Muito havia sido feito em Longbourn e muito tinha sido dito pelos oficiais, durante o tempo em que Jane e Kate tinham ficado afastadas da família. Claire e Lizzy encarregaram-se de contar todas as novidades de Meryton e do acampamento dos oficiais, enquanto voltavam para casa. Mary revirava os olhos de tédio e Mrs. Bennet acompanhava tudo com entusiasmo.

Ao chegarem em casa foram recebidas afetuosamente por Mr. Bennet, que tinha sentido a falta que as duas filhas mais velhas faziam, principalmente nas conversas da noite. Jane e Kate retribuíram com alegria a atenção do pai. Lizzy e Claire rumaram para a sala aos cochichos e Mary sentou-se ao piano. Mr. Bennet aproximou-se da esposa com uma carta na mão e disse:

- Minha cara esposa, espero que tenha pedido um bom jantar para hoje. Teremos uma visita.

- Visita? Quem poderá ser? Há, fala de Charlote Lucas...meus jantares mais simples são mais do que suficientes para ela. Poucas vezes em sua própria casa ela desfruta de jantares como os meus.

- Não é Charlote Lucas. É um cavalheiro.

- Há, mas então só pode ser Mr.Bingley! Jane, sua marota, não me disse nada! E agora é tarde para encomendar peixe...vou ver com Hill o que se pode fazer.

Jane e Kate ficaram por perto, pois sabiam que não podia ser Mr. Bingley. Mr. Bennet retomou a palavra:

- Não é Mr. Bingley. É um cavalheiro, mas é desconhecido. Na verdade, nunca o vi em minha vida. Seu nome é Mr. Locke.

Mrs. Bennet desabou:

- Mr.Locke? O primo que nos expulsará todas daqui, mal o senhor esfrie na sepultura? Mas o que ele vem fazer aqui? Não podia cortar relações com você, assim como o pai? É mesmo uma injustiça privar 5 moças de sua herança, por um parente que mal se conhece.

Jane e Kate tentaram pela milésima vez explicar a Mrs. Bennet o aspecto jurídico do assunto, o porque as mulheres não podiam herdar a propriedade, mas em vão. Mrs. Bennet só via a injustiça do caso. Mr. Bennet estendeu uma carta a Mrs. Bennet e disse:

- Na verdade, ele guarda certos escrúpulos filiais quanto ao assunto, mas não me parece belicoso. Leia você mesma.

A carta dizia o seguinte:

"Hansford, Kent.

Caro senhor:

Muito me afligia a situação que mantinham as relações entre senhor e meu pai, totalmente interrompidas. Muitas vezes, depois que ele se foi, tenho tentado remediar tal situação e se só o faço agora é o temor de desonrar a memória dele. E também por minha atual posição, já que tendo tomado ordens por ocasião da Páscoa, fui agraciado com a proteção de Lady Catherine de Bourgh, viúva de Sir Loius de Bourgh, uma dama de grande benevolência, que me honrou com a reitoria de sua paróquia, onde estarei sempre pronto a celebrar os ritos da Igreja da Inglaterra.

Com tão importante cargo, senti que era meu dever lançar influência benéfica sobre todas as famílias ao meu alcance, e espero que as circunstâncias que me tornam herdeiro de Longbourn não o façam rejeitar a proposta de paz que ora ofereço. Pretendo oferecer reparação a minhas primas, mas falarei disto em breve.

Se não fizer objeção, gostaria de visitá-lo daqui a 30 dias, abusando de sua hospitalidade durante uma semana, sem prejuízo de minhas tarefas como pároco, já que Lady de Bourgh não se importa com minha ausência, desde que haja alguém para conduzir os serviços do domingo.

Com atenciosos cumprimentos a sua esposa e filhas, subscrevo-me

Mr. Jonathan Locke."

- Como vê, ele vem com boas intenções. E será uma boa relação, já que Lady de Bourgh parece ser importante, e ainda assim deixou que ele viesse nos ver pessoalmente.

- Bem, se ele pretende oferecer reparação as minhas meninas, não atrapalharei.

Jane comentou:

- É uma intenção louvável, mesmo que eu não tenha idéia de como ele pretende fazer isso.

Kate tinha ficado impressionada com a deferência demonstrada por ele a Lady de Bourgh, e virou-se para o pai:

- Papá, acha que este Mr. Locke pode ser sensato? Não consigo formar uma boa idéia a respeito dele.

- Seu estilo é uma mistura tão grande de pompa e arrogância, que tenho quase certeza que não deve ser nem um pouco sensato, se tivermos sorte. Estou impaciente para conhecê-lo.

Mary disse:

- A composição da carta é boa, e mesmo sendo bastante usada, a fórmula da proposta de paz está bem expressa.

Lizzy e Claire nem ligaram para a carta. Era impossível que o primo aparecesse numa túnica vermelha, única cor que vestia bem os homens com os quais as irmãs se divertiam. Mrs. Bennet, com o coração apaziguado pela carta de Mr. Locke, preparou-se para recebê-lo com dignidade que espantou a todos.

Assim, às quatro horas, conforme tinha sido combinado com Mr. Bennet, Mr. Locke bateu a porta de Longbourn, dizendo:

- Boa tarde. Sou Mr. Jonathan Locke.

Em suas roupas pretas de pároco, Mr. Locke parecia muito mais velho do que realmente era. De estatura mediana e compleição forte,seu cabelos já começavam a rarear, sinal genético que acometeu o pai, e que desde jovem o acometia também. Adentrou a casa, carregando uma pequena mala e uma braçada de livros, empertigado e pomposo. Cumprimentou a todos com grandes mesuras, elogiando grandemente a beleza das senhoritas, que ficava aquém da fama que as precedia. Logo foi conduzido ao seu quarto, só voltando à sala para o jantar.

Com Mr. Bennet numa ponta da mesa e Mrs. Bennet na outra, coube a Jane e Mary sentarem-se ao lado de Mr. Locke, que não se cansava de elogiar os móveis, a prataria e as porcelanas da casa, elogios que tocariam o coração da dona da casa, se ela não pensasse que todas essas observações fossem decorrência do olhar cobiçoso de Mr. Locke, que talvez já se visse como dono de tudo. Mais uma vez a beleza das meninas foi assunto, e Mr. Locke não pode deixar de dizer que logo Mrs. Bennet teria a felicidade de vê-las todas casadas. Mrs. Bennet retrucou:

- Oh, seria um grande alivio para todos, dadas as circunstâncias.

- A senhora refere-se, talvez, a sucessão da propriedade?

- Sim, meu senhor, isso mesmo. Não que o senhor tenha culpa, mas a cada um cabe a sorte neste mundo, mas é uma situação muito triste para as minhas pobres filhas.

- Quanto a isso, a senhora não deve preocupar-se. Digo apenas que vim disposto a admirar todas as minhas primas, e mais não poso dizer, mas espero que nós possamos nos conhecer melhor.

O jantar decorreu tranqüilamente, quando Mr. Locke , depois de provar um dos pratos, não pôde mais se manter calado:

- Excelentes batatas cozidas. Nunca tinha provado tão belo exemplar deste vegetal. Qual, das minhas formosas primas, devo cumprimentar pela excelência culinária?

Mrs.Bennet ofendeu-se:

- Mr. Locke! Somos perfeitamente capazes de manter uma cozinheira e nenhuma de minhas filhas tem coisa alguma a fazer na cozinha.

Mr. Locke desculpou-se profusamente durante um quarto de hora, e só depois mudou de assunto:

- Certamente devem conhecer Lady de Bourgh?

Todos responderam negativamente e Mr. Locke não se fez de rogado:

- Lady de Bourgh é minha protetora. É uma grande dama. Muitos dizem que é orgulhosa, mas não vejo nela nada disso, ao contrário, é muito afável. Trata-me sempre como um gentleman, elogiou dois de meus sermões e inclusive me honrou com sua presença em minha humilde reitoria, sempre buscando meu completo bem estar. É realmente uma dama.

- É uma pena que outras pessoas da nobreza não se pareçam com ela. Ela mora perto do senhor?

- Disse uma grande verdade, Mrs. Bennet. Minha residência fica em um canto do jardim de Rosings Park, a residência de sua Senhoria.

-O senhor disse que ela é viúva. Ela tem filhos?

- Sim, uma filha, Miss de Bourgh, que herdará Rosings e uma grande fortuna.

- Há, ela tem mais sorte que muitas moças.

- Na verdade, Lady de Bourgh sempre diz que a beleza de Miss de Bourgh é muito distinta da de outras moças da nobreza, já que ela possui a marca das pessoas bem nascidas, e que a eleva do nível das demais. Infelizmente sua constituição doentia a impediu de fazer progressos em áreas que não seria deficiente. Ela já me deu a honra de visitar a reitoria algumas vezes, em sua pequena carruagem puxado por pôneis.

- Ela foi apresentada em St. James? Não lembro de ter visto seu nome entre as damas da corte.

- Não, ela não foi. Sua pouca saúde a impede de residir na cidade. E sempre digo a sua Senhoria: a corte perdeu em não ter Miss de Bourgh. Tenho a impressão que ela nasceu para ser uma duquesa, e que o título, ao invés de adorná-la, seria adornado por ela, e disse isso a Lady de Bourgh. É um desses pequenos elogios que tanto agradam as senhoras e que não me furto de fazer, quando posso.

Kate trocava olhares ora com Jane, ora com o pai, e os três divertiam-se imensamente com a conversa cheia de falsa modéstia de Mr. Locke. Kate perguntou:

- Diga, Mr Locke, esses elogios que o senhor faz são frutos da ocasião ou o senhor prepara alguma coisa previamente? E recebeu um pontapé de Jane por baixo da mesa.

- Na maioria das vezes, são frutos da situação, mas eu me divirto arranjando e polindo algumas tiradas, que tanto agradam a sua Senhoria, e não me custa nada fazê-los. Mas tento fazê-los parecerem os mais espontâneos possíveis.

- Acredite meu senhor, ninguém diria que o senhor não é espontâneo.

Desta vez, Claire não agüentou: soltou uma boa gargalhada, que transformou num engasgo, quando Mr. Locke olhou para ela com um ar reprovador. Kate apressou-se em dar-lhe tapinhas nas costas, segurando o riso. Mas Mr. Locke não ficou muito tempo amuado.

- Poderemos conversar melhor após o jantar, tenho grande interesse em discutir as questões morais concernentes as moças. Agrada-lhe este assunto, Miss Bennet?

Jane levou um susto e voltou-se para Mr. Locke, cruzando seu olhar com o dele, que não escondia a grande admiração pela mais velha das irmãs Bennet.