No banheiro, enquanto Shaka rapidamente ligava o chuveiro, atrás dele Mu se apressava em tirar as vestes encharcadas em sangue.

Eu realmente sinto muito. — disse em tom melancólico — Eu não queria que Camus tivesse me visto assim e... Eu comi o seu carniçal que nos ajudava... Não queria, mas era ele ou Afrodite. Ou ainda pior... Você.

Está tudo bem. Arranjamos outros. É apenas gado. — respondeu Shaka em tom austero, depois se aproximou dele e segurou seu rosto com ambas as mãos, olhando fixamente em seus olhos negros e escarlates — Até quando acha que levaremos isso a diante? — abriu a boca e colocando a língua para fora deu uma lambida generosa em um dos cantos dos lábios de Mu, sorvendo o sangue coagulado que estava grudado — Eu já lhe disse que não tenho medo. Você não vai me matar.

Eu não tenho a sua fé, sacerdote.

Talvez seja exatamente isso que lhe falta. — Shaka lhe deu um beijo nos lábios sujos e se afastou — Crer.

Crer? Em quem? Em você? — Mu riu, terminando de se desfazer do saiote imundo.

Shaka lhe sorriu de volta, mas deu por bem deixar aquela conversa para outra hora, visto que Camus os aguardava na sala.

Anda, vá se lavar. Vou pegar a escova pequena para limpar suas unhas. Não podemos deixar nosso hospede nos esperando.

Enquanto isso, na sala principal da mansão, Camus sentava-se no sofá para aguardar o anfitrião.

Não havia gostado nem um pouco do que vira ali, e constatava que pelo estado em quem Mu se encontrava suas teorias tinham ainda mais fundamento.

Mu era um perigo para humanos e também para os vampiros!

Temeu por Shaka, pois sabia do envolvimento do sacerdote por aquele demônio ancestral imprevisível e de alguma forma teria que alertá-lo de que era praticamente impossível ele sustentar a ideia absurda de manter um relacionamento com o Nut.

Foi quando refletia no que poderia fazer para ajudar o amigo Setita que Camus, subitamente, e completamente distraído, bateu os olhos no jovem que tocava ao piano.

Imediatamente, a música que vinha dele varreu para longe toda a preocupação que nutria para com Shaka naquele momento, deixando o terreno livre para que o Cesarem pudesse reparar naquela figura que surpreendentemente lhe cativou a atenção.

Em seu íntimo, o francês se perguntava há quantos anos não visitava o Setita, visto que nunca antes havia notado a presença daquele humano, que por sinal era dono de uma beleza sublime.

Certamente vivia com Shaka há pouco tempo e deveria ser um dos jovens que o Setita adquiria de tempos em tempos e depois descartava, do contrário, se já o tivesse visto antes, jamais se esqueceria daquele rosto tão belo e melancólico.

Olhando para ele, desejou ver seus olhos, já que Afrodite tocava o piano de olhos fechados, uma vez que a música para ele era o alimento da alma, assim como o sangue era alimento vital para os vampiros.

Elevando sua Presença, Camus imprimiu no jovem o desejo de olhar para si e de imediato Afrodite abriu os belos olhos azuis e encontrou as íris avelãs do francês, lhe presenteando com um olhar doce e ao mesmo tempo curioso.

Abrindo mão de sua Presença, uma vez que não era seu intuito enfeitiçar o jovem, Camus se surpreendeu com a maneira com que Afrodite agora o olhava por conta própria, parecendo questiona-lo, analisá-lo.

E de fato, para o músico sueco aquele encontro lhe era inédito.

Desde que fora trazido por Shaka para viver naquela casa, já havia visto muitos olhos imortais e conhecido inúmeros filhos da noite, uma vez que os alimentava com seu sangue doce e gentil sempre que o mestre lhe ordenava.

Eram todos muito sedutores em todo o tempo, imponentes, majestosos... Criaturas verdadeiramente fascinantes por si próprias, porém nenhuma delas era como aquele ruivo que olhava para si como que hipnotizado.

Os olhos dele eram como duas piscinas incandescentes de magma que reluziam na penumbra daquela sala iluminada apenas por algumas velas, as quais ao banharem os cabelos cor de fogo do vampiro com sua luz em tons de ocre e âmbar enalteciam ainda mais sua figura fantástica!

Todavia, se Afrodite estava encantado pelas feições singulares de Camus, ele não era o único.

O Cesarem tinha a sensação de estar dentro de um sonho.

O piano ficava em um dos cantos da sala onde havia uma enorme cúpula de vidro no teto. De dia ela era encoberta por grossos tecidos negros de veludo, porém a noite Shaka abria as cortinas para deixar a luz do luar banhar aquele pedaço da sala com seu raios prateados, os quais imprimiam à figura de Afrodite um encanto onírico.

A luz soturna e fria da noite tingia os cabelos prateados do garoto em tons de azul, cinza e prata, que ao contrastarem com o ouro das chamas das velas acesas dispostas no candelabro sobre o piano, transformavam Afrodite na junção perfeita das duas maiores paixões dos imortais: A noite e a beleza!

Os tons frios que cercavam o músico eram contrapostos aos quentes que envolviam Camus, e nessa dança de cores e sensações ambos se olhavam hipnoticamente, tendo a música como uma ponte que os unia em um diálogo mudo.

Os olhos do músico penetravam nos do vampiro, e era como se, através das notas musicais ele pudesse acariciar aquela criatura fascinante à sua frente.

E de fato Camus sentia-se acariciado pelo olhar e pela melodia que vinham do humano.

Foi por isso que, como se fosse conduzido por ambos, levantou-se do sofá e numa espécie de aflição caminhou em direção ao piano, como um marinheiro arrebatado pelo canto da sereia, sem quebrar o contato visual com aqueles olhos azuis que o atraiam com uma força desmedida.

Foi quando estava prestes a tocar no rosto do humano que Camus fora puxado para fora daquele sonho, sentindo uma mão lhe segurar forte em um dos ombros, o tirando do transe abruptamente.

— Camus! — disse Shaka, que havia voltado à sala acompanhado de Mu, agora sem nenhum vestígio de sangue mais pelo corpo e vestido em uma bela vestimenta típica egípcia.

— Oui? — o Cesarem respondeu exacerbado, de súbito recolhendo o braço estendido e dando as costas ao músico, que na mesma hora voltou a fechar os olhos para concentrar-se na canção que tocava.

— Vejo que apreciou a canção. — o sacerdote sorriu, fazendo sinal com a cabeça para que o amigo o seguisse até o sofá — Venha, vamos nos sentar.

— Ah, oui. Muito! — respondeu um tanto quanto sem graça, depois lançou um ultimo olhar para o músico e seguiu o Setita.

Enquanto caminhava, Camus questionava-se acerca daquela atração súbita que sentira por aquele humano, a qual para si parecia-lhe inexplicável. Era um cientista, não um romântico, e não gostara nada daquela experiência. Não obter respostas exatas e imediatas para seus questionamentos o deixava extremamente irritado e frustrado, mas não era hora para aquilo.

Sentou-se na poltrona ao lado de onde Mu havia se sentado. Percebeu o Nut um tanto quanto desconfortável ali, e já imaginava a razão de seu descontentamento.

— E então, Camus? — disse Shaka, que ajeitava-se no sofá à frente deles, retirando por um momento a atenção de Camus para com o Nut a seu lado — Como foi com o Presidente do Conselho? Já imaginava que ele iria chama-lo antes de fazer qualquer convocação oficial a meu pedido. Aliás, nós imaginávamos, não mesmo?

— Oui. — respondeu o francês cruzando as pernas, se pondo confortável na poltrona — Ele queria ter a garantia de que non era um blefe apenas para chamar atenção, ou se o motivo era de fato relevante.

— E acha que estarão abertos a me ouvirem? Saga se mostrou disposto?

— Ele ficou bem interessado, por assim dizer. Tanto pela denúncia que pretende fazer, quanto pelo "achado" a que se dispõe a apresentar-lhes. — olhou ligeiramente para o lado, e quando seus olhos encontraram os de Mu o encarou com propriedade por alguns segundos mais, para depois voltar-se a Shaka à sua frente — Creio que non terá problemas. Saga nos conhece muito bem, Shaka, desde que você era o representante Setita no conselho, muito antes dele subir como presidente. Apesar de ter estranhado o seu pedido excepcional, ele se mostrou receptivo e disposto a reunir apenas o Conselho Menor, e asseguro-lhe de que Hades non estará presente.

— Assim espero. Revelar Mu aos Espectros das Sombras nesse momento seria pura leviandade.

— Oui, afinal foram eles quem exterminaram os últimos Nuts a caminharem na Terra, em sua busca incessante e doentia por poder...

— O que disse? — Mu interveio elevando a voz e desencostando as costas da poltrona, virando-se para o ruivo numa clara demonstração de espanto.

Em silêncio, o Cesarem descruzou as pernas e olhou para ele, vendo uma faísca púrpura reluzir em meio as íris verdes de seus olhos arregalados em surpresa.

— Pardon... — disse o francês, agora olhando para Shaka com um semblante questionador —... Non contou a ele?

— Não. — Shaka respondeu sem muito se abalar.

— Não contou o que? O que está escondendo de mim, Shaka? — Mu já se levantava da poltrona se colocando à frente do sacerdote.

Temeroso de que o Nut o atacasse ou algo parecido, Camus também se levantou e se pôs ao lado dele, tocando em seu ombro numa tentativa de acalma-lo.

— Não estou escondendo nada. — disse Shaka olhando para ele — Eu apenas estava esperando o melhor momento. Você sofreu muito desde que acordou. Todos sabemos que a adaptação é nosso maior desafio e você estava perdido, confuso... Eram muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. O mundo mudou muito enquanto você dormia e sei o quanto isso está sendo difícil para você. Tem ideia de quantos clãs surgiram desde que o seu clã, Nut, foi fundado? Vocês eram os únicos, hoje não existem mais. — Shaka então esticou o braço e pegou na mão de Mu, o puxando para mais perto de si — Nunca quis esconder nada de você, Mu... Mas, não se rega de uma só vez uma muda que acabara de brotar, a menos que a queira matar afogada!

— Então não me esconda, sacerdote! Conte-me! Conte-me agora o que vocês sabem! — pediu olhando para Shaka e depois para Camus. Sua curiosidade e ansiedade lhe saltava aos olhos. Havia lido muito livros, papiros e pergaminhos antigos desde que passara a viver com Shaka, já que o sacerdote tinha um verdadeiro acervo em sua casa, mas nada que de fato explicasse o sumiço do sua família, ou do seu clã.

Camus limpou a garganta chamando a atenção de ambos e tomou a frente.

— Com sua permissão Shaka, acho que é hora de ele saber. — disse voltando à sua poltrona enquanto o Setita puxava Mu pela mão para que ele se senta-se a seu lado — Non conheço história alguma sobre sua família em específico, Mu, mas posso lhe garantir que há registros que provam que os Nuts ainda caminhavam nesta Terra há pelo menos dois mil anos. Porém, a data precisa de sua extinção é desconhecida. Pouquíssimos registros restaram para contar sua história, assim como pouquíssimos também os viram para poder relatar algo oralmente. Então, o pouco que sei foi o que descobri através de minhas pesquisas, como, onde viviam, como se alimentavam... E por que desapareceram. Segundo os dados que levantei, desde quando comecei a pesquisa, e anteriormente a mim o líder de meu clã, Degel, descobrimos que os Nuts começaram a desaparecer ao mesmo tempo em que um novo clã começou a surgir.

— Os... Espectros das Sombras... — Mu balbuciou num rosnado.

— Exato. — Camus disse muito concentrado — Os Espectros das Sombras são um clã relativamente jovem e, por isso, de uma geração muito longínqua da criação, distante milênios dos primeiros. Porém, são um clã considerado muito poderoso, a despeito de sua geração. Non acha isso bem intrigante?

Mu ligava as peças em sua cabeça, olhando fixamente para o Cesarem que continuava seu relato.

— Pois bem. Como sabe, quanto maior o numero de gerações, menos puro é o sangue vampírico e, sendo assim, menor o seu poder. Seguindo essa lógica, os Espectros das Sombras eram para ser um clã cujos membros fossem fracos, dada sua geração. Mas eles non são!

— O que nos leva a crer que o seu fortalecimento ligeiro e repentino se deu através da caça e consumo dos remanescentes do clã mais poderoso que já existiu, o seu. — disse Shaka olhando para o rosto aturdido do Nut — Através do sangue poderoso dos Nuts, os líderes dos Espectros conseguiram o poder que precisavam para alavancar seu contingente, uma vez que regrediram suas gerações de forma artificial, purificando seu sangue.

— Exato, e para isso se aliaram a todo tido de criatura, mercenários, humanos ou vampiros, seduzidos pela promessa de poder e riqueza. Em poucas centenas de anos non havia um único Nut na Terra para contar sua história. — disse Camus franzindo as sobrancelhas, visivelmente irritado — E óbvio que sem deixar provas, pois essa forma de canibalismo é inaceitável perante o Conselho. Ocultaram sua verdadeira origem e já se apresentaram regredidos. Apesar da desconfiança lógica dos membros do Conselho, jamais conseguimos levantar provas que os incriminasse de fato pela extinção do clã Nut e pelo crime de canibalismo. Depois, demoramos a notar o desaparecimento dos Nuts, pois eles já eram extremamente raros e reclusos, e quando Degel teceu a hipótese da origem dos Espectros das Sombras já non havia mais nenhum Nut na Terra para que pudéssemos comparar as amostras sanguíneas.

— Mas, mesmo fortalecidos em poucos séculos pelo sangue primordial Nut, os Espectros ainda não conseguiram atingir o patamar que desejavam. O poder que possuem ainda não é suficiente para tomarem o Conselho e dominarem os outros clãs, ou seja lá o que for que os ambiciona, então eles agora retomaram a caçada. — Shaka falou em tom ríspido.

— E o alvo dessa vez são os Seguidores de Seth. — Mu concluiu taciturno.

— Sim. — disse Shaka, apertando a mão de Mu contra a sua — E foi justamente esse clã que invadiu o Templo Setita no Irã e matou todos os membros, absorvendo sua essência. Eu consegui fugir depois de lutar, e foi então que o encontrei naquela caverna.

Mu estava enfurecido.

Saber que caçaram seu clã e se alimentaram dele como se alimentam do gado era tão odioso e tão baixo que o Nut chegou a ter a impressão de que sentia náuseas, tamanho seu horror.

Não sabia o que havia ocorrido à sua família, mas diante daquela revelação monstruosa nada impedia que até um dos seus tivesse sido alvo dos tais Espectros das Sombra, sendo consumido para lhes dar poder.

Sentiu horror ao pensar naquilo.

Aquele maldito clã do novo mundo lhe havia arrancado o seu clã de forma vil e o deixado sozinho. Sim, pois mesmo que sua família houvesse morrido antes de outras causas desconhecidas, ainda assim, se não fossem os Espectros, existiriam Nuts, poderia se comunicar com eles, formar uma nova família e não se sentiria tão só.

Sua mente fervia com a revelação. Agora, descobria que não bastava terem lhe tomado sua origem, queriam também lhe tomar o futuro, exterminando os Seguidores de Seth para consumir seu poder.

Não! Não iria permitir. Não lhe tomariam mais nada. Havia adotado as Serpentes como sua família e não perderia seu novo clã.

Não perderia Shaka.

Transtornado, levantou-se do sofá e caminhou lentamente pela sala, cabeça baixa e olhos injetados no chão. Levou a mão à boca e balbuciou algo que aos ouvidos de Shaka e Camus soou inteligível, visto que falava em sânscrito.

Preocupado, o sacerdote se levantou também e aproximou-se dele com cautela, lhe pousando gentilmente uma das mãos sobre o ombro.

— Posso imaginar o que esteja sentindo e o que esteja tramando. — disse Shaka quase num sussurro — Mas, tem que entender que o mundo mudou e não podemos simplesmente provocar um conflito entre clãs. Nossa sociedade cresceu muito desde o seu sono, Mu. O momento pede cautela.

— Mas eles estão atrás de você. — disse o Nut virando-se para o sacerdote, encarando seus olhos.

— Sim, porque minha geração é uma das mais baixas no mundo novo, mas não irão conseguir me pegar. Não permitirei que me cacem, nem a mim nem a meu clã.

Mu demorou a conseguir se acalmar, mas quando enfim conseguiu organizar a mente, um detalhe na fala do sacerdote lhe chamou atenção. Ele dizia que era de baixa geração, mas qual o real significado disso? Afinal, em seu tempo não havia tantas crianças da noite.

— Por favor, será que podem me dizer qual era a geração dos últimos Nuts? E qual a de vocês? — perguntou olhando para Shaka e em seguida pra o Cesarem sentado na poltrona.

— Sinto muito, Mu, mas é praticamente impossível saber a qual geração os últimos Nuts pertenciam. — disse Camus — Como disse, muito pouco se sabia sobre eles no mundo novo, mas é de conhecimento geral que eram de gerações bem baixas. Eu sou de 22° geração. Apesar de nossa geração não ser tão baixa, o poder do meu clã se concentra em nossa capacidade alquímica e nossos conhecimentos científicos.

— Um clã de estudiosos! — disse Mu, que começava a entender um pouco mais acerca da sociedade da qual Shaka tanto falava e na qual agora estava inserido.

— Shaka é mais antigo que eu, ele é de 16° geração. Um vampiro muito poderoso. — Camus completou arqueando as sobrancelhas bifurcadas.

— E se um vampiro abraçasse um humano, hoje, ele seria de qual geração? — o Nut continuou perguntando.

— Depende do vampiro que o abraçar. — Camus respondeu — Se for eu, por exemplo, ele se tornará um vampiro de 23° geração. Agora, se for o Shaka, de 17°.

— Mas, digamos que haja uma corrente sucessiva de novatos abraçando outros novatos. — Shaka agora tomava a palavra — Teremos, então, vampiros de até 67° geração, ou mais. Por que isso te interessa, Mu?

Após um momento de silêncio, Mu olhou novamente nos olhos dos dois e expôs sua preocupação.

— Porque se esses Espectros das Sombras estão perseguindo Shaka devido sua geração ser uma das mais baixas no mundo novo, apenas 16°, eu temo me tornar um grande problema para vocês, visto que pretendem me apresentar ao tal Conselho.

O clima na sala ficou denso de repente, então Camus, cuja curiosidade era o segundo nome, levantou-se da poltrona e com um semblante extremamente sério perguntou, encarando os olhos verdes do Nut:

— Qual a sua geração, Mu?

— 3°. Meu pai era filho do original!

Ao revelar sua geração primordial, Mu liberou uma fagulha de seu real poder, assumindo uma postura completamente diferente da que antes possuída, por vezes retraída, até envergonhada. Sua Presença poderosíssima inundou a sala em segundos, fazendo até Afrodite parar de tocar o piano para olhar para si temeroso.

Ali agora não havia mais Mu. Aquele era Seth, o Caos! Filho direto de Rá e Aset, rei do Egito e mestre nas artes da guerra!

Camus sentiu um tremor percorrer todo seu corpo. Jamais havia sentido tal Presença tão poderosa! Em silêncio, agradecia ao acaso, já que era completamente cético, por ter sido Shaka a encontrar a criatura e não um inimigo seu, pois, caso tivesse sido desperto pelo vampiro errado, certamente, hoje, já estariam todos mortos!

Nunca desejou tanto que Shaka de fato conseguisse domesticar aquela fera!

O sacerdote por sua vez, não se surpreendera da mesma forma que Camus diante aquela ínfima demonstração de poder, uma vez que já havia provado o sangue do Nut e tinha alguma noção de seu poder, o qual ele também sabia que Mu escondia por algum motivo.

No entanto, Shaka ficou extremamente surpreso quanto Mu revelou sua geração.

Tinha consciência de sua ancestralidade, a sentia em todos os poros do Nut, mas nem em suas teorias mais afãs poderia imaginar que ele fora criado por um dos primordiais!

Mu era praticamente um dos primeiros vampiros a caminhar na Terra e isso o colocava em um patamar quase divino, pois se ele foi um dos primeiros, então certamente teve contado com os criadores!

Foi pensando nisso que tomado de uma euforia quase cega, Shaka se colocou a frente de Mu, segurou em ambos seus braços e o fez olhar diretamente em seus olhos, o quais cintilavam uma faísca dourada em meio ao oceano azul celeste.

— Você... Por que não me disse que fora abraçado por um dos primeiros? — questionou com voz firme — Você andou com eles? Você os viu? Sim! Com certeza os viu! Até quando pretendia esconder isso de mim?

— Eu... — Mu balbuciou assustado, sem conseguir prosseguir.

— Se é de terceira geração, como diz, deve ter conhecido os criadores... Até... Até o próprio Seth!

Como todos os Setitas, Shaka acreditava que Seth era o criador, o primeiro, aquele que se tornou um imortal e iniciou o ciclo entre seus súditos, e ter conhecimento de que Mu poderia ter conhecido Seth era algo sublime, extraordinário para o sacerdote.

— Anda, me diga, Mu! Se não o viu, ou se não teve contado com Ele, deve saber algo sobre Seth que nem mesmo eu sei!

Mu olhava dentro dos olhos de Shaka em silêncio.

Como dizer a ele que era o próprio Seth?

Até quando conseguiria esconder essa verdade do sacerdote? E quando a revelasse, qual seria sua reação?

Tinha muito medo de perder a relação que construía, ou tentava construir, com Shaka, uma vez que a fé do sacerdote era tão inabalável que o cegava, o impedindo de ver que ele era o deus que tanto procurara.

Contudo, Mu podia entender perfeitamente porque não fora reconhecido, já que Shaka acreditava em um deus totalmente diferente do que de fato ele era. No lugar do Caos e da violência, ele encontrou uma figura frágil, assustada, deslocada e completamente perdida. Shaka simplesmente não conhecia essa faceta de Seth, por isso era incapaz de reconhecê-lo bem diante de seus olhos.

Mas, Mu não o culpava. Ele mesmo havia lido os escritos antigos e sua história estava tão alterada que nem ele mesmo se reconheceu nela.

Não queria seguir mentindo para o sacerdote, mas também não sentia-se pronto para revelar a verdade, pois temia que ela fosse um golpe forte demais contra a fé do Setita. Por isso, dando razão à sua fama de deus da enganação disse apenas meias verdades.

— Sinto muito, Shaka... Eu os conheci sim, mas... — baixou os olhos entristecido —... Os deuses que você prega são diferentes dos vampiros que conheci. Não saberia dizer se são os mesmos... Depois, vivi a maior parte do tempo isolado, com minha família, sem muito contato com outros filhos da noite, devido minha... Bem... Minha maldição. Tudo que sei é o que meus pais me ensinaram, e antes de ser posto para dormir não havia ainda esse culto específico a... Seth. Apenas o gado cultuava os deuses. Eu não sabia que vampiros também o fizessem.

— Não é possível que não tenha tido contado com Ele. Deve haver algo que saiba. Algo que me daria uma pista de seu paradeiro.

Mu sentiu-se muito mal ao ouvir aquilo, mas manteve irredutível em sua decisão.

— Lamento... A única coisa que posso lhe dizer sobre Seth é que, nas minhas lembranças agastadas pelo tempo, ele... Bem, ele era diferente do que me descreveu. Não conheci nenhum vampiro, ou deus, com cabeça de chacal, ou águia, gato... Mas, também não conheci os criadores... Sinto muito.

Um tanto quanto abalado, Shaka soltou os braços de Mu, deu uma olhada rápida para Camus e se afastou lentamente de ambos, parando em frente a uma estatueta feita em ouro e bronze que representava o faraó Ramises II, cuja lenda dizia ter sido um imortal que sucumbiu pelas mãos de algum facínora traidor.

— Você novamente me diz que os escritos sagrados diferem da realidade de seu tempo, e que tudo em que acreditamos por milênios está errado ou deturpado? — falou em tom baixo, tocando o rosto da estátua com os dedos.

Camus, que estava de pé ao centro da sala, cruzou os braços e arqueando uma sobrancelha disse:

— Por isso que prefiro acreditar na Ciência! Ela é precisa e nunca falha! E se falhar, pelo menos a gente vê onde errou!

Shaka virou o rosto para trás, lançando um olhar de desaprovação para o ruivo. Não admitia que debochassem de sua fé, pois sempre a teve como a única certeza concreta dentro de si, algo que para o sacerdote era quase palpável!

— Camus... Se os deuses não tivessem o agraciado com o dom da inteligência, do raciocínio, e imprimido a seu ser a ânsia pelo saber, a curiosidade, você jamais seria capaz de entender a Ciência, meu amigo. Tampouco de manipular suas fórmulas alquímicas. Nunca se perguntou o porquê de existirem cérebros brilhantes e cérebros débeis? Muitos ainda gerados por uma mesma progenitora, ou seja, que compartilham uma mesma cadeia genética?... — Shaka agora olhava para o Cesarem de modo firme — Já se perguntou por que em um mesma família há homens de bem e outros que espalham a corrupção e a morte?

— Pré-disposição genética tão somente? — Camus respondeu com outra pergunta, como todo bom cientista.

— Sim, mas... O que explica uns serem gênios e outros completos dementes? Uns serem pacíficos e outros gostarem de espalhar o caos? Uns nascerem para edificar uma nação e libertar um povo e outros... para tornar em ruina e morte tudo que toca! Os deuses nos dão nossa essência. O que vamos fazer com ela é livre arbítrio, ou, pré-disposição genética, como prefere dizer. — disse Shaka, agora se aproximando de Mu lentamente — Se tudo que estudei e acreditei de fato for uma farsa... Se Seth não existe como eu acredito e nem irá nos guiar contra o mal que nos cerca cada vez mais... Então eu perderei tudo.

— Shaka... — Mu sussurrou, olhando para o sacerdote, angustiado.

— Somente a minha fé me manteve nesse mundo até hoje. Minha fé e minha missão. Se não for para despertar Seth no momento em que meu clã mais necessitar de seu auxílio, simplesmente porque ele não existe ou é uma fraude, eu não vejo porque continuar existindo nesse mundo. — fez uma carícia no queixo de Mu e afagou seus cabelos lavanda, logo em seguida lhe deu as costas — Camus, você é meu hospede. Afrodite o irá alimentar sempre que desejar. Eu vou me recolher, por favor fiquem à vontade.

Shaka deixou a sala sem mais nada dizer, nem olhar para trás. Seguiu em silêncio para o porão, onde dividia um quarto com Mu, e ao entrar fechou a porta encostando-se à madeira, pensativo.

A revelação feita por Mu mudava muita coisa, tanto entre eles dois, quanto em sua vida particular.

Era líder de um clã devoto a um deus que poderia não passar de lenda. Pensar que estivera todos esses anos pregando uma mentira aos Seguidores de Seth o deixou extremamente angustiado, pois certamente sofreria uma retaliação, merecida, por parte das Serpentes ao descobrirem que Seth não era, nem nunca fora, o deus que ele lhes prometera.

Todavia, nem as palavras de Mu, nem as imprecisões dos papiros, tampouco o medo de uma retaliação em massa, diminuíam sua fé, o deixando confuso e perturbando, pois já não sabia mais de onde, ou a que, ela se sustentava.

Tinha tanta certeza de que Seth retornaria no momento exato e salvaria seu clã, quanto Mu se tornaria seu companheiro para toda a eternidade.

— Devo ser louco! — murmurou para si mesmo — Um fanático alienado como tantos que há nesse mundo!

Fechou os olhos e cravou suas garras na madeira escura da porta, furioso consigo mesmo.

Na sala, Camus olhava para Mu observando seu semblante confuso e pensativo. Estendeu o braço até ele e lhe deu dois tapinhas no ombro.

— Non se preocupe com ele. Você se acostuma. — disse com um sorriso — Shaka sempre foi assim. Non admite que ninguém conteste sua fé maluca.

— Eu... Eu não pretendia contestá-la... Não mesmo... — o Nut respondeu pesaroso.

— Oui, je sais!... Shaka e eu já tivemos discussões bem acaloradas sobre o tema. Non poderia ser diferente, no entanto, já que eu defendo a Ciência e ele a Fé... Deixe-o esfriar a cabeça, depois vocês conversam. — colocando-se bem próximo ao Nut olhou em seu rosto sem desmanchar o sorriso, analisando cada traço da bela feição frágil do vampiro —... Mas, devo lhe dizer que fiquei verdadeiramente surpreso e admirado com sua geração, Mu. Você é um dos primeiros! É uma honra ter o privilégio de conhecê-lo. Shaka deve ter lhe dito que gostaria de estuda-lo... Ah! Non se preocupe, non pretendo disseca-lo. Praticamente nem tocarei em você! — concluiu animado.

— A fé de Shaka é genuína e poderosa, cientista. Capaz de promover feitos incríveis e até milagres! Você não deveria zombar da fé do meu sumo sacerdote, vampiro!

Um lampejo ofuscante e intenso cintilou nas íris verdes do Nut, as tornando vermelhas de súbito e na mesma hora Camus sentiu sua vontade tremer e seu ânimo vacilar perante ele.

Olhando fixamente para o rosto inexorável de Mu, o Cesarem sentiu seu corpo todo paralisar de forma brusca e aterrorizante. Sabia que o Nut o provocava, mas não tinha como certo o por quê.

— "Amanhã permitirei que use sua Ciência em mim." — disse o vampiro ancestral ao dar as costas ao ruivo e caminhar em direção ao corredor, usava telepatia e falava diretamente à mente do francês — "Sua fé em sua Ciência, Camus, também o torna detentor de um grande poder. Você e Shaka possuem mais traços em comum do que imaginam."

Então Mu acenou para Afrodite no piano, num gesto amigável de despedida, e mergulhou na escuridão do corredor uma vez mais, deixando para trás um alquimista cheio de perguntas, e sem nenhuma resposta.

A paralisia que tomava o corpo de Camus desapareceu juntamente com a silhueta do Nut quando este adentrou o corredor.

O francês ainda ficou alguns minutos perdido em seus pensamentos, tentando entender o que de fato acabara de acontecer ali.

Que Mu era um vampiro ancestral poderosíssimo de primeiras gerações e que, portanto, seria praticamente impossível domá-lo, disso Camus não tinha mais duvidas, mas fora o que ele dissera ao deixar a sala o que mais lhe intrigou.

— Meu... sumo sacerdote... — o Cesarem repetiu as palavras do Nut em tom baixo e reflexivo —... Meu... sumo sacerdote?... — sentiu um leve tremor nas mãos, estava deveras nervoso —... Sim... Meu sumo sacerdote!... Será que... Non... Shaka saberia!... Non?

Parecia-lhe tão absurdo o que seu pensamento desenhava em sua mente que Camus chegou a cogitar ir chamar Shaka para lhe por a par do que Mu havia dito, mas na mesma hora sentiu um toque delicado e quente em seu braço.

Imediatamente, aqueles pensamentos foram mandados ao ostracismo das teorias malucas que sua mente por vezes formulava quando virou-se e viu o rosto pálido de Afrodite a sorrir timidamente para si.

— Senhor, está com fome? — perguntou sem mais rodeios, e em seguida levou uma das mãos até os longos cabelos loiros e os puxou para um dos lados, desnudando o pescoço e ombros alvos num convite tentador e irrecusável.

Toda a análise mental que o Cesarem fazia acerca da verdadeira identidade de Mu caiu por terra ao receber aquela oferta.

— Meu sangue é doce... E saboroso... Serei seu alimento enquanto estiver hospedado aqui. — disse o servo de forma gentil, tombando a cabeça para lado.

Estava acostumado a oferecer seu sangue aos hospedes e visitantes de Shaka, e agora não seria diferente, apesar de que, mesmo sendo mantido cativo através da influência sanguínea do Setita, não podia negar que sentiu-se atraído de alguma forma maluca por aquele vampiro ruivo.

Camus em contrapartida surpreendera-se mais uma vez olhando vidrado para aquele garoto. Sua beleza era tão sublime que se fosse humano pensou que poderia chorar ao olha para ele!

Num gesto sutil e delicado, levou uma das mãos ao rosto de Afrodite fazendo uma carícia com as pontas dos dedos, deslumbrado com sua feição única e encantadora.

Enquanto os olhos azuis do jovem corriam fascinados pelo rosto cianótico do vampiro, Camus aproximou seu próprio rosto ao dele e o cheirou, aspirando o odor do outro com anelo, delirando com o aprazível aroma da vida que exalava dele.

O cheiro do sangue, da pele, dos fios sedosos do cabelo, atiçavam os sentidos mais latentes do Cesarem, despertando sua Besta interior que fremia de desejo.

Devagar, roçou seu nariz na lateral da face do músico, experimentando a sensação do toque na pele quente.

Afrodite lhe era uma mistura de sensações deliciosas! Não que já não tivesse provado muitos como ele, mas algo naquele garoto era diferente.

Sem mais poder esperar para prova-lo, Camus entrelaçou seus longos dedos às madeixas loiras do jovem e puxou sua cabeça para trás, expondo a garganta a seu bel prazer.

Colocando a língua para fora lambeu a pele quente, uma, duas, três vezes, sentindo a pulsação das artérias em contato com sua língua, indo ao delírio, ao mesmo tempo em que a batida acelerada do coração ansioso de Afrodite o levava à loucura!

O Cesarem então abraçou o humano o trazendo para junto de seu corpo num tranco forte, e quando seus olhos assumiram um tom dourado intenso, suas presas se distenderam e imediatamente foram cravadas, de uma só vez, na veia jugular pulsante do garoto.

— Hmmm... — o músico deixou escapar um gemido baixo ao sentir a carne sendo rasgada pelos dentes do vampiro ruivo e seu sangue sorvido com avidez, então fechou os olhos, entregando-se ao êxtase daquele beijo, até sentir seu corpo todo ser tomado por uma debilidade que o incapacitou de permanecer em pé, tendo de ser amparado por Camus.

Ao se dar por satisfeito, e tomado por um frenesi delirante ao sentir seus órgãos vivos uma vez mais, Camus pegou o músico no colo e soltou a ferida. Sorte que era muito controlado, ou provavelmente o teria exaurido, uma vez que de fato seu sangue era algo extraordinário!

Nunca havia se sentido tão pleno como agora.

Lambeu a ferida no pescoço do jovem e então o levou até seu quarto, seguindo o rasto do perfume que ele usava. De rosas!

Dentro do cômodo escuro, ajeitou Afrodite sobre a cama, cobriu seu corpo com os lençóis e antes de sair acariciou uma vez mais seu rosto, encantado com a bela figura adormecida.

Enquanto caminhava de volta para o corredor para seguir até o quarto que Shaka havia preparado para si, pensou em ir bater na porta do sacerdote, ver como ele estava e aproveitar para dividir com ele a hipótese que levantara pouco antes na sala.

Contudo, pensando melhor, julgou primeiro ter certeza de que sua teoria tinha fundamento, pois se a fé de Shaka era em um deus, a de Camus era na Ciência, e não levantaria hipótese nenhuma sem que pudesse prova-la!

Sendo assim, o francês seguiu até seu quarto, onde passaria o resto da noite lendo o material que trouxera.

Há muitos quilômetros de distância dali, nas terras antigas que compreendem a região da Baviera, no sul da Alemanha, uma figura de postura altiva e presença imponente aguardava a visita de um de seus subordinados, o qual lhe traria preciosas informações.

Em sua mansão, que não era datada de tempos tão longínquos — visto que nem mesmo ele era um vampiro tão ancestral, tinha apenas cento e trinta anos — mas, que possuía uma importante carga histórica por ter sido uma das antigas sedes onde eram realizadas as reuniões às escuras do extinto Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, depois popularmente conhecido como Partido Nazista, ele olhava pela grande janela de vidro a paisagem formada pelo rio Danúbio a correr silencioso no horizonte.

Ele mesmo fora em muitas dessas reuniões do antigo partido alemão.

Na verdade, o Terceiro Reich jamais teria existido se não por consequência de sua pronunciada influência, pois fora ele o principal idealizador da tão aclamada vingança alemã.

Tudo que fazia, no entanto, era apenas manipular o gado para realizar suas próprias ambições, as quais consistiam sempre no mesmo intento: aumentar seu poder e fortalecer seu clã. Os Espectros das Sombras!

Sentado, agora, em uma suntuosa poltrona de couro negro, o imortal de belos cabelos dourados e raros olhos cor de mel, que outrora fora em vida general do exercito alemão a servir na Primeira Grande Guerra, olhava através do vidro embaçado as enormes torres da indústria nuclear de Kernkraftwerk Isar, a qual ficava nos arredores, quando percebeu uma movimentação no bosque que circundava sua morada.

Finalmente sua tão esperada visita enfim se aproximava.

Ao ouvir a porta se abrir, levantou-se da poltrona indo de encontro ao visitante.

— Espero que as novidades dessa vez sejam mais promissoras, Valentine. — disse com sua voz de trovão — Hades já está ficando desconfiado... O ataque no Irã foi um fiasco e logo cairá sobre as costas dele.

— O sumo sacerdote de Seth sobreviveu, mestre. Como o senhor previu. — disse Valentine, um dos Espectros a serviço do clã, ao se prostrar diante da presença do mestre.

— Maldito!... Não poderia tê-lo deixado escapar! — socou a mesa á sua frente — Eu ainda não tenho poder suficiente para enfrentar o desgraçado... Consegui regredir apenas duas gerações consumindo os servos dele... Mas, não veio da Inglaterra apenas para me dizer que Shaka sobreviveu, não é, Valentine?

— Não senhor. Estive o tempo todo vigiando a casa do sumo sacerdote, como o senhor ordenou, e algo estranho eu notei. Ele não tem saído, em nenhum momento. Alguns dos Seguidores de Seth estiveram na casa, mas o mais intrigante é que boatos dizem que ele encontrou um artefato poderoso no Oriente Médio.

— Que artefato?

— Ninguém sabe. Ele mantem segredo. Mas, tudo indica que Shaka não tem o conhecimento necessário para lidar com ele, já que Camus, o Cesarem alquimista, foi visto desembarcando na Inglaterra essa noite. Fontes me comprovaram que ele foi até a casa do sumo sacerdote. Provavelmente, Camus foi solicitado para ajuda-lo a desvendar o que quer que seja esse artefato.

— Hum... Só isso? — disse o vampiro loiro, visivelmente irritado — O maldito deve ter descoberto um papiro novo para brincar e você achou necessário vir aqui me contar isso?

— Não, senhor. Tem mais... Camus antes de embarcar para Londres esteve na Romênia.

— Romênia? — surpreendeu-se — Não me diga que...

— Sim. Ele esteve na sede do Conselho.

— Merda! — socou novamente a mesa — Os desgraçados estão se movimentando... Maldito sacerdote!... Mas, Shaka não conseguirá nos incriminar, Valentine. Ele não pode fazer nada sem provas. Depois, o Conselho conhece bem a índole das Serpentes. Temos que ser mais velhacos que eles!... O Conselho nada mais é que um tribunal onde quem mente melhor vence a causa!

— Sim, senhor.

— Há algo mais que eu deva saber?

— Sim... Parece que toda essa movimentação, envolvendo o Conselho, inclusive, está diretamente ligada ao artefato que o sacerdote descobriu. Sei que o senhor não crê nas lendas Setitas, mas se um alquimista como Camus está envolvido pessoalmente...

— Hum... Sim. Eu não desacredito totalmente na fé Setita, Valentine. Sei o poder que ela confere a eles. Mas, se esse achado é digno de atenção até mesmo do Conselho, é porque há algo grande nele e eu quero saber o que é. — aproximando-se do vampiro servil que se mantinha prostrado, o antigo general tocou em seu queixo e o fez olhar para si — Informação é poder, meu caro, e poder é o que queremos, e o que teremos! — fez uma sutil carícia na lateral do rosto do Espectro e então voltou a sentar-se em sua poltrona negra — Vá. Continue sendo meus olhos e meus ouvidos. Conto com você. Não me decepcione.