Nota: Eu acho engraçado que passo meses sem escrever, e então termino o capítulo em um dia (em uma madrugada, pra ser mais exata). Preciso tomar vergonha na cara.
A partir de agora começaremos a entender a Hermione. E com isso peço que vocês também enlouqueçam com ela. Tentem se colocar no lugar dela, tentem se imaginar tendo, todas as noites, sonhos como os que ela tem com a Helena. E, principalmente, quem ou o que é a Helena. A loucura é um caminho tortuoso e solitário. O negócio é bem mais lá em baixo, pessoal.
A música desse capítulo é maravilhosa e só me faz lembrar da Helena. Aconselho darem uma ouvida nela depois. Enfim, aproveitem o capítulo e desculpa pela demora – apesar de que, dessa vez, eu não levei três anos pra postar -, era pra estar ao ar no dia 01/09 em comemoração a volta às aulas de Hogwarts, mas o ffnet estava bizarro com o erro 503.
009
because of you I am unkind
they left me behind
lost inside the enemy lines
and overnight
i changed my shape to fit with something
Head Full of Lies, Georgi Kay.
Às vezes ela os encontrava. Bruxos fugitivos. Sempre que os via, Hermione tinha que prender a respiração e esperar que fossem embora. Uma parte de si queria gritar e salvá-los, mas não era possível. Eles ainda estavam à procura de horcruxes e não poderiam abrigar mais ninguém. Isso poria todo o plano à perder, e não podiam se dar ao luxo de perder.
O que são algumas vidas perto do bem maior?
Ela odiava seus pensamentos. Ela queria que eles calassem a boca.
Certo dia um desses bruxos percebeu a sua presença. Os campos de força que Hermione criou eram extremamente fortes. Ao contrário do que se pensa, a força de um campo de dispersão é dada pela sua sutileza. Aqueles que o indicam para se afastar como uma mera ideia ou vontade de dar um passo atrás são os que detém mais poder. Um bruxo poderoso que se encontra com um campo que o força a se lembrar de compromissos completamente irrelevantes e fugir dali nunca se deixaria enganar. Hermione se precaveu bastante, passava os feitiços três vezes por precaução, mas ainda assim aquele bruxo sentiu sua presença.
Hermione já estava acostumada com o medo, mas ainda assim sentiu vontade de vomitar.
O bruxo segurou o pulso da mulher que o acompanhava e cheirou o ar. Deviam ter 30 anos, e estavam sujos e suados. A mulher estava inquieta, arfando e observando os arredores, ainda sem perceber o que estava acontecendo.
– Jeremy, não podemos ficar aqui. – disse a mulher em um sussurro amedrontado.
– Fique quieta. – ele disse em um tom que não dava margem para questionamentos.
Foi então que ele fixou os olhos em Hermione, e era como se pudesse vê-la. Hermione olhou para trás, para a cabana, onde Harry e Ron estavam ouvindo os nomes dos mortos recentes. Ela não gostava de ouvir. Agora ela preferia nunca ter saído de lá.
– Eu sei que tem alguém aí, mostre-se ou eu acabo com esse campo de força em um segundo. – ele empunhou a varinha e apontou exatamente na direção de Hermione. A mulher ao seu lado pôs a mão na boca para reprimir o grito.
Soltando a respiração, Hermione deu alguns passos e atravessou o campo de força. A mulher esbugalhou os olhos e soltou um suspiro entrecortado. Não conseguiu decifrar a expressão no rosto do homem.
– Você... – sussurrou a mulher, que parecia não saber o que dizer. – Merlin, todos acham que vocês morreram... Eu... Vocês... Vocês estão lutando? O que vocês estão fazendo?
– Quanto menos soubermos melhor, Claire. – disse Jeremy, o rosto duro, como se tivesse dado conta do que tinha feito.
Hermione não sabia o que dizer. Sentia medo. Tanto medo. Não importava se essas pessoas não eram comensais da morte ou fugitivos. Os dois sabiam que Harry e seus amigos estavam se mantendo em florestas. Eles sabiam de alguma coisa. Aquilo poderia colocar o plano em perigo. Eles poderiam perder a guerra.
O que são algumas vidas perto do bem maior?
– Me desculpe. – Hermione disse em um tom pesaroso, apontando a varinha para Claire. – Obliviate.
Esperou Jeremy apontar a varinha e mata-la, mas ele pareceu entender a sua decisão. Antes de terminar com Claire, eles ouviram risadas. Sequestradores.
– Entre no campo. Agora. – ele falou em um tom duro. Claire despencou no chão ao final do feitiço. Hermione entrou no campo de força o mais rápido que conseguiu, e tratou de se afastar o máximo possível da borda.
Eles vieram logo depois. Jeremy não conseguiu afastá-los o suficiente. A noite estava silenciosa demais, mas mesmo assim não foi possível ouvir direito a conversa que se seguiu. Jeremy duelou contra três bruxos, conseguindo derrubar dois antes de ser pego. Claire, ainda desacordada, foi carregada por algo que era mais monstro do que homem. Ele cheirou seu cabelo, apertou sua pele com mãos que mais pareciam garras. Isso a fez acordar, ainda confusa, e entrar em pânico rapidamente com a visão da pessoa que a agarrava. Jeremy se contorceu, e um dos sequestradores mais afastados lançou um crucio. Claire se debatia e chorava, e os gritos de Jeremy pareciam preencher a noite, mas Hermione não os ouvia. Imóvel, apenas observava a monstruosidade que acontecia em sua frente com a esperança de que ela iria acabar em breve.
Depois do que se pareceram horas, o sequestrador suspendeu o crucio e Jeremy estava encolhido, o rosto virado na direção de Hermione. Saliva escorria por entre seus lábios entreabertos, e seus olhos castanhos estavam desfocados, mortos. Hermione prendeu a respiração quando um deles carregou seu corpo inerte e aparatou. Os outros logo o seguiram. Hermione estava sozinha novamente.
Não sabia quanto tempo havia se passado, pois fora Harry quem a encontro; pálida tremendo mais do que acreditava ser possível, com lágrimas secas nas bochechas e um olhar perdido e assustador.
– Hermione, o que aconteceu? – Harry perguntava repetidamente. Ron estava checando o perímetro em busca de alguma falha, mas não havia sinal de invasão.
– Oh meu deus, Harry... – foi tudo o que conseguiu dizer depois de minutos. – Oh meu deus...
Harry a levou até a cama e Ron a cobriu com um cobertor bem grosso. Hermione dormiu por dois dias inteiros.
X
– Você precisa de ajuda. – disse Malfoy depois de alguns segundos.
– Eu tenho lido alguns livros, mas não achei nada. Absolutamente nada. Eu não... eu não sei mais o que fazer, Draco. – respondeu Hermione, a voz com algo de dor.
– Você não vai achar sua resposta em livros, sua idiota. Você precisa de ajuda médica, de pessoas que saibam o que está acontecendo com você-
– E você acha que eles vão fazer o que? Me dar remedinhos que vão me deixar ainda mais louca?
Era como se ela tivesse se transformado em outra pessoa. Havia um sorriso maldoso em seus lábios e sua voz estava carregada de um sarcasmo pesado, puro, aquele direcionado para machucar. Draco costumava usá-lo bastante, e doeu quando justamente ela se aproveitou da sua maior vergonha para ridicularizá-lo e desacreditar o seu ponto. Engoliu em seco. Granger não seria tão cruel assim. Seria?
A expressão no rosto dela mudou quando tentou se erguer com a mão machucada, como se a dor a tivesse trazido para a realidade. Mas Draco não se importou. Não tentou ajuda-la.
– Só me leva pra enfermaria, por favor.
– Como quiser, Granger.
X
A classe fora dispensada mais cedo do que o normal, e por conta dos eventos que ocorreram durante a aula, Slughorn permitiu que a poção fosse refeita na próxima. A maioria dos alunos arrumou rápido as suas coisas e saiu da sala, prontos para espalhar para o resto da escola o que havia acontecido. Duas pessoas decidiram permanecer mais um pouco.
– Ron, eu estou indo para a enfermaria, você não vem? – perguntou Harry quando viu que o amigo ainda não havia arrumado suas coisas. Ron e Hermione ainda não estavam se falando, mas esperava que Ron superasse seu coração partido ao ver sua melhor amiga naquele estado.
– Pode ir na frente, eu ainda tenho que arrumar algumas coisas. – respondeu, e foi com um suspiro resignado que Harry o deixou.
Restaram duas pessoas na sala.
– Você sabe que o vapor de jasmim negro não causa alergia, muito menos alucinações. – comentou Pansy em um tom ameno, como se estivesse discutindo sobre o clima.
Ron soltou uma risada seca.
– Eu não sou nenhum mestre de poções, Parkinson.
Pansy ainda estava de costas para ele, mas ele sentia que ela estava revirando os olhos.
– Não fico surpresa por você não prestar atenção na aula, Weasley, mas só queria deixar algo claro.
– E o que seria?
– A de que Granger não foi influenciada por qualquer coisa naquela poção idiota.
Pansy ouviu um grunhido irritado. Virou-se para encarar Weasley e o encontrou com as bochechas vermelhas de raiva. Sentiu vontade de revirar os olhos novamente. O cara era patético.
– Eu sabia que Malfoy havia feito algo com ela, aquele filho da...
– Hey, calma, não foi isso o que eu disse.
– Para de tanto mistério, isso me dá dor de cabeça.
– A questão, Weasley, é de que os dois estão com problemas, e ao que parece a sua Granger está perdendo a razão.
Pela cara que ele lhe fez, Pansy percebeu que teria que explicar mais detalhadamente. E paciência não era uma das suas virtudes.
– Como assim perdendo a razão?!
– Você é mesmo idiota, não é? Não me surpreende que Granger esteja ficando louca com o tanto que anda contigo. Até eu já me sinto um pouco mais idiota só em estar tendo essa conversa com você.
– Nós não estamos andando juntos. – Ron resmungou baixo para si mesmo.
– Ah é, esqueci que agora ela prefere sonserinos. Deve ser horrível ter que ver o amor da sua vida escolhendo um dos caras que você mais odeia no mundo.
Se olhares pudessem matar, Parkinson sabia que estava morta.
– Vai se foder, Parkinson.
E com isso, ela sorriu o seu sorriso mais inocente.
– Queria você, Weasley.
X
– Você não precisa ficar aqui.
– Mas eu quero.
Pomfrey já havia dado um jeito no sangramento, e deixou agir um unguento para se livrar das prováveis cicatrizes. Demoraria algumas horas. Hermione havia sido dispensada das aulas, e Draco havia sido obrigado a ir para as suas, mas então foi acometido por um terrível enjoo que Pomfrey preferiu acreditar. Até outro dia o garoto estava em uma dessas macas, frio como a própria morte. Mesmo se fosse mentira, ela não duvidaria.
Estavam deitados lado a lado. Hermione continuava com o olhar fixo no teto, preferindo ignorar os que Malfoy ocasionalmente lançava em sua direção. Estava controlando a vontade de contar tudo para ele. Talvez ele a ajudasse. Talvez não. A única certeza que tinha era a de que não estava mais conseguindo aguentar sozinha toda aquela merda.
– Sabe, Granger, eu consigo ouvir daqui as engrenagens da sua mente.
Aquilo a fez sorrir, e por um segundo ela se perguntou qual era o sentido de sorrir. Qual era o sentido de voltar para aquele lugar, jogar quadribol, ou assistir aulas malditas e provas ridículas e fingir estar feliz, mesmo depois de ver seus amigos morrendo na sua frente. Qual era o sentido de se apaixonar quando você está na merda.
Como se tivesse lido os seus pensamentos, Malfoy suspirou e sentou na cama.
– Tenta dormir, se dá um descanso. Ficar pensando não vai te fazer bem nenhum.
– Eu não consigo dormir, Malfoy.
Hermione disse aquilo sem pensar, e se arrependeu logo em seguida.
– Você precisa conversar com alguém, porque prender tudo isso dentro de você não vai lhe fazer nenhum bem. Caralho, eu já estive no seu lugar, eu sei o que você tá passando, porra. Eu te entendo demais, Granger. A ajuda e os remédios não me ajudaram porra nenhuma. Sabe o que me fez melhorar?
Você.
Draco fez uma pausa para recobrar um pouco o foco, sintetizar melhor o que iria dizer. Ele estava sendo sincero demais e aquele momento não era sobre ele. Aquela conversa ficaria para outra hora.
– Desabafar. Conversar com você. Funcionou melhor do que me entupir de remédios pra tentar esquecer toda aquela merda. Encarar os meus medos de frente, sabendo que eu tinha alguém do meu lado, - ele ergueu o olhar para ela e naquele momento sentiu que estava falando mais do que devia, mas esperava que ela deixasse passar, - fez toda a diferença.
Hermione fechou os olhos. Ela estava cansada. Muito cansada. Desistir se tornou a opção mais fácil depois do que ele disse.
Encare. O. Espelho.
– Isso não é algo que eu me orgulhe muito, sabe. – ela o parafraseou, esperando que aquilo o fizesse sorrir.
Quando o encarou, o semblante em seu rosto era sério demais, resistente demais, e nisso ela viu que havia perdido.
– Há um tempo atrás, quando as nossas posições estavam trocadas, você me obrigou a contar o que estava acontecendo comigo. Você acha que seria justo se eu fizesse o mesmo com você, Hermione?
Encare o espelho encare o espelho encare o espelho encare o espelho encare o espelho encare o espelho encare ENCARE ENCARE
Calou a voz em sua mente. É, ela havia perdido.
N/A: O que vocês acham que vem a seguir? Eu quero teorias. E muito obrigada a todo mundo que comentou. Ler as reviews sempre me deixa feliz pra caramba. Eu espero que vocês estejam gostando da direção que a fanfic está tomando. Até o próximo capítulo, Nanda.
Publicado em: 03/09/2015.
