Capítulo Nove

This Life

(Essa Vida)

Ginny olhou para o calendário em sua mesa com uma expressão de grande desgosto. O baile anual do Ministério seria em menos de dois meses, e ela tinha que tentar descobrir o tamanho que estaria na época. Ginny não tinha ideia de por onde começar a imaginar. Quando estivera grávida de oito meses de James, Harry parava atrás de si e passava os braços ao redor de sua cintura. Com dificuldade. Seus dedos mal conseguiam se entrelaçar sobre o umbigo dela. Com Albus, ela estivera um pouco menor — ao ponto de conseguir usar as roupas que usara quando estivera de seis meses de James, no dia em que Albus nascera de trinta e quatro semanas. Mostrou a língua para o calendário e supôs que teria que testar sua sorte com o tamanho. Por mais que não gostasse de comprar na loja de Madame Malkin, uma veste a rigor podia ser enfeitiçada para ficar maior junto de Ginny. As roupas trouxas não funcionavam assim. Não reagiam bem à feitiços.

Seja lá o que Ginny decidisse vestir, ela teria de ir e fazer isso logo. A última coisa que queria era comprar roupas quando estivesse grávida de oito meses.

Talvez possamos ir juntas depois de Hermione ter o bebê. Ela vai precisar de algo para vestir também... Ginny refletiu, rabiscando distraidamente o quadrado que marcava o último sábado de junho. Com um suspiro, olhou para seu relógio e se surpreendeu. Tinha que sair logo para ir ao jogo em Appleby. Não aproveitava mais os jogos como antes. Ginny tinha que pensar cuidadosamente em tudo o que ia falar, antes de abrir a boca, para não encontrar impresso no jornal da manhã. E por mais que gostasse de discutir os menores detalhes do jogo com Roger, até isso era algo que ela não fazia com tanta alegria quanto antes, se é que aproveitava.

- Maldição, vou me atrasar. – Ginny murmurou, procurando por suas credenciais em sua mesa. Pegou sua bolsa e foi para o elevador, amaldiçoando sob a respiração. Se ela se apressasse, talvez conseguisse chegar a tempo de assistir o aquecimento antes do jogo. Na fila da lareira, no térreo do prédio do Profeta, esperou impacientemente até que os bruxos idosos, que cobriam a Suprema Corte, usassem a lareira.

Pegou um punhado generoso de pó de flu na urna ao lado da lareira.

- Campo dos Arrows! – exclamou, apertando firmemente a bolsa na lateral de seu corpo. Uma vez, logo que começara a trabalhar no jornal, estava atrasada e sua bolsa tinha acabado em um pub em Aberdeen quando a soltara sem querer. Em momentos, saiu na lareira que conectava o Profeta ao campo dos Arrows, sob o camarote de imprensa. Mostrou suas credenciais para a bruxa ao pé da escada e começou a subir os vários degraus até o camarote. Vários gritos indicaram o começo do aquecimento e Ginny bufou em irritação por ter perdido o começo. Ela sempre conseguia dizer como um time jogaria pelo aquecimento dele. Se o Apanhador parecesse preguiçoso, ou se o Artilheiro deixasse a Goles escapar de seus dedos. Se a mira do batedor estava um pouco fora. Se o goleiro não estava tão ágil quanto normalmente.

Ginny subiu as escadas apressadamente e parou logo na entrada. Olhou nervosamente ao redor do camarote, e encontrou uma cadeira vazia do outro lado do camarote, caminhando até ela com um assentir impessoal para Roger. Lora Capaletti, que cobria os times ingleses e irlandeses para um jornal canadense, o Spyglass, acenou para Ginny com um sorriso travesso no rosto.

- Já descobriu o que vai ter? – ela perguntou quando se acomodou na cadeira ao lado de Lora.

- Semana que vem. – Ginny disse com um suspiro.

Lora estudou Ginny.

- O que você quer?

Ginny assoprou o cabelo para longe dos olhos.

- Eu não sei. – se remexeu um pouco, se espreguiçando conforme o fazia. – Eu não ligaria se fosse outro menino. Eu cresci só com meninos. Alguns dos meus melhores amigos são meninos... – parou de falar, saudosamente. – Às vezes, eu penso que uma garota seria bacana. Só para equilibrar um pouco as coisas. Para ensinar alguém ir ao banheiro sem molhar o chão todo... – torceu o nariz para Lora. – Desculpe. Tenho certeza de que não quer ouvir como James nem sempre consegue chegar ao banheiro quando acorda no meio da noite.

Lora deu de ombros delicadamente.

- Isso é nojento.

Ginny riu.

- Isso não é nem metade. – garantiu.

Lora se inclinou para mais perto.

- Você perdeu, mais cedo. – murmurou. – Aquela vaca a Vane entrou alguns minutos antes de você. – Lora riu suavemente. – Todos ficaram em silêncio e olharam para ela até ela ir embora.

Ginny ficou de boca aberta.

- Mesmo?

- Mesmo. – Lora cutucou o ombro de Ginny gentilmente. – É difícil o bastante ser uma garota aqui, sem ter que aguentar toda essa merda de pessoas que não trabalham aqui. – uma linha apareceu entre suas sobrancelhas. – Como minha irmã mais nova diz...? Oh, certo. Nós te damos cobertura.

Ginny sentiu o nó, que residia no fundo de seu estômago, sumir lentamente, e pegou seu caderno para que pudesse fazer anotações sobre as pessoas que passavam voando pelo camarote. Esperava que ela e Harry estivessem certos e que isso seria, de fato, esquecido. Pensando nisso, Aiden Lynch ainda tem que dar uma mancada enorme com sua nova esposa-troféu, Ginny refletiu, mastigando distraidamente a ponta da pena.

Os jogadores pousaram e tomaram seu lado do campo; Appleby em um lado e Kenmare no outro. Silêncio tomou o estádio e o locutor começou a apresentar o time de Kenmare. Quando os jogadores deram uma volta ao redor do estádio, um grito emanou da plateia e um tremor familiar correu pelo corpo de Ginny. A pena escapou de seus dedos quando sua mão se esticou sobre sua barriga.

A atenção de Ginny se focou em seu interior por um momento, e seu rosto se iluminou. Olá, pensou. Você vai ser a estrela de Quadribol da mamãe, não é? Com um leve acariciar das pontas dos dedos sobre a barriga, Ginny voltou sua atenção ao jogo.

Ginny entrou no quarto de James na ponta dos pés e correu uma mão por seu cabelo grosso e escuro. Seus dedos traçaram os contornos de seu rosto, enquanto estudava as feições que surgiam no rosto de bebê. O formato dos olhos de Harry, e as curvas de seus longos cílios roçavam a maçã do rosto, que prometia ser como a de Harry. Sua boca e o queixo de seu pai. A mão que estava cerrada sob o travesseiro, ao lado de rosto, eram longas e finas como as que Ginny vira nas fotografias de seus tios Fabian e Gideon. O cabelo de Harry. Ela tinha visto algumas fotografias da mãe de Harry, em que seu longo cabelo estivera preso, revelando suas orelhas. Ginny traçou delicadamente a orelha de James. Ele tinha as orelhas de Lily, proporcionais a sua cabeça. Ela se inclinou e pressionou um beijo na testa dele, antes de sair e atravessar o corredor, entrando no quarto de Albus.

A fraca luz criava sombras nas paredes, reproduzindo os troncos ainda nus das árvores do jardim. Mesmo agora, faltando apenas dois meses de seu segundo aniversário, Albus era a cópia de seu pai. Não que tivessem qualquer foto para apoiar essa afirmação, mas existiam algumas fotos do pai de Harry quando criança. Todo mundo sempre falava de como Harry era parecido com James, então, de vez em quando, Ginny segurava uma ao lado de Albus e comparava os dois. Ela se lembrava da expressão levemente incomodada que Harry usara na primeira vez que pegara o trem para a escola. Ela se confortava ao pensar que isso era algo que Albus e Harry nunca teriam em comum.

Mais cedo naquele dia, Harry tinha buscado Teddy na escola e, enquanto ela sabia que Teddy não gostaria disso, Ginny entrou no quarto dele, também nas pontas dos pés. Mesmo em um sono profundo, as pontas de seu cabelo ainda ficavam em um tom de turquesa. Frequentemente, ela se perguntava se a cor mudava de acordo com o que ele sonhava. Como aquela coisa tola que Harry me comprou um dia, como brincadeira... O que era? Ah, sim. Anel de humor... Como Albus, ele era muito parecido com seu pai, mas tinha traços de sua mãe. Seus dedos afastaram os cabelos dos olhos dele. Ele era tão seu filho quanto os outros. Observá-lo lhe dava uma boa ideia de como Remus deveria ser, quando era feliz, antes de Fenrir Greyback. Especialmente quando ele estava acordado e seus olhos cinzentos brilhavam em risada, sem o espectro de tristeza e dor que frequentemente estavam nos olhos de Remus, mesmo em seus poucos momentos de felicidade.

Ginny saiu do quarto de Teddy e caminhou até seu quarto. Ver como seus filhos estavam assim que chegava de um jogo era hábito. Não dormia bem se tirasse isso de sua rotina. Sentia falta de colocá-los para dormir, então sua ronda noturna era a segunda melhor coisa.

Fechou a porta atrás de si suavemente e foi até a pequena poltrona, sabendo que um pijama limpo ou uma camisola estaria esperando por ela, com um feitiço de aquecimento. Tirou sua calça e suéter e pegou a camisola. Passou o tecido aquecido por sua cabeça, o cheiro de sabão em pó um pouco mais forte. Sem se dar ao trabalho de acender a luz do banheiro, Ginny escovou os dentes apressadamente e se deitou.

- Ei. – Harry murmurou, enquanto ela esticava o cobertor sobre si, fazendo-a pular em alarme.

- Achei que você estivesse dormindo! – Ginny sibilou.

Harry balançou a cabeça.

- Ainda não. Acabei de me deitar.

- Está acordado até tarde. – Ginny observou.

Harry encolheu um único ombro.

- Precisei esperar os meninos irem se deitar para terminar de corrigir as provas dos novos treineiros. – Harry soltou uma risada irônica. – Se eu quisesse corrigir provas, eu teria aceitado ensinar Defesa na escola. – se deitou de lado e entrelaçou seus dedos com os de Ginny. – Como foi o jogo?

- Tudo bem. Kenmare esmagou o Appleby depois de meia hora sem fazer nada. Eles previam os movimentos, e anteciparam todas as jogadas de Appleby. Foi trágico, mas Appleby não estava com uma ofensiva ou defensiva boa o bastante para igualar as coisas. – bocejou e se acomodou contra Harry, até que seu traseiro estivesse aninhado contra a virilha dele, puxando a mão dele sobre sua barriga.

Ficaram deitados em silêncio por vários momentos, antes de Ginny quebrar o leve silêncio.

- Ele se moveu hoje. – sentiu a mão de Harry se esticar sobre seu abdômen inchado, e mover leves círculos sobre o algodão de sua camisola até ela adormecer.

Harry olhou ao redor da sala de espera pelo que pareceu a centésima vez e reprimiu um suspiro. Não era do feitio de Ginny se atrasar para uma consulta com o Curandeiro. Se qualquer coisa, ela era pontual. Tamborilou os dedos no braço da cadeira em um ritmo impaciente, e olhou para o relógio, como se isso fosse fazer Ginny magicamente aparecer na entrada.

- Vamos lá, Ginevra. – murmurou. – Aposta é aposta...

Suspirando irritadamente, pegou uma das revistas que parecia ocupar todas as superfícies horizontais. Ele e Ron gostavam de folhear uma, enquanto esperavam por Hermione ou Ginny, antes de comparar qual era a mais patética, ou tinha uma representação não realística da paternidade em suas fotos. Então, rabiscavam manchas de cuspe, brinquedos no chão, e todos os tipos de caos no geral, só para deixar as coisas um pouco mais realísticas. Essa estava fazendo jus às expectativas cansadas de Harry. Dois bebês loiros e sorridentes estavam sentados lado-a-lado, em uma posição que ele e Ginny só conseguiam convencer Albus e James a fazerem com quantidades absurdas de Sapos de Chocolate. Riu e virou a página. A mãe, que balançava seu filho com uma expressão beatífica em seu rosto, quase o fez rir alto. O cabelo estava perfeitamente penteado, a camisola estava cuidadosamente passada e limpa. Apenas esse pequeno detalhe fez Harry bufar em zombaria.

- Eu sinto muito! – a voz de Ginny ofegou no ouvido de Harry. – Eu estava quase levando os meninos para a casa da mamãe e, enquanto eu colocava os tênis de Albus, James subiu no balcão e mexeu no mel e, antes que eu conseguisse pará-lo, ele estava coberto de mel, no balcão, em Albus... – ela correu a mão pelo cabelo, quase arrancando várias mechas. – Então, eu tive que levá-los para o andar de cima, limpá-los, colocar os dois na sala de estar, enquanto limpava a bagunça na cozinha e levá-los para a casa da mamãe.. – sorriu sofridamente. – Mesmo com magia, isso demora um pouco.

- Sim, eu me lembro. Mel não sai tão fácil, mesmo com um feitiço de limpeza. – Harry se lembrava da vez que Teddy derrubara um pote de mel no chão da cozinha de seu antigo apartamento.

- Precisei de três só para limpar o cabelo de James... – Ginny suspirou. – Então, quão atrasada eu estou? – ela virou o pulso dele e olhou para o relógio. – Eu nem estou atrasada! – ela exclamou. – E você estava bufando e me remexendo como se eu estivesse meia hora atrasada.

- Normalmente, você está vinte minutos adiantada, no mínimo. – Harry a lembrou.

- Bem, eu teria chegado adiantada se o seu filho não tivesse decidido explorar o conteúdo do pote de mel. – ela retorquiu. Ginny caminhou até a recepção e disse seu nome à bruxa recepcionista.

- Por que ele é sempre meu filho quando se comporta mal? – Harry se perguntou em voz alta.

Ginny jogou o cabelo por sobre o ombro.

- Por que, ao contrário de algumas pessoas que eu poderia nomear, eu fui um perfeito anjo quando criança.

Harry se ergueu e seguiu Ginny pelo corredor, até a sala de exame.

- Eu acho difícil de acreditar. – zombou.

- É verdade. – Ginny lhe disse.

- É, ta bom.

- Se puder esperar do lado de fora, enquanto a senhora Potter se troca. – a bruxa recepcionista disse.

- Por quê? – Harry perguntou. – Porque, se for para que eu não a veja nua, esse navio partiu há muito tempo. – ele sorriu quando a bruxa piscou em confusão, antes de ir embora.

Ginny tirou a camiseta e balançou a cabeça.

- Você tem que fazer isso com todos os novatos?

- Sim. – Harry se acomodou na cadeira ao lado da mesa de exame e começou a dobrar a camiseta de Ginny. – Os prepara para mais tarde, quando precisarem enfrentar o bando bárbaro que é o resto da família. Especialmente George ou Bill. Esses dois conseguem acabar com qualquer um com suas habilidades de argumentar. Eu precisei aprender a fazer isso para me defender.

- Tudo no nome da autopreservação, eh? – Ginny jogou sua calça para Harry, que a pegou e a dobrou. Ela passou a camisola verde clara pela cabeça e se sentou na ponta da mesa.

- Boa tarde, vocês dois. – Shanti disse em cumprimento. – Como está se sentindo?

- Eu estou um pouco cansado. – Harry voluntariou. – Mas, fora isso, estou bem.

- Eu estava falando com Ginny. – Shanti suspirou.

- Estou bem. – Ginny disse. – Fico com um pouco de queimação se como muito.

Shanti assentiu, enquanto prendia a ponta do monitor no pulso de Ginny.

- Hmmm. Sua pressão está um pouco alta, mas não o bastante para que eu me preocupe. Se ficar mais alta, você vai ter que pegar leve. – informou a Ginny.

- Mais fácil falar do que fazer. – Ginny murmurou. – Limpar mel de um guri de quatro anos não se classifica como uma tarde leve.

- Então, está pronta para descobrir com que cor pintar o quarto?

- Absolutamente! – Harry se inclinou, o rosto cheio de curiosidade.

Shanti ergueu as sobrancelhas.

- Qual é a aposta? – ela perguntou, conhecendo o costume da família Weasley fazer apostas em nascimentos.

- A aposta era se eu estava grávida ou não. Harry ganhou. – Ginny se acomodou contra a ponta elevada da mesa, enquanto Shanti esticava um lençol sobre seu corpo.

Incapaz de abafar uma risada, Shanti colocou a ponta de sua varinha contra o abdômen de Ginny.

- Cento e cinquenta e cinco batimentos por minuto. – disse para a pena suspensa sobre uma prancheta. Começou a mover lentamente a varinha sobre a pele de Ginny. – Vamos lá... – disse em tom de encorajamento. – Às vezes, eles não colaboram. – contou para Ginny, enquanto a varinha continuava a se mover. – Não seja tímido, pequenino... – de repente, a varinha parou e Shanti virou a prancheta para que Harry e Ginny pudessem ver. – Aí está ela. – apontou para o pequeno rosto, que estava coberto por mãos pequenas.

Harry afastou os olhos da imagem do bebê.

- Você disse "ela"? – balbuciou.

- Disse.

- Tem certeza? – Ginny murmurou, atônita pela imagem de sua filha.

- Bastante. – os dedos de Shanti desenharam um círculo na parte de baixo do bebê. – Não há nada aqui que indique "menino".

- Lily. – Ginny disse suavemente.

Surpreso, os olhos arregalados de Harry encontraram os de Ginny.

- Você quer usar Lily? – ele perguntou roucamente.

- Sim, quero. – seus dedos trêmulos foram até a prancheta e traçaram a curva da cabeça do bebê.

Harry pressionou um beijo na têmpora de Ginny.

- Obrigado.

-x-

Ron soltou sua mão do aperto de Hermione. Parecia que ela tinha quebrado todos os ossos de sua mão. Ofereceu-lhe a outra mão, e balançou a machucada, para restaurar a circulação. Ele tinha certeza de que algo ia acontecer. Tinha sido tão fácil. A gravidez toda tinha sido fácil demais. Um pouco de náusea no começo, mas nada debilitante. Ela se sentira bem o tempo todo. Até mesmo o parto estava progredindo suavemente, sem surpresas. Isso não pode estar certo, ele pensou.

Shanti espiou sobre o joelho dobrado de Hermione.

- Pronta para ter esse bebê?

- Deus, sim. – Hermione gemeu. – Eu devia estar louca ao querer fazer isso sem algo para a dor.

- Você está indo bem. – Shanti garantiu. – Certo... Empurre...

- Há uma cabeça dessa vez? – Ron perguntou ansiosamente.

Shanti riu suavemente.

- É o que parece.

- Brilhante. – Hermione resmungou por entre dentes cerrados. – Posso terminar de ter o bendito bebê agora?

- Absolutamente. – Shanti murmurou. De repente, ela franziu o cenho e Ron sentiu seu sangue congelar. Shanti ergueu a mão, a palma para cima. Estava coberta de sangue. Sangue vermelho e vibrante. – Poção do sono. Agora! – ela exigiu. Isso fez Ron piscar. Ele nunca a ouvira falar dessa maneira. Nem mesmo quando Rose nascera virada do lado errado. – Hermione, preciso que você beba isso. – disse, passando o frasco para Ron.

- Por quê? – Ron olhou para Hermione, apertando o frasco em sua mão. Hermione estava pálida e seus olhos arregalados, uma expressão sombria em seu rosto. Ela repetiu a pergunta, afastando a mão de Ron de seu rosto. – Por que eu preciso beber isso? – ela exigiu.

- Eu preciso tirar o bebê agora. E eu preciso que você beba a poção. – Shanti chamou a atenção de Ron e assentiu. Ele engoliu em seco e levou o fraco aos lábios de Hermione.

- Vamos lá, mulher. Beba... – a mão de Hermione se prendeu ao redor do pulso de Ron e ela virou o frasco, bebendo todo o conteúdo. Ela piscou sonolentamente algumas vezes, antes de sua mão cair, quando ela adormeceu.

Shanti acenou a varinha para a cama, a ponta abaixando até Hermione estar deitada de costas.

- Ron, preciso que você saia.

Ron balançou a cabeça teimosamente.

- Não. Eu vou ficar.

- Ron, o bebê não tem tempo para que eu brigue com você. – Shanti se ergueu e segurou uma das mangas de Ron com sua mão ensanguentada. – Saia. Agora. – ela o puxou para longe da cama e o empurrou até a porta. – Eu vou fazer tudo o que posso, mas não posso fazer isso se você estiver aqui. – ela o empurrou para o corredor não-tão-gentilmente pela porta aberta magicamente.

Ron ficou parado no corredor, olhando para a porta do quarto de Hermione. De forma entorpecida, ele se virou e caminhou até a área de espera, sentando-se na cadeira ao lado de Harry. Os outros estavam dormindo. Hermione entrara em trabalho de parto durante o jantar e agora já passava da meia noite. O rosto de Harry se iluminou quando ele viu Ron.

- Já terminou? – ele murmurou para não acordar Ginny, James ou Albus.

Ron balançou a cabeça, olhando o piso sob seus pés sem realmente vê-lo.

Harry respirou fundo quando viu a marca de sangue no bíceps de Ron.

- O que está acontecendo? – perguntou.

- Eu não sei. – Ron estava tremendo visivelmente com o esforço de não gritar.

- Aqui, cara. Deixe-me limpar para você... – Harry ergueu a mão para pegar a varinha, apenas para Ron o afastasse.

- Não mexa! – Ron brigou suavemente.

- Certo... Tudo bem... – Harry voltou a guardar sua varinha na bolsa que tinha todas as coisas necessárias para manter duas crianças pequenas ocupadas por horas. Conseguia ouvir a respiração pesada de Ron no silêncio pesado que os cercava. Ron cruzou os braços ao redor dos joelhos e escondeu a cabeça nos braços. A mão de Harry pousou entre as escápulas de Ron, movendo-a em círculos lentos, como se Ron não fosse mais velho que James.

O tempo passou e, logo, a porta se abriu para dar passagem a Shanti.

- Ron? – ela chamou suavemente, parando em frente a eles. Os olhos de Harry se cerraram perante as manchas de sangue nas roupas normalmente limpas dela. Ron rapidamente ergueu a cabeça dos joelhos e rapidamente esfregou o rosto com a manga, secando as manchas de lágrimas. – Venha comigo.

Ron seguiu Shanti pela porta. Ela parou em frente a porta do quarto de Hermione.

- Antes de mais nada, o bebê está bem. Você pode ir vê-lo em um momento.

- E Hermione? – Ron não tentou esconder o óbvio medo que sentia. – Ela está bem?

A respiração de Shanti falhou.

- Eu sinto tanto...

Ron esfregou as mãos pelo rosto. Na última vez que Shanti viera ver Hermione, ela lhe dissera que ela deveria acordar logo. Mas isso tinha sido há mais de duas horas e Hermione não mostrava sinais de acordar. Ele suspirou e se recostou, esticando as pernas em frente ao corpo.

- Ron...? – a voz rouca de Hermione o fez se sentar ereto.

- Olá... – ele afastou o cabelo dos olhos dela. – Como está se sentindo?

- Horrível. – ela resmungou. – Estou toda dolorida...

- Quer um pouco de água?

A língua de Hermione correu por seus lábios secos.

- Sim...

Ron levou um copo de água até os lábios dela, assim como tinha feito com a poção do sono mais cedo.

- É, você vai ficar dolorida por um tempo. – ele disse, cuidadosamente ajudando Hermione a tomar vários goles de água. Colocou o copo na mesa ao lado da mesa.

Hermione tentou se sentar, mas o quarto começou a girar.

- Oh, nossa... – ela voltou a se afundar nos travesseiros. – Faça o quarto parar de girar. – ela mandou fracamente.

- Apenas fique deitada e descanse, mulher. Você perdeu muito sangue noite passada.

Mesmo em seu estado enfraquecido, Hermione não deixou de notar o tom de voz de Ron.

- O que aconteceu?

Ron esfregou o rosto mais uma vez.

- Pelo que eu entendi, foi algo chamado ruptura uterina. Shanti disse que é realmente muito raro alguém ter uma coisa dessas sem fazer algo chamado cesariana. – ele pausou. – É verdade que os trouxas te cortam para tirar o bebê?

- Eles podem. – Hermione cedeu.

- Oh. Bem. Ela disse que se você fez uma dessas, você pode ter uma ruptura uterina. Ou se você tem gêmeos. Mas desde que nenhum desses é seu caso... – Ron deu de ombros. – Ela disse que é uma daquelas coisas. – engoliu pesadamente. – Há mais uma coisa, Mione. – sua garganta se fechou ao redor das palavras. – Não podemos mais ter filhos. – ele disse sobre o nó em sua garganta, lágrimas queimando seus olhos.

Os olhos de Hermione se fecharam brevemente, antes de se abrirem, brilhantes com lágrimas não derramadas.

- Hugo?

Ron soltou o ar com força.

- Ele é perfeito. Dez dedos nas mãos e nos pés. Três quilos e seiscentos. Quarenta e cinco centímetros. Não tem muito cabelo.

- Vermelho?

Ron fungou e assentiu.

- É claro que sim. Ele é um Weasley. – inclinou-se até sua cabeça descansar perto da de Hermione. – Ele se parece com você. Como naquelas fotos que sua mãe me mostrou.

- Posso vê-lo?

Ron respirou fundo e ergueu-se.

- Claro. Já volto. – ele saiu do quarto, e atravessou o corredor. Inclinou-se sobre o berço e o pegou nos braços. – Quer conhecer a mamãe? – murmurou. Carregou Hugo até o quarto de Hermione e colocou o bebê na dobra do braço de Hermione. – Mulher, esse é Hugo Nathaniel Weasley.

- Nathaniel? – Hermione olhou para Ron. – Quando decidimos por Nathaniel?

- Não decidimos. Apenas me ocorreu entre a uma e as três da manhã. Não achei que você se importaria.

Hermione balançou a cabeça lentamente.

- Não mesmo... – correu um dedo pelo nariz de Hugo. – Acho que ele tem seu nariz. – sua voz falhou e, incapaz de se parar, lágrimas correram por seu rosto.

Ron deu a volta na cama e se deitou cuidadosamente, acomodando Hugo entre eles. Um braço se passou ao redor dos ombros de Hermione e o outro descansou sobre o que aninhava Hugo. Pressionou os lábios no alto da cabeça dela.

– Está tudo bem, mulher. – seus olhos se fecharam e as lágrimas que não conseguira derramar mais cedo, escorreram por seu rosto e pingaram no cabelo de Hermione.

Continua...