Bem, deixe-me ver... Como disse no capítulo anterior, este é dedicado ao passado da Sheila e aos eventos que a fizeram se mudar para Atenas. Será que vou me sair bem escrevendo exclusivamente sobre mim?
Ah, mais uma coisa: os eventos aqui descritos foram o pontapé inicial para a fic (eu imaginei primeiro deste ponto em diante) e ele leva o nome da fic, assim como seu tema é a música do mestre Chico Buarque.
Vamos ao capítulo, então!
-x-x-x-x-x-
Capítulo IX – Roda Viva
-x-x-x-x-x-
Parte I – A realização do sonho
-Um brinde a mais nova jornalista da família Tamasauskas! – disse um homem de cabelos grisalhos, levantando-se de sua cadeira e erguendo uma taça de vinho tinto.
-Sem essa, pai! A Sheila é a única jornalista da família!
Todos os ocupantes da mesa riram com a colocação da menina vestida de lilás, sentada ao lado de uma mulher de preto e vermelho. De pé ao lado do pai, a jovem sorria, ajeitando sua beca negra e a faixa vermelha da cintura.
-Sheila, será que pode vir comigo um minuto?
-Claro, Renê. Já volto, gente!
Acompanhando o padrinho de formatura e amigo desde os tempos de Ensino Médio, Sheila foi até um canto mais calmo do salão onde a festa rolava solta. Sorrindo, ele tirou do bolso uma caixinha de veludo e entregou a ela.
-O que é?
-Abra e veja com seus próprios olhos!
Sheila abriu a caixa com cuidado e foi inevitável um grito de satisfação. Preso com cuidado ao feltro, um anel em ouro amarelo, com um rubi em formato hexagonal encravado e os símbolos máximos do jornalismo alinhados em ouro branco: o Lex, simbolizando a ética e a pena e papel, simbolizando a escrita.
-É... É lindo!
-Eu pedi aos seus pais e eles me deram permissão para te dar este presente... O seu anel de formatura, a realização do seu sonho.
Abraçando o amigo com força, a jovem não conteve o choro de felicidade. Uma nova vida estava começando. A vida que sempre sonhara, desde criança.
-x-x-x-
A redação era grande e movimentada, gente andava de um lado para outro a todo momento, os telefones não paravam de tocar. Sentada em uma mesa próxima de uma janela, Sheila terminava de revisar uma matéria que seria publicada no dia seguinte quando o celular tocou.
Atendeu prontamente e, ao se certificar de que era a ligação que estava esperando, deu um pulo da cadeira. Desligou alguns minutos depois e correu para o outro lado da redação, vermelha por conta da excitação.
-Léo! Léo! – ela chamou por um rapaz loiro, que estava conversando com outro em um corredor, a máquina fotográfica pendurada no peito.
-O que foi, Sheila?
-Sabe aquela denúncia que recebemos há dois dias?
-Claro que lembro, o que tem?
-Acaba de se confirmar. Léo, nós temos "a" reportagem nas mãos!
Um brilho se fez nos olhos do fotógrafo e ele quase socou a parede de tão excitado. Imediatamente, ambos foram atrás do editor do jornal levar a pauta que tinham em mãos.
Se tudo desse certo, poderiam até ganhar um prêmio!
-x-x-x-
-Eu não sei, isso pode ser perigoso... – questionou o editor, depois de ouvir atentamente tudo o que Sheila tinha a dizer.
-Mas, Eduardo, tem que ser assim! Nunca nenhum repórter teve essa chance de escrever sobre o assunto estando "dentro" dele... É a nossa chance de publicar a reportagem que vai sacudir a mídia, que vai fazer o povo despertar de uma vez para o problema!
-Não tem como te impedir de fazer isso, né? – o editor suspirou, passando as mãos pelos cabelos grisalhos – Está certo, mas vamos tomar todas as preocupações necessárias, ok?
Dando pulos, a jovem so faltou agarrar o editor e lhe tascar um beijo. Só não fez isso porque todos iriam ver da redação.
-x-x-x-x-x-
Parte II – Um pesadelo real
Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá
Pouco mais de dez horas da noite. O lugar estava lotado de homens em busca de uma noite de diversão e prazer, as paredes de veludo vermelho contribuíam para o clima de luxúria sufocante.
Puxando a barra de sua saia, Sheila circulava pelo salão sob os olhares atentos de Léo. Um pequeno microfone estava embutido na pedraria do colar e uma micro câmera posicionada no detalhe bordado do decote. Percorrendo o salão com o olhar, encontrou sentadas em uma mesa os alvos que procurava: um grupo de meninas, bebendo e esperando pelo momento que algum daqueles homens iriam buscá-las.
Adolescentes, a mais velha deveria ter no máximo dezesseis anos. Todas vestidas com roupas minúsculas e provocantes, maquiagem pesada que tentava esconder os rostos de menina.
Todas, sem exceção, vítimas do tráfico de mulheres que buscava suas presas nos rincões pobres e perdidos do sertão nordestino e as trazia para o sul e sudeste, com promessas de uma vida melhor e dinheiro. Tudo ilusão.
Compenetrada, ela se sentou à mesa com as garotas e engatou uma conversa para ganhar sua confiança. Com jeitinho, em pouco tempo pareciam velhas amigas.
Mas, sentado em um canto mais afastado e observando a tudo, um homem não estava gostando muito do que via. Quem era aquela moça de cabelos castanhos, nunca a vira antes por ali!
Sheila não sabia, mas aquele era o início de seus problemas.
-x-x-x-
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
-Sheila, você e o Léo estão de parabéns! – comentou o editor, visivelmente feliz – Têm idéia da repercussão que a reportagem está tendo, inclusive no exterior?
Depois de duas semanas de investigação exaustiva e muita correria, a matéria havia sido publicada no dia anterior. E com destaque de primeira página. O esquema quase todo desvendado, as provas da conivência policial, as condições desumanas que as garotas viviam sob a tutela de seus cafetões, tudo escancarado e fotografado.
-Isso merece uma comemoração! – brincou Léo, saindo da redação com a jornalista.
Hora do almoço, decidiram comemorar em um restaurante próximo ao jornal, no bairro do Limão. Sheila foi a pé até a portaria, iria esperar por Léo na calçada, já que ele havia ido pegar o carro no estacionamento. Passou pela segurança e saiu pela porta de vidro da recepção, tomando posto na esquina do prédio.
Foi então que um carro, cortando em alta velocidade pela ponte de Limão, entrou com tudo pela rua e um dos vidros traseiros se abriu.
-Sheila, cuidado!
O grito do segurança que estava do lado de fora foi a deixa para uma série de tiros ser disparado contra a jornalista. Rápida, Sheila se abaixou atrás de uma coluna de concreto na porta do jornal, a porta de vidro foi completamente estilhaçada pelas balas. Léo, que saía neste exato momento do estacionamento, teve o carro atingido e o vidro de seu pára-brisa quebrou-se em milhares de pedaços sobre sua cabeça.
Cantando pneus, o carro desapareceu pela rua. Assustada, tentando entender o que tinha acontecido, Sheila viu o segurança caído na calçada, a perna e o abdômen sangrando muito.
-O-o que fo-oi iss-sso-o?
-x-x-x-
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá
A redação foi tomada por policiais, todos pararam o que faziam para ver o que estava acontecendo. Uma viatura do resgate tinha levado o segurança a um hospital, Sheila e Léo, com apenas alguns arranhões, haviam ficado para conversar com o delegado.
Tremendo, muito mais de raiva do que de medo, a jornalista bebia um copo de água com açúcar.
-Eu devia ter previsto que uma coisa dessas podia acontecer! – exclamou Eduardo, sentando-se em sua cadeira após despachar os policiais – Isso não vai acabar bem, Sheila.
-Não vai acabar bem para eles, Eduardo... Eles não sabem com quem mexeram!
Indignação, raiva e revolta. Tudo isso podia ser visto no olhar da jovem. Aquela era uma guerra. E ela entraria de cabeça na batalha.
-x-x-x-
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
No dia seguinte, São Paulo leu na matéria de capa a continuação da reportagem escrita por Sheila e seus desdobramentos vividos pela própria. Estava tudo lá, as fotos da recepção, as marcas de sangue na calçada.
-Essa gente não aprende! – comentou consigo mesmo um homem, ao ler a matéria – Acho que vou precisar ser mais drástico...
-x-x-x-x-x-
Parte III - Desistir ou lutar até o fim?
A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a viola pra lá
Era mais de onze horas da noite, poucos alunos ainda permaneciam no campus da faculdade. De pé na calçada, uma garota de cabelos castanhos claros carregando um fichário e livros consultava um relógio, enquanto conversava com um outra garota.
-Tem certeza de que não vai pegar o ônibus comigo, Amanda?
-Não, Geórgia... O Thiago ligou dizendo que vem me buscar, logo ele chega.
-Então tá, até amanhã.
A moça se despediu e foi para o ponto de ônibus. Amanda ficou na calçada, conferindo se tinha pegado todas as suas coisas. Então dois homens saíram de um carro preto e pararam ao seu lado, com cara de poucos amigos.
-Amanda?
-O que tem eu?
-Nada demais, só queremos que leve um recado para sua irmã... – um deles falou, mostrando uma arma presa à sua cintura – Diga a ela que se não parar de xeretar a vida alheia, não será somente ela que terá problemas.
Branca, Amanda não sabia o que fazer. Os dois homens não disseram mais nada e voltaram ao carro, saíram correndo pouco antes do namorado da garota chegar.
-Amanda? Você está bem?
-Thi-thia-go... Vamos embora...
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
-Léo, eles passaram dos limites! Ameaçaram a minha família!
Nervosa, Sheila gritava com o amigo no meio da redação, não se importava se estavam todos ouvindo. Léo tentava acalmar a jovem, mas sem nenhum resultado.
O estado de nervos dela estava tão alterado que Eduardo acabou lhe dando o dia de folga. E, por precaução, ele mesmo a colocou dentro de um táxi e a mandou para casa. Como se isso fosse garantir sua segurança...
O carro estava parado na avenida Francisco Matarazzo, preso no trânsito. Conversando com o motorista, Sheila não viu quando três homens vieram correndo pela avenida e pararam ao lado do táxi, gritando palavras de ordem.
-Desce! Desce!
Desesperado, o motorista destravou as portas e um dos homens tirou a jornalista de lá, correndo de volta à calçada e entrando com ela em um carro estacionado próximo ao Parque da água Branca.
-Ouça bem por que esta vai ser o último aviso... – um dos homens falou, apontando a arma para sua cabeça – Se tem amor à sua vida ou da sua família, dá linha, ouviu bem? Suma desta cidade, deste país, vá para o inferno se for preciso!
Sheila foi deixada em uma rua deserta um pouco depois, toda suja e sem sua bolsa ou dinheiro. Chorando, ela praguejou contra tudo.
Em que diabos de encrenca tinha se metido!
O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá
Era uma decisão difícil, mas representava sua única saída. Com os olhos vermelhos, Sheila conversava sobre os últimos acontecimentos com Eduardo. O editor ouviu a tudo muito atento e, pedindo licença, deu alguns telefonemas para ver o que poderia ser feito.
Era fim da tarde quando ele a chamou de volta à sua sala, para conversar a respeito do parecer do jornal.
-A diretoria decidiu que o melhor a fazer é concordar com sua decisão, Sheila... Você continuará produzindo matérias para nós, mas serão reportagens amenas, para os cadernos de turismo e cultura.
-Certo... Bem, eu preciso pensar a gora, encontrar um lugar para ficar, decidir para qual país eu vou...
-Se me permite uma sugestão... – Eduardo abriu uma gaveta de sua escrivaninha, de onde tirou algumas fotos – Minha mulher é grega, sabe? Por causa disso, nós mantemos uma casa de verão em Antenas, mas há muito tempo não vamos para lá, estávamos até pensando em vender. Talvez seja uma boa opção para você ficar na Grécia, o que acha?
Sheila não respondeu, estava vendo as fotos da casa. E sentindo um vazio começar a se formar no peito.
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
-x-x-x-x-x-
E aqui se vai o capítulo, o que acharam? Confessem, já tinham mais ou menos idéia do que seria, né? Tadinha de mim, mas graças a Deus isso nunca me aconteceu de fato...
Bem, alguns agradecimentos em especial nesta nota final: Amanda (minha irmã), Thiago (meu cunhado), Geórgia (amiga da minha irmã) e Renê (meu melhor amigo e padrinho de casamento porque não fiz formatura), obrigada por me permitirem usar seus nomezinhos nesta fic!
Léo é fictício, mas o Eduardo é inspirado em um editor muito famoso e respeitado de São Paulo, Eduardo Martins do "O Estado de São Paulo".
Bem, beijos a todos e no próximo capítulo... Nossos douradinhos começarão a dar mostras de seu poder, aê!!!
Momento propaganda:
Para você que gosta de fics com personagens inspirados em pessoas reais, não deixem de ler "Santo Anjo das Asas Douradas" da Dama 9 (a Jéssy da fic) e também "Sobre o Luar da Meia Noite – Immortal" da Sah Rebelde (a Samara desta fic). As duas são muito boas e contam com uma personagem que, bem, vocês que lêem "Roda", conhecem: a Sheila! Eu recomendo e não porque estou nelas e sim porque são duas fics muito bacanas, escritas por duas garotas hiper talentosas na arte da escrita.
