— Suren... Hoje começamos seu treinamento. — dissera Sasuke — Já está completando treze anos e, confesso, é um ano mais cedo do que eu pretendia, mas acredito que já podemos começar. Especialmente devido ao seu treinamento com a Godaime...

— Hai. — ela tentava esconder o entusiasmo em sua voz.

— Vou prepará-la para um grande acontecimento. — diante disso, Suren piscou sem entender.

— O que é, otousan?

— Não cabe a você saber agora. Vamos lá, me mostre o que tem.

E ela realmente foi com tudo. Ativou o Sharingan e, sem dó nem piedade, investiu contra ele. A expressão que assumia durante a luta o encheu de algo bem parecido com orgulho: parece que as possíveis baboseiras que ela poderia ter ouvido da boca de Tsunade não fizeram tanto efeito. Caso tenham feito, segundo aquela primeira impressão, poderia ser facilmente revertido.

Deixou que ela acertasse um soco em sua barriga. Ora, ora... Finalmente algo em que ela realmente parecia com Sakura: a força física. Caído no chão com a respiração levemente desregulada, tossindo sangue, ergueu o olhar.

Suren sorria vitoriosa.

Ele sorriu de volta. Sorriu e puxou uma kunai, mirando-a na altura do peito de sua filha.


— Suren! Mais rápido! — ele mal conseguia falar.

Ela nunca vira Shaoran daquele jeito antes. Ele sempre era calmo, pensativo, cauteloso. Agora seus olhos pareciam atormentados, arregalados de puro terror. Suren fechou os olhos sem parar de correr, ouvindo apenas os passos de Shaoran e Sai-taichou cada vez mais rápidos contra o solo. E os próprios.

Estavam no meio de uma missão quando a notícia chegou. Uma tentativa de ataque ao Hokage durante uma viagem deste à Suna. Ele havia sido ferido. Felizmente, essa tal missão era algo bastante simples, de modo que pôde ser abandonada no ato. E já estava quase conclusa mesmo.

Suren gostaria de dizer que lhe trazia alívio a certeza de que otousan estava com ele no momento do ataque.

Abriu os olhos e fitou Shaoran com um ar levemente impaciente.

— Você pode se acalmar, Shaoran. Correr desse jeito não vai mudar nada. Está se cansando à toa. — ela nunca tinha real intenção de soar tão ríspida. Sai, lado a lado com Suren, espiou com o canto dos olhos em sua direção.

— Ficou doida, Suren?! Meu pai está ferido!

Ela desviou o olhar rapidamente quando as palavras chicotearam-lhe o rosto.

Pensou nos três anos que teve de treinamento com Sasuke e em como estava sempre atormentada pelo jeito impessoal de seu pai, pela sensação de que havia algo por trás daqueles olhos e dentro daquele coração que ela nunca conseguiria alcançar. Quando lhe questionava sobre algo (inclusive sobre sua "verdadeira" mãe; tudo o que descobrira sobre Sakura foi através de Tsunade) ele não hesitava em responder de forma ríspida: "saiba que tudo o que você sabe é o suficiente por hora. Agora, vamos treinar mais uma vez seu Chidori. Não está bom o suficiente.".

O que ela poderia dizer?

Ou melhor: sussurrar, cabisbaixa. "Hai".

Sentia-se estranha em não conseguir entender os sentimentos e a preocupação de Shaoran.


Chegaram ao hospital e Shaoran foi diretamente em direção a Hinata, que acabava de sair do quarto onde Naruto estava internado. Ainda não havia acordado. Suren se apressou em alcançá-los e ouviu as seguintes notícias: os ferimentos não eram tão graves e a equipe médica já tinha tudo sob controle. Naruto estava bem, descansando.

Investigações corriam para desvendar o responsável pelo ataque.

— Eu sempre digo a Naruto para não ficar viajando demais, mas ele sempre foi muito ligado a Gaara-san e não me escuta... — a voz de Hinata era desolada, os olhos perolados perdidos e cansados.

— Está tudo bem agora, kaasan. Touchan vai se recuperar. Ele é forte como um touro! — Shaoran tentava tranquilizá-la com um sorriso que lembrava muito o de Naruto.

Suren roia a unha do polegar quando olhou, por acaso, por cima de seu ombro. Ali estava Sasuke. Encostado na parede oposta à que se encontrava a porta do quarto de Naruto. Uma perna flexionada apoiada na parede, a outra esticada. Tinha a mão enfiada nos bolsos da calça. Fitava o chão.

Algo na aura que o rodeava fez com que Suren encolhesse os ombros.

Pediu licença a Hinata e Shaoran e foi até ele. Estavam frente a frente agora, mas Sasuke não moveu um músculo. Suren esperou. Um, dois, três minutos... Quem sabe? Por fim, suspirou. Suspirou e estendeu a mão para tocar a de seu pai. Quis perguntar o que acontecera, como ele pôde deixar Naruto jisan ser atingindo daquela forma, mas se viu incapaz disso.

Otousan...

Mas antes que conseguisse alcançá-lo, Sasuke estava dando as costas e caminhando na direção da saída. Suren reuniu as mãos ao peito, olhando com tristeza para a silhueta de seu pai. Algo estava errado. Terrivelmente errado. Mais errado que o normal. Sentiu um bolo formando em sua garganta e baixou a cabeça para que sua franja longa e negra cobrisse seus olhos.

Rangeu os dentes de pura raiva.


Chegou em casa após dar uma olhada em Naruto e deduziu que Sasuke estivesse trancado no quarto. Fez o jantar. A comida preferida dele. Só para "variar". Queria agradá-lo, se livrar daquela sensação... Sentir tudo normal de novo, ter o chão seguro debaixo de seus pés. No fundo, entretanto, ela sabia: que tudo isso era uma ilusão. Bem... Enfim. Arrumou a mesa como manda o figurino e colocou uma flor em um vaso no centro. Depois, foi até a escada e o gritou.

Assustou-se quando Sasuke desceu trajando sua roupa de treinamento. O sorriso nos lábios de Suren ao menos teve a chance de nascer. Ela deixou suas mãos caírem mortas ao lado do corpo e ficou olhando na direção do pai, só esperando...

— Prepare-se. Vamos treinar. — na mosca.

— Mas... A essa hora da noite? Otousan, eu fiz... — e se virava para apontar a mesa.

— Você ainda não domina todas as variações do Chidori. Falta pouco, mas ainda falta. — ele já estava saindo pela porta. Mas antes de sair, parou e sem se virar para ela novamente disse — Preciso de você pronta essa madrugada. A hora chegou.

O coração da menina bateu mais forte.

— Ha... Hai.


Naruto se perguntava quando é que, com diabos, Sasuke apareceria. Estava demorando demais! Certo que fazia apenas algumas horas que ele acordara. Mas depois disso dormira de novo. Agora já estava acordado mais uma vez e nada daquele teme aparecer...

Ouviu alguém agarrar a maçaneta e seus olhos azuis se encheram de esperança.

— Ah, Sai. É só você. — Naruto não escondeu a decepção em sua voz. Sai ficou parado durante um segundo na porta e depois foi até a maca, sentando-se na beirada do colchão.

— O que aconteceu, Naruto?

— Eles vieram não sei de onde. Estávamos despreparados...

— Sasuke não estava lá?

O Uzumaki arqueou uma sobrancelha. Sasuke era considerado seu guarda costas.

— Estava. Mas como eu disse: não esperávamos algo assim. — remexeu-se desconfortável no colchão. Não gostava de acreditar que estava dizendo aquilo principalmente para si mesmo — Sai, você quer me dizer alguma coisa? — ele conhecia bem a criatura.

Sai fitou o lençol inexpressivamente. Sabia que nada daquilo era da sua conta, mas segundo os livros que lia, sempre que alguém acha que um de seus amigos está em perigo, o melhor é deixá-lo saber disso. Aliás, não achava que Naruto estava necessariamente em perigo... Mas havia algo que precisava conversar com ele.

— É sobre Suren. — disse por fim. Naruto o fitava intensamente, esperando por uma continuação — Você sabe que com toda essa coisa de "sem emoções" eu me dou muito bem. Eu não a conhecia muito bem até sair nessa missão com ela, mas... Lembro-me da primeira vez que vi Sasuke-kun. Faz muito tempo... No esconderijo de Orochimaru. Aquela vez, lembra? Pois. A recordação do medo que senti ao olhar naqueles olhos é vívida em minha mente e... — uma breve pausa — Diferente do pai, não acho que Suren esteja sequer ciente desse efeito que causa nas pessoas, mas quando me olha direito nos olhos, eu sinto uma pequena fração desse medo. Como se fosse impossível ler seu próximo movimento ou saber o que ela vai dizer. E sempre as possibilidades não parecem tão boas...

Fez um longo silêncio.

— Acha que não sei disso? — Naruto respondeu sério, como se aquele fosse um assunto que o perturbava profundamente. E era mesmo — Foi a criação que Sasuke deu a ela. Sempre distante, impessoal, frio. Tsunade-baachan e eu já discutimos isso várias vezes, inclusive durante o treinamento de Suren. Nos correspondíamos regularmente; ela me passava relatórios sobre o crescimento da menina. Tentamos ajudar... Mas aquela criança é uma Uchiha. Querendo ou não, a genialidade está em seu sangue. Bem como a imprevisibilidade. Ela não herdou absolutamente nada de Sakura-chan além da força bruta, mas no que isso adianta? Para piorar, aquela menina ama Sasuke, apesar de tudo. Como ama...

— Pelo pouco que vejo, me parece que Sasuke-kun envolveu a menina e a si mesmo em uma bolha impenetrável. — acrescentou Sai — Você acha que ele pode usá-la para —

— Eu gostaria de acreditar que não, Sai.

E, quando Naruto virou o rosto para a janela, a dor em sua voz e em suas feições era quase palpável. Uma dor que Sai nunca vira antes ali, e olha que de tanto observar, conhecia aqueles traços até que bem.


— Quero que me ataque diretamente com o Chidori.

Ela o olhou vaziamente e endireitou o corpo. Mas não fez nada a principio.

— Vamos! O que está esperando?! Eu disse para me atacar!

Suren estreitou os olhos tomados pelo Sharingan. Estava cansada de se perguntar por que seu pai a dizia para fazer essas coisas, mas se via ainda mais descrente diante da frustração de perguntar e receber uma resposta sempre ríspida. Seu pai agora queria morrer? Bem. Que fosse; ele sempre sabia o que estava fazendo. Baixou a cabeça, fez os selos com sua rapidez habitual e começou a concentrar o chakra. Esse foi tomando a forma do jutsu dos Mil Pássaros e ela se deliciou durante um tempinho com o barulho das correntes elétricas.

Depois, ergueu a mão e começou a correr na direção do pai, digo, alvo.

— Chidori!

Kawarimi no jutsu?

Na mesma posição que seus pés alcançaram o chão se viraram, derrapando, e Suren procurou com os olhos urgentes varrendo a clareira por seu pai. É claro que ele não se exporia daquela forma. Mais uma vez, um teste. O encontrou parado a pouca distância, os braços cruzados e um sorriso sombrio nos lábios. Vendo que ele não tinha o Sharingan ativado, desativou o seu também.

— Estou orgulhoso de você, filha.

O queixo de Suren caiu em total e genuína surpresa. As palavras ecoaram em sua mente durante um longo minuto. Estou orgulhoso de você. Ela não sabia nem o que sentir. Depois de todo esse tempo... Finalmente...

— Agora sim posso dizer, com certeza, que está pronta. — continuou Sasuke, se aproximando dela. Pousou uma das mãos em seu ombro e Suren olhou, atônita, para o sorriso que de repente se tornara gentil — Lembra-se do grande acontecimento que te falei? A hora está aqui. — alargou o sorriso que agora voltara a ser obscuro. Porém, algo no mesmo não convencia — Vou matar Naruto. E você vai matar Shaoran.

O que?

— Otousan... — os olhos dela ardiam, sua voz falhava, a garganta se encontrava seca.

— Vou mostrar tudo a você agora. Desde o começo... Toda a verdade. — exatamente como Itachi fizera daquela vez. Infalível — Mangekyo Sharingan.