da face, sempre séria, do General. – Ninguém deve saber a respeito desta sua viagem. Ninguém. – continuou, tomando cuidado com o tom de sua voz, pois o Soberano poderia ouvi-los. – E entregue a carta nas mãos dele… de ninguém mais… Compreende o que digo, General[F1] ?
O Youkai analisou a carta com cuidado, seus olhos negros estudando o envelope lacrado com atenção. Guardou a carta na parte interna de seu macacão branco com detalhes azuis e verdes, sob uma elegante armadura com o símbolo de Batsu na parte a revestir-lhe o ombro.
# Sim, Myouga-sama! Irei sozinho a Arashi e apenas entregarei a carta ao Seu Senhor… e a mais ninguém.
Myouga realizou um gesto afirmativo, seguido por um de dispensa, e assistiu ao General se retirar para fazer-lhe o mandado, rapidamente. E encarou seriamente a criada, ainda sentada à cadeira de material caro, aguardando novas ordens, em silêncio.
# Pode se retirar. – ordenou, permitindo seu levantar. – Mais uma coisa, Lina… - a criada o encarou antes de atravessar a porta pesada de madeira. – Não conte a respeito desta carta e seu conteúdo a ninguém. Nem mesmo a Vossa Majestade.
# Perdão… Nem sequer recordo-me do motivo pelo qual me chamastes, Meu Senhor! – realizou uma reverência. – Com licença, Meu Senhor… Devo retornar aos meus afazeres!
O conselheiro assistiu a serva se retirar e sentou. Agradecia por Lina existir. Era o tipo raro de pessoa em quem se podia confiar cegamente. Por isto, o Príncipe Inuyasha a possuía como criada particular, a estar ali, apenas para obedecê-lo e a mais ninguém. E talvez fosse uma das poucas belas mulheres daquele castelo que o Príncipe respeitara e não levara para a cama.
# Sinto muito, mas pediu-me para enviar-lhe pedido de socorro quando necessário, Meu Senhor… - pronunciou a si mesmo, encarando o vitral da janela fechada. – E o que se passa é realmente urgente!
...
As águas correntes do rio a atravessar a maior parte da floresta, produzia o único som que rompia o silêncio incômodo e noturno.
Sentou à margem do rio e, inclinando ou corpo para frente, admirou sua imagem na água cristalina. Quando a trêmula imagem masculina uniu-se a sua na água, voltou os olhos para Inuyasha.
As Miko demorariam a encontrá-los?
E se o fizessem, conseguiriam capturá-los?
A mão forte tocou sua face com delicadeza, e ela fechou os olhos sentindo os dedos deslizarem pelo seu pescoço, retirando um fio negro que caía sobre a marca do Contrato. Foi incapaz de conter um suspiro e sorriso. A dormência que a atingira mais cedo, imediatamente cessou lhe trazendo uma sensação de alívio..
# Adoro seu sorriso… - revelou o Príncipe, fazendo-a abrir os olhos. – Às vezes esqueço alguns de meus temores ao lhe ver sorrir.
Kagome enrubesceu e desviou os olhos dos dele. Queria entender o que levava seu coração a acelerar de tal maneira ao ouvi-lo dizer tais coisas. Estaria ele a lhe cortejar ou apenas dissera tal coisa, no intuito, de mais uma vez ver sua face avermelhar-se?
# O que houve esta manhã? – quis saber, decidida a desviar o assunto, evitando mais constrangimento. – Lutavam, mas apenas no último momento realmente fez questão de estrangulá-lo. – o príncipe desfez o contato físico e visual, contrariado. – O que ele lhe disse?
# Perguntou-me se já havia me deitado com você.
Kagome fez uma careta.
# Bem… - mordeu o lábio, observando o Houshi sorrir satisfeito consigo, ao sentar na cama improvisada. – Para ele, somos casados, e é natural um homem e uma mulher deitarem-se. – pronunciou cautelosamente, desconcertada. – Não deveria irritar-se desta forma. Você já deve ter se deitado com muitas mulheres, não é mesmo?
Suspirou, desenhando na terra com o dedo indicador apenas para não ter de encara-lo, envergonhada por ter feito tal pergunta.
As intimidades de Inuyasha com outras mulheres, não lhe dizia respeito. Ela não deveria se preocupar com o fato de ele ter tido dúzias de mulheres aos seus pés, e em sua cama. Entretanto, pensar a respeito do envolvimento carnal do Príncipe com outras mulheres, lhe fazia sentir raiva. Causava-lhe… algo que não podia descrever.
Sabia que eram raros os homens a terem como amante, unicamente, a mulher com quem desposava. Relacionavam-se com muitas outras, antes e até mesmo depois de seu matrimônio. Desrespeitavam, sem se importar a mulher que abdicara de sua vida anterior para cuidar dele. Por esta razão, os homens escolhidos para serem pais de uma nova geração 'santa', eram Houshi, os único a não pensarem, pelo menos na teoria, exclusivamente, nos prazeres da carne.
Esperava ouvi-lo reclamar por sua ousadia, e já estava se preparando para discutir com ele, mas a ação dele a deixou estática. E enquanto ele gargalhava alto, estreitou os olhos.
# Não consigo ver onde está a graça.
O Herdeiro tentou se controlar sob o olhar de sua Contratante.
Sim. Muitas mulheres haviam passado por sua cama, e não negaria. Possuía milhares de defeitos, mas hipocrisia não estava entre eles. Porém, jamais imaginou ouvi-la pronunciar tais palavras, demonstrando sua raiva pela afirmação, na voz delicada.
E ele adorou notar o ciúme nela.
# Não irei mentir para você. – fixou a atenção nos orbes azuis. – Realmente tive dezenas de mulheres em minha cama.
# A mulher que seu pai mandou matar… sabia? – ele confirmou verbal e silenciosamente. – Ela era uma? Não se importava?
# Não, não era. – respondeu, em tom baixo. E segurando a mão feminina entre as suas, recordou-se da primeira por quem sentira algo. – Aya sabia a respeito de tudo. Quem era… Que horas entrava e saia de meu cômodo. Reclamava por diversas vezes. Chamando-me de imprudente… alegando temer que a população e meu pai descobrissem a respeito de meu caráter. – deu de ombros. – Meu pai sabia, e por vezes discutíssemos por isto. – fez uma pausa. – Certa vez eu perguntei-lhe se era de seu desejo, que eu parasse de me deitar com essas mulheres. Disse-lhe que se ela me pedisse, eu atenderia seu pedido. – sorriu levemente. – E ela respondeu-me que não desejava mais que outra mulher acabasse em meus braços. – analisou as emoções a passarem nas poças azuis que eram os orbes de sua Contratante. – Desde então não me deito com ninguém.
# Você a amava tanto assim?
Puxou a mão para longe das dele. Sentia um aperto no peito, apenas por temer a resposta dele.
# Não sei lhe dizer com exatidão se era amor verdadeiro, o que sentia por ela.
Ele estava sendo sincero. Mas se tivesse sido questionado alguns dias atrás, com toda certeza, teria dado uma resposta positiva. Mas agora que olhava para Kagome, descobrira que seus sentimentos por ela, eram muito mais intensos. A Miko o fazia esquecer completamente de Aya.
# Talvez tudo tenha sido fruto da maneira como ela me tratava. Nenhuma outra mulher me tratava como ela. As do meu reino, sempre me viam como seu mestre e soberano, àquele quem deveriam obedecer incontestavelmente. As estrangeiras repudiavam-me por ser fruto da relação entre uma Humana e um Youkai, ou até mesmo devido ao fato de eu ser Herdeiro de Batsu. Por isso meu pai ficou tão desesperado em me casar quando surgiu a oportunidade. – acrescentou. – Mas não falemos nisto… – ajeitou a postura, antes de se colocar de pé.
Estava decidido a esquecer.
# Acho que, se não deseja que Miroku, ou outra pessoa, descubra nada a respeito de nosso pacto, precisa esconder melhor a marca de meus dentes.
# Inuyasha… - murmurou, o fazendo encará-la. – Eu quero que saiba… Em momento algum, lhe culpo ou sinto-me arrependida por ter me tornado sua Contratante.
Inuyasha não necessitava ouvir tais palavras. Podia sentir isso. Mas sorriu e sentiu-se mais aliviado por saber que ela não o odiava por ter corrompido seu corpo daquela maneira.
Ela o encarava com expectativa; esperava que ele lhe dissesse algo.
# Tudo bem, Kagome!
A moça sorriu ao ouvir seu nome ser pronunciado por ele. Não era fácil seu nome deixar os lábios dele.
# Eu sei que não… - sorriu-lhe ainda mais. – Agora… Devemos nos deitar. Teremos de estar descansados pela manhã, para continuarmos a viagem.
Kagome confirmou, e observou-o se afastar. Deitou a cabeça no ombro, enquanto voltava a estudar a água transparente. Suspirou e tentou ver o céu através da densa folhagem das árvores. E depois de alguns segundos sem ver nada, decidiu que realmente estava na hora de dormir. Caminhou até Inuyasha e deitou-se, usando o colo dele como travesseiro.
Estava se acostumando aquilo.
O herdeiro tocou-lhe na face antes de alisar-lhe os cabelos, como se habituara a fazer todas as noites. Deitou a cabeça na árvore e fechou os olhos, tentando relaxar, sem notar que o Houshi os encarava com bastante interesse, intrigado com o envolvimento dos dois.
Naquele momento o Houshi se recordava de que, uma vez, ouvira a história dramática de uma Miko que se apaixonara por um Youkai.
Um romance proibido, a durar anos e acabar em tragédia, dando exemplos a gerações futuras. Assim, elas não cometeriam o mesmo erro.
Entretanto, para as mais românticas, a história apenas servia de expiração e não para intimidação.
Virou-se de costas para o casal, cobrindo o corpo com o cobertor emprestado pela moça. Cerrou os olhos, perdendo-se em devaneios, e só então percebendo o motivo pelo qual o nome da Miko o surpreendera.
Kagome, a filha da maior pecadora de Shima no Ten, e criança cuja vida ou morte havia sido discutida, durante nove meses, entre as Miko e os Houshi no passado. Criança que apenas não havia sido morta, pois a Soberana Haru havia jurado vigia-la.
Mas agora via: a Soberana, não cumprira seu juramento e assim que os Houshi descobrissem sobre o desaparecimento, um grande problema se iniciaria e a Miko Haru estaria com sérios problemas. Um erro deste a faria perder o cargo de Soberana e ainda seria lançada ao exílio. Mesmo que as Miko possuíssem maior poder que os Houshi, existia um Conselho por trás delas e dos Houshi. Conselho que a decidia tudo, e que era formado por duas Miko e dois Houshi, a serem escolhidos pela hereditariedade.
Bocejou e moveu o corpo em busca de uma posição mais confortável. Iria deixar aqueles pensamentos de lado e dormir. Os assuntos dos Houshi não lhe diziam mais respeito.
...
Sentada sozinha a entrada de sua cabana, mirava o céu com atenção, e aproveitava o silêncio noturno para pensar em tudo o que acontecera nos últimos dias.
No momento em que Yami, estranhamente, exigira a criança pecadora. O instante em que o Conselho resolveu se intrometer e forçá-la a atender ao seu pedido. E quando tudo foi por água a baixo, por causa de um Youkai que conseguira penetrar a barreira de Midoriku.
Embora estivesse agindo de acordo com as regras, vez ou outra se pegava desejando que Kagome jamais fosse encontrada novamente. Ficara feliz por ela ter conseguido escapar, e não queria puni-la por desejar viver. Mas vez ou outra desejava intensamente ter a jovem Miko ali, para poder esbofeteá-la por ousar traí-la. Ela jurara protegê-la. Colocara sua honra e vida em jogo, para fazê-lo. E a menina simplesmente partira sem olhar para trás.
"De uma maneira ou outra… minha honra e palavra iriam para o fundo do poço."
Suspirou vagarosamente, encarando o bracelete em seu punho, com curiosidade. Estranhamente, algo lhe dizia que conhecia aquele a invadir as terras e levar Kagome. Mas, por mais que tentasse se recordar, não conseguia desvendar o quebra-cabeça. Era como se aquela lembrança houvesse sido apagada de sua mente.
Virou o rosto. Estreitando os olhos, concluiu que realmente existia um vazio em sua mente. Vazio que era incapaz de preencher e a incomodava, afinal de contas, isto significava que alguém mexera em suas lembranças. Alguém poderoso e esperto o suficiente, para fazê-lo sem que ela percebesse.
Ergueu a cabeça, e desviou os pensamentos para a mulher de vestes totalmente brancas. Seus cabelos negros estavam presos em um perfeito coque no alto da cabeça, e ela se aproximava lentamente dela. Com os braços cruzados, parou e voltou os olhos, de tom extremamente claro, para a Lua.
# O que vê? – questionou, sem deixar de olhar a Lua.
# Por que você não me diz o que você vê, Haru? - a encarou com seriedade, recebendo o olhar firme em troca.
# O que exatamente quer ouvir, Sora? – quis saber, deixando o desafio soar na voz. – Acaso pensa que gosto da situação no qual fui colocada?
# Sinceramente… sou incapaz de dizer… – deu de ombros. – Aliás… Suas enviadas acabaram de mandar a mensagem avisando que encontraram Kagome, mas a perderam de vista. – informou em tom baixo. – Ela desejou fugir. Não pensou duas vezes antes de correr. E, ao que parece, um Houshi os ajudou. Usaram habilidades para desaparecerem aos seus olhos.
"Habilidades que poucos tinham…" Haru pensou, enquanto sua testa se franzia levemente.
# Acredito que a Miko Kagome deva realmente detestar aquelas que a criaram, já que prefere viver a incerteza em um mundo desconhecido, onde pode ser morta a qualquer momento ao lado de um Youkai.
"A incerteza por estar com um Youkai… ou a certeza de ser morta por Yami, se estivesse conosco." Era-lhe fácil saber o que qualquer uma naquela situação escolheria.
# O que quer dizer com isso? – Haru pressionou a ponte do nariz, não gostando do tom utilizado pela Miko.
# Quero dizer, doce Haru… Que errou ao deixar que a filha da pecadora sobrevivesse para ser tratada desta maneira. Deveria ter ouvido meus conselhos e simplesmente a deixado viver exilada e aos cuidados de alguém de confiança… longe daqui. Ela deveria viver sem ouvir as difamações ao nome de quem lhe dera à vida, lhe atiçando a curiosidade por descobrir o verdadeiro pecado da progenitora. Talvez assim, ela não detestasse tanto Shima no Ten, e não passasse tanto tempo trancafiada no próprio mundo imaginando como seria sua vida longe daqui. Enquanto as outras não possuíam nem tempo para pensar na hora seguinte.
# Sabe muito bem que não tive essas opções. – Disse, pressionando a testa. – E realmente preferi ficar com Kagome sob meus olhos. Assim ninguém faria nenhuma besteira.
Sora decifrou o significado do brilho nos olhos de Haru, e a entendeu.
# Talvez pode ter sido melhor desta maneira… – murmurou, dando as costas para a Soberana e avançando alguns passos.
# E a saúde de Kagome? – questionou, se levantando.
# Nada mudou, Haru. A menina já está condenada. Sua essência está se extinguindo aos poucos.
# Ao menos sabe o motivo?
# Não… - sacudiu a cabeça, com pesar. – Deve estar bastante doente… e provavelmente nem deve saber disto, já que foge com o Youkai.
"Ou talvez fuja, justamente, por sabê-lo…" Haru cruzou os braços e os alisou como se sentisse frio.
# Esqueça as buscas.
# Esquecer? – Haru a olhou como se sentisse dor.
# Diga a Yami, que lamenta… mas não há nada o que possa fazer. Kaede? A avó nem ao menos gosta dela. Desejava tê-la por perto para punir a filha, e esquecer os pecados que cometeu. Quer a neta de volta, pois, talvez acredite obterá alivio pelo que fez a filha, e repetiu com a neta. Não vale a pena! Não vale a pena perder tempo com o que não pode ser recuperado e mudado. – fez silêncio. – Diga isso quando se encontrar com o Conselho.
Haru ergueu o olhar, sem saber quando havia deixado de encarar Sora.
# O Conselho exige um encontro, Haru, o mais depressa possível!
Haru franziu o cenho observando a Miko se afastar a passos lentos.
Mesmo após a séria discussão, que as separara e as fizera conviver pela formalidade, Sora lhe ajudava. Muitas vezes ignorava a mãe, porém, daquela vez, percebia que havia urgência nas palavras dela. Sora sabia o que era melhor para ela.
Assim que a perdeu de vista, entrou na cabana. Com um gesto simples do braço, fez o pássaro com a aparência de uma fênix branca, se aproximar e pousar sobre seu braço. Murmurou algumas palavras em tom baixo e a ave abriu as asas, soltando um fraco piado. Tomando o movimento da cabeça de Haru como autorização, a ave levantou voo e saiu pela porta da cabana.
Sorrindo levemente, voltou sua atenção para a esfera perolada, sobre o móvel de madeira fina. Era capaz de ver a névoa negra a começar a surgir no centro, vencendo o espaço que antes era de uma névoa clara.
Mordeu os lábios e virou o rosto para a entrada de seu lar.
Era sua vez de dizer adeus.
...
A Lua ainda brilhava no manto azul marinho tomado por estrelas, sobre as árvores daquela floresta invadida pelo silêncio.
Nenhum som alheio aos das águas podia ser ouvido, e por isso Kagome aproveitava o silêncio.
Sentada a margem do rio, analisava a imagem no espelho natural, sem realmente ver nada diante de si; estava perdida em seus pensamentos.
Há pouco despertara de um sonho estranho, e não havia conseguido voltar a adormecer. Sonho onde via sombras de pessoas caminharem de um lado ao outro de uma paisagem extremamente clara. E estas sombras, sussurravam frases, que era incapaz de entender, mas que lhe traziam uma estranha angústia.
Abaixou a cabeça ao sentir Inuyasha sentar ao seu lado, a encarando com curiosidade.
# Por que está acordada? – quis saber.
# Tive um sonho estranho e não consegui voltar dormir. – explicou. – E você?
# Não senti sua presença ao meu lado. – revelou, voltando os olhos para o rio. – Posso saber o que aconteceu para lhe deixar sem sono? – ela fez um gesto negativo, enquanto murmurava algo que pareceu ser 'não tem importância'. – Certo… Se não deseja me contar… Quer aproveitar essa sua ausência de sono para treinar? Creio que amanhã será difícil uma vez que precisaremos continuar com a viagem, até encontrarmos uma nova cidade.
# Mas e você? Não quer dormir?
# Não preciso dormir assim como os Humanos. – lembrou-a. – E então? Vai querer?
A donzela realizou um gesto afirmativo, e Inuyasha sentou-se na posição de lótus. De frente para ela, pediu para que ela fizesse o mesmo.
# Vou lhe ensinar a concentrar seus poderes. Acredito que vocês Miko precisam disso para criar barreiras, e conjurar a famosa Hama no Ya, se tiver suficiente poder para isso. – sorriu para ela. – Agora quero que feche os olhos. – Kagome o obedeceu. – Deixe de prestar atenção no que existe ao seu redor e pense apenas em seus poderes.
A Miko limpou sua mente de todos os pensamentos e concentrou-se apenas em seus poderes.
Ainda quando se encontrava preso em Shima no Tem, ele havia visto uma Miko mais velha realizar este treinamento com quatro outras, que deveriam ter a mesma idade de Kagome. Nenhuma delas conseguiu realizar o que a professora almejava: criar uma esfera de energia diante de seu corpo. Entretanto, a Miko não acreditava na capacidade de suas alunas, uma vez que explicara que apenas as Miko de nível avançado o conseguiam fazer.
Algo lhe dizia que Kagome conseguiria alcançar aquele objetivo.
Ela tinha poder. Conseguira ferir-lhe ao atirar uma pedra na primeira vez que a treinara.
Assim que a respiração da jovem se acalmou, a fraca camada de energia surgiu ao redor de seu corpo.
Kagome não deveria ser uma Miko fraca. Obviamente deveria ser mais poderosa que qualquer uma daquelas a viver na Ilha Sagrada. Ela era especial, e ele não conseguia compreender como as Miko não se deram conta. Se houvesse sido treinada, tinha certeza, Kagome seria temida e odiada por todos os Youkais.
# Tente concentrar toda sua energia em sua mão. – pediu em voz baixa, e a viu mover a cabeça em sinal positivo.
A energia aos poucos foi se dissolvendo para se concentrar nas mãos dela. E, minutos depois, uma pequena esfera de energia foi surgindo entre elas deixando Inuyasha maravilhado.
Kagome abriu os olhos, e olhou para o Príncipe ao ver a pequena esfera de energia pura, que agora flutuava entre suas mãos abertas. Sorriu, fechando as mãos e a fazendo desaparecer imediatamente.
# Eu consegui!
# Eu não tinha dúvidas disso. – murmurou. – Você não é uma Miko comum, Kagome. Os poderes espirituais daquelas Miko não chegam a ser metade dos seus, por isso conseguiu sobreviver ao pacto e ainda mantém seu corpo puro. Tão puro que o Houshi é incapaz de perceber que somos unidos. Por isso elas não desconfiaram de nada quando fizemos o Pacto de Sangue. – os olhos azuis o encararam sem entender. – Agora só falta entendermos o motivo que levou as Miko optarem por não treinar seus poderes.
# Você acha que elas sabiam? – perguntou, em tom baixo. – E que elas decidiram não me treinar por motivos alheios as condições de minha mãe?
# Acredito que sim.
Kagome mordeu o lábio, e abaixou a cabeça para encarar as águas do lago. Não conseguia acreditar que as Miko sabiam de sua capacidade espiritual e não a treinaram por um capricho. E colocaram a culpa de seu exílio entre elas, nos atos pecaminosos e desconhecidos de sua mãe: A única Miko que conhecera e que possuía poderes o bastante para fazer uma Hama no Ya.
Sentiu a mão dele tocar a sua, e sorriu-lhe fracamente. Erguendo a outra mão, tocou rosto másculo, apreciando o calor que vinha da pele dele.
Naquele momento tudo ao seu redor pareceu desaparecer. Apenas existiam eles dois, e o sol a aparecer lentamente no horizonte, revelando que eles passaram mais tempo ali, do que imaginavam.
# Obrigada! – ele a encarou sem entender. – Obrigada por ter aparecido em minha vida, Inuyasha.
# Eu quem agradeço por ter me salvo! – o Hanyou sorriu e segurou-lhe a mão para depositar um beijo em sua palma. Ela estremeceu com o contato. – Você decidiu por mim, antes mesmo de nos conhecermos.
A donzela retribuiu o aperto que ele lhe dava na mão, sorrindo mais ainda ao ouvir aquilo, enquanto imaginava ser aquilo a invadir-lhe o peito. Mas o momento dos dois acabou sendo interrompido pelo Houshi, a saltar sobre as costas de Inuyasha murmurando palavras cujo significado a donzela desconhecia. Mas Inuyasha mostrava conhecer bem, pois acertara um soco no Houshi fugitivo e o carregara pelo pescoço até o acampamento.
Sorriu, observando Inuyasha largar Miroku sobre o local onde dormira, e olhou para o lago, passando a mão delicadamente na superfície da água cristalina.
O que sentia pelo Hanyou?
Uma sensação desconhecida e ao mesmo tempo em que era maravilhosa lhe trazia medo.
Seria aquele o tão almejado… amor?
