Capítulo NOVE

Melinda sabia o que precisava fazer. Não se tratava apenas de chegar lá e exigir que ela fosse liberada. Ela sabia que Phil não conseguiria discernir certo e errado naquela situação e muita coisa entre Ann e Victoria Hand precisava ser considerada. Primeiro ela devia convencê-lo de que mesmo que Hand e Ann não se dessem bem, nem ela conseguiria usar isso e apenas isso como razão para mandar Ann pra Geladeira. O que significava apenas uma coisa: Ann realmente tinha feito algo muito, muito ruim. Mas Phil não quis ouvir isso. Eles agora pousavam no imenso terraço da Geladeira. Phill entrou, passos largos e decididos. May o seguia, preocupada por ver a expressão firme e enfurecida dele, caracterizando que ele estava prestes a perder o controle.

-Phill... –ela adiantou-se alguns passos e segurou a mão dele, buscando seus olhos com os dela enquanto eles caminhavam. Ele a encarou com as sobrancelhas franzidas, como se estivesse sentindo alguma dor- Espere apenas um minuto aqui. –ela pediu, contendo seus movimentos para não abraça-lo no meio de tantos agentes- Respire um pouco, você está tão silencioso que machuca meus ouvidos.

-Melinda... –ele começou a argumentar, mas ela logo o interrompeu.

-Eu sei. –ela apertou a mão dele por um instante- Você deve respirar fundo e amenizar suas preocupações. Ann não vai gostar de ver você assim.

-Ela já sabe que eu estou assim sem sequer saber que eu estou vindo. –ele balançou a cabeça com um sorriso triste- Ela deve estar se perguntando por que eu ainda não fiz nada para libertá-la.

-Ela deve estar imaginando que você provavelmente sequer sabe de tudo isso.

-Agente Coulson? –uma mulher dirigiu-se a eles no meio do saguão.

-Sim? –ele virou-se para atender.

-O Diretor Fury autorizou uma visita sua à Agente Ann Marie. –ela informou, olhando para May com um pouco de vergonha- Mas a Agente Hand, responsável pela prisioneira, limitou a visita à três minutos, e apenas o senhor poderá vê-la.

-Três minutos? –ele soou perigosamente irritado, encarando a mulher baixinha a sua frente com ódio nos olhos.

-Phill... –Melinda puxou um pouco sua mão, para chamar sua atenção- Phill, você poderá vê-la e falar com ela. É pouco tempo, mas vai ser o bastante para tranquiliza-lo.

-E você? –ele a olhou, se dando conta de que por mais que May parecesse estar calma e controlada, por dentro ela estava morrendo de preocupação. Mantinha-se forte por ele, e ele sabia disso.

-Está tudo bem. –ela murmurou- Apenas diga a ela que eu... –e hesitou, um pouco esgoelada pelas palavras, tão estranhas a sua voz- ... a amo.

-Eu direi. –ele prometeu, e beijou-lhe a testa por um instante, seguindo a mulher que os recebeu.

May observou Phill afastar-se e procurou um lugar para sentar-se e esperar. Logo percebeu que o grande salão estéril onde ela estava, que tinha apenas uma recepção a um canto e portas blindadas de entrada, não ofereceria nenhum lugar para espera. Ela caminhou até uma parede perto do elevador por onde sabia que Phill viria, e sentou-se no único lugar disponível: o chão. E então preparou-se para esperar.

Phill seguiu a mulher até um elevador, que o levou para baixo, visto que a entrada era no terraço, num prédio de possivelmente setenta andares. Saiu numa pequena sala de paredes cinza claro, onde um agente de quase dois metros de altura o revistou com seus aparelhos. Logo ele foi scaneado numa grande máquina de RX e pode passar para a próxima etapa. Ali ele precisou assinar uma série de documentos e apenas então ser admitido a uma cabine onde ele podia observar Ann através de um vidro espesso.

Phill perdeu o fôlego quando a viu. Ela estava sentada numa cadeira com algemas de couro nos braços e em volta dos tornozelos. Um cinto largo a mantinha ereta na cadeira, prendendo seu tórax. Um suporte mantinha seu pescoço firme. Vestia um macacão cinza chumbo de mangas curtas e seus cabelos estavam completamente desalinhados. Mas este não era o maior problema, já que Ann parecia estar drogada. Um suporte para soro estava ao lado dela, e através de uma cânula fina alguma coisa era injetada em sua carótida.

Ela sorriu ao olhar para o pai, o que parecia ser um esforço enorme. A droga que injetavam nela parecia diminuir a força dos seus músculos, o que a impediria de lutar e tentar fugir.

-Filha... –ele gemeu, notando as profundas olheiras no rosto pálido dela.

-Oi, pai. –ela sorriu.

-O que fizeram com você?

-Nada que eles não devessem. Um pouco menos que isso e poderia ser perigoso. Você talvez quisesse me fazer tentar fugir. –ela respondeu, tentando parecer melhor do que estava.

-Eu vou tirar você daqui! Este lugar é para criminosos e...

-Eu acabei cometendo um crime. –ela disse, agora parecendo triste- Eu abandonei uma missão que ocasionou a morte de um agente.

-Como assim? –ele não parecia estar preparado para aquilo, talvez não de forma tão direta.

-Eu não sabia, mas não deixa de ser minha culpa. –ela respondeu- Quando a Agente Hand me enviou para a Grécia com a missão de rastrear material alien achado no mar, era na verdade uma missão de apoio. Eu deveria ser o reforço de um agente de campo que estava investigando a possível produção de armas com o material retirado do mar. Quando eu deixei a Grécia, ele foi descoberto e eu era seu único reforço. Eu deveria ter retirado ele do cativeiro, mas eu não estava lá.

-Oh, Ann... –ele finalmente entendeu- Então não há nada que eu possa fazer.

-Não. –ela sorriu- Eu não sei quanto tempo ficarei aqui, mas é um tempo merecido.

-Você não sabia, querida...

-Mesmo assim. Eu desobedeci ordens que tiveram consequências graves. Ao final, eu não fui muito útil no seu resgate, pai. Aquele homem morreu por nada. Skye cuidou de tudo, não eu.

-Não fale assim, você devia ter sido substituída em campo assim que deixou a Grécia!

-Com toda a operação da Centopeia acontecendo... seria difícil focar-se em algo que a maior parte dos agentes julgava inútil. Não sabíamos sobre o agente infiltrado. Não tínhamos como saber. Agente Hand deveria ter enviado alguém, mas ela estava focada em outra missão. Mas é isso, a culpa é minha. Eu estou de acordo com minha própria prisão.

-Você sabe o q isso significa?

-Sei. –ela pareceu ter seu espirito quebrado pela primeira vez desde que a conversa começou- Eu estou fora da SHIELD.

-Pelo menos isso eu tentarei fazer por você. –ele prometeu, o que a fez sorrir- Quando você sair daqui, você virá comigo.

-Não é muito saudável para nenhum de nós, mas eu aceito a oferta, pai.

-Agente Coulson, o senhor precisa se retirar. –uma voz metálica soou dentro da cabine.

-Mais uma coisa... –ele disse olhando para Ann- Mel está no saguão me esperando. Ela me pediu para dizer que te ama.

-Diga a ela o mesmo. Eu também amo você, pai.

-Querida... –ele tocou o vidro que os separava, mas não encontrou mais nada a dizer. Ela sorriu e ele se retirou.

May o viu sair pelo elevador e vir diretamente em sua direção. Ela ficou de pé e o esperou, tentando decifrar as expressões dele a medida que ele andava. Curiosamente ele parecia um pouco mais relaxado, e isso era algo com o que ela não contava de nenhuma forma. Ela sabia como era o sistema prisional para agentes, ele também sabia. Ela imaginava que Ann mal poderia se mover, talvez mal pudesse falar. A expressão de Phill fez com que ela, mesmo confusa, se sentisse melhor sobre como Ann estaria ali.

-E então? –perguntou ansiosa.

-Victoria Hand acaba de conseguir um inimigo. E sim, devo dizer... você tinha razão mais cedo. Sobre culpas.

De volta ao avião, sentado no lugar do co-piloto e contando tudo a May, Phill se sentia triunfante de certa forma. Precisava debater com ela e achar um modo de melhor definir como as coisas deveriam prosseguir. Tinha em mente que deveria entrar em contato com o Diretor Fury, contar-lhe os detalhes da prisão e pedir que a situação fosse melhor averiguada. Ann assumiu a culpa, mas a culpa não era apenas dela.

-Então você quer responsabilizar Hand por isso?

-Não completamente, Ann tem responsabilidade nisso. Mas uma vez que Ann abandonou a missão, ela como chefe deveria ter cuidado da substituição. Portanto, se ela quer manter Ann sob custódia pela morte desse homem, ela deveria assumir também alguma responsabilidade.

-E você pretende usar isso para libertar Ann? Phill... –May suspirou- Ninguém a prenderia em primeiro lugar se isso não tivesse sido considerado. Eu sei que Victoria Hand tem problemas com ela, sabemos de tudo isso... Mas se Ann foi presa, ela mereceu. Nesse caso.

-O que você sugere que eu faça? –ele parecia um pouco irritado.

-Veja se consegue manter Ann na SHIELD. Já será um enorme premio de consolação, ela poder seguir trabalhando. Use essa informação para isso. Para impedir que ela seja banida para sempre. Mas não tente jogar mais alto do que isso vale. Não desperdice a chance de mantê-la conosco numa tentativa vã de libertá-la.

Ele ainda abriu a boca para discutir, mas preferiu não fazer nada. Ficou de pé, olhou para ela muito serio uma ultima vez, e deixou o cockpit. Melinda suspirou um pouco entristecida, mas logo pensou que a melhor forma de passar por aquilo, era estabelecendo alguns limites para Phill. Ele não poderia pensar, nem por um segundo, que conseguiria burlar as leis ou usar sua influencia para retirar Ann da prisão. Não funcionaria daquele modo. Eles precisavam de uma missão, e rápido. Ainda havia muito o que fazer sobre o Clarividente, eles talvez devessem pressionar Rayna um pouco mais. Pistas precisavam começar a surgir.

-Phill? –May apareceu na porta do escritório, no inicio da madrugada.

Ele parecia cansado, tinha tentado contatar Fury durante todo o dia, sem sucesso. Aquilo esmagava o coração dela, mas ela sabia que era melhor permanecer firme. Ele a olhou e abriu um pequeno sorriso, o que acalmou May um pouco. Ele parecia bastante enfurecido quando a deixou mais cedo.

-O que eu posso fazer por você?

-Eu estava me perguntando se poderia pousar o avião e esperar coordenadas. Acho que deveria dar uma olhada numa das turbinas com Fitz, algo tem soado um pouco estranho nas decolagens.

-Você acha estritamente necessário?

-Acho que é melhor do que cairmos de repente. Estamos no meio do oceano, estaremos bem para pousar em uns quarenta minutos. O que você me diz?

-Tudo bem.

Ela o observou por um instante e pensou se deveria dizer mais alguma coisa. Não achou palavras e já estava se preparando para sair quando ele chamou seu nome.

-Você virá dormir comigo esta noite?

-Acho que deveríamos deixar esse reparo na turbina para amanhã. –ela respondeu sorrindo.

-Luz do dia, boa ideia.

-Você não está chateado comigo? Pelo que eu disse mais cedo, sobre não tentar libertar Ann?

-Não. –ele respondeu com um sorriso triste- Não mais, eu tive que pensar pelo seu ponto de vista e você tem razão. Eu apenas sinto que às vezes deixo Ann desprotegida. Que não faço o bastante por ela, em comparação com o que eu faria por qualquer pessoa.

-Ann não precisa de proteção. Não mais, esse tempo passou. Ann precisa de espaço, e de ter um lugar pra voltar todos os dias, de alguém pra apoiá-la, não de proteção.

-Ela é uma agente da SHIELD.

-Ela é você, de um modo feminino. O mesmo bom coração, o mesmo altruísmo, o mesmo senso de justiça, a mesma dedicação... –May entrou no escritório, passos lentos, observando-o a medida que se aproximava- Tudo o que ela precisa é de apoio, assim como você. Com isso, ninguém poderia impedir nenhum dos dois.

-A não ser Victoria Hand e a Geladeira. –ele suspirou, ficando de pé e indo até ela, passando os braços em volta de seu corpo- Obrigado, querida. –beijou seus lábios por um instante- Você foi feita pra clarear meus pensamentos...