Veneno Irresistível

Autor: Rhysenn
Nome Original: Irresistible Poison

Tradução: Mônica Beckman

Betagem: Dana Malfoy


Capítulo 9: A Fronteira da Razão
Mas o amor tem esperança onde a razão se desespera.

Bastante irônico, mas foi o suave som de uma porta se fechando que fez com que a mente de Draco regressasse ao reino da consciência; a escuridão do esquecimento se dispersou conforme os raios de sol faziam - no retroceder como luz prateada por trás de suas pálpebras cerradas. Uma dor surda nas têmporas era tudo o que ficava da aguda agonia recordada justo antes de tudo escurecer — e ainda podia sentir a sensação da queda, zunindo através de um espaço interminável, sustentando-o por nada mais que medo...

Um sussurro apagado o tirou da fria lembrança, regressando-o à realidade. Havia alguém mais no quarto. Draco manteve os olhos cerrados, não moveu nem um músculo, com os ouvidos atentos ao ouvir suaves pisadas aproximando-se; pisadas que fizeram eco no calor do silêncio, feitas com cuidadosa confiança ainda que um pouco vacilantes e completamente inconfundíveis.

Os passos de Harry, certamente.

Draco não precisou abrir os olhos para saber que Harry estava parado apenas a uns metros dele. Podia sentir sua presença, podia sentir a excitante tensão que enchia de nós o ar entre eles. Era uma sensação dolorosamente estimulante, que o fazia querer estender a mão para tocá-lo e ao mesmo tempo querer simplesmente deixar-se cair no vazio do nada em que havia caído, para que Harry se fosse e não estivesse aí quando despertasse novamente.

Ainda quando seu desconcertado estupor se dissipou, a recordação frágil ainda se aferrava às extremidades de sua mente em uma visão surreal de realidade. Draco não podia estar certo de que não era só justo uma invenção de seus momentos de delírio, justo antes que perdesse a consciência; mas lembrava ter aberto os olhos e a primeira pessoa que havia visto era Harry. E estava sobre ele, segurando sua mão; havia visto seus lábios se moverem sussurrando palavras silenciosas, palavras que se sentiam ternas, puras e tão confortantes, palavras que diziam que tudo estaria bem.

Mas ele sabia, pensou amargamente. Nada estaria bem nunca mais. Deve ter sido um sonho. Simplesmente outro sonho.

Os últimos vestígios de dor em seu corpo haviam diminuído; Draco se perguntou vagamente de quão alto havia caído e quanto dano se havia feito. Teria-lhe agradado muitíssimo sentar-se e inspecionar seus hematomas, se não fosse pelo fato de que parecia estar congelado, em um estado de coma consciente, só porque Harry estava parado perto dele. Sim, Harry estava parado exatamente ao lado dele, em alguma parte à sua esquerda — podia senti-lo.

Nesse momento a porta se abriu outra vez e Draco escutou Madame Pomfrey entrar no quarto, acompanhada pelo tilintar de uma bandeja que foi pousada na mesa de cabeceira, presumivelmente com seus remédios. Draco compreendeu que estava faminto.

"Potter, deveria estar descansando", ouviu a Madame Pomfrey repreendê-lo, confirmando o que sabia desde o princípio. "Acabo de consertar seu tornozelo e não deveria ficar caminhando por todos os cantos...".

"Ele está bem?", a voz de Harry soou baixa, com marcada preocupação. O coração de Draco tremeu de emoção — de fato sentia-se mais como uma pluma sugada por um aspirador. Era um sentimento denso e oscilante que não se sentia muito bem, mas era prazeroso ao mesmo tempo.

"Ficará bem", foi à curta resposta de Madame Pomfrey, "não há ossos quebrados ou costelas estilhaçadas, só está um pouco aturdido. Sinceramente, a queda pareceu muito pior do que foi".

"Mas ele se cortou seriamente quando chocou contra os arbustos...", a suave interjeição de Harry ainda era duvidosa e calorosamente ansiosa.

"Limpei-as e a maioria delas só eram feridas superficiais". Madame Pomfrey se ouviu impaciente e repetiu, "Ficará bem, de fato, deve acordar a qualquer momento. O Feitiço de Cuidado tem um suave efeito tranqüilizante, mas deve desaparecer logo. Não há nada com que se preocupar. Agora quero que vá já pra fora e se sente na sala de espera durante outros bons quinze minutos. Se se sentir bem suficientemente então, pode voltar ao dormitório. Agora saia daqui, Potter, saia daqui".

"Obrigado", foi à última palavra que Draco ouviu Harry dizer, então a porta se fechou e soube que Harry havia ido. Era de se esperar que Harry fosse educado, mesmo quando lhe haviam dito que 'saia daqui'.

Draco manteve os olhos fechados e continuou fingindo estar dormindo enquanto se analisava o que acabava de ouvir. A conversa lançou alguma luz no que havia acontecido — ao parecer depois de que havia caído de sua vassoura que era a última coisa que recordava ter feito, havia chocado contra os arbustos e se machucado bastante. E Harry tinha vindo ver se estava bem.

Inclinou a cabeça e mordeu o lábio inferior. Por alguma razão isso importava muito, muito mais que o resto do que havia ouvido.

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Madame Pomfrey se havia negado a permitir que qualquer um que não fosse um Apanhador banhado em sangue, entrar na enfermaria, sendo assim Harry estava só; sentado no sofá na sala de espera fora do quarto onde Draco se encontrava. Tecnicamente, meditou irônico, ele tampouco devia estar ali, já que havia se manchado com o sangue de Draco e não com o seu próprio.

Madame Pomfrey estivera tão aliviada de que ele não tivesse saído gravemente ferido, que não tinha parado para pensar no porquê dele ter ficado limpo da tão alegada 'colisão', enquanto seu contraparte ficara inconsciente. Só saíra com um tornozelo luxado, mas, uma vez de que limpara suas mãos e antebraços do sangue de Draco, essa foi a maior de suas feridas. Harry suspeitava que uma grande quantidade de sangue também havia caído em sua capa, só que não havia podido ver as manchas já que ela era escarlate.

'Pelo menos está bem'. Harry se apoiou nos cotovelos, entrelaçando os dedos detrás de sua cabeça e descansando-a contra as palmas de suas mãos. 'Ficará bem. Pelo menos até sair daqui'.

Harry sabia que Rony e Hermione provavelmente estariam do lado de fora o esperando, mas por alguma razão, não tinha vontade de vê-los neste momento e para ser franco, nem ao resto de sua equipe. Espirais de confusão rodearam seus pensamentos fragmentados e aturdidos em sua cabeça, enquanto repassava mentalmente o jogo de Quadribol por milionésima vez...

Draco quase apanhando o Pomo. Draco sendo golpeado pelo Balaço. Draco voando como se sua mente estivesse a quilômetros de distância, com movimentos mecânicos e vacilantes. E por último, Draco caindo e esse eco terrível de silêncio sólido quando golpeou o solo...

"Harry".

Harry saiu bruscamente de seu sinistro devaneio e olhou a seu redor, sobressaltado — e viu Hermione entrando na enfermaria, com um olhar de franca preocupação em seu rosto. Abrira a porta tão silenciosamente que não a escutara.

A tensão nos traços de Harry se relaxou um pouco, embora ainda se ouvisse no tom de sua voz.

"Oi, Hermione", disse, apartando as lembranças da partida de Quadribol para depois.

"Você está bem?", foi a primeira pergunta que saiu de sua boca.

"Sim, estou bem", disse cansado, oferecendo-lhe um pequeno e lívido sorriso. "Pomfrey a expulsará daqui quando sair lá de dentro, mas enquanto isso por que não entra?".

Hermione observou cautelosa a porta fechada que levava ao quarto onde Draco estava descansando, antes de se deslizar dentro da sala de espera e cerrar a porta atrás dela. Cruzou o aposento para se sentar ao lado de Harry e seu ombro roçou o dele em um gesto de silencioso consolo. Não disse nada por uns momentos, mas finalmente falou quando Harry também permaneceu calado.

"Como está Malfoy?", perguntou suavemente. Sua voz tinha uma fraca sensação de falsa preocupação, ainda que sem dúvida fosse genuína.

"Não sei", Harry respondeu aturdido. "Madame Pomfrey disse que ele vai viver, então que suponho que assim será. Mas não me pergunta o que aconteceu lá fora, porque não tenho a mais remota idéia. Talvez Malfoy possa nos dizer quando despertar".

"Quer dizer que não...", começou Hermione.

"Não fiz", disse brevemente. "Não tenho nenhuma maldita pista sobre o que aconteceu lá fora, só que estava empapado com o sangue de Draco e que havia sangue por todo o lugar e ele não parava de sangrar", desmoronou e estremeceu. "Foi horrível".

"Todo mundo pensa que vocês dois colidiram", disse Hermione, em um tom cuidadoso.

Harry suspirou.

"E o que você pensa Mione?".

"Eu penso que há mais do que se vê na superfície", disse Hermione neutra, ainda que um pequeno encolhimento de ombros traísse sua perplexidade. "Eu vi o que todos os demais nas arquibancadas viram, Harry. Mas sei um pouco mais sobre a — da situação entre você e Malfoy e isso faz uma grande diferença".

"Assim, também acha que a admirável poção teve algo a ver com isto?", a voz de Harry ainda soava confusa.

Hermione se largou contra o sofá. "Tentei...", disse. "Tentei me dizer que devemos tomar pelo que se viu, que só foi uma desafortunada colisão, como pensam todos os outros. Rony está lá embaixo tendo uma rápida conversa com a equipe — está lívido, acha que Malfoy tentou te tirar da vassoura no meio do vôo. Mas... mas eu não posso me convencer de que essa seja a verdade. Só queria perguntar pra você primeiro, que foi o que aconteceu realmente".

Harry negou com a cabeça suavemente. "Não posso te dizer".

Hermione mordeu o lábio e fez uma marcada respiração ao escutar o tom profundamente agitado da voz de Harry.

"Não posso te dizer porque nem eu sei", Harry continuou olhando fixamente suas palmas; estendeu suas mãos frente a ele e as voltou. "Não sei como aconteceu e não sei por quê. Não lembro de ter colidido com a vassoura de Malfoy, mas posso estar equivocado. Talvez as pontas traseiras de nossas vassouras tenham roçado e algum caprichoso fenômeno aerodinâmico lançou sua vassoura a toda velocidade. Não sei. Mas o que se sei é que —", a voz de Harry vacilou um pouco, "é que não funcionou".

O coração de Hermione deu uma sacudida. "Que não funcionou?".

"A cura", disse Harry deixando-se cair de costas com um suspiro derrotado. "Lembra do que eu disse, sobre quando Malfoy tomou aquela maldita faca e se feriu no peito? E que quando segurou minha mão e a apertou contra a ferida, esta se curou? Bom, tentei fazer o mesmo no campo, quando estava sangrando tanto que pensei sangraria até morrer se não fizesse alguma coisa. Mas não funcionou. Nada aconteceu. Nada mesmo".

"E isso que significa?", perguntou Hermione.

"Essa é uma pergunta muito boa", respondeu suavemente Harry.

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A atmosfera na sala comunal da Grifinória era mista - a palavra oficial de Madame Hooch se emitira durante o jantar e foi decretado que a partida Sonserina - Grifinória se tomaria por abandonada devido à perda dos Aparadores de ambas equipes (que teoricamente significava que a partida continuaria para sempre se não fosse detida). A nova partida se fixaria para um horário posterior, que se anunciaria em momento 'xis'.

Os Sonserinos, certamente, tinham estado muito contentes por isso; os Grifinórios, entretanto, não estavam, já que eles estavam ganhando por uma ampla margem antes do acidente. Não obstante, todos os Grifinórios se uniram amigavelmente em apoio a Harry e lhe diziam uma e outra vez que não havia sido sua culpa que a partida tivesse sido cancelada. Qualquer um que desse uma olhada à expressão aflita de Harry enquanto se deixava cair enfrente da lareira teria entendido por que seus companheiros estavam fazendo seu melhor esforço para confortá-lo.

"Realmente não foi tua culpa esse imbecil do Malfoy arruinar tudo", disse Rony pela enésima vez e Harry desejou que deixasse de repeti-lo.

Seamus assentiu mostrando que estava de acordo. "Malfoy estava tentando se vingar de você pelo que aconteceu antes, quando quase o derrubamos com esse Balaço — e era óbvio que você estava a ponto de apanhar o Pomo, assim que foi pro tudo ou nada e bateu em você".

Hermione franziu o cenho. "Realmente viu a colisão, Seamus?".

Seamus se voltou a ela, debochado. "Que você acha que aconteceu? Que os dois decidiram desmontar no ar ao mesmo tempo?".

"Mas foi Malfoy quem caiu primeiro, e..." Hermione começou a discutir, mas Harry falou firmemente, interrompendo-a.

"Foi um choque, Mione", e lhe dirigiu um breve e significativo olhar, logo continuou, "Não creio que nenhum dos dois tentou chocar, mas o fizemos e é uma pena, especialmente porque Grifinória estava ganhando".

"Mas está tudo bem, Harry", disse confiante Rony e lhe dirigiu um brilhante sorriso a Harry. "Acabaremos com eles outra vez no próximo jogo. Olhe pelo lado bom – bateremos nos traseiros deles duas vezes na mesma temporada. E com sorte Malfoy estará muito deplorável para poder jogar Quadribol, oh não sei, talvez para sempre".

"Rony", Hermione disse sutil, ainda que continuasse olhando cautelosa a Harry.

"Sabe alguém o que aconteceu com Malfoy?", perguntou Harry casualmente, ainda que Hermione visse o brilho em seu olho e notou a rapidez de sua pergunta, em resposta à menção do nome de Draco.

"Ouvi que está em coma", disse Rony esperançoso. "Não estava com ele na enfermaria Harry? Poderia ter trocado seus remédios ou algo assim".

"Sim, por essas Pílulas Falsas de Fred e George", acrescentou Dino rindo satisfeito. "Quando acordasse, Malfoy não seria precisamente A Bela Adormecida".

"Sim, e daria muito trabalho à Madame Pomfrey descobrir quem deveria enforcar por isso", respondeu secamente Harry.

Hermione se sentou em silêncio e observou aos animados rapazes analisarem minuciosamente o jogo, até antes que fosse detido, assim como discutir a estratégia para o seguinte. Notou que Harry não estava participando tanto quanto devia, o que era estranho, em especial porque se tratava de uma chuva de idéias sobre seu tema favorito. Parecia distraído e salvo alguns assentimentos e curtos comentários ocasionais, parecia como se sua mente estivesse a milhas de quilômetros de distância...

Ou talvez não tão longe — só descendo pelo corredor, primeira esquina da escada à direita, dois pisos abaixo. A enfermaria.

Hermione se pôs de pé recolhendo seus livros sem dizer uma palavra e fazendo o menor ruído possível. Mas Harry, perceptivo e observador como sempre, notou que se ia e levantou uma sobrancelha, inquisidor.

Ela lançou-lhe um olhar significativo e assentiu uma vez; ele sustentou o olhar por uns momentos e ainda quando não entendeu o que ela havia querido dizer, seus olhos ainda estavam cheios de confiança incondicional. Confiança em que ela sabia o que estava fazendo e que ainda que ele não soubesse o que tinha em mente, confiava em que ela faria o que fosse melhor.

Hermione estava já quase fora do retrato quando Rony a chamou, "Hey! Aonde vai?".

"À biblioteca", respondeu por cima de seu ombro, "preciso consultar um livro antes que fechem".

Sem esperar uma resposta, deslizou-se através do buraco do retrato e se foi. Uma vez fora, Hermione consultou seu relógio — eram pouco depois das oito e com sorte a maioria dos estudantes agora estaria de volta à suas salas comunais. Caminhou ao longo do corredor iluminado por tochas, deu volta no primeiro descanso da escada a sua direita e se dirigiu à enfermaria.

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Draco moveu as pernas a um lado da cama e as estirou, movendo os dedos dos pés e olhando-os fixamente como se eles contivessem todos os segredos do universo. A rigidez do corpo quase desaparecera, revestida por um vago, mas familiar sentido de inquietude, como o rumor de um terremoto antes de sair à superfície; denso, sólido e sumamente inquietante.

Haviam passado só dez horas desde que havia chegado à enfermaria e já estava entediado. Alguns de seus amigos da Sonserina haviam vindo vê-lo cedo - Vincent e Gregory certamente, assim como Blaise Zabini e Pansy Parkinson quem o havia mimado e feito gracinhas como se fosse um passarinho machucado.

Mas a única visita dessas que importava era Harry.

'Ele está bem?'.

A voz de Harry havia estado cheia com tão genuína e profunda preocupação que Draco quase poderia jurar que depois de tudo, Harry havia se preocupado com ele. Quase. Mas então ele tinha ido e Draco não o havia visto desde então. Era absurdo sequer esperar que voltasse a vê-lo. Por que o faria?

Porque era Harry. Se havia algo que Draco havia aprendido nas últimas semanas, além da tortura suprema de querer cair de joelhos cada vez que Harry andava por aí, era que Harry possuía uma nobreza que estava mais além do que ele houvesse esperado. Ainda que a nobreza fosse só uma farsa, uma sombra caritativa de amor, ainda assim era algo especial. E uma parte dele, irracionalmente havia passado o dia esperando cada vez que a porta se abria, que Harry entrasse de novo, que viesse e dissesse algo, qualquer coisa, fazendo que tudo se sentisse bem outra vez, só por esse instante.

Mas Harry nunca voltou.

"Ainda continua tendo dez dedos aí? Ei! Peraí! Faltam dois?".

Draco levantou a vista e viu a Hermione parada na quina da porta, com uma expressão inescrutável no rosto. Ou ele havia estado demasiado absorto pensando em Harry que não a havia escutado abrir a porta, ou ela havia entrado tão silenciosamente como alguma rara e nova forma de Aparatamento.

"O horário de visitas não acabou?", Draco disse irritado Draco; pôs ambos pés no chão, embora não se levantasse.

"Sim", Hermione caminhou ao pé da cama de Draco e cruzou os braços. "Mas eu disse a Madame Pomfrey que só ia te dar um recado, então ela deixou que eu passasse".

"Um recado?", o coração de Draco deu um salto, refletindo comicamente dentro de sua caixa torácica; sua tristeza se converteu em um brilho de esperança. "De... de quem?".

"De ninguém", respondeu indiferente Hermione. "Só precisava de uma razão para entrar, isso é tudo".

Para surpresa de Hermione, Draco pareceu verdadeiramente cabisbaixo durante um breve instante, antes que a desilusão rapidamente se dissolvesse uma vez mais em indiferença. Mas de qualquer forma ela tinha notado.

"Como se sente?", perguntou, um pouco de má vontade.

"Maravilhoso", respondeu Draco, "de vez em quando é revigorante cair seis metros em queda livre de uma vassoura. A próxima vez terá que experimentar de um precipício".

"Belo espetáculo o de hoje", comentou áspera Hermione. "Muito impressionante. Que aconteceu realmente?".

Draco se zangou. "Espetáculo, Granger? Se tivesse querido fazer uma cena, teria entrado nu no Salão Principal, ou teria dançado can-can na masmorra durante a aula de Poções. Teria convertido Longbottom em um flamingo rosado e o teria feito dançar tango. Sem dúvida, não teria me lançado da minha vassoura como um kamikaze, quase me matando no processo".

"Lástima pelo 'quase'", Hermione reprimiu um sorriso. "E tem algum problema contra dançar?".

"Odeio dançar", Draco fez uma careta. "Todo mundo sabe".

"Bom, nota-se", Hermione fez uma pausa. "Sem enrolação, não respondeu minha pergunta... exatamente que aconteceu lá em cima? O que você fez?".

"Tinha a cara enterrada num livro durante o jogo, Granger?", Draco lhe dirigiu um olhar o bastante frio para congelá-la. "Caí da minha vassoura e quase quebro o pescoço, quase fico sem sangue pelas múltiplas lesões e então misericordiosamente desmaiei. Mas ouvi que Potter veio abaixo também, então estou certo de que ele te proporcionou uma retrospectiva quadro-a-quadro dos sangrentos detalhes".

"Todo mundo pensa que vocês dois colidiram no ar", Hermione cravou os olhos em Draco. "Foi isso que aconteceu?".

"O quê Harry disse?", perguntou Draco imediatamente.

Hermione suspirou. "Não tem certeza. Não lembra de ter se chocado. Supõe que à parte de trás das vassouras possam ter-se roçado e que só foi um acidente inesperado. Embora", acrescentou, "haja alguns que pensam que você foi deliberadamente contra Harry para que a partida se suspendesse e fosse reprogramada para outra data".

Draco deixou escapar um riso depreciativo. "Desde quando, Granger, me conhece como uma pessoa tão sacrificada?".

"Sei que faria qualquer coisa pela glória", respondeu Hermione, sem um rastro de sorriso, "e vencer Harry no Quadribol é algo que quer faz muito tempo".

Draco entrecerrou os olhos. "Assim, você também concluiu que bati em Harry de propósito".

"Não", disse diplomática Hermione, "não penso isso. Sei o que vi Malfoy e também sei que o que aconteceu vai mais além de um simples caso de erro de cálculo. E quero ouvir como aconteceu diretamente de você e ainda mais importante, porque aconteceu".

"Por que aconteceu?", Draco sorriu amargamente, sem humor. "Não é bastante óbvio, ou você foi golpeada por um Balaço na cabeça?".

"Sei que tem algo a ver com a poção de amor", disse Hermione com impaciência, "mas até onde sei, as poções de amor não provocam momentos de súbita inconsciência, ou colisões no ar".

"Não sabe de nada, Granger", respondeu sério, com os olhos cinzas endurecido e cheios de tensa emoção. "Posso te dizer que a primeira coisa que deve saber sobre as poções de amor é que qualquer bom juízo é totalmente estropiado. Em cada aspecto de sua vida, cada vez que certo alguém está por perto".

"Já sei -", começou Hermione, mas ele a interrompeu.

"Quando o vejo, sinto como tudo a meu redor se desfaz em pedacinhos e se compõe em um só momento e também o chão se desvanece e se fica barroso", Draco falou com um tom sombrio, monótono, como se falasse de uma vida alheia que não era sua; as palavras pareciam brotar de seus lábios contra sua própria vontade, como uma onda reprimida dirigindo-se à costa.

Draco não sabia porque estava confiando isto a Hermione Granger, mas sabia que se não dissesse a alguém, simplesmente ia explodir. "Sabe quanto tempo tenho passado observando-o estas duas últimas semanas? Muito. Creio que não exagero se disser que de alguma maneira, conheço Harry melhor que qualquer um de vocês. Por exemplo, que mão usa Harry para tirar o cabelo dos olhos?".

"Hmm", disse incerta Hermione, parecia desconcertada, "a esquerda?".

"Sempre a direita. E sabe que ele gosta caminhar com as mãos nos bolsos, a menos que carregue livros, cujo caso sempre os leva na mão esquerda porque a direita é a mão com que segura a varinha? Sabe qual é a primeira coisa que sempre tira de sua mochila quando senta na sala de aula?".

"Seu pergaminho?", sugeriu Hermione, dando-se conta de que não tinha idéia. "Ou sua pena?".

"Não. Seu vidro de tinta preta", Draco lhe dirigiu um sorriso sereno, ligeiramente convencido. "Não é realmente surpreendente quanto ignora sobre alguém que pensava conhecer tão bem?".

Hermione, por sua vez, não podia pensar em algo para responder.

"Bem", Draco continuou em uma voz baixa, moderada, "suponho que tenho estado percebendo tanto sobre como Harry se comporta, porque a poção me faz particularmente sensível a seus sentimentos e suas reações a mim. Poderia dizer quando Harry está olhando pra mim, sem sequer levantar o olhar. E sabe? Esta - esta destrutiva conexão não melhora com o tempo. Só fica pior. É por isso que - durante a partida...", não terminou.

"Que?" Hermione se ouvia quase sem fôlego. "O que quer dizer?".

Draco mordeu o lábio e desviou o olhar. "Essa manhã a atmosfera inteira estava mais tensa que usual — as emoções estavam exaltadas pela excitação da partida de Quadribol. Simplesmente pude sentir quando Harry estava zangado e sua raiva rompeu o incerto equilíbrio da dinâmica entre nós. Era...", se interrompeu buscando as palavras, "era como se afogar, onde tudo o que você vê quando sua cabeça irrompe à superfície da água é um céu carmesim e tudo o que vê quando afunda é um mar de escuridão. Suponho que era mais do que podia suportar nesse instante e desmaiei".

Hermione estava olhando-o fixamente, boquiaberta. "Harry te fez cair? Por que... por que estava bravo contigo, em primeiro lugar?".

"Porque quase apanhei o Pomo", disse Draco, sem se alterar. "Eu não era o único Apanhador furiosamente competitivo hoje no campo. Especialmente porque Harry nunca conheceu o oposto à vitória. Ele estava jogando para ganhar, poção de amor ou não".

"Harry não podia estar tão bravo contigo", protestou fracamente Hermione. "Esteve cuidando de você ao longo do jogo... estava preocupado de verdade porque com as complicações da poção de amor, não serias capaz de agüentar a partida inteira".

"E estava certo", Draco disse com cinismo delineado em sua voz. "Acredite em mim, Granger, ele estava bravo comigo. Estava positivamente furioso. Pude senti-lo — talvez demais — e não pude repelir ou lidar com tanta crua emoção e é por isso que desmaiei".

Draco se deixou cair na cama, apoiando-se contra a cabeceira enquanto olhava fixamente ao longe, submergindo-se na tórrida retrospectiva desse momento que o estilhaçava e o queimava como nada que tivesse experimentado antes. Havia sido uma onda escarlate, vermelho puro sem a sombra mais ligeira de negro ou branco — a cor da zanga, da dor, da paixão, a cor do amor.

Amor, que era uma soma de todos eles e mais.

Draco se obrigou a deixar de pensar nessas recordações candentes; regressou a vista a Hermione. "Agora já sabe o porquê".

"Harry não tem a menor idéia disso", disse Hermione com o cenho franzido.

Draco encolheu os ombros. "Às vezes é fácil não notar os sentimentos de outras pessoas".

"Harry não é assim", insistiu Hermione, saindo automaticamente em defesa de seu amigo.

Draco sustentou seu olhar firmemente. "Eu sei".

Permaneceram sentados tranqüilamente durante um longo momento, compartilhando um agoniado silencio. Finalmente, Hermione falou.

"Que vamos fazer agora?", parecia ansiosa e infeliz.

"Talvez não haja nada mais a fazer", respondeu suavemente Draco e o tom tácito de derrota em sua voz era agonizante. Levantou os olhos para Hermione. "Harry te pediu que viesse?".

Hermione negou com a cabeça. "Não. Eu mesma quis vir e falar você, Harry — bom, ainda se encontra perturbado com tudo isso e pensei que seria melhor deixá-lo em paz por um tempo, antes de pensar em que fazer".

Draco desviou os olhos, deixando cair seu olhar nos brancos azulejos do chão, tão clinicamente limpos e bem polidos. "Veio me ver hoje".

Hermione não parecia surpreendida. "Está preocupado com você. Preocupado se você está, e ele...", esteve a ponto de dizer a Draco sobre o falho intento de curá-lo no campo, mas decidiu não fazê-lo no último momento, "foi a primeira pessoa ao seu lado exatamente depois que caiu da vassoura. E agora mesmo está tão confuso sobre o que aconteceu lá em cima — não sabe porque ou como e definitivamente não tem idéia de que ele tenha sido o causador".

"Vai dizer a ele?", perguntou Draco, uma luz escura faiscou em seus olhos à menção do nome de Harry outra vez.

"Quer que o faça?".

"Não sei", Draco disse descuidadamente, ainda que a tensão fosse evidente na forma em que se deu de ombros. "Depende de você".

"Não me venha com isso!", Hermione parecia incomodada e lhe dirigiu um olhar duro. "Melhor decidir se quer que diga a Harry ou não. Não vai deixar essa decisão pra mim".

"Acha que ele ficaria melhor se soubesse?".

Hermione o considerou um momento. "Não sei", disse sincera.

"Então faz o que achar mais conveniente".

Draco se esticou e se serviu de um copo d'água da jarra que estava a um lado da cama, logo tomou um gole. Olhou fixamente a água, observando como se refletiam os raios de luz ambarina no líquido transparente, captando o espectro do arco íris quando se dispersavam através da transparência pura da água e o vidro. Indiferente, moveu o copo em forma circular, criando um pequeno redemoinho no copo, que se dissolveu quando deteve o movimento.

"Somos tão malditamente confiantes hoje em dia", disse em voz alta, como se se dirigisse a sua bebida. "Damos tudo por estável e nem sequer pensamos duas vezes em como um pequeno giro nos eventos pode alterar nossa vida inteira. Não quero dizer que não nos preocupe o que nos acontece — quero dizer que assumimos demais para nos preocupar de menos. Este copo d'água, por exemplo", levantou o copo, como se oferecesse um brinde, "o beberei quando estiver sedento. Nem sequer suspeitarei que poderia estar envenenado e que este poderia ser o último gole que tomarei".

Hermione lhe enviou um olhar curioso. "E por que a água estaria envenenada? Por que Madame Pomfrey acha que não fica bem em seus registros uma taxa limpa de fatalidades entre seus pacientes?".

"Não seja obtusa, Granger, é só uma comparação". Draco lhe dirigiu uma olhar apagado, logo voltou a olhar mal-humorado o copo d'água suspeita, da que tomou outro gole. "Sem dúvida, ainda se estivesse narcotizada, não pode ser pior que o estado no que já me encontro — a poção de amor é veneno mágico e corre em cada gota de meu sangue. E não me matará", deixou sair um riso curto, amargo, "pelo menos não ainda. E definitivamente não tão rápido".

"Deve ter uma maneira de neutralizar a poção de amor", disse resoluta Hermione, com determinação na voz, "ainda quando não exista um contra-feitiço direto, deve haver alguma escapatória".

"Escapatória?", Draco a olhou incrédulo. "Que pensa que é isso, Hermione? Uma regra que estamos intentando evadir? O amor não joga com regras e não vai começar agora. É um erro e alguns erros nunca podem, jamais, ser retificados".

"Então simplesmente vai conviver com isso?", Hermione voltou os olhos para ele com ceticismo. "Simplesmente vai aceitar isso como um erro, como se isso pudesse ajudar algo? E quanto a Harry?".

"Harry, para sua informação, não é o que vai perder a compostura sob a prolongada influência da poção de amor", disse Draco falando os dentes. "Harry, casualmente, pode continuar com sua vida sem levar nenhuma cicatriz da poção, pode se afastar e voltar à normalidade".

"Não, não pode", disse Hermione energicamente, lançando-lhe um olhar feroz. "Se acha que é o único afetado pela poção de amor, está enganado. Desde que lhe mostrou gravidade da poção, se cortando e fazendo-o curá-lo, tem estado preocupado por toda essa baderna como nunca poderá imaginar. Está escondendo coisas de Rony só para proteger este horrível segredo. Está faltando a aulas, escapulindo por aí só para falar contigo. E nestes sete anos nunca o havia visto jogar Quadribol tão mal. Assim que deixa de se comportar como se fosse um santo martirizado e use seu tempo para pensar numa solução pra isso, porque sei que há uma maneira de sair, de algum modo".

"Sabe? Soa como a odiosa Mathilda Miggs, a Louca Mamãe Trouxa". Draco soava ligeiramente entediado. "Só ouça a si mesma: 'Sei que há uma maneira de sair, de algum modo!'. Por favor, poupe-me do idealismo".

"Ah, pare de falar tanto, ok?", exclamou Hermione.

"Veja", Draco se deixou cair sobre a almofada. "Achar que 'tive um dia horrível' é uma grande subestimação. Assim, talvez só direi que 'é a comoção que lhe fala'. De qualquer forma, não estou no mais otimista dos humores e esta conversa não está me fazendo sentir muito melhor".

Draco cerrou os olhos e por um raro instante Hermione se impressionou por quão vulnerável e frágil parecia, marcado com um ar de cansada inocência.

"Tenho estado me perguntando", disse, "se um Encanto de Memória poderia funcionar. Para te fazer esquecer que está sob a influência da poção e talvez inclusive apague da sua memória toda a lembrança de ter bebido a poção".

Draco negou com a cabeça. "Não funcionará. Os Encantos de memória são inferiores em poder à Maldição Imperius e nem sequer Imperius funciona enquanto estás sob o efeito da poção de amor. Como pode ver...", respirou fundo, havia um tremor em sua voz, "os feitiços de Memória e a Maldição Imperius se metem com a sua mente. As poções de amor se metem com o seu coração".

Hermione olhou Draco e pela primeira vez em sua vida, viu impotência pura e confusão em seus olhos, brutalmente sinceros; e viu que sob a fachada de arrogância e apatia, estava realmente assustado, porque não tinha nenhuma idéia de que fazer. A falta de controle de uma situação, ao parecer não era algo que lhe houveram ensinado, não na casa de Malfoy.

Ela suspirou pesadamente. "Deveria descansar", deu meia-volta para ir embora.

"Preciso falar com Harry", disse Draco.

Hermione encarou-o. "Quando?", foi tudo o que dissera Hermione e Draco se surpreendeu; havia esperado que perguntasse sobre que queria falar com Harry.

"O mais cedo possível. Amanhã à noite, às nove. No mesmo lugar, ele sabe onde".

Hermione revirou os olhos. "Sim, a despensa no quinto piso, Torre de Astronomia", fez uma pausa. "Realmente sabe como escolher um lugar para se encontrar — sabe por que a maioria das pessoas freqüenta a Torre de Astronomia de noite, certo?".

Draco fez uma careta. "Sim, a questão é que eles estarão ocupados demais para se dar conta de que estamos ali".

Hermione resmungou. "Contanto de que vocês dois não se deixem influenciar pelos casaizinhos que estejam por lá".

Draco soltou um riso vazio. "Não se preocupe, Harry se assegurará de que nos mantenhamos conforme o prescrito".Observou como Hermione alcançava o trinco da porta e então acrescentou suavemente, "obrigada por vir".

Hermione se deteve e o olhou de soslaio. "Direi a Harry que mandou dizer 'oi'".

"Só diga que esteja lá amanhã à noite".

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"Conseguiu falar ontem a noite com Malfoy?", foi a saudação de Harry para Hermione à manhã seguinte, enquanto deixavam a sala comunal para ir tomar café no Salão Principal.

"Sim", Hermione replicou lacônica, mas não disse nada mais. De fato, não estava certa de querer lhe dizer o resto da conversa.

"E?", pressionou impaciente. "Que disse?".

"Disse que quer te ver essa noite, na despensa do quinto piso".Hermione olhou a seu redor para se assegurar de que Rony não estava escutando; Rony estava a uma distância curta, perguntando a Seamus as datas das partidas contra as outras casas e fazendo hipóteses sobre os prováveis resultados.

"Esta noite?", Harry franziu o cenho. "Para que? Sobre que quer falar?".

"Não sei", Hermione respondeu honestamente, "não me disse. Mas realmente parecia que queria falar contigo".

"Sabe o que aconteceu ontem lá em cima?", insistiu Harry. "Por que caiu? Por que não pude curá-lo?".

"Não contei a ele sobre sua tentativa de curá-lo, já parecia bastante preocupado". Hermione o olhou de soslaio. "Que aconteceu ontem a noite — sobre o que falou na sala comunal? De repente recordou que havia sido só uma colisão, ou foi para que Rony e o resto não suspeitassem outra cosa?".

"Todo mundo pensa que chocamos e creio que é a melhor versão a que nos podemos apegar", respondeu. "Que Malfoy disse?".

"Malfoy terá alta da enfermaria hoje, então...", Hermione começou, antes que Harry gentilmente lhe tocasse o ombro e a colocasse de lado caminhando mais lento.

"Hey", a olhou com olhos cheios de sincera ansiedade. "Olha, Mione, está evitando minha pergunta, é evidente. Há algo que deva saber sobre o que aconteceu ontem? Por favor, Mione, me diz o que te disse".

Hermione mordeu o lábio. "É algo difícil de dizer, Harry".

A expressão confusa de Harry estava muito preocupada e infeliz. "Malfoy te pediu que não me dissesse?".

"Não", disse Hermione, o dilema se via em seu rosto. "É só que... oh, Harry, é você".

"Sou eu?", Harry pestanejou. "Que...?".

"Você, Harry", disse Hermione com voz grave, "Você aconteceu ontem. Malfoy caiu por sua causa, e está se desmoronando por você, e...", se interrompeu, e suspirou pesadamente.

Harry a olhava fixamente, atônito. "Caiu... por minha causa? Que...", parecia absolutamente desconcertado, "Que significa isso? Que realmente colidimos?".

"Não", disse Hermione, soando agitada. "Ele disse que você estava bravo com ele, porque ele quase tinha apanhado o Pomo e tua raiva foi engrandecida de algum modo pelo efeito da poção de amor. Pôde sentir tua raiva dentro de sua cabeça, Harry e foi demais para ele, desmaiou e caiu da sua vassoura".

Harry ficou calado um longo momento; Hermione encarou-o preocupada. "Olha, Harry, não é sua culpa o que aconteceu...".

Chegaram ao Salão Principal e tiveram que deixar de falar um momento enquanto encontravam seus lugares e viam vários de seus companheiros de aula. Harry se sentou junto a Hermione e permaneceu calado enquanto a comida era servida nas mesas.

Hermione sentia-se terrível por ver Harry tão incomodado — quase se arrependia de ter-lhe dito, embora soubesse que Harry merecia saber toda a verdade, já que ele estava mais intimamente envolvido do que ela jamais estaria. Mas havia duvidado em lhe contar tudo pela mesma razão, porque sabia que se sentiria culpado e se acusaria do que havia acontecido a Draco.

Era inoportuno que falassem durante o café, já que não poderia manter uma conversa apropriada com Harry. Encarou-o de novo e o descobriu procurado pelo salão, sentindo um vazio no estômago quando se deu conta de onde estava olhando fixamente: o assento vazio de Draco na mesa da Sonserina.

"Harry", começou a dizer, tentando pensar em algo para tranqüilizá-lo, mas este negou laconicamente com a cabeça, indicando-lhe que não discutissem na mesa.

Infeliz pelo sombrio começo da amanhã, Hermione começou a passar manteiga num pedaço de torrada. Mordiscando seu pão, pensou sobre o que Draco lhe havia dito na noite anterior — suas palavras tinham um eco pesado, sinistro, palavras como veneno, sangue e erros que não podiam ser retificados. Mas continuava mantendo a confiança em que encontraria uma saída. De algum modo.

E de repente, enquanto levava o copo de suco de abóbora aos lábios, uma idéia a tirou de sua tristeza, ao observar a serpente prateada, a insígnia da Sonserina que suspendia a bandeira verde...

Mordida de serpente.

Veneno.

No sangue.

Antídoto.

"Oh deus!", exclamou levantando-se de pressa. "Tenho uma idéia!".

Todos a olharam fixamente; também Harry, desconcertado.

Hermione agarrou seu pedaço de torrada e o meteu na boca, murmurando algo do qual só a palavra "biblioteca" foi entendível e saiu do Salão Principal.

Seamus se voltou vê-la ir-se, com expressão divertida. "Bom, damas e cavalheiros essa foi à versão moderna do 'Eureca!'. Ainda que muito menos escandaloso".

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Harry verificou seu relógio pela terceira vez nos últimos cinco minutos - eram quinze para as nove e estava sentado só em sua cama no dormitório masculino. Rony e os outros estavam na sala comunal, mas ele optou por permanecer em cima para ter alguma paz e quietude. Sabia que Hermione estava na biblioteca, onde passava a maior parte de seu tempo quando não estava nas aulas, investigando sobre poções que funcionaram da mesma forma na que os antídotos faziam com as mordidas de serpente.

Reconheceu que era uma idéia brilhante; tinha certeza de que ocorreria a Hermione um plano inteligente como esse. Ao parecer Draco havia dito algo no dia anterior que a havia feito pensar na poção de amor em termos de veneno no sangue, o que significava que uma poção antitoxina deveria poder refinar a essência da poção de amor. Era maravilhosamente simples e definitivamente valia a pena tentá-lo — supunha que informaria a Draco desta nova idéia quando se encontrassem a noite.

Um grosso e poeirento livro titulado Medicina Mágica estava em sua cama — Hermione o havia dado para que o lesse e se familiarizasse com o conceito básico de seu plano. Harry folheou o livro até as últimas páginas, onde estava o índice por tema. Localizou facilmente o tema da 'poção antitoxina', procurou o número da página e começou a ler:

As poções antitoxina são usadas para desintoxicar o sangue que foi contaminado com veneno, químicos tóxicos ou outras substâncias estranhas que possam ser fatais ou causar complicações médicas. A antitoxina atua indiscriminadamente em todos os tipos de substâncias químicas consumidas de forma oral ou intravenosa; como resultado, todas as drogas terão que ser re-administradas uma vez que a poção antitoxina tenha sido consumida. Freqüentemente anula o efeito de medicamentos mal administrados, a poção antitoxina trabalha melhor em substâncias químicas facilmente distinguíveis na torrente sanguínea. O efeito da poção é freqüentemente discernível de forma imediata, ainda que possa demorar até 24 horas para mostrar resultados.

Harry deixou de ler e analisou um momento. Esta poção antitoxina parecia a solução perfeita que haviam estado buscando. Certamente, este livro era só uma referência farmacêutica mágica, não detalhava a preparação da poção — isso era o que Hermione estava buscando arduamente na biblioteca.

Draco deve muito a Mione, pensou consigo mesmo Harry, enquanto verificava a hora de novo — eram dez para às nove, hora de ir.

Enquanto tirava a capa e a punha cuidadosamente sobre o respaldo de sua cadeira para que não se amassasse, algo caiu de seu bolso no chão. Ao agachar-se para recolhê-lo, Harry se deu conta que era o bilhete que Draco lhe havia escrito fazia menos de uma semana. Era difícil de acreditar que tivesse passado tão pouco tempo. Desde então e até agora, era como se tivesse transcorrido uma eternidade, como se cada momento entre eles tivesse sido retirado do fluxo do tempo e tivesse se alargado, cheio até os extremos de todos os sentimentos encontrados.

Harry sacudiu a cabeça e tratou de tirar de sua mente as intensas preocupações — pôs o bilhete fora de vista e colocou o livro sobre a mesa de cabeceira. Tomando uma respiração profunda e tranqüilizante, saiu do dormitório e desceu pelas escadas, tentando parecer tão casual quanto pudesse. Os outros Grifinórios estavam sentados na sala comunal conversando e fazendo seus deveres e Harry deu a desculpa que ia ver a professora McGonagall sobre seu projeto trimestral de Transfiguração, antes de sair rapidamente da sala comunal.

Suas pernas se moviam quase de forma mecânica, recordando o solitário caminho à despensa na Torre da Astronomia, ainda que só tivesse estado ali uma vez. Algumas coisas eram difíceis de esquecer, sobretudo quando suas lembranças da despensa eram facas, sangue, anéis e Draco.

Chegou ao armazém um minuto antes das nove e golpeou duas vezes a porta antes de abri-la com cautela. Como de costume, Draco já estava ali e desta vez estava sentado sobre a tampa de um largo baú de madeira colocado no extremo distante da despensa. Harry não lembrava de ter visto o baú antes — talvez Filch tinha acabado de trazer, o que não era bom porque isso significava que a despensa não estava tão em desuso como eles pensavam.

Harry fechou com cuidado a porta atrás dele e caminhou alguns passos até onde Draco estava sentado. Este o olhou tranqüilamente sem apartar a vista dele; enfim, Harry se deteve a uns metros de distância de Draco. Abriu a boca para falar, mas se deu conta que não sabia o que queria dizer.

Finalmente Draco falou primeiro. "Como está seu tornozelo?".

Harry pestanejou. "Como sabe...?".

"Eu escutei", Draco respondeu de forma casual pondo-se de pé. Avançou um passo para Harry sem romper nunca o contato visual. "Que jogo o de ontem, não?".

"Você já está bem?", perguntou Harry, sua voz denotava sua preocupação.

Seus olhos percorreram o corpo de Draco — o outro rapaz vestia só uns jeans e uma camiseta da Sonserina com o ideograma chinês 'serpente' em grossa caligrafia. As partes expostas de seus braços quase não mostravam os danos sofridos o dia anterior, exceto por umas pálidas linha de pele recém curada; observou sua testa, onde uma fraca linha prateada, como um caminho de mercúrio, marcava onde Harry havia tratado de curá-lo, sem sucesso.

Draco encarava Harry, notavelmente calmo. "Pareço bem?".

"Hum", Harry buscava as palavras, "bom, você parece bem, quero dizer, seu corpo está muito bom — espera, não quis dizer desse jeito — me refiro a que parece melhor fisicamente", fez uma pausa. "Por outro lado, não sei como se sente".

Draco inclinou a cabeça ligeiramente. "Hermione te disse algo?".

Harry mordeu o lábio e assentiu em silêncio.

Durante um segundo, uma escura emoção cruzou pelo rosto de Draco e desviou o olhar. "Então já sabe".

Harry assentiu.

"Tudo?", perguntou Draco tentativamente com um leve tremor na voz. "Sobre - por que aconteceu?".

"Sim", disse suavemente Harry. "Ela me contou".

Houve um silêncio — não era um silêncio incômodo ou embaraçoso, mas sim pensativo, carregado com ondas de desvalida tristeza. Este era provavelmente o momento mais íntimo que haviam compartilhado sem que houvesse contato físico — estavam de pé, escassamente separados e um só passo adiante de qualquer um dos dois, devoraria a distância. Mas nenhum se moveu.

"Ouça", Harry disse finalmente, com um suspiro pesado. "Hermione acha que sabe como podemos consertar isto... é uma idéia bastante boa, e talvez...".

De repente, Draco deixou escapar um suave gemido e apalpou seus jeans. "Maldição, minha varinha está vibrando".

Harry retrocedeu um passo, olhando alarmado a Draco. "Espero que esteja falando literalmente...".

"Alguém está vindo!", Draco sussurrou e maldisse criativamente; deu a volta e viu a porta detrás deles. "Acho que é Filch. Diabos, temos que nos esconder!".

Harry olhou fixamente a porta fechada, desconcertado. "Eu não ouço nada".

Draco estava procurando ferozmente por todo o pequeno quarto — se aproximou rapidamente ao baú de madeira, abriu a tampa e revelou um compartimento vazio e bastante estreito. Seus olhos se iluminaram e se voltou a Harry. "Vem, podemos nos esconder aqui".

Harry olhou o baú cético — odiava os espaços fechados porque lhe traziam lembranças desagradáveis de sua infância e este baú retangular lhe recordava demais a um caixão, para sentir-se cômodo metendo-se nele.

"O que está acontecendo, Malfoy?", Harry franziu o cenho. "Não ouço nenhum passo, acho que são apenas pessoas caminhando no andar de cima".

"Não", disse urgentemente Draco, "alguém está a ponto de entrar por essa porta e se não nos escondermos já, vamos estar em grandes problemas. Quer confia em mim, quer?".

Confia em mim. Por alguma razão, aquelas três simples palavras sacudiram algo dentro de Harry, porque enunciavam algo que já havia estado fazendo todo este tempo — confiando em Draco. Não porque tivesse que fazê-lo, sim porque queria.

"Oh, está bem", disse renitente Harry, cruzando o quarto até onde estava parado Draco a um lado do baú aberto.

Draco parecia aliviado. "Ande logo e se esconda. Agora".

"Você está louco?", Harry se voltou incrédulo até Draco. "E deixar você ficar estar em cima de mim? De jeito nenhum".

"Oh, está bem!", Draco exclamou exasperado. "Então eu entrarei primeiro".

Rapidamente se meteu no baú e se sentou, estirando as pernas; deitou-se de costas, de tal forma que ficou alinhado contra a base. O interior do baú era mais espaçoso do que se via, já que Draco parecia poder se encaixar dentro sem nenhuma dificuldade.

"Que está esperando!", disse Draco olhando Harry. "Vamos, entre! Alguém vai entrar a qualquer momento!".

Harry murmurou algo em voz baixa que soou como "É bom que esteja certo Malfoy, porque senão...", com cautela meteu um pé no baú, e cuidadosamente se colocou sobre Draco. Seus corpos estavam perfeitamente alinhados, desde os ombros até os tornozelos — uma vez que Harry se acomodou dentro do baú, Draco fechou a tampa. Fechou-se com um golpe suave, sumindo-os na escuridão.

Harry pestanejou, tentando ajustar a vista à escuridão reinante dentro do baú — nem sequer estava certo de se seus olhos estavam abertos ou fechados, estava tão escuro que dava no mesmo. Apoiou mãos e joelhos aos lados de Draco para não ficar deitado sobre seu corpo — mas em menos de um minuto, seus braços começaram a cansar-se e finalmente deixou descansar seu peso encima dele. Podia sentir o calor do peito de Draco pressionado contra o seu, seus corações batendo em par.

O seguinte que ouviram foi o ruidoso rangido do trinco da porta e esta se abriu, acompanhada de passos lentos e familiares — indiscutivelmente era Filch. Parecia estar tremendo e ofegando e ouvia-se que um objeto pesado estava sendo arrastado pelo piso. Os passos de Filch se aproximaram perigosamente do baú e Harry e Draco contiveram a respiração — mas então o som arrastado de suas pisadas se afastou de novo, terminando com o audível cerre da porta.

"Ele já foi?", Harry perguntou com voz muito baixa. Estava escuro demais para poder ver algo — era vagamente consciente de que seu queixo estava descansando contra o ombro esquerdo de Draco; sentia umas mechas de cabelo fazendo-lhe cócegas no nariz.

"Espere", sussurrou Draco com suavidade; pelo som de sua voz, parecia que seu rosto estava em direção oposta ao de Harry. "Só no caso de que volte".

Esperaram em silêncio uns minutos mais - Harry podia sentir a respiração de Draco acelerando-se imperceptivelmente, enquanto encontravam se ali, um sobre o outro, em completa escuridão. A tampa do baú estava machucando suas costas e Harry se moveu, incômodo — definitivamente, o baú não fora desenhado para dois. O joelho de Draco estava se cravando em sua panturrilha e tentou acomodar-se em uma posição menos comprometedora, mas falhou pela falta de espaço.

"Estou dormente", se queixou irritado, movendo-se um pouco mais — sua perna esquerda estava a ponto de dormir e se deu conta de que de algum modo havia deslizado o braço direito ao redor da cintura de Draco. Os dedos estavam começando a criar calos.

"Potter", disse Draco com os dentes apertados, "Quer parar de se mover tanto, por favor?", soava ligeiramente ofegante. "Está, hum, criando... uma... fricção... desnecessária...".

"Que...? Oh!", Harry paralisou a meio movimento, ficando em uma posição ainda mais incômoda que antes. "Oh! Sinto muito".

Passaram uns momentos de quietude absoluta; o silêncio era incômodo e embaraçoso.

"Pode voltar a respirar, sabe", disse finalmente Draco, em uma tentativa fraca de piada.

"Uh? Oh, está bem", a voz de Harry também saia com frustração. "Estou bastante bem assim, está bem".

Draco fechou os olhos e tentou submergir-se na escuridão; qualquer coisa que o ajudasse se distrair da torturante proximidade de Harry, deitado sobre ele e seus movimentos inquietos só haviam servido para fazê-lo se sentir muito incômodo, em todas as formas possíveis. Podia sentir seu hálito cálido contra seu pescoço, enviando candentes calafrios por sua espinha — tudo o que tinha que fazer era girar a cabeça para ficar frente a Harry e estariam...

"Hum, estou te deixando dormente?", perguntou Harry; Draco estremeceu quando sentiu seus lábios roçarem em seu lóbulo ao falar.

"Sim, assim está". Draco se concentrou em acalmar os estremecimentos involuntários que corriam por todo seu corpo. Oh deuses, isto era mais humilhante do que jamais houvera imaginado — Harry podia sentir tudo, cada tremor e calafrio de seu corpo em resposta a sua insuportável proximidade... era mortificante.

Harry se moveu ligeiramente de novo e algo que se sentia como frio metal se deslizou de sua camisa e fez contacto com a pele de Draco — pela densidade e o peso, Draco soube o que era imediatamente. Era um anel que roçava sua garganta desnuda, que se prendia a uma corrente que Harry tinha ao redor do pescoço.

Seu coração se deteve uns momentos. Era possível...? Harry estava usando seu anel no pescoço?

Estendido sobre Draco, Harry de repente foi muito consciente de algo duro que pressionava sua coxa — algo que pulsava ritmicamente contra ele e seus olhos se abriram desmesuradamente e nem sequer se atreveu a perguntar-se o que era, exalando bruscamente e as palavras, "Oh, deus, Malfoy", saíram involuntárias de sua boca em um murmúrio assustado...

"Relaxe, Potter. Isso é minha varinha no meu bolso", lhe informou Draco e Harry pôde ouvir um sorriso secreto em sua voz. Sentia os dedos de Draco fecharem-se ligeiramente sobre seu pulso esquerdo; havia uma surpreendente delicadeza neste simples gesto e Harry nem sequer pensou em se afastar.

"Pus um Feitiço Vigilante nessa dispensa", continuou explicando em voz baixa. "Quando qualquer um chega a certa distância daqui, se ativa um alarme que faz que minha - literalmente - minha varinha vibre para nos avisar". Draco separou as pernas um pouco e o joelho de Harry se deslizou contra a parte interior de sua coxa. "Assim é como soube que Filch vinha para cá - e ainda anda por aqui por perto, porque a varinha continua vibrando, mas cada vez mais fraco. Quando parar, poderemos sair daqui".

"Oh", Harry sorriu aliviado. "Por um momento pensei - "

"Não, Potter, não é porque está encima de mim".

"Certo".

"Sabe de uma coisa?", Draco disse suavemente; voltando o rosto a Harry, sentindo a ponta de seus narizes roçarem-se ligeiramente — o que enviou uma sensação formigante através dele, sacudindo seus nervos. Seus dedos apertaram instintivamente o pulso de Harry; estavam tão próximos agora que não pôde evitá-lo, simplesmente não pôde...

Levantou a cabeça ligeiramente e beijou Harry, permitindo que seus olhos se fechassem enquanto seus lábios se uniam e de repente a escuridão que os envolvia se sentiu como perfeição tecida e a vazia negrura se volveu cheia da cor da realização. Seus dedos soltaram o pulso de Harry e se moveram para segurar sua mão, entrelaçando seus dedos; tudo o demais desapareceu como um sonho colapsando-se e tudo o que importava era o que tinha neste momento, o que segurava em sua mão e o que saboreava com a ponta de sua língua, pressionou sua boca contra os cálidos lábios de Harry...

"Malfoy", Harry pronunciou o sobrenome de Draco suavemente, seus lábios movendo-se contra os de Draco; não o repeliu, mas tampouco correspondeu ao beijo.

Draco se obrigou a abrir os olhos; a sombria realidade o golpeou uma vez mais, como uma luz tétrica na escuridão resplandecente. Deixou cair a cabeça, rompendo o suave beijo — ouviu que Harry dizia seu nome, mas não na forma que havia imaginado, nessas incontáveis ocasiões em seus sonhos, onde Harry o atraía até ele e sussurrava seu nome: Draco.

"Malfoy, escute", disse de novo Harry; sua voz soava rara e estranhamente controlada. "Controle-se".

Draco sentiu seu rosto ruborizado e quente. "Não foi minha intenção".

"Não se preocupe", a voz de Harry era cuidadosamente velada.

Permaneceram em silêncio pelo que pareceu outra eternidade; Draco retirou a mão, seus dedos trêmulos soltaram os de Harry.

Finalmente, quando a vibração da varinha em seu bolso se deteve, Draco falou com voz algo vacilante. "Bom, pode abrir a tampa e sair de cima".

Ajeitaram-se para abrir a tampa do baú e Harry saiu torpemente. Fez caretas enquanto estirava seus músculos contraídos, então se voltou para ajudar a Draco. Ofereceu-lhe uma mão e Draco a tomou; durante uns momentos estiveram massageando seus membros intumescidos e Harry dirigiu um olhar de reprovação a Draco.

"Nunca mais vou me meter num baú contigo. Estou todo duro".

"Oh, é mesmo?", Draco arqueou uma sobrancelha e sufocou uma risada. "Céus, Potter, não pensei que te afetasse tanto".

Harry compreendeu, ficou vermelho e pareceu sumamente agitado. "Me refiro a meus braços e pernas!".

Draco sorriu abertamente enquanto colocava o cabelo para trás. "Como queira". Seu sorriso se apagou enquanto olhava cauteloso a porta. "Melhor sairmos daqui, parece que esta noite Filch anda em uma de suas raras visitas. Esteve dezenas de vezes nessa dispensa e dificilmente vem à noite guardar algo. Só em uma ocasião quase trombei com ele e é por isso que agora sempre ponho o Feitiço Vigilante quando venho aqui".

Harry parecia impressionado. "Esse Feitiço Vigilante é bastante engenhoso".

Draco o olhou de soslaio, entre divertido e arrogante. "Só é um desses Feitiços Engenhosos Para Tomar Vantagem. Está bem acima de teu pequeno feitiço das algemas".

Harry se ruborizou um pouco e não pôde pensar em nada pra responder.

Draco deu uns passos até ele olhando-o apreciativo. "Sua camisa está um desastre nas costas". Estendeu a mão e distraidamente endireitou o pescoço da camisa de Harry. "Pronto", mas não se afastou.

Harry se voltou e uma vez mais ficou cara a cara com Draco, estavam parados perto demais para estarem naturais, mas estranhamente se sentia bem. A expressão de Harry se tranqüilizou e olhou fixamente dentro dos olhos de Draco, de gris tormentoso; tinham a cor de uma tempestade formando-se no horizonte, delineados com tristeza atribulada, ocultando uma esperança vacilante.

"Escuta Malfoy, eu...", começou a dizer, mas Draco colocou um dedo sobre seus lábios, calando-o.

"Não", sua voz era angustiada e seus olhos brilhavam com aberta emoção. "Não diga que sente muito, Potter".

"Não ia dizer", disse deliberadamente Harry, seus lábios roçaram o dedo de Draco ao falar. "Queria dizer que, vou verificar como vai o plano de Hermione. Logo te avisarei".

Compartilharam um olhar intenso durante a eternidade de um momento — então Draco deixou cair a mão a um lado e retrocedeu um passo, a expressão de seus olhos sombreados era inescrutável.

"Vai primeiro", disse em voz baixa. "Eu esperarei uns minutos depois de você, só no caso de que Filch esteja patrulhando".

Harry assentiu. "Está bem".

Draco não disse nada mais enquanto Harry abria cuidadosamente a porta e se deslizava no corredor — ao invés, baixou os olhos e desviou o olhar, até que ouviu que a porta se fechava. Então enterrou o rosto entre as mãos e se deixou cair no chão, absolutamente exausto — esgotado de querer Harry, de se obrigar a não fazer absolutamente nada e de ter fracassado uma vez mais em se conter de beijá-lo.

Era uma tortura. Uma tortura pura e um feroz remorso.

Não. Não diga que sente muito, Potter.

Do lado de fora, Harry fechou a porta, mas não retirou a mão do trinco e se apoiou no marco da porta, coberto pelas sombras oscilantes da luz da tocha.

"Sinto muito", sussurrou suavemente na escuridão.

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Nota do Grupo:

Que capítulo angustiante, não? O que vocês acham do modo que Harry está reagindo a isso tudo? Acham que finalmente eles acharam o antifeitiço?

Gente, vamos mandar reviews para incentivar os nossos tradutores a trabalharem mais rápido! E para quem diz que não tem nada a dizer, nos basta um simples "bom trabalho, continuo a ler". E se vocês forem muito bonzinhos e deixarem muitas reviews, nós postaremos um final alternativo da saída do baú, que vamos dizer assim, muito MAIS interessante, mas isso só depende de vocês! XD

Não deixem de ler nossas fics: Quem é o Papai, Cannon In D, O Trabalho de Poções, Luz Embaixo D'água e muitas outras.

Nossos agradecimentos à: kaza, Dark Wolf 03 (esperamos que suas perguntas tenham sido respondidas), Marck Evans, Ia-Chan, Karla Malfoy, MysticDani (suas perguntas foram respondidas?), Kirina-Li, Ilia-Chan, Tatiana, Mione03 (Nós temos fics HHr: Um Beijo E Uma Flor) e Maaya Malfoy.

Os Tradutores.