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Agora, a história!

Soujirou sentia-se um idiota, mas sabia que não seria razoável abordar um guarda no meio da sua Milícia. Só rezava para que não o notassem. Poderiam pensar que ele era um espião.

A meio do caminho e para seu espanto, a Milícia dispersou-se. Não iam portanto todos para o mesmo destino...

Ansioso, viu o seu suposto salvador afastar-se para um restaurante enquanto o homem mais alto seguia com um pequeno grupo. Ele estava sozinho. Era a sua oportunidade! A dificuldade agora residia na forma de o abordar. Como falar perante um samurai de uma Milícia temida e poderosa?

Respirando fundo, o rapaz aproximou-se do local e entrou. Okita Souji estava sentado no fundo do restaurante. Não tomava nada ainda, portanto era melhor aproveitar, a fim de não o importunar durante a refeição. Tremendo ligeiramente, dirigiu-se para a mesa logo ao lado da do outro jovem e sentou-se. Uma criada acudiu logo e Soujirou não teve remédio senão encomendar uma soba, afinal estava num restaurante.

A mulher afastou-se e Soujirou pensou que era naquele momento ou nunca. Levantou-se e postando-se ao lado de Okita, inclinou-se numa vénia.

-Okita-san?

O outro jovem voltou a cabeça e abriu muito os olhos quando reconheceu o jovem doente que resguardara. Levantando-se, retribuiu a vénia e sorriu amavelmente.

-Vejo que está com melhor aspecto. Posso prestar mais algum serviço?

Foi a vez de Soujirou abrir os olhos perante aquela resposta inesperada. Então...

Ele reconheceu-me!

-Eu...queria agradecer a sua ajuda. - o rapaz fez uma vénia mais profunda, agora mais calmo. Afinal fora mais fácil do que pensara.

Okita abanou a cabeça.

-Apenas fiz um dos meus deveres de guerreiro, qualquer samurai o faria.

Excepto talvez Saitou, pensou.

Foi então que os seus olhos pousaram nas mãos de Soujirou, que repousavam sobre o kimono, e lembrou-se...

Mãos calejadas. Seguramente que é pratica kendo. Mas como pode sobreviver nos dias de hoje, sem espada?.

-Senhor...

-Seta.- respondeu rapidamente o jovem. - Soujirou Seta.

-Soujirou? -os olhos de Okita piscaram confusos.

-Sim senhor.

Então, não só aquele jovem se parecia extraordinariamente com ele, como tinha o seu nome de infância!(1)

Entretanto a criada aproximava-se com os pedidos. Pousou uma taça em casa mesa e inclinou-se.

-Bom apetite Okita-sensei. E bom apetite meu rapaz.

Os dois retribuíram e sentaram-se cada um sua mesa, comendo silenciosamente. Soujirou exultava por finalmente ter contactado com Okita e aquele cismava no mistério daquele encontro e nas suas semelhanças.

-Seta-san?

O jovem quase que saiu da pele.

-S-sim?

-Perdoe a minha indiscrição mas não pude deixar de reparar nas suas mãos. É iniciado nas artes do Kendo?

-Já fui - respondeu Soujirou num fio de voz. -Mas já não o sou.

Souji reparara no pouco à vontade do rapaz. Ele era então um ronin(2) Algo de muito intenso lhe acontecera para baixar as suas defesas em tempos tão conturbados.

-Posso perguntar a razão?

Soujirou virou a cabeça.

-Prefiro não falar disso. Perdão.

Não consigo imaginar o que será. O mais normal nestes dias é estar-se armado.

-O que fazes neste momento?

-Viajo por todo o Japão. Mas preciso de trabalho.

Okita reflectiu por uns instantes, acabando entretanto a refeição.

-A Shinsen necessita de bons homens. Pensei que como ronin, quisesses um trabalho que te permitisse continuar como guerreiro.

-Como? Entrar na Milícia? E voltar a matar inocentes...?-Soujirou percebeu o que dissera e calou-se, intimidado. Mas Okita ouvira tudo.

-O que quer dizer com isso?

-Eu...deixei de matar porque derramei demasiado sangue inocente. - O jovem desabafou finalmente - Matei desde muito jovem, uma criança ainda. Fui uma marioneta nas mãos de um homem, limitei-me a seguir as suas ordens...até que vi o mal que fazia. E jurei nunca mais pegar numa espada. Se aceito...quebro o meu juramento.

Souji ouvia em silêncio, sem se impressionar. Afinal naquela altura não era nada do outro mundo encontrar um homem que já tivesse matado. Suspirou.

-Ouve com atenção. O que quer que oiças dizer por aí da Shinsegumi, não passam de mentiras. A nossa milícia apoia o Shougun. Não somos assassinos, embora tenhamos o direito de matar quem nos desobedeça. O nosso dever é proteger Kyoto e os seus habitantes dos distúrbios. Os problemas podem-se resolver sem ser necessário recorrer a espada. Geralmente têm-nos respeito. Só matamos se formos forçados a isso. Se fores tolerante, podes convencê-los a mudarem. E claro, só serás aceite se mostrares estar à altura.

O jovem Seta escutava-o atentamente, como que convencido. A penúria que passara fazia-o pensar que seria estupidez recusar uma posição que lhe traria prestígio. Mas ainda assim...

-Preciso de pensar. - respondeu após um momento e crispando as mãos no hakama.

Okita levantou-se e colocou as espadas no cinto.

-Muito bem. Se decidires ficar connosco procura-me no nosso quartel. Qualquer um pode-te dizer o local se não souberes. -Olhou para trás para Soujirou. -E uma vez decidido não poderás voltar atrás e ficar vivo. Por isso pensa bem.

Soujirou viu Okita afastar-se, o cabelo preso numa cauda abanando atrás de si.

Okita acabava de sair para o exterior quando uma voz o reteu.

-Aqui estás. Pensava que tinhas resolvido passar a noite lá dentro.

Saitou estava encostado a parede do restaurante.

-Saitou-san! Pensava que estavas no Dojo!

-Decidi aproveitar mais um pouco o ar livre e regressar contigo .- Saitou lançou-lhe um olhar sugestivo.

Okita corou suavemente e sorriu. Os dois homens afastaram-se em direcção ao seu Dojo, Okita ainda pensando nas palavras que trocara com Soujirou.

(1) O nome de infância de Okita Souji era Soujirou Harumasa.

(2) Nome que se dava aos samurais sem daímio e que vagueavam até encontrar os serviços de outro senhor.