Capítulo Nove
Ao final da transmissão, os Selecionados retornaram para a sala de jantar, acompanhados apenas pela Duquesa Morgana. Merlin tentou não ficar paranóico, mas algo lhe dizia que o Rei não se agradara do modo como o Príncipe agira durante o Jornal Oficial. No final das contas, o jantar fora uma decepção, Merlin estava tão nervoso com o que o Rei Uther poderia estar falando com Arthur e tão ansioso ante a possibilidade de falar com o Príncipe a sós novamente, que nem conseguira comer direito.
Quando chegou ao quarto, Gili, Kara e Daegal esperavam-no pacientemente para o ajudarem a trocar de roupas. Merlin, no entanto, recusou, apenas abrindo os botões do colete e tirando as joias por conta própria.
"Ainda precisarei usar estas roupas por mais algum tempo." Merlin explicou, quando notou o olhar confuso dos criados.
Gili e Kara pareceram entender a deixa imediatamente, sorrindo de maneira comedida. Daegal, no entanto, franziu o cenho, antes de arregalar os olhos e abrir a boca, finalmente a par da situação.
"O senhor gostaria que ficássemos até mais tarde?" Kara ofereceu, parecendo um pouco esperançosa demais.
Merlin negou e dispensou-os pela noite, sabendo que ter a presença dos criados no quarto quando o Príncipe Arthur chegasse, só serviria para deixar a situação mais constrangedora para todos. Os três saíram sem causar tumultos, embora parecessem meio relutantes e Merlin foi deixado sozinho a espera de Arthur.
Ele não sabia quanto tempo o Príncipe demoraria, então deixou-se cair na cama, deixando sua mente vagar. Merlin começou a pensar em como Arthur tratava os Selecionados, imaginando se ele sabia diferenciar os que eram falsos, como Vivian, dos que eram sinceros e gentis, como Gwen.
A experiência de Arthur no quesito interação social parecia bem limitada para Merlin. Não que Merlin fosse a mais sociável das pessoas, mas Arthur sempre parecia muito travado quando estava entre várias pessoas. Com exceção da última entrevista com Edwin Muirden e os poucos momentos que tiveram a sós, Merlin nunca vira Arthur se portar de maneira muito diferente do que ele via na TV.
Não era como se Arthur não soubesse como tratar as outras pessoas. O Príncipe era nada menos do que um perfeito cavalheiro, sempre transbordando educação, excetuando os poucos momentos em que Arthur estourava e perdia o controle quando estavam a sós. Nesses momentos, Merlin sentia que Arthur reprimia muito mais do que deixava transparecer. E Merlin tinha que admitir que gostava quando Arthur agia como um jovem comum e não como o herdeiro do trono. Ao mesmo tempo, parecia que ele não sabia o que fazer em algumas situações, como diálogos cotidianos.
Merlin sacudiu a cabeça, tentando não focar demais naquilo, e encarou o teto do quarto. Com um rápido olhar em direção à sacada, verificando se as cortinas estavam mesmo fechadas, ele passou a próxima meia hora brincando com sua magia, fazendo a luz do quarto diminuir a intensidade até quase se apagar e voltar a aumentar.
As firmes batidas de Arthur à porta fizeram com que Merlin se colocasse de pé instantaneamente, olhando em volta para verificar se não havia nada incriminatório. Quando deu por si, Merlin já estava correndo em direção a porta.
O Príncipe pareceu surpreso em vê-lo.
"Onde estão seus criados?" Arthur perguntou, espiando por sobre o ombro de Merlin.
"Foram dormir." Merlin deu de ombros, ao que Arthur franziu o cenho. "Eu os dispenso depois do jantar."
"Todos os dias?"
"Sim." Merlin cruzou os braços, em desafio. "Sou bem capaz de trocar de roupas sozinho."
Arthur arqueou uma sobrancelha, mas depois sorriu. Merlin notou como o olhar do Príncipe vagou por seu corpo e corou quando Arthur voltou a encará-lo, percebendo as implicações do que acabara de dizer.
"Pegue seu casaco. Está frio lá fora." Arthur instruiu, salvando Merlin de um silêncio constrangedor.
Os dois avançaram pelos corredores. Merlin ainda estava um pouco distraído, depois de meia hora de inutilização de seu cérebro, então não saberia dizer exatamente porque enlaçou o braço de Arthur. O olhar satisfeito do Príncipe não passou despercebido, no entanto, e Merlin encontrou-se surpreso com aquela intimidade que não deixava nenhum dos dois desconfortáveis.
"Se continuar dispensando seus criados, terei que pôr um guarda na sua porta." Arthur ameaçou.
"Não!" Merlin sentenciou. "Sou bem crescidinho, não preciso de babás."
"Ele ficaria do lado de fora." Arthur insistiu, mas sorria. "Você nem notaria a presença dele."
"Eu saberia que ele está lá." Merlin reclamou. "Conseguiria sentir."
Arthur fingiu dar um suspiro derrotado.
Merlin estava sorrindo, tão envolto na discussão, que não notou os cochichos até que três garotas estivessem praticamente a frente deles. Vivian, Eira e Mab passavam por eles em direção aos próprios quartos.
"Senhoritas." cumprimentou Arthur, inclinando levemente a cabeça.
Merlin se esquecera que alguém poderia vê-los, já que não estavam mais no quarto de Merlin. Seu rosto corou no ato, sem saber exatamente o porquê. Afinal, não era como se ele estivesse fazendo algo de errado. Tecnicamente, ele era um Selecionado, e não era como se ele tivesse ido atrás de Arthur, de qualquer modo.
As três fizeram uma reverência e seguiram caminho. Merlin virou a cabeça para observá-las subir as escadas. Mab parecia curiosa. Em questão de minutos, provavelmente, todos os outros Selecionados saberiam do episódio e Merlin já suspirava internamente, imaginando como seria alvo de milhares de perguntas pela manhã. Eira parecia enojada e quando notou que Merlin olhava para as três, desviou o olhar. Os olhos de Vivian, porém, se cravaram em Merlin e ele tinha certeza de que ela levaria aquilo como uma afronta pessoal.
Merlin voltou-se para Arthur e soltou a primeira coisa que passou pela cabeça.
"Eu disse que os Selecionados que ficaram assustados com o ataque acabariam ficando."
Merlin não sabia exatamente quem eram os Selecionados, mas corriam boatos de que Mab, que ficara praticamente catatônica durante o evento, era um deles. Alguns sussurravam pelos cantos que Eira também pedira para voltar para casa, mas Merlin sabia que aquilo era mentira, alguém teria que arrancar a coroa das mãos do seu cadáver antes que isso acontecesse.
"Você não imagina o alívio que foi." Arthur comentou, sincero.
Merlin franziu o cenho. Ele certamente não esperava aquela resposta.
"Achei que isso fosse ajudar." Merlin disse, quando alcançaram o final da escada. "Não seria mais fácil se as circunstâncias eliminassem alguns para você?"
"Suponho que sim." Arthur disse, dando de ombros levemente e Merlin sentiu-se satisfeito por notar aquele gesto casual pela segunda vez. "Mas isso não significa que seria fácil." Ele pareceu magoado.
Arthur cumprimentou os guardas que abriram as portas do jardim sem hesitar, Merlin acenou com a cabeça, em reconhecimento. Merlin não pressionou, até estarem distantes o suficiente para não serem ouvidos.
"Não entendi." Merlin disse, quando chegaram ao banco da primeira noite. O nosso banco, uma voz irritante cantarolou na cabeça de Merlin.
Arthur sentou-se de frente para o palácio, deixando que Merlin tomasse o lugar ao lado dele, meio de frente para Arthur, tendo as sebes mais altas do jardim como vista. Ele parecia um pouco hesitante, antes de prosseguir.
"Talvez estivesse sendo um pouco vaidoso, pensando que eu valeria algum risco." Ele suspirou.
"Você vale." Merlin assegurou, com toda sinceridade.
Arthur franziu o cenho.
"Eu acreditava nisso até alguns dias atrás, mas agora tenho minhas dúvidas. Não que eu me sinta confortável colocando todos vocês em risco, não é isso que quero dizer," ele completou diante do olhar pensativo de Merlin. "Mas é só que… estou arriscando tudo, você entende?"
"Hã… não." Merlin fez uma careta. "Você está na sua casa, com a sua família e amigos, todos dando conselhos para você. Enquanto isso os Selecionados giram ao seu redor. Sua vida continua a mesma, foi a nossa que mudou da noite para o dia. O que você estaria arriscando?"
Arthur bufou, encarando a grama a sua frente e Merlin aproveitou-se do silêncio para olhar em volta, procurando por cinegrafistas.
"Você não entende." Arthur disse, chamando sua atenção de volta.
"Quando alguém não entende como outra pessoa se sente, uma maneira de tentar fazê-la entender é explicando." Merlin disse em tom professoral, pois sabia que provocar Arthur era a única maneira de tirar algo mais.
Arthur encarou-o novamente, seu semblante era um misto de irritação e cansaço.
"Merlin, posso ter minha família e tudo mais que você disse, mas imagine como é embaraçoso que seu pai observe suas tentativas de marcar o primeiro encontro com alguém." Ele suspirou, coçando a testa. "E não apenas ele, mas o país inteiro!"
"Bem… colocando dessa forma…"
"E não apenas isso." Arthur empertigou-se. "Quando finalmente consigo chamar alguém que me interesso para sair, nem é o tipo normal de encontro, porque não tem como eu ter certeza se a pessoa quer mesmo estar comigo."
Arthur colocou os cotovelos sobre os joelhos, respirando pesadamente, os olhos arregalados encarando a grama.
"Arthur…"
"E quanto ao meu horário," Arthur retomou, como que recuperando a coragem, "quando não estou com algum de vocês, estou organizando tropas, criando leis, ajustando orçamentos… e tudo isso sozinho ultimamente, enquanto meu pai apenas observa meus tropeços, esperando para dizer onde errei. Quando faço as coisas de um jeito que ele não faria, ele interfere imediatamente, como se não confiasse no meu julgamento. E tudo isso com vocês Selecionados rondando minha cabeça, me lembrando a todo momento que se eu não fizer os movimentos corretos ou julgar mal as pessoas, posso perder minha única chance de ter alguém especial ao meu lado."
Arthur gesticulava e sacudia as mãos, enquanto Merlin estava dividido entre interrompê-lo e deixá-lo divagar. Por um lado, ele já entendera o que Arthur queria dizer, mas por outro, vê-lo se expressar tão abertamente era algo… extasiante.
"E você acha que minha vida não está prestes a mudar?" Arthur meneou a cabeça, parecendo frustrado. "Quais são as chances de encontrar minha alma gêmea entre vocês? Terei sorte se encontrar alguém que fique comigo pelo resto da vida. E se já mandei a pessoa certa para casa por não sentir nenhuma química? E se a pessoa que escolher for embora na primeira adversidade? E se eu não encontrar essa pessoa?" Ele voltou-se para Merlin, encarando-o. "E se a pessoa certa não me quiser, Merlin?"
O discurso que começara apaixonado terminara entre frustrado e resignado e Merlin engoliu em seco, incerto do que poderia dizer. Embora esse não parecesse ser o maior problema que atormentasse a mente do Príncipe, Merlin percebia que ele temia não ser amado.
"Arthur, serei sincero contigo." Merlin disse, após um longo suspiro. "Não posso prever o futuro, mas acredito que você encontrará essa pessoa aqui, de verdade."
Merlin colocou uma mão sobre o ombro de Arthur e dessa vez foi o Príncipe que engoliu em seco.
"Se sua vida está de pernas pro ar como você diz, a pessoa certa deve estar por perto." Merlin gracejou. "Nos romances é sempre assim que acontece, as coisas complicam antes de darem certo.
"Se isso é você tentando me consolar, não está dando muito certo." Arthur disse, ranzinza, embora Merlin conseguisse sentir uma pontada de diversão em sua voz.
Merlin sorriu, sabendo que mudar de assunto seria a melhor opção.
"Se vale de algo, você estava magnífico durante o Jornal Oficial hoje." Merlin elogiou.
"Sério?" Arthur virou-se em direção a Merlin com uma expressão estranha no rosto. "Por quê diz isso?" Ele franziu o cenho.
"Você estava mais solto e relaxado." Merlin sorriu com a lembrança de um Arthur jovial e até brincalhão. "Eu gostei."
"Gostou?" Arthur perguntou de modo inseguro, mas sorria abertamente.
"Sim." Merlin girou os olhos, desviando o olhar. "Muito."
"Bem… pelo menos alguém gostou." Arthur bufou. "Meu pai não gostou nada disso."
"Não dê ouvidos ao seu pai." Merlin disse, sem temer que Arthur fosse reprimi-lo pelas palavras. "Aposto que os outros Selecionados concordarão comigo."
"Meu pai diz que eu não deveria ser tão informal em público." Arthur voltou a soar rígido, endireitando a postura. "Que o povo não me respeitará se eu não agir como um Príncipe."
"Quando eu te via pela televisão, só conseguia te achar esnobe e chato, lembra?" Merlin alfinetou.
"Não é sobre o que…"
"O que eu quero dizer é que as pessoas que você vai governar não são as mesmas que o seu pai governou." Merlin esclareceu. "Assim como você não é o seu pai."
Arthur passou uma mão pelo rosto, parecendo cansado e Merlin deixou ele pensar sozinho por um tempo.
"O que aconteceu no início do programa?" Arthur perguntou, numa mudança de assunto que Merlin não esperava. "Você parecia… estranho."
Merlin considerou aquilo como uma vitória, ao menos Arthur parecia tão tentado a continuar discutindo quanto o próprio Merlin.
"Só estava nervoso." Merlin deu de ombros. "Não estou acostumado a aparecer na TV todos os dias como você." Ele esclareceu, quando Arthur continuou encarando-o.
Arthur abriu e fechou a boca algumas vezes, prestes a dizer algo, mas acabou suspirando e voltando a apoiar os cotovelos sobre os joelhos. Merlin olhou ao redor, procurando pelos guardas e cinegrafistas, mas excetuando o guarda postado próximo às sebes e os dois rondando as laterais do jardim, ninguém mais estava por perto.
"Espero que você e Gwen deem certo." Merlin disse, quando o silêncio se prolongou. "Ela é muito fofa."
"É. Parece que sim." Arthur disse, fazendo uma cara estranha.
"O que foi agora?" Merlin girou os olhos. "Tem algo errado em ser fofa?"
"Não, não. É uma qualidade admirável." Merlin deu meia atenção, ainda olhando ao redor. "O que você tanto procura?" Arthur perguntou de repente.
"O quê?" Merlin voltou-se para ele, incerto do que ele queria dizer.
"Você não consegue manter os olhos parados." Arthur franziu o cenho. "Sei que está prestando atenção, mas parece procurar por algo. Está com medo de estar aqui fora depois do ataque?"
"Não, não é isso. Estou procurando por câmeras." Merlin deu de ombros. "Acho que estou ficando meio paranóico."
"Estamos sozinhos." Arthur disse com um gesto amplo para o jardim. "Apenas os guardas do plantão estão aqui."
Merlin olhou para o castelo, então. As janelas estavam iluminadas, mas não havia ninguém ali. Também não havia como algum cinegrafista se esconder com o jardim iluminado à noite. Mas foi a confirmação de Arthur que permitiu que Merlin relaxasse completamente.
"Você não gosta de ser observado, não é?" Arthur perguntou.
"Não acho que alguém se sinta confortável com isso." Merlin fez uma careta. "Você mesmo acabou de dizer que acha humilhante ter suas primeiras incursões amorosas televisionadas para todo país."
Arthur pareceu analisar isso por um instante, antes de assentir.
"É algo incômodo, certamente." Ele consentiu. "Mas você realmente parece odiar."
"Prefiro ficar fora do radar." Merlin deu de ombros, esticando as pernas alguns centímetros acima do chão. "Afinal, é o que estou acostumado."
"Você precisa se adaptar." Arthur disse e Merlin abriu a boca para negar, mas o Príncipe fez um gesto com a mão, impaciente. "Mesmo que você não decida ficar aqui, ao final disso, quando voltar para casa os olhos do país todo estarão sobre você pelo resto de seus dias. Muitos dos Selecionados da última Seleção são convidados para programas, entre outros eventos. Uma das Selecionadas da época do meu pai até assumiu a administração da província dela por um tempo."
"Ótimo!" Merlin bufou.
"Vocês prestaram um grande serviço ao reino e devem ser reconhecidos por tal." Arthur disse, em tom de desculpas.
"Realmente! Aguentar sua companhia é mesmo um grande esforço." Merlin suspirou dramaticamente.
Arthur gargalhou, jogando a cabeça para trás e Merlin parabenizou-se por isso.
Os dois ficaram em silêncio por algum tempo, ambos olhando para o céu, distraidamente.
"Você acha que seu pai está lá em cima?" Arthur perguntou de repente e Merlin voltou-se para ele com o cenho franzido. "Um dos meus tutores me contou quando eu era criança, como os povos antigamente acreditavam em coisas diferentes. Alguns acreditavam que quando uma pessoa morria, ela se tornava uma estrela no céu."
Arthur continuava encarando o céu e Merlin considerou aquilo por um momento. Merlin preferia acreditar que seu pai ainda estava vivo em algum lugar, mas não poderia dizer isso sem contar a verdade ou correr o risco que Arthur o achasse louco.
"Você acha que sua mãe está?" Merlin devolveu a pergunta, a fim de esquivar-se de dar uma resposta.
"Não." Arthur bufou. "Estrelas são astros que queimam há milhões de quilômetros de distância. Não tem nada a ver conosco."
"Talvez." Merlin deu de ombros. "Mas podem ser as duas coisas."
Algo em Merlin queria que essa criança dentro de Arthur, que ainda pensava que a mãe poderia ser uma estrela no céu, fosse preservada. Assim como a criança dentro do próprio Merlin ainda acreditava que o pai estava vivo em algum lugar.
Arthur sorriu para ele, parecendo um pouco envergonhado.
"Merlin, posso te fazer uma pergunta pessoal?" Arthur perguntou, desviando o olhar novamente.
"Outra, você quer dizer?" Merlin provocou.
"Uma que você me responda concretamente, talvez?" Arthur encarou-o arqueando uma sobrancelha.
"Talvez." Merlin esquivou, dando de ombros, mas com um pequeno sorriso.
"Você realmente não parece gostar daqui. Com exceção da comida, é claro." Arthur sorriu e Merlin não pôde evitar sorrir também. "Mas parece que você prefere ser infeliz aqui do que voltar para casa. Eu só… não entendo."
"Não sou infeliz." Merlin garantiu. "Mas qual seria sua pergunta, exatamente?" Ele perguntou, incerto.
"Por quê? Por que continuar aqui quando seria mais feliz em outro lugar?"
Merlin engoliu em seco.
"Você sabe o motivo, Arthur."
"Não estou tão certo de que saiba." Arthur franziu o cenho. "Não estou te prendendo aqui pelo nosso acordo e você sabe disso. Já deixei claro que farei o que estiver ao meu alcance para mudar o status atual de Will."
"Não estou aqui por ele, Arthur." Merlin ouviu as palavras saírem sem o seu consentimento.
Arthur encarou-o por longos momentos.
"E por que está aqui, então?" Arthur perguntou novamente, mas dessa vez a angústia era quase palpável. "Já estou cansado de ir dormir com essa pergunta na cabeça."
"Eu prometi te ajudar." Merlin disse, desviando os olhos. "Sou seu amigo e confidente, lembra?"
Os dois ficaram em silêncio por um longo tempo. Merlin não saberia dizer o que se passava na cabeça do Príncipe, tão focado estava na tarefa de olhar para o lado oposto.
"Não tenho mais tanta certeza de que essa tenha sido uma boa ideia." A voz profunda de Arthur, mais do que suas palavras, foi o que fez com que Merlin engolisse em seco novamente.
Quando criou coragem o suficiente para encarar o Príncipe, foi para encontrá-lo encarando o céu novamente.
"Então vai me mandar para casa?" Merlin perguntou, surpreso em como queria que a resposta para aquela pergunta fosse não.
"Essa seria a coisa mais inteligente a se fazer." Arthur meneou a cabeça de olhos fechados. "Já que com você aqui não consigo me concentrar nos outros Selecionados."
Merlin teve que desviar os olhos novamente, sua respiração descompassada e seu coração palpitando apressadamente.
"Mas a essa altura, acho que já percebeu que sou incapaz de fazer isso." Arthur disse, colocando-se de pé, à frente de Merlin, o que fez com que Merlin levantasse os olhos, para encará-lo. Arthur parecia decidido novamente. "Acho que é meu ego falando por mim novamente."
Dessa vez o sorriso de Arthur foi um tanto autodepreciativo.
"Só que não vou mais fingir que não estou interessado em você!" Ele sentenciou.
"Mas… Arthur, eu sou um homem!" Merlin exclamou, surpreendido pela franqueza com que o Príncipe declarara suas intenções depois de tantas pistas.
"E daí?" Arthur rangeu os dentes. "Se isso fosse um problema pra mim, nem sequer teria escolhido algum homem entre as opções."
Merlin engoliu em seco. As palavras da profecia de Kilgharrah ecoando em sua mente, deixando-o mais apreensivo que nunca. Ele meneou a cabeça, não querendo encarar o rosto corado de Arthur, temendo o que aquilo poderia significar.
"Arthur…"
"Não!" Arthur exasperou-se, pressionando a raiz do nariz, como que para conter uma dor de cabeça. "Não me importa o que você faça de agora em diante. Quais sejam os seus desejos e suas motivações… se quiser ir, não o forçarei a ficar, mas não me peça para ficar aqui sentado deixando alguém que pode ser a pessoa certa escapar entre meus dedos porque estou com medo de lutar por ele."
Merlin estava oficialmente sem palavras agora. Afinal, os dois se conheciam a menos de uma semana. Como Arthur podia falar daquele jeito tão desconcertante? Mas o Príncipe continuava encarando-o, como se quisesse uma resposta, Merlin abriu a boca para continuar a discutir com ele, mas a única coisa que saiu de sua boca foi um abafado Ok.
Arthur sorriu, parecendo muito satisfeito consigo mesmo e voltou a se sentar ao lado de Merlin. O silêncio retornou e agora tudo que Merlin queria era retornar para a segurança de seu quarto, onde não poderia ser atormentado pelo olhar de Arthur, enquanto meditava sobre o que exatamente acabara de concordar.
"Pode me contar algo sobre a vida lá fora?" Arthur pediu, depois de um tempo, aparentemente percebendo o desconforto de Merlin.
"Como assim?" Merlin franziu o cenho.
"Algo que nunca tenham me dito." Arthur esclareceu. "Acho que você é o único para quem eu posso pedir isso e que será totalmente sincero comigo. Gostaria de saber como é a vida lá fora."
Merlin refletiu brevemente sobre aquilo. De certa forma, ele entendia o que Arthur queria dizer, mas não queria frustrar o Príncipe novamente logo depois do que haviam acabado de discutir.
"Acho que esse não é o momento certo para falarmos sobre isso." Merlin disse tentativamente.
"Você também acha que não estou pronto para saber a verdade sobre o povo que governarei um dia?" Arthur soou amargo.
"Não hoje?" Merlin ofereceu, incerto. "Acho que ambos estamos emocionalmente esgotados para termos uma conversa franca sobre o assunto, para ser sincero."
Arthur pareceu considerar aquilo com cuidado.
"Tudo bem." Ele suspirou, resignado. "Desde que você me prometa voltarmos a falar sobre isso em breve."
"Claro." Merlin consentiu. "Amanhã, talvez?"
"Amanhã estarei ocupado." Arthur disse, desviando o olhar e Merlin entendeu que ele provavelmente teria um encontro com algum outro Selecionado.
"Certo." Merlin mordeu o lábio. "E no domingo?"
"Também estarei ocupado pela manhã e à tarde os Selecionados se encontrarão com Edwin Muirden." Arthur disse. "Meu pai provavelmente convocará uma reunião do conselho ou terá outra tarefa para mim, para me manter ocupado, já que minha presença não se faz necessária."
"Por que nos encontraremos com Edwin Muirden?" Merlin perguntou, tentando conter um arrepio.
"Meu pai e ele parecem concordar que se vocês se conhecerem antes do próximo Jornal Oficial, isso os deixará menos desconfortáveis quando falarem com ele ao vivo."
Merlin assentiu, tentando não se mostrar tão nervoso quanto estava.
"Domingo à noite, então?" O Príncipe ofereceu, com um sorriso inseguro.
"Claro." Merlin concordou, mordendo o lábio.
Os dois ficaram ali por longos minutos, ambos presos em seus próprios pensamentos, antes de Arthur acompanhá-lo de volta ao quarto, em silêncio. Quando alcançaram a porta do quarto de Merlin, Arthur pegou a mão de Merlin novamente e se curvou para ele. Merlin encontrou-se decepcionado que Arthur não se despedira como havia feito nas últimas vezes, mas quando Arthur inclinou-se para ele, roçando os lábios em sua bochecha, em um beijo suave, Merlin teve que segurar a respiração para não soltar um guincho exasperado.
"Boa noite, Merlin." Arthur disse, sua voz estava alguns tons mais grave.
Merlin apenas engoliu em seco e observou o Príncipe se afastar.
.oOo.
Ao acordar na manhã seguinte, Merlin sentiu as pálpebras pesadas. Ele havia demorado a dormir, incerto do que exatamente havia mudado após a conversa que tivera com Arthur. Arthur dissera que não iria mais fingir não estar interessado nele, mas Merlin se perguntava se ele em algum momento realmente tentara esconder o que sentia. As atitudes de Arthur até então deixavam bem claras suas intenções com Merlin, por mais absurdas que fossem. Não era com se ele tivesse que anunciar aquilo. Mas Merlin acabou percebendo, depois de muito refletir, que Arthur não estava apenas se declarando, mas também pedindo permissão, permissão para cortejá-lo oficialmente. E Merlin não apenas concedera, como também uma parte dele desejava aquilo.
Ele esfregou os olhos, tentando se livrar daqueles pensamentos e decidido a deixar as coisas como estavam. Arthur cortejá-lo e Merlin de certa forma querer aquilo, não mudava o fato de que eles nunca poderiam ser mais do que amigos. Merlin só torcia para que, com o tempo, Arthur acabasse entendendo.
Os criados não comentaram os olhos fundos de Merlin pela noite mal dormida, ou o cabelo mais bagunçado que o normal, de tanto rolar na cama para lá e para cá, apenas cuidaram para que nada disso fosse notado pelos outros e Merlin apreciou o gesto. Eles provavelmente deduziram que se Merlin quisesse falar sobre aquilo, ele mesmo tocaria no assunto.
Por volta das nove, Merlin estava pronto para começar seu dia. Não haviam rotinas ou programações aos sábados, por isso Merlin decidiu tomar um rápido café da manhã em seu quarto antes de ir para o salão da Duquesa, descendo as escadas ainda um pouco sonolento.
Antes mesmo de chegar ao salão da Duquesa, Merlin já podia ouvir o burburinho das vozes. Quando entrou, Gwen agarrou-o imediatamente e o arrastou até duas cadeiras no fundo do salão.
"Finalmente!" Ela exclamou. "Estava te esperando."
"Desculpe, Gwen." Merlin disse, tentando conter um bocejo. "Demorei a pegar no sono ontem."
"Tudo bem." Gwen sorriu, docemente.
Merlin aceitou uma xícara de café de um dos criados que chegaram até eles, decidido a reaver um pouco de sua energia para que pudesse se focar na segunda pessoa de quem mais gostava no palácio. Merlin arregalou os olhos diante daquilo. Quando exatamente Gwen se tornara a segunda pessoa que ele mais gostava no palácio?
Merlin balançou a cabeça, tentando se focar novamente.
"Desculpe ter feito você esperar." Ele disse, após um longo gole de seu café. "O que queria me dizer?"
Gwen pareceu hesitante, mordendo os lábios. Não havia ninguém por perto e Merlin se perguntava o porque daquilo, de repente.
"Na verdade, pensando agora… talvez eu não devesse falar nada para você. Às vezes esqueço que estamos competindo." Ela disse, parecendo incerta com as próprias palavras.
Merlin bebericou seu café, dando tempo para que Gwen pensasse sobre o que acabara de dizer. Ele sabia que ela queria falar sobre Arthur e, ao mesmo tempo que não queria pressioná-la, não conseguia segurar sua curiosidade. Por fim, a curiosidade venceu.
"Nós não somos inimigos, Gwen." Merlin girou os olhos. "Na verdade, me lembro de termos chegado a um acordo mútuo de que somos amigos." Ele gracejou.
"Desculpe." Gwen soou apologética. "É que isso pode ser meio confuso, às vezes."
"Eu sei." Merlin assegurou. "Não se preocupe. Se quiser, não precisa me dizer nada sobre ele."
"Ai, Merlin!" Gwen gemeu. "Não fala assim. Desse jeito não tem como esconder nada de você. Você é tão incrível. Provavelmente vai ganhar…" Ela soou um pouco derrotista.
Merlin fez uma careta diante daquelas palavras.
"Gwen, posso te contar um segredo?" Merlin perguntou, com a voz cheia de sinceridade.
"Claro, Merlin." Ela assentiu, vigorosamente. "Qualquer coisa."
"Não sei quem vai ganhar." Merlin deu de ombros. "Pode ser qualquer um. Acho que cada um de nós tem qualidades únicas e ninguém sabe ao certo o que o Príncipe procura. Talvez nem mesmo o próprio Príncipe saiba."
Gwen assentiu em concordância.
"Mas tenho que ser realista, Gwen. Eu sou um homem." Merlin tentou não soar tão infeliz quanto se sentia.
"Ah, Merlin! Para com isso." Gwen disse, ranzinza. "Se isso fosse tão importante assim, não teriam quatro homens aqui ainda."
"De qualquer forma, o que quero dizer, é que ainda estou torcendo por você." Gwen abriu a boca, parecendo que ia continuar a discutir, mas Merlin a interrompeu. "Se eu não for escolhido, quero que você seja a próxima Princesa de Camelot. Você parece justa e generosa. Tenho certeza que seria uma ótima rainha."
"Você é muito mais generoso que eu." Gwen disse, encabulada. "Além disso, é inteligente e tão elegante…"
"Elegante?" Merlin zombou.
"Sim." Gwen assentiu, como quem sabe das coisas. "Acho que só você não percebe isso. Mas o que quero dizer é que eu também quero que seja você, caso não seja eu. Você seria um excelente Príncipe consorte."
Dessa vez foi Merlin que encabulou-se, abaixando a cabeça, mas sorriu, agradecido.
"Eu entendo o que você diz sobre cada um aqui ter qualidades diferente." Gwen confessou. "Isso me deixa um pouco insegura, para ser sincera. Cada um tem qualidades que eu não tenho, então às vezes sinto que são melhores que eu."
"Acho que você perdeu a parte em que eu disse que ninguém aqui sabe ao certo o que Arthur procura." Merlin ofereceu, brincalhão.
"Arthur?" Gwen franziu o cenho, inclinando levemente a cabeça.
Merlin engoliu em seco. Droga! Era a segunda vez que ele havia cometido aquele erro, teria que se policiar mais.
"Acho que podemos chamá-lo assim, pelo menos entre nós, não?" Merlin deu de ombros, tentando soar indiferente. "É estranho ficar chamando-o sempre de Príncipe, quando estamos falando sobre encontros ou coisas do tipo."
"Acho que sim." Ela sorriu de modo conspiratório, ainda meio insegura.
"Então…" Merlin continuou. "O que você queria me contar?"
"Nós tivemos aquele encontro." Ela disse, por fim.
"É?" Merlin perguntou, animado. Ele já imaginara que fosse isso, mas estava ansioso para saber como as coisas tinham corrido.
Será que Arthur teria sido menos travado com ela também? Será que tinha gostado mais dela do que deixara transparecer em sua conversa?
"Ele me enviou uma carta pelas minhas criadas perguntando se poderia vê-lo na quinta." Gwen disse.
Merlin sorriu, ao lembrar-se de como Arthur pedira para que eliminassem essa formalidade entre eles. Será que Arthur voltaria atrás agora que queria cortejá-lo oficialmente? Merlin, forçou mais o sorriso, não querendo que Gwen notasse sua insegurança. O foco agora era Gwen, afinal.
"Respondi que sim, claro. Como se eu fosse capaz de negar!" Gwen continuou, excitada, aparentemente alheia ao tumulto interno de Merlin. Ela não deveria estar se aguentando em segurar mais aquilo. "Ele foi me buscar e demos uma volta pelo palácio. Ficamos falando de cinema e ele gosta de vários filmes que também gosto. Então descemos para o porão. Você chegou a ver o cinema que tem lá?"
"Não." Merlin tentou não soar tão enciumado quanto se sentia. Afinal, Merlin já dissera que nunca fora a um cinema, Arthur poderia pelo menos ter mostrado a ele como era um de verdade.
"Ah, é perfeito! Os assentos são grandes e reclináveis e tem até uma pipoqueira lá. O Príncipe estourou uma porção só para nós dois! Foi tão fofo, Merlin." Merlin notou como Gwen parecia tão eufórica com a situação e lembrou-se que ela, assim como ele, era uma Seis. Ela provavelmente também nunca estivera em um cinema e Merlin se culpou por sua mesquinhez.
"Ele fez a pipoca?" Merlin sorriu, relutante em acreditar. Afinal, o próprio Arthur dissera que nunca cozinhara na vida.
"Bem, mais ou menos…" Gwen escondeu um sorriso por trás da mão. "Ele errou a medida do óleo na primeira vez e acabou queimando tudo. Teve que chamar alguém para limpar tudo e parecia muito encabulado com isso. Então pediu para que eu esperasse nos assentos enquanto ele preparava outra porção."
Merlin sorriu diante daquilo. Ele tinha certeza que Arthur não se arriscara se envergonhar ainda mais na segunda vez, Merlin não estava certo se Gwen acreditava ou não que ele havia realmente acertado na segunda, então Merlin não estragaria aquilo para ela. Pelo menos Arthur tentou, isso valia de algo. Tentou por alguém que não é você, uma voz rancorosa alfinetou, mas Merlin tratou de afastar aquele pensamento também.
"Então ele colocou um filme para vermos juntos." Gwen pareceu sonhadora. "Um romance! Acho que foi apenas porque ele queria me agradar, de qualquer forma."
Merlin analisou aquilo. Para ele não era uma ideia tão surreal que Arthur gostasse de romances. Arthur ansiava por uma história de amor para si mesmo, por que não gostaria de ver histórias de amor retratadas por outras pessoas?
"No final, ele segurou minha mão numa das cenas!" Gwen parecia que ia explodir de excitação. "Achei que fosse desmaiar. Eu já havia segura o braço dele duas vezes, no primeiro dia e enquanto caminhávamos pelo palácio. Mas isso foi diferente…" Gwen suspirou e soltou o corpo na cadeira.
Merlin não pôde deixar de sorrir com aquilo. Ele continuava com uma pontinha de ciúmes da interação dos dois, mas ele havia até ganhado um beijo no rosto de Arthur, na noite anterior, não tinha porque ter ciúmes de Gwen. Além disso, Gwen era a escolha certa. Ela será uma rainha perfeita, Merlin fez questão de se lembrar.
"Não vejo a hora de sairmos de novo." Gwen voltou a dizer, sonhadora. "Ele é tão lindo, não acha?"
"É, ele é bonitinho." Merlin desdenhou.
"Ah, Merlin!" Gwen bateu uma mão sobre o joelho de Merlin. "Você deve ter reparado naqueles olhos e naquela voz…"
Merlin havia reparado. Muito mais do que queria admitir para si mesmo. Principalmente nos olhos. Na intensidade em que eles o encaravam. Por um momento ele se perguntou se Arthur olhava para os outros Selecionados da mesma maneira.
"A voz dele fica esquisita quando ele ri." Merlin fez uma careta, não querendo dar o braço a torcer.
"Eu nunca o vi rindo." Gwen soou contemplativa. "Ele apenas sorri, sempre muito comedido."
"Ele vive rindo da minha cara. Deve achar que sou um palhaço." Merlin tentou apaziguar a situação. "Da próxima vez chame-o para assistir uma de comédia. Tenho certeza que ele vai rir."
"Nem sei se ele vai me convidar para outro encontro." Gwen disse, mas voltou a sorrir, corando.
"Claro que vai." Merlin fez pouco-caso, com um aceno de mão.
"Mas você ainda não me disse, o que acha mais atraente no Príncipe?"
Merlin abriu e fechou a boca algumas vezes. Primeiro pensou em debochar de Arthur novamente, mas não queria que Gwen pensasse nele de um modo negativo.
"Gosto quando ele abre um pouco a guarda." Merlin preferiu ser sincero. "Como quando fala sem escolher muito as palavras, ou quando se exalta." Ele sorriu para si mesmo. "Gosto quando ele olha para algo, como o céu ou a grama, e fica contemplando aquilo por um tempo, perdido em pensamentos. Gosto como ele fica realmente envolvido quando está conversando comigo, como se realmente quisesse me conhecer melhor, mesmo tendo um país para governar e milhões de problemas na cabeça. Mas acho que o que mais gosto é quando ele fala do país e do seu povo. Ele fala com tanta paixão e emoção… dá pra ver que ele se importa, sabe?"
Merlin disse tudo aquilo perdido em pensamentos, sorrindo para as próprias mãos. Quando levantou para olhar para Gwen ela tinha a boca ligeiramente entreaberta e os olhos arregalados. Merlin corou, percebendo tudo que havia dito. Droga! Por que não me limitei a comentários genéricos sobre a aparência dele?
"Os braços dele. Gosto dos braços dele." Merlin emendou, desesperado para tirar todo o peso da declaração que acabara de fazer.
Gwen gargalhou com isso e Merlin sorriu também, algum tempo depois.
"Sim!" Gwen gemeu, depois de se recompor. "Dá pra sentir os braços debaixo daquele paletó grosso."
"Acho que ele é do tipo que fica fazendo poses em frente ao espelho." Merlin zombou, fazendo careta enquanto flexionava os próprios braços, infinitamente mais finos que os de Arthur e Gwen riu novamente.
"Mas por quê será que ele é tão forte?" Gwen perguntou, depois de um instante.
"Ele é o primeiro cavaleiro do reino, Gwen." Merlin franziu o cenho, confuso com a questão.
"Sim, mas apenas porque ele é o Príncipe." Gwen deu de ombros. "O Rei Uther nunca chegou a ser tão forte."
"Arthur não é o primeiro cavaleiro apenas por ser o Príncipe!" Merlin defendeu-o.
Gwen pareceu um pouco desconfortável de repente.
"Duvido que você tenha coragem de perguntar se ele faz flexões na frente do espelho." Merlin cutucou-a, tentando aliviar a tensão. O que funcionou muito bem, pois ela soltou um Sem chance! em meio a uma risada.
Gwen parecia tão animada ao falar sobre a noite. Parecia tudo perfeito para ela. Então por que Arthur evitara falar sobre o encontro? Se fosse levar em conta a reação dele, Merlin diria que o encontro nem ocorrera.
Merlin olhou em volta do salão e reparou que quase metade dos Selecionados parecia tensa ou infeliz. Enmyria, Cathryn e Forridel escutavam algo que Mithian contava. Ela parecia sorridente e animada, mas o rosto de Forridel estava franzido de preocupação, ao passo que Cathryn roía as unhas. Enmyria parecia distraída, apalpando a região atrás da orelha, como se estivesse dolorida. Fazendo jus à fama, Vivian falava algo com empáfia para todos que quisessem ouvir ao seu redor. Merlin franziu o cenho, incerto do que acontecera para deixar todos tão eriçados.
"Os que estão de cara amarrada são os que ainda não tiveram um encontro com o Príncipe." Gwen esclareceu a confusão de Merlin. "Na quinta, ele me disse que eu era a segunda, só naquele dia. Ele está mesmo querendo conhecer todos."
"Você acha que é mesmo isso?" Merlin fez uma careta, sondando o local.
Julius Borden e Myror estavam sentados juntos num canto afastado, ambos de braços cruzados, lançando olhares atravessados aos demais. Aparentemente, os dois também não haviam sido convidados para um encontro.
"Acho que sim." Gwen deu de ombros. "Quer dizer, olhe só a gente… estamos bem porque já ficamos a sós com ele. Ambos sabemos que ele gostou de nós o suficiente para não nos enxotar logo em seguida… há uma diferença clara entre os que já tiveram seu momento com o Príncipe e quem não teve nenhum."
Ela apontou ao redor e Merlin tinha que concordar que aquilo era bastante óbvio.
"Drea está surtando e acha que ele só irá se encontrar com ela quando for mandá-la embora." Gwen inclinou-se em sua direção, sussurrando.
Merlin olhou para a garota, que estava amuada sozinha e parecia prestes a chorar.
Ele franziu o cenho, se perguntando por que Arthur não havia dito nada daquilo para ele. Um amigo não deveria compartilhar esse tipo de coisas? Mas, como Arthur deixara claro na noite anterior, ele não queria ser amigo de Merlin, Merlin era só mais um dos inúmeros Selecionados que Arthur estava cortejando. E, ao que tudo indicava, Merlin era exatamente isso, apenas mais um. Arthur já se encontrou com metade dos Selecionados, cristo!
Merlin olhou novamente em volta, só então constatando que Mordred não estava presente. Ele contou lentamente os Selecionados, constatando que ele era o único ausente e foi então que as palavras de Arthur na noite anterior voltaram a sua mente. Amanhã estarei ocupado. Merlin constatou com facilidade que Mordred estava em seu encontro com Arthur, o que fez com que sentisse um gosto amargo na boca.
Talvez Arthur realmente não tivesse problemas com homens, talvez até preferisse homens. Afinal, Mordred fora um dos primeiros a ser convidado para um encontro com o Príncipe. Será que aquele que estava ocorrendo no momento não seria o primeiro?
Ele não teve muito tempo para remoer aquilo, no entanto. Lamia, que até então estava ouvindo algo que Eira dizia com uma expressão ansiosa no rosto, levantou-se da cadeira e olhou ao redor. Ela encarou Merlin e Gwen, antes de caminhar na direção deles, decidida.
"O que vocês fizeram no encontro?" Ela perguntou, de supetão.
"Oi para você também, Lamia." Gwen cumprimentou, desagradada.
"Shiiu!" Lamia pestanejou para Gwen, voltando-se novamente para Merlin. "Então, Merlin."
O queixo de Merlin caiu e ele arregalou os olhos.
"Fale!" Lamia exigiu e agora Merlin podia notar, pela visão periférica, que todos olhavam em sua direção, vários se aproximavam sem receio de parecer intrometidos.
"Já contei, Lamia." Merlin disse, girando os olhos. "Contei várias vezes, aliás."
"Não." Lamia guinchou. "No encontro da noite passada!"
"Como…"
"Mab viu vocês dois juntos e contou." Gwen esclareceu. Merlin havia se esquecido daquilo completamente. "Você foi o único a ter dois encontros com o Príncipe. Muitos ainda não o viram e estão reclamando sobre isso. Acham injusto. Mas quer dizer, não é sua culpa que ele goste de você."
Merlin abriu a boca, meio atônito. Sem saber o que dizer. Se era algum consolo, as palavras de Gwen asseguravam que Mordred não estava em seu segundo encontro com Arthur.
"Mas é completamente injusto." Lamia explodiu e Merlin notou como alguns dos outros Selecionados assentiam em concordância. Vivian sorria, parecendo que o Natal chegara mais cedo. "Eu ainda não o vi fora das refeições, apenas conversamos brevemente depois do ataque e mesmo assim foram por poucos minutos. E você já teve dois encontros com ele!"
Merlin não sabia se era o fato de estar frustrado com Arthur ou a atitude dos Selecionados, mas aquilo fez com que ele sentisse o formigar familiar em sua nuca. Ele precisava extravasar de alguma forma. E Lamia já passara do limite na noite anterior com Beatrice.
"Na verdade, não foram dois." Merlin disse, estreitando os olhos para ela.
"O quê?" Lamia fez uma careta, sem entender o que ele queria dizer.
"Não foram dois encontros." Merlin deu de ombros.
Ele notou, pela visão periférica, como alguns dos presentes na sala entenderam o que ele queria dizer com isso: Vivian parecia que soltaria fogo pelas narinas a qualquer instante e Gwen parecia traída – mas Merlin não tinha como remediar isso imediatamente, mais tarde ele esclareceria a situação.
"Mab viu vocês." Lamia rosnou, pois ela era uma das que não tinham captado a mensagem ainda. "Vivian e Eira…"
"Não foram dois encontros." Merlin sentenciou. "Foram três."
Houve um arfar generalizado de surpresa e afronta.
Eira e Sophia se aproximaram então.
"Não pensei que você fosse do tipo mentiroso, Emrys." Sophia disse, amarga.
"Eu também não apostaria nisso, mas você sabe o que dizem não é?" Eira disse, como se as duas estivessem num diálogo e não tentando provocá-lo. "As cobras mais venenosas são aquelas com as mais belas cores."
"Você com certeza saberia disso, não é mesmo?" Gwen rebateu e Merlin encontrou-se grato que a amiga não estivesse tão magoado ao ponto de não defendê-lo.
Ele sentiu as bochechas esquentarem e rangeu os dentes.
"Já que parecem todos tão interessados na minha vida pessoal, deixe-me ver…" Merlin fingiu pensar por alguns instantes. "Primeiro encontro: caminhamos pelo jardim. Segundo encontro: ele foi até meu quarto. Terceiro encontro: ele me levou até os jardins, novamente. Em todos os três encontros, nós apenas conversamos. Satisfeitos?"
"Ora, Emrys." Eira disse, em tom ainda zombeteiro. "Ele foi ao quarto de todos nós no dia do ataque." Muitos Selecionados riram com ela.
"Ah, sim!" Merlin abanou uma mão, dispensando o comentário. "Ele foi ao meu quarto nesse dia, também, mas obviamente não estou considerando isso como um encontro, ou seriam quatro ao invés de três. Me referia a dois dias depois disso, quando ele foi me procurar no meu quarto novamente."
"Isso é mentira." Sophia torceu o lábio para ele.
"Se é mentira ou não, só eu posso saber, não é mesmo?" Merlin disse com o sorriso mais falso que conseguiu colocar em seu rosto. "Afinal, duvido que qualquer um de vocês se atreva a perguntar para ele se é verdade." Ele arqueou uma sobrancelha em desafio.
Lamia saiu bufando e foi até Mithian e, de um jeito bem ríspido, pediu para que repetisse sua história. Eira e Sophia sentaram-se numa mesa próximo a Merlin e Gwen e começaram a conversar num tom que sabiam que Merlin ouviria.
"Só conversaram. Sei!" Sophia zombou. "Aposto que ele já está se oferecendo para o Príncipe."
"Você acha?" Eira perguntou, com falsa incredulidade.
"Com certeza." Sophia assentiu. "Por que mais o Príncipe estaria interessado num Seis inútil como ele?"
"Não dê ouvidos a elas." Gwen disse, agarrando as mãos de Merlin com as dela. "Elas estão com inveja."
"E você não?" Merlin mordeu o lábio, percebendo que no meio de seu surto, poderia ter realmente magoado Gwen.
"Não exatamente." Gwen coçou a nuca. "Só não entendo porque você não me diria."
"Na verdade, ele só foi ao meu quarto para saber por que eu não estava fazendo as refeições no Salão, junto com os demais." Merlin sussurrou para ela. "Eu só fiz parecer que era mais do que na verdade era para irritá-las."
Gwen deixou seu queixo cair e logo os dois estavam sorrindo.
Merlin estava tão distraído naquele momento, que teria perdido o movimento súbito se não estivesse bem em sua linha de visão. Sefa inclinou-se para frente e acertou um tapa em cheio na cara de Vivian.
Seguiram-se novas exclamações de espanto. Os que não vieram logo se viraram para o lado para perguntarem a quem estivesse mais próximo o que tinham perdido. Gwen foi uma dessas pessoas, sua voz ecoando nos ouvidos de Merlin, mas Merlin não saberia o que dizer, ele ainda estava atônito.
"Ah não, Sefa, não…" Forridel lamentou com um sussurro.
Um instante depois, Sefa levou a mão até a boca, a outra caminhando até a altura do estômago. Ela pareceu então começar a compreender o que fizera. Forridel ajudou Sefa a se sentar e Sefa começou a chorar. As duas eram Quatro e logo haviam feito amizade. A casta das duas estava muito longe de um Seis, mas as duas eram como Merlin e Gwen: isolados da maioria por suas castas. Merlin sabia como se sentiria mal se algo assim acontecesse com Gwen.
Merlin nunca trocara mais do que duas frases diretamente com Sefa. A garota parecia um tanto explosiva, mas não agressiva. Do outro lado da moeda, estava Vivian, que inclinou-se em direção a Sefa, sussurrou algo em seu ouvido e saiu a passos largos.
Sefa se desmanchou sobre o ombro de Forridel, suas lágrimas escorriam pelas bochechas, uma após a outra. Não havia dúvidas que fora uma provocação, mas ninguém estava perto o suficiente para poder provar. Seria a palavra de uma contra a outra e Vivian tinha uma sala inteira de pessoas como testemunhas do tapa que levou.
Sefa foi dispensada antes do jantar.
