Capitulo IX
O raio que cortou o céu anunciando uma tempestade que certamente despencaria logo, acabou por assustá-los antes que os lábios se tocassem.
Sem graça, Rafaela se afastou um pouco e abaixou a cabeça, fazendo com que Alex repensasse a atitude que estava prestes a tomar.
-Eu... Acho que... O dia foi tumultuado... Estamos...
-...Confusos. – ele completou, sem discordar da linha de raciocínio da ex-esposa.
-Tivemos motivos para nos separarmos...
-É verdade...
-E eles não mudaram, apesar dos problemas de hoje.
Rafa levantou o rosto para encará-lo, enquanto ajeitava um dos cachos do cabelo atrás da orelha. E algo no olhar dela lhe pareceu implorar para que não desse ouvidos ao que ela dizia.
-Faz algum tempo que você desistiu de mim... Lembra? – disse num tom dócil, tão incomum a ela.
"Eu desisti de você" fora a frase que Alex usara no fatídico dia em que terminaram. E ele havia desistido mesmo. Desistido de tentar entende-la; desistido de lidar com o mau humor proveniente da vida cheia de responsabilidades que ela tinha; desistido de esperá-la quando ela nunca tinha tempo para ele...
O problema é que olhar para ela em seu estado normal, sem as armaduras que ela vestia, como agora, sempre o fazia querer "voltar a luta".
Ele a puxou pela cintura, tão de supetão que Rafaela só percebeu o que aconteceu quando já estava com os lábios colados no dele.
Por um segundo ela pareceu que não responderia a ação, e chegou mesmo a pensar nisso, mas a boca dele sempre fora a única coisa que fazia seu cérebro parar de funcionar.
Ela envolveu os braços na nuca dele e se deixou levar, deixando as perguntas e as respostas para depois... Bem depois.
~x~
André e Jane estavam sentados próximos, analisando todos os dados que ela já havia adquirido e colocado em um computador. Ela com as roupas amarrotadas, pega desprevenida pelo trio que chegara inesperadamente. O empresário pôde sentir o perfume doce de hidratante que ela usava. O silêncio no iate era confortante depois de tanta confusão e o balanço do mar dava um pouco de sono no exausto André.
-Senhor, – a forma de tratamento que o incomodava passou despercebido – fiz algumas ligações e precisei cobrar alguns favores que lhe deviam para compilar essas informações. Mas, está bem completa.
-Ótimo, Jane! O que temos?
-Nomes de pessoas envolvidas, relação de alguns que já foram, como posso dizer, "catalogados". Que horror! - ao dizer isso levou uma das mãos a boca e fez uma cara de triste. Seu patrão deu um sorriso ao ver a expressão da ruiva.
-Deixa de ser boba, Jane!
-Mas, senhor. São pessoas que estão sendo capturadas.
-Tentaremos ajudá-las, ok? Não se preocupe.
-Qual sua preocupação com isso?...Além, é claro, da crueldade que estão fazendo com essas pessoas.
-Explico tudo em outra ocasião. Por ora, meu interesse é ajudar Alex, Rafaela e as demais pessoas que estão sendo pegas.
-Alex? Rafaela? Esses nomes não me são estranhos... - falou em voz baixa como se estivesse refletindo, ainda assim, o milionário a ouviu. Antes que pudesse questionar algo, ela rapidamente se jogou sobre o computador e começou a procurar. O silêncio foi quebrando pelos "tec-tecs" do teclado.
-Aqui! Veja.
Ela mostrou a André uma lista com vários nomes, entre eles, continha os nomes dos dois que se tornaram amigos do milionário. Mas, não era uma lista qualquer, era uma com fotos e detalhes de suas vidas pessoais.
-Meu Deus! Isso sim é de se preocupar. Como conseguiram essas informações? Estão invadindo a vida das pessoas.
-Parece que a agência brasileira estava trabalhando em conjunto com o governo dos EUA. Estes cederam recursos, aparatos técnicos e treinamento para conseguir essas e outros tipos de informações de território brasileiro.
-Mas, qual a intenção?
-Lá fora, eles estão capturando esses especiais sem o conhecimento da massa popular...
-Fazendo de qualquer um que tenha habilidades especiais fugitivos. - concluiu André assombrado.
-Exatamente!
-Ainda resta uma dúvida: por que estão fazendo isso aqui no Brasil?
-Senhor. Não é só aqui. É por todo mundo. Os americanos com seu potencial bélico e tecnológico querem controlar qualquer ameaça externa. Incluindo esses especiais. Acreditam que eles possam a vir se tornar, futuramente, "inimigos do estado".
~x~
Do lado de fora do Iate
Nuvens começavam a fechar o céu. A noite que estava o mais clara possível com uma bela lua cheia, começou a escurecer com as nuvens. O vento começou a uivar e o mar ficou um pouco mais revolto do que antes.
No píer, um rápido borrão cortou o ar e se posicionou a dezenas de metros do iate. Mas, com uma boa visão dele. O homem pegou no bolso de sua calça um celular e apertou alguns botões:
-Estou aqui. - pausou e não obteve resposta - Em frente ao Iate.
Uma voz rouca respondeu do outro lado:
-Perfeito! Vá em frente. Estou entrando também. O reforço já está a caminho, mas acho que podemos dar conta disso sozinhos.
-Sem problemas. - desligou o celular e o guardou.
Em seguida acelerou o passo e se pois a correr por sobre a superfície sólida do chão, até alcançar o mar.
~x~
-Que carro é esse?
-Uma viatura, não está vendo! Entra logo! – chiou Mônica fazendo com que a loira entrasse no carro sem mais delongas.
-Muito bem, o que está acontecendo? É a Rafaela, não é? – perguntou Carol, enquanto a outra tentava chegar ao píer o mais rápido que as multidões de pessoas pelas ruas permitissem. Era impressionante como ninguém parecia mais lembrar das explosões que houveram naquela mesma cidade pela manhã e já estavam todos na rua, "curtindo" a época festiva.
-Ele nos traiu! – esbravejou a morena, deixando Carol mais confusa ainda - Estava passando informações sobre Rafaela, Alex e sei lá mais quem para os EUA. Uma operação que deveria ser secreta e apenas ao nível de pesquisa foi passada pra gente de fora.
-Como assim, Mônica! Ele quem? EUA? O que os EUA querem com isso?
-Estão capturando qualquer um que demonstre habilidades. Alex chamou um pouco de atenção. – o comentário fez Carol engolir a exclamação seguinte e refletir.
Permaneceram assim por alguns minutos, até que finalmente a cortou o silêncio.
-Acho que Rafaela tinha razão...
-No quê?!...- retrucou a morena.
-Não foi uma boa idéia vir passar o carnaval aqui.
~x~
André ficou ainda mais assustado com o restante de informações que recebera de Jane.
Ao que parecia, fora tudo muito bem arquitetado. A única coisa que não se encaixava era o fato de que a agência brasileira não parecia ter um intuito de tornar público as habilidades, ou de capturar as pessoas especiais. O tal projeto aparentava buscar informações para pesquisa.
Ainda assim, alguns casos suspeitos indicavam que os americanos sabiam bem mais sobre os especiais brasileiros do que deveriam. André cortou o silêncio:
-Jane! Tem alguém de dentro.
-Hã!?
-Tem alguém dentro desse Departamento Especial vazando informações para esses caras, só pode ser isso.
Jane estava pronta para concordar, mas uma alteração na tela do seu computador a fez se sobressaltar. Do nada a tela ficou preta e palavras começaram a surgir. Um bilhete de aviso.
"Eles sabem onde estão, saiam daí agora. Rebel."
O problema é que ele não tiveram tempo para isso já que foram surpreendidos pelo agente, com arma em punho.
-Muito bem. Onde eles estão?
~x~
O beijo estava tão bom. O abraço. O cheiro da pele dela.
Se Alex pudesse escolher um momento para eternizar, certamente seria aquele.
Por isso tentou prolongá-lo ao máximo, e teria conseguido se não fosse o barulho estranho que mais parecia com o de uma lancha a se aproximar.
Soltou os lábios de Rafaela que também havia percebido o som esquisito e o acompanhara ao olhar na direção da costa.
Para surpresa de ambos não era uma lancha que se aproximava e sim um homem.
Um homem... Correndo... Sobre o mar. Sobre a água! Ele não afundava.
-É o policial! – gritou Rafaela, segundos antes de ser jogada para trás pelo ex marido, que já corria para a proa do iate estendendo a mão na direção da água.
-Você escolheu uma hora péssima para me atrapalhar... – murmurou ele, para si mesmo, depois sorriu ao decidir o que faria – Show time!
