Personagens de Stephenie Meyer. História de Tessa Dare.


CAPÍTULO OITO

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"Mas na escuridão noturna, você ouviu os gritos angustiados do meu coração."

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- Onde está Isabella?! - Colocando de lado seu maço de cartas, a Sra. Swan estalou os dedos para uma das atendentes do Touro e Flor. - Você, mocinha. Qual é seu nome mesmo?

- Sou Bree, madame.

- Bree, corra até a pensão e diga para minha filha desobediente que eu quero que ela venha se juntar a nós agora mesmo. Agora mesmo! Diga-lhe para deixar de lado seus escritos. Ela já perdeu o chá e o jantar. Ela vai fazer sua aula com a Srta. Young e depois servirá de quarta jogadora em nossa partida de uíste. Isabella será uma filha obediente, ou então irei renegá-la. Vou lavar minhas mãos por completo.

Com uma reverência, Bree se virou para fazer o que lhe foi ordenado.

Sentada ao piano ao lado de Charlotte, Emily Young sorriu para si mesma. Ah, essas ameaças vazias. Ela duvidava que Isabella sentisse uma ponta de medo de que a Sra. Swan abandonasse sua campanha incansável de aprimoramento feminino e desistisse, por completo, de sua filha do meio. Emily tinha muita simpatia pelas atormentadas Srtas. Swan – simpatia e nenhuma inveja, o que dizia muita coisa. Emily não possuía nenhuma família, a não ser pelo círculo de amigas em Spindle Cove. Não tinha casa, a não ser pela Queen's Ruby. Ela era órfã, criada pela bondade de benfeitores anônimos e educada na Escola Margate para Garotas em Herefordshire. Lembrava-se de todas as noites em que passou chorando em seu travesseiro naquele dormitório frio e austero, no sótão da escola, implorando a Deus uma mãe para si... E, às vezes, o comportamento da Sra. Swan fazia Emily se sentir grata pelas preces não-atendidas.

Aparentemente, nem todas as mães eram bênçãos.

- Comece de novo, Charlotte. - disse Emily para sua jovem aluna. - Preste atenção no ritmo. - Ela tocou a partitura com uma vareta. - Seu dedilhado está errado quando você chega nas semicolcheias, e isso a está atrasando.

Pondo a mão ao lado da de Charlotte para demonstrar, ela disse:

- Comece com o indicador, está vendo? Depois cruze por baixo com o polegar.

- Assim? - Charlotte imitou a técnica.

- Isso. Duas vezes devagar, para praticar. Depois experimente fazer com a velocidade normal.

Enquanto Charlotte repetia a passagem, Emily ouviu uma série de estalos sutis vindos do bar. Era o Cabo Sam Uley. Ele estava sentado, com seu perfil rude voltado para elas, e tinha uma caneca de cerveja sobre o balcão, sua única companhia.

Fossem as escalas repetitivas, o jogo de cartas ou as declarações estridentes da Sra. Swan, Sam Uley estava visivelmente contrariado por dividir o estabelecimento com as mulheres. Quando Charlotte começou a segunda repetição da mesma passagem, Emily olhou para o rochedo enorme e sombrio que era aquele homem. Ele fazia caretas para sua cerveja. Então, ele juntou as mãos sobre o balcão e começou a estalar as juntas da mão esquerda. Uma por uma. Intencionalmente. Era um modo sinistro e um pouco ameaçador, de sugerir que ele poderia quebrar algo – ou alguém – se o arrastado exercício musical continuasse.

- Faça três repetições, Charlotte. - disse Emily, endireitando a coluna.

Uley era uma figura que, sem dúvida, intimidava, mas Emily não o deixaria interromper a aula antes da hora. Repetição era essencial à prática musical, e as mulheres tinham todo direito de estar no Touro e Flor, que era ao mesmo tempo a casa de chá delas e a taverna dos homens. Assim que Charlotte acertou o passo, tocando com desembaraço no ritmo certo, a sineta da porta badalou e Bree Tanner retornou de sua missão.

- Então, garota? - perguntou a Sra. Swan. - Onde ela está?

- A Srta. Isabella não estava lá, Sra. Swan.

- Como? Não estava lá? É claro que ela está lá. Onde mais ela estaria?

- Eu tenho certeza de que não saberia dizer, madame. Quando eu contei para a Srta. Rosalie que a senhora estava procurando...

Nesse momento, Rosalie irrompeu pela porta. As cartas de baralho que a Sra. Swan embaralhava escorregaram para a mesa, quando ela ergueu os olhos.

- Calma, querida. Você vai ter um ataque.

- Ela foi embora. - disse Rosalie, engolindo em seco e inspirando lenta e profundamente. Ela segurava um pedaço de papel. - Isabella foi embora.

Charlotte parou de tocar.

- Como assim, ela foi embora?

- Ela deixou um bilhete. Deve ter caído da escrivaninha. Eu só o encontrei agora. - Rosalie alisou o papel e o levantou, preparando-se para ler.

Como se estivessem na igreja, e não na casa de chá, as mulheres levantaram de suas cadeiras ao mesmo tempo, preparando-se para ouvir a leitura. Até o Cabo Sam Uley, no bar, espiava sutilmente.

- Querida Rosalie... - leu a bela garota de cabelos claros. - Sinto muito pela notícia surpreendente que você está para receber. Você, Charlotte e mamãe não devem se preocupar, de jeito nenhum. Estou em segurança, viajando para o norte com Lorde Cullen. Estamos fugindo para a Escócia para nos casarmos. Nós estamos... - Rosalie baixou o papel e olhou para a mãe. - Nós estamos desesperadamente apaixonados.

Profundo silêncio. Charlotte foi a primeira a quebrá-lo.

- Não. Não. Deve haver algum engano. Isabella e Lorde Cullen fugindo juntos? Apaixonados? Não é possível.

- Como é possível que eles estejam sumidos desde cedo? - perguntou Emily. - Ninguém reparou?

Rosalie deu de ombros.

- Isabella está sempre explorando a enseada e as falésias. Não é incomum, para ela, desaparecer antes do café da manhã e reaparecer somente depois de escurecer.

Emily reuniu coragem e se dirigiu ao estranho no ninho.

- Cabo Uley?

Ele ergueu os olhos.

- Quando foi a última vez que você viu Lorde Cullen?

O homem intimidador franziu o cenho e praguejou:

- Noite passada.

- Então deve ser verdade. - disse Rosalie. - Eles fugiram juntos.

Uma nova preocupação atingiu o coração de Emily. Ela foi até Rosalie e tocou seu braço.

- Você está muito decepcionada?

- Como assim? - Rosalie pareceu confusa.

Emily inclinou a cabeça na direção da ainda aturdida Sra. Swan.

- Eu sei que sua mãe tinha grandes esperanças para você e Lorde Cullen.

- É verdade, mas eu nunca senti o mesmo. - sussurrou Rosalie. - Ele é charmoso e bonito, mas meus sentimentos por ele nunca foram além da amizade quando percebi que ele não me admirava como uma pretendente. Sou um pouco orgulhosa, sabe? Se ele não estava interessado, então eu pensava, com frequência, que seria um alívio, na verdade, se ele se casasse com outra. Mas nunca sonhei que Isabella...

- Isabella detesta esse homem. - disparou Charlotte. - Ela me disse isso muitas vezes. - Ela tirou a carta da mão de Rosalie. - Não posso acreditar que ela fugiu com ele. Seria mais fácil acreditar que ela foi sequestrada por piratas.

Emily encolheu um dos ombros.

- Às vezes, a antipatia aparente pode esconder uma atração oculta.

- Mas há meses em que tudo o que eles fazem é se provocar. - disse Charlotte. - E, na maior parte das vezes, Lorde Cullen nem consegue se lembrar o nome dela.

- Ele a tirou para dançar na outra noite. - lembrou Rosalie.

- É verdade, eles dançaram. - disse Emily. - Mas foi um desastre. Ainda assim, quem teria imaginado isso?

- Ninguém. Porque isso não está certo. - disse o Cabo Uley, levantando-se no bar e quase batendo a cabeça nas vigas. Em passos largos, ele cruzou o salão para se juntar ao grupo. - Edward está tramando algo, posso garantir. Eu irei atrás deles. Se sair agora, chego a Londres pela manhã. - Ele olhou para Rosalie. - Se eles estiverem em algum ponto da estrada para o norte, Lorde Jasper Hale e eu vamos encontrá-los e trazer sua irmã para casa.

- NÃO!

Todos se viraram para a fonte dessa objeção: a Sra. Swan. A mulher permanecia imóvel em seu lugar, palmas abertas sobre a mesa. Olhos fixos à sua frente. Emily não sabia dizer se a matriarca havia piscado desde que Rosalie leu a carta.

- Ninguém vai atrás deles. Eu soube, desde o primeiro momento em que o vi, que Lorde Cullen seria meu genro. Minhas amigas sempre me disseram que minha intuição é única. - Ela colocou uma mão no peito. - É claro que eu pensei que seria Rosalie quem o fisgaria, linda como é. Mas parece que não levei em conta a inteligência de Isabella.

Seus olhos azuis faiscaram.

- Não consigo imaginar o que aquela garota ardilosa fez para laçá-lo.

- Com certeza Isabella é que foi laçada. - contrapôs Charlotte. - Estou lhe dizendo, ela nunca teria fugido com Lorde Cullen. Ela pode ter sido raptada!

- Eu duvido que ela tenha sido raptada, Charlotte. - disse Rosalie. - Mas, mamãe, você tem que admitir que essa virada foi totalmente inesperada.

- Inacreditável, na verdade. - Sam cruzou os braços. - Ele não é boa coisa.

- Talvez ele esteja apaixonado. - sugeriu Emily. - Como diz a carta.

- Impossível. - Sam Uley negou com a cabeça.

- Impossível? - Emily ficou muito aborrecida por Isabella. - Por que é impossível que um homem se apaixone por uma garota improvável? Talvez Isabella não seja a garota mais bonita do local, mas pode ser que Lorde Cullen tenha visto beleza em sua mente curiosa, ou em seu espírito independente. Será que é mesmo tão impossível que uma garota imperfeita seja perfeitamente amada?

As mulheres Swan olharam para outro lado, constrangidas, e Emily percebeu que havia falado demais. Aquele problema dizia respeito a Isabella, não a ela. A situação das duas jovens não era a mesma. Isabella podia não ser a garota mais bonita do local, mas ainda assim era uma dama de boa família e relativa fortuna. Emily era sozinha e pobre, além de ser amaldiçoada por uma imperfeição física. Nenhum lorde impetuoso havia proposto fugir com ela, nem mesmo a tirado para dançar. Mas, embora pudesse parecer tolice, ela ainda esperava encontrar o amor. Afinal, ela estava se agarrando a essa esperança a vida toda. E não era agora que iria desistir.

- Isabella é minha amiga. - disse ela simplesmente. - E estou empolgada por ela.

- Se ela é sua amiga, você deveria estar preocupada. - O olhar de Uley era intenso. - Ela precisa ser resgatada.

Emily ergueu o queixo e virou para ele seu perfil – imperfeito, manchado de vermelho, onde estava a cicatriz da qual ela não se recordava como havia ido parar lá.

- Isso não deveria ser decisão da mãe dela? - perguntou.

A Sra. Swan pegou em seu braço.

- Isso mesmo, a Srta. Young tem razão! Nós deveríamos estar celebrando. Imagine, minha Isabella, desajeitada e ranzinza, fugindo com um visconde! Algumas pessoas podem dizer que isso é inesperado, inacreditável. Mas a menos que alguém me convença do contrário... - Um sorriso tomou conta do rosto dela, fazendo com que parecesse dez anos mais nova. - Eu chamaria de milagre!


.London, England.

Isabella acordou no meio da noite. Enrolada nele. Ela viveu um momento de terror, total e paralisante, até se lembrar exatamente onde, quando... e com quem estava: num quarto de estalagem em Londres, e a pesada perna jogada sobre as suas pertencia a ninguém menos que Lorde Cullen... foi então que o verdadeiro medo se instalou.

Edward suspirou dormindo e se aninhou ainda mais a ela. O braço dele apertava sua cintura. Oh, Deus. O braço dele estava na cintura dela. E isso não era o pior. Ele estava todo sobre ela, que estava toda... debaixo dele. O cheiro e o calor de Edward a cobriam como um cobertor. Seu queixo descansava, pesado, sobre o ombro dela, e seu nariz se projetava contra o lóbulo de sua orelha. Sim, o lençol bordado formava uma barreira macia e flexível entre seus corpos. Mas a não ser por isso, eles estavam tão intimamente entrelaçados que podiam ser uma única pessoa.

Ela ficou encarando o teto. Podia sentir o coração pulsando em sua garganta. O desejo de se mover era insuportável, mas ainda assim ela não ousava se mexer. Durante incontáveis minutos, ela ficou parada. Só respirando. Encarando a escuridão. Escutando o batimento frenético de seu coração e sentindo o calor suave da respiração dele em seu pescoço.

E então, de repente, o corpo inteiro de Edward virou pedra. O braço em volta de sua cintura começou a apertar dolorosamente, dificultando a respiração. A perna sobre as suas ficou rígida como ferro. Seu hálito quente parou de soprar contra seu pescoço. Ele começou a tremer, com tanta violência que chacoalhava os dois. A frequência cardíaca de Isabella dobrou em velocidade e intensidade. O que ela devia fazer? Acordá-lo? Falar com ele? Permanecer parada e simplesmente esperar que aquele... episódio... passasse?

O sentimento apavorante de impotência não era novo. Ela sentia o mesmo sempre que Rosalie sofria um ataque de asma. Isabella nunca pôde fazer muita coisa para diminuir o sofrimento da irmã durante suas crises, a não ser ficar a seu lado e a manter calma. Fazer a irmã saber que não estava sozinha. Talvez isso ajudasse Edward. Saber que não está sozinho.

- Edward?

Ele inspirou com dificuldade, ruidosamente. Seus músculos estavam contraídos como molas. Um dos braços dela estava preso, imobilizado pelo peso do corpo dele. Mas ela podia usar a outra mão. Isabella ergueu os dedos trêmulos e tocou com cuidado no braço dele. Com a lareira apagada, o quarto já havia esfriado. Mas a pele dele estava molhada de suor.

- Edward. - Ela passou os dedos para cima e para baixo por seu antebraço, em carinhos longos e calmantes. Ela queria poder acariciar outras partes dele – sua cabeça, suas costas, seu rosto. Mas a menos que ele afrouxasse o aperto sobre o corpo dela, o braço de Edward era tudo o que ela conseguia alcançar.

Os carinhos dela não pareciam estar ajudando. Ele passou a tremer violentamente e sua respiração ficou errática. Seu coração martelava no ombro de Isabella. A situação estava muito pior do que na caverna, onde ele ficou um pouco agitado. Ali, na estalagem, ele parecia estar lutando pela vida. Um som áspero escapou de sua garganta. Um gemido bruto, angustiado, quase desumano.

- Não. - murmurou ele. Então, mais decidido: - Não. Não vou deixar. Volte. Volte, sua cachorra.

Ela se retraiu. Isabella nunca tinha ouvido Edward falar naquele tom feroz. Oh, Deus. Oh, Edward. Oh, céus. O que você está enfrentado aí? Desesperada para fazer alguma coisa – qualquer coisa – para tirá-lo daquela situação aterrorizante, ela recorreu a um truque que ele mesmo lhe ensinou na pista de dança. Ela deslizou os dedos para o lado inferior e macio de seu braço e o beliscou, com força. Ele estremeceu e parou, para em seguida inspirar profundamente, ofegante como um homem que estava se afogando e consegue subir à superfície.

- Edward, sou eu. Isabella. Estou aqui. - Ela se contorceu no abraço dele, que foi afrouxado, e se virou para encará-lo. Ela fez carinhos em sua testa, para acalmá-lo. - Você não está sozinho. Está tudo bem. Apenas respire profundamente. Eu estou aqui.

Ele não abriu os olhos, mas a tensão em seu corpo cedeu. Sua respiração diminuiu para um ritmo normal. Sua pulsação acelerada aproveitou a deixa para também diminuir.

- Estou aqui... - repetiu ela. - Você não está sozinho.

- Bella... - A voz dele parecia uma lixa enrolada em algodão. Áspera e macia ao mesmo tempo. Com os dedos, Edward pegou um cacho do cabelo dela, que enrolou entre eles, acariciando a jugular dela com um dedão. - Assustei você?

- Um pouco.

Ele praguejou algo e a trouxe para perto do peito.

- Desculpe, querida. Está tudo bem agora. - O peito dele subia e descia com a respiração profunda, um muro quente e macio apertando-a próximo de seu forte coração pulsante. - Está tudo bem.

Incrível. Depois do episódio pelo qual havia acabado de passar, era ele que a acalmava. E estava fazendo um trabalho muito bom. Seus dedos roçavam a têmpora dela em carinhos hábeis e relaxantes. Ela virou o rosto para o lado dele e ficaram com os narizes encaixados, respiração contra respiração, coração contra coração de tão perto que estavam. O alívio de saber que a crise havia passado a deixou exaurida e mole. Fraca...

- Você precisa de alguma coisa? - balbuciou ela, se remexendo novamente e deslizando um pouco para baixo, para fugir dos olhos verdes e da boca sensual de Edward. Chegou baixo o suficiente para pressionar a testa no peito dele. - Conhaque, chá? Ajudaria... ajudaria conversar?

Ele não respondeu, e ela ficou preocupada se não tinha ofendido seu orgulho. Ele deu um beijo no alto da cabeça dela.

- Procure dormir.

Então, ela fez o que ele disse. Isabella se aconchegou a ele e deixou a pulsação lenta e estável de Edward a embalar de volta ao sono.

Quando Isabella acordou novamente, era dia. E ela estava sozinha. Ela se pôs sentada na cama. A fraca luz do sol era filtrada pela única e suja janela do quarto. À luz do dia, o quarto tinha aparência ainda pior que na noite anterior. Depois de colocar seus óculos, Isabella olhou ao redor. Todas as suas coisas continuavam lá, mas não havia sinal de Edward. Nem de seus sapatos, ou do casaco e das luvas e gravata, que ele havia pendurado nas costas da cadeira. Ela sentiu um aperto no estômago. Ele não podia simplesmente ter ido embora.

Ela pulou da cama e começou a procurar na mesa, nas gavetas da cômoda. Edward, no mínimo, deixaria um bilhete. Depois de não encontrar nada, ela correu para se lavar e vestir o mais rápido possível. Ela sabia que, provavelmente, ele devia estar no andar de baixo, mas Isabella se sentiria muito melhor depois que o encontrasse. Felizmente, assim que ela desceu para a sala de café da manhã, Edward levantou de sua cadeira para recebê-la.

- Ah, aí está você.

Ele havia tomado banho e se barbeado. Ela podia ver que seu cabelo ainda estava molhado atrás das orelhas. O pó em seu casaco, da viagem no dia anterior, devia ter sido limpo, e o azul escuro contrastava respeitavelmente com o branco-neve da camisa limpa. Alguém havia engraxado e lustrado seus sapatos, que exibiam um belo brilho. Ele aparentava estar bem. Bem de verdade. Não estava apenas bonito, mas vigoroso e forte. Depois de sentir Edward gemendo e tremendo ao seu lado durante a noite, aquela visão trazia um alívio profundo. Ela ficou tão preocupada com ele...

- Edward, eu... - Estranhamente emocionada, ela pôs a mão na lapela dele.

- Eu espero que você tenha dormido bem. Estávamos esperando por você.

Isabella estremeceu, surpresa.

- Estávamos?

- Isso mesmo, querida irmã. - disse ele em voz alta, pegando a mão dela. - Permita que eu lhe apresente os Fontley.

Querida irmã? Ela ficou de boquiaberta.

- Este é o Sr. Fontley, e esta, a Sra. Fontley.

Ele a virou, com a delicadeza que uma engrenagem de relógio vira uma dançarina de porcelana na caixa de música. Isabella se viu fazendo uma mesura para um casal de aparência gentil. O cabelo grisalho do cavalheiro rareava, e sua mulher sorria sob uma touca de renda.

- Os Fontley ofereceram espaço para você na carruagem deles. - informou Edward. - Eles também estão viajando para o norte.

- Oh. É um prazer conhecer vocês. - disse Isabella, com sentimento verdadeiro.

Com a mão na parte de baixo das costas de Isabella, Edward a virou para o outro lado da mesa.

- E estes são seus filhos. Seth e Leticia Fontley.

- Como vai? - Seth, um jovem no limiar da idade adulta, levantou de seu assento e fez uma reverência pomposa.

- Por favor, pode me chamar de Lettie. - disse a garota de olhos vivos, oferecendo sua mão a Isabella. - Todo mundo me chama assim.

Lettie possuía os mesmos cabelos cor de areia e rosto corado que o resto da família. Ela parecia ser alguns anos mais nova que Charlotte. Devia ter entre doze e treze anos. Seth trouxe uma cadeira para ela, onde Isabella sentou. A Sra. Fontley sorriu.

- Estamos tão contentes que você vai nos acompanhar, Srta. Masen. É uma honra, para nós, levá-la até seus parentes em York.

Srta. Masen? Parentes em York? Ela disparou um olhar cheio de interrogações para Edward. O malandro provocador não respondeu. A Sra. Fontley mexeu seu chá.

- Acho que é muito benéfico para Seth e Lettie conhecer pessoas jovens como vocês. Fazendo tantas coisas boas no mundo. Seth está de olho na Igreja, sabe. Ele vai para Cambridge no outono.

- Srta. Masen. - falou Seth. - Seu irmão estava nos contando de seu trabalho missionário no Ceilão.

- Ah, estava? - Com ar de completa incredulidade, Isabella olhou para o "irmão" em questão. - Por favor, diga, que histórias de boas ações você estava contando, Edward?

Ela empregou bastante ênfase ao nome dele. Seu verdadeiro nome de batismo. Afinal, se ele era mesmo seu irmão, deveria chamá-lo assim. Isabella queria ver se ele conseguia lembrar o nome dela. E usá-lo, sem errar. Ela apoiou o queixo na mão e ficou olhando para ele, sorridente. Edward sorriu de volta.

- Eu estava contando tudo sobre nossa temporada no Ceilão, querida... I.

I. Então era assim que ele pretendia resolver seu problema de memória. Não efetivamente lembrando de seu nome, mas reduzindo-o a uma inicial. Magnífico.

- Srta. Masen, ele nos contava a respeito de seus anos de trabalho missionário, ajudando os pobres e desafortunados. Alimentando os famintos, ensinando criancinhas a ler e a escrever.

Lettie arregalou os olhos.

- Você realmente passou seus anos de escola cuidando de leprosos?

Isabella apertou os dentes. Ela não conseguia acreditar. De todas as identidades falsas que ele podia assumir... Missionários cuidando de leprosos no Ceilão?

- Não, na verdade, não.

- O que minha querida irmã quer dizer... - Edward passou seu braço pelas costas da cadeira de Isabella - ... é que não passávamos o tempo todo trabalhando. Éramos crianças, afinal. Nossos queridos pais, que Deus guarde suas almas, nos davam bastante tempo para explorar.

- Explorar? - Seth se empertigou.

- Ah, sim. O Ceilão é um lugar lindo. Todas aquelas florestas e montanhas. Nós saíamos da cabana da nossa família de manhã cedo, eu e I, com só um pouco de pão nos bolsos. Então passávamos o dia todo em aventuras. Balançando em cipós, devorando mangas debaixo das mangueiras, andando de elefante.

Isabella passou os olhos por toda a família Fontley. Ela não podia imaginar que alguém acreditaria nessa história ridícula. Elefantes e mangas? Mas todos ficaram olhando, pasmos, para Edward, com um misto de admiração e reverência em seus olhos azuis. Bem, pelo menos aquilo era um alívio para a conversa que eles haviam tido aquela noite, na torre. Ela não era a única a cair em suas histórias. Pelo jeito, ele empregava com regularidade seu talento para o exagero intencional e irracional. E com sucesso constante.

- Vocês andavam pela selva o dia todo? - perguntou Lettie. - Vocês não tinham medo de ser comidos por tigres? Ou de se perder?

- Ah, não mesmo. - respondeu Edward. - Eu ficaria preocupado se estivesse sozinho. Mas estávamos sempre juntos, sabe. E nós tínhamos um sistema. Um jogo que fazíamos sempre que saíamos em nossas aventuras. Se perdêssemos um ao outro de vista, na vegetação densa da selva, eu simplesmente gritava 'Tallyho!' e I respondia...

Edward se virou para ela, sobrancelhas erguidas, como se esperando que ela pusesse o ponto final naquele amontoado épico de disparates. Ela olhou para ele incrédula, e disse:

- Maluco...

Ele deu um tapa na mesa.

- Exatamente! Eu gritava 'Tallyho!' e ela respondia, 'Maluco!', absolutamente alegre. E era assim que nunca nos separávamos.

Todos os membros da família Fontley riram.

- Que jogo inteligente. - disse o radiante patriarca.

- Nada jamais irá nos separar, não é I? - Edward pegou sua mão e a apertou, olhando carinhosamente para seus olhos. - Acho que nunca senti tanta afinidade por outra alma quanto sinto por minha querida irmã.

Do outro lado da mesa, a Sra. Fontley suspirou. E o coração de Isabella perdeu uma batida.

- Que jovens bons...

Enquanto os criados prendiam os baús de Isabella no teto da carruagem dos Fontley, algum tempo depois, ela aproveitou a primeira oportunidade para puxar Edward de lado.

- O que você está fazendo? - ela sussurrou em seu ouvido.

- Estou fazendo com que eles fiquem à vontade. - murmurou Edward em resposta. - Eles nunca permitiriam que você os acompanhasse se soubessem a verdade.

- Talvez. Mas você tem que inventar histórias tão absurdamente exageradas? Cuidando de leprosos e andando de elefante no Ceilão? Como é que você inventa essas coisas?

Ele deu de ombros.

- Isso se chama improvisação.

- Essas pessoas são boas. É perverso contar mentiras tão horríveis para elas!

- Estamos viajando sob falsos pretextos. Motivados por um noivado falso. Usando nomes falsos. E tudo isso foi ideia sua. Essa não é a melhor hora para demonstrar escrúpulos, querida.

- Mas...

Ele ergueu a mão.

- Se a forma como entretive os Fontley, com algumas histórias exageradas, foi perversa, sugiro que você adote a perversão. Pelo menos até o fim desta semana. A oferta que fizeram de levar você é uma verdadeira bênção. Vai economizar bastante dinheiro e, talvez, também preserve sua reputação. Você estará sob supervisão de uma família.

Ela sabia que isso era verdade.

- Muito bem, mas agora sou eu que terei que andar de carruagem com eles durante dias, e corresponder às histórias absurdas que você inventou.

- Exatamente. Então por que não se divertir com isso?

- Divertir?

Ele a pegou pelos ombros e esperou que Isabella o encarasse. Ela acabou por fazê-lo, depois de relutar um pouco. Era impossível pensar com clareza quando ela fitava aqueles brilhantes olhos verdes.

- Viva o momento, I. Esta é sua chance de sair da sua concha. Aí dentro existe uma garota segura e interessante. De vez em quando ela sai para dar uma olhada. Experimente ser essa garota, ainda que apenas por alguns dias. Você não irá muito longe nesta viagem se não fizer isso.

Isabella mordeu o lábio. Ela queria pensar que existia uma garota interessante e segura dentro dela, e que alguém – até que enfim – havia visto claramente essa garota. Mas pelo que ela sabia, Edward estava usando com ela o mesmo truque que usou com os Fontley. Ele a estimulava com elogios falsos, falando exatamente o que ela queria ouvir. Mentindo para ela. De novo.

- São apenas alguns exageros inofensivos. - Ele a acompanhou lentamente até a carruagem. - Pense nisso como descer um barranco correndo. Se tentar diminuir sua velocidade e escolher onde pisa, vai acabar tropeçando e caindo. Mas se simplesmente se lançar nessa história, tudo vai dar certo.

-Está pronta, Srta. Masen? - perguntou o Sr. Fontley. - A Sra. Fontley e as crianças já estão lá dentro.

Isabella aquiesceu. Edward lhe ofereceu a mão como apoio para embarcar. Depois que Isabella sentou ao lado de Lettie e ajeitou a saia, seu "irmão" fechou a porta do coche e enfiou a cabeça pela janela aberta.

- Vou estar sempre por perto, em meu cavalo, I. Não tenha medo. Se precisar de mim por qualquer motivo, você sabe o que fazer. - Ele abriu um sorriso e gritou: - Tallyho!

Em uníssono, Lettie e Seth responderam:

- Maluco!

Soltando um gemido breve, Isabella enterrou o rosto nas mãos.

- Sempre foi assim entre mim e I. - disse Edward. Enquanto caminhavam por um pequeno bosque, ele segurou alguns galhos para ela passar. - Desde que estávamos em nossos berços.

- Sério? - perguntou Lettie. - Mesmo quando eram bebês?

Isabella revirou os olhos. Como ele tinha energia para continuar inventando aquelas tolices? Ela se sentia exausta quando eles pararam para almoçar e trocar os cavalos. Isabella tinha passado a manhã inteira descendo à toda velocidade o "barranco" metafórico de Edward, soltando uma falsidade atrás da outra para satisfazer a curiosidade ilimitada dos Fontley. Ela esperava fugir um pouco disso quando declarou sua intenção de caminhar para esticar as pernas. Mas é claro que Edward tinha que decidir ir junto. Assim como Lettie e Seth tinham que ir atrás deles.

- Ah, sim. - continuou Edward enquanto os conduzia pelo caminho. - Minha irmã e eu sempre tivemos essa ligação profunda, tácita. Nós temos conversas inteiras sem trocar uma palavra.

Ele olhou para ela, que sustentou seu olhar. Edward tinha razão. Eles podiam ter uma conversa inteira sem trocar uma palavra. E a conversa que estavam tendo naquele instante era assim:

Edward, feche a matraca.

Acho que não vou fechar, I.

Então vou fazer você fechar.

Sério? Como?

Não tenho certeza, mas vai ser de forma lenta e dolorosa. E não vou deixar pistas.

- Uma vez, ela salvou minha vida. - Edward disse para os jovens Fontley.

- Quem? - perguntou Lettie. - A Srta. I?

- Sim, isso mesmo. Ela me tirou, sozinha, das garras da morte. É uma ótima história.

Caminhando a passos largos pela grama alta, Isabella engoliu uma risada. Oh, estou certa que sim.

- Então nos conte. Tenho certeza de que essa história fará jus à Srta. Masen.

Seth olhou para Isabella com expressão de admiração. E, muito possivelmente, também com certo encanto. Céus! Aquele não era o melhor momento para um rapaz finalmente se interessar por ela...

- Bem, tudo começou no meio da selva. - disse Edward. - Enquanto estávamos fora, em nossas explorações, fui mordido por um besouro raro, extremamente venenoso.

Os olhos de Lettie brilharam.

- E a Srta. I cortou o local da mordida e chupou o veneno!

- Não, não. Ela não podia fazer isso. O veneno estava agindo rápido demais. - ele parecia adorar a brincadeira, ou seria a ideia de chupá-lo de alguma forma?

- Então ela o arrastou para casa, para conseguir ajuda?

- Receio que não. - Edward balançou a cabeça. - Eu era pesado demais para ela.

- Então eu o deixei à morte e fui para casa jantar. - disse alegremente Isabella. - Fim da história.

Seth riu.

- É claro que não. Você correu para pedir ajuda, não é?

- Exatamente. - disse Edward.

Eles chegaram à beira de um riacho. Edward apoiou o pé sobre um tronco caído.

- E eu aposto... - disse Lettie, colocando o pé ao lado do sapato dele. - Que ela correu feito louca até em casa, e voltou bem a tempo trazendo algum curandeiro nativo para tratar de você com poções e cantos místicos.

Edward sorriu da imaginação da garota e balançou a cabeça.

- Não. Na verdade, quando ela conseguiu voltar com ajuda, já era tarde demais. Ela não conseguiu me curar. Eu morri.

Todos ficaram em silêncio.

- Mas... - Lettie franziu o rosto. - Mas não pode ser. Você está aqui.

- O que aconteceu? - perguntou Seth.

É, o que aconteceu? Isabella quase acrescentou. Até mesmo ela estava ansiosa para saber o que vinha a seguir, depois que ele caiu na selva picado por um raro besouro do Ceilão. Não aconteceu nada, sua boba. É tudo mentira.

Edward pigarreou.

- Bem, eu não posso contar para vocês exatamente o que aconteceu porque eu estava caído inconsciente no chão da selva, e não me lembro de nada depois disso. Parece que eu caí num coma profundo. Meus sinais vitais eram tão fracos que minha família achou que eu estava morto. Eles rezaram por mim, prepararam meu corpo e me puseram em um caixão de madeira. O que eu sei é que acordei debaixo da terra. No escuro. Enterrado vivo.

- Céus! - exclamou Lettie, apoiando-se nele. - O que você fez?

- Eu gritei. Eu chorei. Eu arranhei as tábuas que me fechavam até minhas unhas sumirem e meus dedos ficarem em carne viva. Eu fiquei desesperado e tremi. Gritei até minha garganta sangrar. - A voz dele estava tomada por uma emoção estranha. Ele ergueu os olhos, à procura do olhar de Isabella. - E, de algum modo, ela me ouviu. Não foi, I? Você me ouviu chamando na escuridão. Eu estava sozinho e com medo. Mas na escuridão noturna, você ouviu os gritos angustiados do meu coração.

Isabella engoliu o caroço que crescia em sua garganta. Ela não estava mais gostando daquela história. Ela não entendia o que Edward estava tramando. Era óbvio que a descrição daquela versão infantil dele, preso e gritando no escuro, era direcionada para ela. Parecia que ele não tinha esquecido o que aconteceu na noite anterior. Ele lembrava. De tudo. E agora ele queria... o que, exatamente? Agradecer-lhe pela ajuda? Debochar de sua preocupação?

- Você quer contar a próxima parte, I? - perguntou ele.

- Não, não quero.

Ele se virou para os jovens.

- Ela foi correndo até o local do enterro e começou a cavar a terra com as próprias mãos. Quando ouvi aquele barulho... bem, achei que tinha realmente morrido, e que os cães do inferno estavam tentando abrir meu caixão.

Lettie deu um gritinho e mordeu a junta de seu dedo indicador.

- Até hoje não consigo gostar de cachorros. - disse ele.

Em sua memória, Isabella ouviu o eco dos gritos desesperados de Edward.

Volte, sua cachorra.

- Eu tentei gritar, mas não consegui. O ar estava ficando cada vez mais rarefeito e eu mal conseguia respirar. Enquanto aqueles sons se aproximavam, eu pude puxar só um pouco de ar para os meus pulmões. O suficiente para gritar uma palavra. - Ele fez uma pausa dramática, então sussurrou: - Tallyho?

Os jovens prenderam a respiração.

- E vocês podem imaginar qual foi a doce resposta que ouvi.

- Maluco! - responderam eles em uníssono.

- Exatamente. - disse Edward. - Ela me salvou, sem exagero, das garras da morte. Minha querida e corajosa irmã.

Seus olhos se encontraram, mas Isabella precisou desviar os seus. Ela não sabia o que sentir, mas sentiu... algo. E sentiu profundamente. Seth se voltou para ela.

- Como você foi corajosa, Srta. Masen.

- Nem tanto. - Ela fez um gesto de pouco caso.

- Ela é modesta demais. Sempre foi. - Edward tirou o pé do tronco caído e tocou rapidamente no queixo dela antes de iniciar o caminho de volta para a estrada. - Esperem até ouvir a história d cobra!


hahahaha

Esse Edward é um fanfarrão... Inventa mil e uma pra conseguir uma caroninha. Isabella e a cobra? Hm... Prevejo lemons muito em breve! kkk

Beijos e até próximo sábado!