Março

Março chegara sorrateiro, esgueirando-se pelo final de fevereiro e pegou a todos de surpresa. O clima começava a dar sinais que iria mudar para dar lugar à primavera ainda no final daquele mês; os dias passaram a ser ligeiramente mais longos e as nevascas deram uma trégua, apesar do vento frio ainda cortar o ar ao redor de Hogwarts sem sinais de que iria se render.

Os alunos, por conta disso, mostravam-se mais animados e arriscavam-se em passeios à beirada da Floresta proibida, voando em vassouras nos finais de semana e fazendo guerras de bomba de bosta, ainda se mantendo afastados do velho e violento Salgueiro Lutador. Alguns costumes pareciam nunca mudar, pensou Draco Malfoy enquanto observava naquele primeiro sábado do ano um bando de alunos de distintas casas se reunirem em torno de uma clareira, organizando uma gincana que parecia envolver duelar em cima de vassouras.

Riu quando viu um menino roliço do quarto ano de Corvinal cair no chão após estar a poucos pés do solo com a sua vassoura velha, uma Nimbus 2001, entre as pernas. O atual professor subistituto de Poções continuou a contemplar a brincadeira esperando pacientemente por uma outra aluna que provavelmente não viria.

Rose Weasley estava atrasava à pouco mais de uma hora e ele sabia que por mais que esperasse, a jovem ruiva não iria aparecer, assim como não aparecera no último fim de semana. "Assim como não aparecerá no próximo", pensou ele.

Draco arrependia-se do que havia acontecido da última vez que se encontraram para o estágio, não sentia nenhum orgulho no que fizera, afinal se comportara como um adolescente inconsequente, não tendo auto-controle suficiente para que não cometesse uma loucura e beijasse sua aluna. Uma menina de dezoito anos, tão jovem que poderia ser sua filha.

Inspirou e expirou profundamente tocando a testa num gesto de descrença. O que diria McGonnagal se ficasse sabendo? Seria expulso do colégio, evidentemente. Racionalizou. E se os pais da menina ficassem sabendo? Draco lembrava-se muito bem de Ronald Weasley e seus trejeitos teimosos, apesar de não vê-lo há mais de vinte anos. Aquele homem iria enfeitiça-lo pessoalmente e ele podia apostar todos os galeões do mundo que Hermione Granger, agora Sra. Weasley não iria impedí-lo. "Se eu tivesse uma filha e descobrisse que um professor com mais do dobro da idade dela a tivesse beijado enquanto ela chorava... Eu provavelmente iria querer este homem arruinado, não antes de acertá-lo com uma maldição imperdoável", voltou a ponderar com um ar desolado.

-O que eu estava pensando quando a beijei? - indagou-se em voz alta, como se a pergunta que reverberou nas paredes de pedras pudesse ser respondida de alguma forma.

Ao mesmo tempo ele sabia no que estava pensando. Rose era uma linda mulher. E talentosa, inteligente... E até mesmo seus modos petulantes e arrogantes o agradavam de uma maneira que pensava que nunca iriam agradar numa Granger-Weasley. Acima de tudo a dor que a menina sentia o atraiu como um ímã, e vendo suas lágrimas prateadas resfolearem por seu rosto redondo e delicado, apenas desejou tê-la nos braços e acabar com todas as mágoas, afugentando-as com seus beijos. Gostava de coisas quebradas e belas, de juntar seus pedaços como num quebra-cabeças.

Soltou o ar pela boca lentamente. Ainda assim, ainda que tivesse feito uma besteira, algo praticamente imperdoável, Draco queria a menina de volta às suas aulas. Ela evoluíra muito depressa para alguém tão jovem e assimilara o empirismo da Magia Oriental, controlando excepcionalmente bem seus sentidos mágicos, um talento que também não deveria ser desperdiçado por causa de um beijo precipitado e idiota.

Suspirou novamente e pôs-se de pé, ignorando os estudantes do lado de fora que começaram uma nova brincadeira em que tentavam derrubar um colega que equilibrava uma garrafa vazia de suco abóbora perigosamente na testa enquanto voava.

Ela vinha evidentemente o evitando, sentando-se sempre num canto mais isolado durante as aulas de Poções, não falando mais do que o necessário e até mesmo fazendo com o que o primo Potter entregasse seus exercícios escritos por ela; tudo para não ter que ficar um segundo a sós com ele. "Acho melhor deixar as coisas como estão e me manter afastado daquela menina. Mantê-la afastada de mim."

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Seu estômago protestou, revirando-se como se estivesse desconfortável naquela posição. Rose tocou a barriga sentindo-se enjoada, febril e irritada. Novamente os pensamentos voltavam a assombrá-la de maneira insistente e desejou ser atingida pelo Feitiço de Esquecimento para que todo seu tormento passasse e ela não precisasse se sentir tão envergonhada.

Até mesmo seus sonhos levavam-na a reviver de novo e de novo o beijo que trocara com Draco Malfoy, sentindo as mãos do homem sendo gentis ao tocar seu rosto e seus lábios quentes enxugando suas lágrimas com delicadeza.

"Corra e conte a Minerva McGonnagal. Conte como ele a beijou e tudo o que você queria vai ter acontecido." Mas não conseguia. Por mais que repetisse isso para si mesma infinitamente, não conseguia. A vergonha puxava-a para trás toda vez que tentava dar um passo.

Uma nova pontada cutucou-lhe o âmago, deixando-a ainda mais nauseada. "Eu o beijei de volta, eu agarrei o pescoço dele e o beijei." Lembrou-se, sentindo-se muito culpada e nervosa. Não podia contar esta parte da história para a diretora. E se ela usasse Veritasserum para arrancar toda a história dela? Teria que dizer que planejara que o homem a beijasse só para vê-lo fora da escola por um motivo que ela nem mais sabia qual era. Poderia até dizer que era por Slughorn, mas estaria mentindo uma vez que velho professor estava satisfeito em se aposentar já que estava velho e muito doente. Talvez a diretora a desprezasse por uma atitude tão infantil.

Fez uma careta e voltou os olhos para o suculento pedaço de porco assado no mel que deitava-se em seu prato, esperando ser saboreado, enquanto Rose lhe expremia um limão doce e cheio de sumo.

Segurou o porco com o garfo e deslizou a faca por sua carne que se cortou com facilidade tamanha a maciez. Ergueu o garfo a meio caminho da boca. Não estava com fome. Mastigou sem vontade ainda que o sabor delicado do mel e do limão se misturassem bem com a carne.

Empurrou o prato para longe, após mais umas duas garfadas sem ânimo.

-Posso comer o resto? - Hugo olhou-a esperançoso, quase babando quando a irmã murmurou que fosse enfrente.

O menino devorou os restos do prato da irmã, e quando terminou esticou os braços acima da cabeça para logo bater na barriga ligeiramente estufada com orgulho.

-O que deu em você nesses últimos dias? - quis saber Hugo, voltando-se para ela levemente indignado. - Você sabe que logo teremos que voltar para casa e enfrentar a comida do papai e da mamãe. Eles são famosos por serem como cozinheiros, excelentes bruxos.

Rose não pôde evitar sorrir, o irmão pareceu aliviado quando ela o fez.

-Rosy, eu sei que nós brigamos muito, mas você sabe que eu... bem... Eu até gosto de você... - disse ele, seus orelhas enrubescendo com fervor, assim como as do pai. - E... E que estou aqui... Caso você... Bem. Você sabe.

Ela afagou os cabelos do irmão com carinho, ainda sorrindo docemente. Sabia que o menino não costumava ser sentimental, preferindo fazer piadas a demonstrar o que se passava dentro de sua cabeça.

-Não é nada, Hugo. Não estou me sentindo bem agora, mas vai passar. - e completou rapidamente: - E não, não tem nada a ver com o casamento de Henry!

Após dar um beijo desajeitado na testa de Rose, Hugo transpassou as pernas pelos bancos compridos e foi se encontrar com um amigo da Lufa-Lufa que o chamou para acompanhá-lo até o lugar onde estavam realizando A Primeira Gincana Anual de Vassouras, Bexigas & Tombos Mágicos da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts idealizada por alguns estudantes do quinto ano e com o aval do Vice-Diretor da escola, Diretor de Corvinal e extravagante professor de Astronomia, Robert Moonstone.

Por causa da gincana, a maioria dos estudantes seguiu para os jardins com o intuiuto de participar ou apenas observar e torcer por seus campeões, tornando os corredores do colégio tão vazios e silenciosos que talvez fosse possível conversar em voz baixa com um aluno na torre mais alta, enquanto estivesse nas masmorras.

Os pouquíssimos alunos que prefeririam perpamenecer ali dentro, encontravam-se ou em suas respectivas Salas Comunais conversando e jogando cartas mágicas, ou na biblioteca estudando enfurecidamente para N.O.M.'s e N.I.E.M.'s que se aproximavam a cada dia.

Rose, como era de esperar, encontrou Albus Potter rodeado de livros sobre Runas Antigas, traduzindo com empenho enormes textos, relendo-os, corrigindo-os e começando outra vez. A menina puxou uma cadeira e acomodou-se a seu lado, fazendo menino pular para trás visivelmente assustado, enquanto tentava controlar os batimentos cardíacos com as mãos.

-Precisa chegar assim tão silenciosa?

-Não é minha culpa se você estava tão submerso nos seus manuscritos que não me viu chegar. - encolheu os ombros com inocência. - Onde está Lily?

-Na gincana, como todos os outros estudantes. - ele analisou-a enquanto abria um novo e grosso livro, deixando a capa cair pesadamente sobre o tampo de madeira. Madame Pince soltou um enorme "Psiu" do outro lado, ainda mais alto que o som que a livro fizera, na opinião de Rose.

-Não quer estudar Herbologia comigo? Estou com dificuldades em compreender o assunto que Prof. Longbottom passou nas últimas aulas. - Rose sorriu, tentando ser simpática. Al apenas folheou algumas páginas até achar o que estava procurando.

-Aos sábados você não tem estágio?

A menina girou os olhos, demonstrando a chateação. Tanto ele como Lily vinham lhe convencendo a voltar a estagear. Está certo que eles não sabiam que era Draco Malfoy o seu orientador, e muito menos sonhavam com o motivo que a fizera abandonar, mas os primos podiam ser muito irritantes quando queriam.

-Al, eu já te falei-

-Que está decidida e blábláblá. - cortou o menino, mirando-a desta vez com os olhos intensamente verdes. - E eu já disse para rever a sua decisão. O que pode ter acontecido de tão ruim para que você esteja tão irredutível?

Rose suspirou, sentindo o estômago doer à menção, levantou-se e plantou um beijo na bochecha do primo que corou quase instantaneamente.

-Se você não quer estudar Herbologia comigo, vou me retirar para não atrapalhá-lo. - e dando de ombros, se retirou.

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Draco observeu com curiosidade quando Minerva McGonagall levantou-se de supetão de sua cadeira ao centro da mesa de jantar do grande salão. Suas feições naturalmente severas estavam ainda mais endurecidas quando ela passou rapidamente por ele, seguida de perto pelo vice-diretor de Hogwarts, o professor de Astronomia. Neville Longbottom levantou-se após um tempo e outros professores o imitaram, inclusive o próprio ex-sonserino, que já tinha uma vaga ideia do que toda aquela agitação se tratava.

As mesas dos estudantes foram se calando a medida que percebiam a saída dos professores, e Draco se perguntou se os jovens pressentiram o mesmo que ele.

A sala da diretoria era espaçosa, mas ainda assim pareceu minúscula enquanto os professores se amontoavam e cochichavam entre si. McGonagall estava muito séria, os lábios crispados com a notícia que viria. Os quadros à sua volta ou estavam mudos, ou - tais quais os últimos diretores de Hogwarts, Professores Snape e Dumbledore - não se encontravam em suas molduras.

-O Prof. Horácio Slughorn está em coma mágico.

Os sussurros morreram ao mesmo instante e Draco percebeu que alguns professores pareciam que iam vomitar.

-Acabei de receber uma carta do curandeiro-chefe do St. Mungus, informando-me que seu estado é ainda mais grave. Aparentemente o pobre Horácio está sofrendo muito com a doença, e o coma foi induzido para que ele não sofresse tanto até... a sua hora. - falou a mulher, relutando contra a voz embaçada.

-O que ele tem, Minerva? - perguntou Tristan Boyle, o professor de História da Magia.

-Não se sabe, Tristan, aparentemente é alguma doença rara... Oh, Merlin, cuide do velho homem e lhe traga menos dor quande tiver que partir.

Após alguns instantes de silêncio, os professores começaram a se retirar lentamente, não antes de balbuciarem algumas palavras de pesar para a diretora. Antes que pudesse sair, Draco voltou-se para a mulher que um dia fora sua professora de Transfiguração.

-O recesso de páscoa e de primavera se aproxima. - falou. Ela o olhou por cima dos óculos que se equilibravam na ponta de seu nariz, sem nada dizer. - Peço permissão para visitar Slughorn no hospital.

-O que faria lá, Sr. Malfoy? - a voz da mulher soou estranhamente cansada, quase desiludida.

-Poderia tentar ajudar, com a minha magia.

Minerva McGonnagall o olhou mais atentamente, seus olhos dando um leve sinal de compreensão. O professor substituto de Poções continuou:

-Posso pelo menos tentar aliviar as dores que vem sentindo.

-Sim, pode ser uma boa ideia, Malfoy. Tem a minha permissão. - falou a mulher. - Mandarei uma coruja diretamente ao curandeiro-chefe. Tenho certeza que irá concordar com o meu pedido.

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O ânimo de Rose melhorou assim que colocou os pés dentro de casa. Para sua felicidade sua mãe não estava dando plantão e ela pode abraçar Hermione como costumava fazer quando era pequena, cheia de medos e insegurança.

-Como ele está? - quis saber a garota, aconchegando-se ainda mais.

Ela ouviu a mãe suspirar. Era óbvio que o antigo professor de Poções não estava nem um pouco bem. Como uma pessoa em coma poderia estar bem? Rose sentiu-se estúpida por perguntar tal coisa à mãe. Ela até quis pedir desculpas e deixar o assunto para lá, mas Hermione a guiou para seu quarto, a deitou em sua cama e alisou seus cabelos ruivos como os do pai.

-Estamos fazendo o possível para que ele não sinta mais tanta dor quanto estava sentindo anteriormente, querida. - falou num murmúrio doce. - Mas infelizmente não podemos fazer mais do que isso.

Rosy sabia quando a mãe estava se sentindo mal, Hermione Weasley sempre fora uma mulher que tivera todas as respostas na ponta da língua. A misteriosa doença de Slughorn deveria a estar consumindo por dentro lentamente, sentindo-se culpada por não poder dar um diagnóstico e tratá-lo corretamente.

-Posso vê-lo? - a garota agora afagava a mão carinhosa da mãe entre as suas, também tentando da melhor maneira possível confortá-la.

-Posso pedir para o curandeiro-chefe que libere uma curta visita. Talvez Slughorn sinta a sua presença lá, não é? Ele gostava tanto de você...

-E eu dele. - respondeu, recordando-se com saudosismo da risada farta do professor de Poções e até mesmo do seu jeito excêntrico.

Hermione deitou-se ao lado da filha na pequena cama de solteiro, transpassando um braço para que Rose apoiasse a sua cabeleira vermelha. As duas ficaram em silêncio, observando o teto do quarto que ainda era enfeitado com pequenos adesivos de estrelas fluorescentes que brilhavam quando a luz se apagava, presente dos avós Granger quando fizera dez anos de idade.

-Você fez seu pai subir numa escada e colar cada estrela do jeitinho que você queria. - comentou a mulher, rindo ao se recordar. - Você sempre teve tudo o que quis de Ron. Por um tempo eu tive medo que você ficasse muito mimada, mas hoje acho que fizemos um bom trabalho.

Rose corou no escuro. Ela era uma menina mimada, sabia disso. E o pior é que gostava, de certo modo, por isso sempre estimulava as investidas dos garotos mesmo que não quisesse nada com eles. Por isso também vestia uma máscara de boa menina para as pessoas, fazendo-as mentê-la num pedestal.

"Foi por capricho também que perseguiu Draco Malfoy" lembrou-lhe uma vozinha no fundo de sua mente, fazendo uma vergonha ainda mais profunda percorrer-lhe o corpo, num calafrio.

E no final tudo isso era para quê, se sempre sentia-se só no final das contas? E por que sentia-se só se tudo o que fazia era empurrar as pessoas para longe de si, apenas permitindo-as se aproximar quando lhe era conveniente? Rose quis chorar. Até mesmo para com as pessoas que a amavam tal qual era de verdade, ela era maldosa e frequentemente os destratava sem motivo algum. Quantas vezes ela esquecera de agradecer a Hugo, Lily e Albus por estarem sempre ali para ela?

Foi como um soco no estômago e Rose Weasley quase sentiu o sabor de sangue na boca. A verdade era que tinha sempre medo. Medo de desapontar os outros, de se mostrar com franqueza, sem máscaras, sem malícias. Tinha medo de ser odiada, de ser desprezada, ignorada. Era por isso preferia mantê-los a uma certa distância segura para que ela, ela, egoísta como era se manter intacta. "Foi por isso que fugiu de Malfoy quando ele sentiu tudo isso que guardava em seu coração, trancado à sete chaves?" A voz voltou a soar em seus ouvidos.

-Como vai o seu estágio com o professor Malfoy? - a voz de Hermione quebrou o silêncio, trazendo-a de volta tão repentinamente que Rose pensou que seus pensamentos pudessem ter sido ouvidos.

Sentiu seu corpo enrijecer com a menção do nome do atual professor de Poções.

-O-o quê? - gaguejou. - Como, co-como sabe disso? Nem Al e Lily, nem mesmo o bisbilhoteiro do Hugo sabe disso.

-Ora, Rose, sou sua mãe, sei tudo que se passa ao seu redor. É o meu papel! - falou a mulher de maneira descontraída e a menina sentiu-se um certo alívio na maneira que falou. - A diretora McGonagall escreveu pessoalmente para informar a mim, seu pai e Harry sobre o novo professor, e quando a senhorita foi até ela pedindo um estágio com ele, McGonagall escreveu-me novamente.

-O papai sabe? - Rose se viu perguntando de maneira mais curiosa que receosa.

-Claro que sabe. Ele não gostou muito da ideia, como você deve imaginar, mas eu e seu tio Harry o convencemos do contrário. Seu pai é um cabeça-dura mas tem bom senso. Se você queria ter estágio com Draco Malfoy, tínhamos que confiar em você.

Rose sentiu novamente o sentimento ruim de vergonha passear pelo seu corpo. O que a mãe faria se soubesse que ela começara o estágio apenas para atrapalhar a vida do homem? Provavelmente ficaria muito insatisfeita com suas atitudes infantis.

-E então? Como vai o estágio? Você ainda não me respondeu.

-Bem - mentiu Rose, com remorso demais para admitir que tinha saído. - Ele sabe muito sobre medicina oriental.

-Conte-me mais, por favor - Hermione se remexeu, tentando melhorar o peso que a cabeça da filha fazia sobre o seu braço.

-Sim - concordou a garota, e rapidamente começou a discorrer sobre o método de cura que havia sido iniciada, e ficou muito surpresa ao constatar que aprendera muito mais do que se lembrava.

O sentimento de culpa aliviou um pouco em seu peito. Pelo menos não havia desperdiçado seu tempo atrás de apenas uma vingança sem sentido. Agora podia ver isso. Draco Malfoy lhe ensinara muito e com boa vontade, apesar de toda a sua teimosia e relutância em admití-lo como um bom professor e, até mesmo, um bom homem.

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Al Potter estava levemente orgulhoso de si mesmo. Vinha conseguindo conversar com Rosy Weasley de maneira natural, como sempre havia feito durante toda a sua vida, sem se sentir tão desconfortável ou sentir as estranhas borboletas em seu estômago. Claro que a presença de sua irmã Lily e seu primo Hugo facilitavam as coisas para ele, e Albus podia contar casos e rir das histórias sobre A Primeira Gincana Anual de Vassouras, Bexigas & Tombos, exageradamente encenadas pelo primo de cabelos intensamente ruivos.

Ele até mesmo dividiu, no segundo dia de recesso de Páscoa, suas anotações de Herbologia que a prima tanto queria, debruçados sobre a grande mesa d'A Toca, servindo-se de bolinhos de caldeirão que a Vovó Weasley sempre fazia questão de preparar quando eles vinham visitar.

Por isso ele havia aceitado visitar o antigo professor de Poções quando a menina pediu um tom baixo e discreto, no meio de uma pequena música rimada que ele mesmo havia composto para lembrar o passo a passo dos cuidados da criação de Tentáculos Venenosos caso o assunto caísse nas provas de N.I.E.M's.

-Quero que venha comigo, Al. Só você - murmurou a menina, baixando os olhos, ligeiramente encabulada em ser tão direta.

Incapaz de negar, totalmente enfeitiçado por ela, e segurando o tom num dó maior bem na parte em que explicava que as sementes dos Tentáculos eram Substâncias Não-Comerciáveis Classe C ("Cêêêêêê!"), Albus Potter concordou, desafinando a melodia e sentindo-se secretamente feliz por ter sido a opção número um de Rosy.

Ambos sete-anistas pararam silenciosamente em frente à fachada de uma loja de departamentos trouxas Purge & Dowse Ltd, que exibiam manequins com as piores perucas e roupas (há muito tempo fora de moda) que eles já haviam vistos em suas vidas. A placa com os dizeres "Fechado para Reformas", escritas em letras tortas e desgastadas não impediram os primos de encarar as vitrines com paredes de tijolos expostas, aparentemente prestes a cair, com determinação.

Rose Weasley adiantou-se ajeitando os cabelos, aproximando-se de uma manequim aparentemente inofensiva num tom sério.

-Viemos visitar Professor Horácio Slughorn. - disse, ao mesmo tempo que tirava do bolso dianteiro de suas vestes, um envelope verde com a caligrafia esbelta e caprichada de sua mãe. - Temos autorização da curandeira Hermione Weasley.

Por alguns segundos a feia boneca permaneceu imóvel, e para qualquer trouxa que pudesse passar ali naquele exato momento, pensaria imediatamente que aquele jovem casal, vestidos de maneira levemente excêntrica, deveria possuir algum nível de doença mentalpara estar conversando com manequins velhas de maneira tão séria. Mas logo a boneca moveu-se magicamente, fazendo uma reverência e indicando o caminho que poderiam entrar. E Rose e Albus, dando as mãos com firmeza, atravesseram a barreira mágica para dar de cara com a Recepção do Hospital St. Mungus para Doenças e Acidentes Mágicos.

Al puxou a prima com delicadeza pelo antebraço evitando que a garota esbarrasse em dois medibruxos que passaram com certa pressa por eles, murmurando gravemente entre si e fazendo esvoaçar suas vestes verdes-claras. Após um breve olhar de agradecimento por parte da garota (gesto que fez Al enrubescer discretamente), ambos seguiram para o balcão de atendimento onde entregaram a carta de autorização de visita, onde uma bruxa de cabelos coloridos e olhar cansado se encontrava.

Instantes se passaram enquanto a recepcionista verificava a autenticidade da carta e, com um tom de voz tão entediado quanto suas feições, murmurou que seguissem para o quarto andar, instruindo-os a procurar pelo quarto 412.

O antigo professor de Poções dos grifinórios estava instalado ao final de um longo corredor da ala de Danos Causados por Magia, ainda que a origem de sua doença fosse de fato um grande mistério. Rose e Albus adiantaram-se pelos corredores, evitando olhar diretamente para outros quartos onde dezenas de bruxos e bruxas se recuperavam de graves azarações e feitiços que, por algum motivo, haviam sido alvo.

Albus deu duas batidinhas leves na porta antes de empurrá-la, apenas para sinalizar a sua entrada para seja lá quem estivesse também de visita por ali. Surgiu para ele dois homens que pareciam conversar algo urgente entre si, num tom baixo e profundo, dando a impressão que discordavam veementemente sobre algo. O primeiro homem usava o uniforme de curandeiro do St Mungus, de estatura normal, rosto cético e inteligente. Ele foi o primeiro a parar de falar assim que avistou os recém-chegados. O segundo homem por sua vez ambos estudantes conheciam bem. O rosto fino e pálido de Draco Malfoy mirou-os de maneira indiferente e o monitor-chefe ponderou que haviam acabado de interromper um assunto provavelmente muito importante.

-A senhorita deve ser filha de Hermione Weasley. E o senhor, deve ser filho de Harry Potter - o medibruxo a quem Al desconhecia totalmente quebrou o silêncio, caminhando em sua direção, ainda com as feições sérias, e estendendo a mão de maneira cortês. - Meu nome é Fenrir Jordan, sou o medibruxo encarregado pela saúde do paciente.

Rose e Al cumprimentaram-no, deixando suas mãos serem balançadas entre as dele, ainda bastantes surpresos com a presença do atual mestre de Poções. Al lançou um olhar preocupado para Rose. Ele sabia muito bem que a menina não era grande fã do homem, e que tentara infernizar a vida dele por nenhum motivo aparente que senão seu próprio capricho e orgulho durante os primeiros meses de aula. Apesar da menina ter parado com todas aquelas atitudes infantis que estavam prejudicando a casa de Grifinória, talvez a presença de Malfoy ali naquele hospital, no quarto de Slughorn - declaradamente o professor favorito de Rose - pudesse ser um grandioso motivo para Rose Weasley voltar a implicar com o homem novamente.

Para total alívio do garoto, no entanto, a menina não pareceu irritada ou afrontada. Ela apenas fez um aceno de cabeça quando o professor os cumprimentou e ficou ali parada, voltando sua total atenção ao curandeiro-chefe que voltava a falar-lhes.

- Malfoy e eu estávamos discutindo o estado de saúde de Horácio agora mesmo. - comentou o homem e Al não deixou de observar uma certa nota de desprezo quando se referiu ao atual mestre de Poções de Hogwarts. - Ele gostaria de executar uma experiência-

-Não é uma experiência. - Draco Malfoy que até agora se mantivera calado, cortou num tom visivelmente ofendido. - Eu já realizei a Cura centenas de vezes e o resultado é um fato estudado. Caso não funcione em Slughorn, o que eu duvido muito, o máximo que irá acontecer é ele continuar exatamente como está. Isso não irá, de maneira nenhuma, afetar negativamente sua saúde.

Fenrir Jordan torceu a boca com má vontade e estava prestes a falar novamente, mas mais uma vez foi interrompido por Malfoy.

-Eu possuo uma autorização do curandeiro-chefe, um pedido especial vindo da Diretora McGonnagal. Não continuarei a discutir algo já decidido com o senhor. Agora se puder me dar licença...

O curandeiro fez uma breve reverência antes de sair com passos carrancudos, os lábios brancos de tanto ruminar argumentos que obviamente foi impedido de dividir.

-Bem, acho que também vamos indo, para não atrapalhar. - Al disse, finalmente, sentindo-se constrangido pela cena que acabara de presenciar e levemente intimidado pela presença do professor ali.

-Não há mal. Podem ficar se quiserem.

O garoto até quis insistir que ele e a prima poderiam esperar um pouco lá fora e fazer a visita apropriadamente para Horácio Slughorn quando ele tivesse terminado o tal procedimento chamado de 'Cura', mas Rose puxou uma cadeira e sentou-se ao lado outro da cama de Slughorn quase ao mesmo tempo que Professor Malfoy acomodava-se ele mesmo numa cadeira e tocava mão do paciente entre as suas e cerrando os olhos.

"Será que irá mesmo funcionar?" pensou Albus. Ele estava observando com cautela e curiosidade o procedimento. Aparentemente nada estava acontecendo, mas mesmo assim o professor de Poções se manteve na mesma posição por um longo período, enquanto Rose Weasley mantinha-se calada com o olhar atento, quase sem piscar, que passava de Sughorn para Malfoy e de Malfoy para Slughorn.

Quando finalmente o atual professor de Poções abriu os olhos, soltando as mãos de Horácio Slughorn, Al viu, lentamente os olhos do antigo professor de Poções se abrir. O garoto não se importou em deixar seu queixo cair e quase soltou uma grande exclamação quando ouviu o homem se esforçar para falar. Rosy sorriu amplamente e soltou um gritinho rouco quando o antigo professor de Poções a fitou e sussurrou algo muito parecido com o seu nome.

-Não se preocupe, Slughorn, não precisa se apressar. - falou Malfoy num tom de voz brando, quando ele fez menção de tocar a garganta. - O senhor ainda está se recuperando.

-Brilhante! - murmurou Al mais para si mesmo do que para ser ouvido, e não deixou de notar que os lábios de Draco Malfoy desenharam-se num breve sorriso. - Como...? Mas... Como?

O garoto quis reorganizar os pensamentos para transformá-los numa pergunta mais sensata, só que quase ao mesmo tempo Fenrir Jordan caminhou para dentro do quarto murmurando um "estava levando muito tempo" quando também percebeu o que estava acontecendo.

-Mas como... ? - ia dizendo o curandeiro, como se também houvesse sido atingido pela mesma bagunça mental que o jovem grifinório.

-Ele está bem! Veja! - Rose falou contentíssima e antes que mais alguém tivesse a chance de gaguejar, ela voltou-se para o paciente. - Professor Slughorn, o senhor está no St. Mungus. Logo, logo ficará bem.

O velho homem sorriu fracamente e voltou a tentar falar, uma tentativa que novamente soou como um sussurro fraco e rouco.

-Precisarei voltar amanhã para continuarmos nosso tratamento, Slughorn. Vamos sem pressa. Voltará a falar em breve - informou Malfoy, levantando-se, enquanto o medibruxo recém-chegado aparentemente ainda tentava processar o que acabara de presenciar.

Rose, como Al pode reparar, também se levantou acompanhando o movimento do professor, mastigando algo invisível em sua boca, a testa levemente franzida como se estivesse refletindo rapidamente sobre algo.

-Jordan... - cumprimentou o professor de Poções ao alcançar a porta, para também voltar-se para os alunos. - Potter. Weasley.

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Tomando uma decisão e sem esperar que mais alguém a impedisse ou sequer lhe dirigisse a palavra, Rosy Weasley disparou pelos corredores do St. Mungus.

Ela e Al haviam acabado de se despedir de Horácio Slughorn que ainda parecia apenas dotado de forças para sorrir e piscar, acompanhados de um ainda muito abismado Fenrir Jordan. Os jovens grifinórios estavam ouvindo um relato confuso do curandeiro encarregado (que também soava bastante irritado) e Rose já estava perdendo sua paciência com a incredulidade do homem.

-Não posso garantir que o quadro dele irá se manter - dizia. - Não sei que tipo de método Malfoy andou praticando por aí, mas creio que devamos levar em consideração uma possível recaída de Slughorn...

-O senhor não tem vergonha? - interrompeu a menina, parando abruptamente e virando-se para o medibruxo, as mãos bem seguras na cintura. - O Professor Malfoy acabou de curar Slughorn. Algo que ele fez em menos de duas horas, enquanto o senhor esperava de braços cruzados que ele acordasse e saísse andando há meses!

Albus fazia uma expressão de extremo choque e parecia prestes a explodir em milhões de desculpas para Fenrir Jordan que agora se encontrava vermelho e com a cara muito zangada. Sendo assim, ela deu de ombros e andou em passadas largas e decididas, alcançando a saída do hospital em poucos segundos.

Ao atravessar a barreira que a levaria de volta para a frente da decrepta loja de roupas, Rose se surpreendeu ao avistar ali de costas, andando a passos lentos e parecendo um pouco perdido em pensamentos, o professor de Poções.

Respirando fundo e sentindo seu coração palpitar estranhamente dentro de seu peito, a garota correu, deixando seus cabelos de fogo balançarem por suas costas.

-Malfoy! Professor Malfoy! - falou, as palavras tremendo cada vez que um pé tocava o chão. - Draco!

O homem voltou-se para ela. Ele esperou calado, com uma expressão indecifrável, enquanto ela parava e tomava fôlego.

Rosy tocou o tórax tentando acalmar a respiração, evitando entrar em contato direto com os olhos cinzentos de Draco Malfoy. Por que ela havia corrido tão espontaneamente? O que queria lhe dizer? Ele acabara de reavivar Slughorn, provavelmente utilizando a mesma técnica que ele estivera lhe ensinando nos últimos meses em Hogwarts. Uma técnica que não utilizava varinha ou encantamentos. Um procedimento fascinante de exposição sensorial, como ele gostava de dizer.

Como se um raio houvesse lhe atingido, Rose sentiu enrubescer, percebendo que havia - de maneira veloz, mas efetiva - feito contato com os olhos do homem. Algo que lhe atingiu a espinha, fazendo-a se arrepiar.

-Então... ? Eu realmente preciso ir, então devo pedir para que se apresse, Weasley - o tom de voz de Draco era frio quando pronunciou seu nome e mesmo sentindo seu estômago embrulhar, Rose conseguiu murmurar:

-Obrigada - Draco Malfoy piscou, a menina se encolheu mirando os próprios pés e escolhendo as palavras que se seguiriam. - Slughorn é muito importante para mim. Eu... estava muito preocupada com sua saúde. Então... vê-lo acordado novamente... é uma grande alegria.

-Entendo - murmurou ele, monossilábico.

Um silêncio breve pairou no ar por mais alguns instantes e Rose percebeu que o homem se preparava para voltar a seguir seu caminho, quando ela estendeu a mão e puxou-o pelas costas das vestes sem pensar. Ele a encarou com um brilho no olhar, e Rose soltou-o sobressaltada.

-G-gostaria de voltar a frequentar suas orientações. - disse de uma vez e tocou os cabelos de maneira nervosa, jogando-os para trás.

Por um segundo, ela até pensou que o homem fosse apenas desaparatar, deixando-a sozinha ali, ou apenas negar seu pedido no mesmo tom frio que vinha lhe dirigindo até então, mas surpreendeu-se ao fitá-lo, que ele havia esboçado um pequeno sorriso, enquanto carregava um olhar que a menina definiu como cansado.

-Bem, não vejo porque dizer não - ponderou o homem, desta vez ele mesmo passando a mão nos próprios cabelos loiros-brancos, apalpando a nuca. - Vejo-a então no primeiro fim de semana de volta às aulas. Mesmo horário, mesmo lugar.

A boca de Rose tentou falar, mas contorceu-se num sorriso brilhante e aliviado. Ela realmente estava satisfeita em voltar a estudar Magia Oriental com Draco Malfoy. Ela sussurrou um 'muito obrigado' e ele ,acenando com a cabeça, voltou a girar o corpo para seguir seu caminho. Ela mesma estava se preparando para voltar ao St. Mungus e encontrar com o primo que havia deixado para trás, quando ouviu a voz do professor de Poções alcançá-la novamente. Ele ainda estava de costas, apenas parado a alguns passos de distância.

-Vamos manter o... ocorrido... no lugar que lhe é devido: no passado, certo?! - e desaparatou com um estalo, sem se importar em receber uma resposta.

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