Capítulo ostentosamente grande e pervy para comemorar meu ingresso na UFRGS pela segunda chamada. Segurem-se.
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VIII
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Não era muito difícil fingir que nada havia mudado. Itachi persuadiu Nan Melda a deixar as camas unidas, a despeito de todo o discurso que ela fez. "O inverno está muito rigoroso este ano, e duas pessoas ficam mais aquecidas numa mesma cama do que em duas separadas. Podemos retomar o assunto quando estiver mais quente, se você quiser", ele argumentou, docilmente. E por mais dura que a governanta fosse, não conseguiu ser párea para aquela discreta persuasão, e acabou cedendo. "Só até a primavera", ressaltara, carrancuda, mas era certo que quando o clima começasse de fato a esquentar, já teria esquecido o assunto. Foi a primeira vez que Shisui presenciou Nan Melda entregar uma discussão.
As férias de inverno eram curtas, mas eles aproveitaram da melhor forma possível. Saíam quase todos os dias, não importasse o quão frio estivesse, pois qualquer outro lugar era melhor do que o orfanato para que pudessem acalmar (mas nunca saciar) a ânsia recém-desperta que sentiam. Quando estavam lá, o tom da conversa era descontraído, as brincadeiras leves, os olhares nunca eram mais longos do que precisavam ser; nada era excessivo. Uma vez fora da vista da governanta e das outras crianças, a ânsia a tanto custo contida era finalmente libertada, não importava onde estivessem: no drive-in;na parte de trás do shopping, no local reservado para enormes caminhões fazerem os carregamentos e despejos; protegidos pela densa vegetação do jardim botânico. Os beijos poderiam ser meigos, com lábios entreabertos e mãos entrelaçadas; poderiam ser um pouco mais sérios, às vezes bem úmidos e com deliciosos movimentos de língua; ou poderiam devastadores, abrangentes, uma combinação de dominância e amor e possessividade e fúria e confusão que abatia-se sobre eles, com tanta emoção que sentiam-se quase doentes.
E era nesses momentos que Shisui percebia que não era só com os locais onde se encontravam e como comportavam-se na frente dos outros que tinham de ter cuidado. Quando a paixão física estava ardendo no ponto máximo, sua boca encontrava bruscamente a do
(amigo? namorado?)
a de Itachi, os dentes se chocando e batendo, movendo-se em seguida para o lóbulo da orelha em fogo e descendo para o pescoço. Itachi tremia e contorcia-se enquanto ele sugava um ponto sensível, logo acima de onde o sangue pulsava freneticamente, e gemeu alto quando a mão fria de Shisui adentrou sua camisa e acariciou um mamilo, que ficou imediatamente duro sob a ponta do dedo.
- Para – disse ele. – Para, para. Ah, por favor...
E Shisui parou, afastando-se. Ofegava, os batimentos cardíacos rápidos no peito e entre os ouvidos, onde pareciam passos em disparada numa superfície de veludo. Itachi apoiava-se na parede, os olhos fechados e o rosto muito ruborizado, e ainda que vê-lo daquele jeito tivesse lhe proporcionado uma ereção bastante dolorosa, viu o amigo/namorado pelo o que realmente era: um menino de apenas treze anos.
Havia ainda outra coisa o incomodando, o pensamento de que, por mais cuidadosos que fossem, acabariam tropeçando, pois a cautela deles era a dos adolescentes apaixonados, uma que se equivalia à dos que estão sob o domínio de uma droga forte. Ambos os tipos de pessoas frequentemente se vêem tentando manter um precário equilíbrio entre discrição e êxtase, enquanto avançavam na corda bamba de suas vidas. Manter o equilíbrio numa corda bomba é difícil até mesmo no estado mais sóbrio; fazer isso num estado de delírio feito o deles é praticamente impossível. A logo prazo, é completamente impossível.
Mas Shisui tinha de beijá-lo, a despeito dos riscos. Tinha que sentir os lábios dele, o cheiro da pele dele, a sensação do corpo dele, mesmo sob as várias camadas de roupas. Se não o fizesse, achava que podia enlouquecer. E bastava olhar para Itachi para saber que ele sentia o mesmo.
De modo que nunca iam para o mesmo lugar duas vezes seguidas, nunca deixavam o orfanato na mesma hora duas vezes seguidas, nunca procuravam seguir por atalhos para seus encontros. Ainda que a cidade não fosse pequena, a vizinhança os conhecia e vê-los saindo juntos era coisa comum, mas quem seguia por atalhos era notado. Shisui nunca tentou ocultar um "lugar seguro" com a ajuda de um amigo (embora tivesse amigos que teriam lhe prestado tal serviço); pessoas que precisavam de álibis eram pessoas guardando segredos.
Além disso, tinha a impressão de que Nan Melda estava ficando cada vez mais inquieta acerca de seus passeios juntos — particularmente os que davam no final de certas tardes —, embora até aquele momento aceitasse a justificativa que Itachi repetia com tanta freqüência: queriam aproveitar as férias de inverno o tanto quanto podiam, pois assim que acabassem, os exames estariam batendo à porta, e não teriam tempo nem para se coçarem. Mesmo assim, ela os mantinha estreitamente sob sua vista.
Durante aquelas delirantes duas semanas só havia espaço dentro de Shisui para alegria e medo, e a alegria mandava na casa, pois seu grande temor – temor de que surgissem comentários sobre ele e Itachi saindo juntos todo santo dia – felizmente mostrou-se infundado, e ele sentiu-se um pouco estúpido por isso. Comentários? Não havia sobre o que comentar, e o medo passou a morar no puxadinho dos fundos.
Na véspera de Natal, o céu amanheceu frio e claro como leite, e os órfãos acordaram com o casarão enfeitado com figuras natalinas e o pequeno presépio de sempre montado em frente à lareira. Todos já conheciam seus integrantes: José era o único que se mantinha razoavelmente inteiro, descontando a pintura gasta, Maria tinha o nariz quebrado (chamavam-na carinhosamente de Maria Leprosa), o Bebê Jesus era quase metade da altura dos pais, e os animais pertenciam ao Forte Apache, pegos emprestados da caixa de brinquedos.
As meias pregadas na parede estavam recheadas de guloseimas, que foram todas devoradas antes da hora do almoço, apesar dos protestos de Bah. Shisui perguntou-se por um momento se encontraria sua meia vazia, obra de Nan Melda por simplesmente não gostar dele, porém ela estava abarrotada até em cima, como todas as outras. De fato, ele foi um dos poucos sortudos que ganhou aqueles pirulitos que você chupa e no final aparece uma mulher pelada dentro.
A programação daquele dia era uma ida ao centro da cidade para as compras de Natal e ansiavam fazê-las juntos – de certo modo, isso parecia incrivelmente adulto. Ao saírem do orfanato, deram de cara com Dennis, o namorado de Bah.
- Falem aí, pitocos – cumprimentou ele, sorrindo. Seu sorriso tinha uma semelhança quase sobrenatural com o de Bah, dentes incrivelmente brancos reluzindo atrás de grossos lábios escuros. Shisui pensou que talvez todos os negros sorrissem daquele jeito deslumbrante. – Feliz Natal!
- Feliz Natal – respondeu Shisui, devolvendo o sorriso. Gostava de Dennis. Volta e meia ele aparecia por lá para buscar Bah, e uma vez convidara Shisui para jogar boliche com a turma da faculdade. Nan Melda o proibira, mas ele não esquecera o convite. Naquele dia estava usando uma gravata borboleta e um terno azul-claro. – Está elegante.
- Vim que surpreender a patroa. Sabia que vocês vão ter mais uma boca para alimentar hoje à noite? Meus pais foram celebrar o nascimento do Menino Jesus com a minha irmã no Kansas, e eu não iria ficar sozinho com meu violão numa noite tão importante, hum? Parece até mesmo uma heresia.
- Vai ser legal ter você aqui – disse Itachi.
- E eu não sei? Ei, baby-love!
Bah caminhava apressada até eles, e atirou-se aos braços do namorado. Shisui achou que Dennis talvez ele não fosse conseguir aguentar seu peso, sendo ele tão magro e Bah tendo uma constituição de um pugilista, mas ela logo se desvencilhou dele e tascou-lhe um beijo estalado na bochecha, os dentes faiscando para ele – naquele momento, poderiam muito bem ser irmão e irmã ali, parados sobre a neve.
- Muito bem, todo arrumadinho. Gostei de ver.
- E apenas para você, baby-love – disse, pronunciando babe-luv. Virou-se para eles. – Acho que é isso, hum? O que vai dar para a sua namorada, Shisui?
Ele sentiu como se tivessem acendido uma lâmpada atrás de sua nuca. Subitamente, estava muito consciente da presença de Itachi ao seu lado.
- Não tenho uma namorada.
- Não? E aquela garota, filha do dono da academia a duas quadras daqui, ah...
- Anko e eu não namoramos. Estamos... saindo, só.
- E você vai deixar as coisas por aí mesmo? – Dennis ofereceu-lhe seu sorriso-comercial-de-enxaguante-bucal. – Não fique alugando-a muito, talvez ela esteja procurando algo sério, hum?
- Falarei com ela.
Arriscou uma olhada de canto para o amigo. Itachi sorria – um sorriso tão leve, branco e frio quanto um freezer Amana.
- Vemos vocês à noite. – E saíram, de braços dados.
Shisui e Itachi seguiram para a parada de ônibus. Shisui procurava algo para dizer quanto àquilo, mas nada lhe ocorreu. Itachi tão pouco tocou no assunto. Quando subiram no ônibus e sentaram-se, decidiu que omitir-se só tornaria as coisas mais difíceis.
- Olha – disse-lhe em voz baixa –, quanto ao que Dennis falou...
- Você vai falar com ela. – Itachi mantinha os olhos fixos à frente. – Com Anko.
- Vou. Só que, Itachi... as coisas não resolvem-se assim tão simplesmente.
- Certo. – Ainda nada de olhar para ele.
- Certo. – Suspirou, coçando a nuca. – Olha, esquece isso por enquanto. É Natal, época de alegria e confraternização e essa merda toda. Desencana e vamos aproveitar.
A rua de pedestres estava congestionada por uma confusão de compradores, todos mostrando uma péssima disposição; era a última, frenética e desagradável corrida de Natal, e eles deram-se as mãos para evitarem serem separados pelo inexorável empurra-empurra. Eles não planejam demorar muito, de qualquer jeito. Itachi havia arranjado uma razoável quantia de dinheiro datilografando para um professor, e pediu para Shisui esperar do lado de fora da loja enquanto ia comprar seu presente. Ele parecia ter realmente desencanado, porém Shisui não iria livrar-se do assunto tão cedo. Sim, já lhe ocorrera que teria de conversar com Anko. Mesmo que entre eles não houvesse nada sério, não conseguia deixar de pensar que o que estava fazendo com Itachi podia configurar-se como traição.
E pensamentos ruins atraem o que os causa – esse era um dos ditos de Bah. Mal havia completado trinta minutos que Itachi havia adentrado a loja quando Anko o avistou entre aquele mar de pessoas. Shisui, que estava apreciando os ouropéis em cordões estendidos através das amplas alamedas do lugar, sentiu uma farpa glacial enterrar-se no coração.
- Movimento pra caralho, não? – ela perguntou, eufórica. Tinha duas exuberantes manchas rosas no alto das faces. – Esquecemos de comprar o presente da vovó. Estamos presos aqui há quase duas horas e ainda não conseguimos comprar o maldito bule de chá. Está sozinho?
- Não, vim com Itachi. – Seu cérebro trabalhava a mil, tentando encontrar uma maneira de esquivar-se dela e evitar o que seria um encontro chato da porra com o amigo dentro da loja. – Escuta, Anko, que tal...
- Olha ele ali! – ela exclamou, acenando largamente. – Eeeei, Itachi!
Shisui congelou, preparando-se para enfrentar uma situação bastante cabulosa, mas para seu espanto (e descrença), Itachi veio na direção deles com uma sacola pendurada no braço e um sorriso de verdade no rosto, o total oposto do que dispensou a Dennis mais cedo.
- Olá, Anko. Estava pensando em você.
- É o que dá ser linda, os garotos não conseguem me tirar da cabeça. – Ela atirou os braços ao redor de seu pescoço e ele devolveu o abraço, envolvendo-lhe a cintura. Eles nunca se falaram muito, só tinham notícias um do outro por intermédio de Shisui, mas a pessoa tinha quer ser cega para não perceber a amizade em potencial entre eles. Sem saber por que, isso o encheu de uma tristeza profunda demais para falar.
Anko pegou uma mecha do cabelo dele que havia escapado do rabo-de-cavalo, medindo seu comprimento.
- Seu cabelo está mais comprido que o meu. Será que você não quer fazer uma troca com os vestidos que eu ganhei? Não vou usar mesmo, e ficariam ainda melhores em você.
Ele limitou-se a rolar os olhos e sacudir a cabeça. Ela riu.
- Olha, foi bom encontrar vocês, caras, mas agora preciso achar meu pai. Acho que ele está fugindo de mim de propósito, quer que eu me perca aqui para que possa acabar com a ceia sozinho, o danado.
- Beleza – falou Shisui, começando a relaxar. – Nos falamos depois.
- Ainda hoje? – ela perguntou, com um sorriso torto. – Papai vai sair com os amigos para um drinque depois de lavarmos os pratos. Eu estou livre depois disso.
Ele captou a segunda intenção do convite, certamente Itachi também.
- Vou pensar.
- Cruzes, que cu doce.
E antes que ele pudesse recuar, ela deu-lhe um beijo na boca, um selinho de lábios fechados. Despediu-se de Itachi e depois sumiu no meio da multidão.
Itachi o olhava, ele sabia disso, mas ele simplesmente não conseguia olhá-lo de volta.
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Depois que comprou seu presente para Itachi (demorando-se propositalmente dentro da loja, mesmo depois de tê-lo escolhido), apenas para prevenir qualquer silêncio desconfortável entre eles, ofereceu-se para carregar a sacola dele.
- Para você espiar dentro quando eu não estiver olhando? Nem pensar. – Sua voz não tinha nenhum traço de acusação, mas Shisui não sentiu que estava tudo completamente o.k.
Atravessaram o parque, com suas árvores cobertas de cintilante geada, suas folhas transformadas em lâminas de vidro, e Shisui adoraria achar um visgo em baixo do qual pudesse roubar um beijo de Itachi, mas é claro que havia pessoas transitando por ali. Não muitas, mas cautela nunca era demais.
Foram para um estacionamento ao ar livre, deserto salvo as fileiras de carros amortalhados de neve. Enfiaram-se entre um Camaro azul e um Chrysler Imperial 1966, e Shisui acuou Itachi contra o primeiro. Suas mãos trabalharam no cachecol que ele constantemente usava para esconder as marcas arroxeadas em seu pescoço, e ao terminar de desfazê-lo, notou o olhar de Itachi sobre si.
- Alguma objeção? – perguntou, arqueando uma sobrancelha.
Itachi desviou o olhar.
- Ela gosta de você. – Uma pausa. – Gosta mesmo.
Shisui apoiou a mão no carro e suspirou.
- Eu sei. E sendo bem honesto, gosto dela também. Até um tempo atrás, realmente considerei pedir ela em namoro. Não são muitas as garotas que são divertidas como ela, além de bonitas e espertas. – Seus lábios curvaram-se um pouco para cima. – Garotas bonitas não precisam ser espertas, só precisam sair da cama de manhã.
Itachi não compartilhou seu sorriso, e ele foi apagando-se do seu rosto.
- Itachi, mesmo que eu a namorasse, eu seria incapaz de fazê-la feliz após tudo o que aconteceu entre eu e você. Incapaz de fazer nós dois felizes. Anko vai ter que entender que simplesmente não vamos dar certo, e se ela não ficar muito puta comigo, vou tentar manter a amizade dela.
Vislumbrou um repentino lampejo nos olhos dele, e achava que sabia o que era. Ergueu o rosto dele, pressionando seu queixo com o polegar, fazendo o lábio inferior projetar-se para frente.
Ah, Deus, ele vai me matar por isso.
- E deixe-me ressaltar que você fica adorável quando está com ciúmes.
Seus olhos cinzentos estreitaram-se perigosamente. Shisui riu pelo nariz,
(estou morto)
unindo seus lábios mesmo assim. Itachi ficou tenso no início, mas então o queixo que Shisui ainda segurava se ergueu e ele devolveu o beijo, plena e firmemente.
O mundo era de uma brancura absoluta e silenciosa, e o único som audível por muito, muito tempo, era o suave e úmido de seus beijos.
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O orfanato não tinha dinheiro o suficiente para costear perus, de modo que dois gansos recheados foram postos em ambas as mesas. Como Bah era uma cozinheira de mão cheia, ninguém costumava ligar muito. Havia também uma enorme tigela de jambalaia, potes de guisados de carne com erva-doce, purê de batata, molho pardo cheio de legumes, folhas de espinafres (que permaneceram praticamente intocadas até o término da refeição) e biscoitos frescos para se comer com manteiga doce branca.
Itachi e Shisui sentaram lado a lado, como era esperado que fizessem, todavia tiveram o cuidado de não restringirem a conversa a somente eles, como se fossem as únicas duas pessoas pertencentes ao universo, um tedioso hábito dos que namoram. Shisui discutiu com Dennis as altas expectativas sobre o jogo dos Red Sox contra os chucrutes, que seria o grande nome daquele inverno, enquanto Itachi escutava atentamente uma menina tagarelar nervosamente sobre os exames que estavam por vir. De quando em vez, um pedia ao outro que passasse um pote de comida, ou comentavam qualquer coisa de trivial, e toda vez que esse tipo de contato ocorria entre eles, Shisui sentia o peso dos olhos de Nan Melda sobre seu rosto, como se fossem duas pedrinhas.
Bah foi para a cozinha e retornou com fatias de bolo empilhadas bem alto em duas travessas grossas brancas e uma tigela de creme chantilly. Dennis também havia trazido sua contribuição de meio litro de sorvete de cereja e baunilha.
- Não, cara, não posso – disse Shisui, quando ele lhe ofereceu uma xícara. – Vou explodir.
- Coma! – ordenou Dennis.
- É verdade, não posso – repetiu, pegando o recipiente e uma colher de plástico. O sorvete acabou se mostrando uma bela porcaria, e ele terminou em quatro grandes bocados. Se fosse morrer, morreria comendo.
Guloseimas pela manhã e uma lauta ceia à noite – no dia seguinte, metade do orfanato não conseguiria deixar suas camas.
- Vou subir – Itachi disse-lhe. Tinha os olhos a meio-pau, as pálpebras tão pesadas que estavam quase fechados.
- Boa noite – desejou-lhe Shisui. Ouviu-o bocejar enquanto subia a escada, e obrigou-se a esperar pelo menos uma hora antes segui-lo. Dennis havia desencapado seu violão e cantava "I Wonder As I Wander" com sua voz aguda e doce de tenor. Sem os óculos e o casaco do terno cor azul-nuvem, parecia um seresteiro de algum musical da Broadway.
Aproveitou que Nan Melda estava arrebanhando os órfãos para seus quartos e escapuliu para a cozinha. Abriu o freezer, encontrou lá o que queria, e subiu as escadas, silencioso como um camundongo. Itachi penteava os cabelos com os dedos, um moletom com o colarinho esfarrapado (mais uma vítima de seus dedos ansiosos) por cima do pijama.
Virou a cabeça ao som da porta abrindo, e um sorriso incrédulo apareceu em seus lábios ao ver o que trazia nas mãos.
- Sério, Shisui?
- Sério – disse, fechando a porta e depositando na cama uma garrafa aberta de Taittinger e duas taças lavadas. – Desculpe, são de vinho. Acho que as de champanhe quebraram há muitos anos.
Itachi balançou a cabeça, ainda sem acreditar, mas não tirando os olhos da garrafa.
- Eu não deveria beber com 13 anos.
- Dever,você realmente não deve – concordou Shisui, enchendo uma taça pela metade e estendendo-a a ele –, mas não quer dizer que você não possa.
Itachi pegou e rodou-a em sua mão, observando o líquido dourado girar lentamente dentro do vidro.
- Só prove. Não precisa beber tudo se não gostar.
Ele bebericou, um pouco em dúvida, e fez uma careta.
- Forte.
A cara dele fez Shisui rir pelo nariz.
- Só no começo – disse, enchendo sua própria taça. – Depois você se acostuma e começa a se sentir mais leve.
Itachi voltou a beber, seu cenho ainda franzido, e Shisui sorriu para ele. Beberam e conversaram – o champanhe foi soltando suas línguas e eles jogaram conversa fora pelo o que pareceu um bom tempo, falando sobre assuntos sem importância alguma, satisfeitos apenas com o ato de falar. Eventualmente as caretas cessaram e Itachi bebia em goles maiores. Shisui fez um comentário a respeito dizendo que, se tivesse sabido que ele ia gostar tanto assim, teria passado na farmácia para comprar um equipamento de intravenosa.
A garrafa estava praticamente vazia quando disse:
- Melhor trocarmos nossos presentes agora, antes que fiquemos tão bêbados a ponto de não reconhecermos um ao outro.
O presente de Itachi havia sido embalado num bonito papel de presente verde que Shisui prontamente começou a rasgar (ele não planejava guarda-lo de qualquer maneira), descobrindo o suéter azul-pólvora com desenhos em amarelo-claro.
- Não pude deixar de notar como você vem reclamando que suas roupas estão pequenas – Itachi disse. – Espero ter acertado na cor.
- Cacete, Itachi, valeu – Shisui disse com sinceridade.
Tirou o moletom que parecia ter saído de algum bazar do Exército da Salvação – e que começava a levantar nas costas –, jogando-o num canto. O suéter era macio, e a gola alta dispensaria um cachecol, porém o comprimento chegava-lhe no meio das coxas.
- Tá meio grande – disse, puxando as mangas para trás para poder libertar as mãos.
- Você ainda não parou de crescer. Achei melhor gastar meu dinheiro em algo que não irá ficar pequeno em cinco meses.
- Seu sovina – Shisui disse, atirando um pacotinho para ele. – Tome o seu.
Ele pegou-o no ar, abrindo-o com movimentos rápidos, ágeis dos dedos. O papel pardo foi feito em pedaços caídos em seu colo, e Itachi ergueu a corrente que segurava um medalhão de latão.
- Oh – disse baixinho.
Passou o dedão por sobre o desenho gravado no metal.
- É o símbolo de Gêmeos.
- Você chegou aqui sem saber nem mesmo seu sobrenome – Shisui disse, sentando-se ao seu lado. – A única coisa que sabia era o próprio nome e o aniversário. E isso é, não sei, informações da sua outra vida. Antes de vir para cá. E eu acho que isso tem alguma importância. Digo, eu cheguei aqui sem merda alguma.
Nenhum sinal de que Itachi tivesse lhe ouvido. Continuava a revirar o medalhão com as pontas dos dedos, examinando-o atentamente. Não era muito maior que uma moeda de 25 centavos.
- Tá vendo essas pedrinhas azuis encravadas? – perguntou, começando a sentir-se desconfortável com aquele silêncio todo, que ele não sabia o que significava, se maravilha ou desapontamento. Shisui não tinha nenhuma dificuldade em aceitar a ideia de que algumas pessoas – Itachi sendo um brilhante exemplo – pudessem ficar longos períodos de tempo sem falar uma com a outra, mas achava que jamais seria capaz de compreendê-la. – Elas representam a constelação do zodíaco. A vendedora disse que são as pedras do signo, ágatas, eu acho, mas pelo preço que paguei é mais provável que seja vidro pintado.
O medalhão parou de girar e Itachi encarou a sequência das pedrinhas, ainda sem dizer uma palavra, embora Shisui tivesse lhe dado um minuto inteiro para se manifestar. A verdade era que ele era uma pessoa difícil de agradar (ainda que Shisui viesse acertando nos presentes todos aqueles anos), não porque fosse enjoado, mas sim porque raramente expressava seus gostos, e os que Shisui conhecia eram uma pequena coleção de preciosidades – por exemplo, o apetite por bolinho de arroz e a aversão por bife de carne; as frequentes visitas às lojas de doces de onde sempre saía com uma torta de limão, ou um parfait de frutas e iogurte, ou fatias de rabanada, que ele levava séculos para terminar porque saboreava lentamente, deixando o doce dissolver-se na boca aos poucos para que durasse mais; o hábito de estudar pelo menos duas horas por dia, não por causa das notas da escola, mas porque ele gostava, Deus sabia como era possível tal absurdo.
- Barato como foi, a tintura também deve ser uma bosta. Talvez ela comece a desaparecer daqui a algum tempo.
Foram dois minutos inteiros desta vez e ele concluiu, afinal, que não iria obter resposta. Recostou-se na cabeceira da cama e tomou um gole do champanhe, desgostoso com o quão desconsolado aquilo o fazia ficar.
- Você ao menos gostou? – murmurou.
Não esperava que Itachi reagisse àquilo, porém a cabeça dele ergueu-se e Shisui fitou seus olhos cinzentos.
- Sim – disse ele, o olhar um pouco enevoado pelo champanhe. – É importante.
Ele estava triste, Shisui percebeu. Ergueu a mão e tocou sua orelha.
- Itachi – disse, num tom de voz baixo –, não fique assim.
Ele virou bruscamente o rosto.
- Não sei do que está falando.
É claro que ele iria bancar o difícil, Shisui pensou, revirando os olhos e o abraçando de qualquer jeito. Itachi resistiu, mas os braços de Shisui eram musculosos (não tanto quanto seriam mais tarde, mas fortes mesmo assim) e ele o prendeu neles, sentindo-o lutar para se libertar.
- Me solta.
- Por quê? – Shisui perguntou. – Se nem você quer ser solto.
Os debates cessaram e Itachi ficou recostado contra ele, as mãos em seu peito.
- Não lido bem com o álcool – murmurou no seu ombro.
- Fácil de notar isso – Shisui comentou, afrouxando o abraço e esfregando suas costas com as duas mãos. – Isso vai passar depois que você dormir. Beber faz você apagar, você vai...
- Lembrei de minha mãe.
Shisui interrompeu-se. A vida de Itachi antes do orfanato não era um assunto discutido entre eles – e se ele não falava de algo para Shisui, significava que não falava para ninguém –, e ele ficou intrigado e cauteloso.
- Não tenho muitas memórias dela – ele continuou em voz baixa – e elas parecem ir diminuindo à medida que o tempo passa. Há vezes em que me perguntou se a maioria não é apenas minha imaginação brincando comigo. Tenho quase certeza de que ela tinha o cabelo comprido, mas duvido que eu seja capaz de reconhecê-la se algum dia encontrar-nos de novo.
A sensação que Shisui tinha era a de estar andando sobre gelo fino.
- Itachi, você não precisa falar disso, se não quiser – disse-lhe, tenso.
- Mas há certas memórias que estou certo de que são reais – ele continuou, como Shisui não tivesse dito nada. – Aquelas que parecem que foram impressas a fogo no cérebro. Memórias que não vou esquecer mesmo que eu queira. Uma delas foi na cozinha da minha antiga casa, eu observava minha mãe por algum estúpido motivo qualquer, e quando ela nota, vira-se para mim e pergunta: "Por que você está me olhando assim?". Eu não entendi o que ela quisera dizer com isso, e antes que eu pudesse perguntar, ela bate um copo na beirada da pia e começa a gritar para eu parasse de olhar para ela daquele jeito, para que eu parasse olhar, apenas parasse. Você pode imaginar como foi abalado, principalmente depois que ela caiu de joelhos. "Você pode ser uma criança cruel, Itachi", foi o que ela falou, depois de ficar em silêncio por uns segundos. "Queria ter abortado você e ter seu irmão aqui".
Shisui continuava esfregando suas costas com movimentos contínuos, enquanto um calafrio lhe percorria a espinha e depois rondava seu coração.
- "Sabia disso?" perguntou, olhando para o chão. E me contou que três semanas depois de descobrir que estava grávida, ela e meu pai discutiram e ele deu-lhe uma pancada na barriga com o cabo da vassoura. Teve que ser levada às pressas para o hospital por causa do sangramento. Perdeu o bebê e quase perdeu a vida, mas se recuperou. Saiu de lá ainda com dores, mas fora isso, perfeitamente normal. Não sentia enjoos ou desejos estranhos por comida. Quatro meses depois, nasci na cama de meus pais, quase matando os dois de susto. Quem, no mundo inteiro, poderia adivinhar que estivera grávida de gêmeos?
Shisui olhou para o medalhão, caído no colchão durante o pequeno embate entre eles. Merda, pensou. Que Deus me amaldiçoe por ser tão imbecil.
- Difícil de acreditar que uma mulher possa ficar quatro meses ignorante de uma gravidez, e isso novamente me faz questionar a veracidade dessa lembrança, contudo no fundo sei que foi isso o que ela havia dito. Àquela altura, eu estava tremendo para não chorar, ela não gostava quando eu chorava e papai menos ainda. Mas ela sorria, encarando o chão. Lembro-me de ter pensado como ela parecia estar cansada, e também meio maluca. "Será que seu irmão teria sido uma criança boazinha?" perguntou. E quando ergueu o rosto para mim, de repente começou a gritar novamente. "Já disse para parar de me olhar assim! Para com isso, para! PARA!"
Incapaz de ouvir mais uma palavra daquilo, Shisui afastou Itachi pelos ombros, olhando-o severamente nos olhos.
- É o suficiente, Itachi – disse, sério. – Você bebeu demais.
E era verdade, o rosto dele estava corado e o olhar fora de foco.
- Eu não quero ser adotado – ele disse, olhando para baixo. – Não quando há mães que digam isso para os...
Filhos, ele teria dito, porém calou-se com os beijos de Shisui, que sentiu-o amolecer sob suas mãos. Deitou-o na cama, desejando ter comprado qualquer outra coisa para ele, até mesmo um daqueles macaquinhos em que se dá corda para que batam os pratos repetidamente um contra o outro, qualquer outra coisa que não ressuscitasse lembranças tão medonhas, tão surreais.
Seus lábios já haviam se encontrado muitas vezes desde que começaram seu
(caso)
namoro, e a pouca prática de Itachi o tornava demasiado inexperiente para proporcionar uma experiência verdadeiramente erótica (na grande maioria das vezes, ele apenas imitava seus movimentos), contudo, estava proporcionando agora. Talvez porque, estando abaixo de Shisui, parecesse estar totalmente à sua mercê; ou talvez porque o champanhe o tivesse deixado lânguido, entregue, quente e frágil como um gatinho.
O mais provável, porém, fosse porque estivessem fazendo aquilo dentro do orfanato, à sombra de Nan Melda, e cada toque era acompanhado de uma vergonhosa sensação de culpa, rastejante, que também era um incentivo da porra. A porta não estava trancada e a governanta poderia irromper dali a qualquer instante – Deus sabia o quanto andava de olho neles dois. O sabor do perigo acrescentava algo a mais ao que ao seu sentimento por Itachi – e, acreditava, ao que ele sentia por Shisui. Havia uma sórdida e insensata atração na ideia de que os dois tomavam-se nos braços um do outro sem que ninguém soubesse. Percebia isso mais forte ali dentro, separados de todo mundo apenas por aquelas paredes desgastadas, e como aquilo o excitava.
Tirou o moletom de dormir de Itachi e o fez encontrar o seu velho no chão. O tecido do pijama era fino e um calafrio perpassou o corpo sob o dele. Shisui esfregou o pano entre os dedos distraidamente, subindo-os para acariciar a bochecha, têmpora, antes de chegar aos cabelos, livres do elástico com que eram presos para trás todos os dias, afagando-os de modo reconfortante enquanto Itachi inclinava seu rosto contra aquela delicada massagem em sua cabeça.
Devagar, a língua de Shisui pressionou (só pressionou) seu lábio superior, numa tentativa dissimulada de partir seus lábios, à qual Itachi cedeu prontamente. Seu hálito era quente e tinha gosto de champanhe. Por um tempo, Shisui esqueceu as malignas memórias dele, esqueceu de que estavam no orfanato; por um tempo, não havia nada além deles dois.
Não obstante, foi um momento que durou pouco – quando sua língua deslizou com um único e fluído movimento pela fenda entre os dentes de Itachi, ele remexeu-se embaixo de si e, tentando encontrar uma posição melhor, Shisui acidentalmente esfregou a perna em sua virilha.
Itachi arqueou-se para cima, seu torso correspondendo à curva do peito de Shisui como se fossem duas peças de um quebra-cabeça, gemendo profundamente em sua boca. O calor entre as pernas de Shisui disparou com a súbita necessidade de bombear seus quadris para frente, e ele quebrou o beijo, assustado.
Com os corpos unidos e mão de Shisui ainda nos cabelos de Itachi, ambos ficaram imobilizados num petrificado paroxismo de desejo. Uma corrente como nada que Shisui sentira até então passava entre eles – corria como um rio e fazia tremer como febre. Tinha plena consciência do nível de excitação de Itachi, pois sentia o volume contra sua coxa, bem como o seu próprio entre as pernas. A nítida sensação da nudez dele sob aquele pijama leve também não melhorava em nada a situação, apenas o fazia respirar mais fortemente pela boca. Estava perdido, seu cérebro estava mais concentrado em sua ereção do que em procurar uma solução que não fosse seguir o instinto de entregar-se àquele furor, que seria saciado apenas se ele assimilasse cada partícula da alma e do corpo abaixo de si.
Afastou aqueles confusos (mas não inteiramente desagradáveis) pensamentos, tentando clarear a mente, sendo, contudo, frustrado quando a mão de Itachi tocou sua cintura, num misto de ânsia e timidez própria daqueles que são virgens, então seu ventre – e deslizando para baixo.
Shisui agarrou seu pulso, o pânico tornando a delicadeza impossível.
Itachi gemeu, o desejo substituído pela dor.
- Não – Shisui disse a ele, e sua voz saiu surpreendentemente gélida. – Não, Itachi.
- Ah, ah – Shisui, meu pulso...
Shisui o soltou e Itachi empurrou-o rudemente para o lado, afastando-se para longe. Segurava a mão contra o peito, os olhos muito abertos, mostrando boa parte do branco. Não se lembrava do amigo alguma vez ter olhado-o daquele jeito, como um animal preparando-se para lutar.
Que confusão, pensou, desanimado. Que diabos de confusão.
- Itachi, eu... nós... não. Não podemos.
- Por que não? – ele perguntou, áspero. Ah, ele estava puto da vida, e com razão; Shisui quase quebrara-lhe o pulso, isso se não estivesse quebrado. – Se me disser que é porque somos garotos, digo-lhe que essa desculpa já não vale mais, Shisui.
- Não é por isso – mentiu, mas em parte. Não era só aquilo: - Você tem treze anos.
Itachi olhou para o lado, apertando os lábios.
- Novo demais para você?
- Novo demais para qualquer um – Shisui respondeu. – Minha primeira vez foi há pouco tempo e nem tenho idade para comprar pornô.
Itachi não respondeu, apenas apalpou o pulso, procurando por algum sinal de fratura, e Shisui sentiu-se mal, principalmente porque uma certa parte de seu corpo ainda estava bem viva e demandando atenção. Apostava dois dedos que a situação de Itachi era a mesma, só que quando tentou aproximar-se, ele recuou, sem dizer uma palavra.
Quando foi a última vez em que brigamos?, perguntou-se. Será que alguma vez houve alguma briga entre nós? Discussões, sim, mas nunca algo que chegasse a este ponto. E eu nunca o havia machucado. Até agora.
Aquilo o fez sentir o gosto de bile na garganta. Queria dizer alguma coisa, mas talvez não fosse sensato fazê-lo.
- Vou dar uma volta – resmungou, e quando se levantou da cama, percebeu que bebera demais.
Ao passar pela porta, as palavras de Itachi foram claras, derrisórias:
- Que você pense em mim enquanto transa com ela.
Desceu correndo as escadas, fazendo um barulho dos infernos e pouco se lixando se alguém acordasse. A sala estava vazia e a louça suja havia sido retirada, embora a toalha da mesa tivesse manchas de molho aqui e respingos de purê ali. Não prestou atenção em nada daquilo, desembestando porta afora para o ar gelado da noite.
Anko abriu a porta de sua casa e o encontrou respirando pesadamente na entrada, seu cabelo revolto pelo vento e branco de neve.
- Veio correndo? – perguntou, erguendo uma sobrancelha, divertida. – Tinha tanta vontade assim de me ver?
Shisui não estava com saco para as tiradas zombeteiras dela. Pegou seu rosto e beijou-a com força. Ela não pareceu se importar com a brutalidade, passando os braços por seu pescoço e agarrando seu cabelo. Ele a ergueu pelos quadris e carregou-a para o quarto.
- Estamos com pressa, não? – ela murmurou em seu ouvido.
- Anko, se você não calar a boca, eu faço isso.
- Ah, é? Com o quê, senhor?
Ele nem se dignou a responder, apenas levantou a camisola florida e procurou sua entrada.
- Ah, Shisui, espera – ela pediu, percebendo o que ele estava fazendo. – Vamos ao menos para a cama–-
Mas ele já a estava penetrando, e o que estava dizendo tornou-se um longo e rouco lamento. Ele não podia esperar, não conseguiria esperar, não quando sua muito fértil imaginação dizia-lhe que Itachi muito provavelmente estava tocando-se em sua cama naquele exato instante. Foram ao chão, as estocadas de Shisui retumbando no quarto – tum-tum-tum – com força o suficiente para fazer cair da prateleira um urso de pelúcia com um rádio na barriga. Fez um estrondo, mas nenhum dos dois prestou-se a avaliar o estrago.
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Depois de acabado, ficaram sentados lado a lado na cama. Shisui colocara de volta as roupas, mas Anko apenas enrolou algumas cobertas em volta de seu corpo nu e virou o rosto para ele.
- Tem alguma coisa incomodando você, não me venha dizer que não.
Ele olhou em volta. Já estivera ali antes, quando ela o convidara para ler uma coleção rara de gibis da Marvel que havia ganhado de aniversário do tio. Não se conheciam há muito tempo e a fagulha dos hormônios adolescentes ainda não saltara entre eles. Isso fora vários meses atrás, mas na penumbra ele reconheceu as formas retangulares nas paredes dos pôsteres que ela tirava das revistas Rolling Stones, Cream e Crawdaddy, de ídolos como Jim Morrison, John Lennon, Dave van Ronk e Chuck Berry. Lembrava-se de ter elogiado seu gosto musical, ao que ela respondeu com um dar de ombros, dizendo que esperava há eras que publicassem alguma coisa de Bob Rydell. Shisui começara a cantarolar "Oh, Bobby, oh... everything's cool... we're glad you go to a swinging' school...", e Anko juntara sua voz a dele, recitando toda a letra a canção até o final sem errar um trecho, e eles bateram um high-five quando terminaram. Desejou que as coisas tivessem ficado por ali.
- É, tem sim – disse.
- Algo que queira me contar?
- Não.
- Tudo bem – ela disse, sem se incomodar. – Acho que você tem de ir.
- É, você está certa. – Ele levantou-se, foi até a porta e virou-se. – Anko...
- O quê?
- Talvez eu vá ficar sumido a partir de agora. Os exames estão chegando e, sinceramente, não posso me dar ao luxo de ter mais nenhuma nota abaixo de C. Não vamos poder nos ver por algum tempo.
Ele estava muito agradecido pela escuridão do quarto, pois ocultava o rubor em suas orelhas.
- E você acha que eu sou alguma moça puritana que irá sofrer em silêncio toda vez que você pica a mula? Poupe-me. – Deitou-se na cama. – Vá lá cuidar de seu brilhante futuro escolar, tigrão.
Ele fechou a porta com cuidado e desceu as escadas silenciosamente, pensando no que diria se o pai dela entrasse pela porta naquele momento. Boa noite senhor Mitarashi, já estou de saída, diria que para nuca mais voltar. Falei à sua filha que não vou poder encontrá-la por um tempo, e é verdade, mas vou passar a falar com ela cada vez menos, devagar e gradualmente, até ela perceber que não está mais tanto a fim de mim, porque o sentimento haverá de ser escoado em silêncio e sem dor. Como o sangue saindo de uma veia numa banheira cheia de água quente. Ninguém apareceu, como era de se esperar, ele deveria estar há léguas de distância, cantando Noite Feliz com os amigos em algum bar por aí, mas ainda assim Shisui olhou para ambos os lados quando saiu da casa.
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Nan Melda estava parada na entrada do orfanato.
- Ondi qui tu tava?
- Fui ver minha garota – ele respondeu, secamente. – Não posso?
Ela o esbofeteou em cheio no rosto. Sua mão era grande, nodosa, cheio de calos por todos os anos lavando louça, roupa, batendo nas crianças malcriadas – pondo ordem ali dentro.
- Queim que ti mandô falá assim com eu? – reagiu num tom frio.– Queim que ti mandô falá assim com a muié que te criô? Que ti levô pra dentru desta casa ainda balindu comu um bezerro desmamado?
Fitou-o duramente, tentando fazê-lo baixar os olhos, e quase conseguindo. Nenhum problema em sentir vergonha, mas podia ser uma péssima ideia deixar transparecer, e isso era algo que ele não faria. Não para aquela velha puta sem coração, não.
- Suba – disse ela. – E ao se lavá, lave a boca com especiar cuidado. Livra ela do descaramentu e do desrespeitu pra com queim deu muito de si por ti.
Shisui saiu em silêncio, sufocando mil e uma respostas, subindo a escada como fazia todo dia, vibrando com um misto de raiva e ressentimento, a bochecha latejando.
E agora lá estava, sentado na cama e ainda acordado. Itachi tinha o cabelo jogado ao lado do rosto, salpicando o travesseiro com um certo tom negro, o rosto corado e os lábios vermelhos por causa do champanhe. Shisui pousou a mão em sua cabeça, lembrando-se da vulnerabilidade de seu pescoço e da sensação dos seus lábios, logo acima do seu queixo.
Queria ele. Queria-o de um jeito louco, desajeitado, impudico e agoniante. Soubera desde o início que alguns beijinhos e amassinhos não seriam o suficiente, pelo menos não por muito tempo. Tinha certeza que Itachi também sabia pelo que fizera mais cedo, aquilo de deslizar os dedos longos pelo seu ventre – contudo, ali estavam eles, incapazes até mesmo de manter uma relação carnal, e, por Deus, Shisui não sabia se seria capaz de possuí-lo quando estivessem prontos (embora tivesse uma vaga ideia como).
Procurou não pensar em coisas tão perturbadoras, elas só lhe renderiam uma desconfortável e totalmente inútil ereção. Estava casando e queria dormir. Só quando estava prestes a cair no sono, notou o brilho prateado do medalhão em torno do pescoço de Itachi.
